Inimaginável

Evani Rocha: entre sombras, silêncios e a inquietante fronteira entre o que se perdeu e o que ainda pode existir

Evani Rocha
Evani Rocha

Entre os conflitos e a ilusão, 

Você é a estrela ao amanhecer…

A triste ausência nas mãos

E a incerteza posta sobre a mesa

Entre os lençóis amassados, 

O cheiro de jasmim que se esvai com o vento,

As borboletas que não vieram

E a escassez da vida e do tempo…

Entre a saudade e as lágrimas, 

A gota fria sobre o cenho

A palavra presa entre os lábios,

 E o toque na pele encrespada…

Você é a chuva torrencial lavando o telhado, 

E a poeira que se assenta no caminho…

O riso e a dor da partida

O nó desfeito do nosso laço.

 Entre as pedras e os espinhos, 

Você é a flor que não desabrochou, 

As marcas de sol sobre face…

O respingo de luz que restou!

Você é o silêncio inquietante das calçadas 

E o vazio que não quis partir…

Você é meu tudo

 E um pouco mais do inimaginável…

As sombras de um passado esquecido 

E um futuro ansioso,

 Que não deixa minh‘alma dormir!

Evani Rocha

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Luciérnagas: uma proposta de Escola Literária

Alexander Anchía Vindas apresenta Luciérnagas, uma proposta costarriquenha de formação literária

Logotipo da seção Entrevistas ROLianas
Logotipo da seção Entrevistas ROLianas
Em primeiro plano, Cláudio Regidor; atrás, Andrés Cabrera - Foto cedida por Cláudio Regidor
Em primeiro plano, Cláudio Regidor; atrás, Andrés Cabrera – Foto cedida por Cláudio Regidor

Na Costa Rica não existe um curso de Criação Literária, mas já existiram Oficinas, escolas informais, como a Oficina Aberta de Poesia Eunice Odio, na Universidade da Costa Rica, o Círculo de Escritores Costarriquenhos, a oficina de Chico Zúñiga e outros espaços que permitiram aos poetas se formarem e confrontarem seus textos com outros autores mais experientes.

Isso desde o primeiro grupo literário chamado Círculo de Poetas Turrialbeños. É nesse contexto que surge Luciérnagas, como resultado de uma oficina realizada durante 2025. Hoje, este espaço propõe como subdiretor da iniciativa o senhor Claudio Regidor: narrador e poeta, com a maior parte de sua obra ainda inédita, mas ativista de oficinas literárias e formador de escritores.

Da esquerda para a direita, Catalina Gaviria, Claudio Regidor, July Quesada, Malquin González, Alexander Anchía (servidor y director) y Hálvaro Goluboay
Da esquerda para a direita, Catalina Gaviria, Claudio Regidor, July Quesada, Malquin González, Alexander Anchía (servidor y director) y Hálvaro Goluboay

1. Como você se define? Que papel ocupa no panorama literário costarriquenho atual?

Como cito em minha página web, defino-me como «Escritor | Promotor cultural | Defensor da acessibilidade e da vida». A experiência literária em minha pátria está intrinsecamente ligada à minha vida cotidiana: o desenvolvimento de todo o meu percurso nesse mundo tem seu alicerce no fato de que minha fonte de inspiração é, definitivamente, o meu cotidiano. Encontrar, em meio aos fatos mais simples e próximos de cada instante vivido, desperta em mim essa curiosidade do escritor de sonhar com novos mundos.

2. Quais são os gêneros literários com os quais trabalha? Quais são seus projetos?

Particularmente, adoro o conto, embora tenha iniciado a aventura da escrita por meio da poesia, que ainda hoje cultivo. Poderia dizer-se, recorrendo ao meu particular ponto de partida inspiracional no cotidiano, que a realidade e suas nuances são os temas que gosto de abordar; isto é, na realidade, é por meio da escrita de minha poesia e de meus contos que desenvolvo esses mundos de que falei… Meu trabalho literário é atravessado pela filosofia, pela espiritualidade e pelo meu carinho pela ficção científica.

3. Conte ao público sobre sua experiência nas oficinas do famoso Taller de Chico Zúñiga e, depois, sua passagem por Mata Guillén.

Durante meus anos escolares, nos quais estudamos algumas obras literárias, não me esqueço da mítica figura do Fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Mais tarde, por volta do final do século, ingressei na Oficina Literária fundada por Francisco Zúñiga Díaz. Nesse ambiente encontrei outros «loucos» que compartilhavam aquele desejo literário e, pouco a pouco, foi se cumprindo o lema do fundador da oficina: «Se a literatura não serve para fazer amigos, para que diabos serve!».

Então cresci em conhecimento e me inclinei para o conto. Como elemento importante, refiro aqui que o método do mestre Zúñiga — na oficina literária que, naquela época, era dirigida pelo poeta Henry López — abria espaços para cada um dos que dela participávamos, uma primeira vitrine para um primeiro público que, longe de ser passivo, proporcionava ao autor um retorno sobre as sensações que seu trabalho transmitia, facilitando o aprimoramento da escrita pessoal e, naturalmente, de uma forma mais adequada de comunicar, por meio das palavras, essas visões pessoais. Com Mata Guillén, a vertente era um tanto mais acadêmica, orientada e enriquecida pela erudição.

4. Qual é sua experiência como subdiretor dentro de Luciérnagas? Como se sente sendo um inspirador e estando do outro lado da oficina?

Luciérnagas é um extraordinário viveiro, no qual, assim como em outras experiências como diretor de uma oficina literária, também encontrei amigos com quem compartilhar. Longe de ser um espaço no qual me desenvolvo como formador, considero que compartilhar minha experiência literária com os integrantes da oficina enriquece ainda mais minha própria experiência e, finalmente, fortalece a qualidade literária daqueles que participamos desses processos.

5. Você encontrou talento? Comente como tem sido sua experiência. Quem são seus integrantes?

Esse grupo nasceu como uma inquietação compartilhada, como costuma crescer tudo no mundo da literatura. Luciérnagas tem sido, como disse anteriormente, um grandioso viveiro de poesia. O grupo, integrado por July, Catalina, Malkin e Álvaro, sob a formação do poeta e escritor Alexander Anchía, formou-se a passos seguros. Eu vim contribuir com minha experiência e, respondendo afirmativamente, esses poetas alçaram voo.

Cada um, como citou Alexander Anchía na estreia literária de Luciérnagas, neste Dia Internacional da Poesia do ano em curso, possui uma particularidade que o define segundo sua própria realidade.

6. O que você acha das sessões virtuais e das atividades que o grupo realizou até agora?

Adoro a «velha escola», na qual a presencialidade era física; as novas gerações e as realidades de nossa rotina diária exigem espaços virtuais que permitam encontros que favoreçam o diálogo literário e o pensamento.

Nossos encontros formativos, a exposição crítica dos trabalhos poéticos e os encontros pessoais têm favorecido esse ambiente de amizade e desejo de superação daqueles que fazemos parte do grupo. Nossa estreia diante do grande público, como escola literária, em Heredia, foi uma gala na qual cada um contribuiu, além de sua poesia, com entusiasmo.

Sendo a escola dedicada ao poeta costarriquenho Marco Aguilar, nossos integrantes inclusive fizeram uma viagem na qual visitaram sua viúva e entregaram uma oferenda em memória do poeta, em sua cidade natal, Turrialba, na província de Cartago…

7. Você percebeu talento? Como avalia a experiência pedagógica desta oficina em relação a outras escolas poéticas da Costa Rica?

Indubitavelmente, existe nos jovens um desejo de superação. A orientação do professor Alexander Anchía gera essa perspectiva de compreensão e aprofundamento no mundo da poesia e em seu desenvolvimento, a partir de uma perspectiva mais acadêmica, de maneira preliminar. No meu caso, além disso, compartilho com ele essa visão de que — como é mencionado na história em quadrinhos do Homem-Aranha — «com grandes poderes vêm grandes responsabilidades», e escrever é um grande «superpoder» pelo qual é preciso assumir responsabilidade…

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Claudio Regidor Fernandez

Alexander Anchia Vindas

Luciérnagas una propuesta de Escuela Literaria

En Costa Rica no existe una carrera de Creación Literaria, pero han existido Talleres, escuelas informales, como el Taller abierto de Poesía Eunice Odio en la Universidad de Costa Rica, Círculo de Escritores Costarricenses, el taller de Chico Zúñiga y otros espacios que han permitido a los poetas formarse y confrontar sus textos con otros autores con más experiencia. 

Esto desde el primer grupo literario llamado Círculo de Poetas Turrialbeños. Con ese marco surge como producto Luciérnagas, a partir de un taller que se impartió durante el 2025. El día de hoy, este espacio propone al subdirector de esta iniciativa a don Claudio Regidor: narrador y poeta con su mayoría de obra inédita aún, pero activista de talleres literarios y formador de escritores.

  1. ¿Cómo te defines vos mismo? ¿Qué papel ocupás vos en el panorama literario costarricense actual?

Según lo cito en mi página web, me defino como «Escritor | Promotor cultural | Defensor de la accesibilidad y la vida». La experiencia literaria en mi patria está intrínsecamente ligada a mi vida cotidiana: el desarrollo de todo mi devenir en ese mundo tiene su asidero en el hecho de que mi fuente de inspiración es, en definitiva, mi cotidianidad. Encontrar en medio de los hechos más simples y cercanos de cada instante vivido despierta en mí esa curiosidad del escritor de soñar con nuevos mundos.

  1. ¿Cuáles son tus géneros literarios de trabajo, cuáles son tus proyectos?

Particularmente me encanta el relato, aunque comencé la aventura de la escritura a través de la poesía, que aún hoy cultivo. Podría decirse, acudiendo a mi particular punto de partida inspiracional de la cotidianidad, que la realidad y sus matices son los temas que me gusta abordar; es decir, en realidad es a través de la escritura de mi poesía y relatos que desarrollo esos mundos de los que hablé… Mi trabajo literario está atravesado por la filosofía, la espiritualidad y mi cariño por la ciencia ficción.

  1. Cuéntale al público tu experiencia “tallereando” en el famoso Taller de Chico Zúñiga, luego tu paso con Mata Guillén.

Durante mis años colegiales, en los que abordamos algunas obras literarias, no olvido la mítica figura del Hidalgo don Quijote de la Mancha. Más tarde, hacia finales del siglo, ingresé en el Taller Literario fundado por Francisco Zúñiga Díaz. En ese ambiente encontré otros «locos» que compartían ese deseo literario y, poco a poco, se fue cumpliendo ese lema del fundador del taller: «¡Si la literatura no sirve para hacer amigos, para qué carajos sirve!».

Entonces crecí en conocimiento y me incliné hacia el relato. Como elemento importante, refiero aquí que el método del maestro Zúñiga —en el taller literario que dirigía para entonces el poeta Henry López— abría espacios para cada uno de los que participábamos en él, un primer escaparate a un primer público que, lejos de ser pasivo, retroalimentaba en el autor las sensaciones que transmitía su trabajo, facilitando la mejora de la escritura personal y, por supuesto, de una forma más adecuada de comunicar con palabras esas visiones personales. Con Mata Guillén, la vertiente era un tanto más académica, encaminada y enriquecida por la erudición. 

  1. ¿Cuál es tu experiencia como subdirector dentro de Luciérnagas? ¿Qué tal se siente ser un inspirador y estar en el otro lado del taller?

Luciérnagas es un semillero extraordinario en el que, al igual que en otras experiencias como director de un taller literario, también he encontrado amigos con los que compartir. Lejos de ser un espacio en el que me desarrollo como formador, considero que participar de mi experiencia literaria con los integrantes del taller enriquece aún más mi propia experiencia y, finalmente, fortalece la calidad literaria de quienes participamos en esos procesos.

  1. ¿Has encontrado talento? Comenta cómo ha sido tu experiencia, ¿quiénes son sus miembros?

Este grupo nació como una inquietud compartida, como suele crecer todo en el mundo de la literatura. Luciérnagas ha sido, como lo dije anteriormente, un semillero de poesía grandioso. El grupo, integrado por July, Catalina, Malkin y Álvaro, bajo la formación del poeta y escritor Alexander Anchia, se formó a paso seguro. Yo he venido a aportar mi experiencia y, respondiendo afirmativamente, estos poetas han echado a volar.

Cada uno, como lo citó Alexander Anchía en el debut literario de Luciérnagas este Día Internacional de la Poesía del año en curso, tiene una particularidad que los define según su propia realidad.

  1. ¿Qué le parecen las sesiones virtuales y las actividades que ha tenido hasta ahora el grupo?

Me encanta la «vieja escuela» en la que la presencialidad era física, las nuevas generaciones y las realidades de nuestra rutina diaria requieren espacios virtuales que permitan encuentros que favorezcan el diálogo literario y el pensamiento.

Nuestros encuentros formativos, la puesta a disposición crítica de los trabajos poéticos y los encuentros personales han favorecido ese ambiente de amistad y deseo de superación de quienes formamos parte del grupo. Nuestro debut frente al público mayor, como escuela literaria, en Heredia, fue una gala en la que cada uno aportó, además de su poesía, con entusiasmo.

Siendo la escuela dedicada al poeta costarricense Marco Aguilar, nuestros integrantes incluso hicieron una gira en la que visitaron a su viuda y entregaron una ofrenda en memoria del poeta allá en su natal Turrialba, en la provincia de Cartago… 

  1. ¿Ha percibido talento? ¿Cómo valora la experiencia pedagógica de este taller respecto a otras escuelas poéticas en Costa Rica?

Indudablemente, existe un deseo de superación en los muchachos. La guía del profesor Alexander Anchía genera esa perspectiva de entendimiento y profundización en el mundo de la poesía y su desarrollo, desde una perspectiva más académica de manera preliminar. En mi caso, además, comparto con él esa visión de que —como se menciona en el cómic de Spider-Man— «todo gran poder conlleva una gran responsabilidad», y escribir es un gran «superpoder» del que hay que tomar responsabilidad… 

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Claudio Regidor Fernandez

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De Honduras ao ROL, Karen Iveth Orellana!

Karen Iveth Orellana: da melódica Honduras à literatura que atravessa fronteiras!

Karen Iveth Orellana

Karen Iveth Orellana, natural de Santa Rosa de Copán (Honduras), possui formação nas áreas administrativa, contábil e comercial, tendo atuado como secretária, administradora, profissional bancária e apresentadora de rádio.

Atuação literocultural

Na literatura e na cultura, consolidou-se como escritora, poeta e gestora cultural, dedicando-se à promoção das artes, da literatura e da educação.

É diretora da Academia Cultural Universal Hondureña e de Bohemios Universales Literatura y Otras Artes, além de presidente executiva do Club Colectivo Cultural Vuelos de Plumas y Letras, do Marrocos, e presidente da Organização Mundial de Trovadores (OMT) em Honduras.

Ativismo cultural

Entre 2008 e 2023, organizou mais de 300 eventos culturais e educativos, presenciais e virtuais, incluindo recitais, conversatórios, conferências e oficinas, além de promover artistas de diferentes áreas em âmbito internacional.

Produção literária

Sua produção literária integra diversas antologias nacionais e internacionais, entre elas Antología de la Niñez, Antología de la Mujer, Antología por la Paz e Mujeres por la Paz Mundial. Em 2022, publicou El Forjador del Siglo XX.

Premiações

Recebeu premiações em concursos de poesia e oratória e distinções da Organização Mundial de Trovadores. Em 2024, recebeu o Prêmio Internacional América Madre Ama, da Fundación Honoris Causa.

Aprofundamento Cultural

Em 2025, concluiu o Diplomado em Espanhol Hondurenho pela Universidade Pedagógica Nacional, ampliando uma trajetória que une literatura, cultura, educação e intercâmbio internacional.

Como primeiro texto de sua colaboração no ROL, Karen apresenta Raiz indígena, belíssimo poema que reúne integração com a natureza, memória e ancestralidade, denúncia e resistência e resistência social e transcendência e esperança.

Raiz Indígena

Um mural vibrante e surrealista retrata uma mulher indígena como a Mãe Terra encarnada. Suas raízes profundas nutrem a terra, onde são visíveis símbolos de lutas e história: pequenas vinhetas de trabalho árduo, figuras em túmulos e a colheita. De seu coração, uma flor vibrante e um coração humano emaranhado irradiam vitalidade. Seus braços de madeira se estendem, oferecendo sangue e fogo como fontes de vida e transformação. Acima, seu cabelo se transforma em fumaça que sobe ao céu e uma fênix de fogo voa livremente, representando renovação e o espírito resiliente da criação.
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Sou a flor com fluido vital
que resulta da canela e da resina;
rio interior que percorre o corpo, levando vida e energia.
O reflexo da guerra,
o sufoco da fome;
o grito do silêncio que reclama
a repulsa e a marginalização.

Represento a raiz de nossa terra,
o tronco de nossos sonhos;
a madeira que nos abraça,
a roupa íntima que nos veste,
a manta que nos cobre,
as folhas do chirrión que
sacodem a poeira de minha cabana,
o fogo que prepara o café
da aurora ao ocaso.

Meu coração simboliza
o frescor dos arbustos
que, com cores vivas,
complementam a beleza
efêmera do planeta.
Meus olhos são guardiões de histórias,
com mitos e lições gravados,
vozes que falam sem palavras.

Sou indígena por amor às minhas raízes,
pele cor de canela e coração de brasa,
sou do barro da argila;
represento tantas mortes
e muitos silêncios;
sou nuvem e ar acariciando meus sonhos,
ave infinita de céu eterno,
noite de mil estrelas.

Karen Iveth Orellana

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Ensaio sobre a atriz e escritora romena Claudia Motea

Rhea Cristina

‘Claudia Motea: A atriz romena que transformou o palco em um universo de emoções. O raro fenômeno do teatro romeno’

Rhea Cristina
Rhea Cristina

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, tenho o imenso prazer de apresentar este ensaio escrito por mim sobre Claudia Motea, atriz, dramaturga, escritora, poeta, roteirista, tradutora e professora de arte dramática. É uma daquelas artistas raras que construíram uma carreira entre a Romênia, o Canadá, a Europa e os Estados Unidos.

Por meio de seus espetáculos solo (one-woman-shows), de seus livros e de seus projetos multimídia, ela transforma a história, a cultura e as grandes personalidades romenas em experiências vivas, capazes de emocionar o público em todos os lugares.

Claudia Motea - Claudia Motea - Arquivo Pessoal
Claudia Motea – Arquivo Pessoal

Uma carreira construída entre a Romênia e a América

Definir Claudia Motea em poucas palavras é uma tarefa difícil. Atriz, poetisa, escritora, dramaturga, roteirista, tradutora e professora de arte dramática, ela é, ao mesmo tempo, produtora e coordenadora de projetos culturais. É uma daquelas personalidades artísticas que conseguiram afirmar seu valor em diferentes áreas e espaços culturais.

Sua carreira internacional começou com o espetáculo Les Danaïdes, com direção de Silviu Purcărete. Logo após se formar na faculdade, ela participou de prestigiosos festivais de teatro em Dublin, Amsterdã, Paris, Avignon, Glasgow e Recklinghausen, culminando em apresentações no Lincoln Center, em Nova York.

Claudia Motea – Arquivo Pessoal

O encontro com Silviu Purcărete continua sendo uma das experiências determinantes de sua trajetória artística:“Acredito que o Maestro Silviu Purcărete traça destinos. Ele é um Deus do palco e, por conseguinte, da alma artística… No meu caso, o destino sorriu para mim através do encontro com esse diretor. Foi o grande encontro da minha vida, uma verdadeira experiência de vida (a life time experience)…”

Após emigrar para o Canadá, Claudia Motea continuou atuando e escrevendo, conseguindo se impor em um novo meio artístico, mesmo sem falar inglês no início. Ela conquistou prêmios de atuação, dramaturgia, produção e a apreciação do público, incluindo os prêmios Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além de uma indicação ao Brickenâden Award.

Ela participou de importantes eventos e festivais nos Estados Unidos, entre eles o Hollywood Film Festival, o Los Angeles Comedy Fest, o Hollywood Fringe Theater Festival, o New York in LA e o Lincoln Center Theater Festival. Sua estreia em Hollywood aconteceu em 2010, no The Magic Castle, no show de variedades The Big IF.

Olhando retrospectivamente para o período canadense, a artista o resume por meio de uma sucessão de palavras que definem sua jornada:

Claudea Motea
Claudia Motea – Arquivo pessoal

“Busca, Conscientização, Audácia, Luta, Trabalho, Sobrevivência, Redescoberta, Brilho. Uma marcha inabalável sempre em frente!”

Em 2012, ela retornou à Romênia e continuou a criar espetáculos, filmes e projetos culturais.

A força de um one-woman-show

Uma das dimensões mais espetaculares de sua atividade são os espetáculos de one-woman-show. Claudia Motea transformou essa forma teatral em um verdadeiro território de criação, interpretando múltiplos personagens e trazendo para o palco personalidades emblemáticas da cultura e da história.

Seus espetáculos combinam documentação histórica, teatro, música, poesia, cinema e multimídia, construindo uma relação direta e intensa com o público.“Na essência, sou atriz. Amo muito o Teatro, em primeiro lugar. Tudo o que vem a mais complementa o meu ser artístico. Também amo o cinema. Escrevi alguns roteiros e produzi curtas-metragens”, declara a atriz romena Claudia Motea, que transforma as grandes histórias romenas em teatro.

Essa concepção de teatro reflete-se em seus projetos mais importantes, dedicados a personalidades como Constantin Brâncuși, a Rainha Maria ou Veronica Micle.

“Brâncuși, meu amor!” – nove mulheres, um universo

Um dos espetáculos mais importantes de Claudia Motea é “Brâncuși, meu amor!”, inspirado na vida e nos amores de Constantin Brâncuși. A peça foi incluída no volume MUCH LOVE – Decalog Teatral, publicado pela Libris Editorial, e o projeto foi realizado como uma coprodução romeno-sueca. O espetáculo estreou em Karlskrona, na Suécia, e em 2021 a peça foi traduzida e publicada em cinco idiomas, para projetos e turnês na Europa e na América.Na Feira Gaudeamus 2019, o volume MUCH LOVE – Decalog Teatral foi selecionado, em uma campanha da Radiodifusão Romena, entre os livros mais queridos da feira.

O livro Brâncuși, meu amor foi traduzido para 10 idiomas e transformado em um espetáculo de teatro e multimídia único, com direção de Beatrice Rancea. Claudia Motea interpreta nove personagens femininas, inspiradas pelas mulheres que foram, de uma forma ou de outra, musas do grande escultor.

No ano de 2026, dedicado a Constantin Brâncuși por ocasião dos 150 anos de seu nascimento, o espetáculo ganha um significado especial.“Os nove personagens femininos que interpreto são nove universos distintos. Cada um tem sua respiração, seu ritmo, sua luz. A transição de um para o outro é um desafio artístico intenso, mas também uma alegria profunda.”

„Ame-me… América!” – a experiência da emigração transformada em arte

Após retornar à Romênia, Claudia Motea produziu e atuou, em 2012, em “Ame-me… América!”, um espetáculo multimídia realizado em colaboração com a R.A.D.E.F. România Film, com direção de Al. G. Croitoru e produzido pela Associação International Artiscan.

O espetáculo parte da experiência de uma atriz romena emigrada para a América e transforma o tema da emigração, da adaptação e da redescoberta em uma narrativa cênica.

„Prelúdios” – a poesia que se torna espetáculo

Claudia Motea também é autora de volumes de poesia e dramaturgia. Seu primeiro livro de versos, Prelúdios na Cidade do Sol (Preludii în Cetatea Soarelui), foi lançado no final de 2017 no Teatro Nottara, em Bucareste.

Seguiram-se lançamentos em Los Angeles, Lucerna, Chisinau — no Teatro Nacional “Eugene Ionesco” — e Cahul — no Teatro Musical-Dramático “B. P. Hasdeu” —, bem como apresentações em importantes feiras internacionais do livro em Paris, Leipzig, Chisinau, Turim e Madri.

O espetáculo multimídia “Prelúdios na Cidade do Sol – ROMÊNIA 100” foi apresentado na Feira Internacional do Livro e da Música Libris Brașov, destacando-se entre os eventos mais apreciados do evento.

„Shalom, Israel!” – literatura e diálogo cultural

Outro projeto importante é “Shalom, Israel!”, inspirado no volume de mesmo título publicado pela Libris Editorial.

O livro recebeu em Israel o prêmio de “Livro do Ano de 2019”, em Tel Aviv, servindo posteriormente de base para o projeto teatral realizado com o envolvimento do Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu”.

Em 2021, o Centro Cultural Israelense-Romeno de Tel Aviv, a revista Maximum e a editora Teșu concederam ao volume Shalom, Israel! o título de Livro do Ano de 2021. Em 2022, o livro foi apresentado no Salão Internacional do Livro de Turim e, em seguida, na Bookfest.

No mesmo ano, Claudia Motea recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel, por sua atividade cultural e artística dedicada ao desenvolvimento das relações de amizade romeno-israelenses.

Outros projetos: teatro, cinema e música

A atividade de Claudia Motea abrange inúmeros projetos que reúnem teatro, cinema, poesia e música.

“Já Pensou Nisso?” (Te-ai Gândit Vreodată?) é um recital de poesia e jazz, realizado em parceria com Lucian Sabados, diretor do Teatro Dramático “Maria Filotti” de Brăila, e produzido pela Libris Brașov. O projeto também incluiu a gravação de um CD.

Em “O Casamento de Zamfira” (Nunta Zamfirei), um musical folclórico romeno-sueco, a artista atua ao lado de Dorel Vișan, Maia Morgenstern, Marius Bodochi e Monica Anghel.

Pelo filme Kandy, no qual interpreta o papel principal e assina o corroteiro e a coprodução, Claudia Motea recebeu, em 2016, o prêmio de Melhor Atriz no Festival Modern-Movie de Galați.

Em 2017, em Roma, apresentou para cerca de 5.000 espectadores o espetáculo A Pequena Malandra do 13º Andar (Pușlamaua de la etajul 13), de Mircea M. Ionescu, com direção de Vlad Stănescu.

“Que eu posso sonhar e criar… Que estou no caminho mais nobre e bonito da minha vida… Que EU SOU EU!”

„O Coração da Rainha Maria” – um papel que permanece no coração

Um dos espetáculos mais representativos de Claudia Motea é “O Coração da Rainha Maria” (“Inima Reginei Maria”), dedicado à soberana mais conhecida da Romênia.

A artista não busca apenas a reconstrução da personagem histórica, mas a descoberta da mulher por trás da imagem real: a mãe, a artista, a diplomata, a mulher que amou a Romênia e se tornou um símbolo de coragem e dignidade.

“Interpretar a Rainha Maria é uma responsabilidade espiritual e uma bênção. Não interpreto apenas uma rainha, mas uma mulher que amou a Romênia com uma força quase mística.”

Em 2026, o espetáculo chegou ao Royce Hall – UCLA, em Los Angeles, em um evento organizado por ocasião do Dia da Língua Romena pela União e Liga das Sociedades Romeno-Americanas, juntamente com o Grupo La Steaua, o Grupo de Língua e Literatura Romena e o Consulado Geral da Romênia em Los Angeles.

O momento tem um forte valor simbólico, pois em 2026 completa-se um século da histórica turnê da Rainha Maria pelos Estados Unidos, visita que impressionou a América e contribuiu para consolidar a imagem da Romênia no cenário internacional.

O pianista Daniel Manoiu completou a atmosfera do espetáculo e, ao final, o público teve a oportunidade de participar de um diálogo com a artista e receber autógrafos no livro “Rainha Maria. Solilóquio Real” (“Regina Maria. Soliloc Regal”).

Para Claudia Motea, o encontro com a personagem real é profundamente pessoal:

“Para mim, a Rainha Maria não é um papel que termina nos aplausos. É um papel que permanece no coração e continua a me ensinar sobre dignidade, coragem e amor.”

Prêmios e reconhecimento internacional

A carreira de Claudia Motea foi recompensada com inúmeros prêmios e distinções na Romênia, no Canadá, nos Estados Unidos e em Israel.

Entre eles estão os prêmios de Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além da indicação ao Brickenâden Award.

Na Romênia, a artista recebeu o Magna cum Laude da UARF, o Prêmio de Excelência no Gala Celebrităților (Gala das Celebridades), a Claquete de Ouro – Prêmio de Excelência concedido pela União dos Autores e Realizadores de Filmes da Romênia, e foi designada uma das dez Mulheres de Sucesso do Ano de 2016. Em 2018, recebeu o título de Mulher do Ano na Gala Mulheres de Sucesso.

Pela atividade literária e cultural, recebeu o prêmio de Livro do Ano de 2019 em Israel por Shalom, Israel! e, em junho de 2021, foi agraciada na Academia Romena com o Prêmio Cronica Timpului (Crônica do Tempo), concedido pela União dos Jornalistas Profissionais da Romênia.

Em 2021, Shalom, Israel! também recebeu o título de Livro do Ano de 2021, e em 2022 a artista recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel.

Em 2024, Claudia Motea foi homenageada na Gala “Valori Contemporane” (Valores Contemporâneos) por sua maestria nas artes cênicas.

A arte como forma de educação e entrega

Além dos prêmios e espetáculos, Claudia Motea é uma artista preocupada com a relação entre a 

cultura e as pessoas.

Atualmente, ela é diretora artística do Teatrul NostruM – UZPR, afiliado à União dos Jornalistas Profissionais da Romênia, professora de arte dramática no Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu” de Bucareste e representante da Editora Creator (parte do grupo Libris) para eventos de lançamento de livros em Bucareste.

Para ela, a arte também é uma forma de educação, e o teatro pode se tornar um espaço onde as pessoas encontram a história, a literatura e a sua própria identidade.

“Um solilóquio… confessado no papel sobre o meu amor pelas pessoas, pela arte, pela vida… Um meio de aprofundar a minha mensagem artística para as pessoas…”

Talvez o verbo que melhor a define seja “entregar” ou “dedicar” (a dărui). Claudia Motea constrói seus projetos a partir dessa necessidade de comunicação e de proximidade com o público.

“Gosto de pensar que sou uma pessoa normal, às vezes sou tímida, mas ambiciosa, sou generosa, com uma grande empatia pelas pessoas, sou perdoadora, grata, afetuosa, leal, responsável e com um coração grande para tudo o que é belo e bom, ou seja, para a arte!”

E o seu credo é simples:

“Vamos rir com vontade e aproveitar cada momento da vida. E venham em grande número aos meus espetáculos… Sim, espero sempre por vocês com amor e luz, lindas pessoas!”

Uma embaixadora cultural da Romênia

De Les Danaïdes e dos grandes festivais europeus até a experiência canadense e os projetos na América, a trajetória de Claudia Motea fala de perseverança, coragem e fidelidade à vocação artística.

Brâncuși, meu amor!, Ame-me… América!, Prelúdios, Shalom, Israel!, Já Pensou Nisso?, O Casamento de Zamfira, Kandy, A Pequena Malandra do 13º Andar e O Coração da Rainha Maria são marcos de uma carreira em que o teatro se encontra permanentemente com a literatura, a cinematografia, a música e a história.

E a presença de “O Coração da Rainha Maria” na UCLA representa muito mais do que um sucesso pessoal. É um momento em que uma história romena, contada pela voz de uma artista romena, chega diante de um público internacional.

Claudia Motea não leva para o exterior apenas espetáculos. Ela leva histórias, memória, emoção e identidade.

Talvez seja exatamente aí que reside a essência de sua arte: transformar o passado em emoção, a cultura em diálogo e o palco em um lugar onde as pessoas podem se encontrar além das fronteiras.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com

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Palavra-mundo: o verbo que desborda fronteiras

Pietro Costa: quando a poesia rompe fronteiras e transforma a palavra em território de encontro

Pietro Costa
Pietro Costa
Card do Poema Palavra-Mundo: o verbo que desborda fronteiras

Pietro Costa

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Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho

Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
Capa promocional com o título “Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento“. À esquerda, foto do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho sorrindo e assinando um documento. Ao centro, a medalha dourada da comenda FEBACLA acompanhada pelas ilustrações dos mestres renascentistas Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, com a logo do Jornal Cultural ROL na parte inferior.

RESUMO

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento , instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), constitui uma distinção honorífica de natureza cultural destinada a reconhecer personalidades que tenham contribuído significativamente para as ciências, as letras, as artes, a educação, a pesquisa, a cultura e a valorização do conhecimento humano. Sua fundamentação simbólica inspira -se no legado de três dos mais importantes mestres do Renascimento italiano: Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, representantes de diferentes dimensões da extraordinária transformação artística e intelectual ocorrida entre os séculos XV e XVI.

O presente artigo analisa a fundamentação histórica, cultural e iconográfica da Comenda, demonstrando como seus elementos visuais, as três coroas, as figuras dos três mestres, o sol nascente, os raios luminosos, os ramos de louro, o círculo e a identificação institucional da FEBACLA, constituem uma narrativa simbólica sobre conhecimento, criação, harmonia, excelência e renovação cultural. Busca -se compreender o conceito de “renascimento” não apenas como referência histórica a um período da civilização europeia, mas como um princípio permanente de renovação do pensamento, da arte, da cultura e dos valores humanísticos.

A Comenda apresenta -se, assim, como uma homenagem contemporânea àqueles que, à semelhança dos grandes mestres renascentistas, dedicam suas trajetórias à produção, preservação, transmissão e transformação do conhecimento.

Palavras-chave: Renascimento. Leonardo da Vinci. Michelangelo. Rafael. História da Arte. Humanismo. Honrarias. Cultura. FEBACLA.

1 INTRODUÇÃO

Ao longo da história, as sociedades desenvolveram diferentes formas de reconhecer aqueles que contribuíram de maneira relevante para a construção do conhecimento, o desenvolvimento das artes, a educação, a ciência e a preservação da memória coletiva. Medalhas, comendas, títulos e distinções honoríficas constituem, nesse contexto, instrumentos simbólicos por meio dos quais uma comunidade manifesta publicamente sua gratidão e reconhece trajetórias consideradas relevantes para a sociedade.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), insere -se nessa tradição de reconhecimento. Entretanto, sua proposta apresenta uma característica particular: sua simbologia está diretamente vinculada a um dos períodos de maior transformação cultural da história ocidental, o Renascimento, e especialmente ao legado de três artistas cuja produção alcançou dimensão universal: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio. O Renascimento não pode ser reduzido a uma simples mudança no estilo artístico. Constituiu um amplo processo cultural no qual diferentes formas de conhecimento passaram a estabelecer relações mais estreitas.

A recuperação da Antiguidade clássica, o desenvolvimento do humanismo, a valorização da observação da natureza, o aperfeiçoamento da perspectiva, os estudos anatômicos, a arquitetura, a escultura, a pintura, a filosofia e a literatura participaram de uma transformação intelectual que marcou profundamente a cultura europeia (Burckhardt, 2009; Gombrich, 2012).

Nesse cenário, surgiu uma concepção particularmente significativa do artista como um indivíduo dotado de capacidade intelectual, investigativa e criadora. Leonardo da Vinci tornou -se uma das expressões máximas dessa concepção, enquanto Michelangelo levou a escultura, a pintura e a arquitetura a uma dimensão monumental, e Rafael desenvolveu uma linguagem marcada pelo equilíbrio, pela harmonia e pela síntese. É justamente dessa complementaridade que nasce a concepção da Tríplice Coroa do Renascimento.

A Comenda não pretende estabelecer uma hierarquia entre os três mestres, tampouco afirmar que o Renascimento se resume às suas trajetórias. Ao contrário, Leonardo, Michelangelo e Rafael são utilizados como referências simbólicas de três dimensões fundamentais da cultura: o conhecimento, a criação e a harmonia. A insígnia da Grande Comenda traduz visualmente essa concepção. Três coroas aparecem na parte superior; abaixo delas, três figuras representam os grandes mestres; um sol nascente ilumina a composição; raios de luz irradiam -se pelo medalhão; ramos de louro envolvem a parte inferior; e, no centro da base, encontra – se a identificação da FEBACLA. Cada um desses elementos possui significado próprio e, simultaneamente, integra uma narrativa única.

O objetivo deste artigo é apresentar a fundamentação histórica, cultural e simbólica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, demonstrando de que maneira sua iconografia estabelece um diálogo entre a tradição renascentista e o reconhecimento contemporâneo daqueles que dedicam suas vidas à cultura, à ciência, às letras, às artes, à educação e à construção do conhecimento.

2 O RENASCIMENTO E A TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL

O termo Renascimento está associado a um amplo processo de renovação cultural que se desenvolveu inicialmente em diferentes centros da Península Itálica e, posteriormente, expandiu -se por outras regiões da Europa. Embora sua cronologia não possa ser delimitada de maneira absolutamente rígida, os séculos XV e XVI constituem o período fundamental para compreender o desenvolvimento de suas principais manifestações.

A ideia de “renascimento” esteve relacionada à recuperação e à valorização da cultura da Antiguidade clássica, especialmente dos modelos greco -romanos, mas não significou simplesmente uma reprodução do passado. Os humanistas renascentistas reinterpretaram a Antiguidade a partir das necessidades e dos questionamentos de seu próprio tempo.

Burckhardt (2009) destacou a importância do período para o desenvolvimento de uma nova consciência do indivíduo e da cultura. Gombrich (2012), por sua vez, demonstra como a história da arte renascentista está profundamente relacionada ao desenvolvimento de novas formas de representar o espaço, o corpo humano, a natureza e a experiência visual. A perspectiva matemática, os estudos anatômicos e a observação sistemática da natureza modificaram profundamente a produção artística.

O artista passou progressivamente a ser reconhecido como alguém que não apenas executava uma obra, mas que pensava, investigava e elaborava intelectualmente aquilo que produzia. Essa transformação explica por que o Renascimento permanece como uma das principais referências quando se pretende discutir a relação entre arte e conhecimento: a pintura deixou de ser apenas representação e tornou -se também investigação; a escultura deixou de ser apenas ornamentação e tornou -se expressão da condição humana; a arquitetura passou a combinar estética, matemática, funcionalidade e simbolismo. A arte, portanto, aproximou -se da ciência, da filosofia e da literatura. É nesse contexto que se encontra a origem conceitual da Grande Comenda.

3 LEONARDO DA VINCI: O CONHECIMENTO COMO CAMINHO PARA A CRIAÇÃO

Leonardo da Vinci ocupa posição singular na história da cultura ocidental. Pintor, desenhista, inventor, estudioso da anatomia, observador da natureza, engenheiro e pesquisador, Leonardo tornou -se o símbolo do chamado “homem universal” ( homo universalis) renascentista. Sua trajetória demonstra que a curiosidade intelectual pode ultrapassar fronteiras disciplinares.

Para Leonardo, compreender a natureza constituía parte essencial do processo criativo. Seus estudos anatômicos, por exemplo, estavam relacionados não apenas à curiosidade científica, mas também à necessidade de compreender a estrutura do corpo humano para representá -lo artisticamente. Obras como Mona Lisa, A Última Ceia  e A Virgem das Rochas  demonstram seu extraordinário domínio pictórico, mas seus cadernos e desenhos revelam igualmente uma mente dedicada à investigação de fenômenos naturais, máquinas, anatomia, água, voo e movimento (Gombrich, 2012).

A importância de Leonardo para a Grande Comenda encontra -se justamente nessa capacidade de unir arte e conhecimento. Por essa razão, sua representação na insígnia é compreendida como o símbolo da Coroa do Conhecimento . O conhecimento é a primeira condição do renascimento; não existe verdadeira renovação cultural quando a sociedade deixa de investigar, questionar e aprender. Leonardo representa, portanto, o pesquisador, o estudioso e o intelectual que jamais considera o conhecimento concluído. Sua figura na Comenda transmite uma mensagem especialmente significativa: renascer é também aprender novamente, investigar novamente e olhar para o mundo com curiosidade renovada.

4 MICHELANGELO: A GRANDEZA DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA

Michelangelo Buonarroti representa outra dimensão fundamental do Renascimento. Escultor, pintor, arquiteto e poeta, Michelangelo construiu uma trajetória marcada pela monumentalidade e pela intensa expressividade de suas obras. Sua produção escultórica, especialmente o Davi e a Pietà, tornou -se referência universal. Na pintura, a decoração da abóbada da Capela Sistina representa um dos maiores empreendimentos artísticos da história.

Entre 1508 e 1512, Michelangelo executou o afresco do teto da Capela Sistina, incluindo cenas do Gênesis, profetas, sibilas e numerosas figuras. Décadas depois, entre 1536 e 1541, realizou o monumental Juízo Final na parede do altar (Musei Vaticani, 2026). Sua obra demonstra que a criação artística pode alcançar dimensões que ultrapassam o simples domínio técnico. O corpo humano, em Michelangelo, torna -se instrumento para representar força, espiritualidade, movimento e dramaticidade. Na simbologia da Grande Comenda, Michelangelo representa a Coroa da Criação.

A criação constitui a capacidade humana de transformar uma ideia em realidade: o artista imagina aquilo que ainda não existe e, por meio de seu talento, transforma pensamento em obra. Esse princípio aplica -se também ao cientista, ao escritor, ao professor, ao pesquisador, ao compositor, ao arquiteto, ao historiador e a todos aqueles que produzem conhecimento. A criação é, portanto, uma das principais vias pelas quais o ser humano participa do processo de transformação da sociedade.

5 RAFAEL SANZIO: HARMONIA, BELEZA E HUMANISMO

Rafael Sanzio representa uma terceira dimensão essencial da cultura renascentista. Sua produção artística é frequentemente associada ao equilíbrio, à proporção, à clareza e à harmonia. Sua obra A Escola de Atenas, realizada nos Palácios Vaticanos, tornou -se uma das representações mais célebres do pensamento humanista renascentista.

Na composição, Rafael reúne importantes pensadores da Antiguidade em um espaço arquitetônico monumental. No centro encontram -se Platão e Aristóteles, representando diferentes correntes e filosofias. A pintura estabelece uma síntese entre filosofia, arquitetura, matemática, arte e conhecimento (Musei Vaticani, 2026), demonstrando que a pintura pode ser também uma representação visual da história das ideias. Rafael, portanto, simboliza a capacidade de harmonizar diferentes saberes. Na Grande Comenda, sua figura representa a Coroa da Harmonia . A harmonia não significa ausência de divergências, mas sim a capacidade de integrar diferentes elementos em uma construção maior e equilibrada. Ciência e arte, história e filosofia, literatura e educação, patrimônio e memória podem e devem dialogar. A cultura é precisamente esse espaço de encontro.

6 A TRÍPLICE COROA: CONHECIMENTO, CRIAÇÃO E HARMONIA

A expressão Tríplice Coroa do Renascimento nasce da união simbólica das três dimensões representadas pelos grandes mestres. Cada um deles encarna um princípio central para a construção da cultura e do saber: Leonardo da Vinci associa – se ao Conhecimento, simbolizando a investigação, a ciência, a curiosidade intelectual e a busca constante pelo saber; Michelangelo Buonarroti representa a Criação, expressando a força da arte, a transformação da matéria, a expressividade e a genialidade humana; e Rafael Sanzio encarna a Harmonia, traduzida no equilíbrio, na busca pela beleza, na síntese do pensamento e nos ideais do humanismo.

Essas três dimensões não funcionam de maneira independente: o conhecimento alimenta a criação; a criação transforma o conhecimento em expressão; e a harmonia integra conhecimento e criação em benefício da cultura. A Tríplice Coroa simboliza, assim, uma concepção integral da excelência humana. Não basta conhecer, é necessário criar; não basta criar, é necessário integrar; não basta produzir, é necessário transmitir; e não basta transmitir, é preciso contribuir para que as novas gerações continuem o processo de construção cultural.

7 A ICONOGRAFIA DA GRANDE COMENDA

A insígnia da Grande Comenda foi concebida como uma composição iconográfica na qual cada elemento possui uma função simbólica específica. A medalha não deve ser compreendida apenas como um objeto ornamental, pois sua estrutura constitui uma verdadeira narrativa visual sobre o Renascimento e sobre o ideal de excelência cultural.

7.1 As três coroas

No alto da medalha estão representadas três coroas, elemento que dá nome à honraria. A coroa, tradicionalmente associada à dignidade, à excelência e à distinção, assume aqui um caráter cultural e intelectual. As três coroas remetem aos três grandes mestres que inspiram a Comenda e representam os pilares simbólicos: Conhecimento, Criação e Harmonia. Não existe hierarquia entre elas; a disposição conjunta demonstra que a verdadeira excelência nasce da integração equilibrada dessas três dimensões.

7.2 As três figuras centrais

No centro da medalha encontram -se três figuras humanas que representam Leonardo, Michelangelo e Rafael . A representação é de natureza alegórica, destinada a evocar o legado dos mestres e não necessariamente a reproduzir retratos históricos rigorosos. Sua posição central reflete como os três artistas constituem a referência intelectual e estética fundamental da honraria.

Ao colocar os três lado a lado, a Comenda estabelece um diálogo permanente entre diferentes formas de expressão artística: Leonardo olha para a natureza e procura compreendê-la; Michelangelo transforma a matéria em expressão; e Rafael organiza beleza e pensamento em equilíbrio. Juntos, eles representam o ideal de uma cultura que recusa a separação absoluta entre arte e conhecimento.

8 O SOL NASCENTE COMO SÍMBOLO DO RENASCIMENTO

Um dos elementos mais expressivos da insígnia é o sol nascente, localizado na parte inferior da composição central. O nascer do sol constitui uma metáfora universal para renovação, esperança, conhecimento e recomeço, estabelecendo uma relação direta com o conceito de Renascimento. O sol que surge no horizonte representa a passagem da escuridão para a luz , no contexto da Comenda, essa transição expressa a passagem da ignorância para o conhecimento, do esquecimento para a memória, da estagnação para a criatividade, da ausência de perspectivas para a esperança e do silêncio cultural para a expressão artística. O sol representa, portanto, o conhecimento que nasce e se espalha, transmitindo uma mensagem essencial para o mundo contemporâneo: cada geração possui a responsabilidade de preservar o saber recebido e, simultaneamente, produzir novas formas de conhecimento.

9 OS RAIOS DE LUZ E A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO

Os raios que partem do sol em direção às figuras centrais reforçam o simbolismo da iluminação. A luz representa o conhecimento compartilhado. Uma descoberta que permanece oculta não cumpre plenamente sua função social; da mesma forma, uma obra que não encontra leitores, espectadores ou estudiosos tem limitada sua capacidade de dialogar com o futuro. Os raios representam, assim, a expansão do saber através das gerações, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro. Os grandes mestres do Renascimento pertencem ao passado, mas sua luz continua a alcançar o presente. De modo análogo, aqueles que recebem a Grande Comenda são reconhecidos porque suas próprias realizações contribuem para iluminar o caminho das gerações futuras.

10 OS RAMOS DE LOURO E A HONRA

Na parte inferior da medalha encontram -se os ramos de louro, elemento tradicionalmente associado à vitória, à glória, à honra e ao reconhecimento, o que reforça o caráter honorífico da Comenda. Entretanto, nessa composição, a vitória não deve ser entendida como o triunfo de uma pessoa sobre outra, mas sim como: • a vitória da cultura sobre o esquecimento; • a vitória do conhecimento sobre a ignorância; • a vitória da memória sobre o apagamento da história; • a vitória da criação sobre a estagnação; e • a vitória da educação sobre a ausência de conhecimento. O louro simboliza a dignidade daquele que dedicou parte significativa de sua existência a uma causa cultural, artística, científica, intelectual ou humanitária.

11 O CÍRCULO E A CONTINUIDADE DA CULTURA

A estrutura circular da medalha também apresenta um significado importante. Por não possuir princípio nem fim delimitados, o círculo simboliza continuidade, permanência e eternidade. A cultura funciona de maneira semelhante: uma geração recebe conhecimentos de seus antecessores, acrescenta suas próprias contribuições e transmite esse patrimônio às gerações seguintes.

O Renascimento foi resultado desse processo de recuperação, interpretação e transformação do saber acumulado. A cultura nunca nasce do nada; é construída sobre o que foi produzido anteriormente. Por essa razão, o círculo exterior da medalha representa a continuidade da civilização e a transmissão incessante do patrimônio intelectual e cultural.

12 A FEBACLA COMO INSTITUIÇÃO DE RECONHECIMENTO CULTURAL

A identificação “FEBACLA”, presente na parte inferior da insígnia, estabelece a ligação entre essa rica simbologia e a instituição responsável pela concessão da honraria. A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes assume a responsabilidade de valorizar trajetórias dedicadas ao saber e à cultura.

A Grande Comenda é coerente com essa perspectiva devido ao seu caráter interdisciplinar. A honraria destina -se a reconhecer personalidades com contribuições relevantes em diversas áreas, tais como: ciências, letras, artes, história, filosofia, educação, literatura, pesquisa, patrimônio cultural, comunicação, produção intelectual, humanismo e preservação da memória. Essa abrangência resgata o próprio espírito renascentista, no qual as fronteiras entre os saberes eram mais fluidas e integradas do que na estrutura acadêmica contemporânea.

13 O RENASCIMENTO COMO CONCEITO CONTEMPORÂNEO

Embora historicamente delimitado à Europa dos séculos XIV a XVI, o conceito de Renascimento assume um significado atemporal: Renascimento é renovação. Uma sociedade renasce quando valoriza sua história; uma cultura renasce quando preserva seu patrimônio; a ciência renasce quando novas perguntas são formuladas; a arte renasce quando novos artistas encontram novas linguagens; a educação renasce quando desperta a curiosidade; e a memória renasce quando o esquecido volta a ser estudado.

Por essa razão, a Grande Comenda não pretende apenas rememorar um período histórico, mas reconhecer pessoas que realizam processos de renovação cultural em seu próprio tempo. Aqueles que pesquisam, ensinam, escrevem, pintam, esculpem, preservam, restauram, educam e produzem ciência tornam -se agentes de novos renascimentos.

14 A GRANDE COMENDA COMO INSTRUMENTO DE MEMÓRIA

As honrarias cumprem igualmente uma importante função memorialística. Ao receber uma comenda, o homenageado recebe um símbolo que registra publicamente a relevância de sua trajetória. A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento cumpre essa função ao associar o homenageado ao legado de Leonardo, Michelangelo e Rafael. A mensagem implícita carrega elevada responsabilidade: quem recebe uma honraria inspirada nesses mestres é convidado a compreender o valor de sua própria contribuição cultural. Essa distinção não busca estabelecer uma comparação de genialidade, mas afirmar, simbolicamente, que o homenageado participa do processo de construção da cultura. A Comenda reforça que os valores de conhecimento, criação e harmonia permanecem indispensáveis à sociedade contemporânea.

15 A TRÍPLICE COROA E A EXCELÊNCIA HUMANA

A concepção da Grande Comenda também pode ser compreendida como uma reflexão sobre a própria ideia de excelência. A excelência, contudo, não significa perfeição absoluta, mas dedicação, competência, perseverança e contribuição. Leonardo ensina a importância da curiosidade; Michelangelo ensina a força do trabalho e da criação; Rafael ensina o valor do equilíbrio e da harmonia. A reunião desses ensinamentos produz uma concepção de excelência fundamentada em três perguntas centrais: • O que sabemos? • O que somos capazes de criar a partir desse conhecimento? • Como podemos utilizar aquilo que sabemos e criamos para contribuir com a sociedade? Essas três indagações sintetizam o verdadeiro espírito da Tríplice Coroa.

16 A GRANDE COMENDA E O HUMANISMO

O humanismo constitui outro aspecto fundamental para compreender a simbologia da honraria. O Renascimento recolocou o ser humano no centro de numerosas reflexões culturais, sem que isso significasse a negação da dimensão religiosa predominante na sociedade europeia da época. O interesse pela dignidade, pela capacidade intelectual, pela educação e pelas potencialidades humanas tornou -se uma das características marcantes da cultura humanista.

A obra de Rafael, particularmente A Escola de Atenas, é um exemplo eloquente dessa valorização do pensamento humano. A Grande Comenda recupera esse princípio ao compreender a cultura como instrumento de valorização da pessoa e da sociedade. Afinal, o conhecimento sem humanidade pode tornar -se mero acúmulo de informações; a arte sem humanidade pode perder sua capacidade de dialogar com a experiência humana; e a educação sem humanidade pode transformar -se em mera transmissão mecânica. O verdadeiro renascimento cultural exige, portanto, conhecimento acompanhado de responsabilidade social.

17 A COMENDA COMO PONTE ENTRE PASSADO E FUTURO

A principal força simbólica da Grande Comenda encontra -se na construção de uma ponte entre diferentes tempos históricos. De um lado, está o Renascimento italiano e seus grandes mestres; do outro, encontra -se o mundo contemporâneo e suas novas formas de produzir conhecimento. Entre ambos, situa-se a cultura. Leonardo, Michelangelo e Rafael pertencem ao passado, mas continuam presentes nos museus, nos livros, nas universidades, nas escolas, nas pesquisas, nas reproduções artísticas e no imaginário coletivo. Isso demonstra que uma obra cultural verdadeiramente significativa não se encerra com a morte de seu autor: ela continua viva enquanto houver quem a contemple, estude, interprete e transmita.

A Grande Comenda assume exatamente essa perspectiva. Ao homenagear uma personalidade contemporânea sob a inspiração dos mestres renascentistas, a FEBACLA estabelece uma continuidade simbólica entre aqueles que construíram a cultura no passado e aqueles que continuam a construí-la no presente.

18 O SIMBOLISMO DA GRANDE COMENDA TRÍPLICE COROA DO RENASCIMENTO

A análise conjunta de sua história e iconografia permite compreender a Grande Comenda como uma síntese articulada de valores: • As três coroas:  representam a excelência, a dignidade e a homenagem aos três grandes mestres. • Leonardo da Vinci: simboliza o conhecimento e a investigação científica. • Michelangelo: representa a criação e a força expressiva das artes. • Rafael Sanzio: encarna a harmonia, a beleza e o ideal humanista. • O sol nascente: simboliza o renascimento e a esperança. • Os raios luminosos: representam a difusão e a transmissão do conhecimento. • Os ramos de louro: expressam a honra, o mérito e o reconhecimento público. • O círculo exterior: representa a continuidade e a permanência da cultura. • A inscrição FEBACLA:  identifica a instituição que chancela esses valores na forma de uma distinção honorífica contemporânea.

O resultado é uma insígnia que conta uma história por meio de uma linguagem essencialmente simbólica. Ela comunica que o verdadeiro renascimento não pertence exclusivamente ao passado, mas acontece continuamente, sempre que alguém decide estudar, pesquisar, criar, preservar, ensinar e compartilhar.

19 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento apresenta -se como uma distinção honorífica cuja fundamentação ultrapassa a dimensão meramente protocolar de uma honraria visual. Sua concepção estabelece um diálogo fértil entre a história da arte, o humanismo renascentista e a necessidade contemporânea de valorizar aqueles que dedicam suas trajetórias à construção e à preservação do conhecimento.

A escolha de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio como referências simbólicas confere à Comenda uma identidade fundamentada em três dimensões essenciais do espírito renascentista: conhecimento, criação e harmonia. Leonardo representa a curiosidade intelectual e a investigação da natureza; Michelangelo simboliza a força criadora capaz de transformar matéria e pensamento em arte; Rafael representa o equilíbrio, a proporção e a capacidade de harmonizar diferentes formas de saber. As três coroas sintetizam esses valores, elevando -os à condição de princípios permanentes de excelência. O sol nascente acrescenta à composição a ideia fundamental de renovação, demonstrando que o conceito de Renascimento não deve ser interpretado apenas como uma referência cronológica.

Na perspectiva da Comenda, renascer significa renovar o conhecimento, preservar a memória, estimular a criatividade, valorizar a cultura e construir novas possibilidades para o futuro. A iconografia completa -se com os raios luminosos, que simbolizam a transmissão do saber; os ramos de louro, que representam a honra e o mérito; e a estrutura circular, que expressa a continuidade da civilização através das gerações.

Dessa forma, a Grande Comenda constitui uma homenagem ao passado, mas também um compromisso com o presente e o futuro. Sua mensagem essencial pode ser sintetizada em uma ideia: toda sociedade necessita de novos renascimentos. Quando um pesquisador descobre, um professor ensina, um escritor escreve, um artista cria, um historiador preserva, um cientista investiga ou um agente cultural mantém viva a memória de uma comunidade, ocorre um renovado ato de renascimento. Inspirada nos três grandes mestres do Renascimento, a Comenda estabelece uma concepção de reconhecimento baseada na certeza de que o conhecimento deve iluminar, a criação deve transformar e a cultura deve permanecer viva. Assim, as três coroas passam a constituir uma declaração de princípios: • Conhecer para compreender. • Criar para transformar. • Harmonizar para construir. • Preservar para transmitir. • Renovar para fazer renascer.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento consagra, portanto, aqueles que fazem da inteligência, da criatividade, da cultura e do compromisso com a sociedade instrumentos de construção de um futuro no qual o legado das grandes civilizações continue a ser permanentemente reavaliado, reinterpretado e renovado.

REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte italiana: do Giotto a Leonardo. São Paulo: Cosac Naify, 2003. v. 2.

BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 34. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

GARIN, Eugenio. O homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Tradução: Álvaro Cabral. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Tradução: Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2007. (Coleção Debates).

MUSEI VATICANI. Cappella Sistina: storia della Cappella Sistina. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

MUSEI VATICANI. La Scuola di Atene. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

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A vida na capital

Ismaél Wandalika: ‘Vida na capital’ — quando a arte sorri diante das feridas de uma sociedade desigual

Soldado Wandalika
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Uma capa de livro ou pôster com o título "A VIDA NA CAPITAL" no topo, em fontes pretas e amarelas pinceladas, sobre uma paisagem urbana de Luanda, Angola, ao pôr do sol. Abaixo do título, há uma bandeira de Angola. No centro da imagem, várias pessoas caminham em uma rua movimentada, incluindo uma mulher carregando uma criança em um pano colorido. Ao fundo, uma ponte de pedestres cheia de pessoas e o horizonte da cidade com arranha-céus. No canto inferior, o texto "AUTOR: SOLDADO WANDALIKA" em fontes amarelas e brancas, seguido por "POETA E ESCRITOR ANGOLANO" e um pequeno ícone de um livro aberto.
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‎A vida é controvérsia aos outros pontos do planeta
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‎A Arte encanta a pobreza
‎Artistas vivem suas loucuras e atraem riqueza
‎Todos têm fome de comer pelo seu nome com honra…

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‎O Sorriso esconde as lágrimas no canto dos olhos
‎A música anestesia o sofrimento dos chamados
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Oh!
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‎Dormir pra quê se já não há nada a sonhar
‎Realismo social atravessa o âmago de quem só quer somar.
‎Sorrisos desfilam no pulsar de cada coração
‎Lamentam os pratos em cada olhar…

Soldado Wandalika‎

Poeta e escritor angolano CEO do projeto Luso internacional POETAS DA ILUSÃO

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