O ruído e o vazio entre nós

Clayton Alexandre Zocarato ‘O ruído e o vazio entre nós’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo de profundamente inquietante neste tempo — não apenas o excesso de vozes, mas a rarefação do sentido. Em Filosofia, desde Sócrates, o não saber era o ponto de partida para o diálogo; hoje, parece ser aquilo que mais tememos admitir.

            Entre a ágora de Atenas e os fluxos digitais de um presente fragmentado, algo se perdeu: a coragem de sustentar a dúvida. Diga, leitor — quando foi a última vez que você permaneceu em silêncio não por evasão, mas por escuta verdadeira?

            O tempo, que em Santo Agostinho era uma experiência íntima e elusiva, tornou-se agora uma sucessão de instantes descartáveis. Já não habitamos o tempo; consumimos ferozmente seus vértices.

            E, no espaço — esse que Martin Heidegger via como morada do ser — nos deslocamos sem enraizamento, atravessando lugares sem realmente estar neles. Que tipo de linguagem pode emergir de um mundo onde nem o tempo nem o espaço são vividos, mas apenas atravessados?

            A linguagem, outrora ponte, parece hoje ruína. Em Clarice Lispector, a palavra era abismo e revelação; em Fernando Pessoa, multiplicidade e máscara; já em Heráclito, o logos era fluxo — um rio que jamais se detém.

             E você, leitor, ainda acredita que suas palavras alcançam alguém — ou apenas ecoam em um vazio polido por algoritmos?

            Talvez o que chamamos de comunicação tenha se tornado uma coreografia de superfícies: falamos para não calar, respondemos para não ouvir, opinamos para não pensar. O agir comunicativo — esse ideal de reciprocidade e reconhecimento — exige mais do que presença: exige risco.

             O risco de ser transformado pelo outro. Mas em uma sociedade que evita o desconforto como quem foge de uma ferida aberta, quem ainda aceita esse risco?

            E então resta a pergunta, incômoda e persistente: se não há mais horizonte comum, se o mundo compartilhado se dissolve em versões privadas da realidade, o que exatamente tentamos dizer uns aos outros? Ou já desistimos — silenciosamente — de sermos compreendidos? Talvez o verdadeiro colapso não seja da fala, mas da escuta.

            E, nesse cenário, cada palavra dita carrega uma suspeita: ainda há alguém aí, do outro lado, capaz de ouvir — ou estamos apenas ensaiando, sozinhos, o som da própria ausência?

                        Se a resposta nos escapa, talvez seja porque já não sabemos formular a pergunta.            

            Em Ludwig Wittgenstein, os limites da linguagem eram também os limites do mundo; mas o que acontece quando a linguagem não encontra mais mundo algum para delimitar?

            Quando as palavras já não apontam para experiências partilhadas, mas para simulacros privados, filtrados e editados? Você ainda fala para ser compreendido — ou apenas para não desaparecer?

            Há, no entanto, um vestígio que insiste. Mesmo entre ruínas, algo pulsa.

            Em Hannah Arendt, o espaço público era o lugar onde a ação e a palavra revelavam quem somos. Mas que ‘quem’ pode emergir quando o espaço público se fragmenta em bolhas estanques, onde cada voz é apenas reforço de si mesma?

            Talvez estejamos diante de uma nova forma de solidão: aquela que se experimenta em meio à multidão de discursos.

            E ainda assim — por mais paradoxal que pareça — continuamos falando. Como se, em algum lugar recôndito, persistisse a esperança de que alguém escute.

             Como se a linguagem, mesmo ferida, ainda carregasse em si a promessa de encontro. Não seria essa insistência, quase teimosa, uma forma de resistência? Ou será apenas hábito, automatismo, ruído?

            Em Albert Camus, o absurdo não anulava a ação; ao contrário, exigia uma resposta. Talvez falar — ainda falar — seja nossa forma mais silenciosa de revolta contra o vazio.

            Mas revolta para quem, se já não acreditamos no outro? E então volto a você, leitor: quando suas palavras atravessam o espaço incerto entre si e o outro, elas ainda carregam um destino — ou apenas um impulso?

            Talvez seja preciso reaprender. Reaprender o tempo da escuta, o peso de uma pausa, o desconforto fecundo da dúvida. Reaprender a linguagem não como ferramenta, mas como encontro.

            Pois, se tudo se perdeu — horizontes, sentidos, referências — resta ainda a possibilidade de reconstrução. Mas ela começa, inevitavelmente, com um gesto simples e radical: permitir-se não saber, e ainda assim permanecer.

            E então, antes da próxima palavra, antes da próxima resposta apressada, detenha-se.

            Pergunte-se — não ao mundo, mas a si mesmo: há ainda algo que mereça ser dito? E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            E mais grave, mais decisivo: há ainda alguém, em você, disposto a ouvir?

            Talvez a questão não seja apenas se o outro nos ouve, mas se ainda habitamos a linguagem como morada — ou se apenas a utilizamos como instrumento.

            Voltando a Heidegger, a linguagem não era um meio neutro, mas ‘a casa do ser’. Ora, o que acontece quando essa casa se torna inabitável?

            Quando cada palavra é suspeita, cada frase já nasce atravessada por ironia, defesa ou cálculo? Não será que, antes de perdermos o outro, perdemos o chão onde o encontro poderia acontecer?

            Você percebe como, mesmo agora, enquanto lê, algo em você oscila entre atenção e dispersão? Entre o desejo de permanecer e a urgência de partir? Esse movimento não é trivial — ele diz algo sobre o nosso tempo.

             Em Zygmunt Bauman, vivemos uma modernidade líquida, onde vínculos se desfazem antes mesmo de se consolidarem. Mas o que é uma conversa senão um vínculo temporário que exige permanência? Sem permanência, o diálogo se torna impossível — e o que resta é apenas a troca de sinais.

            E, no entanto, continuamos a nos expressar. Escrevemos, comentamos, reagimos. Como se estivéssemos constantemente à beira de dizer algo essencial — mas nunca chegássemos lá.

            Em Roland Barthes, a linguagem carrega sempre um excesso, algo que escapa à intenção. Mas e se, hoje, o que escapa não for mais o excesso, e sim a própria intenção?        

            Quando tudo é dito sem risco, sem implicação, sem consequência, o que ainda pode ser verdadeiramente dito?

            Talvez o problema não seja o barulho, mas a anestesia. Já não nos ferimos com palavras — e isso, à primeira vista, parece um progresso. Mas não era justamente essa capacidade de ferir — e de ser ferido — que tornava possível a transformação?

            Em Friedrich Nietzsche, o pensamento não deveria ser confortável, mas perturbador. Diga, então: quando foi a última vez que uma conversa deslocou você de si mesmo?

            Há uma economia do afeto em jogo. Falamos apenas o necessário, ouvimos apenas o conveniente, respondemos apenas o esperado. Tudo é medido, filtrado, ajustado. Mas o que acontece com aquilo que não cabe nesse cálculo?

            Onde vão as palavras excessivas, desajeitadas, incertas — aquelas que, justamente por não se encaixarem, poderiam abrir algo novo? Não será que estamos perdendo não apenas o sentido, mas a possibilidade mesma de criá-lo?

            Em Walter Benjamin, a narrativa tradicional carregava uma experiência compartilhada, algo que passava de geração em geração. Hoje, no entanto, acumulamos informações, mas raramente experiências. E sem experiência, a linguagem se esvazia.    

            Você sente isso? A diferença entre saber algo e ter algo a dizer sobre isso? Entre repetir e realmente comunicar?

            Talvez o silêncio que tememos não seja o do outro, mas o nosso próprio.

             Um silêncio que nos confronta com a ausência de conteúdo, de direção, de sentido. Por isso falamos tanto: para não o escutar. Mas e se, em vez de evitá-lo, o atravessássemos?

            Em Rainer Maria Rilke, era preciso amar as perguntas, viver dentro delas. Mas quem ainda tem paciência para uma pergunta que não se resolve?

            E então voltamos ao início — não como repetição, mas como espiral. Há uma nostalgia no ar, sim, mas talvez ela não seja de um tempo real, e sim de uma possibilidade perdida: a de que a linguagem pudesse, de fato, nos aproximar.

             Mas essa possibilidade não desapareceu completamente. Ela se retraiu, tornou-se rara, exigente. Não basta mais falar — é preciso sustentar o que se diz. Não basta ouvir — é preciso deixar-se afetar.

            Você está disposto a isso?

            Porque, no fundo, é disso que se trata: de uma escolha. Continuar na superfície, onde tudo é rápido, leve, descartável — ou arriscar a profundidade, onde cada palavra pesa, cada silêncio significa, cada encontro transforma.

            Não há garantia de sucesso. Não há promessa de entendimento. Há apenas a possibilidade.

            E talvez seja justamente isso que ainda nos resta: a possibilidade de que, em meio ao ruído, alguém — em algum lugar — ainda esteja tentando dizer algo verdadeiro. E que, por um instante raro, duas consciências se encontrem não apesar da linguagem, mas por causa dela.

            Mas esse encontro não acontece por acaso. Ele exige tempo — aquele mesmo tempo que evitamos.

             Exige presença — aquela mesma que fragmentamos. Exige coragem — aquela que disfarçamos de indiferença. Em Simone Weil, a atenção era a forma mais pura de generosidade. Talvez ouvir — verdadeiramente ouvir — seja hoje o gesto mais radical que ainda podemos oferecer.

            E então, mais uma vez, a pergunta retorna, não como provocação, mas como necessidade: quando você fala, ainda acredita que alguém pode realmente lhe ouvir?

            Ou, mais fundo ainda — você acredita que ainda há algo em você que valha a pena ser ouvido?

            Se a resposta vacila, não a descarte. Permaneça nela. Pois talvez seja justamente nessa hesitação, nesse intervalo entre o dizer e o não dizer, que algo começa a se formar. Algo que ainda não tem nome, mas que insiste.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            E é dessa insistência — frágil, incerta, quase imperceptível — que talvez possa nascer, novamente, o sentido.

            Mas o sentido, convém admitir, nunca foi dado: ele sempre exigiu trabalho.         Hannah Arendt refletiu, pensar era uma atividade solitária, mas não isolada — exigia o diálogo silencioso consigo mesmo.

             O que acontece, então, quando já não suportamos sequer a própria companhia? Quando o fluxo constante de estímulos substitui esse diálogo interior?

            Talvez estejamos perdendo não apenas a capacidade de conversar com o outro, mas a de sustentar uma conversa consigo. E sem esse primeiro interlocutor — você mesmo — o que resta a dizer ao mundo?

            Há um esvaziamento que não é ruidoso, mas gradual. Ele se infiltra nas pequenas concessões: na resposta automática, na opinião herdada, na escuta interrompida.

            Você já percebeu quantas vezes responde antes mesmo de compreender? Quantas vezes fala não para dizer algo, mas para manter-se presente, visível, existente?

            Em Jean-Paul Sartre, a existência precede a essência — somos aquilo que fazemos. Mas, se o que fazemos é apenas repetir, reagir, reproduzir, que tipo de existência estamos construindo?

            E talvez aqui se revele uma dimensão ainda mais inquietante: não é apenas o outro que deixou de nos ouvir — nós também deixamos de escutar aquilo que dizemos.      As palavras se tornaram leves demais para nos comprometer.

             Elas já não nos vinculam, não nos obrigam, não nos transformam. Mas uma linguagem sem compromisso não é linguagem — é ruído organizado.

            Você sente o peso dessa afirmação?

            Ou ela já escorrega, como tantas outras, sem deixar marcas?

            Em George Steiner, havia a preocupação com a “retirada da palavra” — o momento em que a linguagem perde sua autoridade ética. Não porque deixamos de falar, mas porque deixamos de acreditar no que dizemos.

            E quando a palavra perde sua credibilidade, o que a substitui? O gesto? A imagem? O silêncio? Ou apenas mais palavras, cada vez mais vazias?

            Talvez estejamos vivendo uma inflação do dizer: quanto mais se fala, menos cada palavra vale.

            E, como em toda inflação, há um empobrecimento — não material, mas simbólico.

             As palavras já não compram sentido, já não constroem pontes, já não sustentam mundos. E então nos vemos cercados por discursos que nada dizem, por frases que nada pedem, por vozes que nada arriscam.

            Mas — e aqui a provocação se torna inevitável — será que isso é apenas “o mundo”?  Ou há, em cada um de nós, uma participação silenciosa nesse esvaziamento?

            Quando você escolhe não aprofundar, não questionar, não sustentar uma conversa difícil — o que exatamente está sendo preservado?

             Conforto? Imagem? Controle? E o que está sendo perdido?

            Em Clarice Lispector, escrever era uma forma de tocar o indizível — aquilo que escapa, que resiste, que não se deixa capturar facilmente.

            Talvez falar — verdadeiramente falar — devesse ter algo dessa mesma qualidade: não a clareza imediata, mas a honestidade do risco. Não a certeza, mas a abertura.

            E isso nos leva a um ponto delicado: talvez o problema não seja a ausência de sentido, mas a nossa impaciência com ele.

            Queremos respostas rápidas, compreensões imediatas, conexões sem fricção.       Mas o sentido — quando existe — é lento, exige elaboração, pede tempo. Está você disposto a esse tempo?

            Porque, sem ele, tudo se torna superfície. E na superfície, nada se fixa.

             As palavras passam, os encontros passam, até mesmo as perguntas passam. E, no fim, o que resta não é o silêncio fértil de quem pensa, mas o vazio de quem já não espera encontrar nada.

            Ainda assim, há algo que resiste.

            Talvez seja mínimo: um instante de atenção não interrompida, uma conversa que se prolonga além do necessário, uma palavra dita sem cálculo. Pequenos gestos que, isoladamente, parecem insignificantes — mas que, juntos, podem reconfigurar o espaço do possível.

            Você já experimentou isso? Um momento em que, contra todas as expectativas, alguém realmente ouviu você — não para responder, não para corrigir, mas para compreender?

            Esse momento, raro como é, não revela algo essencial? Não aponta para uma possibilidade ainda viva?

            Em Emmanuel Levinas, o outro não é um objeto a ser compreendido, mas uma alteridade que nos convoca, que nos exige uma resposta ética.

             Ouvir, nesse sentido, não é passivo — é um ato de responsabilidade. Mas como sustentar essa responsabilidade em um mundo que constantemente nos dispersa?

            Talvez a resposta não esteja em grandes mudanças, mas em deslocamentos mínimos: em escolher permanecer quando seria mais fácil sair; em escutar quando seria mais confortável falar; em perguntar quando seria mais seguro afirmar.

            E então, mais uma vez, tudo retorna a você — não como acusação, mas como possibilidade.

            O que você fará com a próxima palavra que disser?

            Ela será apenas mais uma entre tantas — ou carregará, ainda que discretamente, a intenção de alcançar alguém?

            E, se alcançar — você estará preparado para o que isso implica?

            Porque ser ouvido, no fundo, é também ser exposto. É permitir que o outro nos afete, nos desloque, nos transforme.

             E isso, convenhamos, exige uma coragem que nem sempre estamos dispostos a mobilizar.

            Mas talvez seja justamente aí — nesse ponto de risco, de abertura, de incerteza — que a linguagem reencontre sua força.

            Não como garantia de entendimento, mas como tentativa. Não como domínio, mas como encontro.

            E, quem sabe, ainda seja possível — mesmo agora, mesmo aqui — que uma palavra, dita com cuidado, escutada com atenção, sustentada com presença, atravesse o ruído e encontre, do outro lado, não um eco vazio, mas uma consciência desperta.

            Se isso ainda for possível, então talvez nem tudo esteja perdido.

            Mas essa possibilidade — não se engane — depende, em alguma medida, de você.

Clayton Alexandre Zocarato

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Vamos! Um chamado para sorrir!

Ismaél Wandalika: ‘Vamos! Um chamado para sorrir!

Soldado Wandalika
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Já que o dia nasceu sem sequer nos avisar
‎Vamos!
‎Despertar a luta ainda não vencida

‎Vamos!
‎Amarrar o cinto e pular os buracos e participar da corrida
‎Afinal, aqui na capital
‎para que se viva  bem
‎precisa-se mesmo ter capital.

‎Então vamos!
‎Oh Mingo pega as tuas vassouras e vamos na zunga
‎Queres sonhar ou se virar?
‎Comer ou só beber água?

‎Vamos!
‎Sem olhar pro sol que nos queima

‎Vamos!
‎Enfrentar as corridas dos fiscais
‎Vender as vassouras que temos
‎Fora isso nada temos mais
‎Com isso vamos levar comida pra mbange

‎Vamos!
‎Sorrir das perdas
‎Pra que chorar?
‎Se amanhã tem mais perdas de negócio e corridas !
‎Oh Mingo! somos atletas
‎vamos beber água fresca lá em casa!
‎Aqui, na praça ambulante, é para acabar o negócio

‎Vamos!
‎Viver nossa jornada dura…
‎Não há quem nos salva…
‎Somos da babulo, aí não tem nada!
‎Nossa alegria é confundida com tristeza
‎Vivemos dias de luta!
‎Já devias aprender a te virar antes dos 30.
‎Oh mãe Tita! vamos cantar para esquecer essa vida sofrida
‎Vamos mesmo lançar piada a esse Polícia
‎Levou todo negócio e já está ter barriga
‎Está a engordar na nossa custa!

‎Vamos!
‎Percorrer a cidade
‎Na busca de novo cliente
‎Trabalhamos para comer e para juntar dinheiro para viajar!
‎Viver as vezes dói
‎Mingo! Foca-te no objetivo!
‎E não no bumbum da Marlene Oi.

‎Vamos
‎Um chamado para sorrir!

Soldado Wandalika

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Violência contra a mulher

Renata Barcellos

‘Violência contra a mulher retratada nas literaturas’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
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Se as literaturas retratam o homem no seu tempo, na contemporaneidade, um dos temas é a violência contra a mulher. Conforme Ezra Pound (2006,p.36): “[…] se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e de cai”. Isso significa que esta expressão artística é, enquanto manifestação dos homens, uma forma de comunicação. Talvez não haja equilíbrio social.

Já de acordo Antonio Candido no ensaio O direito à literatura, as literaturas, assim como o sonho (essencial para o equilíbrio psíquico individual), são uma necessidade universal e fundamental para a humanização do homem. O autor defende que o acesso a elas deve ser um direito garantido a todos, pois contribuem para a coesão social e a humanização, combatendo o caos e a desumanização.

Um dos textos literários que aborda o feminicídio é o conto Venha ver o pôr do sol de Lygia Fagundes Telles cuja história é de Ricardo e de Raquel, um casal de ex-namorados que vivencia um último encontro em um cemitério abandonado. Vale a pena conferir!!!

No Brasil, segundo dados oriundos do anuário Brasileiro de Segurança Pública e relatórios de órgãos federais, uma mulher é estuprada a cada 6 ou 8 minutos, no Brasil. Cabe ressaltar que essa informação é baseada apenas nos casos oficialmente registrados. Quantos ainda não o foram? Denuncie!!!! Nunca é tarde!!! Ligue 190 (Polícia Militar), 180 (Ligue 180 / Central de Atendimento à Mulher) ou 100 (Disque Direitos Humanos). Não se cale!!!

Em maio de 2016, no Rio de Janeiro, a barbárie contra uma jovem de 16 anos causou horror à sociedade brasileira. A adolescente foi violentada por 30 homens e a divulgação do ato foi feita pelos próprios estupradores. Antes deste caso e até na atualidade, quantos MAIS não ocorreram? Dez anos depois, recentemente, uma de 17 anos foi atacada por 4 homens. O que está acontecendo no mundo?

Vale ressaltar que, na crônica: Não as matem, de Lima Barreto (pré-modernista), há a denúncia do autor de que o homem se julga no poder de aniquilar a vontade da mulher. Isso foi redigido a mais de um século. A narrativa transcendeu o seu próprio tempo, porque o conteúdo da obra ainda se mantém atual, infelizmente. Ao tratar deste assunto, Barreto esteve à frente da Justiça brasileira no sentido de elucidar a razão do uso da força e da violência contra a mulher.

Na contemporaneidade, de forma avassaladora, ações cruéis só aumentam. Quais são os fatores que levam a tais práticas? Como acabar com estes atos bárbaros? Conforme anuário Brasileiro de Segurança Pública e relatórios de órgãos federais:

  • Recorde de Casos: Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro (incluindo vulneráveis) em 2025, um número que segue em patamares elevados após recordes anteriores.
  • Estupro de Vulnerável: cerca de 70% a 76% dos casos registrados envolvem vítimas menores de 14 anos ou sem capacidade de consentimento.
  • Frequência: estima-se que ocorra um estupro a cada 6 ou 8 minutos, no Brasil, segundo dados de 2023-2025.
  • Dados de 2025: prévia de dados do Ministério da Justiça indicou mais de 83 mil casos, com uma média de 227 vítimas por dia.
  • Tendência de Aumento: em um período de 10 anos (até 2025), a quantidade de estupros aumentou expressivamente, chegando a mais de 70% de alta no acumulado.

Perfil das Vítimas e Agressores

  • Estupro de Vulnerável: cerca de 70% a 76% dos casos registrados são de estupro de vulnerável, que envolve vítimas menores de 14 anos ou sem capacidade de consentimento.
  • Idade: a maioria das vítimas é muito jovem. Dados mostram que 6 em cada 10 vítimas têm até 13 anos.
  • Gênero: 88,7% das vítimas são do sexo feminino.
  • Local e Agressor: a maior parte dos crimes ocorre dentro de casa. Cerca de 70% a 86% dos casos são praticados por conhecidos, familiares, pais ou padrastos.
  • Crianças/Adolescentes: de 2021 a 2023, foram registrados 164.199 casos de estupro contra crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
  • Perfil dos Agressores no Coletivo: em casos de múltiplos agressores, 27,7% dos autores são estranhos, 28,3% conhecidos, e 10,3% parentes. 

Isso ocorre mesmo havendo legislação como a Lei Maria da Penha criada pelo Estado brasileiro, Lei nº11.340, em 7 de agosto de 2006. Já, em 9 de março de 2015 começou a vigorar no ordenamento jurídico brasileiro a Lei nº13.104, no qual passou a prever no Código Penal o crime de feminicídio. Nem assim os índices reduzem. O que está havendo?

Dado o ocorrido, diversas discussões estão em pauta: a educação recebida pelos responsáveis concernente a atos que firam a dignidade feminina ou a integridade de jovens.
O que leva um adolescente a cometer estupro? Como as jovens têm sido orientadas para se defenderem? Será que vivemos em uma cultura do estupro?…

A expressão “cultura do estupro” não é nova. Entrou em uso nas ruas e nas redes sociais com os novos movimentos feministas e depois da publicidade de um estupro coletivo ocorrido em uma comunidade carioca. Ao mesmo tempo em que cresce a denúncia de uma “cultura do estupro”, estamos caminhando para uma cultura anti-estupro.  

Urgem aulas de Educação Sexual a fim de orientar os alunos de que não só as relações sexuais sejam praticadas sob o signo do consentimento e da liberdade, da autonomia e da dignidade de cada um (uma). Mais também de que o estupro ou qualquer ato sexual violento é inaceitável, porque revela um profundo desrespeito à autonomia feminina. Estupro é um ato violentíssimo, uma invasão ao corpo cujos efeitos são devastadores: depressão, períodos longos de silêncio, descuido com o corpo, dificuldade e pânico diante de tentativas de relações afetivas e sexuais, incompreensão, distanciamento…   

A temática deve ser abordada nas instituições de ensino. A conscientização é urgente. Cada professor na sua área de atuação deve discuti-la. Por exemplo:

– Língua Portuguesa e Literaturas: apresentar os textos literários aqui citados. Nas últimas trêssemanas,ministrando estas disciplinas, propus o seguinte:

* na primeira semana: leitura da crônica: Não as matem, de Lima Barreto. Em seguida, a elaboração de um parágrafo sobre a temática abordada.

* na segunda semana: Vídeo no YouTube sobre o conto Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Telles. Em seguida, justificar o título e elaborar uma publicidade sobre a temática abordada.

* na terceira semana: leitura do primeiro capítulode Água de Mortas (Editora Patuá, 2017), pela escritora paraense Isadora Salazar. Neste, a temática do feminicídio é abordado.

Biologia: os males no corpo e na alma

Educação Física: defesa pessoal

– História: legislações

São apenas algumas sugestões. Professor, não tenha receio!!! Utilize sua criatividade e aborde a temática!!! Diga não a qualquer tipo de violência!!! E vale ressaltar que se o professor for repreendido pela abordagem da temática também é um ATO DE VIOLÊNCIA!!!! Diga NÃO À FALTA DE LIBERDADE PEDAGÓGICA!!!

Renata Barcellos

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Os filhos da quinta

Ramos António Amine: Conto ‘Os filhos da quinta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Durante muito tempo, fingiu-se que a quinta era apenas um lugar, um espaço cercado por arames farpados, guardado por cães fardados e saturado pelo cheiro da cumplicidade entre homens armados. Um território onde se reuniam os devotos da hipocrisia, os bebedores do mesmo cálice rachado da conveniência, os guardiões disciplinados do silêncio.

Mas essa foi sempre a mentira mais confortável.

A quinta nunca foi apenas um lugar. A quinta é uma escola.

Uma escola de fabricar obediência, de polir consciências até que deixem de se rebelar, de ensinar homens e mulheres a trair a verdade com elegância. Ali não se educa, condiciona-se. Não se forma, molda-se. Aprende-se a distorcer a realidade até que ela obedeça, a chamar prudência à cobardia, inteligência à omissão e maturidade à rendição. E, acima de tudo, aprende-se isto: o poder não precisa de ser legítimo, basta parecer legal.

Foi assim que nasceram os filhos da quinta.

Uns nasceram dentro dos muros, domesticados desde o berço. Cresceram a repetir palavras que nunca pensaram, a respeitar limites que nunca compreenderam, a defender uma ordem que nunca os questionou, porque nunca lhes permitiu questionar. Alimentaram-se de histórias sobre ordem, estabilidade e tradição, como quem engole um sedativo, não para entender o mundo, mas para não o perturbar.

Outros chegaram depois, atraídos pela promessa suja do pertencimento. A quinta acolheu-os como sempre faz, oferecendo abrigo em troca de silêncio, influência em troca de submissão, reconhecimento em troca de consciência. E eles aceitaram. Quase todos aceitam. Os poucos que hesitaram aprenderam depressa que a fome dobra mais convicções do que qualquer argumento.

Com o tempo, os filhos da quinta tornaram-se muitos e tornaram-se pesados. Não apenas no corpo, mas naquilo que evitam carregar: responsabilidade. Arrastaram-se pelos corredores do poder como sombras bem alimentadas, ocuparam cadeiras que nunca lhes exigem coragem, pronunciaram palavras que nunca comprometem nada.

Falam muito. Dizem pouco.

Prometem tudo. Não entregam nada.

Reconhecem-se à distância, não por símbolos, mas por reflexo. A mesma linguagem vazia, a mesma habilidade em fugir sem parecer fugir, a mesma obsessão em manter tudo exatamente como está. E assim a quinta sobrevive, não pela força, mas pela repetição, não pela verdade, mas pelo hábito.

Mas há algo que os filhos da quinta nunca aprenderam e nunca quiseram aprender: escutar. Porque escutar é perigoso. Escutar implica dúvida. E a dúvida é o primeiro golpe contra qualquer muralha.

Do outro lado da quinta, o mundo não esperou. As vozes que foram ignoradas cresceram sem permissão. Tornaram-se mais duras, mais claras, mais impossíveis de calar. As perguntas que foram evitadas fora da quinta começaram a ser feitas dentro dela por aqueles que a quinta tolera, mas nunca aceita: os lavradores.

Homens admitidos apenas para lavrar a quinta. Presentes nas manhãs e nas tardes, mas nunca pertencentes. Vigiados por cães vadios, mas indispensáveis à vitalidade da própria quinta.

Foram eles, e não os filhos da quinta, que continuaram a dizer o que precisava ser dito.

As verdades silenciadas não desapareceram. Acumularam-se. E, como tudo o que é comprimido por demasiado tempo, começaram a procurar saída, não pela porta, mas pela fissura, pelo canto, pelo eco, pela falha.

Até que a falha apareceu.

As filhas da quinta, educadas em ideais que a própria quinta trai, igualdade, fraternidade, solidariedade, começaram a sentir o peso da mentira em que foram criadas. E, quando a realidade entra em conflito com a educação, algo cede.

Neste caso, cedeu o muro.

Uma delas atravessou-o.

Envolveu-se com um lavrador, o mais jovem entre eles, e, no silêncio que a quinta exige, fizeram o que a quinta proíbe: reconheceram-se como iguais, despidos de hierarquia e de fingimento.

Do primeiro encontro, perderam a inocência.

Dos seguintes, cometeram o erro irreversível.

Trouxeram ao mundo a prova viva da fraude da quinta.

Um filho.

Um corpo que a quinta não consegue classificar sem se contradizer. Um sangue que mistura aquilo que ela passou gerações a separar. Um facto que destrói o discurso.

E, pela primeira vez, os filhos da quinta ficaram sem linguagem. Porque não há retórica que apague o que existe.

E então surgiu o dilema, não teórico, mas inevitável: continuar a defender os muros, mesmo depois de atravessados, ou admitir, finalmente, que esses muros nunca serviram para proteger, mas apenas para separar, excluir e mentir.

E essa é a escolha que os filhos da quinta sempre evitaram. Porque admitir isso exige mais do que coragem. Exige verdade. E verdade é tudo aquilo que a quinta ensinou a temer.

Acima desse dilema, sobrevoa uma última questão: cuidar do filho, herdeiro involuntário dos muros, ou impedir que ele exista como ruptura.

É assim que nasce, dentro da quinta, o primeiro sinal da tragédia.

Ramos António Amine

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Chassi de grilo

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Chassi de grilo’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira

Imagem criada pela IA do Gemini
Imagem criada pela IA do Gemini

Nasceu Oswaldo Agripino das Chagas, abaixo de dois quilos, parto difícil, peito praticamente sem leite, desacreditado pela parteira, nenhum choro, apenas um quase inaudível silvo, que cismava sair dos pulmões ligeiramente sem vida. Sobreviveu à custa de muitas rezas da benzedeira do povoado. Do nome pomposo, passou toda a infância apenas acompanhado das chagas, que ora quase o desacreditaram, ora o castigavam naquele mais um eterno dia de sofrimento perene. 

Aos 12, parecia que mal chegara aos 6, tamanha a falta de carnes naqueles ossos tão frágeis. Daí surgiu o primeiro apelido, que ficou: Chassi de Grilo. Até a mãe, de tanto ouvir o povo chamar seu rebento assim, acabou por se acostumar e, sem qualquer cerimônia, arrebatava o menino da cama logo cedo para ajudá-la nos afazeres: “Chassi, vem me ajudar a cuidar das galinhas”. Oswaldo caiu no esquecimento, até que chegou a época de se alistar. 

            Lá estava aquele rapaz, mais mirrado que todos, no meio de tantos outros. Um a um eram chamados pelo nome, até que o sargento, prancheta na mão, gritou:

            — Oswaldo Agripino das Chagas!

            Ninguém moveu uma palha, o que fez com que o militar voltasse a gritar, agora mais alto.

            — Oswaldo Agripino das Chagas!!!

            Nada! Até que o Juvenildo, vizinho do Chassi de Grilo, deu uma cutucada nele e falou baixinho.

            — Chassi, o homem tá te chamando.

            Chassi de Grilo, como se acordado de um sono profundo, acabou se lembrando do próprio nome e, finalmente, levantou o braço esquerdo que, de tão fino, parecia mais um galho seco. Ao perceber aquele que era apenas pele e osso, o sargento olhou com desdém e, com a boca retorcida de puro sarcasmo, disse:

            — Você é tão ruim, que não serve nem pra descascar batata!

            Dispensado de servir a pátria, lá foi o Chassi de Grilo voltar para o lar. Cabisbaixo, não sabia se aquilo era bom ou ruim. Todavia, aquelas palavras do homem de farda o incomodaram por um período. Ele repetiu para si próprio, talvez em voz alta, que sabia descascar batata, sim. Sabia até descascar cana, macaxeira, o que viesse. 

            O tempo passou, a vida do Chassi não mudou muito, a não ser pelo fato da sofrida mãe, coração maior que o próprio peito, ter morrido de chagas. Nem teve tempo de chorar, tamanha a secura da roça. Aos 25 foi tentar a vida na cidade. De bico em bico, acabou sobrevivendo dos restos jogados no lixo. 

            Chassi de Grilo teve que aprender a vencer a ligeireza dos ratos para não passar fome. Às vezes chegava a entrar em vias de fato com um mais atrevido ou, em comum acordo, dividia um naco de pão com os companheiros de esgoto. E foi justamente num desses banquetes no beco que aconteceu algo que, definitivamente, transformou a vida daquele homem que mal chegara a um metro e meio. 

            Três homens entraram nos domínios do Chassi de Grilo, que, antes de ser percebido, se embrenhou atrás do enorme container de lixo. O maior deles parecia ser forçado a seguir na frente, enquanto os outros dois, olhando para todos lados, sussurravam algo praticamente inaudível aos ouvidos do assustado Chassi. O grandão foi empurrado de encontro ao enorme muro e, então, o Chassi pode notar um revólver prateado nas mãos de um dos outros homens. 

            — Vai morrer, desgraçado! 

            Sem tempo para raciocinar, Chassi de Grilo, com um pedaço de pau na mão, acertou a cabeça do homem armado. O outro foi dominado pelo grandão, que lhe desferiu um forte murro nas fuças. Tombou já desacordado, a cabeça explodiu no duro asfalto. O sangue escorreu, o corpo já sem vida. 

            O grandão tomou o pedaço de pau das mãos do Chassi e, em seguida, desferiu vários golpes na cabeça dos dois homens. Encarou os olhos enegrecidos da franzina criatura diante de si e teve ânsia de fazer o mesmo com ele. Todavia, talvez por gratidão, puxou-o pelo braço e disse.

            — Vamos sair logo daqui.

            O grandão se chamava Antônio Carneiro, filho de dona Antônia, pai não declarado, mas que todos sabiam ser o pastor Ezequiel, que passou por aquelas bandas há pouco mais de 30 anos. Antônio Carneiro era nome de registro, todos o conheciam por Tamanduá. O motivo? Bem, não se sabe se essa história era verdadeira ou não, mas se falava que era por conta de uma disputa à mão nos tempos de adolescência, quando ele teria esmagado o tórax de um homem feito apenas com a pressão dos braços. Seja verdade ou não, Tamanduá era o cabeça da bandidagem daquela região.

            Chassi de Grilo, de mero protegido, subiu rapidamente na hierarquia. Agora era o braço direito do Tamanduá, que a tudo lhe confiava. Isso, aliás, trouxe autoestima para o mirrado, agora cultivando até um fino bigode debaixo da fuça. Revólver na virilha, mandava e desmandava, já que Tamanduá não queria se preocupar com esses pequenos aborrecimentos. 

            Depois de quase dez anos, Tamanduá viu a organização crescer de maneira vertiginosa. Até o juiz do local sabia quem mandava e desmandava, a polícia não se atrevia a enfrentar o chefe mor do crime. Todos o tinham na mais alta conta, seja por respeito, seja por puro medo. Por isso, não era raro alguém ir lhe pedir um favor. E foi justamente num desses dias que aconteceu algo que encheu o coração do Chassi de Grilo de regozijo. 

            Aquele mesmo sargento, que havia humilhado o braço direito do Tamanduá, foi até o escritório do crime pedir um favor. Agora reformado, o homem foi reclamar que sua filha adolescente havia sido molestada por um vizinho. Tamanduá não quis saber dessa conversa e logo falou para o Chassi de Grilo resolver aquela pendenga. E, assim que viu aquele homem suplicando por ajuda, Chassi o observou minuciosamente. 

            — Pode ficar tranquilo, vou dar um jeito nesse homem que fez mal pra sua filha.

            — Muito obrigado, senhor! Não sei nem como agradecer o senhor.

            — Pois eu sei como.

            O homem arregalou os olhos e, passivamente, apenas aguardou que o Chassi de Grilo lhe falasse o que ele deveria fazer. O braço direito do Tamanduá, por sua vez, dedilhou suavemente a ponta do fino bigode e, com um sorriso de vingança, disse.

            — Tá vendo aquelas batatas ali no canto? Quero elas bem descascadinhas. Hoje tô com vontade de comer umas fritas.

Eduardo Cesario-Martínez

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Sesc Sorocaba

Sesc Sorocaba apresenta final de semana com música, teatro, circo e atividades para crianças 

Pastoras do Rosal - Foto por Mirella Ghiraldi
Pastoras do Rosario- Foto por Mirella Ghiraldi

O Sesc Sorocaba recebe neste final de semana uma programação variada, com música, teatro, circo e atividades voltadas ao público infantil. As atrações transitam entre tradições da cultura popular brasileira, temas contemporâneos e experiências lúdicas que convidam crianças e famílias a participar. 

A agenda também dialoga com a exposição Frestas – Trienal de Artes, em cartaz na unidade, e inclui atividades do projeto Mulheria, realizado ao longo de março, que destaca a produção artística de mulheres e propõe reflexões sobre representatividade e igualdade de gênero. 

Em paralelo à programação realizada na unidade, o Sesc Sorocaba também estará presente nas cidades de São Roque (sábado, 21/3) e Itu (domingo, 22/3) com o Circuito Sesc de Artes 2026

As atrações começam na sexta, às 20h, com o show do grupo As Pastoras do Rosário. A apresentação propõe um encontro entre a música caipira e manifestações da cultura popular brasileira, como o samba de roda, as umbigadas e cantos presentes em festejos afro-indígenas do interior do país. Sensível e vibrante, o espetáculo cria um ambiente de celebração das tradições e das memórias musicais brasileiras. 

A apresentação tem classificação livre e lugares limitados. Vendas disponíveis em centralrelacionamento.sescsp.org.br ou aplicativo Credencial Sesc SP. E presencialmente na Central de Atendimento.  

Os valores dos ingressos são R$ 15,00 (credencial plena), R$ 25,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, estudante, servidor de escola pública com comprovante, pessoas com deficiências e seu acompanhante) e R$ 50,00 (inteira). 

No sábado, as atividades começam pela manhã com a vivência Clube do Sorriso, conduzida pela equipe de saúde bucal do Sesc Sorocaba. A proposta convida crianças de 2 a 10 anos a participarem de uma jornada divertida para aprender sobre cuidados com a saúde da boca e dos dentes. Por meio de conversas e atividades lúdicas, a equipe aborda temas como escovação, uso do fio dental e hábitos alimentares que contribuem para manter um sorriso saudável. 

A atividade acontece em dois horários, às 10h30 e às 14h, com vagas limitadas. A participação é gratuita, com retirada de senhas 30 minutos antes. 

Palhaça Fiorella

À tarde, às 16h, acontece o espetáculo A casa da palhaça, com a Palhaça Fiorella. Em cena, objetos do cotidiano como baldes, vassouras, livros, xícaras e pratos ganham novos significados em números de manipulação e humor. Entre malabarismos, equilibrismos, acrobacias e mágicas close-up, a artista transforma situações simples em momentos surpreendentes, convidando o público a entrar em um universo de imaginação e brincadeira. A atividade é gratuita e tem classificação livre. Para assistir, é só chegar. 

Eu sou Thelma e ela é minha Louise

Ainda no sábado, às 20h, o teatro recebe o espetáculo Eu sou Thelma e ela é minha Louise. A peça aborda a amizade entre mulheres a partir da trajetória de Vera e Madu, acompanhando suas vidas desde os anos 1990 até os dias atuais. Inspirada no clássico filme Thelma & Louise, a narrativa ganha novos contornos quando um episódio de violência sexual transforma os rumos da história. 

Com dramaturgia construída a partir de relatos reais, o espetáculo discute sororidade, protagonismo feminino e violência contra a mulher, ampliando reflexões sobre memória, justiça e futuro. 

Com classificação de 16 anos e lugares limitados. Vendas disponíveis em centralrelacionamento.sescsp.org.br ou aplicativo Credencial Sesc SP. E presencialmente na Central de Atendimento.  

Os valores dos ingressos são R$ 15,00 (credencial plena), R$ 25,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, estudante, servidor de escola pública com comprovante, pessoas com deficiências e seu acompanhante) e R$ 50,00 (inteira). 

Revoada Cantante
Revoada Cantante

No domingo, às 16h, começa o espetáculo infantil Revoada Cantante, um musical brincante com canções autorais inspiradas na literatura infantil brasileira. Com banda ao vivo e artistas brincantes em cena, o trabalho convida o público a mergulhar em um universo de poesia, ritmos populares e brincadeiras, transformando o palco em um espaço de afeto, dança e encantamento para crianças e famílias. 

Com classificação livre e lugares limitados. Vendas disponíveis em centralrelacionamento.sescsp.org.br ou aplicativo Credencial Sesc SP. E presencialmente na Central de Atendimento. 

Os valores dos ingressos são R$ 12,00 (credencial plena), R$ 20,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, estudante, servidor de escola pública com comprovante, pessoas com deficiências e seu acompanhante) e R$ 40,00 (inteira). Grátis para crianças até 12 anos (necessário apresentar ingresso). 

Jéssica e Juliana

Encerrando o final de semana, às 17h, a área de convivência recebe o show da dupla Jéssica e Juliana. Com mais de 20 anos de trajetória, as artistas celebram a tradição da música sertaneja raiz em um repertório inspirado por nomes como As Galvão, Tião Carreiro & Pardinho, Tonico & Tinoco e Cascatinha & Inhana. 

O show revisita temas clássicos do gênero, como a vida no campo, o amor e as histórias da roça, reafirmando a força dessa tradição musical. A apresentação é gratuita e tem classificação livre. Para assistir, é só chegar. 

O Sesc Sorocaba também conta, até o dia 16/8, com a exposição Frestas – Trienal de Artes: do caminho um rezo, com curadoria de Khadyg Fares, Luciara Ribeiro e Naine Terena. 

O projeto é apresentado ao público a partir de exposição, intervenções, performances, ocupações artísticas em espaços internos e externos à unidade do Sesc, programas públicos, ações educativas e outras atividades de diversos formatos. A 4ª edição dá continuidade às pesquisas iniciadas nas edições anteriores, reconhecendo a região de Sorocaba, bem como os interiores, como um território em que confluem as relações artísticas e comunitárias. 

Frestas – Trienal de Artes: do caminho um rezoFoto por Henrique Gomide

Terças a sextas, das 9h às 21h30; sábados 10h às 20h. Domingos e feriados, das 10h às 18h30. Classificação 12 anos. Grátis.  

Em paralelo com as atividades que acontecem na unidade, o Sesc Sorocaba também estará presente nas cidades de São Roque (sábado, dia 21/3) e Itu (domingo, 22/3), com o Circuito Sesc de Artes 2026.  

Com atividades nas áreas de música, dança, circo, teatro, cinema, literatura, artes visuais e tecnologias, levando uma programação gratuita com espetáculos, intervenções, mediações de leitura e oficinas. Confira em sescsp.org.br/circuitosescdeartes 

Confira mais sobre essas e outras atividades da programação do Sesc Sorocaba em sescsp.org.br/sorocaba.    

Serviço

MÚSICA – FRESTAS 

As Pastoras do Rosário 

Sexta, dia 20/3, às 20h. 

Lugares limitados. Classificação livre. 

R$ 50,00 | R$ 25,00 | R$ 15,00. 

VIVÊNCIA 

Clube do sorriso 

Sábado, dia 21/3, 10h30 às 12h (Turma 1) e 14h às 15h30 (Turma 2). 

Classificação de 2 a 10 anos. Grátis. Vagas limitadas. 

Retirada de senhas com 30 minutos de antecedência. 

CIRCO INFANTIL – MULHERIA 

A casa da palhaça 

Sábado, dia 21/3, às 16h. 

Classificação livre. Grátis. 

Para assistir é só chegar. 

TEATRO – MULHERIA 

Eu sou Thelma e ela é minha Louise 

Sábado, dia 21/3, às 20h. 

Lugares limitados. Classificação 16 anos. 

R$ 50,00 | R$ 25,00 | R$ 15,00. 

MUSICAL INFANTIL 

Revoada cantante 

Domingo, dia 22/3, às 16h. 

Lugares limitados. Classificação livre.  

R$ 40,00 | R$ 20,00 | R$ 12,00 | Grátis para crianças até 12 anos. 

MÚSICA – MULHERIA 

Jéssica e Juliana 

Domingo, dia 22/3, às 17h. 

Classificação livre. Grátis. 

Para assistir é só chegar. 

ARTES VISUAIS 

Frestas – Trienal de Artes: do caminho um rezo 
Até dia 16/8, terças a sextas, das 9h às 21h30; sábados 10h às 20h. Domingos e feriados, das 10h às 18h30 

Classificação 12 anos. Grátis. 

Sesc Sorocaba       

Rua Barão de Piratininga, 555 – Jardim Faculdade.       

Fone: (15) 3332-9933.     

Prefira o transporte público 

Terminal São Paulo 

Linha 13: Santa Izabel/ Jd. Europa 

Linha 71: Campolim via Raposo Tavares 

Terminal Santo Antônio 

Linha 65: Campolim 

BRT 

Linha D200: Terminal Vitória Régia/ Campolim 

+ informações  

facebook.com/sescsorocaba 
instagram.com/sescsorocaba 
youtube.com/sescsorocaba 
sescsp.org.br/sorocaba 

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Frida Kahlo e Jorge Luis Borges

Encontro de Arte e Literatura celebra o legado de Frida Kahlo e Borges no Pátio Cianê Shopping

Exposição Jardim dos Sonhos: Ecos de Frida e Borges, no Pátio Cianê Shopping - Foto por Danilo Gameiro
Exposição Jardim dos Sonhos: Ecos de Frida e Borges, no Pátio Cianê ShoppingFoto por Danilo Gameiro

Sorocaba, março de 2026 – Na tarde da última quinta-feira (05/03), a exposição ‘Jardim dos Sonhos: Ecos de Frida e Borges’ foi palco de um enriquecedor encontro cultural no Pátio Cianê Shopping. O evento reuniu administradores de arte, escritores e o renomado historiador e pesquisador José Rubens Incao para uma imersão nas trajetórias de dois dos maiores ícones da cultura latino-americana.​

Destaques do Encontro

Foto por Priscila Mancussi
Foto por Priscila Mancussi

A abertura foi conduzida pelo escritor Beto Costa, que ressaltou o papel vital da arte na sociedade antes de apresentar a idealizadora do projeto, a professora e escritora Priscila Mancussi. Em sua fala, Priscila detalhou o processo criativo das obras expostas e destacou a atuação do Coletivo Cultural Café & Arte em Movimento na Feira Internacional Del Libro, evento mensal que percorre diversos países. Na ocasião, a organizadora expressou seu agradecimento especial ao embaixador da paz e poeta Romário Filho, articulador fundamental para a projeção internacional do grupo.​

O momento contou ainda com relatos inspiradores de escritoras que compõem a mostra:

Carina Gameiro: Compartilhou seu processo de escrita e agradeceu o acolhimento do coletivo.

​Vânia Moreira: Refletiu sobre a produção de seus poemas e a importância essencial da poesia como ferramenta de reflexão humana.

​O historiador José Rubens Incao parabenizou o coletivo pela iniciativa e pela qualidade estética e literária do trabalho apresentado. O evento atraiu olhares da mídia, contando com a presença do jornalista José Desidério (Jovem Pan), que entrevistou Priscila Mancussi, e do curador Maurício Barisson, responsável por viabilizar a ocupação do espaço pelo coletivo.

​O Coletivo Café & Arte em Movimento

Idealizado por Priscila Mancussi, o coletivo reúne artistas de diversas regiões do Brasil, promovendo um intercâmbio cultural que enriquece a produção artística nacional por meio de diferentes olhares e sotaques.​

Artistas Expositores (Ordem Alfabética):

​Altamir Costa, Beto Costa, Carina Gameiro, Cris Vaccarezza, Cristina Pimentel, Débora Domingues, Djalma Moraes, Josemir Lemos, Lana Coelho, Márcio Zacarias, Priscila Mancussi, Ricardo Oliveira, Ricco Cassiano, Shirley Ferro e Vânia Moreira.

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