Márcio José Zacarias: ‘Cordel das memórias que vão e ficam’
Márcio José ZacariasImagem criada pela IA do ChatGPT
Introdução
O Alzheimer é uma doença silenciosa.
Ele não chega como uma tempestade repentina, entretanto como uma névoa lenta que vai cobrindo os caminhos da memória. Primeiro desaparecem pequenas coisas: datas, nomes e objetos esquecidos sobre a mesa. Depois, pouco a pouco, histórias inteiras começam a se apagar.
Para quem vive a doença, a memória se torna um território incerto. Para quem acompanha de perto — filhos, netos, companheiros e cuidadores — nasce um outro aprendizado: o de amar para além das lembranças. Quando as palavras falham, restam os gestos, o toque e uma amorosa presença. O cordel a seguir reúne diferentes vozes de uma mesma família diante dessa travessia. Cada estrofe revela um olhar sobre a perda da memória e, ao mesmo tempo, sobre aquilo que permanece. Porque, mesmo quando as lembranças se desfazem, algo essencial continua vivo: o afeto.
É sobre as memórias que partem e sobre aquelas que insistem em ficar que este cordel se constrói.
Cordel das Memórias que Vão e Ficam
Eu sou a filha mais velha, Ele foi luz da minha vida, Sabia todas as datas, Cada história repetida. Hoje pergunta meu nome Com a voz meio perdida.
Eu sou o filho que aprendeu Com ele todo o serviço, Martelo, prego e madeira Não tinham nenhum feitiço. Hoje perde as próprias chaves E diz que foi sumiço.
Sou a esposa companheira De quarenta anos de caminho, Ele sabia meus gostos Sem eu falar baixinho. Hoje me chama ‘senhora’ Como quem chama um vizinho.
Sou o neto que aprendeu A soltar pipa no vento, Vovô contava histórias Que duravam muito tempo. Agora esquece o final No meio do pensamento.
Sou a irmã de infância Do terreiro e pé no chão, Brincamos de bola e roda Debaixo do mesmo verão. Hoje ele sorri pra mim Mas não sabe quem eu sou não.
Sou o médico que explica Com cuidado e precisão: Não é teimosia ou preguiça, Nem falta de atenção. É a memória se apagando Como vela no lampião.
Sou a cuidadora da casa Que o ajuda todo dia, Banho, remédio e conversa Com calma e companhia. Mesmo sem lembrar de tudo Ele ainda sente alegria.
Somos a família inteira Aprendendo outra lição: Amar mais devagarinho Com paciência e coração. Quem perde suas memórias Precisa mais de união.
E eu sou aquele que esquece No silêncio da jornada, Os nomes fogem de mim Como ave assustadas. Mas quando seguram minha mão Sei que não perdi nada.
Soldado Wandalika Imagem fotografada com o telemóvel do autor, recriada por IA. Bairro avô Kumbi, Kilamba kiaxi, Luanda Angola.
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É denso É intenso tem poesia no seu quotidiano Correm as quitandeiras ao som de seus cânticos vermelhos O sol nasce beijando sua pele e queima seu corpo negro como dilolo O fiscal chega e leva o negócio A canção intensifica sua melancolia Vozes unissímas surgem na harmonia do ritmo na praça. O som da cidade todos comem a fome sem preguiça Live dos kuduristas é terapia O sorriso da criança faz magia Ninguém desiste da trilha O Som Da Cidade No hospital Há um som peculiar nos olhos que esperam a solução Há também um grito literário ansiando por valorização A cidade é cheia de vazios Rica pela realeza de seus filhos Desenvolve malembe malembe ao nosso ritmo, nosso esforço, nosso governo! Na observação dos dias No nascer da aurora A cidade espelha sua aura para o planeta Cada um aqui faz a sua parte pela pátria E o som multiplica sua melodia. O Som Da Cidade
Ella DominiciImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ab0072-dde8-832e-b512-f840387fe76b
“Uma mulher que conhece a própria profundidade pode vergar sob o mundo, mas nunca perder a estatura”
“Marina Silva não é apenas uma biografia política; ela é uma força da natureza que aprendeu a ler a terra antes de decifrar o alfabeto. Sua trajetória é um épico brasileiro, escrito com o barro do Acre e a resiliência de quem venceu a fome e a doença para se tornar a voz mais potente da ecologia global. Um olhar sobre essa jornada se abre! Para a mulher brasileira, Marina Silva é o símbolo da ascensão pela resistência. Ela não chegou ao topo ‘apesar’ de ser uma mulher negra, de origem humilde e seringueira, mas sim carregando esses mundos consigo.”
Junco e a Raiz
Do barro do Bapuri, a escrita se fez orvalho, Não no papel, mas na pele, no corte, no galho. A menina que vencia a febre com o olhar no poente, Aprendeu que o destino é semente, e a fome, serpente.
A Tecelã do Chão e do Vento que uiva
Ela não herdou o cetro, mas a calosidade; nasceu onde o mapa se apaga e a mata se impõe. Menina de palha e de febre, que leu no orvalho o que os doutores de pedra jamais saberão: que a vida é um fio de água vencendo a montanha.
Para as mulheres deste solo de sol e de mágoa, ela é o espelho de barro que não se estraçalha. Não ensinou o grito que fere, mas o silêncio que ocupa, a autoridade de quem sabe o nome de cada semente e a urgência de quem pariu o amanhã no deserto.
Marina é o junco: o mistério de quem se inclina para ouvir o que a terra confidencia à raiz. Ela é a prova de que a delicadeza é um músculo, e que o poder, quando puro, tem a cor do alecrim e a teimosia das águas que voltam ao mar sem fim.
Verga o corpo franzino sob o vento que ruge e devora, Mas a raiz é de ferro; ela planta o sol na aurora. Não é o carvalho soberbo que estala na solidão, Mestra das águas, tecelã de um amanhã urgente, Marina Silva é a prova: a delicadeza é o pulso da mente.
Herança de fibra, de preta, de selva e de fé, ela gravou na história o que o tempo não rasura: que uma mulher que conhece a própria profundidade pode vergar sob o mundo, mas nunca perder a estatura.
‘José de Alencar e o romantismo brasileiro: literatura, identidade nacional e consolidação cultural’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoRetrato colorizado de José de Alencar, escritor cearense e Patrono do Romantismo Brasileiro, apresentado em composição clássica do século XIX. A imagem evidencia sua expressão serena e intelectual, com vestimenta formal da época, barba longa e olhar contemplativo, simbolizando a sobriedade, o humanismo e o legado literário que marcou a formação da identidade cultural brasileira. Imagem criada por IA do chat GPT.
Resumo
José de Alencar (1829–1877) é uma das figuras centrais da literatura brasileira do século XIX, sendo reconhecido como o Patrono do Romantismo Brasileiro. Sua produção literária, marcada pelo nacionalismo, pelo indianismo, pelo regionalismo e pela crítica social, contribuiu de forma decisiva para a consolidação de uma literatura autenticamente nacional. Este artigo tem como objetivo analisar a trajetória intelectual de José de Alencar, destacando suas atividades literárias, sua atuação no jornalismo e na política, bem como seu papel na construção da identidade cultural brasileira. A pesquisa baseia-se em revisão bibliográfica de obras clássicas da crítica literária brasileira, evidenciando a permanência e a relevância de seu legado.
Palavras-chave: José de Alencar; Romantismo Brasileiro; Literatura Nacional; Identidade Cultural.
JOSÉ DE ALENCAR AND BRAZILIAN ROMANTICISM: LITERATURE, NATIONAL IDENTITY AND CULTURAL CONSOLIDATION
Abstract
José de Alencar (1829–1877) is one of the central figures of nineteenth-century Brazilian literature and is recognized as the Patron of Brazilian Romanticism. His literary production, marked by nationalism, Indianism, regionalism, and social criticism, played a decisive role in the consolidation of an authentically national literature. This article aims to analyze the intellectual trajectory of José de Alencar, highlighting his literary activities, his work in journalism and politics, as well as his role in the construction of Brazilian cultural identity. The research is based on a bibliographical review of classical works of Brazilian literary criticism, emphasizing the continuity and relevance of his legacy.
Keywords: José de Alencar; Brazilian Romanticism; National Literature; Cultural Identity.
1 Introdução
O Romantismo brasileiro representou um marco fundamental no processo de consolidação da literatura nacional, configurando-se como o primeiro movimento literário a propor, de forma sistemática, o rompimento com a dependência estética e cultural dos modelos europeus. Surgido em um contexto histórico marcado pela recente independência política do Brasil, o Romantismo assumiu a tarefa de contribuir para a construção simbólica da nação, buscando afirmar valores, temas e representações capazes de expressar uma identidade própria. Nesse sentido, a literatura passou a desempenhar papel central na formação do imaginário nacional, articulando-se às demandas históricas, sociais e culturais do século XIX.
Diferentemente do Romantismo europeu, fortemente associado à exaltação do individualismo e do sentimentalismo, o Romantismo brasileiro adquiriu características singulares, incorporando o nacionalismo, a valorização da natureza tropical, o resgate do passado histórico e a idealização do indígena como símbolo fundador da nacionalidade. Conforme destaca Candido (2006), a literatura romântica no Brasil não se limitou à expressão subjetiva do eu, mas assumiu uma função social e histórica, atuando como instrumento de afirmação cultural e de elaboração da identidade coletiva.
Nesse contexto, José de Alencar emerge como a figura central do projeto romântico nacional. Sua obra não apenas acompanhou os princípios do movimento, mas conferiu-lhe unidade, amplitude temática e profundidade simbólica. Ao longo de sua produção literária, Alencar buscou representar o Brasil em suas múltiplas dimensões — histórica, étnica, regional e social — por meio de romances indianistas, urbanos e regionalistas, estabelecendo um modelo de literatura comprometido com a realidade nacional. Para Bosi (2015), sua escrita revela uma tentativa consciente de transformar a ficção em espaço de interpretação do país, articulando estética literária e pensamento social.
Além de romancista, José de Alencar atuou como jornalista, crítico e político, o que ampliou significativamente o alcance de sua intervenção intelectual. Sua presença nos debates públicos do Império evidencia a compreensão da literatura como instrumento de formação cultural e de reflexão sobre os rumos da sociedade brasileira. Essa atuação múltipla reforça o caráter orgânico de seu projeto literário, no qual arte, política e identidade nacional encontram-se profundamente interligadas.
O reconhecimento de José de Alencar como Patrono do Romantismo Brasileiro decorre, portanto, de sua contribuição decisiva para a consolidação do movimento no país. Sua obra estabeleceu paradigmas estéticos e temáticos que influenciaram gerações posteriores de escritores e permanece como referência fundamental nos estudos literários brasileiros. Ao construir personagens, cenários e narrativas voltadas à representação do Brasil, Alencar ajudou a instituir uma tradição literária comprometida com a afirmação da cultura nacional.
Diante desse panorama, o presente artigo tem como objetivo analisar a trajetória intelectual de José de Alencar e sua contribuição ao Romantismo Brasileiro, destacando sua produção literária, sua atuação no jornalismo e na política, bem como seu papel na construção da identidade cultural brasileira. A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica de obras clássicas da crítica literária nacional, buscando evidenciar a permanência, a relevância e a atualidade do legado alencariano no cenário cultural do Brasil.
2 Formação intelectual e atuação jornalística
José Martiniano de Alencar nasceu em 1º de maio de 1829, na vila de Messejana, então pertencente à província do Ceará. Filho do senador José Martiniano Pereira de Alencar, figura de grande projeção política no Império, cresceu em um ambiente marcado pela intensa circulação de ideias, debates públicos e discussões sobre os rumos da nação recém-independente. Essa convivência precoce com o universo político e intelectual exerceu influência decisiva em sua formação, despertando desde cedo o interesse pela leitura, pela escrita e pelas questões nacionais.
Ainda jovem, Alencar transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde realizou seus estudos iniciais, seguindo posteriormente para São Paulo, ingressando na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. O ambiente acadêmico da instituição, reconhecida como um dos principais centros formadores da elite intelectual brasileira do século XIX, foi determinante para o amadurecimento de seu pensamento crítico. Durante o curso jurídico, teve contato com as correntes filosóficas e literárias europeias, sobretudo o Romantismo francês, ao mesmo tempo em que passou a refletir sobre a inadequação da simples transposição desses modelos para a realidade brasileira.
Nesse período, Alencar aproximou-se de outros jovens intelectuais que, assim como ele, buscavam afirmar uma literatura nacional independente. A experiência universitária consolidou sua percepção de que o Brasil necessitava construir não apenas instituições políticas próprias, mas também uma cultura literária capaz de representar suas especificidades históricas, sociais e linguísticas.
Antes de alcançar notoriedade como romancista, José de Alencar destacou-se no jornalismo, atividade que desempenhou papel central em sua trajetória intelectual. Atuou como redator, cronista e crítico em importantes periódicos do período imperial, como o Correio Mercantil, o Diário do Rio de Janeiro e o Jornal do Commercio. O espaço jornalístico funcionou como verdadeiro campo de experimentação estética e ideológica, permitindo-lhe dialogar diretamente com o público leitor e intervir nos debates culturais da época.
De acordo com Bosi (2015), o jornalismo do século XIX constituiu um importante laboratório literário para os escritores românticos, possibilitando a difusão de novas ideias estéticas, a formação de leitores e o exercício contínuo da escrita. Nesse ambiente, Alencar desenvolveu recursos narrativos que posteriormente seriam incorporados aos seus romances, como a construção de personagens, o domínio do enredo e o refinamento do estilo literário.
Além do aspecto formal, sua atuação jornalística foi marcada por intenso engajamento crítico. Alencar utilizou a imprensa para defender a valorização da língua portuguesa falada no Brasil, posicionando-se contra o purismo linguístico de matriz europeia. Para o autor, a língua deveria refletir o uso vivo do povo brasileiro, incorporando vocábulos, expressões e estruturas próprias da realidade nacional. Essa concepção linguística estava diretamente relacionada ao seu projeto de autonomia cultural.
Nesse contexto, destaca-se a célebre polêmica travada com o escritor português Antônio Feliciano de Castilho, episódio que simboliza o embate entre a tradição literária portuguesa e o nascente ideal de independência literária brasileira. A controvérsia evidenciou o posicionamento firme de Alencar em defesa de uma literatura desvinculada da tutela cultural europeia, reafirmando a necessidade de se pensar o Brasil a partir de suas próprias referências.
O jornalismo também possibilitou a Alencar articular literatura e política, compreendendo a escrita como instrumento de formação da consciência nacional. Seus textos revelam um intelectual atento às transformações sociais do Império, às tensões entre modernidade e tradição e aos desafios da construção do Estado brasileiro. Assim, a imprensa tornou-se um espaço privilegiado de elaboração de seu pensamento estético e ideológico.
Dessa forma, a formação intelectual de José de Alencar, aliada à sua intensa atuação jornalística, constituiu o alicerce de seu projeto literário. Foi nesse período que se consolidaram os princípios fundamentais de sua obra: o nacionalismo, a valorização da língua brasileira, o compromisso com a representação do país e a compreensão da literatura como instrumento de afirmação cultural. Esses elementos seriam plenamente desenvolvidos em sua produção romanesca, tornando-o o principal expoente do Romantismo Brasileiro.
3 A atuação política e o intelectual público
A atuação política de José de Alencar constitui um aspecto fundamental para a compreensão de sua trajetória intelectual e de seu projeto literário. Longe de representar uma atividade paralela ou dissociada de sua produção artística, sua inserção na vida pública do Império esteve profundamente articulada à sua visão de nação, de cultura e de identidade brasileira. Alencar pertenceu a uma geração de intelectuais que compreendia a política e a literatura como esferas complementares na construção do Estado nacional no século XIX.
Oriundo de uma família de tradição política, José de Alencar ingressou precocemente na vida pública. Filiado ao Partido Conservador, foi eleito deputado provincial pelo Ceará e, posteriormente, deputado geral pelo Império. Sua participação no Parlamento foi marcada por intensa atividade discursiva, na qual defendeu temas relacionados à organização do Estado, à centralização administrativa, à educação e à valorização das instituições nacionais.
Durante sua trajetória política, Alencar também exerceu o cargo de ministro da Justiça, função que lhe conferiu grande visibilidade e influência no cenário imperial. Nesse posto, demonstrou preocupação com a modernização das estruturas administrativas e jurídicas do país, ao mesmo tempo em que buscou afirmar a autonomia das instituições brasileiras. Ainda que alinhado ao conservadorismo político, seu pensamento apresentava nuances próprias, revelando contradições e tensões típicas do período.
Segundo Schwarcz (1998), a elite intelectual do Império vivia o dilema entre a herança colonial e o desejo de modernização, o que se refletia nas disputas políticas e nos projetos de nação em circulação. Nesse contexto, José de Alencar destacou-se como um intelectual que, embora integrado ao poder, não deixou de exercer crítica às estruturas vigentes.
Um dos episódios mais emblemáticos de sua carreira política foi o conflito com o imperador Dom Pedro II, especialmente em razão de divergências ideológicas e pessoais. Apesar de sua projeção nacional, Alencar não foi escolhido para o cargo de senador vitalício — posição de grande prestígio no Império —, fato que muitos estudiosos interpretam como consequência direta desse embate. Tal episódio revela os limites da atuação intelectual no interior do sistema político imperial e evidencia as tensões entre poder, cultura e autonomia de pensamento.
A experiência política de Alencar repercutiu diretamente em sua obra literária. Seus romances urbanos, por exemplo, apresentam críticas sutis às convenções sociais, às hierarquias econômicas e às relações de poder que estruturavam a sociedade oitocentista. Já nos romances históricos e indianistas, observa-se uma tentativa de elaborar simbolicamente as origens do Estado nacional, projetando valores como honra, heroísmo e pertencimento coletivo.
Para Candido (2006), a literatura romântica brasileira exerceu papel decisivo na interpretação do país, funcionando como forma de pensamento social. Nesse sentido, a obra de José de Alencar pode ser compreendida como extensão de sua atuação política, ainda que expressa por meio da ficção. Seus personagens, conflitos e narrativas refletem as inquietações de um intelectual comprometido com o destino histórico da nação.
Além disso, Alencar utilizou o discurso político para defender a importância da cultura e da literatura como instrumentos de coesão social. Em seus pronunciamentos e escritos públicos, enfatizou a necessidade de fortalecer uma identidade nacional capaz de integrar as diversas regiões e grupos sociais do país. Essa concepção reforça a compreensão de que, para o autor, a consolidação do Estado brasileiro dependia não apenas de instituições jurídicas, mas também de uma base simbólica compartilhada.
A atuação política de José de Alencar, portanto, não pode ser interpretada de forma isolada ou meramente circunstancial. Ela integra um projeto intelectual mais amplo, no qual literatura, jornalismo e política constituem dimensões interdependentes. Sua experiência no poder contribuiu para aprofundar sua leitura crítica da sociedade brasileira e forneceu elementos essenciais para a elaboração de sua obra ficcional.
Dessa forma, José de Alencar configura-se como um dos mais importantes exemplos do intelectual público do século XIX, cuja produção literária dialoga constantemente com os debates políticos e sociais de seu tempo. Sua trajetória evidencia que o Romantismo Brasileiro não foi apenas um movimento estético, mas também um espaço de reflexão sobre a formação do Estado, da cultura e da identidade nacional.
4 A obra literária e os ciclos temáticos
A produção literária de José de Alencar constitui um dos projetos mais sistemáticos e abrangentes da literatura brasileira do século XIX. Diferentemente de muitos escritores de sua época, cuja obra apresenta caráter fragmentado ou circunstancial, Alencar desenvolveu uma proposta estética coerente, voltada à representação simbólica da nação brasileira em suas múltiplas dimensões. Sua literatura não se limita à expressão do sentimentalismo romântico, mas articula ficção, história, política e identidade cultural, configurando-se como verdadeiro programa intelectual.
A crítica literária costuma organizar a obra alencariana em ciclos temáticos, classificação que permite compreender a amplitude de seu projeto nacional. Esses ciclos — indianista, urbano, regionalista e histórico — não devem ser interpretados como compartimentos estanques, mas como dimensões complementares de uma mesma concepção de literatura, orientada pela busca da identidade brasileira (CANDIDO, 2006).
4.1 O ciclo indianista e o mito fundador da nacionalidade
O indianismo ocupa posição central no projeto literário de José de Alencar, assumindo função simbólica de elaboração do mito fundador da nação. Em romances como O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), o autor constrói uma representação idealizada do indígena, concebido como herói nobre, corajoso e moralmente elevado.
Tal idealização não deve ser compreendida como simples reprodução etnográfica, mas como estratégia estética e ideológica. Conforme observa Candido (2006), o índio romântico não corresponde ao indígena histórico, mas a um símbolo literário criado para preencher o vazio de uma mitologia nacional inexistente no Brasil pós-colonial. Ao eleger o indígena como protagonista, Alencar buscou afastar-se do passado colonial europeu e afirmar uma origem autóctone para a identidade brasileira.
Entre essas obras, Iracema destaca-se como síntese máxima do indianismo romântico. A narrativa, marcada por linguagem poética e forte carga simbólica, apresenta a união entre a indígena Iracema e o colonizador Martim como metáfora do nascimento do povo brasileiro. O romance ultrapassa a dimensão narrativa e assume caráter mítico, articulando natureza, memória e história na construção da nacionalidade.
4.2 O ciclo urbano e a crítica da sociedade oitocentista
Nos romances urbanos, José de Alencar desloca o foco da narrativa para o espaço da cidade, especialmente o Rio de Janeiro, então capital do Império. Obras como Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875) analisam os costumes da sociedade burguesa, revelando contradições morais, econômicas e afetivas do mundo urbano em processo de modernização.
Nesse ciclo, o autor aprofunda a análise psicológica dos personagens e aborda temas como o casamento por interesse, a mercantilização das relações sociais, a condição feminina e a hipocrisia moral. Em Senhora, por exemplo, o enredo gira em torno da inversão das relações econômicas no matrimônio, transformando o amor em objeto de negociação financeira — crítica contundente às estruturas patriarcais e burguesas do período.
Segundo Bosi (2015), os romances urbanos de Alencar revelam uma tensão constante entre ideal romântico e realidade social, funcionando como instrumento de observação crítica da sociedade imperial. Embora mantenham elementos sentimentais, essas narrativas antecipam preocupações que seriam aprofundadas pelo Realismo nas décadas seguintes.
4.3 O ciclo regionalista e a valorização do Brasil interior
O regionalismo constitui outra vertente fundamental da obra alencariana. Em romances como O Sertanejo (1875), Til (1872) e O Tronco do Ipê (1871), o autor amplia o espaço da literatura nacional ao deslocar a narrativa para o interior do país, valorizando paisagens, costumes, tradições e formas de sociabilidade rurais.
Ao retratar o sertão e o campo, Alencar buscou demonstrar que a identidade brasileira não se restringia aos centros urbanos litorâneos. Essa ampliação geográfica da ficção contribuiu para a construção de uma literatura plural, capaz de representar a diversidade cultural do país.
O herói sertanejo, assim como o indígena, é frequentemente idealizado, incorporando valores como coragem, honra e lealdade. No entanto, diferentemente do indianismo, o regionalismo apresenta maior aproximação com a realidade social, estabelecendo transição entre o Romantismo e o Realismo literário.
4.4 O romance histórico e a interpretação do passado nacional
José de Alencar também se dedicou ao romance histórico, gênero que lhe permitiu reinterpretar episódios do passado brasileiro à luz do projeto romântico. Obras como As Minas de Prata (1865) e A Guerra dos Mascates (1873) articulam ficção e história, transformando eventos históricos em matéria literária.
Inspirado nos modelos de Walter Scott, Alencar utilizou o romance histórico como instrumento pedagógico e simbólico, buscando despertar o sentimento de pertencimento nacional. Conforme Coutinho (1997), esse gênero desempenhou papel decisivo na formação da consciência histórica brasileira, ao apresentar o passado como narrativa compartilhada.
4.5 Unidade estética e projeto nacional
Apesar da diversidade temática, a obra de José de Alencar apresenta notável unidade ideológica. Em todos os ciclos, observa-se a preocupação constante com a representação do Brasil e com a afirmação de uma literatura autônoma. A natureza exuberante, o passado histórico, os tipos humanos e as relações sociais são continuamente mobilizadas como elementos constitutivos da identidade nacional.
Para Candido (2006), o mérito maior de Alencar reside na sistematização de um projeto literário consciente, capaz de integrar estética e nacionalidade. Sua obra não apenas consolidou o Romantismo Brasileiro, mas estabeleceu fundamentos duradouros para o desenvolvimento posterior da literatura no país.
Assim, a produção literária alencariana deve ser compreendida não como simples manifestação do sentimentalismo romântico, mas como uma das mais importantes tentativas de interpretação do Brasil por meio da ficção. Sua obra permanece como referência central para a compreensão da formação cultural e literária da nação brasileira.
5 José de Alencar como Patrono do Romantismo Brasileiro: uma abordagem historiográfica
O reconhecimento de José de Alencar como Patrono do Romantismo Brasileiro resulta de um processo historiográfico consolidado ao longo do século XX, fundamentado na amplitude de sua produção literária, na coerência de seu projeto estético e na centralidade de sua obra para a formação da literatura nacional. Tal reconhecimento não se estabelece apenas por critérios cronológicos ou quantitativos, mas sobretudo pela capacidade do autor de sistematizar, ampliar e consolidar os princípios do Romantismo no Brasil.
A historiografia literária brasileira, desde seus primeiros estudos críticos, identificou em Alencar a figura do escritor que conferiu unidade e maturidade ao movimento romântico. Para autores como Sílvio Romero e José Veríssimo, ainda no final do século XIX, Alencar já aparecia como o romancista que melhor traduziu os ideais nacionalistas do período, sendo responsável por elevar o romance brasileiro a um patamar de autonomia estética.
No século XX, essa interpretação foi aprofundada por críticos como Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Alfredo Bosi, cujas obras contribuíram decisivamente para consolidar a imagem de José de Alencar como eixo estruturador do Romantismo Brasileiro. Segundo Coutinho (1997), Alencar foi o primeiro escritor a conceber a literatura nacional como um sistema orgânico, no qual linguagem, temática e forma literária estavam subordinadas ao projeto de representação do Brasil.
A abordagem historiográfica contemporânea reconhece que o Romantismo brasileiro não pode ser compreendido como simples transplante do modelo europeu. Ao contrário, trata-se de um movimento adaptado às condições históricas de um país recém-independente, que buscava afirmar sua identidade cultural diante do legado colonial. Nesse processo, José de Alencar desempenhou papel central ao transformar a literatura em espaço simbólico de fundação nacional.
Candido (2006) observa que a literatura romântica brasileira assumiu função estruturante na formação da consciência nacional, pois foi responsável por criar mitos, heróis e narrativas capazes de conferir sentido histórico à experiência brasileira. Nesse contexto, a obra alencariana destaca-se por apresentar um projeto sistemático de nacionalização da literatura, evidenciado pelo indianismo, pelo regionalismo, pela valorização da paisagem tropical e pela defesa de uma linguagem literária própria.
Do ponto de vista historiográfico, a consagração de Alencar como patrono não se limita ao reconhecimento institucional, mas decorre de sua permanência no cânone literário. Seus romances continuam sendo objeto de leitura, análise e debate nos currículos escolares e universitários, o que demonstra a longevidade de sua influência. Para Bosi (2015), a permanência de um autor no cânone está diretamente relacionada à sua capacidade de dialogar com diferentes épocas, condição plenamente observável na obra alencariana.
A fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, contribuiu para reforçar esse processo de canonização. José de Alencar foi escolhido como patrono da cadeira nº 23, homenagem que simboliza sua importância fundadora na tradição literária nacional. A escolha reflete não apenas o prestígio do autor, mas o reconhecimento de sua função estruturante na consolidação do romance brasileiro.
A historiografia literária mais recente, embora critique certos aspectos do Romantismo — como a idealização do indígena e a visão harmonizadora da formação nacional —, não invalida a relevância histórica da obra de Alencar. Ao contrário, tais revisões ampliam a compreensão de seu papel, inserindo-o nas contradições próprias do século XIX. Conforme assinala Schwarcz (1998), compreender os limites ideológicos do período não significa negar sua importância, mas contextualizá-la historicamente.
Assim, o título de Patrono do Romantismo Brasileiro atribuído a José de Alencar deve ser entendido como resultado de um consenso crítico construído ao longo de mais de um século de estudos literários. Sua obra representa o momento em que o romance brasileiro alcança maturidade formal e consciência nacional, estabelecendo paradigmas estéticos que influenciaram autores posteriores, como Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Euclides da Cunha.
Sob a perspectiva historiográfica, José de Alencar figura como um dos principais intelectuais do processo de formação cultural do Brasil. Sua literatura não apenas refletiu o espírito romântico de sua época, mas contribuiu ativamente para a elaboração simbólica da nação. Por essa razão, sua consagração como Patrono do Romantismo Brasileiro permanece plenamente justificada no campo dos estudos literários.
6 Considerações finais
A análise da trajetória intelectual e literária de José de Alencar permite compreender a centralidade de sua obra no processo de consolidação da literatura brasileira do século XIX. Inserido em um contexto histórico marcado pela recente independência política do país e pela necessidade de afirmação cultural, o autor assumiu papel decisivo na construção simbólica da nação, utilizando a literatura como instrumento de interpretação do Brasil e de elaboração de sua identidade coletiva.
Ao longo deste artigo, buscou-se demonstrar que o Romantismo Brasileiro não constituiu apenas um movimento estético, mas um projeto cultural profundamente vinculado às demandas históricas do período imperial. Nesse cenário, José de Alencar destacou-se como o intelectual que conferiu unidade, amplitude e maturidade ao movimento romântico, articulando literatura, política, jornalismo e pensamento social em um programa coerente de nacionalização da cultura.
A formação intelectual do autor, desenvolvida em ambiente politicamente ativo e consolidada no espaço acadêmico da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, forneceu-lhe as bases teóricas e críticas necessárias para a elaboração de seu projeto literário. Sua atuação jornalística, por sua vez, revelou-se fundamental para o amadurecimento de seu pensamento estético, permitindo-lhe intervir diretamente nos debates culturais do Império, defender a autonomia da literatura brasileira e propor uma concepção de língua vinculada à realidade nacional.
No campo político, José de Alencar afirmou-se como intelectual público, cuja participação na vida institucional do Império esteve intimamente relacionada à sua produção literária. Sua atuação parlamentar e ministerial, marcada por tensões e contradições, contribuiu para aprofundar sua compreensão das estruturas sociais brasileiras, elementos que se refletiram de forma simbólica em seus romances. A articulação entre experiência política e criação literária evidencia o caráter orgânico de sua obra, na qual ficção e realidade histórica se interpenetram.
A análise dos ciclos temáticos de sua produção literária permitiu evidenciar a dimensão abrangente de seu projeto nacional. O indianismo, ao construir mitos fundadores da nacionalidade; o romance urbano, ao problematizar as contradições da sociedade oitocentista; o regionalismo, ao valorizar o Brasil interior; e o romance histórico, ao reinterpretar o passado nacional, constituem diferentes faces de uma mesma proposta: representar o país em sua diversidade e complexidade. Essa multiplicidade temática demonstra que a obra de Alencar ultrapassa os limites do sentimentalismo romântico, configurando-se como uma das mais completas tentativas de interpretação literária do Brasil.
A abordagem historiográfica reforçou que o reconhecimento de José de Alencar como Patrono do Romantismo Brasileiro não resulta de mera consagração institucional, mas de um consenso crítico construído ao longo de décadas de estudos literários. A permanência de sua obra no cânone, a influência exercida sobre gerações posteriores de escritores e sua presença contínua no ensino e na pesquisa acadêmica confirmam a relevância histórica e cultural de seu legado.
Embora a crítica contemporânea reconheça os limites ideológicos do Romantismo — como a idealização do indígena e a visão harmonizadora da formação nacional —, tais aspectos devem ser compreendidos à luz de seu contexto histórico. A obra alencariana permanece fundamental não por oferecer respostas definitivas, mas por revelar as tensões, os projetos e os dilemas que marcaram o processo de construção da identidade brasileira no século XIX.
Dessa forma, José de Alencar consolida-se como um dos principais intelectuais da história cultural do Brasil. Sua literatura contribuiu decisivamente para instituir uma tradição literária autônoma, capaz de dialogar com o passado, interpretar o presente e projetar simbolicamente o futuro da nação. Ao transformar a ficção em espaço de reflexão histórica e cultural, Alencar legou à literatura brasileira não apenas um conjunto expressivo de obras, mas um modelo duradouro de engajamento intelectual.
Conclui-se, portanto, que o estudo da vida e da obra de José de Alencar permanece essencial para a compreensão da formação da literatura brasileira e da própria identidade nacional. Seu legado, consolidado pela historiografia e continuamente revisitado pela crítica, reafirma-o como figura indispensável do patrimônio cultural brasileiro e como legítimo Patrono do Romantismo Brasileiro.
Referências
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SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
Psicólogo Pedro Lobato Rangel transforma experiência clínica em romance sensível sobre emoções humanas
Pierre, Amor perdão e terapia
Nascido em 30 de dezembro de 1984, o psicólogo Pedro Lobato Rangel construiu uma trajetória marcada pela dedicação à saúde mental e ao estudo do comportamento humano.
Formado em Psicologia desde 2009 e com pós-graduações em Sociologia, Filosofia, Neuropsicologia e Psicanálise, ele reúne uma ampla experiência profissional em diferentes frentes de atuação.
Ao longo da carreira, Pedro atuou como acompanhante terapêutico em uma casa de reabilitação para pacientes com transtornos mentais graves (ACAPE-RJ), integrou a equipe de vistoria do sistema penitenciário do Rio de Janeiro pela Defensoria Pública (DPE-RJ) e também foi responsável por atendimentos em uma comunidade terapêutica voltada à recuperação de dependentes químicos.
Além disso, compartilhou conhecimento com o público em um quadro semanal sobre saúde mental na rádio 90,5 FM, em Volta Redonda, e assinou uma coluna sobre relacionamentos no jornal digital Sul Fluminense em Pauta.
Hoje vivendo no interior do estado do Rio de Janeiro, Pedro concilia os atendimentos como psicoterapeuta com a carreira literária iniciada em 2022, quando publicou seu primeiro livro, “Mar de Sentimentos”, uma coletânea de crônicas inspiradas em anos de escuta e convivência com as complexidades da vida emocional.
Apaixonado pelos conflitos humanos e pela forma como a arte consegue traduzi-los, o autor agora apresenta ao público a história de Pierre, um terapeuta marcado pelo sofrimento e pela dificuldade de se conectar afetivamente.
No romance, o personagem tenta se proteger dos próprios sentimentos, mas acaba descobrindo, através de seus pacientes e da prática da terapia, uma nova maneira de manter o coração pulsando.
Entre incertezas, encontros e reviravoltas emocionais, a narrativa convida o leitor a refletir sobre temas profundos como amor, perdão e o poder transformador da escuta terapêutica.
Pierre cresceu sem compreender o que realmente mantinha sua existência.
Moldado pelo sofrimento, construiu em si uma enorme barreira para se manter distante dos afetos.
Sem sucesso na tentativa de se isolar, acabou encontrando em seus pacientes e na terapia realizada com eles uma forma de manter seu coração pulsando.
Auxiliando seus pacientes a lidar com suas tristezas, e participando de suas superações, Pierre se esforça para cuidar de sua filha e se desvencilhar de seu passado angustiante, buscando sentido e alívio através das fortes relações mantidas em seu consultório.
Narrado de maneira envolvente por seu grande amigo da adolescência, Pierre é a história de um homem que precisa enfrentar os dissabores com os quais a vida cruelmente nos surpreende.
Um romance comovente e profundamente humano que, em meio a incertezas e reviravoltas, fará você refletir acerca do poder do amor, do perdão e da terapia.
Renata BarcellosImagem gerada pela IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69aa2923-efdc-832c-b58d-88806a02ca49
No Brasil, segundo dados oriundos do anuário Brasileiro de Segurança Pública e relatórios de órgãos federais, uma mulher é estuprada a cada 6 ou 8 minutos. Cabe ressaltar que essa informação é baseada apenas nos casos oficialmente registrados. Quantos ainda não o foram? Denuncie!!!! Nunca é tarde!!! Ligue 190 (Polícia Militar), 180 (Ligue 180 / Central de Atendimento à Mulher) ou 100 (Disque Direitos Humanos). Não se cale!!!
Em maio de 2016, no Rio de Janeiro, o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos causou horror à sociedade brasileira. A adolescente foi violentada por 30 homens e a divulgação do ato foi feita pelos próprios estupradores. Antes deste caso e até na atualidade, quantos MAIS não ocorreram? Dez anos depois, recentemente, uma de 17 anos foi violentada por 4 homens. O que está acontecendo no mundo?
Vale ressaltar que, na crônica: Não as matem, de Lima Barreto (pré-modernista) há a denúncia do autor de que o homem se julga no poder de aniquilar a vontade da mulher. Isso foi redigido há mais de um século. A narrativa transcendeu o seu próprio tempo, porque o conteúdo da obra ainda se mantém atual, infelizmente. Ao tratar deste assunto, Barreto esteve à frente da Justiça brasileira no sentido de elucidar a razão do uso da força e da violência contra a mulher.
Assim, verificamos conforme Ezra Pound (2006,p.36): “[…] se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai”. Isso significa que esta expressão artística é, enquanto manifestação dos homens, uma forma de comunicação. Talvez não haja equilíbrio social. Já de acordo Antonio Candido no ensaio O direito à literatura, as literaturas, assim como o sonho (essencial para o equilíbrio psíquico individual), são uma necessidade universal e fundamental para a humanização do homem. O autor defende que o acesso a elas deve ser um direito garantido a todos, pois contribuem para a coesão social e a humanização, combatendo o caos e a desumanização. Outro texto literário que aborda o feminicídio é o conto Venha ver o pôr do sol de Lygia Fagundes Telles. Vale a pena conferir os dois!!!
Na contemporaneidade, de forma avassaladora, ações cruéis só aumentam. Quais são os fatores que levam a tais práticas? Como acabar com estes atos bárbaros? Conforme anuário Brasileiro de Segurança Pública e relatórios de órgãos federais:
Recorde de Casos: Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro (incluindo vulneráveis) em 2025, um número que segue em patamares elevados após recordes anteriores.
Estupro de Vulnerável: cerca de 70% a 76% dos casos registrados envolvem vítimas menores de 14 anos ou sem capacidade de consentimento.
Frequência: estima-se que ocorra um estupro a cada 6 ou 8 minutos, no Brasil, segundo dados de 2023-2025.
Dados de 2025: prévia de dados do Ministério da Justiça indicou mais de 83 mil casos, com uma média de 227 vítimas por dia.
Tendência de Aumento: em um período de 10 anos (até 2025), a quantidade de estupros aumentou expressivamente, chegando a mais de 70% de alta no acumulado.
Perfil das Vítimas e Agressores
Estupro de Vulnerável: cerca de 70% a 76% dos casos registrados são de estupro de vulnerável, que envolve vítimas menores de 14 anos ou sem capacidade de consentimento.
Idade: a maioria das vítimas é muito jovem. Dados mostram que 6 em cada 10 vítimas têm até 13 anos.
Gênero:88,7% das vítimas são do sexo feminino.
Local e Agressor: a maior parte dos crimes ocorre dentro de casa. Cerca de 70% a 86% dos casos são praticados por conhecidos, familiares, pais ou padrastos.
Crianças/Adolescentes: de 2021 a 2023, foram registrados 164.199 casos de estupro contra crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
Perfil dos Agressor no Coletivo: em casos de múltiplos agressores, 27,7% dos autores são estranhos, 28,3% conhecidos, e 10,3% parentes.
Isso ocorre mesmo havendo legislação como a Lei Maria da Penha criada pelo Estado brasileiro, Lei nº11.340, em 7 de agosto de 2006. Já, em 9 de março de 2015 começou a vigorar no ordenamento jurídico brasileiro a Lei nº13.104, no qual passou a prever no Código Penal o crime de feminicídio. Nem assim os índices reduzem. O que está havendo?
Dado o ocorrido, diversas discussões estão em pauta: a educação recebida pelos responsáveis concernente a atos que firam a dignidade feminina ou a integridade de jovens. O que leva um adolescente a cometer estupro? Como as jovens têm sido orientadas para se defenderem? Será que vivemos em uma cultura do estupro?…
A expressão “cultura do estupro” não é nova. Entrou em uso nas ruas e nas redes sociais com os novos movimentos feministas e depois da publicidade de um estupro coletivo ocorrido em uma comunidade carioca. Ao mesmo tempo em que cresce a denúncia de uma “cultura do estupro”, estamos caminhando para uma cultura antiestupro.
Urgem aulas de Educação Sexual a fim de orientar os alunos de que não só as relações sexuais sejam praticadas sob o signo do consentimento e da liberdade, da autonomia e da dignidade de cada um (uma). Mais também de que o estupro ou qualquer ato sexual violento é inaceitável, porque revela um profundo desrespeito à autonomia feminina.
Estupro é um ato violentíssimo, uma invasão ao corpo cujos efeitos são devastadores: depressão, períodos longos de silêncio, descuido com o corpo, dificuldade e pânico diante de tentativas de relações afetivas e sexuais, incompreensão, distanciamento…
De acordo com Sofia Débora Levy (psicóloga clínica, bacharel e licenciada em Psicologia e em Letras Português-Hebraico, Professora, Consultora, Mestre em Psicologia/UFRJ, Doutora em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia/UFRJ com Pós-Doutoramento em Memória Social/ UNIRIO.
Membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, é Representante para a Memória do Holocausto do Congresso Judaico Latino-Americano; membro do Conselho de Educação da StandWithUs-Brasil; Associada Fundadora do Memorial às Vítimas do Holocausto/RJ; e Vice-Presidente do Memorial Judaico de Vassouras.
Autora de vários livros, como “Sobre Viver -vol. 1 e 2”, “Holocausto: vivência e retransmissão” e “Por dentro do trauma”, além de artigos e capítulos de livros publicados, profere palestras sobre Psicologia Clínica e Social, Holocausto, trauma, violência, saúde mental e relacionamentos num exercício contínuo de reflexão crítica humanística), “estupro é considerado crime hediondo pela legislação brasileira (Lei No. 8072/1990). Um crime perverso pois o corpo, o pênis, é usado como arma para ferir. Motivação do estupro: sensação de poder através do abuso do outro.
No caso da jovem estuprada num apartamento em Copacabana para onde foi chamada por seu ex-namorado, quatro outros rapazes maiores de idade participaram do crime. E, ao final , após a saída da jovem do prédio, conforme as câmeras gravaram, comemoraram com sinais de vitória. A perversão continua nesse comportamento covarde em que os agressores comemoram sem se importar por ter marcado a vida de uma jovem dessa forma”. Quem quiser saber mais sobre o corpo usado como arma, assista ao vídeo da psicóloga disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bn58Tf8MNpc.