Corpo lume em terra

Ella Dominici: Poema ‘Corpo Lume em Terra’

Ella Dominici
Ella Dominici
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Nasci da argila e da espera.
Sou parte do barro que sonhou ser rosto e permaneceu espelho.
Carrego comigo as veias abertas do que sente demais,
e o pulso secreto das coisas que não sabem morrer.

Há em mim a casa e o exílio.
A casa é onde o olhar repousa,
o exílio é quando o olhar não se reconhece.
E sigo, em cada rua, plantando pequenas eternidades:
palavras, gestos, silêncios,
pedras transparentes que a vida deixa como migalhas do invisível.

O amor, esse desassossego manso,
anda comigo, calçado de areia e espanto.
Não pede posse — pede presença.
Ele chega como um sol que se desculpa por nascer tarde,
mas ainda aquece o corpo todo

Direi:
sou o que restou da travessia — e o que começa depois do naufrágio.
Sou mulher de sal e aurora,
carrego oceanos no peito e um punhado de luz no escuro.
Sigo, mesmo cega, coração conhece atalhos que a razão ignora.

E quando a noite cai, volto a ser
palavra de cura,de memória, de fogo.
Que sopra nas feridas e acende o invisível.
E ainda que o mundo me esqueça,
sei que a vida — essa antiga amante — sempre volta,
com o perfume do impossível.

Ella Dominici

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Labor no universo literário

Renata Barcellos: ‘Labor no universo literário’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
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A tematização da importância do trabalho na vida humana é milenar desde os escritos gregos. Exemplos: nas obras de Hesíodo: O Trabalho e os dias e nos livros que constituem a Bíblia até nossos dias. Ao longo do tempo, o homem tem se dedicando ao universo laboral e o questiona, conceitua, problematiza, nomeando-o sob diversos prismas, ora dignificando-o, ora o depreciando.

No século XIX, Marx (1986) e Engels (1990) emitiram importantes enunciações sobre o trabalho. Neste período, foram publicadas as obras “O Escrivão e A Metamorfose” que apresentam o trabalho como tema recorrente na ficção. “O Escrivão”, publicado em 1853, de Herman Melville, traz uma das personagens mais emblemáticas de todas as literaturas: um escrivão que, de repente, passa a se negar a fazer qualquer tarefa, em uma postura que transita entre a rebeldia e o niilismo. E “A Metamorfose”, de Franz Kafka, de 1915, a personagem Gregor Samsa acorda metamorfoseado num inseto monstruoso e, ainda assim, seu principal medo é perder o emprego.   

Na contemporaneidade, o labor ainda é atividade a ser legalizada, questionada, alterada. Isso porque, para boa parte da humanidade, constitui-se em fonte de sofrimento físico e psicológico. Nas Literaturas Brasileiras, há inúmeras personagens ilustrativas disso. Existem pesquisas cujo objetivo é verificar nas literaturas dos séculos XIX, XX e XXI, como os escritores formalizam as articulações entre trabalho e discurso literário.

Principais aspectos desta transformação:

1. Temáticas Centrais na Literatura Contemporânea

  • capitalismo de Plataforma e Precarização: obras recentes, como as discutidas no livro “Icebergs à Deriva”, analisam o descontrole das grandes plataformas digitais (Uber, Amazon) e a falta de vínculo formal.
  • explorações Cotidianas: livros como “Afetos postiços”, de Gabriele Rosa e “Os dias trabalhados”, de Marcelo da Silva Antunes, retratam a precarização, a terceirização e a desregulamentação como a nova regra.
  • trabalho no Centro: as Literatura Brasileiras têm, cada vez mais, inserido o trabalho como tema central da construção de personagens e enredos. Assim, evidenciando desigualdades sociais e o cotidiano da classe trabalhadora. 

  • 2. Novas Formas de Produção e Organização

  • teletrabalho e Anywhere Office: o trabalho remoto e o modelo híbrido, intensificados pela pandemia, transformaram a rotina de escritores, editores e tradutores.
  • trabalho “Gig” (Eventual): muitos profissionais do livro estão inseridos no modelo de gig economy, baseada em tarefas pontuais e autonomia, mas frequentemente sem proteção legal. 

3. Novas Relações Jurídicas e Proteção

  • confronto e Resistência: o debate literário jurídico busca formas de enfrentar a nova conformação econômica, discutindo proteção para o trabalhador em um cenário de terceirização.
  • livros Educativos: lançamentos como “Novas Relações de Trabalho e Novos Modelos de Proteção” (Editora Amanuense) abordam como o Direito deve responder a esses novos cenários. 

4.Obras Relevantes sobre a temática

  • Icebergs à Deriva (Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho – MPT)
  • Afetos postiços, de Gabriele Rosa
  • Os dias trabalhados, de Marcelo da Silva Antunes
  • No chão da fábrica, de Roniwalter Jatobá
  • De mim já nem se lembra, de Luiz Ruffato
  • Novas Relações de Trabalho e Novos Modelos de Proteção (Nelson Mannrich e Alessandra Boskovic)

5. Novas Dinâmicas de Produção Literária

  • coautoria e Assistência: a IA atua como uma ferramenta colaborativa, capaz de propor enredos, estruturar narrativas, imitar estilos literários e revisar textos. Escritores podem utilizar IAs para superar bloqueios criativos e acelerar etapas técnicas da escrita. Como fonte de inspiração, não produto final.
  • engenharia de Prompt e Treinamento: autores podem desenvolver “assistentes personalizados” (como GPTs ou Gems).
  • Desafios e Questões Éticas

  • autenticidade e Essência: debates sobre a perda da essência da literatura e a capacidade da IA de replicar a subjetividade e a experiência humana.
  • autoria e Propriedade Intelectual: questionamentos sobre quem é o “autor” de uma obra gerada com auxílio significativo de IA, impulsionando discussões jurídicas.
  • valorização da Escrita Humana: a escrita humana tende a ser valorizada como um “artigo de luxo” ou um ato de resistência, carregado de subjetividade, falibilidade e criatividade. 

O uso de Inteligência Artificial (IA) no universo literário em 2026 é regido por um misto de leis de direitos autorais tradicionais, novas regulamentações éticas e precedentes judiciais em evolução. A premissa central a seguinte: IA é uma ferramenta de auxílio, não um autor legal. A seguir, as principais “leis” e normas atuais:

1. Autoria e Direitos Autorais (O Fator Humano)

  • humanos como Únicos Autores: Lei de Direitos Autorais (como a brasileira nº 9.610/1998) estabelece que somente pessoas naturais podem ser autores de obras literárias. Obras criadas 100% por IA não recebem proteção de direito autoral, pois a lei não reconhece máquinas como autoras.
  • responsabilidade Legal: o humano que utiliza a IA para gerar texto é o único responsável público pelo conteúdo, incluindo erros ou casos de plágio.
  • obras de Domínio Público: treinar modelos de IA com livros protegidos por direitos autorais tem sido considerado por alguns juízes como “uso justo” (fair use) para desenvolvimento de tecnologia, embora isso continue sendo debatido. 

2. Ética e Transparência

  • declaração de Uso: a Authors Guild (união de autores norte-americanos) e diversas editoras exigem que o uso de IA na geração de textos seja informado aos leitores.
  • transparência Editorial: editores e plataformas de publicação estão adotando políticas para identificar conteúdos gerados por IA, muitas vezes exigindo a documentação do uso da ferramenta.
  • risco de “Fake” Literário: textos inteiramente gerados por IA são vistos por muitos no mercado editorial como “falsos” ou inautênticos, carecendo da profundidade emocional humana. 

3. Ética no Treinamento e Direitos de Estilo

  • proteção de Estilo: a IA pode emular o estilo de autores consagrados, mas a emulação excessiva que resulta em reprodução de trechos (plágio) é ilegal.
  • “Engenharia de Referência”: o uso de IA para analisar sintaxe e estilo (com “GPTs” personalizados) é aceito como auxílio criativo, desde que o resultado final seja editado e assinado por um humano. 

4. Novas Regulações (Tendências 2025-2026)

  • Projeto de Lei 2338/23 (Brasil): analisa a regulamentação da IA com foco nos níveis de risco para os direitos fundamentais.
  • concursos e editoras: algumas editoras e concursos literários têm cancelado ou alterado regras para evitar a enxurrada de textos gerados automaticamente, dada a dificuldade de distinguir a autoria. 

Em resumo, a regra de ouro é: A IA pode ajudar a escrever (assistência). Entretanto, o autor humano deve assumir a autoria (responsabilidade). Sejamos responsáveis pelos nossos atos!!! E produzamos produções literárias de qualidade. Com base nisso, de acordo com Noam Chomsky: “Este é o ataque mais radical ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu jamais vi”.

Renata Barcellos

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Avanço tecnológico e relações humanas

Evani Rocha: ‘Avanço tecnológico e relações humanas’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada pela IA do Gencraft – 30 de abril de 2026, às 09h21

Qual a sua percepção sobre o mundo à sua volta? Você é do tipo que sempre enxerga o ‘copo quase cheio’? Na verdade, ninguém é otimista o tempo todo, haja vista, os tempos difíceis que vivemos! Por um lado, os avanços da tecnologia que tornou a vida mais prática. O surgimento da potencialidade da IA nos assusta. Vivemos em uma era digital, porém de incertezas, quanto ao futuro da Inteligência Artificial. Às vezes tememos pelo que o homem, de posse desse ‘poder’, possa fazer…! (É um dos grandes desafios éticos que o ser humano terá que enfrentar).

Por outro lado, parece que ainda não saímos das cavernas. Os noticiários diariamente noticiam casos criminais que ultrapassam o horror: roubar, furtar, usurpar, torturar e matar, entre outros, tem se tornado casos rotineiros na sociedade. Parece que a vida perdeu totalmente o valor!

Nos perguntamos: onde está a sabedoria e inteligência humana, criadora dessa tão avançada tecnologia? Chegamos praticamente ao ápice tecnológico e estamos descendo ao ‘abismo da humanidade?!’ Não é possível que possamos aceitar esses crimes absurdos como normais. Não podemos mais viver em paz, assistindo a esse show de horrores, cotidianamente!

Não é porque é com o outro, pois um dia, infelizmente, pode bater à nossa porta. Precisamos urgentemente fazer uma análise da nossa percepção sobre o mundo em que estamos. Quebrar certos velhos paradigmas só é possível quando clareamos essa percepção e mudamos nossa forma de agir. A mudança começa em nosso mundo interior, para então, ganhar o ambiente exterior. O ambiente exterior é a família, a educação e os valores que passamos aos nossos filhos; os ambientes em que os jovens frequentam, a escola. A educação nas escolas não pode ser só ‘conteúdo’, precisa disciplinar, transmitir valores, como respeito, cuidado, empatia e amor ao outro!

A educação formal é apenas um ramo da formação de um cidadão. E penso que é para agora, urgentemente, desde os pequeninos, aos jovens, saindo do ensino médio. Muitos outros ramos devem ser acrescidos nessa ‘árvore da formação de um cidadão’: que seja mais humano, que olhe o outro com empatia, que internalize valores, como respeito, responsabilidade, amor à vida…, não somente à sua vida, mas a vida do outro, dos animais, da natureza em geral. Assim, talvez para um futuro a médio e longo prazo, consigamos quebrar esse ciclo venenoso de criminalidade que está tomando conta das sociedades, não só no Brasil, mas em sociedades pelo mundo.

Que não seja utopia, coexistir, uma sociedade que possa tirar proveito de todos os benefícios da tecnologia, ao mesmo tempo que vivencia relações humanas mais saudáveis e pacíficas!

Evani Rocha

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Historiadora será contemplada em Solenidade da FEBACLA

A FEBACLA se posiciona como guardiã da memória cultural contemporânea, atuando na preservação e na projeção das contribuições de agentes culturais que colaboraram para a preservação do patrimônio histórico da Cultura Imaterial

Condessa Laura Moura Nunes
Condessa Laura Moura Nunes

A colunista do ROL, escritora, historiadora e poetisa de Portugal, Condessa Laura Moura Nunes, receberá da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências e Letras – FEBACLA, a COMENDA DO MÉRITO LITERÁRIO MACHADO DE ASSIS, no mês de maio de 2026 no formato online e presencial. A cidade de Niterói no Rio de Janeiro se prepara para receber expressivo encontro intercultural do Brasil e do mundo.

A Câmara Municipal de Niterói será o cenário da grande solenidade comemorativa pelos 14 anos de fundação da FEBACLA, sob a gestão do presidente Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, reunindo representantes de diversas áreas do saber e da produção cultural brasileira. Com expectativa de amplo intercâmbio nacional e internacional, o evento contará com a presença de artistas, escritores, educadores, pesquisadores, gestores culturais e autoridades.

A FEBACLA se posiciona como guardiã da memória cultural contemporânea, atuando na preservação e na projeção das contribuições de agentes culturais que colaboraram para a preservação do patrimônio histórico da Cultura Imaterial. À frente da instituição está seu presidente, Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, cuja atuação multifacetada como jornalista, filósofo, escritor, historiador e produtor cultural tem sido determinante para o fortalecimento e a expansão da FEBACLA.

A solenidade comemorativa estará reconhecendo a importância das expressões como patrimônios culturais, instrumentos de formação cidadã e meios de preservação das tradições históricas e identitárias do Brasil. O encontro também se consolida como espaço de diálogo, intercâmbio e fortalecimento de redes culturais entre diferentes regiões do Brasil e do mundo.

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Jornalista será contemplado em solenidade da FEBACLA

A solenidade comemorativa estará reconhecendo a importância das expressões como patrimônios culturais, instrumentos de formação cidadã e meios de preservação das tradições históricas e identitárias do Brasil

Bruno Alves Feitosa
Bruno Alves Feitosa

O diretor do Ateliê e Jornal República Alternativa Cultural e correspondente do ROL pelo estado de Pernambuco, Bruno Alves Feitosa, receberá da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA a Comenda Baluarte da Cultura Nacional em evento de grande significado no mês de maio de 2026 no formato on-line e presencial. A cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, se prepara para receber expressivo encontro intercultural do Brasil e do mundo.

A Câmara Municipal de Niterói será o cenário da grande solenidade comemorativa pelos 14 anos de fundação da FEBACLA, sob a gestão do presidente Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, reunindo representantes de diversas áreas do saber e da produção cultural brasileira. Com expectativa de amplo intercâmbio nacional e internacional, o evento contará com a presença de artistas, escritores, educadores, pesquisadores, gestores culturais e autoridades.

A FEBACLA se posiciona como guardia da memória cultural contemporânea, atuando na preservação e na projeção das contribuições de agentes culturais que colaboraram para a preservação do patrimônio histórico da Cultura Imaterial. À frente da instituição está seu presidente, Dom Alexandre Rurikovich Carvalho, cuja atuação multifacetada como jornalista, filósofo, escritor, historiador e produtor cultural tem sido determinante para o fortalecimento e a expansão da FEBACLA.

A solenidade comemorativa estará reconhecendo a importância das expressões como patrimônios culturais, instrumentos de formação cidadã e meios de preservação das tradições históricas e identitárias do Brasil. O encontro também se consolida como espaço de diálogo, intercâmbio e fortalecimento de redes culturais entre diferentes regiões do Brasil e do mundo.

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Eu sou

Loide Afonso: Poema ‘Eu sou’

Loid Portugal
Loid Portugal
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Um misto de passado
Presente e futuro
Eu sou
Me chamam de berço, Eu sou fim e começo
Sou feita de savana e deserto, sou cura,
Também sou aquela sombra da Mulemba
Que dá voz aos pássaros e cor ao sol,
Paz aos pecadores e ouro às ourivesarias, nunca mais me confunda ou diga que sou sortuda,
Eu sou metamorfose com clorofila
Sou força e coragem que meu povo carrega
No sangue e na etnia
Sou a rainha, A grande.

Loid Portugal

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Planta baixa do infinito

Clayton Alexandre Zocarato ‘Planta baixa do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69f2d26d-0288-83e9-9bf2-c7a405c80271
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69f2d26d-0288-83e9-9bf2-c7a405c80271

O infinito não começa.

            Ele infiltra.

             Escorre pelas frestas daquilo que se tenta chamar de limite e, quando percebido, já contaminou a ideia inteira de contorno.

            Não há borda que o contenha, apenas a ilusão de uma parede recém-pintada, ainda úmida, onde alguém escreveu com o dedo: “Aqui termina”.

             Mas o dedo atravessa a tinta, atravessa o reboco, atravessa o tijolo e não encontra o fim — apenas mais matéria, mais silêncio, mais uma repetição do mesmo gesto em escalas que se recusam a caber na palavra ‘escala’.

            O vazio não é o oposto disso. O vazio é o método.

            Há quem construa edifícios para se proteger do infinito. Linhas retas, ângulos previsíveis, metragem quadrada registrada em cartório. Cada centímetro delimitado por contrato, cada janela com sua função: olhar para fora sem se misturar.

            A filosofia do imobiliário nasce dessa tentativa desesperada de domesticar o indomesticável: transformar o abismo em planta baixa, o tempo em prestação mensal, a angústia em cláusula.

            Um apartamento de 47 metros quadrados não é um espaço. É uma narrativa comprimida.

            Uma promessa de controle. Um pacto silencioso de que ali dentro o infinito não entra — ou, se entrar, entra educado, em forma de espelho, duplicando o que já existe, jamais criando algo novo.

             A repetição é a grande aliada da propriedade privada: corredores que levam a portas que levam a quartos que levam a janelas que mostram outras janelas. Um eco visual que se vende como segurança.

            Mas o infinito infiltra.

            Ele se manifesta no intervalo entre o elevador e o andar desejado, quando o número digital pisca e por um segundo não é número, é vertigem.

            Ele aparece no corredor vazio às três da manhã, quando o sensor de presença falha e a luz não acende — não por defeito técnico, mas por recusa ontológica.

            Ele sussurra na rachadura da parede recém-reformada, insistindo que nenhuma reforma é suficiente, que todo acabamento é apenas uma pausa superficial.

            E então surge a ideia de redenção.

            Não uma redenção grandiosa, transcendental, mas uma redenção macabra, pequena, quase burocrática.

            Redimir-se de quê? De ter acreditado que o espaço podia ser possuído.

            De ter aceitado que o vazio podia ser ignorado. De ter assinado, com caneta azul, um contrato com o nada.

            Essa redenção não salva. Ela expõe.

            Há um momento — sempre há — em que a planta do imóvel deixa de ser representação e se torna labirinto.

            As linhas, antes claras, começam a se curvar discretamente, como se obedecessem a uma lógica paralela. O quarto invade a sala sem aviso. A cozinha repete a si mesma em ângulos impossíveis.

             O banheiro se prolonga em um corredor que não existia na versão anterior do mapa. Não é um erro de leitura. É uma correção do próprio espaço.

            E nesse instante, o proprietário — palavra curiosa — percebe que não possui nada.

            Que nunca possuiu.

            Que foi, no máximo, tolerado.

            A filosofia do imobiliário ensina que valor é localização. Mas localização de quê? Onde exatamente está um lugar que se altera quando não é observado?

             Que se reorganiza na ausência de testemunha? Que multiplica suas dimensões no escuro?

            O valor, então, torna-se uma ficção compartilhada, uma convenção útil para manter o terror sob controle.

             Paga-se caro por isso. Muito caro.

            A narrativa insiste em ser linear, mas o espaço não colabora.

            Há uma porta que sempre esteve ali, mas que agora parece deslocada alguns centímetros para a esquerda.             Uma diferença mínima, quase imperceptível, mas suficiente para gerar dúvida.

            E a dúvida, uma vez instalada, cresce com uma velocidade incompatível com a metragem do ambiente.

                        Talvez o infinito não seja expansão, mas repetição.

            Talvez ele não precise de espaço adicional, apenas de variação microscópica.

            Um desvio de milímetros que, acumulado, produz um abismo.

             Não se cai de uma vez. Cai-se em parcelas. Um centímetro por dia, financiado em décadas de distração.

            A redenção macabra se oferece como solução: reconhecer o erro, abandonar a pretensão de controle, aceitar o vazio como estrutura fundamental. Mas há um preço. Sempre há.

            Aceitar o vazio implica abrir mão da distinção entre dentro e fora. Significa admitir que as paredes são simbólicas, que o teto é uma sugestão, que o chão pode, a qualquer momento, inverter sua função.

             Não há mais abrigo. Apenas continuidade.

            E, paradoxalmente, é nesse abandono que surge uma forma distorcida de liberdade.

            Sem a necessidade de manter a coerência do espaço, a mente começa a explorar possibilidades antes impensáveis.

            Um corredor pode ser atravessado sem ser percorrido

            . Uma porta pode ser aberta sem ser tocada. Um quarto pode conter todos os outros quartos simultaneamente, dependendo do ângulo de observação — ou da ausência dele.

            A narrativa se fragmenta.

            Não há mais começo, meio e fim. Apenas pontos de intensidade conectados por lacunas.

            O texto se escreve nos intervalos, nos espaços em branco, nas pausas que antes eram ignoradas.

            A linguagem tenta acompanhar, mas tropeça. Palavras se repetem com pequenas variações, como se buscassem uma precisão impossível. Frases começam e não terminam. Ou terminam antes de começar.

            Há um ruído constante, quase imperceptível, como o som de um prédio respirando.

            E talvez respire.

            Talvez cada estrutura construída seja um organismo lento, absorvendo as intenções de seus ocupantes, digerindo suas rotinas, excretando pequenas distorções que, acumuladas, alteram a própria realidade.

            Não por maldade. Por necessidade.

            O infinito precisa de veículos, e o concreto é um excelente condutor.

            A redenção, então, deixa de ser um objetivo e se torna um processo contínuo de desintegração da certeza.

            Cada vez que se reconhece a falha na percepção, algo se dissolve. Não apenas uma crença, mas uma camada inteira de interpretação.

             O mundo se torna mais instável, mais fluido, mais próximo do que talvez sempre tenha sido.

            E o vazio?

            O vazio não ameaça. Ele aguarda.

            Não há urgência no nada. Não há pressão. Apenas uma disponibilidade infinita para acolher aquilo que deixa de se sustentar.

            Cada ideia que colapsa, cada estrutura que se revela ilusória, cada parede que se desloca alguns centímetros — tudo encontra no vazio um destino inevitável e, estranhamente, adequado.

            A perturbação não está no vazio em si, mas na resistência a ele.

            Na insistência em manter formas fixas em um contexto que favorece o fluxo. Na tentativa de congelar o instante em um contrato de longo prazo.

            Na crença de que é possível habitar um ponto sem ser afetado pela totalidade.

            Mas o infinito infiltra.

            Sempre.

            E talvez — apenas talvez — a única redenção possível seja parar de construir paredes e começar a observar as rachaduras.

             Não como defeitos, mas como aberturas. Não como sinais de falha, mas como convites.

            O texto não termina aqui.

            Ele apenas interrompe sua própria continuidade para sugerir que há algo além desta linha, algo que não pode ser contido na sequência de palavras, algo que escapa à sintaxe e se instala diretamente na percepção.

             Um desvio sutil, uma alteração mínima, um deslocamento de sentido que, se seguido, leva a um lugar onde o conceito de lugar já não se aplica.

            E nesse ponto — que não é um ponto — a filosofia do imobiliário se dissolve completamente, revelando-se como o que sempre foi: uma tentativa elegante de negociar com o indizível.

            Sem sucesso.

            Mas com estilo.

Clayton Alexandre Zocarato

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