Natal: tempo de análises sensatas e de perdão

Diamantino Loureiro Rodrigues de Bártolo

‘Natal: tempo de análises sensatas e de perdão’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem criada por IA da Meta - 15 de dezembro de 2025,  às 12:36 PM
Imagem criada por IA da Meta – 15 de dezembro de 2025,
às 12:36 PM

Nesta terceira década (2025), do século XXI: é tempo de reflexão, de análises desapaixonadas e de perdão; é tempo da família portuguesa estar unida, comungando dos valores que irradiam dos três grandes pilares da civilização ocidental, onde nos integramos: Democracia, Direito e Cristianismo, e não temos que nos envergonhar destes grandes, quanto importantes valores; é tempo de mostrarmos a nossa grandeza histórica, cultural, linguística e civilizacional, sem cairmos em nenhuma espécie de etnocentrismo, muito menos na xenofobia que dilacera muitos povos. Somos Humanistas e Fraternos, sem dúvida alguma.

É sabido que a família portuguesa também enfrentou graves e complexos problemas: desemprego, ainda muito elevado; cerca de vinte por cento das crianças no limiar da pobreza; idosos, reformados e pensionistas que, no passado recente, tiveram cortes substanciais e injustos nos seus rendimentos; funcionários públicos com carreiras profissionais bloqueadas e cortes salariais significativos e muitos daqueles trabalhadores do Estado a caminho do desemprego; professores sem perspetivas de colocação e estabilidade; educação, formação e saúde com reduções elevadas nos respetivos orçamentos; trabalhadores do setor privado com os empregos instáveis e precários; aumentos brutais nos impostos e, finalmente, a fome que atinge milhares de pessoas. 

Mas, os Portugueses, sempre têm conseguido “dar a volta por cima” e, neste Natal de 2025: a situação económico-financeira melhorou substancialmente; o desemprego diminui significativamente; salários, pensões e reformas, estão a ser repostos e com os aumentos possíveis, designadamente o salário mínimo nacional; o índice de otimismo e confiança deste povo maravilhoso, tem vindo a atingir valores há muito desejados. Claro que há muito, mesmo muito, por fazer.

Certamente que os vários especialistas, nas diversas matérias e setores da economia e do sistema financeiro, muito mais teriam a escrever e com total e rigoroso conhecimento, mas basta-nos a informação que todos os dias é veiculada e debatida pelos diferentes órgãos da comunicação social, assim como por instituições credíveis, estudos científicos e estatísticas, para reconhecermos que a situação portuguesa foi preocupante e, por isso mesmo, este ainda não será o Natal que os portugueses desejam e merecem ter.

Aproveito esta oportunidade para: primeiro, pedir desculpa por algum erro que, involuntariamente, tenha cometido e, com ele, magoado alguém; depois para desejar um Santo e Feliz Natal, com verdade, com lealdade, com gratidão, seja no seio da família, seja com outras pessoas, com aquela amizade de um sincero «Amor Humanista», com um sentimento de tolerância, de perdão e muito reconhecimento pelo que me tem ajudado, ao longo da minha vida, compreendendo-me e nunca me abandonando. É este Natal, praticamente simbólico, que eu desejo festejar com a alegria possível, pesem embora as atuais restrições e condicionalismos, impostos por um conjunto de situações cruéis, que atiram cada vez mais pessoas para a miséria, fome e morte.

Finalmente, de forma totalmente pessoal, sincera e muito sentida, desejo a todas as pessoas que, verdadeiramente, com solidariedade, amizade, lealdade e cumplicidade, me têm acompanhado, através dos meus escritos, um próspero Ano Novo e que 2025 e, desejavelmente, as muitas dezenas de anos que se seguirem, lhes proporcionem o que de melhor possa existir na vida, que na minha perspetiva são: Saúde, Trabalho, Amizade/Amor, Felicidade, Justiça, Paz e a Graça Divina. A todas estas pessoas aqui fica, publicamente e sem reservas, a minha imensa GRATIDÃO.  

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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Eu, o livro

Um pedagogo que transformou sensibilidade em algo raro

Eu, o livro
Eu, o livro

Eduardo Inácio Palhari, 24 anos, pedagogo em formação e apaixonado pela infância, transformou sua sensibilidade em algo raro: um livro que não só se lê, mas que conversa, provoca e cria junto.

Eduardo Inácio Palhari
Eduardo Inácio Palhari

Nascido em Itápolis (SP) e hoje secretário escolar na EMEI Mundo Pequenino, Eduardo sempre acreditou que a educação verdadeira nasce da escuta.

Foi ouvindo as crianças, suas perguntas improváveis e seus silêncios cheios de significado, que ele encontrou o caminho para sua primeira obra: Eu, o Livro, um conto infantil interativo onde o protagonista é… o próprio livro.

A proposta é simples e brilhante: e se a história só existisse quando a criança a inventa?

Entre rimas, gestos, perguntas e figuras deliciosamente absurdas, como o Sábio Sapo-Galinha e o Gigante Trem Voador, a narrativa se torna um convite à imaginação, à cooperação e ao vínculo afetivo entre adulto e criança.

Pensado para pequenos de 4 a 9 anos, Eu, o Livro celebra a criatividade sem limites e a beleza de criar mundos juntos.


Um bom livro não termina na última página. Ele continua dentro de quem lê.

Eduardo Inácio Palhari


REDE SOCIAL DO AUTOR

EU, O LIVRO

SINOPSE

Prepare-se para uma viagem onde o narrador é… o próprio livro!

“Eu, o livro” é uma aventura interativa que transforma cada criança em coautora, criando histórias únicas com personagens marcantes como o Sábio Sapo-Galinha.

Com perguntas, gestos e um poema sobre emoções, estimula criatividade e laços afetivos.

Perfeito para pais e educadores que desejam estimular criatividade, cooperação e valores como amizade e coragem.

Fácil de usar em casa ou na escola, este livro-amigo fala a linguagem dos pequenos e fortalece laços.

Pronto para escrever o próximo capítulo?

Assista à resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRA DO AUTOR

EU, O LIVRO
Eu, o livro

ONDE ENCONTRAR


Página Inicial

Resenhas da colunista Lee Oliveira




Meandros de rio

Ella Dominici: Poema ‘Meandros de rio’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA do Bing - 12 de dezembro de 2025
Imagem criada por IA do Bing12 de dezembro de 2025,

O rio não é cenário.
Ele fala — não em voz, mas em sinais.
Seu fluxo, ora manso, ora urgente, traduz humores invisíveis,
e quem permanece à sua beira aprende a escutá-lo pela percepção que atravessa a pele
e alcança o interior da alma.

As margens murmuram histórias antigas;
o vento traz respostas que ninguém formula;
e o som da água, ao tocar pedras distintas, compõe significados
que não cabem em palavras, mas em sensações.

O voo dos pássaros risca o céu como pequenas frases do alto;
cada mudança de direção é aviso,
cada pouso, uma pausa;
cada revoada, um pensamento que se desprende do mundo.

Depois da chuva, a terra exala um cheiro quente, quase maternal,
como se afirma que o tempo sempre guarda alguma fertilidade,
mesmo quando se mostra hostil.
A fragrância sobe devagar, criando um diálogo silencioso
entre o visível e o que não se nomeia.

A paisagem inteira se comporta como consciência desperta,
como se o mundo pensasse e aguardasse ser compreendido.
E quem ali permanece, mesmo sem perceber,
entra nesse movimento de leitura,
onde cada detalhe — vento, água, folha, aroma —
é frase de um texto maior,
escrito pela própria existência.

Ella Dominici

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Hoy llueve como nunca

Humberto Napoleón Varela Robalino

Poema ‘Hoy llueve como nunca’

Humberto Napoleón Varela Robalino
Humberto Napoleón Varela Robalino
Imagem criada por IA da Meta – 14 de dezembro de 2025,
às 15:02 PM

Hoy llueve
como en esos días inviernosos
para decir que llueve como nunca.

Los árboles en las avenidas
catedrales góticas
al filo de los acantilados.

Como almas que lleva el diablo
apresurados pasos
corremos
las frondas paraguas gigantes
en esas catedrales sin efigies
una pareja de búhos
a cuatro manos tocan “EL AVE MARÍA”.

Las enramadas
los vitrales ostentosos
engullen opacidades.

Sobre la piedras enmohecidas
mutan viscosas larvas
ángeles sin cielo.

La lluvia
arrastra barcos de papel
encallan
naufragan.

La tos
los pasos
la última colilla de cigarrillo
el color de la orquídea eterna
suenan tan graves como nunca.
La distancia
la soledad
el tiempo
el silencio
se encharcan como nunca.

Humberto Napoleón Varela Robalino

Quito,05 de Noviembre 2017

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Odisseia pernambucana

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Odisseia pernambucana’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada por IA da Gemini – 13 de dezembro de 2025, às 9:08 PM

Orestes carregava um amontoado de medos. No entanto, não suportava a ideia de morrer em Recife. Não que tivesse medo da morte, bem como não desgostava da capital. Só que queria ser enterrado na sua Sirinhaém, a pouco mais de 70 quilômetros dali. 

           — O lugar mais lindo do mundo!

           — E por acaso você conhece o mundo todo, Orestes?

           — E por acaso preciso conhecer todas as mulheres do mundo pra saber que você é a mais linda, Marinalva?

           — Hum… Tá galanteador hoje, meu amor.

           A despeito desse romantismo todo, o coração do homem não andava bem das pernas. Vez ou outra, a dor no peito vinha sem avisar. Orestes era levado às pressas para o hospital e, após o susto, voltava para casa dois ou três dias depois. Tais episódios se tornaram mais frequentes, até que o sujeito não retornou.

           Antes mesmo do corpo do marido ser liberado pelo nosocômio, Marinalva foi assediada por quase cinco funerárias. Quase porque, assim que o funcionário da quinta apareceu, foi enxotado que nem cachorro. Que nem cachorro, não, pois a mulher era deveras zelosa em relação a essas adoráveis criaturas.

           — Marinalva, por favor, daqui a pouco você vai dizer que cães são que nem gente.

           — Óbvio que não, Orestes! Cães são confiáveis. 

           Após expulsar o último urubu que sombreava o cadáver do Orestes, a mulher começou a pensar num jeito de transportar o defunto para Sirinhaém. A distância nem era tanta, mas faltava dinheiro para fazer o trajeto, ainda mais porque Marinalva havia raspado o último níquel do cofre na compra do caixão.

            O ataúde era muito grande para caber no Fusca. Se bem que, ela pensou, poderia amarrá-lo na capota. Mas espaço não era o único problema, pois o motor do automóvel já não dava no couro há tempos. Era melhor não arriscar ficar pelo meio da estrada, ainda mais com o moribundo começando a feder. 

           Marinalva pensou em pedir ajuda para o Alexandre, o vizinho. Ele possuía uma Kombi, mas logo se atentou a um detalhe. É que os dois não se bicavam desde que haviam discutido por conta de futebol. Marinalva, torcedora doente do Santa Cruz, não suportou as provocações do vizinho fanático pelo Sport. Foi aquela saraivada de palavrões, enquanto Orestes, que era Náutico sem grandes paixões, preferiu não se meter. 

   Diante daquela sinuca de bico, eis que a viúva recebeu uma proposta inesperada. Júlio, que morava no final da rua, soube do problema da mulher e, não tardou, foi bater à sua porta.

           —  Mas isso não é loucura?

      — Não sei por que seria, Marinalva.

— É que o Orestes sempre teve medo do mar. 

     — Se esse é o problema, tenho certeza de que ele não vai morrer afogado.

       — Você tem razão.

   Júlio, afamado pescador, havia dito que levaria o caixão no seu barco. Como o sujeito não possuía automóvel, pediu ajuda a outro vizinho, o Laurentino. Este possuía uma carroça, que era puxada pela Filó, mula de maus bofes, mas de força descomunal. 

       Antes da meia-noite, Laurentino estacionou a carroça em frente à residência da Marinalva. Lá estava também o Júlio para ajudar a colocar o caixão sobre a carroça. Os dois homens, cujos músculos eram talhados diariamente nas respectivas profissões, ergueram o pesado féretro e o depositaram cuidadosamente sobre a caçamba. 

   Após amarrarem o ataúde, Júlio e Laurentino, acompanhados da Marinalva, subiram na carroça e seguiram para a praia, onde o barco do pescador estava amarrado na areia. O trajeto foi quase silencioso, caso não fosse pelo som provocado pelos cascos da Filó sobre o asfalto duro. 

       Assim que dobrou a esquina, já era possível avistar a enseada. Mais algumas centenas de metros, Filó sentiu a areia, que abafou o ruído das passadas, agora mais pesadas. Ao comando do Laurentino, a mula estacou ao lado do barco, cujo nome, estampado na sua lateral, era Refrega. Júlio saltou da carroça e, com uma das mãos, ajudou a mulher a descer.

         Meia hora após, o barco, já com o caixão no seu interior, foi arrastado até as águas, que estavam calmas. Marinalva e Júlio se despediram do Laurentino, que não aceitou qualquer pagamento. O morto havia sido seu amigo durante décadas. 

       Sem muitas ondas para serem vencidas, não tardou, o barulhento motor a diesel foi transpondo a distância. Júlio, olhos para frente, vez ou outra observava Marinalva com o rosto voltado para as luzes de Recife, que se afastavam cada vez mais. O pescador calculou que a viagem não duraria mais do que oito ou nove horas, dependendo da vontade da maré. Pobre infeliz, não contou com a chuva, que começou a cair forte quando ainda restavam mais de 40 quilômetros para serem vencidos pelo bravo Refrega. 

      Júlio, nervos à flor da pele, tentava aparentar calma, enquanto Marinalva, agarrada ao caixão, lamentava a maldita vontade do marido de ser enterrado na terra natal. Quanto transtorno apenas para cumprir o desejo do defunto. Perigava ela e Júlio serem arrestados para a morte. No entanto, foi justamente quando tudo parecia estar perdido, que a natureza resolveu, irônica como ela só, suspender a tormenta. 

       Abriu-se o céu, que deu passagem para os raios da manhã. Marinalva agora chorava de alívio, enquanto Júlio, apesar de uma furtiva lágrima no canto do olho esquerdo, se mantinha firme no timão. E, pouco mais de uma hora, os aventureiros avistaram as areias da praia de Barra de Sirinhaém. 

           Marinalva, eufórica, começou a conversar com o marido, mesmo que ele fosse incapaz de respondê-la, enquanto Júlio se sentiu aliviado por ter conseguido se manter firme diante do que ele imaginou ser o fim da linha. Sentiu-se Odisseu e, exausto, sentou-se ao lado da viúva. Por impulso, Marinalva beijou os lábios do herói, que, surpreso, recebeu o prêmio mais do que merecido. 

           A distância foi vencida e, há menos de duzentos metros da praia, eis que Refrega, ferido mortalmente pela tempestade que enfrentou, começou a afundar. Assustada, Marinalva gritava, enquanto Júlio, mais pragmático, puxou a mulher pela mão e, assim, os dois pularam no mar. 

           Nadaram e, de vez em quando, olhavam para trás e viam Refrega afundar até que o barco ficou totalmente submerso. Sem ter o que fazer, os dois continuaram nadando e, finalmente, chegaram à praia. Exausto, tombaram na areia e adormeceram.

          Marinalva foi a primeira a despertar. Virou-se para o lado e, por um instante, admirou o corpo de Júlio. Sentada, ela depositou o rosto sobre os joelhos e chorou. O pescador logo acordou.

           — Não chore, Marinalva. Estamos vivos.

           — Como fui tola! Fiz você perder o seu barco.

           — Quanto a isso, não se preocupe.

           — E como é que não vou me preocupar, homem?

           — Já faz tempo que quero largar essa vida de pescador.

           — Deixa de bobagem, Júlio. Você sempre foi apaixonado pelo mar.

           — É verdade. Mas, ultimamente, ele tem me deixado enjoado.

           Os dois se entreolharam e, então, sorriram. Depois, levantaram-se e, mãos dadas, foram procurar um jeito de retornarem para Recife. 

           Quase uma semana após, o caixão, intacto, encalhou na mesma praia. Orestes foi enterrado como indigente no Cemitério Municipal de Sirinhaém. Mesmo assim, o seu último desejo foi realizado.

Eduardo Cesario-Martínez

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O café que nunca esfria

Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM

Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.

 O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.

 Vivemos uma sinfonia interrompida.

 A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.

 A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.

 O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.

 A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.

 Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.

 A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.

 No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?

 A resposta não está no celular.

Ela mora na pausa.

No gole de café quente.

Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.

Paulo Siuves

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Peguei um punhado de amor

Jakob Kapingala: Poema ‘Peguei um punhado de amor’

Logo da seção O Leitor Participa
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Imagem criada por IA da Meta - 14 de dezembro de 2025, às 9:14 PA
Imagem criada por IA da Meta – 14 de dezembro de 2025,
às 9:14 PA

Peguei em cada gota das lágrimas que abraçavam meu rosto,
E pintei-as com as cores do arco-íris com muito gosto.
Transformei a ansiedade que cobria meu peito,
Numa paciência bonita e coberta de muito respeito.

Persegui sem tréguas o coração que me tinha abandonado,
Tocando levemente o pouco da alma que me tinha sobrado.
Corri atrás dos sorrisos que há muito se perderam,
Abraçando o vento melancólico dos tempos que já se foram.

Parei num tempo sem tempo observando a lua,
Com o coração ansioso em trilhar suavemente a rua,
Que dava passagem a um mundo só de alegria,
Enquanto fugia do meu ser mergulhado na fantasia.

Peguei um punhado de amor que encontrei por aí,
Coloquei-o na mochila da positividade e saí,
Correndo livremente igual a um pássaro,
Que traz nos lábios um sorriso raro.

Jakob Kapingala

Jakob Kapingala
Jakob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar em um papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos Poetas da Língua Portuguesa.