Eduardo Cesario-Martínez Foto por Irene OliveiraImagem gerada pela IA do Gemini
Era notória, naqueles cantos, a paciência dos urubus, por mais ansiosos que estivessem, em esperar por mais uma criatura faminta ou, então, acometida de alguma moléstia finalmente sucumbisse. Ajoelhada e sem vontade de rezar, Veridiana olhou aquelas aves e teve a certeza de que os sonhos de infância não passaram de devaneios de alguém que não conseguia enxergar a própria sina.
Com as palmas das mãos sobre o solo rachado da caatinga, a mulher soltou um arre! e conseguiu erguer o corpo. Nunca fora boa com números, mas sabia que havia um povoado a duas léguas. Que fossem sete ou oito, ela estava decidida a não virar repasto de urubu. Não naquele dia. Que fossem procurar por outra carcaça com menos vontade de prosseguir nessa sobrevida ingrata.
Aos 38 anos, passara por momentos de penúria e raros confortos. Desde sempre fora explorada, seja pelo pai, seja pelos irmãos, seja pelo homem que se fez seu marido. Seca nas carnes e por dentro, nunca engravidou, apesar das indesejadas investidas do macho que a cobria sem lhe dar sossego.
Horácio não se conformava por escolha tão despropositada. Para que servia mulher estragada, se não era capaz de lhe dar os filhos que tanto queria? Pois tratou de arrumar uma mais nova e de procedência garantida.
Cassiana, a vizinha, era viúva e sustentava dois meninos graúdos. O homem foi ter um dedo de prosa e a coisa ficou acertada. Divorciou de Veridiana e desposou a outra. Não tardou, constatou que a escolha havia sido acertada, pois a nova esposa logo apresentou os primeiros enjoos.
Quanto à Veridiana, foi colocada de lado para os afazeres domésticos. Perdera o posto de esposa, mas Horácio necessitava de alguém para ajudar a nova mulher na lida com a casa. Vez ou outra, dependendo da falta de disposição da Cassiana, deitava-se com a ex-consorte. Rosto virado para o lado ou fixo no teto, Veridiana aguardava o arfar do sujeito se esvair num urro. Coisa de minutos, que pareciam uma eternidade.
Enquanto caminhava, Veridiana se recordava da vida miserável que se acostumou a levar. Não tinha raiva de Cassiana, muito menos das crianças e do bebê a caminho. Eram todas vítimas da perversidade do inferno onde nasceram. E nada de indulgências para os desprovidos de sorte. Que cumprissem as próprias agruras.
Horácio, todavia, não era visto com qualquer benevolência. Tanto é que Veridiana decidiu pôr um ponto final não apenas nas investidas do gajo, como também fazê-lo pagar por todos os pecados. Ela pensou numa maneira que não levantasse suspeitas.
Após quase dois meses, eis que Veridiana percebeu que o melhor era envenenar o traste. Que ele gostava de doces, todos sabiam. Que morresse empanturrado de quebra-queixo!
Tentou antúrio, mas não conseguiu provocar nada além do que diarreia e vômito no homem. Abusou de óleo de mamona, mas tratou de jogar fora todo o tacho porque os meninos e a buchuda reclamaram seu quinhão.
— Estragou.
— E desde quando doce estraga?
— Pois esse estragou. Faço outro amanhã.
A desculpa parece que não convenceu Cassiana, mas nada que provocasse intriga entre as duas. Quanto às crianças, foram ludibriadas por generosos nacos de rapadura.
Os dias prosseguiram, até que, por algo tão inesperado como picada de cobra, eis que Horácio, ao acordar depois de passar mais uma noite sobre Veridiana, foi calçar a botina. Pelo barulho do chocalho, parece que foi cascavel, que buscara refúgio no calçado do homem.
Veridiana nunca sentiu tamanho regozijo ao encarar o desespero de Horácio, que gritava. Não tardou, Cassiana surgiu e ainda pode ver a serpente se esgueirando para debaixo da cama. As duas mulheres, cúmplices nos desejos, viram o homem se esvair em pouco mais de duas horas.
— Vá buscar ajuda!
— Vou.
Cansada pela longa caminhada, Veridiana, finalmente, chegou ao povoado, onde sabia não existir médico. Tratou de comunicar o ocorrido ao padre, que acompanhou a mulher até o sítio da família. Nem deu tempo de fazer a extrema unção. Horácio, tipo comum da região, tinha um filete de sangue ressequido no canto dos lábios.
Pietro Costa: ‘A fenomenologia do polegar em queda’
Pietro CostaImagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69dff3df-ff98-83e9-afe7-3bb20cd651a2
Olhos fixados no luminoso oráculo. O polegar desliza, rito automático. Teu filho andou pela primeira vez: A vivência que não entrou no feed.
Sarcasmos prontos, cinismos em série, piadas leves como a consciência. Gritos e choros em silêncio digital: não viraliza a falta de audiência.
Compra-se para esquecer o dia, acumula-se o que não preenche. Em casa, aquece-se o urgente, congela-se o sentir: ego e agonia.
Executa-se a cretinice em escala industrial: Se vota diferente, é inimigo visceral. Se critica meu ídolo, é herege, insano. Se crê fora do meu templo, não é humano.
A ampulheta implode, vazio profundo. O tempo não passa, acumula feridas. Preconceitos marcam a pele do mundo: rugas precoces — civilização exaurida.
Merleau-Ponty já advertia a humanidade: o corpo é campo sensível, não secundário. Há um logos inscrito na carne, uma gramática do sentir antes do discurso, do vernáculo.
Essência e existência soletram-se no cotidiano: nos afetos negados, nos encontros adiados, nos mitos que repetimos, em autoengano.
Cada vida é texto em curso: ou ponte, ou abismo. E o sentido, hoje, exige menos conexão e mais coragem de sentir.
Rita OdehImagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69dfaacf-a5cc-83e9-ad61-88bdaa91a20c
1. Quando juraste tornar-te a minha voz e o meu eco, Por que é que andorinhas voaram do meu peito e o horizonte se expandiu?! 2. Uma mulher basta? = Tu és todas as mulheres numa só, por isso bastas. 3. O amor é como a vida, como a morte; só acontece uma vez. 4. Timing Amoroso Que horas são agora? São nove e… amo-te. 5. Espantoso! A seta que atravessou o meu coração não o fez sangrar; antes, encheu-o de amor! 6. Terás chegado no momento em que os meus olhos se pintaram de kohl à tua vista, Ou estavas lá antes mesmo de o sonho nascer?! 7. Tudo começa como uma semente e depois cresce, exceto o nosso sonho. Chegou com o tamanho do Sol. 8. Somos iguais: como se fôssemos duas metades do mesmo pão. 9. Vou arrancar-te do teu inferno para o meu paraíso, onde não há ninguém além de: eu, tu e uma profecia. 10. Abraça-me, como um poeta abraça o verso final contra o seu peito. 11. Eles viram-me como uma mulher bonita e passaram. Tu viste-me como vinho e… embriagaste-te. 13. Assim como a primavera chega e percebemos que todas as estações eram apenas um prelúdio para a sua vinda, o homem do sonho chegou, e percebi que tudo o que vivi na vida era apenas um prelúdio para ele. 14. Maquilho os meus olhos com kohl para que as outras mulheres te possam ver neles em todo o teu esplendor, e me invejem por ti. 15. Por princípio, detesto a posse. Mas quando me chamas: “Minha Rita”, oh, como eu adoro! 16. As nossas almas não se uniram por acaso. Isto é uma questão vinda do meu Senhor. 17. Eras como a última peça do puzzle; quando te encontrei, tornei-me completa. 18. O mais estranho neste amor é que pediste a minha mão a Deus, e os anjos foram testemunhas deste pacto! 19. Chamam por ti e eu viro-me. Não serás tu… o meu próprio eu?! 20. A diferença entre o meu amado e todos os outros homens é como a diferença entre um ser humano comum e um profeta.
‘A Nobreza Através dos Séculos: Funções, Hierarquia e Significado nos Dias Atuais’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoUma cena imponente de nobreza medieval, com reis, nobres e cavaleiros reunidos diante de um castelo, simbolizando poder, tradição e grandiosidade histórica, com assinatura autoral em destaque– Imagem gerada pelo ChatGPT
Ao longo dos séculos, poucos elementos da organização social exerceram tanta influência sobre a formação das civilizações quanto a nobreza. Mais do que um conjunto de títulos honoríficos, ela constituiu uma verdadeira estrutura de poder, responsabilidade e identidade, moldando o destino de reinos, impérios e povos inteiros.
Dos castelos medievais às cortes imperiais, os títulos de nobreza representavam não apenas prestígio, mas dever. Cada posição dentro da hierarquia nobiliárquica estava associada a funções específicas, formando um sistema complexo que unia política, guerra, administração e tradição.
Ainda hoje, em pleno século XXI, mesmo após o declínio das monarquias absolutas, a nobreza permanece viva — não como força governamental, mas como expressão cultural, histórica e simbólica.
Uma Estrutura de Poder e Responsabilidade
A nobreza sempre se estruturou como um sistema rigorosamente organizado, no qual cada título correspondia não apenas a uma posição de prestígio, mas, sobretudo, a um conjunto bem definido de deveres, responsabilidades e funções dentro da ordem política e social.
No ápice dessa hierarquia encontrava-se o Imperador, soberano de um império composto por múltiplos povos e territórios. Sua autoridade era concebida como universal, abrangendo não apenas o governo político, mas, em muitos contextos históricos, também a proteção da ordem religiosa e da unidade civilizacional.
Logo abaixo situava-se o Rei, governante de um reino e detentor de autoridade plena sobre seu território. Cabia-lhe administrar a justiça, liderar os exércitos, manter a estabilidade do Estado e garantir a proteção de seus súditos.
O Príncipe ocupava uma posição estratégica dentro da estrutura dinástica. O título podia designar o herdeiro do trono, membros da família real ou governantes de principados. Sua principal função era assegurar a continuidade da dinastia e preparar-se para o exercício do poder soberano.
Em níveis elevados da aristocracia, destacavam-se figuras como o Arquiduque e o Grão-Duque, responsáveis por territórios de grande relevância política e estratégica. Esses nobres frequentemente exerciam influência direta nas decisões das grandes monarquias e participavam ativamente da condução dos assuntos de Estado.
O Duque, por sua vez, figurava entre os mais poderosos nobres da realeza. Governava extensas regiões, possuía significativa autonomia e desempenhava papel central na sustentação do equilíbrio político e militar do reino.
O Marquês exercia uma função eminentemente estratégica: a defesa das regiões de fronteira, conhecidas como “marcas”. Sua posição era essencial para a segurança do território, atuando como primeira linha de proteção contra invasões e ameaças externas.
O Conde desempenhava um papel administrativo fundamental. Governava condados, aplicava a justiça, arrecadava tributos e representava diretamente a autoridade do soberano em nível regional.
O Visconde ocupava uma posição intermediária de grande importância funcional. Originalmente concebido como substituto do conde, tinha como principal atribuição garantir a continuidade da administração local na ausência ou impedimento de seu superior.
Além disso, exercia funções delegadas, supervisionava territórios menores e atuava como elo entre a administração condal e as estruturas locais. Sua atuação assegurava estabilidade e eficiência na governança regional.
O Barão constituía a base da nobreza titulada e desempenhava um papel essencial na sustentação do sistema feudal. Era responsável pela administração de pequenas terras ou feudos, exercendo autoridade direta sobre comunidades locais. Suas funções incluíam o fornecimento de apoio militar ao soberano, a organização da produção local e a manutenção da ordem em seu domínio. Apesar de ocupar o nível inferior da hierarquia, sua importância era estrutural, pois garantia o funcionamento do sistema em sua base.
Importa destacar que todos os títulos nobiliárquicos possuíam também suas correspondentes formas femininas — Imperatriz, Rainha, Princesa, Duquesa, Marquesa, Condessa, Viscondessa e Baronesa — e que, em diversos momentos da história, mulheres exerceram poder efetivo, seja governando diretamente, seja atuando como regentes ou influenciando decisivamente a política por meio de alianças dinásticas.
Os Cavaleiros, Cavaleiros Comendadores e Damas Comendadoras: Honra, Serviço e Tradição
Além dos títulos tradicionais, destacavam-se os Cavaleiros, que, embora nem sempre integrassem a nobreza titulada hereditária, constituíam parte essencial da ordem aristocrática.
Ligados aos ideais da cavalaria medieval, representavam a chamada nobreza de serviço — indivíduos que, por mérito, bravura e lealdade, recebiam distinção honorífica. Seu papel era essencialmente militar, atuando na defesa dos territórios e no serviço direto aos senhores feudais ou ao soberano.
No interior das ordens de cavalaria — especialmente as de caráter militar, religioso e, posteriormente, honorífico — surgiram graus mais elevados de distinção, entre os quais se destaca a figura do Cavaleiro Comendador.
O Cavaleiro Comendador não era apenas um combatente, mas também um administrador e dirigente. Responsável por uma comenda — unidade territorial, econômica ou institucional da ordem —, exercia funções de comando, gestão de bens, organização logística e coordenação de outros membros. Sua posição combinava autoridade, responsabilidade e prestígio, representando um grau superior dentro da hierarquia das ordens.
De forma correspondente, desenvolveu-se também a figura da Dama Comendadora, expressão da plena inserção feminina nas ordens honoríficas. Equivalente ao Cavaleiro Comendador, a Dama Comendadora representa um elevado grau de distinção, conferido em reconhecimento a méritos relevantes nas áreas cultural, social, institucional ou filantrópica.
Sua presença evidencia a evolução das tradições nobiliárquicas e honoríficas, nas quais a dignidade e o reconhecimento passaram a abranger igualmente homens e mulheres, mantendo, contudo, os valores clássicos de honra, serviço e compromisso com a tradição.
Assim, tanto o Cavaleiro Comendador quanto a Dama Comendadora representam, na contemporaneidade, a continuidade de uma herança histórica que alia mérito, responsabilidade e pertencimento a uma ordem simbólica de grande relevância cultural.
A Nobreza Como Pilar da Civilização
Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a nobreza foi um dos principais sustentáculos da ordem social. Sua atuação não se limitava à administração territorial, mas abrangia também:
a organização da defesa militar
a manutenção da justiça
a proteção das tradições
o aconselhamento direto aos soberanos
a promoção de cultura, arte e religião
Castelos, palácios, igrejas e universidades muitas vezes nasceram sob o patrocínio de famílias nobres. Dessa forma, a nobreza não apenas governava — ela também construía e preservava a civilização.
A Transformação com a Modernidade
Com o advento das revoluções liberais, especialmente a partir do século XVIII, o papel da nobreza sofreu profundas transformações. O surgimento dos Estados modernos e das repúblicas reduziu significativamente sua influência política direta.
Entretanto, a nobreza não desapareceu. Ela se reinventou.
Os títulos passaram a representar menos poder e mais tradição. Tornaram-se símbolos de continuidade histórica, de identidade cultural e de pertencimento a uma linhagem.
Hoje, a nobreza é compreendida, sobretudo, como parte do patrimônio histórico das nações.
Dinastias em Exílio: A Continuidade Além do Trono
Um fenômeno particularmente interessante — e, por vezes, pouco compreendido — é o das dinastias históricas em exílio. Trata-se de casas reais ou imperiais que, em decorrência de transformações políticas, revoluções, unificações nacionais ou mudanças institucionais, perderam o exercício efetivo do poder territorial, mas não a sua identidade dinástica, sua continuidade histórica nem a legitimidade simbólica que as acompanha ao longo dos séculos.
A perda do trono, nesse contexto, não implica a extinção da dinastia. Ao contrário, muitas dessas casas mantiveram intactos seus princípios fundamentais: a genealogia, as tradições, os códigos de honra e a consciência de sua missão histórica. Assim, ainda que afastadas do governo, continuam a existir como instituições vivas, depositárias de uma herança que transcende as circunstâncias políticas.
Mesmo desprovidas de soberania territorial, essas dinastias preservam uma forma de soberania moral e histórica. Seus chefes — frequentemente reconhecidos por linhagem legítima e sucessão dinástica — são considerados, em determinados círculos culturais, históricos e nobiliárquicos, como representantes legítimos de suas respectivas casas. Não se trata de um reconhecimento estatal, mas de uma legitimidade que se apoia na tradição, na continuidade e na memória histórica.
No campo do Direito Nobiliário, sustenta-se que tais chefes conservam o chamado fons honorum — expressão latina que significa “fonte de honra”. Esse princípio estabelece que a autoridade para conceder títulos, honrarias e distinções não deriva exclusivamente do exercício do poder político, mas da própria natureza da dignidade soberana, entendida como inerente à chefia dinástica.
Dessa forma, mesmo no exílio, o chefe de uma Casa Real ou Imperial continua apto a outorgar títulos nobiliárquicos de caráter dinástico e honorífico. Tais concessões não possuem validade jurídica no âmbito do direito público estatal, mas são reconhecidas como legítimas dentro do universo do Direito Nobiliário, das tradições aristocráticas e de instituições culturais vinculadas à história das monarquias.
Importa destacar que esses títulos contemporâneos não implicam privilégios políticos ou jurídicos. Seu valor reside em outra dimensão: a simbólica. Representam o reconhecimento de mérito, a integração a uma tradição histórica e a continuidade de uma cultura aristocrática que se perpetua ao longo do tempo.
Além disso, as dinastias em exílio desempenham, na atualidade, um papel relevante na preservação do patrimônio histórico e cultural. Muitas delas atuam por meio de ordens dinásticas, iniciativas culturais e ações filantrópicas, mantendo viva não apenas a memória de seus antigos reinos, mas também os valores associados à sua trajetória.
Nesse sentido, podem ser compreendidas como pontes entre passado e presente. Elas recordam que a história não se encerra com a queda de um trono, mas continua a existir naquilo que é transmitido — seja por meio de símbolos, tradições ou instituições.
Assim, as dinastias em exílio não representam apenas um vestígio de um mundo que desapareceu, mas uma continuidade histórica que se adapta, ressignifica e permanece. São, em última análise, expressões vivas de uma herança que, embora privada de poder político, conserva intacta sua dimensão simbólica, cultural e identitária.
O Valor Atual dos Títulos Nobiliárquicos
Mas o que significa, na prática, receber um título de nobreza nos dias atuais?
À primeira vista, pode parecer apenas uma reminiscência de tempos passados, um vestígio de estruturas sociais que já não exercem influência direta sobre o mundo contemporâneo. Contudo, uma análise mais atenta revela que o valor dos títulos nobiliárquicos não desapareceu — ele apenas se transformou.
Certamente, não se trata de poder político ou autoridade estatal. Os títulos nobiliárquicos modernos não conferem jurisdição, privilégios legais ou prerrogativas governamentais. O seu significado deslocou-se para uma esfera mais sutil, porém profundamente significativa: a esfera simbólica, cultural e histórica.
Nesse contexto, um título nobiliárquico contemporâneo pode ser compreendido como uma forma elevada de reconhecimento, cuja relevância transcende o material e se insere no campo das ideias, da memória e da identidade.
Ele representa, antes de tudo, um reconhecimento simbólico — a valorização de uma trajetória pessoal, de serviços prestados, de contribuições culturais, institucionais ou sociais. Trata-se de uma distinção que não se mede pelo poder, mas pelo significado atribuído à honra.
Ao mesmo tempo, constitui uma expressão de continuidade histórica, estabelecendo uma ligação entre o presente e uma tradição que atravessa séculos. Receber um título é, de certo modo, ser inserido em uma narrativa histórica mais ampla, que remonta a dinastias, instituições e valores que moldaram civilizações.
Há também uma dimensão de identidade cultural, pois o título integra o seu titular a um universo simbólico específico — composto por costumes, códigos de conduta, referências históricas e uma visão particular de honra e dever. Nesse sentido, não se trata apenas de uma designação, mas de uma forma de pertencimento.
O prestígio honorífico associado ao título, por sua vez, não deriva de autoridade política, mas do reconhecimento social e cultural que ele carrega. É uma distinção que opera no plano da representação, da memória e da tradição, e que, por isso mesmo, possui um valor duradouro.
Outro aspecto relevante é o pertencimento dinástico. Ao ser agraciado com um título, o indivíduo estabelece um vínculo — ainda que simbólico — com uma Casa histórica, passando a integrar, de alguma forma, o seu universo institucional e cultural. Esse vínculo reforça a ideia de continuidade e preservação de uma linhagem histórica.
Além desses elementos, pode-se ainda identificar outras dimensões contemporâneas do título nobiliárquico:
Valor institucional, quando associado a ordens dinásticas ou iniciativas culturais e filantrópicas;
Valor representativo, ao permitir que o titular atue como agente de divulgação histórica e cultural;
Valor identitário ampliado, ao conectar o indivíduo a uma tradição que transcende fronteiras nacionais;
Valor ético-simbólico, ao remeter a ideais clássicos como honra, lealdade, dignidade e serviço.
Importa destacar que, no mundo contemporâneo, esses títulos não impõem privilégios, mas sugerem responsabilidades de natureza moral e cultural. Espera-se, de seus titulares, uma postura condizente com os valores historicamente associados à nobreza — não mais no campo do poder, mas no da conduta.
Trata-se, portanto, de uma honra que se situa no domínio da cultura, da história e da identidade simbólica, e não da política. Uma distinção que não governa territórios, mas preserva significados; que não exerce autoridade, mas projeta memória; que não impõe poder, mas sugere legado.
Em última análise, o valor atual dos títulos nobiliárquicos reside precisamente nessa capacidade de conectar o indivíduo a algo maior do que si mesmo: uma tradição histórica contínua, que, embora transformada pelo tempo, permanece viva como expressão de civilização.
Entre a Memória e o Presente
Em uma era marcada pela rapidez das transformações, pela aceleração tecnológica e pela constante renovação das estruturas sociais, a nobreza permanece como um elo singular entre o passado e o presente. Em meio a um mundo que frequentemente valoriza o imediato e o efêmero, ela representa a permanência, a continuidade e a profundidade histórica.
A nobreza nos convida a perceber que a história não é apenas um conjunto de fatos distantes, confinados aos livros ou aos registros acadêmicos, mas uma herança viva, dinâmica e atuante. Trata-se de um legado que continua a influenciar identidades, moldar valores e, de maneira mais sutil, orientar instituições e comportamentos até os dias atuais.
Nesse contexto, os títulos nobiliárquicos assumem um significado que vai além da sua origem histórica. Eles funcionam como símbolos de continuidade, como fios que conectam gerações separadas pelo tempo, mas unidas por uma mesma tradição. Não são instrumentos de poder, mas expressões de memória — e, mais do que isso, de pertencimento a uma narrativa histórica que transcende o indivíduo.
Essa dimensão simbólica torna-se ainda mais relevante em uma sociedade que, muitas vezes, experimenta uma sensação de ruptura com suas próprias raízes. Os títulos nobiliárquicos, ao contrário, reafirmam a existência de uma linha contínua de transmissão cultural, na qual valores como honra, responsabilidade, lealdade e dignidade são preservados, reinterpretados e transmitidos ao longo das gerações.
Além disso, a nobreza oferece uma perspectiva de tempo mais ampla, na qual o presente não é visto como um ponto isolado, mas como parte de um processo histórico contínuo. Ela sugere que a identidade não se constrói apenas no agora, mas também naquilo que foi herdado, cultivado e transmitido.
Sob essa ótica, os títulos nobiliárquicos podem ser compreendidos como marcos simbólicos dessa continuidade histórica. Eles não apenas recordam o passado, mas o mantêm ativo, conferindo-lhe significado no presente. Funcionam como testemunhos vivos de uma tradição que, embora transformada pelas circunstâncias, não foi interrompida.
Mais do que representar privilégios, tornam-se portadores de memória. Mais do que indicar posição, sugerem responsabilidade histórica. E mais do que distinguir indivíduos, conectam-nos a algo maior — a uma herança coletiva que atravessa o tempo e resiste às mudanças.
Assim, entre a memória e o presente, a nobreza ocupa um espaço singular: o de guardiã de uma continuidade histórica que, mesmo silenciosa, permanece profundamente enraizada na construção das sociedades.
Conclusão
A nobreza, ao contrário do que muitos imaginam, não pertence apenas ao passado. Ela continua presente, reinventada, adaptada e ressignificada.
Se antes representava poder, hoje representa tradição. Se antes governava territórios, hoje preserva histórias. Se antes era instrumento de autoridade, hoje é expressão de identidade.
Compreender a nobreza é, em última análise, compreender a própria trajetória da civilização — e reconhecer que, mesmo em tempos modernos, certas heranças continuam a iluminar o presente.
Referências
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BURKE, Bernard. Burke’s Peerage, Baronetage and Knightage. Londres: Burke’s Peerage Ltd., várias edições.
CANNADINE, David. The decline and fall of the British aristocracy. New Haven: Yale University Press, 1990.
DUBY, Georges. A sociedade cavaleiresca. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
ELLIOTT, J. H. Imperial Spain: 1469–1716. Londres: Penguin Books, 2002.
GIES, Frances; GIES, Joseph. Life in a medieval castle. New York: HarperCollins, 1974.
KANTOROWICZ, Ernst H. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia política medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
KEEN, Maurice. Chivalry. New Haven: Yale University Press, 1984.
MATEOS, Juan Félix. Derecho nobiliario español. Madrid: Hidalguía, 1993.
MONTENEGRO, João de. Direito nobiliário. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1945.
PINE, Leslie Gilbert. The story of heraldry. Londres: Studio Editions, 1998.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.
’10 horas em Angola: quando o táxi chega, a conversa morre!’
Osvaldo Manuel AlbertoImagem gerada pela IA do Grok
Na paragem de táxi, temos consciência de que quando o nosso táxi chegar, independentemente de a conversa ser fluída ou não, temos de partir. Enquanto o táxi não chega, aproveitamos o tempo da melhor maneira possível, puxamos e desenvolvemos diálogo com quem estiver próximo, mesmo sem saber o seu destino.
Este texto não é sobre viagem de táxi. É sobre a vida.
Mas então, o que é a vida?
Esta é uma daquelas perguntas que admite uma infinidade de respostas. E estas atendem princípios e contextos.
Há quem defina a vida como “o bem mais precioso que Deus nos deu”. Normalmente, esta definição surge quando estamos cônscios da nossa necessidade espiritual.
Quando a frustração e a depressão se apossam de nós, a vida é definida como “uma merda”.
Nos momentos de tristeza, luto e dor, a vida é definida como “um sopro”, “uma bruma”.
Mesmo sem consciência, a quem defina a vida sem sequer mencionar o termo vida. Em ambientes eufórico, de desbunda profunda, para se referir ao conceito vida uns recorrem ao seu antónimo “quem morre é burro, caixão faz calor”. Tudo isso, para se referir que a vida é aquele momento de éxtase.
Depois de algumas cucamicinas, a vida é definida como “isso”, ou seja, “isso é que é vida, páh!” (Lombadas). Para manifestar que a vida é o momento de alegria. Uma definição redutora e excludente, porque tudo fora disto, não é vida.
Há quem prefira definir a vida como “o contrário da morte”.
Graciano (2026) citando um velho amigo definiu a vida como sendo “esse bocado”. Repito, “a vida é esse bocado”. Sim, os poucos momentos que nos proporcionamos estar com alguém, conversar, ouvir com atenção, desejar o bem a outrem. Esse bocado de convívio em que por instantes chegas a pensar que não adoencerás porque atingiste a imortalidade. A vida é esse bocado que não temos consciência do quão poucochinho é, e de tão curta que é ou do quão efémera é. Enquanto se define a vida como sendo esse bocado, o braço e o antebraço devem fazer um ângulo de noventa graus, enquanto o indicador voltado para baixo circunscreve sinalizando o bocado que a vida é.
A vida é a liberdade limitada pela morte.
A vida é uma sequência de episódios positivos e negativos num determinado tempo.
Na realidade angolana, 10 horas é a hora marcada. Para dizer não o que é, mas o que foi feito com a vida! Nesta hora, o táxi já terá chegado e as conversas interrompidas.
E para ti, o que é a vida? (Responda em uma palavra).