O Sonho de Um Homem Ridículo

Entre Dostoiévski, Nietzsche e Camus, o premiado espetáculo ‘O Sonho de Um Homem Ridículo’ retorna a São Paulo

Espetáculo 'O sonho de Um Homem Ridículo' - Crédito Arô Ribeiro
Cena do Espetáculo ‘O sonho de Um Homem Ridículo’ – Crédito Arô Ribeiro

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Sob direção de Alexandre Kavanji, o solo protagonizado por Léo Horta atravessa a literatura russa e encontra ecos contemporâneos na atmosfera poética e existencial de Minas Gerais

O premiado espetáculo ‘O Sonho de Um Homem Ridículo, da Companhia Lúdica dos Atores, desembarca no Teatro de Arena Eugênio Kusnet em uma curta temporada que vai de 04 de junho a 14 de junho sempre de quinta a domingo.  Os ingressos a preços populares de R$ 50.00 (inteira) R$ 25,00 (meia entrada) estão disponíveis pelo Sympla ou na bilheteria do teatro. 

Dirigido por Alexandre Kavanji, o espetáculo adapta para o teatro o clássico conto homônimo do escritor russo Fiódor Dostoiévski. O grupo teve a preocupação de manter o texto o mais fiel possível à obra original, transportando o público para um mundo de reflexões profundas sobre vida, morte e redenção. 

Na trama, o ator Léo Horta, formado pela academia russa de teatro (The International Seminar “The Stanislavsky System Today”/Moscou, 2011 e Konstantin Stanislavsky and Mikhail Chekhov Today – practical training for actors and directors/Letônia, 2013), Interpreta um personagem em colapso emocional, atravessado pela sensação de fracasso, vazio e desconexão com a humanidade ao seu redor, diante da perda de propósito e da incompreensão da existência ele decide pôr fim a própria vida. 


“Ah, imediatamente, no primeiro olhar que lancei aos seus rostos, entendi tudo, tudo! Essa era a terra não profanada pelo pecado original, nela vivia uma gente sem pecado, vivia no mesmo paraíso em que viveram, como rezam as lendas de toda a humanidade, os nossos antepassados pecadores, apenas com a diferença de que aqui a terra inteira era em cada canto um único e mesmo paraíso. Essas pessoas, rindo alegremente, se achegavam a mim e me afagavam; levaram-me consigo, e cada uma delas queria me apaziguar. Ah, não me fizeram nenhuma pergunta, mas era como se já soubessem de tudo, assim me pareceu, e queriam expulsar o mais depressa possível o sofrimento do meu rosto….”.

(Trecho de O Sonho de um Homem Ridículo, de Fiódor Dostoiévski)

O conto é uma reflexão sobre a busca de sentido, o valor da empatia e a possibilidade de redenção. Dostoiévski usa este sonho fantástico para questionar a natureza humana e a existência de um propósito maior, destacando a importância do amor e da compreensão como valores universais. A obra é um exemplo brilhante de como a literatura pode explorar as profundezas da mente e da alma humana, inspirando leitores a refletirem sobre suas próprias escolhas.

Sobre a encenação e prêmios

“Para a adaptação teatral, nos interessa sobretudo esta narrativa fantástica, a intensidade da interpretação dramática, a inventividade da linguagem cênica, assim como uma reflexão crítica aliada à beleza que a obra de Dostoiévski nos proporciona”, conta Kavanji. 

Para esta montagem, foi fundamental o aprofundamento do ator na busca de vestígios deste homem, o Homem Ridículo, este personagem em movimento no espaço, sua linguagem corporal, a partir da pesquisa em referências das artes plásticas, literatura, cinema, proporcionando explosões imagéticas combinadas com cenário, figurino e iluminação.

Nas pesquisas para a criação do espetáculo, o grupo também recorreu a duas referências extras. Uma é o texto O Louco, ou O Homem que Matou Deus, de Friedrich Nietzsche, e a outra é uma reflexão sobre o mito de Sísifo feita por Albert Camus. 

Esta montagem de O Sonho de um Homem Ridículo estreou em 2023, em Minas Gerais, e recebeu 17 indicações a prêmios em oito festivais pelo Brasil, com destaque para as conquistas de Melhor Ator, Melhor Espetáculo de Palco, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Cenário no renomado 7º FESTA – Festival Internacional de Palco e Rua de Araçuaí, e mais recente os prêmios de Melhor Ator, Melhor Direção e Melhor Espetáculo Solo no 12º Festival Nacional de Teatro do Piauí – Floriano PI, consolidando-se como uma referência em excelência artística, ao todo a companhia já coleciona 08 prêmios do espetáculo.

SINOPSE

No premiado espetáculo “O Sonho de Um Homem Ridículo”, de Fiódor Dostoiévski, o personagem mergulhado em reflexões sobre as contínuas frustrações em sua vida, bem como a falta de significado e propósito no mundo que o rodeia, adormece na poltrona diante do revólver carregado, após decidir acabar com sua própria vida. Inicia-se então um dos sonhos mais fantásticos da literatura mundial, onde Dostoiévski propõe uma reflexão sobre o sentido da vida, a existência ou não do além vida, a força da empatia e o amor como um grande valor universal, explorando a introspecção do personagem e sua jornada rumo à compreensão de si mesmo e do universo ao seu redor.

FICHA TÉCNICA

Companhia Lúdica dos Atores de BH

Espetáculo: O Sonho de um Homem Ridículo, de Fiódor Dostoiévski

Prólogo: O Louco, de A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche 

Edição: Fiódor Dostoiévski. O Sonho de Um Homem Ridículo

Tradução: Vadim Nikitin, São Paulo: Editora 34. 

Coordenação e produção geral: Argos Produções Culturais 

Direção, cenário e figurino: Alexandre Kavanji

Ator: Léo Horta

Produção executiva: Léo Horta

Assistência de direção: Marina Galeri

Iluminação: Felipe Cosse 

Preparação corporal: Priscila Patta

Orientação dramatúrgica: Solange Dias 

Trilha sonora original: Léo Nascimento

Assessoria de imprensa: Argos Comunicação 

TEMPO DE PEÇA: 60 MINUTOS

CLASSIFICAÇÃO – 12 ANOS

SERVIÇO:

Local: Teatro de Arena Eugênio Kusnet

Data: De 04 à 14 de junho | quinta a sábado às 20:00 h | Dom. 18:00 h | Dia 13/06 sábado (especialmente) às 16:00 h. 

Endereço: Rua Dr. Teodoro Baima, 94 – Vila Buarque, São Paulo

R$50,00 (Inteira no Sympla e na bilheteria do teatro)

R$25,00 (meia no Sympla e na bilheteria do teatro)

LINK SYMPLA

www.sympla.com.br/evento/o-sonho-de-um-homem-ridiculo-sao-paulo-2026/3416141 

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Da Romênia ao ROL, o filólogo, escritor e poeta Felix Nicolau!

Filho do País dos Cárpatos, Felix Nicolau traz ao ROL “a clareza e profundidade do discurso literário, explorando as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade” (Rhea Cristina)!

Felix Nicolau
Felix Nicolau

Felix Nicolau, natural de Bacau (Romênia), é filólogo, escritor, poeta, professor e doutor em Estudos Literários pela Universidade de Bucareste, tendo lecionado nas universidades Complutense de Madrid, Universidade de Granada e Universidade de Lund, na Suécia.

Membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras

Entre os seus livros destacam-se: Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale; Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice; Ingen fara på taket; You Are not Alone. Culture and Civilization; Morpheus: from Text to Images. Intersemiotic Translation; Take the Floor. Professional Communication Theoretically Contextualized; Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity; Homo imprudens.

Publicou vários livros de poesia e dois romances: Kamceatka. Time is Honey; Pe mâna femeilor; Tandru şi rece, Bach, manele şi Kostel; Cucerirea râsului; Salonul de invenţii.

Felix Nicolau inicia sua colaboração ROLiana com o surpreendente poema A vida é mórbida, versos que denotam a tensão profunda entre Eros e Tânatos, a dualidade amor e morte.

A vida é mórbida

Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/6a0dec22-51e4-83e9-944e-3d2dca9b9457
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a0dec22-51e4-83e9-944e-3d2dca9b9457

se tu também entrasses como as outras
quase à hora do canto dos galos
furtivamente e soltando aquele cheiro
de escaravelhos vermelhos típico dos cemitérios armênios
mas tu não
quase me acordas mergulhando
no meu sonho com a boca aberta
e as pálpebras frias
quase consigo sentir teu coração pulsando
sobre o meu peito
mesmo aproveitando-me de ti enquanto dormes
ainda sou capaz de estender o braço esquerdo
para verificar se

a tua alma está lá
congelada e enorme

se continua lá congelada e enorme
enquanto tu insistes que uma vida noturna intensa
estimula o pulso
acelerando o ridículo

Felix Nicolau

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🎖️Comendador da Ordem do Mérito da Língua Portuguesa

Receber a Comenda da Ordem do Mérito da Língua Portuguesa não é apenas um reconhecimento local; é ingressar em um círculo seletíssimo de defensores da nossa herança cultural

Logo da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA

A Academia de Letras de São Pedro da Aldeia (ALSPA), no pleno exercício de suas atribuições estatutárias e em celebração ao seu papel de vanguarda cultural, tem a honra de convocar os mais distintos e brilhantes artistas, escritores e intelectuais para a Outorga da Comenda da Ordem do Mérito da Língua Portuguesa.​

​🏛️ Uma Honraria de Importância Suprema e Universal

​Receber a Comenda da Ordem do Mérito da Língua Portuguesa não é apenas um reconhecimento local; é ingressar em um círculo seletíssimo de defensores da nossa herança cultural. Esta distinção possui expressiva relevância nacional e internacional, servindo como uma ponte viva entre o Brasil e as demais nações que compartilham o nosso idioma através dos oceanos.

​Para o agraciado, esta Comenda representa o ápice do reconhecimento de seu talento e de sua contribuição para a imortalidade da nossa identidade cultural. É a validação máxima de que sua obra ecoa com força e dignidade no cenário da Lusofonia.

​✒️ Referência Histórica e Heráldica

​”A língua é o espelho de um povo, e os seus artistas são os guardiões da sua alma. Ao condecorar um talento com a Ordem do Mérito da Língua Portuguesa, a Academia de Letras de São Pedro da Aldeia fixa na linha do tempo um marco indelével de união, soberania intelectual e diplomacia cultural entre os povos irmãos que habitam o mesmo universo verbal.”

Link para inscrição: https://wa.me/message/JHL6OCC5EHNUF

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FLICG – Feira Literária de Capim Grosso

FLICG – Feira Literária de Capim Grosso recebe a escritora Verônica Moreira

Verônica Moreira - Foto divulgação
Verônica Moreira – Foto divulgação

Nos dias 8, 9 e 10 de maio, a escritora, palestrante, contadora de histórias e Editora de Eventos e colunista do Jornal Cultural ROL, Verônica Moreira, participou da 4ª edição da FLICG – Feira Literária de Capim Grosso, na cidade de Capim Grosso (BA).

Durante o evento, Verônica realizou apresentações de contação de histórias para crianças e palestra para professores e visitantes da feira. Verônica ainda foi homenageada com uma apresentação teatral da Vekinha, com o projeto Vamos Cuidar do Meio Ambiente, levando conscientização, ludicidade e encantamento às crianças dos anos iniciais da Educação Infantil das escolas do município.

Apresentação teatral da Vekinha, com o projeto Vamos Cuidar do Meio Ambiente
Apresentação teatral da Vekinha, com o projeto Vamos Cuidar do Meio Ambiente

Recebida com carinho e reconhecimento, a escritora foi homenageada em uma emocionante apresentação da Vekinha e o Tio Jadir, personagens que encantaram o público infantil e reforçaram a proposta educativa e cultural do projeto.

Palestrante Pietro Costa - Foto divulgação
Palestrante Pietro Costa – Foto divulgação

A feira reuniu grandes escritores, artistas, cordelistas e representantes culturais de diversas regiões do Brasil, promovendo momentos de troca, aprendizado e celebração da literatura brasileira em suas múltiplas vertentes. Entre os convidados, destacou-se o palestrante Pietro Costa, que abordou a importância das academias de letras no Brasil.

Além da intensa programação literária e cultural, a cidade celebrou seu aniversário com um bolo de mais de 40 metros e grandes atrações musicais, incluindo shows de Vanessa da Mata, Os Paralamas do Sucesso e do cantor gospel Davi Sacer.

Verônica Moreira e Natália Tamara
Verônica Moreira e a Coordenadora Natália Tamara

Com uma estrutura grandiosa e organização elogiada pelos participantes, o evento contou com o apoio da Prefeitura de Capim Grosso, da Diretoria de Cultura, da Secretaria de Educação e da Coordenadora Natália Tamara, tornando a feira ainda mais humana e acolhedora..

Em sua quarta edição, a FLICG – Feira Literária de Capim Grosso consolida-se como referência cultural na Bahia, valorizando a literatura, o folclore, o artesanato, a música e a gastronomia típica da região.

Verônica Moreira e Pietro Costa também receberam homenagens da Prefeitura e das secretarias municipais, demonstrando o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em prol da educação, da literatura e da cultura brasileira.

Na oportunidade, a escritora e Delegada Cultural da Febacla em Caratinga – MG, em nome de seu presidente, Dom Alexandre da Silva Camelo Ruricovith Carvalho, homenageou com Menção Honrosa personalidades que se destacam por seus trabalhos em prol da cidade, da cultura, literatura e educação. Foram homenageadas professoras de escolas e creches da região.

Nossos colunistas se sentiram honrados com a recepção. Parabéns ao Prefeito de Capim Grosso, Sivaldo Rios, à secretaria de Educação Neumaria Gomes, à secretária de Cultura Luciene Rosa e à Coordenadora Natália Tamara, bem como todos os servidores que trabalharam em prol do sucesso da FlICG.

Da esquerda para a direita Vânia Cruz (Sub Secretária de Educação), Verônica Moreira, Luciene Rosa (Diretora de Cultura), Lucas Pablo (Coordenador Articulador de Matemática) e Brenna Oliveira (Coordenadora Pedagógica)
Da esquerda para a direita Vânia Cruz (Sub Secretária de Educação), Verônica Moreira, Luciene Rosa (Diretora de Cultura), Lucas Pablo (Coordenador Articulador de Matemática) e Brenna Oliveira (Coordenadora Pedagógica)

Verônica Moraira e a Secretária de Educação, Neumaria Gomes
Verônica Moreira e aSecretária de Educação, Neumaria Gomes

Chayanne Izidoro (Produtora Cultural) Pietro Costa (Escritor Brasiliense) Natália Tamara  (Coordenadora), José Sivaldo Rios (Prefeito de Capim Grosso) e Verônica Moreira
Chayanne Izidoro (Produtora Cultural) Pietro Costa (Escritor Brasiliense) Natália Tamara (Coordenadora), José Sivaldo Rios (Prefeito de Capim Grosso) e Verônica Moreira

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Carlos Carvalho Cavalheiro

Professor e historiador de Porto Feliz participa de evento sobre literatura operária em Sorocaba

Adilene Cavalheiro e Carlos Carvalho Cavalheiro - Foto: Flávio Miyata
Adilene Cavalheiro e Carlos Carvalho Cavalheiro – Foto: Flávio Miyata

Carlos Carvalho Cavalheiro, docente da EMEF Coronel Esmédio, apresentou obras que resgatam a memória dos trabalhadores têxteis e a luta sindical na região

Porto Feliz/Sorocaba — O professor, historiador e escritor Carlos Carvalho Cavalheiro, docente de História na EMEF Coronel Esmédio, em Porto Feliz (SP), foi um dos convidados da 22ª edição do evento ‘Café & Cultura – Vamos Jogar Conversa Dentro‘, realizada pela Academia Sorocabana de Letras em parceria com a Padaria Real. O encontro, ocorrido no último mês, trouxe como tema central a ‘Literatura Operária’ e foi conduzido pelo confrade Luiz Fernando Martins de Lima.

Natural de São Paulo e radicado em Sorocaba há mais de 50 anos, Carlos Carvalho Cavalheiro é mestre em Educação pela UFSCar (campus Sorocaba) e doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO). Durante sua participação, o autor falou sobre sua trajetória na pesquisa histórica e na literatura, com ênfase no resgate da memória dos trabalhadores das fábricas têxteis, sobretudo nas décadas de 1920 e 1930 em Sorocaba.

Cavalheiro apresentou obras como ‘Memória Operária’, ‘Salvadora!’ (biografia de Salvadora Lopes Peres, primeira mulher eleita vereadora em Sorocaba, em 1947) e os romances ‘Entre o sereno e os teares’ e ‘O legado de Pandora’. O mediador do debate concentrou as perguntas no livro ‘Entre o sereno e os teares’, que narra a história de Rodrigo Trindade, conhecido como Meia-Volta, um malandro que se transforma ao conviver com Zilda, operária e militante anarquista. A obra foi eleita o melhor livro de 2018 em Sorocaba e é vencedora do Prêmio Anual Sorocaba de Literatura.

Além da produção literária, Cavalheiro também atua diretamente na educação básica pública. Na EMEF Coronel Esmédio, em Porto Feliz, o professor coordenou projetos como ‘Ori-gens’, voltado ao resgate de raízes de afrodescendentes por meio de entrevistas realizadas por alunos, e ‘Meu quintal é maior do que o mundo’, iniciativa de intervenção ambiental que alia cidadania e senso crítico. Carlos Carvalho Cavalheiro é colaborador dos jornais ROL e Tribuna das Monções, além do Portal Marimba Selutu de Angola. É acadêmico correspondente da FEBACLA e efetivo da Academia Independente de Letras.

O evento contou ainda com a participação do escritor Carlos Araújo, autor de ‘Companheiros’ e ‘Linha de Frente’ — livros-reportagem sobre os sindicatos dos metalúrgicos e dos rodoviários de Sorocaba. Araújo analisou a transformação do sindicalismo na cidade a partir da década de 1980, inspirado no modelo do ABC paulista.

De acordo com os organizadores, a proposta do encontro foi discutir como a literatura operária preserva não apenas os fatos históricos, mas também a dimensão humana da luta por dignidade e pertencimento social.




A minha vizinha da frente

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A minha vizinha da frente’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada pela IA do Gemini - https://gemini.google.com/share/108827234ee2
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/108827234ee2

Hoje acordei com vontade de escrever, mas me faltam memórias para tal. Saudade de um tempo em que corria por este bairro de onde saí tão jovem. Tinha lá meus 18 quando, por sorte, passei no concurso do Banco do Brasil. Há tanto tempo, que todos os meus amigos me invejaram, tamanho que era o salário naquela época. O pessoal na rua comentava: “Você viu? Pois é, o Quinzinho, filho da dona Eulália, passou pro Banco do Brasil.”

             Como consequência desse sortilégio, fui tomar posse em uma cidadezinha lá do interior de Minas Gerais, tão distante desta em que agora me encontro. Fui, mas com a promessa de retornar em poucos anos. Tal jura, no entanto, só fui cumprida há pouco mais de dois meses, quando aqui estou com meus quase 70.

             Durante o longo período de bancário, trabalhei com afinco e, aos poucos, fui galgando cargos até que, quase 20 anos após, cheguei ao invejado posto de gerente geral da agência. Todos me conheciam como senhor Oliveira. Todos! Desde o mais graúdo investidor até os que sobreviviam com meros vinténs. 

             De tão afamado me tornei, o próprio presidente do Banco do Brasil veio me pedir para não me aposentar quando completei meu tempo de serviço. Comovido com tamanha honraria, fiquei por mais alguns anos. Na verdade, agora que estou em tal situação, não preciso mais viver sob a fumaça da hipocrisia. Fiquei por conta da sensação de poder, além, é óbvio, pelas inúmeras regalias, sem contar o salário muito maior do que eu poderia gastar. 

            Os anos seguintes foram, talvez, os mais incríveis da minha vida. E, se não foram, são os que ainda pululam minha mente. Jantares regados a iguarias, noites em quartos de hotéis cinco estrelas, sempre muito bem acompanhado por mulheres lindas, mesmo que recompensadas por notas graúdas, que não me fizeram falta. 

            Aos 66, conheci Sandra, que tinha lá seus 38. Linda, linda, linda! Não sei o que ela viu em mim, já que era de uma família mais abastada do que todo o dinheiro que eu poderia ganhar trabalhando no mais alto posto do Banco do Brasil por mais de um século. Seja como for, nos envolvemos e, de tão apaixonados, resolvemos comemorar nosso primeiro ano juntos. 

          Viajamos para Paris, onde ficamos hospedados no Ritz. Passeamos pela famosa cidade, fomos a museus e todos os passeios possíveis durante oito dias, até que Sandra pôs na cabeça que queria realizar um antigo sonho: sobrevoar Paris num balão. Apesar do flagrante pavor, pois não nasci com asas, decidi acompanhar a minha amada.  

             Foi numa quarta-feira quando tudo aconteceu. Contratamos um baloeiro, que nos orientou sobre o voo. Tudo parecia maravilhoso, até para mim. Comecei a me soltar quando, de repente, aquela enorme bola cheia de gás começou a rodopiar pelo céu da capital francesa e, desesperados com as labaredas cada vez mais próximas, pulamos quando estávamos há pouco mais de 20, 30 metros do chão. 

            O baloeiro, que até hoje não sei o nome, e minha Sandra tiveram morte instantânea. Eu, por sorte ou azar, sobrevivi, apesar de múltiplas fraturas, incluindo três vértebras cervicais, que me deixaram paralisado do pescoço para baixo. 

             Depois de quase dois anos de fisioterapia, retornei para esta antiga casa, herança da minha falecida mãe, dona Eulália. Passo o dia inteiro deitado numa cama cheia de controles, que consigo acionar com um canudo preso à minha boca. Meu maior divertimento, o único na verdade, é observar a minha linda vizinha, que costuma sair de casa e se sentar numa dessas cadeiras de praia na calçada.

             Minha vizinha, de vez em quando, cumprimenta alguém que passa, com um sorriso, que me chega aos olhos como o mais lindo que conheci. Mas ela parece preferir se entreter com seu aparelho celular. Não sei se ela já me viu ou se sabe da minha existência. Todavia, ainda me resta uma última esperança, provavelmente a única que me faz querer viver: descobrir o seu nome.

Eduardo Cesario-Martínez

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Dia da Marinha Portuguesa

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

’20 de maio. Dia da Marinha Portuguesa.
Altruísmo e espírito de missão

Diamantino Bártolo
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Servir na Armada Portuguesa, de facto, não era para qualquer pessoa.

Esta circunstância alimentou, e reforçou a autoestima de um jovem humilde, pobre, mas que não virou as costas a um sonho, lutou, correu atrás dele e venceu, sempre convicto de que seria capaz de atingir este primeiro desiderato na sua vida, foi um pouco como refere o adágio popular: “O homem sonha; Deus quer e a obra nasce”, neste caso, o projeto, concretiza-se. 

Um de Abril de mil novecentos e sessenta e seis, data histórica, que prevalece na memória de um cidadão, hoje, pai e avô, que continua a orgulhar-se do privilégio de ter servido na Armada Portuguesa, com total empenho, desvanecimento incontido e, acima de tudo, um grande respeito pelos valores que continuam a orientar todas as pessoas, nas diversas especialidades, com as diferentes patentes e motivações, que excedem todas as expetativas, continuam a “Amar” a nossa Armada.

O lema que continua a orientar a vida deste cidadão: “A Pátria Honrae que a Pátria vos Contempla”. 

A escolha, feita há sessenta anos, considera-a, ainda hoje, como sempre, a mais acertada, isto é: “servir a Armada Portuguesa, foi a forma que considerou a mais abnegada, de amar o seu país”, nada pedindo, então, em troca.

No dia um de Abril de mil novecentos e sessenta e seis (que não foi nenhuma mentira), aquele jovem sonhador apresentava-se no Corpo de Marinheiros no Alfeite, onde adquiriria todo o fardamento necessário, para, de imediato, e ainda no mesmo dia, receber a respetiva “Guia de Marcha” e dirigir-se para o Grupo Número Um de Escolas da Armada, em Vila Franca de Xira, onde se processaria a preparação militar dos mancebos, e também dos recrutas, que se prolongou até quinze de Julho DE MIL NOVECENTOS E SESSENTA E SEIS, data do “Juramento de Bandeira”, a que correspondia o fim da recruta.

O contingente de abril de mil novecentos e sessenta e seis era composto por mais de mil homens: cerca de quinhentos e cinquenta, mancebos voluntários, com dezassete/dezoito anos; os restantes, jovens recrutados na idade normal para o serviço militar, com vinte/vinte e um anos de idade.

Na época, cumprir o serviço militar na Armada Portuguesa, como de resto, nos restantes ramos das Forças Armadas, era, naturalmente, uma imposição que pendia sobre todos os jovens Portugueses, todavia, existia a outra alternativa, que já foi identificada: a emigração que, até ao vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro, era feita sob a “capa” da clandestinidade, com imensos riscos, incluindo perigo de vida, para os Portugueses que optavam por sair do país.

O cumprimento do serviço militar na Armada Portuguesa constituía e, continua a ser, uma incomparável “Escola de Vida Excecional”. Aqui se cultivavam os valores da solidariedade, da camaradagem, da lealdade, do humanismo, do respeito, da tolerância, da compreensão, da disciplina e da entreajuda; nela, na Armada, se cumprem: com rigor, profissionalismo e atualização, as diversas funções que cabem a cada mulher e a cada homem; neste ramo das Forças Armadas o “espírito de missão”, o altruísmo com que se realizam as gratificantes tarefas, por mais “penosas” que possam parecer, é uma constante e uma honra.

A Pátria honrae que a Pátria vos Contempla”. 

E não há que ter complexos ao se escrever, e/ou pronunciar a palavra “Pátria”, porque ela significa o Território, a Língua, a História, a Cultura, com as suas tradições, usos e costumes, os objetivos, enfim um Destino comum. 

Tudo isto se defende no serviço militar, em geral e na Armada em particular.

É muito importante, para a formação da pessoa, verdadeiramente humana, que, as/os jovens Portugueses, cumpram um período, ainda que de alguns meses, de serviço militar, mesmo que seja em regime de voluntariado, sem prejuízo das suas atividades profissionais, pelo menos em tempo de paz, porque não há melhor escola na vida, do que tudo o que se aprende na Escola Militar.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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