Mulher, ser difícil de decifrar

Sandra Albuquerque: ‘Mulher, ser difícil de decifrar’

Sandra Albuquerque
Sandra Albuquerque
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Mulher, ah, mulher! Difícil de se entender! Tem de todos os tipos e as mesmas com diversas fases.

Se formos viajar no tempo, encontraremos inúmeras diferenças e contradições. Basta um olhar observador e estudioso para delinear das mulheres indígenas até as mulheres de nossos dias.

Segundo os historiadores, na Pré-historia as mulheres também participavam da caça e da produção da arte. Na Antiguidade sobressaiu o Patriarcado e, com isto, a submissão das mulheres aos seu esposos era crucial e elas cuidavam dos afazeres domésticos . Na idade média, as mulheres eram vistas, apenas, como reprodutoras e cuidadoras. Porém, foi nos séculos XlX e XX, com a Revolução Industrial, que impulsionou a entrada das mulheres no mercado de trabalho e outros direitos também.

Mas, na luta por melhores condições de vida, a equiparação salarial sempre foi uma luta constante, e é até nos nossos dias. O primeiro país a dar direito ao voto feminino foi a Nova Zelândia, em 1893. E a luta continuou, e no Brasil, a mulher teve um avanço com o direito à educação básica, à faculdade, ao voto feminino.
Com a criação do Estatuto da mulher casada em 1962, a mulher podia trabalhar e viajar sem a permissão do marido e, após a aprovação da lei do divórcio, em 1977, somente em 1988 a Constituição estabeleceu igualdade plena entre homens e mulheres .

Na realidade, sabemos que não é bem assim que funciona. A mulher não é um ser frágil, e sim, um ser forte. Ela busca e corre atrás de suas conquistas.
As mulheres são seres indecifráveis. Por mais que os homens queiram afirmar que são superiores a elas, estão enganados.
Ainda restam muitas questões a serem definidas para que o termo ‘plenos direitos iguais’ seja alcançado. As mulheres, hoje, ocupam espaços que antes eram permitidos somente aos homens e isto já é um grande começo, mas na realidade é, apenas, o puxar da linha de um novelo de lã.

Por isto é que concluo esta crônica, afirmando que a mulher é um ser indecifrável, pois nunca se sabe qual será o próximo passo.

Sandra Albuquerque

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Strolling in the gardens of the dead

Abdulla Issa: Poem ‘Strolling in the gardens of the dead’

Abdulla Issa
Abdulla Issa
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The postman did not care
for the letters left behind,
in mailboxes

hardened by telegrams bearing the obituaries of the ancestors,

and he found no trace of the addresses
that vanished with the lives of their residents
beneath the rubble of neglected houses.

As if the last October of all the months
Was whipping us
from between our legs toward the Wall of Resurrection,

drawing the dead out
of the ancient scroll
Believing what they foretold,
heralding its ruin in the margins of ancient myths,
and among the gerbils that dug up the graves of the dead.

It makes yarrow sprout beneath the fingernails
of corpses that were once soldier—
rained fire and darkness upon us.

I saw a woman who wished to draw her child back into her womb;
Even the graves are unsafe, she screams.

I saw a child who could not find
the shadow of his own arms
cast upon his brother’s shoulders
in their last embrace;
as if the death of light in his eyes
were like another shell
colliding with your entire head.

I saw a young woman mourning her life before the cameras:
This is my beloved
They brought him back in a body bag

I don’t believe what the dead recount,
says the history teacher,
For geography , there is use in your remaining logged
in longing for yourself-
there-
where you lay a posthumous feast for the family’s slain
And you chase the darkness,
In pursuit of those
Who once lurked around our white shadows,
Within the scrolls.

Do not bury the remains of the oleander at the edge that lake,

Do not mourn your own dying before you wore the crown of thorns,

Waiting for the resurrection on the road to the sky.
A nun says to a soldier she saw the devil’s index finger on his trigger:
I am no longer hungry or completely afraid,
I don’t want a warm loaf of bread or a glass of cold water.
No refuge or candle
But only a grave,
And let it be communal ,
Shared with the sparrows who have dreamed of
Trees, rivers that embrace us,
Forests that pray for us on the mountains,
Cave explorers whose lineages became heritage of our first drawings,
And a people, caught between two alters, cursing their killer.

Abdulla Issa

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O professor de Matemática

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O professor de Matemática’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
Imagem criada por Gemini - a IA do Google - 1ºde março de2026, às 05:37
Imagem criada por Gemini – a IA do Google – 1ºde março de2026, às 05:37

Não vou conseguir precisar o dia em que aquele rapaz atravessou o portão da propriedade, sorriu confiante, apesar da vestimenta surrada, e foi direto cumprimentar meus pais, que já o aguardavam sentados a uma das mesas ao redor da piscina. Soube naquele momento que aquele jovem, apesar da aparência mais velha, contava apenas 18 anos, enquanto eu, no mês seguinte, completaria 20.

           Meu pai não tardou e se levantou. Foi em direção ao velho José, que já o aguardava, junto a um de nossos automóveis, com a porta de trás aberta. Minha mãe acompanhou com o olhar o marido. Os dois se despediram com beijos soltos no ar. Nessa época, creio que ainda guardavam um resquício do amor, que talvez tiveram algum dia.

            Assim que o Opala partiu, minha mãe pegou a mão do rapaz e veio até mim. Não muito alta, ela carregava o costumeiro du Maurier acoplado à piteira dourada. Por conta de tal hábito, um câncer a tomaria por completo duas décadas após.

            — Augusto, meu querido, quero lhe apresentar o Olegário. Ele o ajudará nas tarefas de matemática. 

            Olegário me estendeu a mão. Olhei para ele com ar de arrogância, que, na verdade, não passava de pura inveja. Como é que aquele maltrapilho poderia me ensinar algo? Mero bandalho! Devo ter feito cara de poucos amigos, pois a minha mãe lançou-me aquele olhar fulminante. Não tive escolha e aceitei o cumprimento.

           A partir da semana seguinte, comecei a ter aulas com o meu novo professor. Um prodígio em trigonometria e geometria, devo admitir. Relutante a princípio, acabei me encantando por aquela situação. Não pelos números, diga-se de passagem, pois até hoje não encontrei razão para decorar nem mesmo a tabuada. Se me interessei, foi por aquela voz rouca do Olegário, que, ainda por cima, era dono do sorriso mais lindo que, até recentemente, não tive o prazer de ver igual.

           Durante nossas tardes no meu quarto, ele tentava a todo custo me ensinar atalhos para que eu não tomasse bomba no final do ano. Por debaixo da mesa, ele cutucava a minha perna com a sua, com o intuito de me fazer prestar atenção. Isso me causava calafrios por todo o corpo, mas, covarde que ainda sou, mirava o piso para não ser descoberto.

          As provas finais vieram e, não sei como, consegui concluir meus estudos. Na certa, devo ter me esforçado além do esperado, pois não queria decepcionar o meu mestre. Não sei se ele ficou feliz com a minha aprovação, pois nunca mais o vi. Minha mãe, hoje consigo ter maior clareza sobre isso, o dispensou assim que possível para evitar que algo pudesse causar certo constrangimento na família. 

          Passei os anos seguintes envolto em códigos civis, penais e trabalhistas. Formei-me com louvor e, a partir de então, comecei a exercer a advocacia no escritório do meu pai. Foi justamente nessa época em que conheci Glória, brilhante advogada, com quem muito aprendi do ofício.

            Protegida do meu velho, ela passou a frequentar a nossa casa. Entretidos que estávamos com o volume de trabalho, não tínhamos tempo para o amor. Foi como um acordo que nos casamos no ano seguinte, logo após ganharmos uma causa de milhões. Minha mãe pareceu aliviada com o matrimônio.

            Como prêmio, viajamos para Europa por uma semana. A agora minha esposa, com um francês muito melhor do que o meu, pareceu adorar aquelas explicações intermináveis nas idas aos museus. Como bom marido, mantive-me sempre ao seu lado, mas com a cabeça na pilha de processos que me esperava no escritório.

            Assim que o avião pousou no Galeão, senti um grande alívio. Nada mais de passeios infrutíferos por Paris, onde sentamos em todos os cafés possíveis. A companhia era ótima, é verdade, tanto é que na segunda semana de volta ao Brasil, Glória se sentiu indisposta e correu para o banheiro a fim de evitar devolver, sobre a mesa, o salmão com nozes ingerido há pouco.

            No verão seguinte, eis que estávamos na sala de parto. Minha mulher segurava minhas mãos tão fortemente, que imaginei que iria arrancar todos os meus dedos. Devo confessar que aquela era uma situação nova para mim também, porém, muito mais cômoda. Afinal, todas as dores do parto se encontravam com Glória. 

            Às 12h43 do dia 15 de fevereiro de 1989, ouvimos pela primeira vez o choro de Rubens. Minha esposa e eu, talvez não querendo deixar nosso filho chorando sozinho, o acompanhamos. Esse momento mostrou a nós dois que, apesar de ter surgido de um acordo, aquele casamento havia conseguido gerar um fruto do nosso amor. 

            Depois de alguns meses de correria, a nossa vida acabou entrando nos eixos. É verdade que agora tínhamos um filho para criar e, hoje posso afirmar, o tempo é sábio e toma conta de tudo. Ou, caso não cuide tão bem assim, o dinheiro ajuda a superar as dificuldades.

            Nosso menino cresceu cercado de todos os mimos e regalias, é verdade. No entanto, até entre os abastados há certos percalços. Seja como for, lá estávamos para lhe dar o suporte necessário. E foi assim que fizemos, quando, antes de completar 10 anos, ele cismou em ser tenista.

            Compramos os melhores materiais esportivos, contratamos o mais afamado treinador. Até mandamos construir uma quadra de tênis na nossa ampla propriedade. Entretanto, essa febre passou e a raquete, comprada a peso de ouro, foi parar em algum canto.

            Aos 13, Rubens cismou que queria ser músico. Como dinheiro não era problema, compramos vários instrumentos, mas, no final, o nosso rapazinho desistiu de todos. Ainda carregou a gaita no bolso por alguns meses, mas nunca o vi soprando-a nem uma vez sequer.

            Rubens, prestes a concluir o ensino médio, parece ter herdado a minha aversão por números. Por isso, a minha mãe, ainda que adoentada, contratou um professor de matemática para o único neto. Na hora nem me dei conta da situação, até que, sentados a uma das mesas ao redor da piscina, vi passar pelo portão um jovem de lá seus 25. Na verdade, soube logo em seguida, ainda contava 18. Ele parou diante de mim e sorriu um sorriso, que há muito guardo na lembrança, e, então, naturalmente, acabei por me encantar por aquela rouquidão: “- Prazer, sou o Olegário!”

Eduardo Cesario-Martínez

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Pipa vadia

Paulo Siuves: Poema ‘Pipa vadia’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
IA criada com auxílio do ChatGPT1º de março de 2026,
às 23:07

O sol no meio dessa imensidão azul,
a ausência de nuvens,
uma pipa;
ligação de um pivete à imensidão azul.

Uma linha,
um menino,
um sonho,
sonho de estar no lugar da pipa
e esquecer que existem horas,
horas de parar de brincar,
horas de ir pra esquina da avenida
esperar o vermelho do semáforo…

No céu não existe semáforo.

Dá-se um puxão na linha
e magicamente eu vou com ela pra esquerda,
levo a pipa pra direita
ou pra baixo!

Subo sobre ela até perto do sol,
vou cortar a linha do sol.

“- Êta, solão!”

De repente – zás.

“- Um intruso no meu limite!?”

A pipa sobe incontrolável
como a ira do menino sentado à beira do caminho,
sonhando em ser pipa,
conhecer os sete céus
e os sete mares.

“- Por onde você anda querida pipa?”

“- Com certeza nas mãos de outro menino que sonha ser a pipa, aquela pipa vadia!!”

Coração apertado,
latinha de linha na mão,
menino suado,
cabeça confusa,
desilusão…

Chegou a hora,
essas horas,
que mundo!

“- Esquina, ai vou eu, contar os meus carros, cobrar dessa gente grande por passar na minha rua…”

Paulo Siuves

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Educação falhada

Tomás Eugénio Tomás: ‘Educação Falhada’

Logo da seção O Leitor Participa
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A escola seria um lugar de facilidade e publicidade. Infelizmente se tornou um lugar de dificuldade, onde o estudante não tem liberdade de expor as suas ideias.

Que Educação é essa? ‘Educação Falhada’.

Dizem que querem uma ‘Escola Nova’, mas a prática não é nova, não inovam, só se movem.

Ok! Ainda dizem que querem uma Escola de justiça e igualdade. Justificam isso com injustiça e desigualdade.

Aonde esta o critério de fraternidade, liberdade e igualdade?

Tomás Eugénio Tomás

Tomás Eugénio Tomás, é professor, escritor,  palestrante, CEO do projecto Ensinar e Aprender. Tem desenvolvido debates pedagógicos e literários.

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Nokhwa

Bruno Marquês Areno: ‘Nokhwa’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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O que os unia era aquele som proveniente do simples acto de descascar o amendoim. O sopro do ar nem mesmo dava para escutar. Como de costume, as mulheres, vestidas de capulanas e lenços coloridos, estavam sentadas na mesma esteira de palha, enquanto os homens depositavam os seus corpos volumosos sobre os troncos dos coqueiros abatidos há várias luas.

As mãos calosas de cada homem e cada mulher estavam cheias de amendoim por descascar. Quem nada fazia, mesmo, era Preetekete, um idoso de seus 108 anos de idade, cuja visão não suportara ver tanto desgosto, e decidira abandonar os olhos negros e melancólicos do velho, para que este, pouco sofresse e muito sentisse.

Como uma sacola de segredos, sempre colado ao Preetekete, estava Nokhwa, um rapaz que nem mesmo o velho que o adoptara, conhece ao certo, quantos anos tinha. Sempre que este perguntasse a sua idade, o velho chegava até a dizer que o rapaz já feito homem, com o rosto banhado de barba aos 9 anos. Há dias que se atreve até a afirmar que o jovem Nokhwa tinha 50 anos. Decepcionado, este mantinha-se em silêncio, dizendo nadas.

Enquanto os outros descascavam o amendoim, o velho virou-se para o jovem, e disse, num tom provocatório:

― Nokhwa!?
O jovem olhou para o idoso e protestou:

― Quantas vezes tenho que dizer ao vovô que o meu nome agora é Chico. Chico Bernabéu! – Insistiu, enquanto deixava o amendoim na peneira.

― Nokhwa Preetekete – também insistiu o idoso, enquanto içava uma cabaça cheia de farinha de mapira.

― Os espíritos escolheram esse nome para ti. A tua mãe deu aos filhos nomes longínquos e como resultado, os espíritos arrancaram-lhe os filhos. Quando você nasceu, uma mulher disse o seguinte, para sua mãe: “ola nokhwa, ola!”.

― Por que é que a mulher disse à minha mãe que eu era a morte? ― perguntou o rapaz.

― Porque todos os filhos que a sua mãe dera a luz, morriam no terceiro dia. Você foi o único que não morreu— disse o velho, indicando-lhe com a mão onde um dos dedos fora decepados e continuou — porque o nome que lhe foi dado, pelos espíritos, foi aceite. Pousou a cabaça de farinha de mapira na esteira e sentou-se.

― O senhor conheceu a minha mãe? ― Perguntou o rapaz, curioso. O velho olhou com olhos desconfiados, como quem não esperava escutar aquela questão.

― Eu já disse: Apanhei você no lixo. Tudo que sei de si, foi-me contado por gente que conheceu a sua mãe. – A resposta do ancião saiu gaguejada, na pressa da língua.

― Ultimamente já não sei em quem acreditar! – Suspirou, o jovem e continuou, dizendo:

― Os mais antigos do bairro dizem que sou filho de uma feiticeira. Uma mulher diabólica que enganou o filho de um grande feiticeiro com um jovem pescador com quem a minha mãe fugiu para as terras da Ilha de Moçambique. Como castigo, o feiticeiro lançou uma praga sobre ela.

O jovem parou a narração para recobrar o fôlego. Apreciou o silêncio dos presentes, procurando negação ou assentimento nos seus olhares. Depois, continuou.

― Sabe qual foi a maldição, vovô? Que ela se comportasse feito uma gata ou porca, e no terceiro dia depois do parto, a meia-noite, enquanto todos estivessem a dormir, ela devorasse os seus próprios filhos.

– O velho, as mulheres e os outros homens, nada diziam. Somente escutavam, boquiabertos.

― Também foi-me dito que o senhor é tio da minha mãe, e que fugiu comigo, das terras da Ilha de Moçambique até aqui, só para salvar-me da minha própria mãe, e que como consequência da fúria da minha mãe, o senhor ficou cego. Disseram-me que a tua cegueira, vovô, é resultado da maldição que minha mãe lançou sobre ti.

― Isso só são falácias. – Disse o velho, enquanto limpava da sua cara, o suor que aos poucos inundava a sua negritude facial. Acrescentou, dizendo:

― Nokhwa! Eu adoptei você aqui, bem nas proximidades do rio Lúrio. As pessoas que viram a sua mãe o abandonando na margem do rio, disseram que ela vivia em Chiùre. – O idoso, nervoso, voltou a empurrar o suor e deu continuidade a sua justificativa.

― Por que é que eu enganar-lhe-ia? Não seria capaz de proibir o seu direito de conhecer a sua mãe.

― O senhor tem medo de me ver morto. Sabe muito bem que ela irá devorar-me.

― Que medo, que nada! – Perguntou, Preetekete, um tanto eufórico. Disse mais: vi tanta coisa nesse mundo, Nokhwa, que nada mais me assusta. Eu vi coisas que você não imaginou vez alguma.

― Como o quê, vovô? Como uma mulher placenta, que devora os seus filhos no terceiro dia, depois de dar a luz?

― De novo, essa história?

A voz do velho saltou da garganta, ruidosa e irritada. Mas, traído pelas emoções, bem do fundo dos olhos esbranquiçados, gotas de lágrimas surgiram. Com a voz rouca, Preetekete indagou:

― É a verdade, o que tu queres saber? – A pergunta armadilhou ao jovem. Ficou com a boca costurada. Esperou tanto por aquele momento, as mãos decepadas tremiam. Mal conseguia mover os lábios carnudos.

― Responda!

― Sim, vovó. Eu quero saber da verdade— disse o jovem com lábios trémulos. O velho ergueu os olhos, e não se contentou em apenas erguer os olhos, não, apertou-os e disse:

― Está bem. Prepare-se para ouvir.

O vento parou, as folhas nos ramos das mangueiras se calaram, e o tempo fez suspense. A lua guardou alguns raios por trás das nuvens, para preparar o ambiente.

― Eu não sou seu avô— retirou o rapé da boca— E muito menos tio da sua mãe. Sabes quem sou? — O velho lançou os olhos para a escuridão, agora fixava o jovem. Devorava-o com os seus olhos de cego, como se pudesse ver. — Queres saber? Tens coragem para ouvir? Insistiu o velho, num grito rouco de espantar a alma.

Os olhos de Preetekete rasgavam o rosto de Nokhwa. O jovem abanou a cabeça, como forma de dizer que não. Então, o ancião se aproximou do rapaz, e revelou:

― Eu sou o velho Feiticeiro. Aquele que a tua mãe enganou. Fui eu, o primeiro homem da tua mãe. Fui eu quem lançou o feitiço contra ela. Fui eu.

Enquanto o velho falava, gritando, Nokhwa, assustado, procurou amparo nos homens e nas mulheres que descascavam amendoim. Mas eles não faziam outra coisa, senão descascar o amendoim. Pareciam autênticos robôs. Aliás, desde que a conversa começara, o quase homem não ouviu aquela gente soltar uma só palavra. Nem mesmo pestanejar. E foi naquele momento que Nokhwa se lembrou que o avô só permitia que aqueles homens e mulheres descascassem o amendoim, a meia-noite.

Quando o sol nascia, ninguém mais via aquelas pessoas.

― Por que é que olhas para eles? – perguntou, o idoso.

― Como sabes que eu olhei para eles? Você é cego! – Assustado, o rapaz ainda conseguiu ripostar, apesar de sentir o estômago amarrotado.

Preetekete sorriu, e disse:

― A minha cegueira é de morcego. Riu alto, deixando a mercê, os seus dentes escuros como a noite — a tua mãe, deu-me olhos de morcegos; merda!— disse o velho libertando da sua boca saliva de cor da noite, e o jovem sente um arrepio.

― E não adianta olhar para eles, rapaz. Estão mortos. Suas almas estão nestas conchas que eu trago na minha mukhova, aqui na minha cintura. – O velho ergueu a camisa suada e mostrou um cinturão de conchas e missangas multicolores – À eles, faço-lhes meus escravos. Vês aquela mulher de olhos castanhos e de pele clara como tu?

Nokhwa torceu o pescoço para a direita. Olhou para a mulher. Não só descobriu que ela tinha os olhos idênticos aos seus, mas também que os lábios da mulher eram carnudos e escuros como os seus. Gelado, olhou de volta para o velho.

― Ela é a sua mãe. Está morta pelo que fez com os meus olhos, e por me ter abandonado. Sabe: ela queria um jovem que não cheirasse rapé. Abandonou-me porque sou velho ―disse o velho em tom repleto de raiva. Mas como eu a amava, levei você comigo, poderia ter deixado você morrer, mas não, eu tinha que possuir algo que me lembraria essa ingrata, e isso é você Nokhwa— dizia o velho vitorioso, estendendo os braços para o ar.

O jovem levantou-se. Fixou os olhos na antiguidade de pele e ossos, abriu as mãos e agarrou-lhe pelo pescoço com uma força brutal. Preetekete tentou gritar, mas a sua voz quase não dava para escutar. Ele parecia um pato sendo asfixiado. O primeiro galo cantou, os homens e mulheres do amendoim desapareceram da esteira somente permaneceram o velho e o jovem.

O corpo do idoso não mais possuía vida. E quando menos o rapaz esperava, entram no quintal duas mulheres, que habitualmente traziam água quente para o Preetekete se banhar.

Assustadas, deixaram cair as bacias com água, uma queimando a outra, e nem sequer sentiram dor, pois não havia maior dor que aquilo: ver um neto assassinando o seu próprio avó, aquele que o encontrara por aí, abandonado, um bebé condenado à morte.

― Socorro, socorro, socorro! – gritaram as mulheres, eufóricas.

Sem demora, o quintal ficou repleto de gente. O jovem continuava ainda com as mãos no pescoço do velho. Olhou para os lados, mas não viu ninguém descascando amendoim. Nokhwa caiu ao chão, sem história.

Bruno Marquês Areno

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E se no amanhã…

Ismaél Wandalika: Poema ‘E se no amanhã…’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Imagem pelo autor, recriada pela IA do  ChatGPT
Imagem pelo autor, recriada pela IA do ChatGPT

‎E se no amanhã
a gente não se vê
‎me lembrei de você
‎se os dias forem tensos e corroerem os meus medos
‎serei seu  entardecer…

‎E se no amanhã
‎O seu mundo desabar
‎quantas pessoas poderás abraçar?!
‎o amanhã é incerto, o futuro tem seu dedilhado
‎o amor, às vezes, é confundido com apego

‎Flores compram brigas no atual contexto, versos elucidam os tempos
‎no interior de mim mesmo habita meu peso
‎a vida me segue pela esquina do caminho
‎meu amanhã vem com tédios
‎o amor tornou-se lembrança antiga
‎fadiga para o coração que nele respira
‎lares sobrevivem da matéria que os consome a cada fila…

‎E se no amanhã
‎percebermos que ninguém está certo
‎no tocar trombeta formos todos para o inferno!…
‎não encontrarmos lugar na galeria do triunfo!
‎E se no amanhã a gente procrastinar o amanhã para viver um novo amanhã?!

‎E se no amanhã
‎o mundo acordar
‎o dia nascer
‎A vida lá fora acontecer
‎Mas a gente continuar no leito sonhando
‎Os animais irracionais tomarem conta de tudo…!

‎E se no amanhã
‎A gente Desconhecer o bem e o mal…
‎A gente despertar irracional
‎Esquecidos de todos os movimentos que envolvem o quotidiano…

‎E se no amanhã
‎o ar deixar de sorrir
‎o sol perder a graça
‎a gente deixar de existir
‎e a vida ser a mais justa…

‎E se no amanhã
‎Os poetas transformaram-se Poemas nas folhas
‎E a poesia tornar-se alma vivente e escreverem os Poetas…
‎A música voltar a sua frequência como no início da sua história
‎E a vida regressar para o preto e o branco, época mais bela

‎E se no amanhã
‎O livro não mais abrir-se com as pessoas ao redor do mundo…
‎A caneta não mais partilhar seus segredos e degredo com o Poeta…
‎A Vida não mais ser
‎A gente deixar de ser tudo aquilo que é…!

‎Despir-se das sombras
‎Rugir para alimentar a alma
‎viver além das fronteiras

‎E se no amanhã…

Soldado Wandalika

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