Depois que chegaram da Lua

Suziene Cavalcante: Poema ‘Depois que chegaram da Lua’

Suziene Cavalcante
Suziene Cavalcante
Imagem criada por IA do ChatGPT

Eles foram até a Lua
Com bandeiras, fé e razão. Queriam medir o espaço. E entender a humana razão.

Levaram números e máquinas. Planos, mapas e ambição.
Mas trouxeram algo invisível, que não cabe em explicação.

Só quem vê o Infinito, liberta-se dos ciclos, e ganha um livre coração.

Viraram o olhar pra Terra tão azul, tão só no escuro. E ali sentiram no peito que o amor é o foguete mais seguro.

Depois que chegaram da Lua, nada mais foi como antes. O dinheiro ficou pequeno. O poder ficou distante.

Eles viram que a vida é breve.E o agora é o que importa. Que o universo é nossa casa. E o coração é a porta.

Viram o silêncio falando. Viram luz sem precisar ver.
Entenderam que a grandeza é aprender a ser.

Voltaram com olhos novos. E o ego ficou pra trás. Quem vê o infinito de perto não é igual nunca mais.

Somos poeira de estrelas. Mas também luz a brilhar. Tão pequenos na imensidão. Tão imensos ao amar.

Só quem vê o Infinito e depois à Terra desce, descobre seu próprio espírito e nunca mais se envaidece.

Depois que chegaram da Lua, aprenderam a soltar o que pesa, o que divide, o que não deixa voar. A lua tem face humana. Ela também pisou na Terra c’a sua chama, ensinando a brilhar.

Se todo mundo pudesse ver a Terra lá do céu. Talvez cuidasse mais dela. Talvez rasgasse o véu! Talvez entendesse que estamos viajando.
E o Porto, a chegada, é o Infinito nos tocando.

Depois que chegaram da Lua, trouxeram algo maior. Não foi pedra, nem conquista. Foi consciência de que na vida não estamos sós. Que na vida tudo passa, mas o Universo é a nossa casa. Todos nós em um só pó.

Quem consegue deixar os sentimentos baixos, consegue subir ao espaço. E lá ver o espírito do infinito e seu abraço.

Quem se tornou leve conseguiu ir lá. E quando retornou, a alma quis mudar. Nunca mais quis competir, pois o Infinito em tudo está.
Quem já esteve a sós com Deus nunca mais quis odiar.

Com os pés sobre a Lua, viram o mundo azul. E nesse vislumbre fiel, viram que a Terra pode ser o céu, já tem a cor do céu, e o céu és tú!

E o Céu és tú!

E o Céu és tú!

Suziene Cavalcante

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Just in Time – Fernanda Monzani

Quando o inglês deixa de ser obstáculo e passa a ser liberdade

Just in time
Just in time

Há livros que nascem da técnica. Outros, da teoria.

Just in Time, de Fernanda Monzani, nasce da vida real.

Da experiência concreta de quem acreditava dominar um idioma, até perceber, longe de casa, que saber inglês não é o mesmo que conseguir se comunicar.

Fernada Monzani
Fernansa Monzani

Fernanda, hoje professora, empresária e fundadora das escolass de inglês Cupcake Language Center e Cup Educational Center (EUA), reconhecidas em Cambridge, construiu sua trajetória a partir de uma frustração que se transformou em propósito.

Ao morar nos Estados Unidos e trabalhar como baby-sitter, descobriu que o inglês que dominava em ambientes corporativos e acadêmicos não era suficiente para o cotidiano.

Faltava fluidez, naturalidade, autonomia. Faltava o inglês funcional.

E foi justamente desse choque de realidade que nasceu sua missão: ajudar pessoas a não passarem pelo mesmo que ela viveu.

Formada, com pós-graduação em Metodologia do Ensino da Língua Inglesa, mãe de dois filhos e à frente de sua escola há 17 anos, Fernanda desenvolveu uma metodologia própria, centrada na comunicação real.

Não no inglês “bonito” dos livros tradicionais, mas no inglês que resolve situações concretas, que liberta o adulto do medo de falar e do constrangimento de errar.

Just in Time surge exatamente desse lugar.

O livro não se propõe a “ensinar inglês” no sentido clássico. Ele se propõe a algo muito mais necessário: devolver voz, autonomia e confiança a quem precisa do idioma para ontem.

É um guia prático, direto e humano, voltado para pessoas que vivem, trabalham ou sonham em viver fora do Brasil e que precisam se comunicar de forma funcional, sem travar diante de situações simples.

Logo no início da obra, Fernanda compartilha um episódio tão constrangedor quanto revelador.

Ao ser questionada sobre o dia de uma criança que cuidava, errou o uso de uma preposição e acabou dizendo algo completamente diferente do que pretendia.

Uma única palavra transformou uma frase inocente em um desastre linguístico.

Foi ali que ela compreendeu, com dor e clareza, que o inglês exige mais do que vocabulário: exige compreensão real da estrutura, do contexto e do uso cotidiano.

Essa história, contada com honestidade e até humor, sintetiza a essência do livro. Just in Time nasce do erro, da vulnerabilidade e da decisão de não desistir.

Ele mostra que aprender um idioma não é sobre perfeição, mas sobre comunicação possível, humana e viva.

O livro foi pensado especialmente para adultos que:
• precisam usar o inglês no trabalho,
• vivem fora do país,
• sentem-se bloqueados para se expressar,
• carregam frustrações antigas com o idioma.

Cada página é um convite à prática, à coragem e à libertação do medo de errar.

Fernanda não promete fluência instantânea, mas entrega algo ainda mais valioso: a possibilidade de se fazer entender, de existir em outra língua sem se calar.

Just in Time é, acima de tudo, um livro sobre autonomia.

Sobre parar de depender de traduções mentais, de dicionários improvisados e de frases decoradas.

É sobre conquistar o direito de falar no tempo certo, do jeito possível, com segurança.

A história de Fernanda Monzani mostra que dificuldades não são fracassos. São sementes.

E que quando uma experiência dolorosa encontra propósito, ela se transforma em ferramenta para mudar a vida de milhares de pessoas.

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JUST IN TIME

SINOPSE

Um livro direto, simples e funcional, feito especialmente para ajudar Brasileiros a enfrentarem situações cotidianas com mais segurança e autonomia.

O objetivo é que este livro seja um verdadeiro companheiro de bolso, para consultar antes de uma conversa, uma entrevista ou uma ida ao mercado.

Desejo que você se sinta mais confiante, preparado e acolhido nessa jornada. Porque aprender inglês não precisa ser complicado.

Precisa ser útil.

E o momento de começar é agora, JUST IN TIME.

Assista a resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRA DA AUTORA

JUST IN TIME
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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Liceu 4 de Janeiro – Kizanga

Milton Gaspar Domingos: ‘Liceu 4 de Janeiro – Kizanga’

Logo da seção O Leitor Participa
Logo da seção O Leitor Participa

Mirosman saía da escola, transbordando rios de ansiedade. Entrou sem cumprimentar a mãe, a única pessoa em casa no momento.

– Mamã, mamã!

Chamou ele, ofegante, quase que enxotava da sua caixa toráxica seu coração, fazendo o coração da mãe expludir de preocupação dada a gritaria do menino de oito anos. Quase que correndo, Umblina veio em socorro do rapaz.

– Quê foi, Miros?! – perguntou ela num tom calmo e tranquilizador. Diz-me: o que é que se passa? interrogou Umblina pela segunda vez.

– Tá vê junto da nossa scola, né?

– Sim…

– Há uma outra scola, né, mamã!

– Sim, Mirosman… é o Liceu 4 de Janeiro.

– A nossa Professora disse que o nome daquela scola veio da Baixa de Kassange. Como assim, mamã?

“Aham… então, é isso???!!! Muito bem… vá, leve, primeiro a mochila para o teu quarto e, venha, vamos conversar.”

Mirosman correu, passando para o corredor, deixou a primeira porta e, na segunda, empurrou-a, desfez-se da mochila, atirando-a para sua cama, que em nada estranhou o comportamento do rapaz, e aquietou-se. Mirosman saiu, voando para a cozinha, onde estava a mãe.

– Já, mamã!

– Toma, relaxa ainda!

Umblina fixou atentamente no seu pequeno, respirando ares de alívio, disse:

– Muito bem… agora me diz, o que é que você sabe sobre Baixa de Kassange?

– Hoje, mamã, em Estudo do Meio, falamos das formas de relevo, e o papá já tinha me ajudado com aquela maquete que mostra as planícies, as depressões, os rios e as montanhas.” Umblina mostrou-se satisfeita com o rumo que levava a conversa, soltando algum riso. “Então, como exemplo de montanha, a Professora falou do morro do Moco, e de depressão, ela falou da Baixa de Kassange. Mas a Professora disse também que essa depressão fica entre os municípios do Marimba, Kunda dya Base, Kela, Kiwaba Nzoji e Massango… agora, mamã, esses municípios estão bem longe daqui. Como é que essa escola, junto à nossa, tem um nome que se relaciona com baixa de Kassange? Aliás, como é que o nome Liceu 4 de Janeiro está ligado à Baixa de Kassange?

– Realmente, meu filho, isso é intrigante. – reconheceu Umblina. Mas a vossa Professora não vos explicou que foi na Baixa de Kassange em que aconteceu um dos maiores massacres já registado no processo da independência de Angola?

O rapaz arregalou os olhos grossos e pretos, espantado com o que acabava de ouvir. Meneou a cabeça, soltando um não abafado desde os pulmões às cordas vocais. Limpou a garganta antes de um novo gole do seu sumo natural de manga.

 – Portanto, – continuou a mãe. – trata-se de um evento nacional e, isso aconteceu a 4 de Janeiro de 1961.

– Aham… é por isso que quando chega essa data, nas rádio e nas televisões falam muito sobre 4 de Janeiro e Baixa de Kassange!

– Exatamente! Mas, sabe de uma coisa?

– O que é, mamã?

– Há apenas três escolas em toda Angola com esse nome – dois liceus, na província de Malanje e um colégio em Namibe. Mas este Liceu da Kinzanga é muito especial.

– Como assim, ‘muito especial’, mamã?

– Veja que esse Liceu, para além de estar muito distante da Baixa de Kassange, o seu nome e história estão diretamente ligados aos eventos naquela localidade.

– Ainda não entendi, mamã.

– Isso mesmo! Lembras-te de que houve um massacre na Baixa de Kassange?

– Sim.

– Esse massacre aconteceu de portugueses europeus para com os camponeses angolanos descontentes com as políticas administrativas do colono. Aos camponeses eram dados uns cartões que os obrigava a realizar trabalhos forçados a custo de quase nada, em benefício dos seus patrões, donos das plantações e das grandes fábricas. Os camponeses, de tão descontentes que estavam, desfizeram-se do cartões, queimando-os e, desse modo, mostrando ao colono que já não queriam quaisquer espécie de acordo com eles. Até às plantações atiraram fogo, às lojas e fábricas puseram mãos.

– Aham… já entendi. Os portugueses ficaram muito zangados e, por isso, massacraram os camponeses.

– Isso mesmo, Miros! Dentre os massacrados, houve pessoas que, segundo o colono, não mereciam ter um enterro digno das pessoas.

– E o que é que fizeram a eles, mamã?

– Todos os identificados como chefes e agitadores e os que os estavam a apoiá-los diretamente foram levados para bem longe de suas terras.

– Onde, mamã?

– Numa terra distante das suas, onde, de acordo com o colono, era bem adequada para o depósito de rebeldes, filhos de cães. Essa terra era, ainda, pouco habitada e o povo que ali morava também era tido pelos portugueses como rebeldes. Essa terra se chama Kizanga.

– Mas, mamã, Kizanga é o nosso… Ehééé, Ehééé, Ehééé!

– E foi exatamente no espaço onde hoje é o Liceu 4 de Janeiro, em que se enterrou todas aquelas pessoas massacradas. Com o tempo, as pessoas que viviam no bairro passaram a enterrar lá os seus ente queridos falecidos, fazendo do local um verdadeiro cemitério.

– Mais tarde, quando já não se enterravam ali, o estado viu no terreno um bom espaço para se construir uma escola. Mas essa é uma outra história.

O rapaz parecia muito pensativo, quando Umblina lhe orientou:

– Não conte isso para ninguém, Miros!

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano) nasceu em Angola, na província de Malanje, onde reside e trabalha (como Professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

É Mestrando e Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO), Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade António Agostinho Neto (UAN).

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Patrimônio cultural e natural

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

Patrimônio cultural e natural: categorias, conceitos e importância para a sociedade

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
A imagem apresenta uma composição simbólica e integrada das múltiplas dimensões do patrimônio brasileiro, contemplando o patrimônio histórico, cultural, material, imaterial e natural. Imagem criada por IA do ChatGPT

Resumo

O patrimônio constitui um conjunto de bens, práticas, saberes e elementos naturais que representam a identidade, a memória e a diversidade dos povos ao longo do tempo. Este artigo tem como objetivo analisar e diferenciar as principais categorias de patrimônio — patrimônio histórico, material, imaterial, natural e outras classificações complementares — destacando sua relevância para a preservação da memória coletiva, o fortalecimento da identidade cultural, o desenvolvimento sustentável e a educação patrimonial. A metodologia adotada baseia-se em pesquisa bibliográfica, fundamentada em autores clássicos e em documentos normativos de organismos nacionais e internacionais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Conclui-se que a proteção do patrimônio é essencial para a manutenção da diversidade cultural e ambiental e para a construção de sociedades socialmente conscientes e historicamente responsáveis.

Palavras-chave: Patrimônio cultural. Patrimônio histórico. Patrimônio material. Patrimônio imaterial. Patrimônio natural.

1 Introdução

O conceito de patrimônio ultrapassa a noção de herança material, abrangendo valores simbólicos, culturais, sociais e ambientais transmitidos de geração em geração. Tradicionalmente associado a bens de caráter monumental ou artístico, o patrimônio passou, ao longo do século XX, por um significativo processo de ampliação conceitual, incorporando práticas culturais, saberes tradicionais, expressões imateriais e elementos naturais. Essa ampliação reflete uma compreensão mais democrática e plural da cultura, reconhecendo a diversidade de grupos sociais e suas formas específicas de relação com o espaço e com a história.

No contexto contemporâneo, marcado pela globalização, pela intensificação dos fluxos econômicos e culturais, pela urbanização acelerada e pelas crises ambientais, o debate sobre patrimônio torna-se ainda mais relevante. Tais processos, embora impulsionem o desenvolvimento econômico e tecnológico, também representam ameaças à preservação dos bens culturais e naturais, seja por meio da descaracterização de paisagens históricas, da perda de tradições culturais ou da degradação dos ecossistemas. Assim, a proteção do patrimônio assume papel estratégico na promoção do desenvolvimento sustentável e na garantia do direito à memória.

Além de sua dimensão simbólica e identitária, o patrimônio desempenha importante função social e educativa. Por meio dele, é possível compreender os processos históricos, valorizar a diversidade cultural e fortalecer o sentimento de pertencimento das comunidades. A educação patrimonial, nesse sentido, constitui um instrumento fundamental para sensibilizar a sociedade quanto à importância da preservação e para estimular a participação social na salvaguarda dos bens patrimoniais.

Diante desse cenário, torna-se imprescindível compreender as diferentes categorias de patrimônio e suas especificidades. Este artigo tem como objetivo analisar e discutir o patrimônio histórico, material, imaterial e natural, bem como outras categorias complementares, destacando a importância de cada uma para a construção da memória coletiva, da identidade cultural e da sustentabilidade socioambiental. Para tanto, adota-se como metodologia a pesquisa bibliográfica, com base em autores consagrados e em documentos normativos de instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

2 Patrimônio histórico

O patrimônio histórico corresponde ao conjunto de bens, materiais ou imateriais, associados a acontecimentos, personagens, processos e períodos considerados relevantes para a formação e a trajetória histórica de uma sociedade. Tradicionalmente, essa categoria esteve vinculada a monumentos, edifícios e obras de caráter excepcional, sobretudo relacionados às elites políticas, religiosas ou econômicas. Contudo, ao longo do tempo, o conceito de patrimônio histórico passou por um processo de ressignificação, incorporando referências ligadas ao cotidiano, à memória social e às experiências coletivas de diferentes grupos sociais.

Segundo Choay (2001), o patrimônio histórico não é uma realidade fixa ou neutra, mas uma construção social e cultural, resultante de escolhas feitas em determinados contextos históricos. Assim, aquilo que uma sociedade decide preservar como patrimônio revela valores, ideologias e disputas simbólicas presentes em cada época. Essa compreensão amplia o debate patrimonial, afastando-o de uma visão puramente monumentalista e aproximando-o das noções de memória, identidade e pertencimento.

O patrimônio histórico inclui, portanto, centros urbanos antigos, conjuntos arquitetônicos, sítios históricos, documentos, monumentos, locais de memória e paisagens culturais associadas a eventos significativos. Esses bens funcionam como testemunhos materiais e simbólicos do passado, permitindo a compreensão dos processos sociais, políticos, econômicos e culturais que moldaram a sociedade ao longo do tempo. Por meio deles, é possível estabelecer uma relação crítica entre passado e presente, favorecendo a reflexão histórica e a construção da consciência cidadã.

No contexto brasileiro, o patrimônio histórico assume especial relevância em virtude da diversidade cultural e da complexa formação histórica do país, marcada pela colonização, pela escravidão, pelos processos de urbanização e pelas desigualdades sociais. A atuação de instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tem sido fundamental na identificação, proteção e valorização de bens históricos que representam essa pluralidade de experiências e memórias (BRASIL, s.d.).

A preservação do patrimônio histórico vai além da conservação física dos bens. Ela envolve ações de pesquisa, documentação, educação patrimonial e gestão participativa, reconhecendo a importância da comunidade na atribuição de sentido e valor aos bens preservados. Nesse sentido, o patrimônio histórico desempenha papel essencial na promoção da educação histórica, no fortalecimento da identidade cultural e no estímulo ao turismo cultural sustentável, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico.

Por fim, destaca-se que a preservação do patrimônio histórico enfrenta desafios significativos na contemporaneidade, como a pressão imobiliária, a especulação urbana, a falta de recursos financeiros e a ausência de políticas públicas eficazes. Diante disso, torna-se indispensável adotar estratégias integradas de proteção, que conciliem preservação, uso social e desenvolvimento, assegurando que o patrimônio histórico continue a cumprir sua função social e cultural para as gerações presentes e futuras.

3 Patrimônio material

O patrimônio material compreende os bens culturais tangíveis, isto é, aqueles que possuem existência física e podem ser percebidos e apropriados por meio dos sentidos. Essa categoria engloba edificações históricas, conjuntos arquitetônicos, monumentos, obras de arte, objetos arqueológicos, acervos museológicos, bens móveis e imóveis, além de sítios históricos e paisagens construídas. Tais bens constituem registros concretos da ação humana ao longo do tempo e expressam valores culturais, artísticos, técnicos e históricos de determinada sociedade.

Historicamente, o patrimônio material foi a primeira categoria a receber reconhecimento institucional e jurídico, sobretudo a partir do século XIX, quando se intensificaram as preocupações com a preservação de monumentos ameaçados pelas transformações urbanas e industriais. Nesse período, consolidou-se uma visão monumentalista do patrimônio, voltada principalmente para obras consideradas excepcionais do ponto de vista artístico ou arquitetônico. Com o avanço dos estudos culturais e sociais, essa concepção foi ampliada, passando a incluir bens associados ao cotidiano, ao trabalho e às experiências de grupos sociais diversos.

No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) define o patrimônio material como aquele que pode ser protegido por meio do tombamento, instrumento jurídico que visa assegurar a preservação de bens de reconhecido valor cultural (BRASIL, s.d.). O tombamento pode incidir sobre bens individuais ou conjuntos urbanos, reconhecendo sua importância histórica, artística, arqueológica ou paisagística.

A importância do patrimônio material reside, primeiramente, em seu valor como fonte histórica. Esses bens permitem a compreensão dos modos de vida, das técnicas construtivas, das relações de poder e das expressões artísticas de diferentes períodos históricos. Ao possibilitar o contato direto com vestígios do passado, o patrimônio material favorece a construção do conhecimento histórico e o desenvolvimento da consciência crítica sobre a formação social.

Além de seu valor histórico e cultural, o patrimônio material possui relevante dimensão social e econômica. A preservação de edifícios históricos e centros urbanos antigos contribui para a revitalização de áreas degradadas, o fortalecimento da identidade local e a promoção do turismo cultural. Quando associada a políticas públicas responsáveis, essa dinâmica pode gerar emprego, renda e desenvolvimento sustentável, evitando a descaracterização dos bens e a exclusão das comunidades locais.

Entretanto, a preservação do patrimônio material enfrenta diversos desafios, como a pressão do mercado imobiliário, a falta de recursos financeiros, a ausência de manutenção adequada e a insuficiência de políticas de educação patrimonial. A conservação desses bens exige ações contínuas de restauração, monitoramento e gestão, bem como a participação ativa da sociedade na valorização e defesa do patrimônio.

Dessa forma, o patrimônio material deve ser compreendido não apenas como um legado do passado, mas como um bem cultural vivo, dotado de função social. Sua preservação pressupõe o equilíbrio entre conservação e uso, assegurando que esses bens continuem a integrar o cotidiano das cidades e comunidades, ao mesmo tempo em que preservam seus valores históricos e culturais para as gerações futuras.

4 Patrimônio imaterial

O patrimônio cultural imaterial refere-se ao conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos, saberes e modos de fazer que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Diferentemente do patrimônio material, essa categoria não se caracteriza por sua materialidade física, mas por seu caráter simbólico, dinâmico e coletivo, sendo constantemente recriada em função do ambiente, da interação social e da história dos grupos que a praticam.

Entre as principais manifestações do patrimônio imaterial destacam-se as tradições orais, as festas populares, os rituais religiosos, as danças, as músicas, a culinária típica, o artesanato tradicional, as técnicas produtivas e os saberes ligados à relação com a natureza. Essas práticas desempenham papel fundamental na transmissão de valores, normas sociais, identidades e visões de mundo, fortalecendo os vínculos de pertencimento e assegurando a continuidade cultural entre gerações.

A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, aprovada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 2003, representou um marco internacional ao reconhecer oficialmente a importância dessa categoria de patrimônio. De acordo com esse documento, a salvaguarda do patrimônio imaterial envolve ações de identificação, documentação, pesquisa, preservação, proteção, promoção, valorização e transmissão, especialmente por meio da educação formal e não formal (UNESCO, 2003). Tal perspectiva destaca que a preservação do patrimônio imaterial depende, sobretudo, da participação ativa das comunidades detentoras desses saberes e práticas culturais.

No contexto brasileiro, o reconhecimento do patrimônio imaterial ganhou maior visibilidade a partir do início do século XXI, com a criação de instrumentos específicos de proteção, como o registro de bens culturais de natureza imaterial, coordenado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Esse processo possibilitou o reconhecimento oficial de diversas manifestações culturais, contribuindo para a valorização de expressões historicamente marginalizadas e para o fortalecimento das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras.

A importância do patrimônio imaterial está diretamente relacionada à valorização da diversidade cultural e ao fortalecimento das identidades coletivas. Ao reconhecer práticas e saberes tradicionais como patrimônio, promove-se o respeito às diferenças culturais e reforça-se o sentimento de pertencimento das comunidades. Além disso, o patrimônio imaterial pode contribuir para o desenvolvimento social e econômico, especialmente quando associado a políticas de turismo cultural sustentável e iniciativas da economia criativa, desde que respeitados os contextos socioculturais de origem.

Entretanto, a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial enfrenta desafios significativos na contemporaneidade, como a descaracterização das práticas culturais, a perda de interesse das novas gerações, a mercantilização excessiva das tradições e a fragilização dos contextos sociais nos quais essas manifestações se desenvolvem. Diante desses desafios, torna-se essencial a implementação de políticas públicas integradas que promovam a educação patrimonial, o apoio às comunidades detentoras e o reconhecimento do patrimônio imaterial como um direito cultural fundamental.

Dessa forma, o patrimônio cultural imaterial deve ser compreendido como um elemento vivo e dinâmico da cultura, cuja preservação exige o equilíbrio entre continuidade e transformação. Sua salvaguarda contribui não apenas para a manutenção das tradições culturais, mas também para a construção de sociedades mais plurais, inclusivas e conscientes de sua diversidade cultural.

5 Patrimônio natural

O patrimônio natural refere-se ao conjunto de bens e elementos da natureza que possuem valor científico, ecológico, paisagístico, cultural e simbólico para a sociedade. Essa categoria de patrimônio abrange formações físicas, biológicas e geológicas, ecossistemas, habitats naturais, paisagens notáveis e áreas de significativa biodiversidade, sendo reconhecida não apenas por sua beleza cênica, mas também por sua importância para a manutenção do equilíbrio ambiental e da vida no planeta.

A consolidação do conceito de patrimônio natural está diretamente relacionada ao avanço das preocupações ambientais ao longo do século XX, especialmente diante dos impactos provocados pela industrialização, pelo crescimento urbano desordenado e pela exploração intensiva dos recursos naturais. A Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, aprovada pela UNESCO em 1972, representou um marco ao reconhecer oficialmente o patrimônio natural como um bem de interesse comum da humanidade, cuja preservação ultrapassa fronteiras nacionais (UNESCO, 1972).

Entre os principais elementos que compõem o patrimônio natural destacam-se parques nacionais, reservas biológicas, áreas de proteção ambiental, florestas, rios, montanhas, cavernas, recifes de corais e formações geológicas de valor excepcional. Esses espaços desempenham funções essenciais, como a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos, a regulação do clima e a manutenção dos serviços ecossistêmicos fundamentais à sobrevivência humana.

No contexto brasileiro, o patrimônio natural assume relevância singular em razão da vasta diversidade de biomas, como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. A proteção dessas áreas é fundamental não apenas para o país, mas para o equilíbrio ambiental global. Instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) desempenham papel central na gestão e na preservação dessas áreas, por meio de políticas de conservação e fiscalização ambiental.

A importância do patrimônio natural vai além de sua dimensão ecológica. Esses bens também possuem valor cultural e simbólico, uma vez que muitas comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhas mantêm relações históricas, espirituais e econômicas com os ambientes naturais em que vivem. Dessa forma, a preservação do patrimônio natural contribui para a proteção dos modos de vida tradicionais e para o reconhecimento da diversidade sociocultural associada à natureza.

Além disso, o patrimônio natural apresenta significativa relevância econômica quando associado a práticas de turismo sustentável e ecoturismo. Quando planejadas de forma responsável, essas atividades podem promover o desenvolvimento local, gerar emprego e renda, e ao mesmo tempo incentivar a conservação ambiental e a educação ecológica. No entanto, é fundamental que tais iniciativas respeitem os limites ambientais e os direitos das populações locais, evitando a exploração predatória dos recursos naturais.

Apesar de sua importância, o patrimônio natural enfrenta graves ameaças, como o desmatamento, a poluição, as mudanças climáticas, a expansão agropecuária e a exploração ilegal de recursos naturais. Esses fatores comprometem a integridade dos ecossistemas e colocam em risco a biodiversidade e os serviços ambientais essenciais. Diante desse cenário, a preservação do patrimônio natural exige ações integradas, envolvendo políticas públicas eficazes, cooperação internacional, educação ambiental e participação ativa da sociedade.

Assim, o patrimônio natural deve ser compreendido como um legado coletivo, cuja proteção representa um compromisso ético com as gerações presentes e futuras. Sua preservação é condição indispensável para a sustentabilidade ambiental, para a qualidade de vida humana e para a construção de uma relação mais equilibrada e responsável entre sociedade e natureza.

6 Outras categorias de patrimônio

Além das categorias clássicas de patrimônio histórico, material, imaterial e natural, a ampliação dos estudos culturais, sociais e ambientais possibilitou o reconhecimento de outras tipologias de patrimônio igualmente relevantes para a compreensão da memória, da identidade e da diversidade das sociedades. Essas categorias complementares evidenciam o caráter dinâmico e interdisciplinar do conceito de patrimônio, ampliando seu alcance e suas formas de proteção.

O patrimônio arqueológico compreende os vestígios materiais deixados por sociedades humanas do passado, como artefatos, estruturas, sepultamentos e sítios arqueológicos. Esses bens são fundamentais para o estudo da pré-história e da história antiga, permitindo a reconstrução dos modos de vida, das práticas culturais e das formas de organização social de grupos que não deixaram registros escritos. A preservação do patrimônio arqueológico é essencial para a produção do conhecimento científico e para a compreensão da diversidade cultural ao longo do tempo, sendo protegida por legislação específica devido à sua fragilidade e valor científico.

O patrimônio documental abrange arquivos, manuscritos, livros raros, mapas, fotografias, filmes, registros sonoros e demais documentos que preservam a memória escrita, visual e audiovisual das sociedades. Essa categoria desempenha papel central na preservação da memória institucional, política, cultural e social, servindo como fonte primária para pesquisas históricas, científicas e culturais. A conservação do patrimônio documental é fundamental para garantir o acesso à informação, a transparência administrativa e o direito à memória coletiva.

O patrimônio paisagístico refere-se às paisagens resultantes da interação entre o ser humano e a natureza, que apresentam valor estético, cultural, histórico e simbólico. Essas paisagens podem incluir jardins históricos, áreas rurais tradicionais, centros urbanos históricos e territórios culturalmente significativos. O patrimônio paisagístico evidencia a relação histórica entre sociedade e ambiente, ressaltando a importância do planejamento territorial e da preservação das características culturais e ambientais desses espaços.

O patrimônio científico e tecnológico engloba bens relacionados ao desenvolvimento do conhecimento científico e das inovações tecnológicas, como laboratórios históricos, instrumentos científicos, acervos de pesquisa, coleções acadêmicas e centros de produção do saber. Essa categoria destaca a importância da ciência e da tecnologia na construção das sociedades modernas e na transformação das relações humanas com a natureza e com o espaço, contribuindo para a valorização da memória científica e educacional.

O patrimônio genético está associado à biodiversidade e aos recursos genéticos existentes na fauna, na flora e nos micro-organismos. Sua preservação é fundamental para a manutenção dos ecossistemas, para a segurança alimentar, para o desenvolvimento científico e para a proteção dos conhecimentos tradicionais associados ao uso da biodiversidade. Essa categoria assume especial relevância no contexto das discussões sobre sustentabilidade, biotecnologia e soberania dos recursos naturais.

O patrimônio industrial compreende fábricas, equipamentos, máquinas, ferrovias, portos e demais estruturas relacionadas aos processos de industrialização. Esses bens testemunham transformações econômicas, sociais e tecnológicas ocorridas a partir da Revolução Industrial, permitindo a compreensão das relações de trabalho, da organização produtiva e do desenvolvimento urbano. A preservação do patrimônio industrial contribui para a valorização da memória do trabalho e das experiências das classes trabalhadoras.

Dessa forma, as diversas categorias de patrimônio evidenciam que a noção de patrimônio não é estática, mas resulta de construções sociais, históricas e culturais em constante transformação. O reconhecimento e a preservação dessas múltiplas tipologias são fundamentais para assegurar a diversidade cultural, o acesso ao conhecimento e a valorização das diferentes formas de relação entre sociedade, história e natureza.

7 A importância da preservação do patrimônio

A preservação do patrimônio constitui um elemento fundamental para a manutenção da memória coletiva, da identidade cultural e da diversidade social e ambiental das sociedades. Ao proteger bens culturais e naturais, assegura-se a continuidade histórica e simbólica das referências que permitem aos indivíduos e às comunidades compreenderem seu passado, interpretarem o presente e projetarem o futuro. Dessa forma, a preservação do patrimônio ultrapassa o simples ato de conservar objetos ou espaços, assumindo um papel estratégico na construção da cidadania e do sentimento de pertencimento social.

Do ponto de vista cultural e identitário, a preservação do patrimônio contribui para o reconhecimento e a valorização das múltiplas expressões culturais existentes em uma sociedade. Ao salvaguardar bens materiais, imateriais e naturais, promove-se o respeito à diversidade cultural e o fortalecimento das identidades locais e nacionais. Esse reconhecimento é especialmente relevante para grupos historicamente marginalizados, cujas memórias e práticas culturais, muitas vezes invisibilizadas, passam a ser legitimadas como parte integrante do patrimônio coletivo.

A preservação do patrimônio desempenha também importante função educativa. Por meio da educação patrimonial, os bens culturais e naturais tornam-se instrumentos de aprendizagem, possibilitando o desenvolvimento da consciência histórica, ambiental e social. A aproximação da sociedade com seu patrimônio estimula o pensamento crítico, o respeito aos bens coletivos e a compreensão das responsabilidades individuais e coletivas na proteção desses bens. Nesse sentido, escolas, museus, arquivos, centros culturais e espaços de memória desempenham papel central na difusão do conhecimento patrimonial.

No âmbito social e econômico, a preservação do patrimônio pode contribuir de forma significativa para o desenvolvimento sustentável. A valorização de centros históricos, paisagens culturais e manifestações tradicionais pode impulsionar o turismo cultural e ambiental, gerar emprego e renda e promover a revitalização de áreas urbanas e rurais. Contudo, para que esses benefícios se concretizem de maneira equilibrada, é imprescindível que as ações de preservação estejam associadas a políticas públicas responsáveis, evitando a mercantilização excessiva dos bens patrimoniais e a exclusão das comunidades locais.

A preservação do patrimônio possui, ainda, estreita relação com a sustentabilidade ambiental. No caso do patrimônio natural, a proteção de ecossistemas, paisagens e áreas de biodiversidade é essencial para a manutenção dos serviços ambientais, como a regulação do clima, a conservação dos recursos hídricos e a proteção da fauna e da flora. A integração entre preservação cultural e ambiental reforça a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e integrada das políticas de patrimônio.

Entretanto, a preservação do patrimônio enfrenta desafios significativos, como a escassez de recursos financeiros, a pressão imobiliária, a degradação ambiental, a falta de conscientização social e a fragilidade das políticas públicas. Diante desses obstáculos, torna-se fundamental fortalecer a participação da sociedade civil, promover a gestão compartilhada dos bens patrimoniais e ampliar os investimentos em pesquisa, educação e conservação.

Assim, a preservação do patrimônio deve ser compreendida como uma responsabilidade coletiva e um direito cultural fundamental. Ao assegurar a proteção e a valorização dos bens patrimoniais, contribui-se para a construção de sociedades mais justas, inclusivas e conscientes de sua história, de sua diversidade cultural e de seu compromisso com as gerações futuras.

8 Considerações finais

O patrimônio, em suas múltiplas dimensões — histórico, material, imaterial, natural e nas diversas categorias complementares — constitui um conjunto de referências fundamentais para a compreensão da trajetória das sociedades humanas e de suas relações com o espaço, a cultura e a natureza. Ao longo deste artigo, buscou-se evidenciar que o patrimônio não deve ser entendido apenas como herança do passado, mas como uma construção social dinâmica, continuamente ressignificada de acordo com os valores, interesses e contextos históricos de cada época.

A análise das diferentes categorias de patrimônio demonstrou que cada uma delas desempenha papel específico e complementar na preservação da memória coletiva e da identidade cultural. O patrimônio histórico e material oferece testemunhos concretos dos processos sociais e das transformações ocorridas ao longo do tempo, enquanto o patrimônio imaterial expressa saberes, práticas e tradições que conferem sentido à vida cotidiana das comunidades. Já o patrimônio natural evidencia a estreita relação entre sociedade e meio ambiente, ressaltando a necessidade de uma convivência equilibrada e sustentável com a natureza.

Destacou-se, ainda, que a preservação do patrimônio ultrapassa o campo da conservação física, envolvendo ações de educação, participação social, gestão integrada e formulação de políticas públicas eficazes. A valorização do patrimônio contribui para o fortalecimento da cidadania, para o respeito à diversidade cultural e para a promoção do desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo em que favorece a inclusão social e o reconhecimento de grupos historicamente marginalizados.

Entretanto, os desafios contemporâneos impostos pela globalização, pela urbanização acelerada, pela degradação ambiental e pelas pressões econômicas reforçam a urgência de estratégias de preservação mais abrangentes e participativas. A ausência de investimentos adequados, a fragilidade institucional e a falta de conscientização social comprometem a integridade dos bens patrimoniais e ameaçam a continuidade das referências culturais e naturais das sociedades.

Diante desse cenário, torna-se imprescindível reconhecer a preservação do patrimônio como um compromisso ético e coletivo, que envolve o poder público, a iniciativa privada, as instituições culturais e a sociedade civil. Somente por meio de ações integradas, fundamentadas no diálogo entre diferentes saberes e na valorização das comunidades detentoras do patrimônio, será possível assegurar a proteção e a transmissão desses bens às gerações futuras.

Assim, a preservação do patrimônio configura-se como um investimento no futuro, na medida em que promove o conhecimento histórico, a diversidade cultural, a sustentabilidade ambiental e a construção de sociedades mais conscientes, justas e comprometidas com a memória, a identidade e o legado comum da humanidade.

Referências

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Patrimônio cultural brasileiro: conceitos e práticas. Brasília: IPHAN, s.d.

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Registro de bens culturais de natureza imaterial. Brasília: IPHAN, 2006.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. Patrimônio histórico e cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. A retórica da perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 6. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.

UNESCO. Convenção para a proteção do patrimônio mundial, cultural e natural. Paris, 1972.

UNESCO. Convenção para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. Paris, 2003.

UNESCO. Patrimônio cultural imaterial: guia para implementação da Convenção de 2003. Paris: UNESCO, 2011.

VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

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Avanços e recuos

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Avanços e recuos’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Em cada Ano Novo, primeiro dia de janeiro, também se comemora o ‘Dia Mundial da Paz’, porém, nesse mesmo dia, tão insistente e persistentemente invocado, os conflitos, as guerras a destruição maciça de patrimónios mundiais, vidas humanas e da própria natureza, continuam, não há tréguas, nem sequer para, durante esse dia, duplamente importante, os responsáveis pelas situações degradantes a que estão conduzindo a humanidade, pararem para pensar no mal que estão fazendo.

É fundamental, em todo o caso, que se continue a acreditar na boa vontade de quem tem o poder, e deseja melhorar as condições de convivência solidária neste mundo, porque enquanto, fisicamente, por cá permanecermos, tudo deveremos fazer para exercer os mais nobres valores que são próprios da humanidade civilizada: solidariedade, amizade, lealdade, respeito, benevolência, caridade, humildade, gratidão, felicidade, paz e a Graça da Entidade Divina que consideramos ser necessária, independentemente das religiões de cada pessoa.

Neste ano que se inicia, todas as pessoas em geral têm perspetivas de vida, eventualmente, diferentes, ou então, desejam concretizar os projetos que não conseguiram no ano que agora terminou, ou, ainda, concluir uns e iniciar outros, sendo certo que, quaisquer que sejam os desideratos, uma nova esperança nos anima.

O ano que agora terminou (2025), terá proporcionado, a nível mundial, avanços positivos em diversos domínios da vida societária. Várias ciências e tecnologias terão alcançado resultados que vão beneficiar a humanidade, desde logo: na Saúde, Genética, Biologia, muitas outras especialidades médicas, mas também as Arquiteturas, Engenharias, Educação, e, de um modo geral, em toda a investigação científico-tecnológica, entre outras. Mas fica a grande nódoa da invasão da Ucrânia pela Rússia, cuja guerra ainda não terminou, tendo provocado milhões de desalojados, centenas de milhares de feridos, infraestruturas fundamentais, destruídas. Uma catástrofe, como não se via desde a segunda Guerra Mundial. Esta tragédia acompanha-nos na entrada de 2026.

Um novo período se inicia, sob os auspícios de uma promissora era, até porque o mundo está cansado, descrente e inconformado com muitas situações injustas, ilegítimas e até ilegais, que afetam a qualidade de vida e a dignidade individual de cada pessoa, não obstante, praticamente, a maioria dos responsáveis proclamarem um mundo ‘cor-de-rosa’. 

Quaisquer que sejam as perspetivas, designadamente, boas; independentemente da esperança que se possa ter neste Novo Ano e seguintes, jamais poderemos ignorar que esta ‘Casa Global’, que habitamos, ela se sustenta em diversos pilares fundamentais, entre os quais, se podem aceitar que: a) Deus é Imenso, Omnipotente e Omnisciente; b) o mundo está cheio de esquinas, numa das quais, nos encontraremos, pelo menos uma vez na nossa existência terrena; c) a vida é composta de altos e baixos e nem sempre estamos por cima; d) o tribunal da nossa consciência nunca falha, ele nos julgará imparcial e, se necessário, implacavelmente; e, finalmente, e) a verdade triunfará, mais tarde ou mais cedo.

Finalmente, de forma totalmente pessoal, sincera e muito sentida, desejo a todas as pessoas que, verdadeiramente, com solidariedade, amizade, lealdade e cumplicidade me têm acompanhado, através dos meus escritos um próspero Ano Novo e que 2026 e muitas dezenas de anos que se seguem, lhes proporcionem o que de melhor possa existir, e que na minha perspetiva são: Saúde, Trabalho, Amizade/Amor, Felicidade, Justiça, Paz, realizações pessoais, profissionais e sociais e a Graça Divina. A todas estas pessoas aqui fica, publicamente e sem reservas, a minha imensa GRATIDÃO.  

BIBLIOGRAFIA

PAPA FRANCISCO (2016) Proteger a Criação. Reflexões sobre o Estado do Mundo. 1ª Edição. Tradução Libreria Editrice Vaticana (texto) e Maria do Rosário de Castro Pernas (Introdução e Cronologia), Amadora-Portugal:20/20 Nascente Editora. 

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Meu Universo em Dúvida

Clayton Alexandre Zocarato ‘Meu Universo em Dúvida’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Baseado na canção Meu Universo É Você – Roupa Nova – Álbum Luz – 1988

Amar, na pós-modernidade, tornou-se um gesto quase subversivo, porque exige permanência num tempo que venera o provisório, e é desse paradoxo que nasce esta crônica, escrita não para explicar o amor, mas para sobreviver a ele quando a depressão o cerca como uma névoa espessa e silenciosa. 

Há dias em que acordar é um ato filosófico: levantar da cama significa aceitar, ainda que sem convicção, que o mundo continua mesmo quando o sentido falha, e que existir é um verbo que se conjuga apesar de….

O amor, nesse cenário, não aparece como salvação romântica, mas como eixo frágil em torno do qual tudo gira, um centro instável que sustenta o caos interior, como se o outro fosse o último ponto fixo num universo que se expande sem pedir permissão. Amar alguém passa a ser a tentativa de organizar o vazio, de dar nome ao silêncio que cresce dentro do peito quando as certezas morrem uma a uma, vítimas de uma modernidade tardia que prometeu liberdade e entregou cansaço, prometeu escolha e entregou ansiedade. 

A depressão não grita; ela sussurra perguntas ontológicas enquanto o mundo exige produtividade, felicidade performática e respostas rápidas, e nesse conflito o sujeito se fragmenta, dividido entre o desejo de desaparecer e a necessidade quase infantil de ser visto, reconhecido, amado.

O amor, então, não é euforia, é resistência: é acordar todos os dias e decidir ficar, mesmo quando tudo em volta diz que partir é mais fácil, mesmo quando a própria identidade parece líquida demais para sustentar compromissos duradouros.

Na crise existencial, o eu se pergunta qual é o seu lugar num mundo onde tudo é relativo, onde valores se dissolvem como açúcar em café quente, e onde até os sentimentos são medidos por algoritmos e curtidas; ainda assim, amar alguém é afirmar que nem tudo pode ser reduzido a dados, que existe algo irredutível, quase sagrado, na presença do outro. 

O amor vira abrigo contra o niilismo cotidiano, uma pequena metafísica doméstica construída de gestos simples, de silêncios compartilhados, de uma confiança que não se explica, apenas se vive. 

Mas esse mesmo amor também dói, porque expõe a fragilidade do ser, escancara medos antigos, reabre feridas que a razão acreditava cicatrizadas; amar é permitir que o outro veja o que nem nós suportamos encarar sozinhos. 

A depressão, nesse contexto, não é apenas doença, é sintoma de uma época que perdeu seus grandes sentidos e deixou o indivíduo sozinho com perguntas grandes demais, e o amor surge como tentativa desesperada de resposta, não definitiva, mas suficiente para atravessar o dia.

Há uma melancolia própria de quem ama num tempo cínico, porque amar exige esperança, e esperar, hoje, parece ingenuidade; ainda assim, é nessa ingenuidade que reside a última forma de coragem.

O sujeito pós-moderno ama sabendo que tudo pode acabar, que nada é garantido, que o futuro é uma promessa instável, mas ama mesmo assim, como quem acende uma vela em meio ao vendaval, consciente de que a chama pode se apagar, mas incapaz de aceitar a escuridão total.

E quando a crise existencial aperta, quando o sentido da vida parece uma pergunta mal formulada, é o amor que reorganiza o caos interno, não oferecendo respostas filosóficas elaboradas, mas uma presença concreta, um “estou aqui” que vale mais do que qualquer sistema de pensamento. 

Amar, nesse nível, é aceitar a incompletude como condição humana, é reconhecer que não somos universos autossuficientes, mas constelações que só fazem sentido em relação ao outro. 

Talvez por isso, em meio à depressão e à dúvida, o amor seja vivido como centro gravitacional: não porque resolve tudo, mas porque impede que tudo se desfaça.

Na pós-modernidade cansada, amar é um ato (a)gnóstico, um posicionamento diante do nada, uma forma de dizer que, apesar de todas as incertezas, apesar do medo, apesar do vazio, ainda vale a pena existir — nem que seja apenas porque, para alguém, somos o universo possível.

Clayton alexandre Zocarato

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Ora alívio, ora tortura

Lina Veira: Crônica ‘Ora alívio, ora tortura’

Lina Veira
Lina Veira
Imagem por Lina Veira
Imagem por Lina Veira

Alívio – Um substantivo que facilita a vida, que traduz a remoção de uma dor, a liberdade de uma angústia ou opressão – as vezes através de lágrimas.  Ali, onde um poeta se descobriu sem máscara, sem vestimenta, sem loucura, impalpável a definições. Gestos automáticos.

Os  falsos anjos se corrompem com as descrenças, misérias e falta de asas. Carecem do êxtase, de tudo que é pecado e santo. 

Quisera uma caixa de chocolates finos e  o livro de Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados. O alívio, já me acaricia só de esperar essa obra pelo correio à tarde.

Mas vamos as últimas notícias: Café: alívio tarifário não reduz pressão sobre cotações

Estoques baixos sustentam preços do café no curto prazo

O mercado global de café passa por um período de ajuste após a suspensão das tarifas adicionais de 40% sobre os grãos brasileiros — exceto o café solúvel — anunciada em 20 de novembro.

Para a analista da Hedgepoint, Laleska Moda, “esse comportamento reforça a percepção de que, mesmo com o alívio tarifário, a oferta disponível para exportação continua limitada”.

Agrolink – Seane Lennon
Publicado em 03/12/2025 às 13:37h.

E ainda:

Melhora nas chuvas darão alívio na conta de luz em dezembro

Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL)  4 dias atras   

A  noite calorenta arranca suores indevidos de uma vida cheia de artifícios e sonhos,  tem gente que parece incendio sem alívio. Como meu pai dizia: rapadura é doce, mas não é mole não.

O outono, já se foi, mas ainda é preciso se ver nu como as árvores sem folhas no inverno, primavera e verão.

A vida é uma confissão breve de crônicas, tenho escrito. Abrindo mão de  augúrios  ou previsões do futuro, como presságios ou vaticínios, que podem ser interpretados de diversas formas. A fragilidade dos argumentos se revela e o acaso pode ser um alívio desmembrando o talvez.

Já estava quase acostumada ao silêncio –  de dentro, quando o telefone tocou  e ouvi um “eu te amo” diferente. Chega estancou o barulho.

Nunca comeu rapadura para ser tão doce, nunca foi ao nordeste, nunca dançou forró.  

Tanta gente bonita aqui no Sul vivendo dentro de suas casas sem vidas. O quintal não tinha alegria, nem flores merecidas. A casa de alvenaria era uma prisão de depoimentos frustrados. Um homem distanciado do  universo feminino de sua mulher, sem alívios, gozos ou cheiros.

– O que fizemos para merecer isso?

– Escolhas.

Entenda: A paixão é um instante. E não precisamos torná-la compromisso ou construção.

O outro é um bom lugar para depositar  nossos desejos carnais  e solidão, completou se agachando no chão do quintal enquanto desenhava um girassol.

Algumas pessoas nem percebem que já morreram, outras tem sua existência inventada, algumas merecem conhecer a pessoa certa. Abandonei a linguagem sinuosa do amor. Escolhi o alívio do suicídio, dos fantasmas sem lucidez e do desanimo, às vezes. Sempre tive medo do amor, dos retratos antes das rugas, antes que o brio da vida se consuma. Depois esperança. A vida é uma contante escolha sem alívio de ser ou não ser,  entre a vida e a morte. Uma eternidade urgente  de duas horas no fim de tarde inquieta, na beira da praia apreciando o por do sol, ou de uma saudade dos lindos anos 80! 

Eu sonhava vestida do impossível, corria e via poema nas paredes da vida, nas metáforas,  e  no vento. O alívio era poder ser criança. Comer as frutas do pé de fruta de casa,  regar as folhas e flores do jardim, tomar banho de chuva nas bicas das calçadas, correr na rua sem medo de crimes ou guerras, ou desistências. 

Depois de um tempo, a paixão arrefece, diminuímos o olhar doce sobre a vida,  ora alívio , ora tortura. 

Ainda lembro do BUQUÊ de rosas vermelhas que segurei entrando na igreja. Que alívio feminino tiveram as mulheres da família!  Miseráveis  verdades são ditas por mulheres para convencer o instante. Miseráveis verdades são sempre ditas em todas as fases, apenas isso.

Ora alívio , ora  tortura , vive a vida.

Lina Veira

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