Pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade

Diamantino Bártolo evoca Gandhi e os Direitos Humanos em uma contundente reflexão sobre a ética no mundo moderno

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Preocupar-se-á a ciência com as questões da cidadania, da solidariedade, dos Direitos Humanos e com outros valores universais? Ou pelo contrário, tais assuntos não interessam à ciência em geral e aos cientistas em particular? Nesta perspectiva parece-me que a questão é pertinente porque vivemos numa sociedade difícil, complexa, em busca da satisfação pessoal, a multiplicação de experiências, a exploração do negativo, do espetacular, do sensacional, do escandaloso, o que estará a conduzir para uma desmoralização da vida pública, com reflexos na vida política, principalmente nos mais jovens, que se relaciona com a tentativa, sistematicamente organizada de, se não eliminar, pelo menos substituir os conteúdos morais e éticos, substantivos, valores orientadores, devidamente ajustados à prática.

Ao decidir realizar esta breve, insuficiente e deficiente investigação sobre a necessidade imperiosa de desencadear os mecanismos legais/académicos de sensibilização das consciências para o cumprimento dos Direitos Humanos, precisamente no âmbito da Epistemologia, tinha a indicação das dificuldades que iria encontrar, contudo: enquanto cidadão, no pleno exercício dos seus deveres e direitos; como eterno aprendiz de filósofo, tenho, igualmente, o dever de refletir sobre estes temas. 

Podemos abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades: estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece-me pertinente invocar a máxima: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (ONU: Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artº 1º) e: «Não se deve perder a fé na humanidade: a humanidade é um oceano limpo e um par de pingos sujos não sujam o oceano.» (GANDHI).

A próxima comemoração do 78º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10 Dezembro 1948 – 10 de Dezembro de 2026) infelizmente com o recrudescimento de conflitos e fundamentalismos éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos, comecem a ser tratados com o devido e merecido discernimento e seriedade que merecem; estando sabido que hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, continuam a ser tratados como “boas intenções”, concretamente: por interesses económicos ou burocracias instaladas; por ditaduras e repressões políticas e religiosas.

A manifesta irrelevância com que os Direitos Humanos são invocados é, cada vez mais, alvo de denúncia por parte das Organizações Não Governamentais, do olhar indiscreto dos Média, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra. Neste aniversário, quantos milhões de crianças, idosos e marginalizados estão a passar fome, sabendo-se que algumas Organizações pagam para não se produzir alimentos, para se controlar as matérias-primas, com o objetivo de se criarem condições para que a especulação tenha o caminho mais livre?

Por outro lado, novos desafios apareceram: eutanásia, tráfico de órgãos, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, até mesmo o processo de globalização das economias. A subordinação dos cidadãos ao poder da força bélica dos que “querem, podem e mandam”, pode verificar-se em todos os cantos do mundo. Os Relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” que se pretende livre, justa, digna e pacífica!

BIBLIOGRAFIA.

GANDHI MAHATMA, (1869-1948) líder pacifista indiano. Principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência. (Grande deensor dos Direitos Humanos

ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Lisboa: Amnistia Internacional, Secção Portuguesa, 1998;

BIBLIOGRAFIA GERAL

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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A imortalidade da verdadeira literatura

“A literatura verdadeira nunca pertence apenas ao passado”: Carlos Javier Jarquín analisa a sensibilidade poética de María Beatriz Muñoz Ruiz e seu tributo aos grandes clássicos universais

Carlos Javier Jarquin
Carlos Javier Jarquin
Os grandes autores permanecem vivos enquanto houver alguém disposto a abrir um de seus livros, deixar-se comover por suas palavras e transmitir esse deslumbramento às gerações futuras. Foto, cortesia da autora.

Relembrar os poetas, escritores, artistas e todos aqueles criadores que, por meio de seu talento e da profundidade de sua obra, contribuíram para enriquecer nossa visão de mundo é muito mais do que um exercício de memória: constitui um ato de gratidão e de justiça. Toda criação literária nasce, em maior ou menor grau, do diálogo silencioso que cada autor mantém com aqueles que o precederam. Nenhum escritor surge do vazio; cada voz encontra sua identidade graças às inúmeras vozes que, antes, iluminaram seu caminho.

Recebi o livro de poemas CARTAS AL PASADO, da poeta espanhola María Beatriz Muñoz Ruiz, e devo reconhecer que raras vezes um livro concebido como homenagem consegue, ao mesmo tempo, despertar uma emoção tão íntima e uma admiração tão genuína. Desde suas primeiras páginas, surpreende a delicadeza com que a autora estabelece uma ponte entre seu universo interior e o legado daqueles escritores que marcaram sua formação humana e literária.

Cada poema nasce de uma leitura convertida em experiência, de um de lembrança transformada em gratidão. María Beatriz não se limita a evocar os grandes nomes da literatura universal; conversa com eles a partir da sensibilidade de quem encontrou em seus livros refúgio, inspiração e companhia. Seus versos revelam que a leitura não termina ao fechar um livro, mas continua habitando a memória do leitor até se tornar parte de sua própria identidade.

Em CARTAS AL PASADO, a autora alcança um admirável equilíbrio entre a admiração e a criação. Cada composição constitui uma carta poética dirigida a um escritor cuja obra deixou uma marca indelével em sua vida. Não se trata de um mero percurso biográfico nem de uma evocação nostálgica, mas sim de um diálogo literário onde a emoção se transforma em linguagem e a homenagem adquire uma voz própria.

Em CARTAS AO PASSADO, demonstra-se uma sensibilidade notável para transformar a admiração em poesia.

Os autores que inspiram este livro de poemas formam uma constelação de figuras imprescindíveis da literatura universal: Emily Dickinson, Thomas Hardy, Percy e Mary Shelley, Virginia Woolf, Lord Byron, Jane Austen, Edgar Allan Poe, Emily Brontë, Margaret Mitchell, Antonio Machado, Gustavo Adolfo Bécquer, Calderón de la Barca, Federico García Lorca, Juan Ramón Jiménez, John Keats, William Shakespeare, Louisa May Alcott, Agatha Christie, Rubén Darío, Elizabeth Gaskell, Oscar Wilde, George Orwell e Garcilaso de la Vega. Cada um deles encontra aqui um espaço onde sua memória continua viva graças à palavra de uma poeta que os releê a partir do presente, sem perder o respeito por seu legado.

O livro abre com uma homenagem a Emily Dickinson. Desde os primeiros versos pode-se apreciar a essência de toda a obra:

“Me enseñaste que los versos
Pueden viajar solos.
Me enseñaste a escribir para nadie,
A soñar para mí,
Y vivir sin esperar
Que la música suene.”

(Tradução livre dos versos: “Ensinaste-me que os versos / Podem viajar sozinhos. / Ensinaste-me a escrever para ninguém, / A sonhar para mim, / E viver sem esperar / Que a música soe.”)

María Beatriz Muñoz Ruiz, muestra la portada de su mas reciente libro titulado CARTAS AL PASADO. Obra disponible en Amazon. Foto, cortesìa de la autora.

Nessa breve sequência já se percebe uma das maiores virtudes do livro de poemas: a capacidade de condensar, com aparente simplicidade, a influência espiritual que um escritor pode exercer sobre outro.

Especialmente comovente é o poema dedicado a Federico García Lorca. María Beatriz converte a tragédia de seu assassinato em um canto de memória e permanência. A imagem do poeta fuzilado não aparece unicamente como um episódio histórico, mas como o símbolo de uma voz que continua ecoando muito depois de as armas tentarem silenciá-la:

“Sangre en nuestras calles derramada,
siguieron el rastro de tus poemas,
bajo la luna gitana,
y las verdes ramas se agitaban
mientras aquel 18 de agosto
en la madrugada, te fusilaban.
Y aunque el tempo pase,
Granada guarda tu ausencia
vistiendo de luto eterno…”

(Tradução livre dos versos: “Sangue em nossas ruas derramado, / seguiram o rastro dos teus poemas, / sob a lua cigana, / e os verdes ramos se agitavam / enquanto aquele 18 de agosto / na madrugada, te fuzilavam. / E embora o tempo passe, / Granada guarda a tua ausência / vestindo-se de luto eterno…”)

Ao longo destas páginas, María Beatriz Muñoz Ruiz demonstra uma notável sensibilidade para transformar a admiração em poesia. Mais do que lembrar esses mestres universais, ela os torna novamente presentes. Cada poema constitui um convite para retornar aos seus livros e descobrir, ou redescobrir, a vigência de uma literatura que continua dialogando com o nosso tempo.

Mostra-se igualmente significativo o homenagem a William Shakespeare, onde a autora revela a profundidade do vínculo que mantém com o dramaturgo inglês ao confessar que seu próprio filho leva o seu nome. Essa revelação transforma o poema em uma declaração íntima de gratidão e confirma que as grandes obras terminam fazendo parte da história pessoal daqueles que as amam.

María Beatriz, y su mas reciente libro publicado. Foto, cortesìa de la autora.

Do mesmo modo, o poema dedicado a Rubén Darío transmite uma profunda admiração pelo pai do modernismo. Desde a evocação de sua Nicarágua natal até a lembrança de seu espírito viajante e de seu retorno definitivo à terra que o viu nascer, a autora consegue envolver a figura do poeta em uma atmosfera de respeito e emoção que transcende a homenagem para se tornar uma celebração de sua imortalidade literária.

Mas talvez o maior mérito de CARTAS AL PASADO resida em despertar no leitor um sentimento de pertença. Todos guardamos, consciente ou inconscientemente, um autor que nos ensinou a olhar o mundo com outros olhos; um livro que chegou no momento exato; um poema que permaneceu conosco quando o silêncio parecia ocupar tudo. Este livro nos lembra que ler também é agradecer. Cada vez que voltamos a uma obra que nos transformou, prolongamos a vida de quem a escreveu e mantemos acesa a chama de seu legado.

Querido leitor: provavelmente você descobrirá nestas páginas algum desses escritores que também fazem parte de sua própria memória. Talvez outros ainda estejam por chegar à sua vida. Em qualquer caso, você compreenderá que a verdadeira literatura nunca pertence unicamente ao passado. Os grandes autores permanecem vivos enquanto existir alguém disposto a abrir um de seus livros, deixar-se comover por suas palavras e transmitir esse assombro às gerações futuras.

Que você desfrute deste belo livro de poemas que hoje nos entrega María Beatriz Muñoz Ruiz. Que cada poema seja um convite para voltar aos clássicos, para redescobrir sua grandeza e para compreender que, por mais que a tecnologia avance ou os tempos mudem, nenhuma inovação poderá substituir a capacidade da literatura de emocionar, transformar e tornar imortal a memória daqueles que dedicaram sua vida à beleza da palavra.

Cartaz promocional com fundo de biblioteca aconchegante, velas acesas e uma pena sobre papéis antigos. No centro, há a capa de um livro intitulado "Cartas al Pasado", de María Beatriz Muñoz Ruiz, com prólogo de Carlos Javier Jarquín. O texto informa sobre a descarga gratuita do poemário no Amazon Kindle, disponível exclusivamente de 29 de outubro a 2 de novembro.
Cartaz promocional informativo sobre a descarga gratuita do poemário no Amazon Kindle, disponível exclusivamente de 29 de outubro a 2 de novembro.

Carlos Javier Jarquín

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Mania: O reflexivo poema de Dorilda Almeida

Poema ‘Mania’ convida o leitor do Jornal ROL a uma pausa reconfortante na rotina.

Dorilda Almeida
Dorilda Almeida
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Eu tenho várias manias:
Mania de dormir à tarde
Todos os dias
Retirar o ego da vida
Para descansar de mim mesma.

Eu tenho várias manias:
Mania de comer bem
Comida feita na hora
Quentinha e saudável
E que faz tão bem.

Eu tenho várias manias:
Mania de sentir alegria
Alegria de viver
Alegria de ser eu
E de amar você.

Eu tenho várias manias:
Mania de conhecer
Gente
Mania de conhecer
O outro
Mania de conhecer
A mim mesma.

Ora eu penso que é mania
Ora eu penso que é querer
Querer sempre é mania
Ou mania é querer?

               

Dorilda Almeida

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Nasci Homem em Corpo de Mulher

Por Bento Jamba Kawaya Tchongolola — Receção crítica da obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’ de Seth Marcelo, analisando seus contrastes sociais e desafios editoriais

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Título: Nasci Homem em Corpo de Mulher / Autor: Seth Marcelo; / Editora: Alexa Cultural; / Local de publicação: Embu das Artes, São Paulo, Brasil; Nº de páginas: 179; / País: Brasil. / Autor da receção crítica: Bento Jamba Kawaya Tchongolola. / Nacionalidade: Angolana

Apresentação e apreciação geral

Nasci Homem em Corpo de Mulher, de Seth Marcelo, é uma obra que convida à reflexão sobre questões sociais, políticas e humanas, apresentando situações que remetem para a realidade angolana. Através de personagens com nomes nacionais, o autor aborda dificuldades sociais, desigualdades e relações de poder, oferecendo ao leitor motivos para questionar a sociedade em que vive.

O título desperta curiosidade e cria expectativas sobre o conteúdo. Contudo, a ligação entre ambos não se torna evidente desde o início, demorando a revelar-se ao longo da leitura. Essa distância entre o título e a narrativa pode levar alguns leitores a questionar o rumo da obra. A capa também carece de ser revista, pois, na minha perspetiva, a imagem escolhida não representa claramente o conteúdo narrado. Além disso, o nome do autor não recebe o destaque necessário, podendo passar despercebido. Uma apresentação visual mais adequada poderia despertar maior interesse e valorizar a obra.

Conteúdo e relevância social

Ao longo da narrativa, destaca-se o trajeto do Mwangolé, tendo Tchipopi como personagem principal. A história apresenta as dificuldades que a vida lhe impõe e a forma como estas influenciam o seu percurso. Tchipopi casa-se primeiro com Teresa e posteriormente, com Liz. As relações entre as personagens apresentam diferentes situações da vida, incluindo desafios pessoais e familiares. A obra procura mostrar que, perante as adversidades é possível encontrar formas de mudança e transformação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a sua capacidade de aproximar o leitor da realidade angolana. Inicialmente, nem sempre é fácil identificar o contexto nacional da narrativa; porém, quando surgem expressões características da linguagem angolana, a leitura torna-se mais familiar e desperta maior interesse. A obra aborda situações que muitos angolanos reconhecem no quotidiano, criando uma sensação de identificação e acolhimento. É como se alguém que nunca conhecemos pessoalmente compreendesse dificuldades que fazem parte da nossa experiência. Esta proximidade constitui uma das qualidades mais relevantes da narrativa.

Entre os temas abordados encontram-se o neocolonialismo, a desigualdade, a escassez, a religião e as relações entre poder e verdade. Algumas passagens apresentam reflexões de carácter filosófico, levando o leitor a questionar a realidade, o comportamento social e a importância de observar antes de falar. A narrativa também permite refletir sobre a forma como a falta de poder pode limitar a voz de determinadas pessoas, cujas verdades nem sempre recebem a devida atenção. Nesse sentido, o livro pode funcionar como um alerta para problemas sociais e políticos que continuam presentes na sociedade angolana. Apesar destas qualidades, considero que a narrativa perde força à medida que avança.

Os assuntos que mais despertam a minha atenção encontram-se sobretudo no início, enquanto algumas partes posteriores se tornam previsíveis para quem acompanha de perto a realidade do país. A repetição de questões políticas e sociais já amplamente discutidas pode diminuir o interesse e tornar a leitura menos envolvente.

Estrutura narrativa e aspectos editoriais

A organização do texto constitui um dos pontos que poderiam ser melhorados. A narrativa desenvolve-se continuamente, sem capítulos titulados ou divisões claramente identificadas. Embora essa possa ter sido uma opção do autor, a ausência de pausas estruturais torna a leitura, em determinados momentos, monótona e pode levar o leitor a perder o interesse. A divisão em capítulos, com títulos adequados, permitiria organizar melhor as ideias e tornar a leitura mais dinâmica.

No domínio da revisão textual, identifiquei algumas falhas que merecem atenção. Nas páginas 77 e 78, existem problemas relacionados com a escrita e a acentuação. Na página 80, há um aspeto de pontuação a corrigir. Na página 160, a palavra «alembamento» aparece escrita incorretamente, devendo ser «alambamento», sem por de parte as páginas 59, 156, 157 , 169 e 174;. Estes exemplos evidenciam a necessidade de uma revisão ortográfica e gramatical mais rigorosa. Outro problema recorrente é o espaçamento duplo entre palavras, observado em grande parte das páginas. Essa irregularidade prejudica a uniformidade visual e demonstra a necessidade de maior cuidado na composição gráfica. A parte final da obra também merece atenção, pois o tipo de letra utilizado na conclusão dificulta a leitura e compromete a apresentação do conteúdo.

A informação biográfica e bibliográfica do autor poderia igualmente ser melhor organizada. Considero que seria mais adequado reservar uma página exclusiva para apresentar as obras de Seth Marcelo, separando-as da biografia.

Dessa forma, os seus livros teriam maior visibilidade e não correriam o risco de passar despercebidos aos leitores interessados. A própria apresentação da biografia poderia ser mais impactante, valorizando melhor o percurso do autor.

Em síntese, Nasci Homem em Corpo de Mulher, apresenta reflexões relevantes sobre a realidade social e política angolana. Destaca-se pela proximidade que estabelece com o leitor e pela abordagem de questões que merecem ser discutidas. A capacidade de despertar identificação e questionamento constitui um dos seus principais méritos. Desta feita, a obra beneficiaria de uma estrutura narrativa mais organizada, de uma revisão textual rigorosa e de melhorias na apresentação gráfica.

A capa, o espaçamento entre palavras, a tipografia da conclusão e a organização da informação sobre o autor são aspetos que merecem ser revistos. A minha apreciação é, portanto, equilibrada: reconheço o valor social e reflexivo da obra, mas considero que existem aspetos narrativos e editoriais que poderiam ser melhorados. Uma maior atenção a esses elementos contribuiria para uma leitura mais fluida, organizada e significativa, permitindo que as ideias do autor chegassem ao leitor com maior clareza e impacto.

Bento Jamba Kawaya Tchongolola

Bento Jamba Kawaya Tchongolola, natural do Município do Lobito e residente no município de Cacuaco, Angola, é bacharel em Filosofia da Religião no Seminário Católico de Benguela (secção Filosófico) e licenciado em Ciências da Educação, na especialidade de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Kangonjo de Angola, Província do Icolo e Bengo,

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O escrever

Milton Gaspar Domingos:
Uma jornada sobre como a arte e o conhecimento transformam o vazio em liberdade e dão voz ao silêncio da alma

Um jovem com cabelo escuro encaracolado e sardas está sentado a uma secretária de madeira, profundamente concentrado a pintar num caderno de esboços. A luz do sol entra por uma janela à direita, iluminando o espaço com uma luz quente e acolhedora. Ele está a pintar uma borboleta com um forte contraste: a asa esquerda é feita de traços pretos e caóticos a carvão ou lápis, enquanto a asa direita é vibrante, pintada com aguarelas e funde-se com flores coloridas. Uma linha que se assemelha a um batimento cardíaco atravessa a parte inferior do desenho. A mesa à sua volta está repleta de materiais de arte, incluindo uma paleta de aguarelas suja de tinta, copos com pincéis, aparas de lápis e vários papéis soltos com esboços geométricos e formas.
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Mais do que pintar o caderno é,
é ver o mundo como ninguém vê
é dar vida, também realidade
ao desejo, e à necessidade

Sim, é aprender no divertimento
Exteriorizar o pensamento
é criar do nada, sim, do vazio
Atender o espírito que em mim crio

É libertar-se, sim, da ignorância
luz ter, livrar-se da inconsciência
É transformar os feios em bonitos

sentir no coração o batimento
É do mudismo não permanecer,
do grito silencioso viver.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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A gratidão como exercício diário de saúde integral

SAÚDE INTEGRAL

O que a ciência diz sobre o impacto do autocuidado consciente e como pequenas práticas diárias podem transformar nossa percepção de bem-estar. Por Joelson Mora

Joelson Mora
Joelson Mora

O bem-estar não começa apenas quando a vida melhora. Ele também se constrói na maneira como cuidamos de nós mesmos e reconhecemos o valor daquilo que vivemos.

Vivemos em uma sociedade que nos estimula a buscar constantemente algo a mais: conquistas, reconhecimento, segurança e novas oportunidades. Estabelecemos objetivos e seguimos em direção ao futuro, muitas vezes acreditando que estaremos verdadeiramente bem quando alcançarmos aquilo que desejamos, mas, enquanto buscamos as condições ideais para viver bem, como estamos cuidando de nós mesmos durante o caminho?

Quantas vezes adiamos o descanso, negligenciamos nossas emoções e deixamos de valorizar experiências significativas porque estamos concentrados naquilo que ainda falta?

Essa reflexão nos conduz a um princípio fundamental da saúde integral: estar bem é uma prática diária; construir bem-estar é um processo que envolve a maneira como cuidamos de nós mesmos e nos relacionamos com a vida.

Estar bem não significa viver sem problemas ou experimentar felicidade o tempo inteiro. Significa desenvolver recursos para atravessar os desafios, reconhecer nossas necessidades, respeitar nossos limites e cultivar hábitos que favoreçam a qualidade de vida.

O bem-estar também está relacionado à forma como cuidamos do corpo, acolhemos as emoções, construímos vínculos e atribuímos significado às experiências. É nesse contexto que a gratidão ganha importância como exercício de consciência e autocuidado.

A Gratidão pode ser exercitada? 

A ciência tem investigado a relação entre práticas de gratidão e bem-estar psicológico.

Uma metanálise publicada em 2023 no International Journal of Applied Positive Psychology, que reuniu 25 estudos randomizados e 6.745 participantes, identificou efeitos positivos, em média pequenos, das intervenções de gratidão sobre o bem-estar psicológico.

Outra revisão, publicada em 2023 na revista einstein (São Paulo), também encontrou resultados favoráveis em indicadores relacionados à saúde mental e às emoções positivas, embora as evidências variem em qualidade e consistência.

Esses resultados não significam que a gratidão, isoladamente, previna ou trate todos os problemas emocionais. Indicam, porém, que ela pode ser uma ferramenta complementar de promoção do bem-estar, especialmente quando integrada a outros hábitos de autocuidado.

Ao reservarmos alguns minutos para reconhecer experiências positivas, atitudes de apoio e oportunidades de aprendizado, criamos espaço para uma percepção que muitas vezes fica encoberta pelas preocupações cotidianas.

A gratidão não exige que estejamos satisfeitos com tudo. Podemos reconhecer o que tem valor e, ao mesmo tempo, trabalhar para transformar aquilo que precisa melhorar.

Cuidar de si também é aprender a perceber o que nos fortalece, e não apenas aquilo que nos desgasta.

Uma conversa acolhedora, uma palavra de incentivo, uma refeição compartilhada ou um momento de tranquilidade podem passar despercebidos em meio às exigências da rotina.

Quando escrevemos sobre essas experiências, interrompemos por alguns instantes o automatismo do dia e procuramos compreender o que aconteceu e por que aquilo foi importante.

A escrita transforma uma percepção passageira em um registro concreto. Mais tarde, podemos retornar a essas palavras e recordar experiências que mereceram nossa atenção.

As pesquisas sobre gratidão investigam os benefícios potenciais de práticas como escrever, refletir e expressar reconhecimento. Isso não significa que escrever à mão seja necessariamente superior a digitar, nem que visualizar palavras produza uma transformação garantida no cérebro. O valor da prática está na oportunidade de direcionar a atenção e elaborar o significado das experiências.

Por isso, proponho um exercício simples: escrever pelo menos dois motivos pelos quais somos gratos ao final de cada dia.

Reserve de dois a cinco minutos e responda:

1. Pelo que sou grato hoje?

2. Que outra experiência, pessoa, oportunidade ou aprendizado merece meu reconhecimento?

Não é necessário escrever textos longos. Duas frases sinceras podem ser suficientes. Pode ser a presença de alguém querido, uma tarefa concluída, um aprendizado, um momento de descanso ou a coragem de enfrentar uma situação difícil.

Nos dias mais difíceis, não precisamos forçar uma visão positiva nem diminuir a importância do sofrimento. Podemos reconhecer a realidade e, quando for possível, identificar algum apoio recebido ou recurso que nos ajudou a atravessar aquele momento.

Experimente fazer esse exercício durante sete dias consecutivos. Ao final, releia os registros e observe quais aspectos da sua vida apareceram com maior frequência.

O objetivo não é preencher uma lista por obrigação, mas desenvolver o hábito de reconhecer o que tem significado.

A prática pode ganhar uma dimensão coletiva por meio da dinâmica da árvore da gratidão.

Imagine uma árvore na qual cada folha representa um motivo de agradecimento, um aprendizado ou uma experiência significativa.

As raízes simbolizam os valores e vínculos que nos sustentam; o tronco representa a consciência que desenvolvemos; os galhos correspondem às diferentes dimensões da vida, como saúde, família, amizades, trabalho e desenvolvimento pessoal. As folhas registram os motivos de gratidão identificados ao longo dos dias.

Para realizar a dinâmica, basta desenhar uma árvore em um cartaz ou construir uma representação com galhos e folhas de papel. Cada participante escreve algo pelo qual é grato e acrescenta sua folha à árvore.

A atividade pode ser realizada individualmente, em família, em escolas ou no ambiente corporativo. Em uma empresa, as folhas podem representar atitudes de colaboração e oportunidades de aprendizado. Em família, podem registrar momentos de convivência e demonstrações de carinho.

Com o tempo, a árvore se torna um registro visual daquilo que merece reconhecimento.

Assim como uma árvore precisa de raízes e condições para crescer, nosso bem-estar também depende de elementos que nem sempre aparecem nas conquistas: os vínculos, os aprendizados, os cuidados e as experiências que sustentam nossa trajetória.

A árvore da gratidão não representa uma vida perfeita. Representa uma vida observada com mais consciência.

Ser grato não significa aceitar tudo como está ou desistir de mudanças necessárias. Podemos agradecer por um emprego e buscar melhores condições profissionais; valorizar uma relação e estabelecer limites; reconhecer nossas conquistas e continuar aprendendo.

A gratidão não interrompe o movimento. Ela pode nos ajudar a seguir adiante sem condicionar toda a nossa satisfação à próxima conquista.

Na perspectiva da saúde integral, isso significa cuidar de quem somos enquanto trabalhamos para construir aquilo que desejamos ser. A gratidão é uma das práticas que podem contribuir para esse processo, sem substituir o cuidado físico, o acompanhamento profissional, as relações saudáveis ou as mudanças necessárias.

Talvez estejamos esperando que algo aconteça para finalmente nos sentirmos bem: uma conquista profissional, a resolução de um problema ou a concretização de um plano. Mas a vida também acontece durante a espera.

É no cotidiano que cuidamos do corpo, reconhecemos nossas emoções, fortalecemos nossos vínculos e desenvolvemos a consciência sobre aquilo que realmente importa.

Não precisamos esperar que tudo esteja perfeito para começar. Podemos iniciar com pequenas atitudes de autocuidado e reservar alguns minutos para reconhecer aquilo que merece gratidão.

Por isso, deixo um convite ao leitor: hoje, antes de encerrar o dia, escreva dois motivos pelos quais você é grato. Faça isso durante uma semana. Depois, releia seus registros e observe o que passou a perceber com mais atenção.

Talvez você descubra que algumas das experiências mais significativas da sua vida não estavam ausentes. Apenas não recebiam a atenção que mereciam.

Estar bem não significa ter uma vida sem dificuldades, mas aprender a cuidar de si diante da vida que se apresenta. E construir bem-estar é um exercício contínuo de consciência, cuidado e transformação.

Afinal, a gratidão não muda necessariamente aquilo que vivemos, mas pode ampliar a maneira como percebemos o que vivemos. E é nessa atenção cotidiana que começa uma parte importante do cuidado com a nossa saúde integral.

Referências científicas

Joelson Mora

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Entre o caminho e quem nos tornamos

Nicole Menezes Martins tece uma crônica sensível e profunda sobre as pressões do futuro, o luto das expectativas e a coragem de recomeçar

Logótipo do "Jovens Talentos - Jornal Cultural ROL". Na parte superior, vê-se a silhueta de um grupo de jovens a comemorar com os braços erguidos sob o texto "Jovens Talentos". Abaixo, lê-se "Jornal Cultural" em letras azuis e "ROL" em destaque com um símbolo laranja à esquerda.
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Existe uma inquietação silenciosa em tentar construir uma vida que faça sentido. Queremos saber para onde estamos indo, ter alguma ideia do que desejamos encontrar e acreditar que as escolhas de hoje nos aproximam de algo que vale a pena. Então traçamos planos, estabelecemos metas e imaginamos quem seremos quando finalmente chegarmos lá. Talvez precisemos disso. Afinal, é difícil caminhar sem alguma direção. Mas existe uma diferença entre saber para onde queremos ir e acreditar que precisamos chegar exatamente ao lugar que imaginamos.

Em algum momento, podemos começar a viver como se o futuro fosse uma promessa que precisamos cumprir. O presente passa a ser uma espécie de passagem, um intervalo entre aquilo que somos e aquilo que esperamos nos tornar. Adiamos a tranquilidade até resolver determinado problema, a felicidade até alcançar certa conquista, a sensação de que estamos vivendo até que a vida finalmente se pareça com o que planejamos. E, sem perceber, transformamos os dias em etapas de uma jornada cujo destino parece sempre um pouco mais distante. Mas, se estamos constantemente esperando chegar a algum lugar para começar a viver, em que momento a vida acontece?

Talvez seja por isso que desejamos tanto ter certeza de nossas escolhas. Não queremos apenas um caminho; queremos a garantia de que ele vale o esforço, de que as renúncias terão significado e de que, no fim, não descobriremos que passamos anos tentando chegar a um lugar que já não desejávamos. Só que a vida não costuma oferecer esse tipo de garantia. Escolhemos com o entendimento que temos, a partir de desejos que ainda estão se formando, sem conhecer todas as pessoas que seremos ao longo do percurso. Há coisas que só aprendemos depois de vivê-las, e há caminhos que só conseguimos compreender quando já estamos longe o suficiente para olhar para trás.

Isso não significa que devemos abandonar nossos planos ou viver sem qualquer compromisso com o futuro. Ter uma direção pode nos ajudar a atravessar períodos de incerteza, assim como uma estrada nos permite seguir mesmo quando não conhecemos tudo o que existe adiante. A questão talvez esteja em como nos relacionamos com essa direção. Podemos caminhar em direção a algo sem exigir que cada passo confirme a escolha inicial. Podemos desejar profundamente uma coisa e, ainda assim, permanecer abertos à possibilidade de que a vida nos apresente algo que não sabíamos desejar. Afinal, se não somos os mesmos ao longo do tempo, por que esperar que todos os nossos desejos permaneçam intactos?

Às vezes, o que nos prende a um caminho não é mais o desejo de chegar ao destino, mas a dificuldade de admitir que já não queremos chegar lá. Investimos tempo, energia e partes de nós mesmos naquela escolha. Contamos aos outros sobre ela, imaginamos nosso futuro a partir dela e, aos poucos, começamos a confundir aquilo que decidimos fazer com aquilo que somos. Mudar de ideia, então, parece significar mais do que alterar um plano: parece colocar em dúvida a pessoa que fomos quando o escolhemos. E talvez seja por isso que algumas pessoas continuem perseguindo uma vida que já não reconhecem como sua. Não porque ainda a desejem, mas porque não sabem o que fazer com tudo o que construíram ao redor dela.

Existe uma espécie de luto nas mudanças que não envolvem uma perda visível. É preciso se despedir de futuros que imaginamos, de versões de nós mesmos que acreditávamos que um dia existiriam, de possibilidades às quais dedicamos tempo sem saber se algum dia se realizariam. Nem toda escolha abandonada foi um erro. Algumas fizeram sentido durante anos e cumpriram seu papel, mesmo que já não tenham lugar no presente. Outras talvez tenham deixado de fazer sentido muito antes de termos coragem de reconhecê-lo. Como saber a diferença? Talvez não exista uma resposta que sirva para todas as situações. Mas vale a pena perguntar se continuamos caminhando porque ainda existe algo vivo naquele desejo ou porque temos medo de descobrir quem seríamos sem ele.

Também é possível se perder tentando evitar qualquer arrependimento. Se permanecer em um caminho pode nos afastar de quem estamos nos tornando, mudar constantemente pode nos impedir de construir qualquer coisa com profundidade. Nem toda dificuldade é um sinal de que escolhemos errado, assim como nem toda vontade de partir significa que precisamos ficar. Há momentos em que precisamos sustentar uma escolha mesmo sem entusiasmo, atravessar a incerteza e aceitar que algumas coisas só ganham forma com o tempo. Em outros, precisamos reconhecer que insistir já não é um gesto de coragem, mas uma maneira de não encarar o que mudou. Talvez a liberdade não esteja em poder abandonar tudo a qualquer momento, mas em conseguir olhar para as próprias escolhas com honestidade, sem transformá-las em prisões nem tratá-las como descartáveis.

O tempo torna tudo isso mais delicado. Enquanto vivemos, raramente sabemos com clareza o significado de uma experiência. Há encontros que parecem passageiros e permanecem conosco por anos; há objetivos que, depois de alcançados, perdem o brilho que tinham em nossa imaginação. Só mais tarde compreendemos o que certas experiências nos ensinaram, o que precisou terminar e o que levamos conosco sem perceber. Isso não torna o passado inútil, nem significa que deveríamos ter feito tudo de outra maneira. Significa apenas que a compreensão também muda, e que talvez não possamos avaliar uma vida inteira a partir daquilo que conseguimos enxergar em um único momento dela.

Talvez construir uma vida com sentido seja menos parecido com executar um projeto e mais parecido com aprender a caminhar por uma paisagem que nunca se revela por completo. Precisamos escolher uma direção, mas também prestar atenção ao que existe ao redor; reconhecer quando vale a pena continuar e quando estamos apenas tentando justificar o caminho percorrido. Podemos ter ambições sem fazer do presente um obstáculo, desejar mudanças sem desprezar o que já temos e sentir gratidão pela vida que existe hoje sem perder a vontade de transformá-la. Uma coisa não precisa anular a outra.

No fim, talvez não seja necessário encontrar uma única resposta para o que estamos fazendo da vida. Podemos construir sentidos ao longo do caminho, por meio do que escolhemos cultivar, das pessoas com quem compartilhamos o tempo e da atenção que dedicamos àquilo que, de outra forma, passaria despercebido. Isso não elimina a incerteza. Continuaremos sem saber se algumas escolhas nos levarão ao lugar que imaginamos, se nossos desejos permanecerão os mesmos ou se, um dia, olharemos para trás e enxergaremos tudo de uma maneira diferente. Mas talvez viver não exija que saibamos antecipadamente o significado de cada passo.

Podemos escolher um caminho sem precisar prometer que nunca o deixaremos. Podemos nos comprometer com aquilo que importa hoje sem exigir que o amanhã repita nossas certezas. E podemos mudar sem tratar tudo o que veio antes como um desperdício. Talvez a questão não seja encontrar o caminho perfeito, mas aprender a perceber quando estamos realmente vivendo aquele que escolhemos.

Se a vida que você está construindo hoje deixar de fazer sentido para quem você se tornar amanhã, o que fará você permanecer: o desejo de continuar ou o medo de recomeçar?

Nicole Menezes Martins

Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.

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