A guerra em primeira pessoa

Ella Dominici discorre sobre memória, consciência e a reconstrução da condição humana

Ella Dominici
Ella Dominici
Fotografia em plano aproximado de uma flor cor-de-rosa de pétalas delicadas a crescer no meio de escombros e cinzas, em primeiro plano. Ao fundo, sob uma luz suave de nevoeiro ou fumo, avistam-se as ruínas destruídas de um edifício histórico com uma cúpula metálica esquelética, evocando uma atmosfera de desolação e resiliência.
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PREMISSA

“A verdadeira paz talvez não seja a ausência da guerra, mas a coragem de permanecer humano quando tudo parece conspirar contra a humanidade.”( Rute Ella Dominici)

A guerra costuma ser narrada pela história oficial através de mapas, tratados diplomáticos, estratégias militares e estatísticas. Conhecemos datas, números de vítimas e nomes de batalhas. Contudo, por trás de cada dado existe uma existência interrompida, uma memória fragmentada e uma consciência profundamente transformada pela violência.

Poucos acontecimentos revelam tão intensamente a fragilidade da condição humana quanto os conflitos armados. Eles não destroem apenas cidades, monumentos e fronteiras. Desorganizam a linguagem, silenciam afetos e alteram a forma como as gerações futuras compreendem a própria humanidade.

Este ensaio propõe deslocar o olhar da narrativa histórica para a experiência humana. A guerra deixa de ser observada apenas como um acontecimento coletivo para tornar-se experiência íntima, inscrita na memória de indivíduos, famílias e povos. É na primeira pessoa que a dor adquire rosto, voz e permanência.

A literatura ocupa, nesse contexto, um lugar singular. Enquanto a história registra acontecimentos, a literatura preserva aquilo que dificilmente pode ser quantificado: o medo, a ausência, a culpa, a esperança e a lenta reconstrução da dignidade humana. Ela transforma a memória em responsabilidade ética.

Ao refletir sobre Hiroshima, sobre as mulheres que sustentam a continuidade da vida e sobre a permanência das lembranças nas gerações seguintes, este texto não pretende oferecer respostas definitivas. Busca, antes, reconhecer que toda civilização depende da capacidade de recordar sem transformar a memória em instrumento de ódio.

Lembrar não significa permanecer aprisionado ao sofrimento, mas impedir que a violência seja naturalizada. Quando a memória permanece viva, ela se converte em consciência; quando a lucidez permanece desperta, torna-se possibilidade de paz.

 I — A Guerra em Primeira Pessoa

“Toda guerra começa quando o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.”

Existe uma diferença profunda entre estudar uma guerra e sobreviver a ela. A primeira atividade pertence ao domínio da análise histórica; a segunda modifica irreversivelmente a percepção da existência. Nenhuma estatística consegue traduzir o instante em que uma criança compreende o significado da perda, nem o silêncio que permanece após o desaparecimento daqueles que davam sentido ao cotidiano.

A guerra rompe a continuidade da vida ordinária. O tempo deixa de ser organizado por projetos e passa a ser medido pela sobrevivência. Cada dia representa uma conquista incerta, cada despedida pode tornar-se definitiva, cada gesto cotidiano adquire inesperada dimensão ética.

Nesse contexto, a primeira pessoa deixa de ser mero recurso narrativo para transformar-se em lugar de resistência. Dizer “eu” significa afirmar que existe uma consciência que não foi completamente reduzida à lógica da destruição. A identidade sobrevive mesmo quando tudo ao redor parece destinado ao desaparecimento.

A literatura testemunhal tornou-se um dos maiores patrimônios da memória contemporânea exatamente porque restitui nomes, rostos e emoções às vítimas. Ao narrar a experiência individual, revela aquilo que permanece invisível nas descrições gerais da história: a singularidade da dor humana.

A guerra produz também deslocamentos interiores. Sobreviver implica conviver com lembranças fragmentadas, culpas silenciosas e perguntas sem resposta. O trauma não termina quando cessam os combates; prolonga-se na memória, influenciando relações familiares, escolhas pessoais e a maneira como novas gerações compreendem o passado.

Recordar, portanto, não significa cultivar ressentimento. A memória transforma-se em exercício de responsabilidade. Ela impede que a violência seja reduzida a simples acontecimento histórico e recorda continuamente que cada conflito nasce, antes de tudo, da recusa em reconhecer plenamente a humanidade do outro.

Assim, toda narrativa em primeira pessoa torna-se também uma narrativa coletiva. Ao escutar uma única voz, reconhecemos milhares de outras que permaneceram silenciadas pela destruição.

II — A Mulher em Primeira Pessoa

“Onde a guerra interrompe a vida, muitas mulheres preservam a memória.”

As guerras foram frequentemente narradas pelos vencedores, pelos generais e pelos líderes políticos. Entretanto, existe uma outra história, menos visível e igualmente decisiva: aquela preservada pelas mulheres.

Enquanto o conflito reorganiza fronteiras e estruturas políticas, mulheres sustentam aquilo que permanece essencial à continuidade da existência: o cuidado, a transmissão da memória, a preservação da infância e a reconstrução cotidiana da esperança.

Elas experimentam perdas múltiplas. Perdem companheiros, filhos, lares, estabilidade e, muitas vezes, a própria identidade construída antes da violência. Ainda assim, assumem silenciosamente o trabalho de reorganizar a vida quando os combates terminam.

Não se trata de idealizar a figura feminina, mas de reconhecer uma dimensão histórica frequentemente negligenciada. A memória coletiva de inúmeros povos foi preservada por relatos orais, diários, fotografias, cartas e gestos cotidianos mantidos sobretudo pelas mulheres.

A maternidade, compreendida aqui em sentido amplo como capacidade de proteger e transmitir a vida, converte-se em resistência ética diante da destruição. Mesmo quando tudo parece perdido, permanece o compromisso de impedir que o esquecimento complete aquilo que a guerra iniciou.

A literatura registra inúmeras personagens femininas que atravessam conflitos sem perder completamente a capacidade de compaixão. Elas não representam ingenuidade, mas coragem moral.

Ao narrar a guerra em primeira pessoa feminina, a literatura amplia nossa compreensão da violência. Ela mostra que a reconstrução de uma sociedade começa muito antes da assinatura de tratados diplomáticos.

III — A Modernidade e a Guerra em Terceira Pessoa

“A técnica amplia o poder humano; somente a consciência pode limitar seu uso.”

A modernidade proporcionou extraordinários avanços científicos, tecnológicos e econômicos. Contudo, o mesmo conhecimento capaz de prolongar a vida também produziu instrumentos de destruição jamais imaginados pelas gerações anteriores.

Ao longo do século XX, a guerra deixou de depender exclusivamente da coragem individual dos combatentes para tornar-se resultado de sistemas burocráticos altamente organizados. A violência passou a ser administrada por estruturas impessoais.

Hannah Arendt observou que o mal pode apresentar-se não apenas como manifestação de crueldade consciente, mas também como resultado da incapacidade de pensar criticamente sobre os próprios atos.

Nesse cenário, a literatura recupera aquilo que a burocracia tende a apagar: a singularidade humana. Ao devolver nomes às vítimas e sentimentos às estatísticas, rompe a impessoalidade produzida pelas grandes máquinas administrativas da guerra.

A técnica não possui, em si mesma, orientação moral. Ela amplia possibilidades. Cabe à consciência humana decidir se o conhecimento será utilizado para preservar ou destruir a vida.

A verdadeira modernidade talvez não resida apenas na capacidade de criar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas na maturidade de utilizá-las em favor da dignidade humana.

IV — Cartografia da Memória

“A memória não pertence apenas ao passado; ela orienta a responsabilidade do futuro.”

A memória constitui um dos fundamentos da identidade humana. Não é apenas um arquivo de acontecimentos, mas um processo vivo pelo qual indivíduos e sociedades interpretam a própria existência. Após os grandes conflitos do século XX, recordar tornou-se também um imperativo ético.

As guerras não terminam quando cessam os disparos. Permanecem inscritas nos corpos, nas narrativas familiares e na cultura dos povos. O trauma atravessa gerações, moldando percepções, medos e formas de compreender o mundo.

Paul Ricoeur observa que recordar exige responsabilidade. A memória precisa preservar a verdade sem alimentar o ressentimento. Esquecer completamente favorece a repetição da violência; permanecer aprisionado ao passado impede a reconstrução da vida.

A literatura torna-se espaço privilegiado dessa elaboração. Ela transforma lembranças em linguagem, oferecendo à dor um lugar de permanência que não se reduz à repetição do sofrimento. Assim, a memória deixa de ser apenas recordação e converte-se em compromisso com o futuro.

Cartografia da Memória — Os grandes massacres do século XX

Primeira Guerra Mundial (1914–1918): cerca de 20 milhões de mortos. Deixou uma Europa devastada e inaugurou a guerra industrial em larga escala. �

HISTORY · 1

Genocídio Armênio (1915–1917): aproximadamente 1,5 milhão de vítimas, considerado um dos primeiros genocídios do século XX. �

thoughtco.com

Segunda Guerra Mundial (1939–1945): entre 70 e 85 milhões de mortos, incluindo o Holocausto, o maior conflito da história humana. �

HISTORY · 1

Holocausto (1933–1945): cerca de 6 milhões de judeus assassinados, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime nazista. �

HISTORY

Hiroshima e Nagasaki (1945): aproximadamente 200 mil mortos entre vítimas imediatas e posteriores à radiação, marcando o início da era nuclear. �

HISTORY

Guerra da Coreia (1950–1953): cerca de 3 milhões de mortos, consolidando a divisão da península coreana. �

PubMed Central (PMC)

Guerra do Vietnã (1955–1975): aproximadamente 2 a 3 milhões de mortos, deixando profundas marcas humanas, ambientais e políticas. �

PubMed Central (PMC) · 1

Genocídio Cambojano (1975–1979): cerca de 2 milhões de vítimas, consequência do regime do Khmer Vermelho. �

thoughtco.com

Guerras dos Bálcãs (1991–1999): aproximadamente 140 mil mortos, marcadas por limpeza étnica e pelo massacre de Srebrenica. �

PubMed Central (PMC)

 Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas tenham perdido a vida em guerras e conflitos do século XX, tornando-o o período mais violento da história contemporânea e um permanente chamado à responsabilidade ética e à preservação da memória. �

V — Hiroshima: Quando a Ciência Ultrapassou a Consciência

“O conhecimento alcança sua grandeza quando permanece inseparável da responsabilidade.”

Hiroshima permanece como um dos símbolos mais contundentes da capacidade humana de produzir destruição em escala inédita. Em poucos segundos, milhares de vidas foram interrompidas, e os efeitos físicos, psicológicos e ambientais prolongaram-se por décadas.

O episódio não representa apenas um marco militar. Ele inaugura uma reflexão permanente sobre os limites éticos do progresso científico. A inteligência técnica mostrou-se extraordinária; a consciência moral revelou-se insuficiente para impedir a devastação.

O Memorial da Paz de Hiroshima permanece como testemunho silencioso dessa responsabilidade histórica. Mais do que preservar ruínas, convida a humanidade a reconhecer que nenhum avanço científico pode ser separado de suas consequências humanas.

VI — Como a Flor de Hiroshima

“Hiroshima, mon amour”À Marguerite Duras

“À memória daqueles cuja ausência continua a ensinar a humanidade a florescer”

Uma bomba julgou estéril o solo da fertilidade. Apesar da devastação homicida, houve um impulso; na vila morta, célere, a vida.

A flor de Hiroshima floresce. Se apenas sobrevivesse, seria somente um símbolo biológico.

Mas florescer é um verbo da alma, metáfora da resiliência, a serenidade que ensaia novamente a vida.

A cinza acreditava possuir a última palavra. A flor respondeu em perfume: imagem singela  da extraordinária continuidade.

O perfume não tem corpo nem ocupa espaço. Não se deixa aprisionar; expande-se, transcende. E do massacre, gesto agreste, a poesia se consagra.

Não reconstrói edifícios, nem desfaz explosões. Não devolve os mortos às suas imensidões.

A flor não explica a tragédia, mas transforma suas dimensões.

A bomba definia a terra como o último vazio. A vida, porém, recusa o verbo desistir.

A consciência, em floração, renasceu na natureza, porque florescer é escolha da alma, e quando a  cinza imaginou ser a última palavra,

 A flor de Hiroshima poetizou o perfume na forma mais delicada de negar a violência.

O amor permanece em plena liberdade, sem fronteiras nem espaços definidos.

Persiste quando a matéria desaparece e o silêncio dialoga com as memórias que não cabem na linguagem:

colecionam perfumes que devolvem à humanidade, não os seus mortos, mas o fôlego que a dor acreditava ter extinguido.

Porque a matéria do absurdo torna-se cinza: o obscuro

mas  na alma o último verbo é florescer:

Hiroshima, mon amour.

Rute Ella Dominici

Epílogo — Eu, Sobrevivente

“Sobreviver é transformar a memória em responsabilidade.”

Não sobrevivi apenas às guerras inscritas na história. Sobrevivi às guerras silenciosas que atravessam consciências, fragmentam afetos e desafiam continuamente a condição humana.

Compreendi que a paz não se estabelece apenas pelo fim dos conflitos. Ela começa quando reconhecemos no outro a mesma dignidade que desejamos preservar em nós. Esse reconhecimento transforma a memória em compromisso ético e impede que a violência encontre no esquecimento um novo abrigo.

A literatura participa dessa reconstrução ao conservar aquilo que a destruição não consegue alcançar: a experiência humana. Enquanto houver quem escreva, leia e recorde, permanecerá viva a possibilidade de uma cultura fundada na responsabilidade, na compaixão e na esperança.

Talvez essa seja a mais profunda vocação da palavra: lembrar que, mesmo depois das maiores ruínas, a humanidade ainda pode escolher florescer.

Que este trabalho encontre leitores capazes de reconhecer que, mesmo diante da devastação da matéria , a literatura continua sendo uma forma de preservar a humanidade.

Dossiê Cultural

Referências bibliográficas

Hannah Arendt — Eichmann em Jerusalém.

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571649620/eichmann-em-jerusalem

Primo Levi — É Isto um Homem?

https://rocco.com.br/produto/e-isto-um-homem

John Hersey — Hiroshima

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535902792/hiroshima

Companhia das Letras (catálogo)

https://www.companhiadasletras.com.br

Editora Vozes

https://www.vozes.com.br

Editora Record

https://www.record.com.br

Nova Fronteira

https://www.novafronteira.com.br

Todavia

https://todavialivros.com.br

Editora Unicamp

https://www.editoraunicamp.com.br

Sugestões culturais

Anne Frank House

https://www.annefrank.org

Elie Wiesel Foundation

https://eliewieselfoundation.org

Hiroshima Peace Memorial Museum

https://hpmmuseum.jp/?lang=eng

UNESCO – Hiroshima Peace Memorial

https://whc.unesco.org/en/list/775

Nagasaki Atomic Bomb Museum

https://nabmuseum.jp/en

Auschwitz-Birkenau Memorial

https://www.auschwitz.org/en

United States Holocaust Memorial Museum

https://www.ushmm.org

IMDb – Hiroshima mon amour

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Filmografia Sugerida

Obras audiovisuais recomendadas para complementar o ensaio “A Guerra em Primeira Pessoa: Memória, consciência e a reconstrução da condição humana”.

Hiroshima mon amour

Direção: Alain Resnais (1959)

Reflexão sobre memória, amor e trauma após Hiroshima.

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Schindler’s List

Direção: Steven Spielberg (1993)

Holocausto, memória e responsabilidade ética.

https://www.imdb.com/title/tt0108052

The Pianist

Direção: Roman Polanski (2002)

Sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial.

https://www.imdb.com/title/tt0253474

Grave of the Fireflies

Direção: Isao Takahata (1988)

Infância e devastação provocadas pela guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0095327

Waltz with Bashir

Direção: Ari Folman (2008)

Memória, trauma e conflito contemporâneo.

https://www.imdb.com/title/tt1185616

The Thin Red Line

Direção: Terrence Malick (1998)

Dimensão filosófica da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0120863

Come and See

Direção: Elem Klimov (1985)

Impactos psicológicos da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0091251

Rute Ella Dominici

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A confissão da prostituta III

Nenhum segredo ficará a salvo: Ramos António Amine destranca o silêncio e expõe a farsa do poder na nudez de um poema devastador.

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Desta vez ela não olha para as
madeiras.
Olha para a frente,
com os lábios afiados ao
silêncio do cálice,
pronta para destrancar a
boca
e vomitar os nomes, os
cheiros
e a carne que os lençóis
esconderam.

Confessará, primeiro,
o homem que desvastou suas
pernas ao meio
e forjou o ser que ela é
hoje.

Aquele que lhe arrancou a inocência
e a empurrou para o primeiro quarto,
e gemeu a favor da sua ruína
com o cinismo de quem
apluade a exclusão.

Confessará o vício.
O cliente que a penetrou pelo
estômago e pelo útero,
com aquele pau inesquecível,
um músculo feio dentro do corpo
que a esmagava e a preenchia,
fazendo-a esquecer o preço por cada
hora de gemido.

Um vício de fricção de corpos,
de suor indomável,
a única memória onde o seu corpo
não foi usado,
mas incendiado por uma força
que nenhum tempo consegue
curar.

E, logo depois, confessará o
nojo.
O asco profundo que lhe sobe
à garganta
perante os paus dos ricos.

Homens que compram o
mundo com o verbo,
mas que na vergonha da
cama
revelam a miséria da sua
anatomia.

Paus minúsculos,
murchos de arrogância,
paus tortos, gordos,
e finos de pobreza de carne
e de tesão à pílulas
que tenta compensar com
notas encardidas o vazio
de uma masculinidade falhada.

Ela confessa a farsa dessa
gente graúda
que se socorre de estimulantes para
parecer grande,
enquanto a maioria, na sua nudez,
não passa de um
deserto de homens pequenos.

A missão dela começou.
E nenhum segredo ficará a salvo.

Ramos Antonio Amine

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O que é a vida?

Uma viagem poética e profunda sobre o verdadeiro significado de estar vivo

Marli Freitas
Marli Freitas
Uma composição artística e vibrante em formato de colagem com elementos da natureza e espirituais. No primeiro plano à esquerda, uma mulher de perfil, com os olhos fechados e expressão de serenidade, veste uma blusa branca e está rodeada por flores coloridas, incluindo girassóis e uma borboleta. Na parte superior esquerda, vê-se uma paisagem montanhosa ao amanhecer com pássaros a voar. Ao centro e à direita, a imagem transita por cenários místicos: flores brancas em destaque, uma fogueira com chamas em formato de coração, uma cachoeira límpida, uma galáxia espiralada no espaço e mãos estendidas na direcção de um planeta iluminado. Na parte inferior direita, uma rocha exibe um cristal lapidado brilhante com vista para montanhas e vales ao entardecer.
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A vida é…

O movimento vestido de magia e poesia,

O desassossego que move a procura,

O sal que valoriza o advento.

A vida é…

O entusiasmo que embeleza o etéreo,

O colorido que matiza a alma de céu,

A infinita novidade de cada revelar em flor.

A vida é…

O fogo em eterna vigília de amor,

O frescor que perfuma o espaço e o tempo,

O delírio que leva à imaginação e nutre o sonho.

A vida é…

A fé que significa o mistério,

O elo que nos une à grandeza do universo,

A essência cristalina de Deus.

Marli F. Freitas

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Pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade

Diamantino Bártolo evoca Gandhi e os Direitos Humanos em uma contundente reflexão sobre a ética no mundo moderno

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Preocupar-se-á a ciência com as questões da cidadania, da solidariedade, dos Direitos Humanos e com outros valores universais? Ou pelo contrário, tais assuntos não interessam à ciência em geral e aos cientistas em particular? Nesta perspectiva parece-me que a questão é pertinente porque vivemos numa sociedade difícil, complexa, em busca da satisfação pessoal, a multiplicação de experiências, a exploração do negativo, do espetacular, do sensacional, do escandaloso, o que estará a conduzir para uma desmoralização da vida pública, com reflexos na vida política, principalmente nos mais jovens, que se relaciona com a tentativa, sistematicamente organizada de, se não eliminar, pelo menos substituir os conteúdos morais e éticos, substantivos, valores orientadores, devidamente ajustados à prática.

Ao decidir realizar esta breve, insuficiente e deficiente investigação sobre a necessidade imperiosa de desencadear os mecanismos legais/académicos de sensibilização das consciências para o cumprimento dos Direitos Humanos, precisamente no âmbito da Epistemologia, tinha a indicação das dificuldades que iria encontrar, contudo: enquanto cidadão, no pleno exercício dos seus deveres e direitos; como eterno aprendiz de filósofo, tenho, igualmente, o dever de refletir sobre estes temas. 

Podemos abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades: estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece-me pertinente invocar a máxima: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (ONU: Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artº 1º) e: «Não se deve perder a fé na humanidade: a humanidade é um oceano limpo e um par de pingos sujos não sujam o oceano.» (GANDHI).

A próxima comemoração do 78º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10 Dezembro 1948 – 10 de Dezembro de 2026) infelizmente com o recrudescimento de conflitos e fundamentalismos éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos, comecem a ser tratados com o devido e merecido discernimento e seriedade que merecem; estando sabido que hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, continuam a ser tratados como “boas intenções”, concretamente: por interesses económicos ou burocracias instaladas; por ditaduras e repressões políticas e religiosas.

A manifesta irrelevância com que os Direitos Humanos são invocados é, cada vez mais, alvo de denúncia por parte das Organizações Não Governamentais, do olhar indiscreto dos Média, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra. Neste aniversário, quantos milhões de crianças, idosos e marginalizados estão a passar fome, sabendo-se que algumas Organizações pagam para não se produzir alimentos, para se controlar as matérias-primas, com o objetivo de se criarem condições para que a especulação tenha o caminho mais livre?

Por outro lado, novos desafios apareceram: eutanásia, tráfico de órgãos, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, até mesmo o processo de globalização das economias. A subordinação dos cidadãos ao poder da força bélica dos que “querem, podem e mandam”, pode verificar-se em todos os cantos do mundo. Os Relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” que se pretende livre, justa, digna e pacífica!

BIBLIOGRAFIA.

GANDHI MAHATMA, (1869-1948) líder pacifista indiano. Principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência. (Grande deensor dos Direitos Humanos

ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Lisboa: Amnistia Internacional, Secção Portuguesa, 1998;

BIBLIOGRAFIA GERAL

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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A imortalidade da verdadeira literatura

“A literatura verdadeira nunca pertence apenas ao passado”: Carlos Javier Jarquín analisa a sensibilidade poética de María Beatriz Muñoz Ruiz e seu tributo aos grandes clássicos universais

Carlos Javier Jarquin
Carlos Javier Jarquin
Os grandes autores permanecem vivos enquanto houver alguém disposto a abrir um de seus livros, deixar-se comover por suas palavras e transmitir esse deslumbramento às gerações futuras. Foto, cortesia da autora.

Relembrar os poetas, escritores, artistas e todos aqueles criadores que, por meio de seu talento e da profundidade de sua obra, contribuíram para enriquecer nossa visão de mundo é muito mais do que um exercício de memória: constitui um ato de gratidão e de justiça. Toda criação literária nasce, em maior ou menor grau, do diálogo silencioso que cada autor mantém com aqueles que o precederam. Nenhum escritor surge do vazio; cada voz encontra sua identidade graças às inúmeras vozes que, antes, iluminaram seu caminho.

Recebi o livro de poemas CARTAS AL PASADO, da poeta espanhola María Beatriz Muñoz Ruiz, e devo reconhecer que raras vezes um livro concebido como homenagem consegue, ao mesmo tempo, despertar uma emoção tão íntima e uma admiração tão genuína. Desde suas primeiras páginas, surpreende a delicadeza com que a autora estabelece uma ponte entre seu universo interior e o legado daqueles escritores que marcaram sua formação humana e literária.

Cada poema nasce de uma leitura convertida em experiência, de um de lembrança transformada em gratidão. María Beatriz não se limita a evocar os grandes nomes da literatura universal; conversa com eles a partir da sensibilidade de quem encontrou em seus livros refúgio, inspiração e companhia. Seus versos revelam que a leitura não termina ao fechar um livro, mas continua habitando a memória do leitor até se tornar parte de sua própria identidade.

Em CARTAS AL PASADO, a autora alcança um admirável equilíbrio entre a admiração e a criação. Cada composição constitui uma carta poética dirigida a um escritor cuja obra deixou uma marca indelével em sua vida. Não se trata de um mero percurso biográfico nem de uma evocação nostálgica, mas sim de um diálogo literário onde a emoção se transforma em linguagem e a homenagem adquire uma voz própria.

Em CARTAS AO PASSADO, demonstra-se uma sensibilidade notável para transformar a admiração em poesia.

Os autores que inspiram este livro de poemas formam uma constelação de figuras imprescindíveis da literatura universal: Emily Dickinson, Thomas Hardy, Percy e Mary Shelley, Virginia Woolf, Lord Byron, Jane Austen, Edgar Allan Poe, Emily Brontë, Margaret Mitchell, Antonio Machado, Gustavo Adolfo Bécquer, Calderón de la Barca, Federico García Lorca, Juan Ramón Jiménez, John Keats, William Shakespeare, Louisa May Alcott, Agatha Christie, Rubén Darío, Elizabeth Gaskell, Oscar Wilde, George Orwell e Garcilaso de la Vega. Cada um deles encontra aqui um espaço onde sua memória continua viva graças à palavra de uma poeta que os releê a partir do presente, sem perder o respeito por seu legado.

O livro abre com uma homenagem a Emily Dickinson. Desde os primeiros versos pode-se apreciar a essência de toda a obra:

“Me enseñaste que los versos
Pueden viajar solos.
Me enseñaste a escribir para nadie,
A soñar para mí,
Y vivir sin esperar
Que la música suene.”

(Tradução livre dos versos: “Ensinaste-me que os versos / Podem viajar sozinhos. / Ensinaste-me a escrever para ninguém, / A sonhar para mim, / E viver sem esperar / Que a música soe.”)

María Beatriz Muñoz Ruiz, muestra la portada de su mas reciente libro titulado CARTAS AL PASADO. Obra disponible en Amazon. Foto, cortesìa de la autora.

Nessa breve sequência já se percebe uma das maiores virtudes do livro de poemas: a capacidade de condensar, com aparente simplicidade, a influência espiritual que um escritor pode exercer sobre outro.

Especialmente comovente é o poema dedicado a Federico García Lorca. María Beatriz converte a tragédia de seu assassinato em um canto de memória e permanência. A imagem do poeta fuzilado não aparece unicamente como um episódio histórico, mas como o símbolo de uma voz que continua ecoando muito depois de as armas tentarem silenciá-la:

“Sangre en nuestras calles derramada,
siguieron el rastro de tus poemas,
bajo la luna gitana,
y las verdes ramas se agitaban
mientras aquel 18 de agosto
en la madrugada, te fusilaban.
Y aunque el tempo pase,
Granada guarda tu ausencia
vistiendo de luto eterno…”

(Tradução livre dos versos: “Sangue em nossas ruas derramado, / seguiram o rastro dos teus poemas, / sob a lua cigana, / e os verdes ramos se agitavam / enquanto aquele 18 de agosto / na madrugada, te fuzilavam. / E embora o tempo passe, / Granada guarda a tua ausência / vestindo-se de luto eterno…”)

Ao longo destas páginas, María Beatriz Muñoz Ruiz demonstra uma notável sensibilidade para transformar a admiração em poesia. Mais do que lembrar esses mestres universais, ela os torna novamente presentes. Cada poema constitui um convite para retornar aos seus livros e descobrir, ou redescobrir, a vigência de uma literatura que continua dialogando com o nosso tempo.

Mostra-se igualmente significativo o homenagem a William Shakespeare, onde a autora revela a profundidade do vínculo que mantém com o dramaturgo inglês ao confessar que seu próprio filho leva o seu nome. Essa revelação transforma o poema em uma declaração íntima de gratidão e confirma que as grandes obras terminam fazendo parte da história pessoal daqueles que as amam.

María Beatriz, y su mas reciente libro publicado. Foto, cortesìa de la autora.

Do mesmo modo, o poema dedicado a Rubén Darío transmite uma profunda admiração pelo pai do modernismo. Desde a evocação de sua Nicarágua natal até a lembrança de seu espírito viajante e de seu retorno definitivo à terra que o viu nascer, a autora consegue envolver a figura do poeta em uma atmosfera de respeito e emoção que transcende a homenagem para se tornar uma celebração de sua imortalidade literária.

Mas talvez o maior mérito de CARTAS AL PASADO resida em despertar no leitor um sentimento de pertença. Todos guardamos, consciente ou inconscientemente, um autor que nos ensinou a olhar o mundo com outros olhos; um livro que chegou no momento exato; um poema que permaneceu conosco quando o silêncio parecia ocupar tudo. Este livro nos lembra que ler também é agradecer. Cada vez que voltamos a uma obra que nos transformou, prolongamos a vida de quem a escreveu e mantemos acesa a chama de seu legado.

Querido leitor: provavelmente você descobrirá nestas páginas algum desses escritores que também fazem parte de sua própria memória. Talvez outros ainda estejam por chegar à sua vida. Em qualquer caso, você compreenderá que a verdadeira literatura nunca pertence unicamente ao passado. Os grandes autores permanecem vivos enquanto existir alguém disposto a abrir um de seus livros, deixar-se comover por suas palavras e transmitir esse assombro às gerações futuras.

Que você desfrute deste belo livro de poemas que hoje nos entrega María Beatriz Muñoz Ruiz. Que cada poema seja um convite para voltar aos clássicos, para redescobrir sua grandeza e para compreender que, por mais que a tecnologia avance ou os tempos mudem, nenhuma inovação poderá substituir a capacidade da literatura de emocionar, transformar e tornar imortal a memória daqueles que dedicaram sua vida à beleza da palavra.

Cartaz promocional com fundo de biblioteca aconchegante, velas acesas e uma pena sobre papéis antigos. No centro, há a capa de um livro intitulado "Cartas al Pasado", de María Beatriz Muñoz Ruiz, com prólogo de Carlos Javier Jarquín. O texto informa sobre a descarga gratuita do poemário no Amazon Kindle, disponível exclusivamente de 29 de outubro a 2 de novembro.
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Carlos Javier Jarquín

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Mania: O reflexivo poema de Dorilda Almeida

Poema ‘Mania’ convida o leitor do Jornal ROL a uma pausa reconfortante na rotina.

Dorilda Almeida
Dorilda Almeida
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Eu tenho várias manias:
Mania de dormir à tarde
Todos os dias
Retirar o ego da vida
Para descansar de mim mesma.

Eu tenho várias manias:
Mania de comer bem
Comida feita na hora
Quentinha e saudável
E que faz tão bem.

Eu tenho várias manias:
Mania de sentir alegria
Alegria de viver
Alegria de ser eu
E de amar você.

Eu tenho várias manias:
Mania de conhecer
Gente
Mania de conhecer
O outro
Mania de conhecer
A mim mesma.

Ora eu penso que é mania
Ora eu penso que é querer
Querer sempre é mania
Ou mania é querer?

               

Dorilda Almeida

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Nasci Homem em Corpo de Mulher

Por Bento Jamba Kawaya Tchongolola — Receção crítica da obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’ de Seth Marcelo, analisando seus contrastes sociais e desafios editoriais

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Título: Nasci Homem em Corpo de Mulher / Autor: Seth Marcelo; / Editora: Alexa Cultural; / Local de publicação: Embu das Artes, São Paulo, Brasil; Nº de páginas: 179; / País: Brasil. / Autor da receção crítica: Bento Jamba Kawaya Tchongolola. / Nacionalidade: Angolana

Apresentação e apreciação geral

Nasci Homem em Corpo de Mulher, de Seth Marcelo, é uma obra que convida à reflexão sobre questões sociais, políticas e humanas, apresentando situações que remetem para a realidade angolana. Através de personagens com nomes nacionais, o autor aborda dificuldades sociais, desigualdades e relações de poder, oferecendo ao leitor motivos para questionar a sociedade em que vive.

O título desperta curiosidade e cria expectativas sobre o conteúdo. Contudo, a ligação entre ambos não se torna evidente desde o início, demorando a revelar-se ao longo da leitura. Essa distância entre o título e a narrativa pode levar alguns leitores a questionar o rumo da obra. A capa também carece de ser revista, pois, na minha perspetiva, a imagem escolhida não representa claramente o conteúdo narrado. Além disso, o nome do autor não recebe o destaque necessário, podendo passar despercebido. Uma apresentação visual mais adequada poderia despertar maior interesse e valorizar a obra.

Conteúdo e relevância social

Ao longo da narrativa, destaca-se o trajeto do Mwangolé, tendo Tchipopi como personagem principal. A história apresenta as dificuldades que a vida lhe impõe e a forma como estas influenciam o seu percurso. Tchipopi casa-se primeiro com Teresa e posteriormente, com Liz. As relações entre as personagens apresentam diferentes situações da vida, incluindo desafios pessoais e familiares. A obra procura mostrar que, perante as adversidades é possível encontrar formas de mudança e transformação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a sua capacidade de aproximar o leitor da realidade angolana. Inicialmente, nem sempre é fácil identificar o contexto nacional da narrativa; porém, quando surgem expressões características da linguagem angolana, a leitura torna-se mais familiar e desperta maior interesse. A obra aborda situações que muitos angolanos reconhecem no quotidiano, criando uma sensação de identificação e acolhimento. É como se alguém que nunca conhecemos pessoalmente compreendesse dificuldades que fazem parte da nossa experiência. Esta proximidade constitui uma das qualidades mais relevantes da narrativa.

Entre os temas abordados encontram-se o neocolonialismo, a desigualdade, a escassez, a religião e as relações entre poder e verdade. Algumas passagens apresentam reflexões de carácter filosófico, levando o leitor a questionar a realidade, o comportamento social e a importância de observar antes de falar. A narrativa também permite refletir sobre a forma como a falta de poder pode limitar a voz de determinadas pessoas, cujas verdades nem sempre recebem a devida atenção. Nesse sentido, o livro pode funcionar como um alerta para problemas sociais e políticos que continuam presentes na sociedade angolana. Apesar destas qualidades, considero que a narrativa perde força à medida que avança.

Os assuntos que mais despertam a minha atenção encontram-se sobretudo no início, enquanto algumas partes posteriores se tornam previsíveis para quem acompanha de perto a realidade do país. A repetição de questões políticas e sociais já amplamente discutidas pode diminuir o interesse e tornar a leitura menos envolvente.

Estrutura narrativa e aspectos editoriais

A organização do texto constitui um dos pontos que poderiam ser melhorados. A narrativa desenvolve-se continuamente, sem capítulos titulados ou divisões claramente identificadas. Embora essa possa ter sido uma opção do autor, a ausência de pausas estruturais torna a leitura, em determinados momentos, monótona e pode levar o leitor a perder o interesse. A divisão em capítulos, com títulos adequados, permitiria organizar melhor as ideias e tornar a leitura mais dinâmica.

No domínio da revisão textual, identifiquei algumas falhas que merecem atenção. Nas páginas 77 e 78, existem problemas relacionados com a escrita e a acentuação. Na página 80, há um aspeto de pontuação a corrigir. Na página 160, a palavra «alembamento» aparece escrita incorretamente, devendo ser «alambamento», sem por de parte as páginas 59, 156, 157 , 169 e 174;. Estes exemplos evidenciam a necessidade de uma revisão ortográfica e gramatical mais rigorosa. Outro problema recorrente é o espaçamento duplo entre palavras, observado em grande parte das páginas. Essa irregularidade prejudica a uniformidade visual e demonstra a necessidade de maior cuidado na composição gráfica. A parte final da obra também merece atenção, pois o tipo de letra utilizado na conclusão dificulta a leitura e compromete a apresentação do conteúdo.

A informação biográfica e bibliográfica do autor poderia igualmente ser melhor organizada. Considero que seria mais adequado reservar uma página exclusiva para apresentar as obras de Seth Marcelo, separando-as da biografia.

Dessa forma, os seus livros teriam maior visibilidade e não correriam o risco de passar despercebidos aos leitores interessados. A própria apresentação da biografia poderia ser mais impactante, valorizando melhor o percurso do autor.

Em síntese, Nasci Homem em Corpo de Mulher, apresenta reflexões relevantes sobre a realidade social e política angolana. Destaca-se pela proximidade que estabelece com o leitor e pela abordagem de questões que merecem ser discutidas. A capacidade de despertar identificação e questionamento constitui um dos seus principais méritos. Desta feita, a obra beneficiaria de uma estrutura narrativa mais organizada, de uma revisão textual rigorosa e de melhorias na apresentação gráfica.

A capa, o espaçamento entre palavras, a tipografia da conclusão e a organização da informação sobre o autor são aspetos que merecem ser revistos. A minha apreciação é, portanto, equilibrada: reconheço o valor social e reflexivo da obra, mas considero que existem aspetos narrativos e editoriais que poderiam ser melhorados. Uma maior atenção a esses elementos contribuiria para uma leitura mais fluida, organizada e significativa, permitindo que as ideias do autor chegassem ao leitor com maior clareza e impacto.

Bento Jamba Kawaya Tchongolola

Bento Jamba Kawaya Tchongolola, natural do Município do Lobito e residente no município de Cacuaco, Angola, é bacharel em Filosofia da Religião no Seminário Católico de Benguela (secção Filosófico) e licenciado em Ciências da Educação, na especialidade de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Kangonjo de Angola, Província do Icolo e Bengo,

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