Uma doce preguicinha

Sabrina Terentim: Poema ‘Uma doce preguicinha’
(para Maria Fernanda)

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Pequena estrela dos olhos verdes,
mesmo quando o tempo passa sem nos deixar perto,
há um carinho tão bonito e tão pleno
que encontra o caminho certo.

Não precisamos nos ver todos os dias,
nem dividir cada momento da vida,
pois o afeto guarda suas próprias melodias
e mantém nossa amizade aquecida.

Sou grata por ter você em minha história,
minha irmãzinha, minha princesinha.

Guardo seu sorriso na memória
como um presente que a vida decidiu me oferecer.
E quando a saudade aparecer de mansinho,
feito uma nuvem leve no céu azul,
lembre-se: você tem um lugar com carinho
guardado no meu coração, do Norte ao Sul.

Mafe, que seus sonhos cresçam livres como o vento,
que a felicidade acompanhe cada passo seu.
E que você nunca esqueça, nem por um momento,
o quanto eu amo você

Sabrina Terentim

Poema de Sabrina Terentim, aluna do terceiro ano do ensino médio,
com ênfase em Administração, tendo por professor Clayton Alexandre Zocarato.

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Morada da alma

Guilherme Machado

‘Morada da alma: a oração que reorganiza o caos’

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
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“O ladrão não vem senão a roubar,
matar e destruir; eu vim para que tenham
vida, e a tenham com abundância.”
(João 10:10)

Certa manhã, um homem voltou para casa e encontrou tudo destruído. As gavetas estavam abertas. Os armários revirados. Papéis espalhados pelo chão. Portas escancaradas. Objetos quebrados.

A impressão era de que um ladrão havia entrado durante a noite e procurado algo com tanta violência que não se importou com o estrago deixado para trás.

Por alguns instantes, ele permaneceu imóvel. Tentava entender o que havia acontecido. Tentava calcular o prejuízo. Tentava descobrir por onde começar.

Primeiro recolheu os objetos caídos. Depois organizou alguns móveis. Mais tarde varreu o chão. Mas, quanto mais arrumava, mais bagunça parecia encontrar. Quando terminava um cômodo, outro ainda estava revirado.

A sala estava em ordem, mas o quarto continuava revirado. O quarto estava em ordem, mas a cozinha continuava um caos.
A cozinha estava em ordem, mas o quintal parecia abandonado.

Passaram-se horas. Talvez dias. Talvez anos. Até que, exausto, ele sentou-se no meio da própria casa. Pela primeira vez, parou de tentar resolver tudo sozinho. Então, orou. Não foi uma oração bonita. Não foi uma oração elaborada. Foi apenas sincera.

Pediu ajuda. Pediu direção. Pediu forças. Pediu que Deus fizesse aquilo que ele já não conseguia mais fazer.

E algo começou a mudar.Não porque os móveis voltaram magicamente para seus lugares. Não porque as paredes se reconstruíram sozinhas. Mas porque o homem começou a enxergar o que antes não via. Percebeu que algumas coisas precisavam ser restauradas. Outras precisavam ser descartadas. Algumas perdas eram reais. Outras existiam apenas em seu medo – ou talvez fossem livramentos.

Pouco a pouco, aquilo que parecia impossível começou a encontrar ordem.Não uma ordem perfeita. Mas suficiente para voltar a viver em paz. Foi então que ele compreendeu algo. O ladrão não havia invadido apenas sua casa. Havia invadido sua paz.
Sua esperança. Sua confiança.

E era justamente por isso que nenhuma solução humana parecia suficiente. A verdadeira restauração não começou quando ele pegou ferramentas. Começou quando dobrou os joelhos. Porque existem bagunças que a força reorganiza. Mas existem outras que somente a oração consegue colocar no lugar.

O telhado protege tudo. Se ele está ruim, entram chuva, vento e sol. Danificam cada cômodo. O homem descobriu, naquela manhã, que a oração era o telhado da sua alma. Sem ela, nenhuma parede se sustenta.

“Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.” (Salmos 4:8)

Gilherme Machado

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A história da música

Augusto Damas: Poema ‘A história da música’

Augusto Damas
Augusto Damas
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Antes das palavras nascerem,
antes dos livros e das canções escritas,
já existia a música.

Ela habitava o vento que soprava entre as montanhas,
o murmúrio dos rios,
o canto dos pássaros ao amanhecer
e o pulsar dos corações humanos.

Nos tempos antigos, quando a humanidade ainda aprendia a caminhar pela história,
mãos simples transformavam troncos em tambores,
ossos em flautas
e o silêncio em melodia.

A música acompanhou os povos em suas jornadas,
esteve presente nos templos sagrados,
nas festas dos reis,
nas colheitas, nas guerras e nas celebrações da vida.

Nas margens do Nilo, nas cidades da Mesopotâmia,
nas praças da Grécia Antiga,
ecoavam harpas, liras e cânticos
que atravessariam os séculos.

Veio a Idade Média,
e nos mosteiros a música elevou-se aos céus,
como oração transformada em som,
como ponte entre a Terra e o infinito.

Depois floresceu o Renascimento,
e as notas ganharam novas cores,
novas formas, novos sonhos,
como jardins sonoros cultivados pela imaginação humana.

Bach teceu harmonias como quem borda estrelas.
Mozart fez dançar a alegria entre os acordes.
Beethoven transformou desafios em eternidade,
fazendo da música uma voz mais forte que o tempo.

Então chegaram os novos séculos,
e a música atravessou rádios, discos, palcos e telas,
viajou por oceanos e continentes,
unindo povos, culturas e emoções.

No Brasil, ela encontrou morada no samba,
na saudade da bossa nova,
na poesia do choro,
na força do forró e na alma sertaneja.

E assim continua,
eterna companheira da humanidade,
contando histórias que as palavras não alcançam,
guardando memórias que o tempo não apaga.

Porque a música é mais que arte.

É linguagem da alma,
é emoção que ganha asas,
é o invisível transformado em som,
é a própria história da humanidade cantando através dos séculos.

Augusto Damas

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A brasilidade deu o tom em Bucareste

Pietro Costa: ‘A brasilidade deu o tom em Bucareste’

Pietro Costa
Pietro Costa
Foto - Arquivo pessoal do autor
Foto – Arquivo pessoal do autor

O Festival Internacional de Poesia de Bucareste – FIPB, fundado em 2012, é promovido pelo Museu Nacional da Literatura Romena (MNLR), e reúne vozes significativas da cena poética mundial.  O FIPB, nessa edição de nº XV (15 a 21 de setembro de 2025), tem designado uma autêntica celebração planetária da palavra. Durante uma semana, poetas oriundos de todos os continentes se encontram em recitais, mesas-redondas, oficinas, visitas culturais e diálogos abertos ao público. 

Bucareste em 2025 é uma ágora viva da poesia mundial. Sim! A literatura, com sua universalidade, se faz fluente na propagação de pensamentos e emoções, na expressão da complexidade humana, em todas as línguas.

No gracioso Jardim do Museu de Literatura de Bucareste, disseminaram-se fecundas sementes de poesia, advindas da Romênia, Suécia, China, Colômbia, Uruguai, Portugal, Itália, Honduras, Espanha, México, Suíça, Alemanha, Grécia… E do Brasil!!! Honra imensa em ter representado a força poética brasileira (e da minha cidade de Brasília/DF) na noite de 18 de setembro de 2025, ladeado das luminosas poetas Bernadete Saidelles (Rio Grande do Sul) e Eva Potiguara (Rio Grande do Norte), e da Presidente da Literarte Izabelle Valladares (Rio de Janeiro).

Estar na Romênia, terra do imortal Mihai Eminescu, representando Brasília e o Brasil, foi um privilégio que carrego como travessia literária e humana. A poesia, naquele período de 15 a 21 de setembro, não foi apenas palavra — foi ponte entre culturas, foi pássaro em voo entre continentes.

Desde os primeiros momentos, fomos recebidos com afeto, simpatia  e respeito por todos, em especial pelo notável escritor Dino  Flamand, tradutor para o romeno de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, entre outros; pelo adido cultural Ronaldo Vieira; pela professora PhD Alina Bianca Andreica (Associate Professor in Computer Science; Faculty of European Studies; Manager – UBB Brazilian Centre “Casa do Brasil” e Babes-Bolyai University, Cluj-Napoca, Romania); e pela Professora Gabriela Toma, PhD, Diretora do Museu Nacional da Literatura Romena.

No Festival, a delegação brasileira não foi apenas espectadora: fomos protagonistas de uma troca viva, levando nossas obras na ágora da poesia mundial em setembro, a capital romena, que acolheu representantes de cerca de trinta (30) países. A brilhante delegação brasileira cativou todos os olhares e atenções: Izabelle Valladares com sua oratória veemente e emocionada; Bernadete Saidelles e Eva Potiguara com a força de suas vozes poéticas, origens e legados.

Como os violinos romenos modulam melodias de dor e júbilo, também a literatura brasileira faz vibrar seus ritmos marcantes, ora suaves como uma bossa-nova ou chorinho, ora candentes como o samba de raiz ou o batuque ancestral que emana de nossas matrizes afro-indígenas.

A identidade multifacetária denota a literatura brasileira hodierna, feita de todos os cantos com sol e tempestades, com sonhos que resistem, com dores que dançam.

A brasilidade deu o tom em Bucareste, com sua potência lírica, crítica, inventiva, popular e vibrante, descortinando-se em horizontes de fraternidade, beleza, esperança e resiliência. E no diálogo intercultural, ganha a oportunidade de reafirmar a sua universalidade. A pulsação viva da criação literária brasileira, ao se fazer ouvir em solo romeno, vibra na mesma cadência em que Eminescu sonhou a imortalidade da poesia e Brâncuși plasmou na matéria a busca do infinito.

Gostaria que o mundo ouvisse, com a mesma reverência que têm por Neruda ou Lorca, nomes como Cecília Meireles e sua poética intimista e visceral; Drummond e sua caneta-diamante que lapida pedras em jóias poéticas; Conceição Evaristo e seu grito lírico ancestral e visceral que fura silêncios; Manuel Bandeira e seus versos descomedidos; Manoel de Barros e seu lirismo de “apanhar” desperdícios; Hilda Hilst, que ousou fundir o erótico e o metafísico; e Augusto dos Anjos, cuja visceralidade poética ainda hoje nos arrebata, pela modernidade, entre tantos outros!!

Tive a honra de doar exemplares de Requintes de Sensibilidade, Eclipser e SolRidente ao adido cultural Ronaldo Vieira e à professora PhD Alina Bianca Andreica.

Esses gestos simples, mas carregados de simbolismo, reafirmaram a missão de estarmos lá: semear integração, firmar laços, edificar pontes.

Lembro também da noite mágica de 18 de setembro, nos jardins do Museu de Literatura, quando entreguei um exemplar de SolRidente ao artista romeno Vlad Galatianu, que, para nossa surpresa, encerrou a programação da data com uma apresentação de bossa nova. Foi como se Brasil e Romênia se dessem as mãos em forma de música.

Um dos momentos mais emocionantes foi nossa visita no dia 19 ao Liceul Teoretic Eugen Lovinescu, o maior centro de ensino de língua portuguesa vinculado ao Instituto Camões na Romênia.

Encontramos jovens vibrantes, curiosos, que recitaram, perguntaram, sonharam conosco. Doamos livros, conversamos, trocamos impressões.

Percorremos os corredores adornados com as placas da Expo Romênia 2025, onde minhas obras Indizível, Gritantes Feições, Voz Incorruptível, Olhares Fugidios e Amor Genuíno estavam expostas.

Ali percebi: a poesia é mesmo o idioma universal da fraternidade e da paz, capaz de dialogar mesmo com os corações mais hostis.

Mas a arte poética não ficou limitada aos palcos e auditórios. Bucareste nos ofereceu também sua arquitetura monumental — o Parlamento, a herança histórica de uma cidade pujante — e a beleza de espaços como o Castelo de Peles, em Sinaia, e a Igreja Negra de Brașov.

Vivenciamos confraternizações memoráveis, como o encontro no restaurante The Mark, onde a delegação brasileira alinhavou estratégias, riu, partilhou confidências e fortaleceu laços de amizade.

Houve também instantes mais descontraídos no centro da cidade, explorando a vida noturna e a gastronomia romena — porque a cultura se usufrui também à mesa.

Em cada esquina de Bucareste, em cada olhar trocado, em cada aplauso sentido, percebi que a poesia não é apenas literatura: é diplomacia, é afeto, é história, é resistência.

Sou efusivamente grato a Deus, à minha família, à Literarte, à Embaixada do Brasil, ao Itamaraty, ao Museu Nacional da Literatura Romena, à Gabriela Toma e a todos que tornaram esse encontro possível.

Volto ao Brasil com a certeza de que a poesia pode, sim, transformar o mundo — verso a verso, encontro a encontro. E deixo aqui o convite: sigamos juntos, porque a minha longa travessia literária, de costa a costa, está apenas no início. Que novos e atuais poetas, contemporâneos e vivos, possam romper fronteiras e serem com justeza reconhecidos além-mares graças à sua vastidão criativa.

Pietro Costa

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O Guarda-Vidas

Paulo Antônio de Azevedo lança o romance ‘O Guarda-Vidas, no qual mergulha no cotidiano dos profissionais de Itapemirim e celebra a cultura litorânea em uma narrativa de forte identidade brasileira.

O Guarda-Vidas. Enre a ficção e a rotina de que salva vidas
Capa do livro O Guarda-Vidas

O escritor mineiro Paulo Antônio de Azevedo acaba de lançar o seu mais novo romance, O Guarda-Vidas (Editora Dialética).

Paulo Antônio de Azevedo.
Paulo Antônio de Azevedo

Nascido em Paineiras (MG) e residente em Belo Horizonte, o autor, que é formado em Administração e Ciências Contábeis com pós-graduação em Auditoria pela PUC Minas, há anos mantém uma estreita ligação com o litoral do Espírito Santo, em especial com a comunidade pesqueira de Itaipava.

É desse convívio com o mar e com as pessoas simples da região que nasce a inspiração para as suas narrativas.

Azevedo já é conhecido do público leitor por obras como Onde o Mar Aprende a Amar e Onde o Mar Não Descansa, títulos que consolidaram sua trajetória voltada para histórias de forte identidade brasileira e sensível observação do cotidiano.

Em O Guarda-Vidas, ele volta a colocar o oceano no centro da trama, desta vez conduzindo o leitor para o universo desafiador das praias de Itapemirim.

O mar como elemento vivo

Mais do que traçar um perfil técnico da profissão de salvamento, o romance busca revelar os valores humanos que cercam esses profissionais.

Entre treinamentos, resgates e conflitos pessoais, a obra destaca temas como disciplina, companheirismo, superação e pertencimento.

Um dos grandes destaques do livro é a sua rica ambientação litorânea.

A dinâmica das comunidades costeiras, a praia e o próprio mar não funcionam apenas como pano de fundo estático, mas ganham contornos de “personagens vivos” que influenciam as escolhas e transformam o destino dos envolvidos.

Segundo o autor, a ideia nasceu da observação da força silenciosa das pessoas comuns que demonstram grandeza através de gestos cotidianos longe dos holofotes.


“A inspiração veio da convivência com amigos, de relatos ouvidos ao longo da vida e de cenários que conheço de perto. Procurei retratar valores universais. O mar surge como elemento transformador, capaz de aproximar pessoas e revelar fragilidades”,

Paulo Antônio de Azevedo.


Literatura de conexão humana

Com uma escrita voltada para a sensibilidade narrativa e valorização da vida comum, O Guarda-Vidas equilibra a responsabilidade e o risco da profissão com a calmaria e os silêncios do convívio simples, como as pedaladas de fim de semana.

O romance se apresenta como um convite para o leitor desacelerar e conhecer de perto o universo litorâneo capixaba, reafirmando o compromisso do autor com uma literatura humana, acessível e focada na empatia e no ato de cuidar do outro.

O livro já está disponível nas principais plataformas digitais e livrarias do país.

REDES SOCIAIS DO AUTOR

O GUARDA-VIDAS

SINOPSE

Em “O Guarda-Vidas”, Paulo Antônio de Azevedo convida o leitor a mergulhar no cotidiano intenso e pouco visível dos profissionais que vigiam o mar nas praias de Itapemirim.

Entre o sol inclemente, o vento salgado e a vigilância constante das ondas, a narrativa revela uma rotina marcada por disciplina, risco e humanidade.

Misturando ficção e realidade, o livro percorre salvamentos, treinamentos, histórias transmitidas pela memória coletiva e encontros humanos que deixam marcas profundas.

Mas vai além do ambiente de trabalho: acompanha também os momentos de descanso, as pedaladas de fim de semana, o convívio simples, o lazer e os silêncios que ajudam a recompor o corpo e o espírito de quem vive sob constante estado de alerta.

Cada episódio expõe não apenas os desafios técnicos da profissão, mas também os dilemas éticos, o companheirismo, a empatia e o esforço diário para equilibrar responsabilidade e vida pessoal.

Com descrições vívidas da paisagem litorânea e uma escrita sensível, “O Guarda-Vidas” constrói um retrato emocionante de homens e mulheres que protegem vidas no mar, e aprendem, fora dele, a cuidar da própria.

Um romance contemporâneo sobre pertencimento, coragem e a força silenciosa de quem permanece atento, dentro e fora da água.

Assista a resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRA DO AUTOR

O Guarda-Vidas
O Guarda-Vidas

ONDE ENCONTRAR


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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Bibiana e seus quase 120 anos bem-vividos

Eduardo Cesario-Martínez

‘Bibiana e seus quase 120 anos bem-vividos’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Bibiana Augusta Ferreira da Costa, do alto dos seus quase 120, conforme constava na carcomida certidão de batismo, praticamente nunca ouvia seu nome. Não que fosse surda, pois ouvia muito bem, mas apenas as coisas que queria escutar. A razão é que, desde menina, sempre fora chamada de Bibi, carinhoso apelido que a avó materna, Gumercinda dos Anjos Ferreira, lhe pusera. 

          Aliás, vale aqui um adendo sobre a longevidade de Gumercinda, cujos registros de batismo e civil eram incongruentes. Não a ponto de provocar discórdia tão significativa, ainda mais porque três anos não passavam de sopro diante dos 167 de existência grafados na lápide da velha lá pelos lados de Ouricuri, no nosso amado Pernambuco. Bibi, parece, herdara a capacidade da avó de se manter viva por tanto tempo.

          Outra característica incomum em Bibi era a fertilidade. A mulher, entre vivos, natimortos e mortos de alguma ziquizira qualquer, havia parido 48 vezes, sendo a primeira aos 15 e, a derradeira, aos 74 anos. E, há os que arriscam a dizer, poderia ter tido mais duas ou três crias, caso não fosse pela falta de homens que se abateu na cidade por conta de moléstia até hoje não totalmente desvendada. 

          Esse mistério ocorreu lá pelos idos de 1938 ou 1939. E, dependendo do contador desse causo, pode adiantar ou retroagir um par ou dois de anos. Na verdade, essa discórdia parece não ser importante, pois, até onde me consta, não atrapalha no desenrolar da história. 

          Pois bem, sem mais delongas, durante quatro ou cinco anos, todos os homens em idade fértil escafederam-se da região ou, então, foram dizimados por um mau agouro, que, segundo ainda se fala por lá, os impediu de passar suas desgraças às gerações futuras. Um desses casos, até onde se sabe, o derradeiro, foi do desaparecido até então Antônio Firmino, último a se deitar com Bibi, então no viço dos seus 73.

          Alguns falam em caxumba que desceu para as partes, outros de reza da beata Iranilde Almeida, que não suportava os gemidos de prazer dos amantes, que pululavam naqueles cantos a qualquer hora do dia, da tarde e da noite, sem contar que não davam sossego nem na sagrada madrugada, quando todos os santos estão adormecidos, talvez pelas cantigas, rezas e orações. Isso como se houvesse distinção da primeira para a segunda e cada uma com as demais. Tudo levava ao mesmo fim, ou seja, à pura castidade, que, por mais desacreditada que fosse, era o objeto de desejo dos impuros solitários. 

          Aos 84, Bibi se viu sem regras. Os calores lhe tomaram todo o corpo, mas não aqueles dos tempos em que se deitava com um homem. Eram por conta da secura advinda com a infertilidade, mas que, vez ou outra, ainda trazia rescaldo de outrora. Continuava se deitando, mais por costume do que necessidade. E não fazia distinção de pretendentes, que, apesar de raros, ainda conseguiam arrancar um sorriso daquele rosto, cada vez mais enrugado. 

          Os que ainda se arriscavam sabiam que, quando houvesse um aceno, poderiam chegar sem receio de serem enxotados. Mesmo algum forasteiro sabia que teria o que precisava, inclusive uma cerveja gelada, desde que com paga adiantada. Nada de fiado, pois, até em contrato de amor, não se pode surrupiar o direito da mulher faturar o seu. Bibi, tarimbada que era, até onde me falaram, sempre havia recebido adiantado. Ademais, queixa também nunca se ouviu, mesmo dos mais exigentes.

          Pois lá estava Bibi, perto de completar mais um aniversário, quando foi surpreendida pela visita de Antônio Firmino, duas décadas e meia mais novo do que ela. Não se sabe se foi por causa de reza ou da catuaba, o homem parecia ainda mais revigorado que nos áureos tempos de seus 25. Deitou-se com a velha Bibi, que, quase com o mesmo sorriso de outrora, caso não fosse pela completa falta de dentes, acendeu o cigarrinho de palha e o ofereceu ao amante, que aceitou de bom grado.

          — Deus faz, o vento espaia, mas aí vem o Diabo e ajunta de novo — disse a velha. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Onde nascem as estrelas

Marli Freitas: Poema ‘Onde nascem as estrelas’

Marli Freitas
Marli Freitas
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Muito além, onde nascem as estrelas,
Um mistério de amor acontece
Atravessando universos e galáxias,
Guardando lembranças de outras eras…

Onde nenhum lugar é longe demais
E as asas não têm vergonha…
Experimentam as delícias do voo
E mergulham nas dimensões do amor.

Consagrados para a sublimação do mundo,
Os enamorados se aperfeiçoam
Na busca pelo merecimento do presente
Santo, que banha de luz a eternidade.

Dentro do mistério inimaginável de Deus
Viajam pelo infinito, enfrentam perigos,
Perdem-se em profundidades, vão além
Da altura das montanhas, do calor do sol…

Na esperança do elo sagrado que os une
Seres alados atrás das nuvens, que,
Por eras distintas, os manteve sem nomes,
Apenas significado na imensidão azul.

Marli Freitas

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