A renovação ética em tempos de divisão

Taghrid Bou Merhi

‘A renovação ética em tempos de divisão: como a palavra reconstrói o mundo’

Taghrid Bou Merhi
Taghrid Bou Merhi
Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69f17bf2-5150-83e9-bdf6-59df1b503674
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Em tempos em que os mapas se fragmentam e as distâncias entre o medo e o discurso se estreitam, o mundo parece entrar em uma nova fase de partilha: partilha de geografias, de riquezas, de narrativas e até mesmo da própria definição da verdade. As lealdades se distribuem como se distribuem os interesses, e as fronteiras são traçadas dentro da linguagem antes de serem desenhadas sobre a terra.

Nesse clima tenso, a questão já não é apenas política ou cultural — ela se torna, em sua essência, ética: como o ser humano pode recuperar o equilíbrio dos valores em um tempo dominado por paixões, interesses e visões conflitantes? Daí nasce a necessidade de uma renovação ética que não se reduza a um discurso moralizante nem se limite a slogans genéricos, mas que se manifeste como uma transformação profunda da consciência individual e coletiva — uma reconstrução do ser humano a partir de dentro.

A partilha não é um conceito neutro; ela implica uma distribuição de poder e de sentido. Quando os povos dividem a terra, dividem também a história, a memória e os símbolos que a acompanham. Quando as comunidades compartilham narrativas, as verdades se multiplicam a ponto de se confrontarem, e a voz única se fragmenta em estilhaços de vozes. Essa realidade cria um estado de rigidez moral, em que os princípios se tornam instrumentos de defesa e a diferença passa a ser percebida como ameaça. Em tais momentos, não basta apegar-se aos valores herdados; é preciso questioná-los, interrogar suas raízes e libertá-los do uso utilitário que esvazia seu significado.

A renovação ética não significa substituir superficialmente um sistema por outro, mas retornar às perguntas fundamentais: o que é justiça? O que é responsabilidade? Quais são os limites da liberdade quando ela se cruza com a liberdade do outro? Essas questões ocuparam os filósofos ao longo dos séculos, e, a cada época turbulenta, novas respostas emergiram. Após as guerras europeias, o filósofo alemão Immanuel Kant escreveu sobre o dever moral como um compromisso interior baseado no respeito do ser humano por si mesmo e pelo outro.

Seu projeto não era mera especulação racional, mas uma tentativa de estabelecer um critério que transcendesse interesses imediatos. A ideia do “imperativo categórico” surgiu como um convite a agir de modo que a ação pudesse ser universalizada — um comportamento cuja legitimidade provém de sua possibilidade de se tornar regra comum entre os seres humanos.

Cerca de um século e meio depois, em meio ao colapso dos valores europeus nas duas guerras mundiais, o filósofo francês Emmanuel Levinas apresentou uma concepção ética distinta, colocando a responsabilidade pelo outro como origem de todo sentido. Ele não partiu de uma lei abstrata, mas do rosto do outro, cuja presença se impõe como um chamado ético impossível de ignorar. Em tempos de divisão, quando grupos se cristalizam em identidades rígidas, recordar o rosto do outro torna-se um ato de resistência contra a objetificação e a exclusão.

A literatura também não permaneceu distante dessa inquietação ética. Nos romances de Fiódor Dostoiévski, o conflito entre o bem e o mal se desenrola no interior da alma humana, em contextos sociais marcados por desigualdade e angústia espiritual. Suas personagens vivem em ambientes turbulentos, onde a responsabilidade individual é constantemente posta à prova: pode o ser humano justificar seu erro pelas circunstâncias? A renovação nasce da confissão ou da punição? Suas obras revelam que a transformação ética começa quando o indivíduo enfrenta a si mesmo com honestidade dolorosa.

Albert Camus, por sua vez, abordou a moralidade em um mundo absurdo. Em seu romance “A Peste”, a epidemia torna-se metáfora do mal coletivo e da prova da consciência. As personagens não dispõem de certezas metafísicas que as tranquilizem, mas escolhem a solidariedade e a ação. A renovação ética aparece, assim, como um gesto cotidiano, uma insistência no sentido em meio ao absurdo.

Em outro contexto, o pensador indiano Rabindranath Tagore escreveu sobre a unidade entre o ser humano e a natureza, defendendo a superação do egoísmo nacional em direção a um horizonte mais amplo de humanidade. Sua visão não era política no sentido restrito, mas espiritual e cultural: a renovação começa pela reconciliação entre o eu e o mundo. Em tempos de disputa por poder e recursos, seu chamado à abertura e à tolerância soa como um convite ao reequilíbrio interior.

A filosofia árabe contemporânea também abordou essa questão sob diversas perspectivas. O pensador marroquino Mohammed Abed Al-Jabri propôs uma crítica da razão árabe e sua reconstrução sobre bases racionais, afirmando que qualquer renascimento ético exige a desconstrução das estruturas mentais que perpetuam o fechamento. O filósofo libanês Charles Malik, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, via na dignidade humana o alicerce de qualquer projeto ético moderno. Esses esforços demonstram que a renovação não é ruptura com a tradição, mas leitura crítica que abre novos horizontes.

Na era digital, a crise ética assume novas formas. A verdade se dispersa entre plataformas, e a opinião se converte em mercadoria. Nesse cenário, a honestidade torna-se uma responsabilidade ainda mais pesada. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa recorda que a liberdade de expressão não é privilégio, mas compromisso. O escritor e o jornalista não podem se refugiar na neutralidade quando a dignidade humana está em jogo. A renovação ética implica redefinir a relação entre liberdade e responsabilidade, entre o direito de falar e o dever de verificar.

O trabalho também ocupa lugar central nesse debate. O Dia Internacional dos Trabalhadores destaca a dignidade das mãos que constroem, cultivam e cuidam. Em um mundo onde a riqueza é distribuída de forma desigual, reconhecer o valor do trabalho é um ato ético. O filósofo alemão Karl Marx identificou na alienação do trabalhador um sintoma de desordem moral na estrutura econômica. Sua análise não era apenas econômica, mas crítica à perda da humanidade em um sistema que transforma o indivíduo em instrumento de produção. Sob essa perspectiva, a renovação ética exige repensar as condições de justiça social.

A questão ambiental igualmente integra esse processo. O Dia Internacional da Biodiversidade nos lembra que a relação entre humanidade e planeta não é mera exploração, mas responsabilidade. O filósofo alemão Hans Jonas formulou o “princípio da responsabilidade” voltado às gerações futuras, defendendo uma nova ética capaz de reconhecer a fragilidade do mundo natural. Em tempos de crise climática, a renovação ética torna-se uma necessidade existencial ligada à preservação da vida em todas as suas formas.

Diante desses exemplos, torna-se evidente que a renovação ética não nasce de decretos, mas de transformações sutis na consciência. Ela começa quando o indivíduo compreende que sua identidade não anula a humanidade compartilhada, que sua força não legitima a dominação e que sua pertença não justifica a exclusão. Em tempos de divisão, pode ser tentador apegar-se ao interesse imediato; contudo, a história mostra que sociedades que negligenciam sua dimensão ética mergulham em ciclos de violência difíceis de romper.

Literatura, filosofia e ciência não são esferas isoladas da vida cotidiana, mas laboratórios de sentido. Quando um poeta escreve sobre a dor do outro, redistribui a luz sobre áreas esquecidas da consciência. Quando um cientista reflete sobre o impacto de nossas escolhas no planeta, coloca diante de nós um espelho do futuro. Quando um filósofo questiona justiça e liberdade, abre caminhos para reconstrução.

A renovação ética, portanto, não é luxo intelectual, mas condição para a sobrevivência do sentido em um mundo fragmentado. É um percurso que exige coragem para reconhecer erros, disposição para escutar e capacidade de imaginar um mundo que acolha a diferença sem convertê-la em conflito permanente. Talvez não transforme rapidamente os mapas políticos, mas transforma o ser humano que os desenha.

Ao final, permanece a pergunta suspensa no espaço da reflexão: se o mundo divide terras, riquezas e narrativas, seremos capazes de compartilhar também a responsabilidade e reconstruir uma ética comum que salve nossa humanidade da erosão ou permitiremos que a partilha se converta em fratura irreversível?

Taghrid Bou Merhi

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Mostra Companheiros de Cinema


Mostra Companheiros de Cinema chega à 2ª edição e fortalece o audiovisual regional em Sorocaba

Curta-metragem do grupo
Curta-Metragem do Grupo

O Grupo Os Companheiros em parceria com Ana Duarte realiza sua Segunda Mostra de Cinema. O evento é gratuito e acontece no dia 02 de maio, às 19h, no Espaço Cultural Du’Artes, em Sorocaba.

Criada para valorizar e impulsionar o audiovisual local, a segunda Mostra Companheiros de Cinema se consolida como um espaço de encontro entre realizadores, artistas e público, promovendo visibilidade às produções da região, estimulando conexões no setor e fomentando oportunidades concretas no mercado audiovisual. A primeira edição já mostrou o impacto disso. Surgiram contatos, parcerias e oportunidades reais.

“Fui convidado a integrar a direção de arte de um curta-metragem da cidade depois que conheceram meu trabalho na mostra, isso evidencia que o evento não termina na exibição, ele segue tecendo conexões, fortalecendo parcerias e expandindo horizontes dentro da cena cultural”, relata Fabiano Amâncio, ator, diretor de arte e cenógrafo.

A primeira mostra, realizada em setembro de 2025, recebeu 21 inscrições e selecionou 8 filmes para exibição, reunindo cerca de 70 pessoas, alcançando lotação máxima no dia da exibição. Nesta segunda edição, foram contabilizadas 53 inscrições, incluindo trabalhos de outros estados, evidenciando o crescimento e o alcance da iniciativa.

Mesmo diante do aumento do interesse, a curadoria preservou o compromisso com a valorização da produção regional, priorizando obras de Sorocaba e região, em consonância com a proposta do evento.

“Temos um cinema muito potente na nossa cidade e região. Muitas vezes, vemos produções locais buscando profissionais de fora, quando na verdade existe uma rede qualificada aqui. Nosso objetivo é justamente fortalecer esses laços e colocar esses artistas em evidência”, afirma Maria Helena Barbosa.

Os filmes selecionados para esta segunda mostra são:

 Cisne, Minha Mãe e Eu - direção de Guilherme Telli e Andréia Nhur
Cisne, Minha Mãe e Eu – direção de Guilherme Telli e Andréia Nhur

  • O Cisne, Minha Mãe e Eu – direção de Guilherme Telli e Andréia Nhur

  • Ecos de Sorocaba – direção de Maria Eduarda Favetta, Lorena Terra e Kellynn Julietta

Intermúndio - direção de Pietro Godinho
Intermúndio – direção de Pietro Godinho

  • Intermúndio – direção de Pietro Godinho

Curta-metragem Erva Daninha - Direção de Fábio Salvado
Curta-metragem Erva Daninha – Direção de Fábio Salvador

  • Erva Daninha – direção de Fábio Salvador

  • Marreta – direção de André Fidalgo.
Protocolo-Zero-curta-metragem-do-grupo-Os-Companheiros.
Protocolo Zero, dirigido por Alexandre Valentim e produzido pelo grupo Os Companheiros

A exibição inclui o curta da casa Protocolo Zero, dirigido por Alexandre Valentim e produzido pelo grupo Os Companheiros.  Esta segunda Mostra recebe como convidado especial o diretor Mauro Baptistella, que apresenta o curta Prazer, Estela e participa de um bate-papo ao final da sessão sobre os desafios e caminhos da produção audiovisual local.

Serviço


2ª Mostra Companheiros de Cinema

📅 Data: 02 de maio de 2026

🕖 Horário: 19h (pontualmente)

📍 Local: Espaço Cultural Du’Artes- Rua Antonio São Leandro, 76 – Sorocaba/SP

🎟️ Entrada gratuita

Sujeito a lotação, 70 lugares – chegar com antecedência

🔞 Classificação indicativa: 16 anos

⚠️ Não será permitida a entrada após o início da sessão




Sonho etéreo

Marli Freitas: Poema ‘Sonho etéreo’

Marli Freitas
Marli Freitas
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Dois corações, profundo cosmos a ser
Sentido; almas que se procuram
E se acham. Tudo me leva a crer:
É para o amor que os ventos sopram.

E não é compreendendo o porquê
Que se ama, mas nos olhos que sorriem;
No deleite do voo que me leva a você,
Pois etéreos são os sonhos que me guiam.

Almas enlaçadas e um permitir
Que navega profundo no coexistir,
Para o que é belo e puro sentir.

Santos – silêncios enamorados!
Benditos – corações iluminados!
Ditosos – olhos apaixonados!

Marli Freitas

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Do Peru ao ROL, Ana Cecilia Chávez Zavalaga!

Ana Cecilia traz ao ROL a literatura do Peru, Terra do Condor, da Puma e da Serpente, animais sagrados que representam a cosmovisão espiritual inca!

Ana Cecília Cháves Zavalaga
Ana Cecília Chávez Zavalaga

Ana Cecilia Cháves Zavalaga, natural de Lima, Peru, e radicada em Baden-Baden, Alemanha, profissionalmente é especialista em relações públicas e marketing.

Na área cultural é escritora e poetisa, com seis obras publicadas: Tempos de Esperança (2020);

Para Você (2021); Essência (2022); Tempestades do Coração (2023); Seres Ocidentais da Visibilidade) (2023) e Sensações (2025).

Diretora e apresentadora do podequeste Labirinto de Letras, Através do Espelho.

Ana Cecília se apresenta aos leitores do ROL com o conto La incógnita (O enigma), uma contundante narrativa alegórica e social.

La incógnita

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En el centro de cuatro paredes de estera, la que fue tejida con paja de juncos, ahí con los pies descalzos, ajados y sucios apoyados sobre  el suelo de arena, la que  vuela tapizando los cuerpos de individuos  incógnitos en la cima de un cerro, donde solo viven los que ya casi están muertos.

Ahí en su cerro, con el hambre devorando hasta sus huesos, una mujer envejecida por la explotación de  un sistema donde el poder de los ricos significa  el derecho absoluto a una vida digna y placentera, mientras los incógnitos esclavos modernos sobreviven ante un mundo injusto e incierto.

Sentada sobre un banco lleno de polvo y astillas frente a una tabla que simulaba la  que en sus sueños podría ser la mesa donde manjares precederían un festejo, ahí estaba ella, la incógnita, sin educación, sin nombre, ni  abolengo, la indigna, la que no tiene nada aunque muchos ignoren que tiene un alma junto a un corazón vivo y sabio habitando en lo triste de su maltratado cuerpo.

Sobre la mesa, mil retazos de telas, pedazos grandes y chicos de distintas texturas y colores, telas amontonadas,  unas sobre otras, y  ella, la incógnita deslizaba cuidadosamente  sus dedos seleccionando las telas, pues quería convertir en realidad su sueño. 

Corto con tijeras uno a unos los pedazos de tela, con aguja e hilo en las manos unió los retazos e hizo banderas. ¡Qué lindos colores! ¡Qué lindas las razas, que puso Dios sobre la tierra!

La incógnita observaba feliz las banderas, cogió una a una y las unió haciendo con ellas una  única  y larga bandera. La bandera de un mundo sin límites ni fronteras, donde no existe el hambre y no hay diferencias.

La bandera de un mundo que no conoce de guerras, donde la sangre no es la moneda con la que se paga la riqueza de pocos y el hambre de muchos que mueren en vida su triste condena.

La incógnita sueña y viste su choza con una sola bandera, espera que el mundo la entienda, no quiere más sangre y quiere un pan sobre su mesa.

Ana Cecilia Chávez Zavalaga

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Availability

Jane Nash: Chronicle ‘Availability’

Jane Nash
Jane Nash
Pat Hunter (Nanna)
Pat Hunter (Nanna)

I rise at 4am as I have for the past 16 years but there’s no-one to call at this ungodly hour. I have ungodly needs. I’m tempted by Ouiji boards but in truth, I need to find me a necromancer. I fantasise about ayahuasca ceremonies that will let me speak to spirits of the dead, will let me see the dead not as they are but as they were at their best. Sadly this probably includes the darker souls who attach themselves to my memories. I only want to stand behind her and put my arms around her waist.

I am awake at 4.15am and I stare at the link we would use to chat about nothing. I regret my words carried so little of me. I am grateful to have been part of her jigsaw. I consider a mug of mugwort to help me escape this anchored state in these dark hours. But I am paralysed each morning when I wake. She is no longer available.

 Write a letter. Remember the good times. Talk out loud. Look at old photographs. None of this helps. None of them. These suggestions can’t soothe the knife in my stomach, splitting me open, spilling internal organs over the floor.  I bleed tears; pints and pints of tears. There is no end to the concrete, the inanimate nor the silence in the house. The birds sleep and the insects of the night have taken their respite before dawn.

I wait at 4.30am when I would have got an injection of laughter, of gossip, of love. No amount of life in the present fills the gap. I loved her unconditionally I was loved by her unconditionally. Where will I find that again? I don’t bother yearning for a replacement. There can be none.

I lie down at 4.45am. My pillow soaks up the lifeblood of grief. I can’t seem to get rid of the knot in my throat. I wonder whether, after all this time, I am being indulgent after all, it’s been more than the cycle of seasons. Wet, my mouth allows rivers flow over my face to enter the darkness of my insides. Perhaps I don’t want these feelings to go away but I would like to sleep through the night instead of being exhausted on waking from the lack of interaction.

I often dream of her. She looks younger, the grandmother of my childhood. We roam the sand dunes with her dog and my uncle who is four years older than me. I want to reach out to him but I am sure his grief takes a different form than mine. As much as I might want to exchange experiences, I know this is sacred, this silence, this pain through me. It’s mine, not for sharing, as is his.

Jane Nash

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Da Espanha ao ROL, Rafael Peñas Cruz!

Rafael Peñas traz ao ROL a essência poética de sua terra natal, Pozoblanco, no coração da comarca de Los Pedroches, em evocações à literatura e à fugacidade do tempo!

Rafael Peñas Cruz
Rafael Peñas Cruz

Rafael Peñas Cruz, natural de Pozoblanco, em Córdoba, Espanha, é escritor, tradutor e professor aposentado de Cultura e Sociedade Hispânica.

É formado em Filologia Inglesa pela Universidade de Barcelona e possui mestrado em Estudos Hispânicos pelo Birkbeck College, da Universidade de Londres, onde reside desde 1992.

Em 2004, publicou seu primeiro romance em espanhol, Las Dimensiones del teatro (As Dimensões do Teatro), e em 2009, seu segundo romance, Charlie, também em espanhol, foi vencedor da quinta edição do Prêmio Terenci Moix de Literatura LGBTQIA+.

Em 2020, fundou a Goat Star Books, um projeto editorial independente especializado em traduções de poesia como ponte entre pessoas e culturas.

Rafael inaugura sua colaboração no ROL, apresentando uma resenha sobre o livro Rizoma – “um mundo subterrâneo de raízes interconcectadas -, da poetisa Efi Cubero.

Rizoma

Rizoma, un mundo subterráneo de raíces interconectadas, perfecto título para esta colección de poemas, una antología muy especial de la obra completa de Efi Cubero, seleccionada por ella misma con esmero. 

Efi es una gran poeta y una mejor persona. Generosa con su tiempo y sus amigos, nos deleita cada día en Facebook con su conocimiento de profeta taoísta, humilde trabajadora de las palabras que escribe para el tiempo y no para nuestro presente, ilusorio y breve. Como Emily Dickinson, Efi escribe para la eternidad.

Quizás sea ella la más oriental de los poetas hispanos, inscribiéndose no obstante en una tradición que ya es ella misma oriental en sus orígenes, pues surge de lo persa y de lo griego, recogido por los árabes y enraizado en Al Ándalus, punto cero de nuestra poesía. Desde las jarchas primigenias hasta la poesía mística y la amorosa, desde Jorge Manrique hasta Lorca o Neruda, ese poso oriental es el rizoma poético de toda nuestra cultura, crisol de los saberes de todos los pueblos que cruzaron por la península, puente en la intersección de Asia, África y Europa, a la que se unió más tarde la riqueza americana.

En este libro, la poesía es un viaje, o más bien una preciosa mercadería que cruza desiertos y mares, semillas que se caen de los bolsillos de los comerciantes que solo buscan oro. Es un recorrido por toda una vida dedicada a las palabras. La poeta se sumerge en las profundidades subacuáticas con la habilidad de una buscadora de perlas, sacando de entre el limo esas palabras que iluminan la oscuridad del camino.

Rizoma es una hoja de ruta en la que cada poema es una miguita de pan que va dejando la caminante por su senda para que las recojamos nosotros, lectores pordioseros con sed de conocimiento.

El libro es un camino en seis estadios. Todo empieza con la mirada: ver para creer, ver para vivir y vivir para ver. La mirada como instrumento esencial del sabio y el poeta, de los buscadores de señales en los campos de estrellas. La mirada como brújula y guía, y el libro como bitácora donde la navegante registra coordenadas y claves.

La infancia es el siguiente estadio, un paraíso eternamente recobrado, pues nunca fue perdido. No hay caída que valga en la poesía de Efi Cubero, solo descenso a las honduras y oscuridades para mejor elevarse luego. No hay rama de árbol que no se haya nutrido de la riqueza del subsuelo. La infancia es una linterna que, desde atrás, nos ilumina la vereda. 

Sí el nacimiento es el punto de partida,  la existencia es a la vez travesía y Odisea, un viaje de ida y vuelta, un juego eterno de presencias y ausencias en que todo final es un nuevo principio. La vida, y el libro, son un periplo rico en experiencias que nos educan y moldean, nos elevan y ennoblecen.

Otro estadio en la ruta es el de los lugares habitados, las ciudades y paisajes visitados, el escenario por el que avanzamos, los locus amoenus en los que reposamos nuestros cuerpos cansados, los cafés en los que nos detuvimos para ver  la vida pasar, los monumentos y cementerios donde homenajeamos a los ancestros, poetas y artistas, los proscenios y decorados, la inmersión en ambientes y circunstancias de los que se nutre un alma viajera. 

Después está la naturaleza, la gran maestra de la que la poeta aprende la única certeza que tal vez posea: el conocimiento de que todo nace por un puro azar, y por un puro azar se vive, ama y muere, y se deja tras sí esa semilla que el poeta  lanza a voleo  sabiendo que germinará en algo siempre viejo y siempre nuevo.

Las huellas que dejan nuestros pasos conforman un nuevo estadio a medida que avanzamos en nuestro recorrido; ruinas y pecios, tesoros sumergidos tras naufragios y hundimientos, columnas en las arenas del desierto, pistas en el lugar del crimen, lápidas borradas, nuestra imagen reflejada en la corriente, el eco de las voces que rebotan en los troncos en el corazón del bosque, las imágenes plasmadas en lienzos magistrales, melodías no escuchadas, tonadas ancestrales. 

Y siempre, en cada momento del viaje, la creación, o quizás su resultado, lo que cada uno aporta en ese avance nuestro hacia lo desconocido. El Santo Grial que llevamos en la mente, pues solo existe el camino y al final todo lo que nos queda es el amor que hayamos sabido dar, un amor que queda impreso en versos y corazones, transustanciado en palabras-semilla que brotan como los narcisos en primavera.

Rizoma no es un bildungsroman, un trayecto desde la inocencia a la experiencia, sino más bien un haibun que recorre los recodos del universo. Palabras que se abren al silencio del que brotan y al que vuelven. Poesía no de la experiencia sino de la extrañeza y el misterio. En estos versos, la identidad de la poeta se hace jirones de niebla. Es una poesía que se mueve en las capacidades negativas de John Keats, la habilidad de un individuo para vivir en la incertidumbre, en dudas y enigmas, sin sentir la necesidad de buscar hechos o razones, una capacidad esencial para la creatividad y la comprensión profunda.

Los poemas de Rizoma entroncan verdaderamente con el pensamiento y la poesía taoísta, pues buscan la revelación de lo esencial. Es un libro en el que, a través de las palabras de Efi Cubero, el universo se abre a sí mismo, se transforma en libro abierto, en un árbol que crece hacia el cielo, transformando en luz el oscuro cieno.

Rafael Peñas Cruz

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Ángeles de cera

Humberto Napoleón Varela Robalino

Poema ‘Ángeles de cera’

Humberto Napoleón Varela Robalino
Humberto Napoleón Varela Robalino
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                 Por los corredores

del ‘Hospital de las Hermanas de la Caridad’

                            corren

                            vuelan

                    ángeles de cera

                     diluidos rostros

                            frágiles

             tan frágiles como la alegría

                              duros

            tan duros como los inviernos

                         líneas azules

                 palabras fragmentadas

                    que rozan el silencio

                       lápices de colores

           que pintan en el aire los aciertos.

                           

Ángeles

                           sin sueño

                descalzos como el agua

      vestidos a la usanza de los cruzados

                            ángeles

                     ojos pedernales

             para perforar la indolencia

             manos ilesas sobre el fuego

                    caracoles las orejas

            para oír el retorno de la infancia.

                     

Por los corredores

del ‘Hospital de las Hermanas de la Caridad’

                           van y vienen

                       los ángeles de cera

                      no necesitan brújula

  saben con certeza donde está el Paraíso

                      no necesitan reloj

 saben simplemente que late el corazón.

Humberto Napoleón Varela Robalino

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