Dorilda AlmeidaImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6998b6dd-903c-8328-8026-521ed439673b
A alegria e o sofrimento Mexem com o poder da criação O processo criativo Surge Da sensibilidade E da subjetividade Do ser humano Para sair deste mundo Por uns instantes E liberar uma nova visão Ampliar os horizontes Escrever, sonhar e criar Com coragem e liberdade Como fizeram Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e tantos outros não aceitos, mas permaneceram. A arte ela nasce, cresce E aparece para o mundo O mundo das formas Da escrita, da gramática E da matemática Ela é pura É tão misturada, enrolada, agraciada Não tem cor Não tem sexo Só tem forma de amor e de amar É simplesmente arte!
Ella Dominici: ‘La rencontre de la brume et la brise
(O encontro da névoa com a brisa)
Ella DominiciImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/s/m_69987f2861608191ab43275348db148b
Quands me jours seront gris peints par des brumes Mes yeux couverts de bateaux blancs des nates qui nagent sur une tasse au lait Je rencontrerai sur la mèr larmes d’ écumes
Quands mes langues seront fatiguées de saveurs Ma tête angoissée en ayant plus des pleurs L’ espoir de te revoir en rêve s’évanouie Je ferai semblant de te croire,s’épanouit
À me plaire
Quands le soleil de ma croyance soit couché Et presque des ténèbres d’insécurité Me prendront le coeur ,les jambes et le ventre
Vivront encore mes désirs de tes anches branches de mon arbre assoiffés de ton feu.
Le soulagement des mes souvenirs qui souffrent tant Vient par la brise, sont des légères vents qui me soufflent et adoucissent ces moments La brise femelle m’ avalle le cerveau
Me couvre comme un couvercle manteau La pensée te voit ,te désire ,te touche Le vent doux enlève vers le haut l’amoureux vers.
O encontro da névoa com a brisa
Quando meus dias serão cinza pintados por névoas Meus olhos cobertos de barcos brancos natas nadando em um copo de leite Encontrarei lágrimas de espuma no mar
Quando minhas línguas estiverem cansadas de sabores Minha cabeça angustiada sem mais lágrimas
esperança de ver você novamente em um sonho desaparecendo vou fingir que acredito em você, florescer para me agradar
quando o sol da minha crença se pôs quase uma escuridão de insegurança Levará meu coração, pernas e ventre
saberia que mesmo que meus lábios fluam ainda viverei meus desejos de seus juncos galhos da minha árvore sedentos pelo seu fogo.
Alívio das minhas memórias dolorosas vem pela brisa, são ventos leves que me sopram e suavizam esses momentos
brisa feminina engole meu cérebro me cobre como uma capa de casaco pensamento te vê, te deseja, te toca
vento suave sopra o amante para o alto em amorosos versos
Do chão bordei o céu: poesia que nasce da floresta e alcança o mundo
Obra da poeta acreana Luciane Ferreira de Morais transforma memória, natureza e afetos em versos que conectam território e identidade
Do chão bordei o céu
A poesia pode nascer do silêncio, da lembrança e do pertencimento.
Em “Do chão bordei o céu“, a poeta acreana Luciane Ferreira de Morais transforma sua trajetória em versos que entrelaçam memória, natureza e afetos, revelando um olhar sensível sobre a terra que a formou.
Luciane Morais
Nascida no Seringal Riachuelo, no município de Feijó, no Acre, Luciane carrega desde a infância um vínculo profundo com a floresta.
Essa relação atravessa sua escrita e se manifesta em seus dois livros publicados, “Dos galhos de uma árvore tec vresos acreanos” e “Do chão bordei o céu”, marcados pelo amor e admiração pela natureza.
Com formação em Geografia e mestrado em Letras pela Universidade Federal do Acre, a autora constrói sua poesia a partir de uma vivência que une território, identidade e sensibilidade.
Trabalhando na administração pública, encontrou na escrita um espaço terapêutico, versos que começaram a surgir em bloquinhos de papel, rabiscados na Biblioteca Pública, e que hoje compõem uma obra de forte valor afetivo e cultural.
Inspirada por leituras de nomes como Paulo Leminski, Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros, Luciane constrói em “Do chão bordei o céu” uma narrativa poética dividida em três movimentos:
• “Do chão de terra”, que resgata memórias do Seringal e das vivências da infância;
• “Do chão cimento”, que reflete o olhar urbano sem perder o vínculo com a contemplação da natureza;
• “Do chão de sentimentos”, que dá voz às pessoas que marcaram sua trajetória.
A obra conduz o leitor por uma jornada que parte das margens do Rio Envira, no Acre, e percorre paisagens e memórias que atravessam Rio Branco, Caiapônia (GO), Cusco (Peru) e Porto (Portugal), evocando personagens e experiências que moldaram sua caminhada.
Mais do que um livro de poemas, “Do chão bordei o céu” é um testemunho de pertencimento e de afeto pela terra de origem, e que tive a honra de prefaciar.
Uma escrita que nasce do chão, mas que encontra no verso a possibilidade de alcançar o céu.
Luciane faz da poesia um refúgio de memórias, afetos e ternura.
Em versos que evocam a infância, os sabores, as dores e as esperanças, ela revela a beleza escondida no cotidiano e celebra o amor em sua forma mais simples e essencial.
Cada página é um convite ao reencontro com o que nos sustenta e nos torna profundamente humanos.
Paulo Siuves: ‘Ninguém entra duas vezes no mesmo rio’
Paulo SiuvesImagem criada por IA do Gemini – 19 de fevereiro de 2026, às 16h25
Saí de casa e vi um ônibus passar. Não era só um ônibus. Era uma cápsula do tempo.
Painel digital, porta automática, câmera interna, letreiro de LED. Só o motor barulhento não mudou — continua o nosso velho e bom busão.
Quase nada nele parecia com os que passavam quando eu era moleque. Os de antes gemiam, tremiam, soltavam fumaça, tinham bancos duros e janelas que se abriam à força. Hoje tem ar-condicionado.
Quarenta anos de tecnologia entre um veículo e outro — e, mesmo assim, a rua era a mesma. O ponto era o mesmo. O asfalto era o mesmo. Só eu não era.
O que passa pela retina é presente. O que passa pela memória é outra cidade. Outro corpo. Outro tempo. Outro eu.
Há coisas que mudam fora da gente. Outras mudam dentro. E há aquelas que mudam a gente por dentro.
De tempo em tempo, alguém surge lá dentro. Um outro eu — mais ranzinza, mais cansado. Enquanto o anterior permanece ali, em suspensão, esperando para ver o que vai acontecer.
Ser arguido por alguém no espelho é rotina. Um sujeito que me encara como se fosse testemunha de um crime que eu não lembro de ter cometido. Um desaforo íntimo. Um confronto sem plateia. Às vezes penso: como é que eu ainda não dei um soco naquele sujeito?
Os que morreram dentro de mim não me incomodam. O que fumava, por exemplo — já foi tarde. Morreu no fim de 2009. Esses eu enterrei em silêncio. Esses descansam.
O problema são os outros. Os que se recusam a morrer. Os que voltam como requerentes da própria existência. Os que batem à porta da consciência pedindo explicação. Os que me confrontam toda vez que o espelho acende.
E a mão… Essa mão que amanhece sem pedir licença. Eu olho e não reconheço a pele. Não é a pele que eu lembro. Não tinha tantas rugas. Não tinha tantas histórias. Minha memória guarda uma mão lisa — de quinze, talvez vinte anos. Não essa pele quase sexagenária que agora habito como se fosse de outro endereço.
Às vezes não parece envelhecimento. Parece troca de identidade sem aviso prévio. Como se eu tivesse sido atualizado sem ler os termos do contrato.
Acho que é exatamente isso: não somos feitos de um tempo só. Somos sobreposições. Camadas, pessoas. Versões em conflito. Arquivos vivos.
E, como a cidade, a gente muda de pele sem pedir permissão à memória. O corpo vira outro prédio. O rosto vira fachada velha. O olhar vira outra rua. E a gente caminha dentro de si como quem visita um museu sem placas.
No fim, eu acho que não envelheci. Só acordei num corpo que ainda estou aprendendo a habitar — enquanto versões antigas de mim continuam andando alguns passos atrás, me olhando, em silêncio, como quem pergunta: “foi isso que você fez com a vida que a gente sonhou?”
Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘O vento dos papagaios’
Sergio DinizImagem criada por Ia do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6997376a-3b80-8331-a218-0806136032d3
Uma tarde de julho. Ventania. Crianças. Um campinho das peladas. Em vez de correria atrás de uma bola, porém, carretilhas numa mão e, na outra, um papagaio*!
Com as férias do meio do ano e os ventos ficando mais constantes e intensos, as brincadeiras da terra cedem a vez para os olhares ao céu.
Papagaios de vários tamanhos, cores e desenhos começam a alçar altura e a bailar, ao sabor do vento.
Vejo esses meninos, correndo e empinando seus papagaios e, diante de tanta alegria, me percebo divagando… mergulhando nas Águas do Passado.
Manhã ventosa de uma sexta-feira de agosto. A agitação, o burburinho da sala de aula, termina com a entrada de dona Terezinha, a professora de Geografia.
É uma entrada solene da professora que nos chama a todos de ‘filhinho’. E sua simples presença nos infunde um misto de aquietamento e expectativa.
Quase às vésperas da aposentadoria, ‘Tia’ Terezinha é uma das docentes mais antigas da escola. E, também, a mais idosa. Cabelos curtos e alvacentos. Rosto sulcado por rugas. Pequena estatura física e corpo ‘arredondado’.
O tempo, no entanto, parece ter passado ao largo em relação a ela. O que a genética não lhe aquinhoou no corpo físico, uma Força Maior compensou-lhe no espírito. Quando inicia a aula, a voz ribomboa, os olhos fulgem, as palavras, descrições, conceitos fluem caudalosamente.
Com ela, em seu Tapete Mágico imaginário, conhecemos as regiões brasileiras, com seu clima, sua fauna, flora, rios, montanhas… E, numa visão multidisciplinar, infunde-nos o sentimento de respeito ao meio ambiente, de amor à natureza, de cuidado em relação à Mãe Terra.
E, nesta manhã de sexta-feira de agosto, de um tempo pueril, tia Terezinha, inspirada pelo clima, vai nos falar sobre os ventos. E ela, toda ela, se transforma num Atlas, num compêndio de Geografia.
Como uma sereia que, com seu canto, nos atrai, inicia a aula, ensinando que os ventos são o ar em movimento e que desempenham um papel muito importante na vida dos seres vivos, pois são eles que levam para longe o ar viciado que respiramos e trazem até nós o ar puro, com bastante oxigênio, tão importante para o nosso organismo.
Discorre sobre os vários tipos de ventos, que alteram-se conforme a sua durabilidade. E, à nossa frente, por meio de gráficos, desfilam os ventos alísios e contra-alísios.
Depois deles, vêm as monções e as brisas. No entanto, chama-nos a atenção para aqueles que são muito perigosos. E, feito o ‘malfeitor da natureza’, vem o vilão-mor: o ciclone, nome genérico para os terríveis ventos circulares, como o tufão, o furacão, o tornado, o vendaval e um sobre o qual nunca ouvira falar: o willy-willy, nome que os ciclones recebem na Austrália e demais países do sul da Oceania.
Tia Terezinha, ardendo de entusiasmo, dá uma pausa, porém, para respirar. Nesse momento, não contendo minha curiosidade, pergunto:
─ Tia, e qual é o vento dos papagaios?
Uma tarde de julho. Ventania. Crianças. Um campinho das peladas.
Uma lufada mais fria do vento me tira daquele transe.
O vento mais intenso e a gritaria dos meninos me fazem olhar para o céu, agora totalmente tomado pelos papagaios. E caio em mim ao perceber que, na volta à sala de aula, não me lembro de qual foi a resposta de Tia Terezinha…
Qual é, afinal, o vento dos papagaios?
O céu é um mar de varetas de madeira e papel, num bailado multicolorido. E, de repente, um papagaio se sobressai. Apesar da distância, tenho a impressão de que ele tem o formato de um rosto. Um rosto que me dirige um olhar e, com ele, uma voz sussurra:
─ O vento dos papagaios, filhinho, é o vento da imaginação!
* Na minha infância, em Sorocaba, estado de São Paulo, nós denominávamos esse brinquedo como ‘papagaio’. Todavia, trata-se de um brinquedo com vários nomes, dependendo da região brasileira e até mesmo de outros países. Temos, assim: pipa, arraia ou pepeta, cafifa, quadrado, piposa, pandorga.