Ouro derretido à deriva

Ella Dominici transforma ouro, fogo e água em metáforas do desejo, conduzindo o leitor por uma experiência poética de entrega, paixão e dissolução

Ella Dominici
Ella Dominici
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Pergunta-me onde me achava morrendo,
como um navio incendiado em alto-mar,
deixando tombar o ouro que se fundia
em plena lava,
incandescente, derretendo aos poucos,
a formar arte deslumbrante.

Sem ar nos pulmões das águas frias,
pergunta-me as palavras que te dissera.
Foram de audácia as correntes que te prenderam,
algema líquida que te segurou bem firme.
Deixara-te deslizar
como peixe que escorrega das mãos.

Redime-te.
Lembra-te e salta em águas conhecidas.
Reconhece teu habitat,
peixe que passa por minhas pedras limosas,
de cheiro do mar.

Marulho te canta aos ouvidos,
salgado, salino ao teu paladar.
Brinda — e não esqueças
do açúcar molhado na borda da taça.

Folga-te das bolhas que se formam
na boca que beijas.
Palavras poéticas feitas de um nada
se agitam e dizem o tudo de uma só vez.

Brigas comigo
que o tudo é teu, é meu,
é demais e de mais ninguém.

Nademos sem rumo,
de mãos enamoradas.
Se me afundas, te sossego;
se te afundo, nadas de braçadas
e boias de prazer comigo.

Olha-me, molha-me debaixo d’água.
Meu corpo se dilui
e a visão é ilusão.
O movimento é nosso,
no insustentável,
até que morras,
até que acordes
de tuas águas que me quiseram
e me amaram.

Pergunta-me onde me achava,
morrendo como um navio incendiado em alto-mar.

Olha melhor
e sente se é comigo:

meu ouro derretido à deriva.

Ella Dominici




Entre o céu e o interior

Clayton Alexandre Zocarato: um retorno às raízes entre memória, saudade e reencontro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Homem retorna ao interior e contempla o céu ao reencontrar memórias, afetos e suas raízes.
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Quando o ônibus começou a descer a estrada de terra, Joaquim abriu a janela, apesar da poeira que entrava feita farinha de mandioca. Gostava daquele cheiro. Cheiro de terra quente, de capim amassado, de café passado na hora, de curral e de lenha queimando no fogão.

            Era um cheiro que não se explicava. Ou talvez se explicasse justamente porque não precisava de explicação.

            Fazia trinta e tantos anos que Joaquim tinha ido embora.

            Na cidade grande, aprendera a andar depressa, a falar olhando o relógio, a tomar café em copo de papel e a responder “tudo bem” mesmo quando nada estava bem.          Aprendera também que as pessoas podiam morar no mesmo prédio durante vinte anos sem saber o nome umas das outras. No interior era diferente. Lá todo mundo sabia de todo mundo.

            Sabia quem tinha casado, quem tinha separado, quem estava devendo na venda, quem tinha dado cria na vaca, quem estava doente e até quem tinha chorado escondido depois da missa.

            — Ô motorista, falta muito?

            — Uai, homem, cê já perguntou isso umas três vezes.

            Joaquim sorriu.

            — É que a gente fica meio ansioso.

            — Ansioso nada. Cê tá é com saudade.

            O motorista falou aquilo sem olhar para trás. Joaquim ficou quieto.

            Saudade…

            A palavra ficou dentro dele como um passarinho preso.

            Pela janela, reconheceu o velho morro. Já não havia tantas árvores como antigamente. Algumas cercas tinham sido trocadas por arame novo. Um sítio que antes pertencia aos Alves agora tinha uma placa de “vende-se”.

            A estrada continuava quase a mesma, mas ele sabia que não era.

            A gente volta para um lugar esperando encontrar o passado, pensou. E o passado nunca está lá. Quem está lá é a nossa lembrança dele.

            O ônibus parou perto da venda do Zé Bento.

            Joaquim desceu devagar, carregando uma mala pequena.

            — Ô, Joca!

            Ele virou.

            Era Dito.

            Ou o que restava de Dito.

            Os cabelos estavam completamente brancos, o corpo mais curvado, mas o sorriso continuava o mesmo.

            — Rapaz… ocê?

            — Eu mesmo, sô. Quem mais ia ser?

            Os dois se abraçaram.

            — Tá véio, hein?

            — Nós dois.

            — Eu tô nada.

            — Tá sim.

            — Então deixa eu fingir que não.

            Riram.

            Era assim no interior. A amizade também tinha sua maneira de envelhecer.

            Naquela tarde, Joaquim caminhou pela rua principal. A igreja continuava no mesmo lugar, embora a pintura estivesse mais clara.

            A praça tinha bancos novos. A antiga fonte havia desaparecido. A árvore onde ele e Dito costumavam sentar ainda existia, mas agora cercada por um pequeno canteiro.

            Passou diante da casa de Dona Alzira.

            A janela estava fechada.

            Joaquim parou.

            Ali morara Mariana.

            A menina que tinha cabelos compridos e uma risada que fazia a gente esquecer o mundo.

            Mariana…

            Ele não sabia se ela ainda vivia.

            Não perguntou.

            Algumas perguntas envelhecem mais depressa quando encontram resposta.

            Naquele tempo, Joaquim tinha dezoito anos e acreditava que o mundo começava e terminava naquela pequena cidade. De manhã ajudava o pai na roça. Depois do almoço, ia para a venda. À tarde, encontrava os amigos perto do campo de futebol. À noite, havia sempre alguém tocando viola em alguma varanda.

            A vida era pobre, mas tinha tempo.

            Talvez fosse isso que mais lhe fizesse falta.

            O tempo.

            Na cidade grande, tinha dinheiro suficiente para comprar quase tudo, menos uma tarde sem compromisso.

            No interior, uma tarde podia durar uma eternidade.

            Na sexta-feira, o povo se juntava na praça. As mulheres levavam crianças, os homens ficavam encostados nos carros ou sentados nos bancos.

            Tinha milho cozido, pamonha, bolo de fubá, café preto e aquele queijo curado que fazia a pessoa beber água depois.

            Quando chegava junho, era festa.

            Bandeirinha colorida atravessando a rua. Fogueira. Sanfona. Viola. Criança correndo. Moça escondendo o sorriso. Rapaz tentando parecer valente diante da moça que gostava.

            E tinha quadrilha.

            — Anarriê!

            — Alavantú!

            — Olha a chuva!

            Todo mundo fingia que acreditava.

            Depois vinha a fogueira.

            Os mais velhos contavam histórias.

            Falavam de assombração.

            Falavam de alma penada.

            Falavam de homem que tinha visto uma luz andando sozinha pelo pasto.

            Dito jurava ter visto uma vez.

            — Vi mesmo, Joca.

            — Cê tava bêbado.

            — Eu tava meio alegrinho.

            — Então.

            — Mas vi.

            — E o que era?

            — Não sei.

            — Então podia ser qualquer coisa.

            — Podia. Mas era uma coisa que não devia tá ali.

            Joaquim gostava dessas conversas. Talvez porque o interior tivesse o dom de deixar uma porta aberta entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

            Naquela noite, ele dormiu na casa antiga do pai.

            O quarto era pequeno.

            A cama ainda tinha o mesmo rangido.

            Na parede havia uma fotografia antiga, já amarelada.

            Seu pai estava de chapéu.

            Sua mãe estava ao lado.

            Ele, menino, aparecia na frente, com os cabelos penteados para trás.

            Joaquim aproximou-se.

            Passou o dedo pela fotografia.

            Foi então que percebeu que sentia falta até daquilo que, quando vivo, ele não tinha coragem de dizer que amava.

            A mãe morreu cedo.

            O pai depois.

            A casa ficou vazia.

            Mas as coisas continuaram esperando.

            Uma cadeira.

            Um rádio.

            Uma panela.

            Um terço.

            Uma fotografia.

            Talvez uma casa nunca fique completamente vazia. As pessoas continuam morando nela depois que partem.

            No domingo, Joaquim foi à missa.

            O sino tocava como antigamente.

            As pessoas chegavam aos poucos.

            Algumas de carro, outras a pé.

            Dona Nair vinha com o mesmo vestido escuro de sempre.

            Seu Agenor ainda carregava o chapéu debaixo do braço.

            As crianças continuavam inquietas.

            Um menino chorou no meio da missa.

            Uma senhora virou para trás e fez aquele olhar de quem queria que a criança ficasse quieta.

            Joaquim sorriu.

            Nada mudara completamente.

            O padre falou sobre esperança.

            Joaquim olhou para o teto da igreja.

            Pensou no céu.

            Desde menino imaginava o céu como uma espécie de continuação do interior.

            Um lugar de árvores grandes, sombra fresca, água limpa e gente conhecida.

            Achava que seu pai estaria lá.

            Sua mãe também.

            Talvez Mariana.

            Talvez todos os que tinham partido.

            Talvez o céu fosse simplesmente isso: um lugar onde ninguém mais precisava dizer adeus.

            Depois da missa, o povo ficou na calçada.

            Era costume.

            A missa acabava, mas ninguém tinha pressa de ir embora.

            Falavam da chuva.

            Da safra.

            Do preço da carne.

            Da política.

            Do casamento de alguém.

            Da saúde de alguém.

            Da vida dos outros.

            Mas, no fundo, falavam da própria vida.

            — Ocê ficou muito tempo fora — disse Dona Nair.

            — Fiquei.

            — Gostou de lá?

            Joaquim demorou para responder.

            — Gostei.

            — E foi feliz?

            Ele olhou para ela.

            Dona Nair não parecia estar perguntando por curiosidade.

            Esperava uma resposta.

            — Fui algumas vezes.

            Ela sorriu.

            — É. Felicidade também não mora num lugar só.

            Joaquim guardou aquilo.

            Mais tarde, encontrou Mariana.

            Foi na saída da farmácia.

            Ele a reconheceu antes.

            Ela também.

            Ficaram alguns segundos sem falar.

            — Joaquim?

            — Mariana.

            Ela estava mais velha.

            Naturalmente.

            Os cabelos já tinham alguns fios brancos.

            O rosto trazia marcas que não estavam ali trinta anos antes.

            Mas os olhos continuavam iguais.

            — Cê voltou?

            — Voltei.

            — Pra ficar?

            Joaquim respirou fundo.

            — Não sei.

            Mariana sorriu.

            — Ocê nunca soube.

            Ele riu.

            — É verdade.

            Caminharam juntos pela praça.

            Nenhum dos dois perguntou sobre os amores que vieram depois.

            Nenhum dos dois contou os fracassos.

            Há coisas que o tempo ensina a não perguntar.

            Sentaram-se no banco perto da igreja.

            — Lembra das festas?

            — Lembro.

            — Daquela quermesse em que você caiu dentro do barril?

            Joaquim começou a rir.

            — Não precisa lembrar disso.

            — Eu lembro.

            — Todo mundo lembra.

            — Você ficou três dias sem olhar na minha cara.

            — Eu tinha vergonha.

            — Eu achei bonito.

            Ele olhou para ela.

            — Bonito?

            — Você com vergonha.

            Ficaram em silêncio.

            O vento passou pelas árvores.

            Uma folha caiu entre os dois.

            Joaquim pensou que talvez a vida fosse feita dessas coisas pequenas.

            Uma folha.

            Uma praça.

            Uma pessoa que a gente amou.

            Uma lembrança que insiste em respirar.

            Naquela noite houve música na praça.

            Um velho violeiro chamado Chico Lampejo  sentou-se perto do coreto.

            A viola começou devagar.

            Primeiro vieram as notas.

            Depois a voz.

            Cantava uma moda antiga sobre um homem que deixara sua terra para ganhar dinheiro e, depois de muitos anos, descobrira que havia enriquecido de tudo, menos de si mesmo.

            Joaquim ouviu sem dizer nada.

            Dito sentou-se ao lado.

            — Essa moda é sua cara.

            — Por quê?

            — Porque ocê fez exatamente isso.

            — Fiquei rico?

            — Não.

            — Então?

            — Foi embora.

            Joaquim riu.

            A viola continuou.

            Havia alguma coisa naquela música que parecia conversar com o céu.

Talvez porque as modas de viola nunca falassem apenas de gente.

            Falavam de estrada.

            De boi.

            De roça.

            De amor.

            De morte.

            De promessa.

            De espera.

            Falavam do homem diante daquilo que não consegue entender.

            E o interior sabia disso sem precisar estudar.

            Na manhã seguinte, Joaquim acordou cedo.

            O galo cantava.

            O céu ainda estava meio azul, meio cinza.

            Ele tomou café passado no coador de pano.

            Comeu pão com manteiga.

            Depois saiu para caminhar.

            Passou pela venda.

            — Bom dia, Joca.

            — Bom dia.

            — Café?

            — Café.

            Zé Bento colocou a xícara sobre o balcão.

            — Forte.

            — Do jeito que tem que ser.

            — Aqui ninguém toma café fraco.

            — Na cidade tomam.

            — Então a cidade tá errada.

            Joaquim sorriu.

            Ficou ali algum tempo.

            Ouviu conversa sobre chuva.

            Ouviu conversa sobre um bezerro desaparecido.

            Ouviu falar que a ponte precisava de conserto.

            Ouviu uma senhora reclamar do preço do açúcar.

            Era uma conversa sem importância.

            E, justamente por isso, era importante.

            Naquele instante, Joaquim percebeu que passara a vida procurando grandes acontecimentos, quando talvez a felicidade estivesse escondida nas coisas que ninguém fotografava.

            O café.

            A prosa.

            A sombra da árvore.

            O canto dos passarinhos.

            A porta aberta.

            A vizinha chamando do outro lado da rua.

            O menino correndo atrás de uma bola.

            O sino da igreja.

            O cheiro de chuva chegando.

            O rádio tocando uma música antiga.

            Tudo aquilo parecia pequeno.

            Mas era o tamanho exato da vida.

            No fim da tarde, Joaquim foi até o sítio onde trabalhara com o pai.

            O mato tinha tomado conta de parte da estrada.

            A antiga porteira ainda estava lá.

            Ele colocou a mão sobre a madeira.

            Sentiu uma espécie de tremor.

            Lembrou-se do pai dizendo:

            — Segura firme, menino. Cerca mal feita derruba até boi teimoso.

            Ele sorriu.

            Entrou.

            O pasto estava quase vazio.

            Havia algumas vacas.

            Um cachorro latiu ao longe.

            O sol começava a desaparecer atrás do morro.

            Joaquim sentou-se numa pedra.

            Ficou olhando.

            Foi então que entendeu.

            O céu não estava distante.

            O céu estava ali.

            Naquela luz.

            Naquela terra.

            Naquela lembrança.

            Na voz do pai que já não existia.

            Na mãe que ele ainda procurava em sonhos.

            Em Mariana andando pela praça.

            Em Dito fazendo piada.

            Na viola de Chico Lampejo.

            No cheiro do café.

            Na poeira da estrada.

            Talvez o céu não fosse um lugar para onde se ia depois da morte.

            Talvez fosse aquilo que a gente conseguia reconhecer enquanto ainda estava vivo.

            Joaquim ficou ali até escurecer.

            Quando voltou para casa, encontrou Mariana sentada na varanda.

            — Vim trazer isso.

            Ela entregou uma pequena caixa.

            Dentro havia fotografias antigas.

            Joaquim abriu.

            Havia uma fotografia dos dois.

            Eram jovens.

            Ele quase não se reconheceu.

            Mariana estava sorrindo.

            — Eu guardei esse tempo todo — disse ela.

            — Por quê?

            Ela olhou para o quintal.

            — Porque algumas coisas não pedem para ser esquecidas.

            Joaquim fechou a caixa.

            Não disse nada.

            A noite chegou devagar.

            Em alguma casa distante alguém tocava sanfona.

            Uma criança ria.

            Um cachorro latia.

            O sino da igreja bateu oito vezes.

            Joaquim olhou para o céu.

            Havia estrelas.

            Muitas.

            Mais do que conseguia contar.

            Mariana ficou ao lado dele.

            — Bonito, né?

            — É.

            — Na cidade não dá pra ver assim.

            — Lá também tem céu.

            — Mas não é igual.

            Joaquim concordou.

            Porque sabia.

            O céu era o mesmo.

            Mas o homem que olha para ele nunca é.

            Passaram-se alguns minutos.

            Mariana levantou.

            — Vou embora.

            — Amanhã você vem?

            Ela olhou para ele.

            — Uai, se ocê quiser.

            — Quero.

            Ela sorriu.

            — Então venho.

            Joaquim ficou sozinho na varanda.

            Pensou que talvez tivesse passado tantos anos procurando um lugar para voltar que não percebeu que o lugar sempre estivera dentro dele.

            O interior não era apenas a cidade.

            Não era a praça.

            Não era a igreja.

            Não era a roça.

            Não era a casa.

            Era uma maneira de guardar o tempo.

            Ali, os mortos continuavam vivos nas fotografias.

            Os amores antigos continuavam sentados nos bancos da praça.

            As músicas continuavam tocando mesmo quando ninguém mais sabia seus nomes.

            As festas acabavam, mas deixavam cheiro de fumaça nas roupas.

            As procissões terminavam, mas o som dos sinos permanecia.

            As pessoas partiam.

            As casas envelheciam.

            As árvores cresciam.

            As estradas mudavam.

            E ainda assim alguma coisa permanecia.

            Talvez fosse a memória.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse apenas a teimosia do coração em não deixar morrer aquilo que um dia lhe deu sentido.

            Joaquim entrou em casa.

            Antes de dormir, abriu a janela.

            O ar da noite entrou.

            Havia cheiro de terra molhada.

            Em algum lugar, um grilo cantava.

            Ele ouviu uma última vez a música distante da viola.

            E sorriu.

            Porque finalmente compreendia.

            Não havia distância entre o céu e o interior.

            O céu estava sobre a cidade pequena.

            Mas o interior estava dentro dele.

            E, depois de tantos anos correndo para longe, Joaquim descobrira que certas estradas não servem para ir embora.

            Servem para voltar.

            Naquela noite, dormiu sem medo.

            E sonhou com a mãe.

            Ela estava na cozinha, coando café.

            Seu pai estava sentado à mesa.

            Dito ria do lado de fora.

            Mariana caminhava pela praça.

            A igreja tocava os sinos.

            E a velha estrada de terra seguia para longe, entrando no horizonte.

            Joaquim caminhava por ela.

            Não sabia para onde.

            Também não precisava saber.

            Ao longe, o céu começava a clarear.

            E, pela primeira vez em muitos anos, ele não sentiu saudade do lugar onde tinha vivido.

            Sentiu saudade de si mesmo.

            Do menino que fora.

            Do homem que poderia ter sido.

            Da vida que passou.

            E compreendeu, com aquela simplicidade que só chega quando quase tudo já passou, que a gente nunca volta exatamente para casa.

            Volta para dentro de si.

            E às vezes isso basta.

            Porque há lugares que desaparecem do mapa, mas continuam existindo no coração.

            Há vozes que morrem, mas continuam chamando.

            Há músicas que envelhecem, mas nunca ficam antigas.

            Há amores que não acontecem, mas permanecem.

            E há um céu.

            Sempre o mesmo.

            Azul de manhã.

            Vermelho no fim da tarde.

            Escuro à noite.

            Cheio de estrelas.

            E há o interior.

            Com sua poeira, suas festas, suas rezas, suas modas de viola, seus causos, suas fogueiras, suas procissões, suas janelas abertas, suas cozinhas cheirando a café, suas mulheres na calçada, seus homens falando de chuva, seus meninos correndo descalços e seus velhos guardando histórias como quem guarda sementes.

            Talvez seja por isso que Joaquim tenha voltado.

            Não para recuperar o passado.

            Isso ninguém consegue.

            Voltou apenas para ouvir novamente aquilo que o mundo moderno havia feito tanto barulho para calar.

            O silêncio.

            O sino.

            A viola.

            O vento no quintal.

            A voz de quem chama pelo nosso nome.

            E, principalmente, aquele sentimento antigo de que, apesar de tudo, apesar do tempo, apesar da morte e das estradas que nos levam para longe, ainda existe algum lugar onde podemos sentar, respirar fundo e dizer baixinho:

            — Uai… cheguei.

Clayton Alexandre Zocarato

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O fardo de Sísifo

Bahtiyar Hidayet reflete sobre a humanidade, a sobrevivência e a persistência da brutalidade ancestral

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet
(Bakhtiyar Hasanov)
Fotografia em estilo documental dividida ao meio. Do lado esquerdo, uma lontra-marinha boia de costas na água cercada por algas, segurando com cuidado uma pedra e uma concha sobre o peito. Do lado direito, sob um céu cinzento de cidade, três homens representando diferentes espécies de hominídeos pré-históricos (como Homo habilis, Neandertal e Homo sapiens) usam roupas modernas de inverno, como jaquetas e sobretudos. Dois deles seguram pedras grandes e pesadas juntas ao peito, enquanto uma câmera de filmagem de documentário é apontada para eles ao fundo.
https://gemini.google.com/app/d2dd3ca8d0ee0e81?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Assista ao documentário:

a lontra-marinha aprende a sobreviver

segurando uma pedra contra o peito.

Mas

o verdadeiro documentário deveria ser feito sobre os seres humanos.

Há pedras em vez de corações

em milhões de peitos.

Os seres humanos as usam

uns contra os outros

para não sobreviver.

Nossos corações se transformaram em pedra

dentro de nossos peitos.

Todo coração é um fardo de Sísifo.

Ainda estamos na Idade da Pedra.

O subconsciente da maioria de nós

está no Paleolítico Inferior,

a mente consciente de alguns de nós

está no Paleolítico Superior,

e os demais estão no Paleolítico Médio.

Um bom documentário poderia ser feito

sobre este assunto:

pessoas da Idade da Pedra

vestidas com roupas modernas —

Homo habilis,

homem de Neandertal

e Homo sapiens —

aprendem a sobreviver

com as lontras-marinhas.

Bakhtiyar Hasanov

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O inusitado dentro do coletivo

O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma foto tirada dentro de um ônibus urbano em movimento. No lado esquerdo, um jovem casal está se beijando apaixonadamente no assento, com o homem segurando a mulher no colo. No lado direito, uma mulher sentada ao lado da janela ri, cobrindo a boca com a mão, enquanto olha para o casal. Outros passageiros são visíveis ao fundo, e uma rua da cidade pode ser vista pelas janelas.
https://gemini.google.com/share/a611f23db665?skid=e9a88116-35ae-459d-8c06-c509dc3fbe4e

Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

Eduardo Cesario-Martínez

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FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente: distinção institucional, tradição e preservação da memória histórico-cultural’

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
Banner digital do Jornal Cultural ROL destacando o artigo do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho. À esquerda, o autor aparece sorrindo, de terno e gravata vermelha, sentado em uma escrivaninha de madeira com livros antigos empilhados e um globo terrestre dourado. No centro, o título principal diz: 'FEBACLA E CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE: DISTINÇÃO INSTITUCIONAL, TRADIÇÃO E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICO-CULTURAL', seguido pela frase 'Duas Instituições. Duas Finalidades. O mesmo respeito pela história'. No topo, figuram os brasões oficiais da FEBACLA (com a inscrição Patrono D. Pedro II) e da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente, ladeados pelas bandeiras do Brasil e de uma pintura clássica de Dom Pedro II. O plano de fundo mostra uma transição sutil para uma imagem do Museu Nacional no Rio de Janeiro. No rodapé azul-escuro, constam os créditos ao autor como Jornalista, Filósofo, Historiador e Pesquisador, ao lado do logotipo do Jornal Cultural ROL.
Banner digital do Jornal Cultural ROL destacando o artigo do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho. À esquerda, o autor aparece sorrindo, de terno e gravata vermelha, sentado em uma escrivaninha de madeira com livros antigos empilhados e um globo terrestre dourado. No centro, o título principal diz: ‘FEBACLA E CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE: DISTINÇÃO INSTITUCIONAL, TRADIÇÃO E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICO-CULTURAL’, seguido pela frase ‘Duas Instituições. Duas Finalidades. O mesmo respeito pela história’. No topo, figuram os brasões oficiais da FEBACLA (com a inscrição Patrono D. Pedro II) e da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente, ladeados pelas bandeiras do Brasil e de uma pintura clássica de Dom Pedro II. O plano de fundo mostra uma transição sutil para uma imagem do Museu Nacional no Rio de Janeiro. No rodapé azul-escuro, constam os créditos ao autor como Jornalista, Filósofo, Historiador e Pesquisador, ao lado do logotipo do Jornal Cultural ROL.

RESUMO 

O presente artigo aborda as diferenças de natureza, finalidade e atuação entre a  Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e  a Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente. Embora  ambas possam manter diálogo e convergir na valorização da história, da cultura e da  memória, constituem estruturas institucionais distintas, com objetivos próprios.

O  estudo procura esclarecer especialmente a diferença entre honrarias acadêmicas e  culturais, de um lado, e referências, dignidades e tradições de natureza dinástica e  nobiliárquica, de outro. Analisa-se ainda o significado do patronato de Dom Pedro  II na FEBACLA, destacando seu reconhecido vínculo histórico com as ciências,  as letras, as artes e a preservação da memória.

Por fim, são apresentados os  princípios institucionais que orientam a Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente,  incluindo seu caráter apartidário, sua independência em relação a organizações  religiosas e a inexistência de pretensão territorial. Conclui-se que o respeito à  identidade e à autonomia de cada instituição constitui elemento fundamental para a  preservação da memória, da cultura e da responsabilidade institucional. 

Palavras-chave: FEBACLA; Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente; honrarias  acadêmicas; tradição dinástica; memória histórico-cultural.

ABSTRACT 

This article discusses the differences in nature, purpose, and institutional scope  between the Brazilian Federation of Academicians of Sciences, Letters and Arts  (FEBACLA) and the August and Sovereign Royal and Imperial House of the  Goths of the East. Although both may engage in dialogue and share an appreciation  for history, culture, and collective memory, they constitute distinct institutional  structures with their own purposes. The study seeks to clarify, in particular, the  distinction between academic and cultural honors, on the one hand, and references,  dignities, and traditions of dynastic and nobiliary nature, on the other. It also examines  the significance of Emperor Pedro II’s patronage of FEBACLA, emphasizing his  historical connection with science, literature, the arts, and the preservation of memory.  Finally, the institutional principles guiding the Royal and Imperial House of the Goths  of the East are presented, including its non-partisan character, independence from  religious organizations, and absence of territorial claims. It concludes that respect for  the identity and autonomy of each institution is fundamental to preserving memory,  culture, and institutional responsibility. 

Keywords: FEBACLA; Royal and Imperial House of the Goths of the East;  academic honors; dynastic tradition; historical-cultural memory. 

1 INTRODUÇÃO 

A sociedade contemporânea vive uma profunda transformação na forma de produzir,  compartilhar e consumir informações. As redes sociais ampliaram extraordinariamente  a circulação do conhecimento, mas também favoreceram a disseminação de  informações descontextualizadas, interpretações simplificadas e confusões  terminológicas. 

No campo da História, da cultura e das tradições honoríficas, essa realidade merece  atenção especial. Expressões como “título”, “comenda”, “medalha”, “patronato”,  “honraria”, “nobreza” e “dignidade” podem possuir significados distintos conforme o  contexto institucional em que são utilizadas. 

É nesse cenário que se apresenta a necessidade de distinguir a atuação da  FEBACLA – Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes da atuação da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de  Oriente

A aproximação entre as duas instituições pode ocorrer no âmbito da cultura, da  história, da memória e da valorização das tradições. Entretanto, tal aproximação não  elimina suas diferenças fundamentais. 

A FEBACLA possui natureza e finalidade voltadas ao campo acadêmico, cultural,  científico, literário e artístico, enquanto a Casa Real e Imperial possui identidade  relacionada à tradição histórica, genealógica, dinástica, simbólica e  nobiliárquica

O objetivo deste artigo, portanto, não é estabelecer qualquer hierarquia entre as duas  instituições, mas esclarecer suas respectivas identidades e evitar interpretações  equivocadas.

2 A FEBACLA E O RECONHECIMENTO ACADÊMICO E CULTURAL 

A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA desenvolve suas atividades no campo da cultura, das ciências, das letras,  das artes e do reconhecimento institucional daqueles que contribuem para essas  áreas. 

Dentro de sua finalidade, podem existir diferentes modalidades de reconhecimento,  tais como academias, cadeiras, títulos honoríficos, medalhas, comendas, diplomas e  outras distinções institucionais. 

Essas formas de reconhecimento possuem natureza própria e devem ser  compreendidas dentro do contexto da instituição que as concede. 

Uma questão, contudo, merece destaque: 

honraria acadêmica ou cultural não se confunde automaticamente com título  nobiliárquico. 

Ser acadêmico, membro, comendador, titular de medalha ou agraciado com uma  distinção da FEBACLA não significa, por esse simples fato, ingresso na nobreza. 

A distinção reconhece, dentro do âmbito institucional da Federação, determinados  méritos, contribuições ou trajetórias. 

Assim, a concessão de uma comenda ou medalha institucional deve ser  compreendida como manifestação de reconhecimento, e não como mecanismo  automático de transformação do agraciado em membro de uma ordem nobiliárquica  ou de uma estrutura dinástica. 

Essa diferenciação é fundamental para preservar a seriedade das próprias honrarias.

3 HONRARIA, TÍTULO E NOBREZA: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA

A palavra “título” pode apresentar diferentes significados. 

No universo acadêmico, cultural e honorífico, pode representar uma distinção concedida em reconhecimento a determinado mérito. 

No universo nobiliárquico e dinástico, pode estar relacionada a uma tradição histórica específica. 

Da mesma forma, o termo “comenda” pode aparecer em diferentes contextos  institucionais e históricos. 

Por isso, não é adequado analisar uma honraria apenas pela sua denominação. 

É necessário considerar quem a concede, qual é a natureza da instituição  concedente, qual é a finalidade da distinção e dentro de qual tradição  institucional ela se insere.

A Constituição da República Federativa do Brasil protege a liberdade de expressão  intelectual, artística e científica e assegura a liberdade de associação para fins lícitos. 

Nesse contexto, instituições civis podem estabelecer mecanismos próprios de  reconhecimento e premiação dentro de suas finalidades, sem que isso signifique que  suas distinções possuam automaticamente natureza estatal ou nobiliárquica. 

Essa diferença conceitual é indispensável. 

4 DOM PEDRO II E O PATRONATO DA FEBACLA 

A escolha de Dom Pedro II como Patrono da FEBACLA possui profundo significado  histórico e cultural. 

O segundo e último imperador do Brasil é amplamente reconhecido por seu interesse  pelas ciências, pelas letras, pelas artes, pela educação e pelas novas tecnologias de  seu tempo. 

O Museu Imperial registra seu interesse por áreas tão diversas quanto História,  Filosofia, Música, Literatura, Biologia, Medicina, Química, Arqueologia, Matemática e  Astronomia, além de destacar seu incentivo às artes e a artistas de seu período. 

A Biblioteca Nacional também preserva importante testemunho desse interesse  intelectual. A coleção de D. Pedro II, especialmente a Coleção Thereza Christina  Maria, reúne aproximadamente 23 mil fotografias e foi incorporada ao Registro  Internacional da Memória do Mundo da UNESCO. 

Sua relação com a fotografia foi particularmente significativa. A Biblioteca Nacional  registra que D. Pedro II foi entusiasta e colecionador de fotografia e contribuiu para o  desenvolvimento dessa atividade no Brasil. 

Esses elementos ajudam a compreender por que sua figura histórica se mostra  adequada ao patronato de uma instituição dedicada às Ciências, Letras e Artes. 

O patronato, contudo, possui caráter histórico, simbólico e cultural. Ele não transforma a FEBACLA em instituição nobiliárquica. 

Também não representa, por si só, mecanismo de transmissão de títulos dinásticos  ou de nobreza. 

O nome de D. Pedro II é evocado em razão de seu legado e de sua importância para  a cultura e o conhecimento brasileiros. 

5 A CASA REAL E IMPERIAL DOS GODOS DE ORIENTE 

Em campo institucional distinto encontra-se a Augustíssima e Soberana Casa Real  e Imperial dos Godos de Oriente

Sua identidade está relacionada à preservação de uma tradição histórica,  genealógica, dinástica, simbólica e nobiliárquica.

Dentro desse universo, temas como precedência, dignidades, referências dinásticas,  genealogia, heráldica e eventual investidura nobiliárquica pertencem ao âmbito  próprio da Casa. 

Esses elementos não fazem parte das atribuições acadêmicas e culturais da  FEBACLA. 

É justamente essa separação de competências que permite compreender a  coexistência das duas instituições sem que uma seja confundida com a outra. 

6 O CONCEITO DE FONS HONORUM NA TRADIÇÃO DINÁSTICA 

A expressão latina fons honorum, tradicionalmente traduzida como “fonte de honra”,  aparece no vocabulário relacionado às tradições nobiliárquicas e dinásticas. 

No contexto histórico dessas tradições, o conceito está associado à autoridade ou  prerrogativa honorífica atribuída a determinadas casas soberanas, ex-soberanas ou  chefias dinásticas, conforme a tradição específica considerada. 

Entretanto, é importante estabelecer uma distinção metodológica. 

A utilização do conceito de fons honorum no âmbito de uma tradição dinástica não  deve ser automaticamente confundida com o reconhecimento, pelo Estado brasileiro,  de efeitos jurídicos de soberania ou de títulos de nobreza. 

Assim, no presente artigo, o conceito é utilizado no sentido histórico e dinástico, e  não como afirmação de exercício de soberania estatal. 

Essa ressalva é importante para preservar o caráter histórico-cultural da discussão. 

7 UMA CASA APARTIDÁRIA, ACONFESSIONAL E SEM PRETENSÃO  TERRITORIAL 

A Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente afirma  sua natureza apartidária

Isso significa que sua identidade institucional não está vinculada a partidos políticos,  campanhas eleitorais ou correntes político-partidárias. 

Sua tradição dinástica não deve ser utilizada como instrumento de disputa política. A Casa também se apresenta como sem vínculo religioso ou confessional

Não constitui igreja, denominação religiosa ou organização subordinada a  determinada confissão. 

Essa característica está em consonância com o princípio constitucional da liberdade  de consciência e de crença e com a separação entre Estado e organizações  religiosas. 

Outro ponto fundamental diz respeito ao território. 

A Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente não pleiteia, reivindica ou pretende  exercer soberania sobre territórios, Estados ou nações.

Seus títulos, símbolos e referências dinásticas devem ser compreendidos no campo  da tradição histórica e do patrimônio imaterial, e não como instrumentos de  reivindicação territorial. 

Tal posicionamento também deve ser compreendido em respeito à soberania dos  Estados e aos princípios de independência nacional, autodeterminação dos povos,  não intervenção e solução pacífica das controvérsias presentes no artigo 4º da  Constituição Federal. 

8 TRADIÇÃO NÃO SIGNIFICA DISPUTA 

A preservação de uma tradição dinástica não implica necessariamente uma  reivindicação de poder político. 

A História demonstra que símbolos, genealogias, brasões, títulos e tradições podem  sobreviver como elementos de identidade cultural e de memória. 

Preservar uma tradição não significa necessariamente pretender restaurar uma  determinada ordem política. 

Essa distinção é particularmente importante no mundo contemporâneo. 

A Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente compreende sua tradição como  patrimônio histórico e simbólico, devendo sua atuação ser interpretada dentro de seus  próprios princípios institucionais e em respeito às instituições constituídas. 

Tradição, nesse sentido, não deve ser confundida com disputa. 

9 AUTONOMIA INSTITUCIONAL 

A FEBACLA e a Casa Real e Imperial possuem autonomia em relação aos seus  respectivos campos de atuação. 

O ingresso de uma pessoa em uma instituição não gera automaticamente vínculo com  a outra. 

Uma pessoa pode integrar a FEBACLA sem pertencer à Casa Real e Imperial. Pode integrar a Casa Real e Imperial sem ocupar cadeira ou função na FEBACLA. 

Também pode manter vínculos com ambas, desde que sejam observados, de  maneira independente, os requisitos e procedimentos próprios de cada instituição. 

Essa possibilidade de coexistência demonstra que não existe incompatibilidade  necessária entre participação acadêmico-cultural e vínculo com uma tradição  dinástica. 

O ponto fundamental é não confundir as respectivas naturezas.

10 UMA MATRIZ COMPARATIVA 

Aspecto FEBACLA Casa Real e Imperial dos  Godos de Oriente 

Natureza predominante Acadêmica, cultural, científica,  literária e artística 

Histórica, genealógica,  dinástica e simbólica 

Fundamento do  reconhecimento 

Patronato/referência  

Mérito e contribuição cultural,  acadêmica, científica e artística 

Tradição e critérios próprios  da Casa 

Tradição histórica e  

histórica Dom Pedro II 

Honrarias Medalhas, comendas, títulos e  distinções institucionais 

Valorização das Ciências,  

dinástica dos Godos de  Oriente 

Dignidades e distinções  vinculadas à tradição própria  da Casa 

Preservação da tradição,  

Finalidade 

Letras, Artes, cultura e  conhecimento 

memória e identidade  dinástica 

Natureza política Cultural e apartidária Apartidária 

Natureza religiosa Institucionalmente cultural e  acadêmica 

Sem vínculo religioso ou  confessional 

Território Não possui finalidade territorial Não reivindica ou pleiteia  territórios 

Relação entre as  

instituições Independente Independente

11 CULTURA, MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL 

A cultura brasileira é formada por múltiplas instituições, tradições, movimentos e  formas de organização. 

Academias, associações culturais, institutos históricos, museus, arquivos,  universidades, famílias tradicionais e casas dinásticas podem, cada qual dentro de  sua natureza, participar do processo de preservação da memória. 

O mais importante é que cada instituição tenha sua identidade claramente  estabelecida. 

Nesse sentido, reconhecer um escritor, pesquisador, artista ou cientista é uma forma  de valorizar a produção cultural contemporânea. 

Preservar uma tradição histórica e dinástica também pode representar uma forma de  conservação da memória. 

São manifestações diferentes, mas não necessariamente incompatíveis. 

O verdadeiro problema surge quando se confundem conceitos que possuem  naturezas distintas.

12 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise apresentada demonstra que FEBACLA e Casa Real e Imperial dos Godos  de Oriente são instituições distintas, independentes e dotadas de finalidades  próprias

A FEBACLA está voltada à valorização das Ciências, Letras, Artes, cultura,  conhecimento e produção intelectual, reconhecendo aqueles que contribuem para  esses campos. 

A Casa Real e Imperial, por sua vez, preserva uma tradição histórica, genealógica,  dinástica e simbólica própria. 

Consequentemente, uma honraria acadêmica não deve ser automaticamente  interpretada como título nobiliárquico. 

Uma comenda cultural não representa, por si só, ingresso na nobreza. O patronato de Dom Pedro II não transforma a FEBACLA em instituição dinástica. 

Da mesma forma, o pertencimento à FEBACLA não significa ingresso automático na  Casa Real e Imperial. 

A clareza desses conceitos contribui para a preservação da dignidade das próprias  instituições e das pessoas por elas reconhecidas. 

Mais do que estabelecer diferenças, este esclarecimento busca afirmar um princípio  essencial: 

cada instituição deve ser compreendida a partir de sua própria história,  natureza, finalidade e identidade. 

Em uma época marcada pela velocidade da informação, esclarecer é também  preservar. 

Preservar conceitos. 

Preservar a memória. 

Preservar a história. 

E, sobretudo, preservar a dignidade institucional. 

FEBACLA – Cultura, Ciência, Letras e Artes. 

Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente – Tradição, História e Herança Dinástica. 

Duas instituições. Duas finalidades. Respeito às suas respectivas identidades. Esclarecer é também preservar a verdade, a história e a dignidade institucional.

REFERÊNCIAS 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF:  Presidência da República, 1988. Disponível em:  

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 10 set. 2026.

BRASIL. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Thereza Christina Maria. Rio de Janeiro:  Fundação Biblioteca Nacional, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/bn/. Acesso em: 10  set. 2026. 

BRASIL. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Coleção Thereza Christina Maria: álbuns  fotográficos. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional Digital. Disponível em:  https://bndigital.bn.gov.br/dossies/colecao-d-thereza-christina-maria-albuns-fotograficos/.  Acesso em: 10 set. 2026. 

BRASIL. MUSEU IMPERIAL. Almanaque do Museu Imperial. Petrópolis, RJ: Museu  Imperial. Disponível em: https://museuimperial.museus.gov.br/. Acesso em: 10 set. 2026. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022: informação e  documentação: artigo em publicação periódica técnica e/ou científica: apresentação. 2.  ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e  documentação: referências: elaboração. 2. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e  documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023. 

CARVALHO, Alexandre Rurikovich. Títulos de Nobreza Concedidos por Dinastias  Históricas. Jornal Cultural Rol, 3 jun. 2026. Disponível em: https://jornalrol.com.br/?p=81531.  Acesso em: 27 ago. 2026. 

SANTOS, Otávio Duarte. Certidão Genealógica, Heráldica e Parecer Histórico-Nobiliárquico.  Recife, 2012. 

UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris, 2003.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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A sacralidade da espera

Elisa Mascia: entre o desejo, a ausência e a espera, o amor transforma o reencontro em rito de comunhão e transcendência

Elisa Mascia
Elisa Mascia
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Não se transmite o sentimento do amor pelo anulamento da distância; antes, percebe-se o anular-se na paixão para acolher aquela parte que recompõe a unidade.

A espera é o tempo essencial para compreender o quanto o fogo ardente do espírito é necessário para construir o altar sagrado, onde uma só água é evocada para o refrigério da aridez.

Para preencher a ausência, a linguagem dos braços assume o cetro do comando sobre as intermináveis páginas escritas.

Não havia luz ao redor até o canto do teu nome, que ressoa sob a pele como a seiva infiltrada no pulsar do costado, onde os sonhos lançaram a chave no poço dos desejos e no pertencer aos raios do meu sol.

Dividir o pesado fardo das adversidades é o equilíbrio das batidas do relógio, cadenciado no pulso do combatente.

E vejo dois jovens correrem sobre os ombros curvados pelo sorriso de duas linhas que escreveram seu livro nas histórias das palmas das mãos.

Os dedos banhados na tinta divina finalmente proclamaram a sacralidade de um abraço, para selar o rito de não ter esperado em vão.

Elisa Mascia

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Eu e o rio

José Antonio Torres: entre as águas do rio e o caminho da fé, uma reflexão poética sobre a vida, a perseverança e o encontro com Deus

José Antonio Torres
José Antonio Torres
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Como as águas do rio,
Sigo silencioso o meu caminho.
Originei-me de uma pequena nascente
E fui crescendo ao longo do meu trajeto.

Passei por vários lugares…
Muita coisa eu vi.
Alegrias e sofrimentos, festas e dor.
Uns cuidam de mim e outros me ignoram.
Não me importo com esses e sigo meu caminho,
Sendo útil em minha jornada.

Mesmo aos que comigo não se importam, Ajudo como posso.
Meu valor não se mede pela minha extensão,
Mas pelos benefícios que posso proporcionar
Sem nada pedir em troca.

E vou seguindo…
Contornando alguns obstáculos e superando outros.
Tenho plena consciência do meu destino final.
Se o rio caminha rumo à imensidão do mar,
Eu rumo para a luz maior que me acolherá.

Certamente o trajeto é longo e difícil.
Muitos obstáculos ainda terei pela frente.
Mas, assim como o rio, ao final do seu percurso,
Repousa no abraço do mar,
Eu me acalentarei na glória do amor de Deus!

José Antonio Torres

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