Food strike

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi: Poem ‘Food strike’

Mustafa Al-Sumaidi
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“Why strike against me, food?”
Such was my stunned question,
as it whispered to me not to eat it.

​All of a sudden,
I swallowed hard, my throat dry,
from the sting of a mere half-day’s hunger,
while in a silent soliloquy:
“Ah, I understand you now.”

​A crowd of hollow-faced shadows,
bellies bound with stones,
and the long-starved,
rose before my tear-filled eyes.

A hunger strike neither nourishes
nor satisfies.
It will not save a starving soul
that has endured for months.

​I finished my meal absentmindedly,
as if to breathe a prayer:
If only it could be digested
in someone else’s stomach.

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi

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Não há sistemas perfeitos para reger a humanidade

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Não há sistemas perfeitos para reger a humanidade’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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As liberdades fundamentais emergiram no contexto do aparecimento e desenvolvimento das burguesias europeias, da luta destas últimas contra instituições, estruturas e mentalidades do antigo regime, por isso, as grandes Declarações de Direitos, nos finais do séc. XVIII têm a marca de um ambiente ideológico e, exatamente neste ponto, o debate filosófico é incontornável, colocando-se desde logo uma questão, manifestamente incómoda para alguns: «Se os Direitos do Homem foram formulados no contexto do desenvolvimento do capitalismo, será defensável afirmar que eles se reduzem a um instrumento utilizado pelas classes burguesas para assentarem o seu poder?» (HAARSCHER, 1997:43).

Várias serão as respostas, desde a crítica marxista à volta dos Direitos do Homem, à interpretação daquilo a que se chamou a primeira geração dos Direitos do Homem, estes últimos são considerados como um sistema de valores, essencialmente individualistas, de onde se destacam: os que respeitam a liberdade de circulação, respeito pela personalidade, liberdade de consciência e de expressão. Toda a concepção dos Direitos do Homem deve considerá-las como fundamentais.

Todavia, a evolução dos Direitos do Homem tem sido uma constante ao longo do tempo, porque, também neste domínio, não há sistemas perfeitos e: as alterações sociológicas; a mudança de mentalidades; e as exigências de uma sociedade moderna, influenciam a amplitude de valores e princípios, que devem reger a humanidade.

BIBLIOGRAFIA

HAARSCHER, Guy, (1993). A Filosofia dos Direitos do Homem. Tradução, Armando F. Silva. Lisboa: Instituto Piaget.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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O sétimo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O sétimo sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Após a fuga da aldeia com a brigada provincial e por recomendação do vigário, o carro da brigada foi conduzido até o mosteiro da capital provincial, onde o jovem foi acolhido no orfanato, enquanto aguardava os trâmites legais para a sua ida à capital do país, para frequentar o curso de Geologia, como prometido pelo vigário e confirmado pela brigada provincial.

Do outro lado do santuário, o vigário procurava formas discretas que lhe permitissem sair sem cruzar a mesma aldeia que quisera queimar vivo o jovem, pois seria ele o próximo alvo da fúria dos aldeões, por ter precipitado a saída do jovem da aldeia, quando este ainda tinha muito para dar.

Por isso, aguardava a noite.

Quando a noite chegou, disfarçado de motorista comum, o vigário colocou-se na viatura e dirigiu-se pela estrada que dava acesso à aldeia. Para sua surpresa, a aldeia estava totalmente calma, quase resignada consigo mesma. Nenhum dos seus habitantes se encontrava na estrada a vigiar os movimentos habituais. Este facto deixou o vigário incrédulo, pois não esperava tal situação, o que lhe permitiu atravessar a aldeia sem dificuldade, embora permanecesse atento a cada canto. Desconfiava sempre de possíveis ciladas por parte dos populares.

Na manhã seguinte, a aldeia descobriu que o vigário havia passado durante a noite e lamentou não tê-lo interceptado de dia, pois queria pedir desculpas pelo que acontecera ao jovem. Ainda assim, prometeu fazê-lo oportunamente, sendo aquela a única estrada de acesso ao santuário, por onde o vigário sempre passava.

No orfanato, o jovem não encontrava espaço para conversar com os outros miúdos ali acolhidos, não por preconceito das responsáveis do mosteiro, mas pela própria urgência da sua estadia. Ali, quase não havia tempo para conversas, todos estavam ocupados nos seus afazeres.

Apesar disso, observava os outros órfãos, marcados pela ausência de identidade e pela sede de futuro. Não via neles diferença essencial em relação a si. Apenas notava nos seus olhos um certo otimismo em relação ao presente e um automatismo nas suas acções, o que o distinguia, pois ele acreditava que cada um devia cultivar o seu próprio jardim, convicção que guardava desde a leitura de Cândido, de Voltaire.

Por outro lado, agradecia interiormente o cuidado das responsáveis do orfanato. Sem a sua abnegação, a rua teria sido o destino inevitável daqueles órfãos. Quis expressar a sua gratidão, mas encontrou barreiras, pois não era permitida qualquer aproximação, sobretudo de pessoas sem identidade definida, como ele. Ainda assim, guardou esse gesto consigo e prometeu fazê-lo oportunamente.

O mês foi passando.

Até que, certo dia, um dos comissionários do amparo da província, juntamente com o vigário, se fez presente na instituição. Após explicarem a razão da visita, informaram as responsáveis de que o jovem não ficaria ali de forma definitiva, pois tinha obtido a oportunidade de seguir para a capital do país para cursar Geologia, cumprindo-se assim a promessa feita pelas entidades envolvidas.

As responsáveis não resistiram. Além disso, o jovem não representava uma ligação afectiva forte para aquele lugar, que dependia sobretudo de crianças de presença recente e identidade em formação. Assim, assinaram os documentos que autorizavam a sua partida.

Porém, uma das funcionárias, a mais velha de todas, decidiu aproximar-se para se despedir do jovem. Esse gesto reabriu nele uma ferida que nunca cicatrizara: a memória da mãe e de um filho perdido há anos. No entanto, nem o jovem nem a funcionária sabiam que estavam diante de memórias vivas um do outro.

A mãe reconheceu o filho. O filho, porém, não a reconheceu. Ela ficou em choque, quase perdendo os sentidos ao ver o seu único filho transformado pelo tempo. Ainda assim, resistiu.

Decidiu revelar-se.

Mas não houve tempo.

A rotina da instituição não permitia conversas longas, e para evitar conflitos com as responsáveis, a mãe limitou-se a despedir-se do jovem, entregando-lhe um colar em formato de 7 e um papel com rabiscos apressados, onde se lia:

“Para trás, nunca, sob nenhum pretexto, pois o mundo está cheio de gente que te quer desviar do teu caminho.”

Assinado: a tua mãe.

A hora da saída para a capital já estava definida há muito. O jovem recebeu o colar e a carta, mas a sua atenção ficou presa noutro lugar. Afinal, precisava de se concentrar nos últimos dizeres vindos do vigário e dos comissionários do amparo.

Todo aquele tempo de espera permitira aos comissionários do amparo tratar de toda a documentação do jovem. Tinham prometido na aldeia, quando ele recebeu a confirmação da atribuição da oportunidade de estudos na capital, após ter respondido correctamente ao enigma elaborado pelo vigário.

Para além dos últimos dizeres, aquele momento serviu também para a entrega dos seus documentos, incluindo certificados que haviam sido esquecidos na quinta, quando da fuga da mãe e do menino. O jovem admirou-se da astúcia que levou os comissionários do amparo até à quinta dos ímpios, a ponto de tratarem de toda a documentação, sabendo que se tratava de um lugar de protecção reforçada. Ainda assim, não quis saber mais da quinta, como se pressentisse a morte do pai no garimpo daquela quinta, após ter encontrado algo de valor ímpar.

Enquanto isso, a mãe não tirava os olhos do jovem, culpando-se em silêncio por o ter deixado nas mãos do destino alheio. No entanto, nunca se culpava de ter fugido da quinta dos ímpios, decisão que os empurrou para caminhos diferentes. Dizia para consigo mesma que daria tudo para poder contornar o destino do filho. Porém, esse destino já estava traçado: curso de Geologia, na capital do país. Consciente disso, restava-lhe apenas manter-se serena e torcer pelo seu sucesso.

O jovem foi acompanhado até à terminal de transportes rodoviários da cidade, onde foi deixado sozinho para pernoitar e partir no dia seguinte. Da sua cidade para a capital, percorreria distâncias possíveis apenas com a coragem. A estrada principal não estava totalmente transitável, agravada pelo período de inverno, marcado por chuvas torrenciais e granizo.

A primeira tentação que o jovem enfrentou surgiu logo na terminal, onde, em plena noite sonolenta, sentiu que algo lhe era retirado por gente de má-fé. Era a sua pasta que, aos poucos, deixava de repousar como sua cabeceira e parecia querer ficar naquela cidade, como se os certificados vindos da quinta dos ímpios quisessem inviabilizar o seu destino. Mesmo assim, o jovem despertou a tempo e enfrentou os sem-vergonha, como se escutasse, dentro de si, as palavras ainda não lidas da carta da mãe. Apresentou-os imediatamente às autoridades da guarita e permaneceu vigilante.

Na hora de embarque, já na confusão da entrada da viatura, o jovem passou o teste da segunda tentação. Desta vez, quase perdeu o seu bilhete de passageiro, pressionado pelo fluxo desordenado de pessoas. Havia ali gente dura, marcada por uma vida que parecia não ter sido suficientemente amada pelo mundo. Ainda assim, recuperou o bilhete e seguiu viagem, guardando essa experiência consigo.

A viagem prosseguiu. Desamparado, o jovem foi-se perdendo em reflexões sobre a sua vida. Pela primeira vez, ninguém o incomodava, a não ser os rostos absortos e os companheiros de viagem isolados por ecrãs e auriculares.

Pensou que tudo na sua vida se encaixava: cada tragédia vivida preparava-o para uma etapa maior, até chegar ao ponto de se encontrar na viatura rumo à capital. Porém, por outro lado, sentia que o mundo à sua volta não era o melhor possível, daí que era imperioso começar a cultivar o seu próprio jardim.

Estas reflexões fortaleciam a sua determinação em prosseguir, apesar das estradas esburacadas e lamacentas. Só não entendia por que razão iria cursar Geologia, em detrimento de Filosofia, com a qual tivera contacto por meio de Cândido de Voltaire na quinta dos ímpios e, de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset no santuário.

Até que o transporte parou em plena viagem, à procura de estratégias para escapar a um charco que se formara ao longo da estrada principal. O cenário chamou-lhe a atenção. Pensou, então, que a palavra Geologia, formada por “geo” (terra) e “logia” (estudo), poderia dar-lhe uma forma de compreender e talvez propor vias alternativas para o tráfego de pessoas e bens.

Depois de uma semana e meia de viagem, o jovem chegou à capital do país. Logo na descida, quis o destino que enfrentasse mais uma constatação dura: a existência de contentores de lixo espalhados, crianças desamparadas e, do outro lado da via, automóveis de luxo que passavam indiferentes. Notou também que, pela primeira vez, respirava um ar poluído, marcado por emissões que afectavam a camada de ozono.

Pela segunda vez, o jovem sentiu a razão de levar o curso de Geologia a sério. Porém, esse ânimo foi abafado ao recordar que, após o desembarque, cabia-lhe procurar a sua própria moradia.

Ramos António Amine

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Uma doce preguicinha

Sabrina Terentim: Poema ‘Uma doce preguicinha’
(para Maria Fernanda)

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Pequena estrela dos olhos verdes,
mesmo quando o tempo passa sem nos deixar perto,
há um carinho tão bonito e tão pleno
que encontra o caminho certo.

Não precisamos nos ver todos os dias,
nem dividir cada momento da vida,
pois o afeto guarda suas próprias melodias
e mantém nossa amizade aquecida.

Sou grata por ter você em minha história,
minha irmãzinha, minha princesinha.

Guardo seu sorriso na memória
como um presente que a vida decidiu me oferecer.
E quando a saudade aparecer de mansinho,
feito uma nuvem leve no céu azul,
lembre-se: você tem um lugar com carinho
guardado no meu coração, do Norte ao Sul.

Mafe, que seus sonhos cresçam livres como o vento,
que a felicidade acompanhe cada passo seu.
E que você nunca esqueça, nem por um momento,
o quanto eu amo você

Sabrina Terentim

Poema de Sabrina Terentim, aluna do terceiro ano do ensino médio,
com ênfase em Administração, tendo por professor Clayton Alexandre Zocarato.

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Morada da alma

Guilherme Machado

‘Morada da alma: a oração que reorganiza o caos’

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
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“O ladrão não vem senão a roubar,
matar e destruir; eu vim para que tenham
vida, e a tenham com abundância.”
(João 10:10)

Certa manhã, um homem voltou para casa e encontrou tudo destruído. As gavetas estavam abertas. Os armários revirados. Papéis espalhados pelo chão. Portas escancaradas. Objetos quebrados.

A impressão era de que um ladrão havia entrado durante a noite e procurado algo com tanta violência que não se importou com o estrago deixado para trás.

Por alguns instantes, ele permaneceu imóvel. Tentava entender o que havia acontecido. Tentava calcular o prejuízo. Tentava descobrir por onde começar.

Primeiro recolheu os objetos caídos. Depois organizou alguns móveis. Mais tarde varreu o chão. Mas, quanto mais arrumava, mais bagunça parecia encontrar. Quando terminava um cômodo, outro ainda estava revirado.

A sala estava em ordem, mas o quarto continuava revirado. O quarto estava em ordem, mas a cozinha continuava um caos.
A cozinha estava em ordem, mas o quintal parecia abandonado.

Passaram-se horas. Talvez dias. Talvez anos. Até que, exausto, ele sentou-se no meio da própria casa. Pela primeira vez, parou de tentar resolver tudo sozinho. Então, orou. Não foi uma oração bonita. Não foi uma oração elaborada. Foi apenas sincera.

Pediu ajuda. Pediu direção. Pediu forças. Pediu que Deus fizesse aquilo que ele já não conseguia mais fazer.

E algo começou a mudar.Não porque os móveis voltaram magicamente para seus lugares. Não porque as paredes se reconstruíram sozinhas. Mas porque o homem começou a enxergar o que antes não via. Percebeu que algumas coisas precisavam ser restauradas. Outras precisavam ser descartadas. Algumas perdas eram reais. Outras existiam apenas em seu medo – ou talvez fossem livramentos.

Pouco a pouco, aquilo que parecia impossível começou a encontrar ordem.Não uma ordem perfeita. Mas suficiente para voltar a viver em paz. Foi então que ele compreendeu algo. O ladrão não havia invadido apenas sua casa. Havia invadido sua paz.
Sua esperança. Sua confiança.

E era justamente por isso que nenhuma solução humana parecia suficiente. A verdadeira restauração não começou quando ele pegou ferramentas. Começou quando dobrou os joelhos. Porque existem bagunças que a força reorganiza. Mas existem outras que somente a oração consegue colocar no lugar.

O telhado protege tudo. Se ele está ruim, entram chuva, vento e sol. Danificam cada cômodo. O homem descobriu, naquela manhã, que a oração era o telhado da sua alma. Sem ela, nenhuma parede se sustenta.

“Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.” (Salmos 4:8)

Gilherme Machado

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A história da música

Augusto Damas: Poema ‘A história da música’

Augusto Damas
Augusto Damas
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Antes das palavras nascerem,
antes dos livros e das canções escritas,
já existia a música.

Ela habitava o vento que soprava entre as montanhas,
o murmúrio dos rios,
o canto dos pássaros ao amanhecer
e o pulsar dos corações humanos.

Nos tempos antigos, quando a humanidade ainda aprendia a caminhar pela história,
mãos simples transformavam troncos em tambores,
ossos em flautas
e o silêncio em melodia.

A música acompanhou os povos em suas jornadas,
esteve presente nos templos sagrados,
nas festas dos reis,
nas colheitas, nas guerras e nas celebrações da vida.

Nas margens do Nilo, nas cidades da Mesopotâmia,
nas praças da Grécia Antiga,
ecoavam harpas, liras e cânticos
que atravessariam os séculos.

Veio a Idade Média,
e nos mosteiros a música elevou-se aos céus,
como oração transformada em som,
como ponte entre a Terra e o infinito.

Depois floresceu o Renascimento,
e as notas ganharam novas cores,
novas formas, novos sonhos,
como jardins sonoros cultivados pela imaginação humana.

Bach teceu harmonias como quem borda estrelas.
Mozart fez dançar a alegria entre os acordes.
Beethoven transformou desafios em eternidade,
fazendo da música uma voz mais forte que o tempo.

Então chegaram os novos séculos,
e a música atravessou rádios, discos, palcos e telas,
viajou por oceanos e continentes,
unindo povos, culturas e emoções.

No Brasil, ela encontrou morada no samba,
na saudade da bossa nova,
na poesia do choro,
na força do forró e na alma sertaneja.

E assim continua,
eterna companheira da humanidade,
contando histórias que as palavras não alcançam,
guardando memórias que o tempo não apaga.

Porque a música é mais que arte.

É linguagem da alma,
é emoção que ganha asas,
é o invisível transformado em som,
é a própria história da humanidade cantando através dos séculos.

Augusto Damas

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A brasilidade deu o tom em Bucareste

Pietro Costa: ‘A brasilidade deu o tom em Bucareste’

Pietro Costa
Pietro Costa
Foto - Arquivo pessoal do autor
Foto – Arquivo pessoal do autor

O Festival Internacional de Poesia de Bucareste – FIPB, fundado em 2012, é promovido pelo Museu Nacional da Literatura Romena (MNLR), e reúne vozes significativas da cena poética mundial.  O FIPB, nessa edição de nº XV (15 a 21 de setembro de 2025), tem designado uma autêntica celebração planetária da palavra. Durante uma semana, poetas oriundos de todos os continentes se encontram em recitais, mesas-redondas, oficinas, visitas culturais e diálogos abertos ao público. 

Bucareste em 2025 é uma ágora viva da poesia mundial. Sim! A literatura, com sua universalidade, se faz fluente na propagação de pensamentos e emoções, na expressão da complexidade humana, em todas as línguas.

No gracioso Jardim do Museu de Literatura de Bucareste, disseminaram-se fecundas sementes de poesia, advindas da Romênia, Suécia, China, Colômbia, Uruguai, Portugal, Itália, Honduras, Espanha, México, Suíça, Alemanha, Grécia… E do Brasil!!! Honra imensa em ter representado a força poética brasileira (e da minha cidade de Brasília/DF) na noite de 18 de setembro de 2025, ladeado das luminosas poetas Bernadete Saidelles (Rio Grande do Sul) e Eva Potiguara (Rio Grande do Norte), e da Presidente da Literarte Izabelle Valladares (Rio de Janeiro).

Estar na Romênia, terra do imortal Mihai Eminescu, representando Brasília e o Brasil, foi um privilégio que carrego como travessia literária e humana. A poesia, naquele período de 15 a 21 de setembro, não foi apenas palavra — foi ponte entre culturas, foi pássaro em voo entre continentes.

Desde os primeiros momentos, fomos recebidos com afeto, simpatia  e respeito por todos, em especial pelo notável escritor Dino  Flamand, tradutor para o romeno de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, entre outros; pelo adido cultural Ronaldo Vieira; pela professora PhD Alina Bianca Andreica (Associate Professor in Computer Science; Faculty of European Studies; Manager – UBB Brazilian Centre “Casa do Brasil” e Babes-Bolyai University, Cluj-Napoca, Romania); e pela Professora Gabriela Toma, PhD, Diretora do Museu Nacional da Literatura Romena.

No Festival, a delegação brasileira não foi apenas espectadora: fomos protagonistas de uma troca viva, levando nossas obras na ágora da poesia mundial em setembro, a capital romena, que acolheu representantes de cerca de trinta (30) países. A brilhante delegação brasileira cativou todos os olhares e atenções: Izabelle Valladares com sua oratória veemente e emocionada; Bernadete Saidelles e Eva Potiguara com a força de suas vozes poéticas, origens e legados.

Como os violinos romenos modulam melodias de dor e júbilo, também a literatura brasileira faz vibrar seus ritmos marcantes, ora suaves como uma bossa-nova ou chorinho, ora candentes como o samba de raiz ou o batuque ancestral que emana de nossas matrizes afro-indígenas.

A identidade multifacetária denota a literatura brasileira hodierna, feita de todos os cantos com sol e tempestades, com sonhos que resistem, com dores que dançam.

A brasilidade deu o tom em Bucareste, com sua potência lírica, crítica, inventiva, popular e vibrante, descortinando-se em horizontes de fraternidade, beleza, esperança e resiliência. E no diálogo intercultural, ganha a oportunidade de reafirmar a sua universalidade. A pulsação viva da criação literária brasileira, ao se fazer ouvir em solo romeno, vibra na mesma cadência em que Eminescu sonhou a imortalidade da poesia e Brâncuși plasmou na matéria a busca do infinito.

Gostaria que o mundo ouvisse, com a mesma reverência que têm por Neruda ou Lorca, nomes como Cecília Meireles e sua poética intimista e visceral; Drummond e sua caneta-diamante que lapida pedras em jóias poéticas; Conceição Evaristo e seu grito lírico ancestral e visceral que fura silêncios; Manuel Bandeira e seus versos descomedidos; Manoel de Barros e seu lirismo de “apanhar” desperdícios; Hilda Hilst, que ousou fundir o erótico e o metafísico; e Augusto dos Anjos, cuja visceralidade poética ainda hoje nos arrebata, pela modernidade, entre tantos outros!!

Tive a honra de doar exemplares de Requintes de Sensibilidade, Eclipser e SolRidente ao adido cultural Ronaldo Vieira e à professora PhD Alina Bianca Andreica.

Esses gestos simples, mas carregados de simbolismo, reafirmaram a missão de estarmos lá: semear integração, firmar laços, edificar pontes.

Lembro também da noite mágica de 18 de setembro, nos jardins do Museu de Literatura, quando entreguei um exemplar de SolRidente ao artista romeno Vlad Galatianu, que, para nossa surpresa, encerrou a programação da data com uma apresentação de bossa nova. Foi como se Brasil e Romênia se dessem as mãos em forma de música.

Um dos momentos mais emocionantes foi nossa visita no dia 19 ao Liceul Teoretic Eugen Lovinescu, o maior centro de ensino de língua portuguesa vinculado ao Instituto Camões na Romênia.

Encontramos jovens vibrantes, curiosos, que recitaram, perguntaram, sonharam conosco. Doamos livros, conversamos, trocamos impressões.

Percorremos os corredores adornados com as placas da Expo Romênia 2025, onde minhas obras Indizível, Gritantes Feições, Voz Incorruptível, Olhares Fugidios e Amor Genuíno estavam expostas.

Ali percebi: a poesia é mesmo o idioma universal da fraternidade e da paz, capaz de dialogar mesmo com os corações mais hostis.

Mas a arte poética não ficou limitada aos palcos e auditórios. Bucareste nos ofereceu também sua arquitetura monumental — o Parlamento, a herança histórica de uma cidade pujante — e a beleza de espaços como o Castelo de Peles, em Sinaia, e a Igreja Negra de Brașov.

Vivenciamos confraternizações memoráveis, como o encontro no restaurante The Mark, onde a delegação brasileira alinhavou estratégias, riu, partilhou confidências e fortaleceu laços de amizade.

Houve também instantes mais descontraídos no centro da cidade, explorando a vida noturna e a gastronomia romena — porque a cultura se usufrui também à mesa.

Em cada esquina de Bucareste, em cada olhar trocado, em cada aplauso sentido, percebi que a poesia não é apenas literatura: é diplomacia, é afeto, é história, é resistência.

Sou efusivamente grato a Deus, à minha família, à Literarte, à Embaixada do Brasil, ao Itamaraty, ao Museu Nacional da Literatura Romena, à Gabriela Toma e a todos que tornaram esse encontro possível.

Volto ao Brasil com a certeza de que a poesia pode, sim, transformar o mundo — verso a verso, encontro a encontro. E deixo aqui o convite: sigamos juntos, porque a minha longa travessia literária, de costa a costa, está apenas no início. Que novos e atuais poetas, contemporâneos e vivos, possam romper fronteiras e serem com justeza reconhecidos além-mares graças à sua vastidão criativa.

Pietro Costa

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