Dispo as lágrimas

Jacob Kapingala: Poema ‘Dispo as lágrimas’

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Dispo as lágrimas que me vestem,
Sem medo nem vergonha de ninguém.
Não temo que vejam a nudez do meu rosto,
Que sempre esteve no lado oposto.

Rumarei em busca de um novo traje,
Numa grande velocidade como quem foge,
Da tempestade iminente,
E da dor persistente.

Dispo as lágrimas que me vestem,
E visto-me de alegria que só faz bem.
Pego no sorriso que há muito se foi,
E dou-lhe um abraço com esta alma que ainda dói.

E se no meu caminhar,
A alegria não encontrar,
Vou preferir a nudez do meu rosto,
A viver com lágrimas que só trazem desgosto.

Jacob Kapingala

Jacob Kapingala
Jacob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar no papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos

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Meu garimpo poético

Sandra Albuquerque: ‘Meu garimpo poético’

Sandra Albuquerque
Sandra Albuquerque
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Todos os dias, desde que aqui cheguei, é um desafio sobreviver.

Da infância, da adolescência, da juventude e, agora, da terceira idade, tudo o que fiz de melhor aprendi com meus avós e com os livros.

Desde os oito anos de idade, me pego escrevendo pensamentos e saudades, lembranças de um tempo que jamais voltará.

Mas cada poema, cada crônica ou conto, são filhos meus que nascem do âmago da alma. Então, na hora de esboçá-los no miolo de um livro, faço um verdadeiro garimpo poético.

São inúmeras dúvidas! E com elas, novas ideias surgem. Criações em cima de criações.

Vejo-me numa viagem e as palavras vão surgindo como estrelas ou borboletas encantadas.

Pura emoção: choro e rio. Só quem escreve sabe a que estou me referindo. Quantas vezes algumas pessoas me perguntaram se eu estava apaixonada, e outras, se eu estava triste, ao lerem meus textos. E eu, simplesmente, respondi: “Poetizar é desnudar a alma e escrever nas entrelinhas do tempo entre a fantasia e a realidade.”

Nem tudo que se escreve é real. Muitas vezes, são voos da imaginação. Outras vezes, são fatos narrados ou avistados pelo autor.

A lauda é um palco, e o autor, simplesmente o protagonista. E, quando as cortinas se abrem, lá estão os seus assíduos leitores como plateia.

Sandra Albuquerque

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Tarde azul de primavera

Evani Rocha: Poema ‘Tarde azul de primavera’

Evani Rocha
Evani Rocha
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Conto os dias e as horas para te ver.
Já reguei o meu jardim,
Em breve as primeiras flores vão aparecer
E chamar as borboletas.
É primavera outra vez…
Eu sei que vais chegar em uma destas tardes
De brisa mansa e sombra na varanda,
Enlaçar meu corpo feito gavinhas…
Conto também as pedras do caminho,
E as centelhas que desprendem de meus olhos
Ao encontro dos teus…
São as luzes que te guiam até mim!
Conto mentalmente as curvas de teu corpo,
E o palpitar ligeiro dentro do meu peito.
Há pouco para entardecer,
O sol já se deita sobre as calçadas de pedra,
Os terreiros de terra, sobre os verdes prados…
Conto as horas enlouquecidas, que escorrem entre meus dedos,
Leves, sedentos… sobre a pele encrespada.
E assim, o sol vai escondendo-se no horizonte alaranjado.
Mais uma vez, rego o meu jardim,
E a mesma água que verte de meus olhos ansiosos,
Encharca a terra, renova as folhas das hortênsias
E abre uma rosa carmim…
Apenas uma rosa, de pétalas sedosas e perfumadas,
No fim desta tarde azul…
Conto o tempo em minutos e segundos,
Tropeço nos números,
Colho os últimos raios de sol,
Que logo se esvaem de minhas mãos,
Para repousar atrás dos montes!
Eu ainda te espero,
Mesmo que seja para os únicos sussurros deste final de tarde,
Ou para a infinitude de teus braços, numa noite enluarada!

Evani Rocha

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Poeta brasileira é selecionada por Dilson Stein

Poeta brasileira é selecionada por Dilson Stein, descobridor de Gisele Bündchen, e une literatura e moda em trajetória inédita

Foto divulgação
Foto divulgação

A poeta, escritora, artista e colunista do ROL Suziene Cavalcante foi selecionada por Dilson Stein, renomado descobridor de talentos responsável por revelar supermodelos como Gisele Bündchen, Alessandra Ambrósio e Caroline Trentini.

Entre milhares de perfis acompanhados pelo Projeto Dilson Stein, Suziene destacou-se por sua fotogenia, autenticidade, expressividade e forte presença diante das câmeras. O reconhecimento foi além da seleção oficial: Dilson Stein demonstrou interesse pelo trabalho e pela imagem da artista, interagindo com suas publicações e convidando-a a conhecer mais de perto o universo da moda.

Com a conquista, Suziene passa a integrar o Projeto Dilson Stein New Models, ampliando sua visibilidade junto a agências e ao mercado publicitário. O feito ganha relevância por unir duas áreas raramente associadas: a literatura e a moda.

A seleção consolida um momento singular em sua trajetória, projetando a poeta para novos espaços de atuação artística e representando um marco simbólico na aproximação entre poesia, comunicação visual e universo fashion.

Além de ter sido escolhida no Projeto Dilson Stein News Models, o próprio Dilson Stein, por meio de seu perfil oficial no Instagram, registrou curtidas em fotografias da poeta (e agora Modelo), demonstrando atenção e descoberta ao seu perfil e à sua expressividade diante das câmeras. Em contato realizado via direct, o descobridor de talentos manifestou alegria em descobrir o potencial fotográfico e artístico da poeta e agora modelo Suzi Cavalcanti, convidando-a a conhecer mais de perto o universo da moda através do Projeto Dilson Stein.

A interação reforçou a impressão positiva causada pela beleza, autenticidade e presença marcante de Suziene nas fotos das redes sociais.

Dessa forma, consolida-se um feito histórico: a primeira vez, na História do Brasil, que a literatura e a poesia também adentram as passarelas, catálogos de moda e marcas no universo model.

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As flores do campo

Laskiaf Amortegui: Poema ‘As flores do campo’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
Imagem criada pela IA do Gemini

As flores do campo
essas, as nossas, jamais voltarão.
​As flores do campo não são as mesmas de ontem…
onde a tua pele com a minha se amaram uma vez.
¡Essas flores do campo, as minhas,
jamais voltarão!
​Uma chuva de lembranças chega à minha mente:
os seus aromas, as suas cores, até os seus sabores;
mas elas já não estão, ¡igual a ti!
​Suave fragilidade onde eu dormia…
Elas amaram-me, e tu?
Os meus lábios provaram o seu néctar,
as pétalas abrigaram a minha pele.
¡As minhas flores já não estão!
Elas morreram… e vos?
​Seguirás no presente de uma lembrança passada.
Momento nostálgico:
o meu belo campo, flores amadas,
horizonte longínquo, viagem sem retorno…
Lágrimas de cristal, sem direito a voltar.
​¡As flores do campo não são as mesmas de ontem!

Laskiaf Amortegui

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Princesa Isabel

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘Princesa Isabel: vida, obra, importância e legado em uma perspectiva historiográfica‘

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A imagem retrata a Princesa Isabel assinando a Lei Áurea, cercada por autoridades e membros da corte imperial. A cena representa a abolição da escravidão no Brasil em 13 de maio de 1888. A composição destaca a importância histórica, política e social desse acontecimento. A arte também apresenta a identificação do
jornalista, pesquisador e historiador Alexandre Rurikovich Carvalho, autor do artigo, e do JORNAL CULTURAL ROL. Imagem criada por IA.

Introdução

A princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de  Bragança e Bourbon-Orléans (1846-1921) ocupa lugar singular na história do Brasil  imperial por ter sido herdeira do trono, regente em momentos decisivos e figura associada à  abolição da escravidão. Este artigo analisa sua trajetória biográfica, sua formação intelectual  e religiosa, sua atuação nas regências, o papel simbólico e institucional que desempenhou na  assinatura da Lei Áurea e os desdobramentos políticos e sociais de sua ação. A pesquisa  adota abordagem histórico-bibliográfica, com apoio em literatura especializada e em fontes  digitais de referência, buscando evitar tanto a hagiografia quanto a redução de Isabel a uma  personagem secundária. Argumenta-se que sua importância reside menos na ideia de ação  isolada e mais na posição estratégica que ocupava no final do Império, quando a crise da  escravidão, a pressão abolicionista e o enfraquecimento da monarquia se cruzaram. O  estudo também discute a memória pública da princesa, sua imagem de “Redentora” e as  controvérsias historiográficas em torno de seu legado. Conclui-se que Isabel deve ser  compreendida como figura de transição entre a ordem escravista e o Brasil pós-abolição,  cujo nome permanece ligado a um dos mais significativos marcos políticos do século XIX  brasileiro.

Palavras-chave: Princesa Isabel; abolição da escravidão; Lei Áurea; Império do Brasil;  historiografia.

Infância, formação e educação 

Isabel nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1846, filha de Dom Pedro II e da  imperatriz Teresa Cristina. Cresceu no ambiente da corte imperial, em um contexto em que  sua posição sucessória lhe impunha uma formação cuidadosa, destinada a prepará-la para o  exercício eventual do poder constitucional. Desde a infância, recebeu uma educação  marcada por forte disciplina intelectual, com estudos de literatura, línguas, história, filosofia,  astronomia, geografia, ciências naturais e religião. 

A responsabilidade de formar a futura soberana coube a mestres brasileiros e estrangeiros,  com destaque para a condessa de Barral, que desempenhou papel importante em sua  instrução. Os cadernos de lições preservados pela família imperial mostram que Dom Pedro  II acompanhava de perto a educação das filhas, sobretudo no que dizia respeito às  humanidades e à economia política, consideradas essenciais à formação de uma governante.  Esse dado é relevante porque revela que Isabel não foi apenas uma figura ornamental da  corte, mas alguém educada para compreender o funcionamento do Estado e da  administração imperial. 

Além da instrução formal, sua formação foi profundamente marcada pela religiosidade  católica e por uma visão moral da vida pública. A princesa leu textos religiosos, manteve  práticas devocionais e construiu uma imagem de piedade que mais tarde influenciaria sua  atuação política e sua relação com a questão da escravidão. Essa combinação entre cultura  letrada, moral cristã e expectativa dinástica moldou sua personalidade e sua atuação como  regente.

Casamento, família e vida privada 

Em 1864, Isabel casou-se com o príncipe Gastão de Orléans, Conde d’Eu, união que teve  dimensões tanto afetivas quanto políticas. O casamento aproximou a Casa de Bragança de  uma importante linhagem europeia e reforçou o perfil dinástico da princesa dentro do  sistema monárquico. Do matrimônio nasceram três filhos: Pedro de Alcântara, Luís e Antônio  Gastão. 

A vida privada de Isabel foi marcada por uma forte valorização da família e da religião.  Diferentemente da imagem de líder política que a tradição posterior ressaltou, ela viveu  grande parte do tempo em espaços de intimidade doméstica, alternando os deveres de mãe,  esposa e princesa imperial. Relatos biográficos indicam que se dedicava à organização do  lar, ao cuidado com os filhos e às práticas de caridade, o que contribuiu para consolidar sua  imagem de mulher virtuosa, piedosa e comprometida com ideais de serviço. 

Esse aspecto doméstico de sua trajetória é importante porque ajuda a entender como Isabel  conciliou, em sua atuação pública, valores pessoais conservadores com gestos políticos de  grande impacto social. Sua identidade foi construída na interseção entre o papel feminino  esperado pela elite imperial e a excepcionalidade de sua posição sucessória.

Atuação política e as regências do Império

A trajetória política da princesa Isabel encontra-se profundamente vinculada às três  regências que exerceu em nome de Dom Pedro II, entre as décadas de 1870 e 1880, período  em que o Império brasileiro atravessava intensas transformações econômicas, sociais e  institucionais. As ausências do imperador, motivadas sobretudo por viagens internacionais  em busca de tratamento de saúde e intercâmbio cultural, abriram espaço para que a herdeira  assumisse temporariamente as funções de chefe de Estado, permitindo-lhe experiência  direta no exercício do poder político.

A primeira regência ocorreu em 1871, justamente em um momento decisivo para a  chamada “questão servil”. O país vivia crescente pressão internacional contra a  escravidão, enquanto setores urbanos, intelectuais liberais, jornalistas e associações  abolicionistas ampliavam críticas ao sistema escravista. Paralelamente, mudanças  econômicas relacionadas à expansão cafeeira e ao avanço gradual do trabalho livre  começavam a alterar as bases tradicionais da sociedade imperial. Nesse cenário, Isabel  passou a atuar em um Estado ainda sustentado pela escravidão, mas progressivamente  tensionado pela necessidade de reformas estruturais. 

No plano institucional, a condição de regente atribuía à princesa prerrogativas formais de  chefe de Estado. Cabia-lhe sancionar leis, assinar decretos, nomear ministros, receber  representantes diplomáticos e supervisionar o funcionamento do aparelho administrativo  imperial. Embora o parlamentarismo brasileiro do Segundo Reinado limitasse parcialmente a  autonomia do monarca, uma vez que os gabinetes ministeriais exerciam grande influência  sobre a condução política, a figura da regente possuía importância simbólica e constitucional  significativa. 

Durante muito tempo, parte da historiografia tradicional interpretou Isabel como personagem  secundária, subordinada integralmente às orientações de Dom Pedro II e dos ministros  conservadores. Contudo, pesquisas mais recentes têm relativizado essa visão, demonstrando  que a princesa participou ativamente de debates políticos, analisou projetos legislativos,  dialogou com parlamentares e manifestou opiniões próprias sobre temas centrais do período,  especialmente aqueles relacionados à escravidão e às reformas sociais. 

A atuação política de Isabel deve ser compreendida dentro das limitações impostas pela  cultura política patriarcal do século XIX. Apesar de ocupar legitimamente a posição de  herdeira constitucional, sua autoridade frequentemente era vista com desconfiança por  parcelas da elite política e militar, que associavam o exercício do poder à liderança  masculina. Assim, a princesa encontrava-se permanentemente submetida a uma tensão  estrutural: precisava exercer funções soberanas sem romper completamente com os  padrões de feminilidade aristocrática esperados para uma mulher da corte. 

Além disso, sua atuação era constantemente mediada por figuras masculinas próximas,  sobretudo o conde d’Eu e os chefes de gabinete ministerial. Ainda assim, documentos  epistolares, atas parlamentares e registros administrativos revelam que Isabel possuía  capacidade de formulação política própria, particularmente no que dizia respeito à questão  abolicionista. Sua formação religiosa e sua percepção moral da escravidão influenciaram  significativamente suas posições públicas, aproximando-a gradualmente de setores  favoráveis ao fim da instituição escravista. 

Entre as medidas mais importantes sancionadas durante suas regências, destacam-se  três marcos fundamentais do processo abolicionista brasileiro. 

A primeira delas foi a Lei do Ventre Livre, oficialmente Lei nº 2.040, de 28 de setembro de  1871. Aprovada durante sua primeira regência, a legislação determinava que os filhos de  mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data seriam considerados livres. Embora  mantivesse mecanismos de tutela e indenização aos proprietários, a lei rompeu juridicamente  com o princípio da transmissão hereditária da condição escrava. Embora limitada em seus  efeitos imediatos, a medida representou importante ruptura institucional com a lógica que  sustentava a reprodução legal da escravidão. Sob a perspectiva historiográfica, a Lei do 

Ventre Livre é frequentemente considerada o primeiro grande abalo promovido pelo Estado  imperial contra os fundamentos jurídicos do sistema escravista. 

Outro marco relevante foi a Lei dos Sexagenários, Lei nº 3.270, de 28 de setembro de  1885, sancionada em um contexto de crescente desgaste do regime escravista. A medida  concedia liberdade aos escravizados com mais de sessenta anos, embora previsse períodos  adicionais de trabalho compulsório como forma de compensação aos proprietários. Ainda  que limitada em alcance prático, em razão da baixa expectativa de vida da população cativa,  a lei possuía expressivo valor simbólico, evidenciando o enfraquecimento progressivo da  legitimidade da escravidão perante o Estado imperial. 

Finalmente, durante a terceira regência, Isabel sancionou a Lei Áurea, Lei nº 3.353, de 13  de maio de 1888, extinguindo oficialmente a escravidão no Brasil sem previsão de  indenização aos senhores. Com apenas dois artigos, a legislação encerrou juridicamente  mais de três séculos de escravidão em território brasileiro. O ato projetou nacional e  internacionalmente a imagem da princesa como “a Redentora”, consolidando sua associação  simbólica com a causa abolicionista. 

Entretanto, os estudos historiográficos mais recentes têm insistido na necessidade de  interpretar a Lei Áurea não como resultado exclusivo da vontade individual da princesa, mas  como culminância de um processo histórico amplo e multifacetado. A abolição resultou da  atuação conjunta de parlamentares reformistas, jornalistas, intelectuais, clubes abolicionistas,  setores urbanos, associações negras e, sobretudo, da resistência protagonizada pelos  próprios escravizados. 

Fugas coletivas, formação de quilombos, redes clandestinas de auxílio, rebeliões,  negociações cotidianas e ações judiciais contribuíram decisivamente para corroer a  capacidade de reprodução do sistema escravista. Em diversas províncias, especialmente ao  longo da década de 1880, observou-se um progressivo colapso da disciplina senhorial,  acompanhado pelo aumento das evasões de cativos e da mobilização popular em favor da  liberdade. 

Nesse contexto, Isabel desempenhou papel institucional decisivo ao sancionar juridicamente  medidas que consolidaram o desmonte legal da escravidão. Sua atuação, contudo, deve ser  compreendida em articulação com pressões sociais, econômicas e políticas mais amplas. A  princesa situava-se, portanto, no ponto de encontro entre Estado, monarquia e movimento  abolicionista, tornando-se símbolo político de uma transformação histórica construída por  múltiplos agentes e marcada por intensas disputas sociais. 

As consequências da abolição, entretanto, tiveram efeitos ambíguos para a própria  monarquia. Se, por um lado, a assinatura da Lei Áurea ampliou significativamente a  popularidade de Isabel entre setores populares e grupos abolicionistas, por outro provocou  uma ruptura profunda entre o regime imperial e parcelas expressivas da elite agrária  escravista, especialmente os grandes proprietários de café do Vale do Paraíba e do Oeste  Paulista. Muitos desses grupos passaram a aderir ao republicanismo, interpretando a  abolição sem indenização como uma afronta aos seus interesses econômicos.

Dessa forma, a atuação política de Isabel durante as regências insere-se em um dos  momentos mais delicados da história imperial brasileira: a transição entre uma ordem  escravista monárquica e uma sociedade que, embora juridicamente livre, continuaria  marcada por profundas desigualdades sociais e raciais. 

Nesse sentido, as regências da princesa Isabel constituem um observatório privilegiado para  compreender as tensões que marcaram os anos finais do Império. Sua trajetória política  revela simultaneamente os limites institucionais da monarquia brasileira, os desafios  enfrentados por uma mulher em posição de poder no século XIX e as profundas  transformações que conduziram o país à abolição da escravidão e, pouco depois, à  Proclamação da República.

A abolição da escravidão e o papel da princesa Isabel 

A abolição da escravidão constitui, sem dúvida, o capítulo mais emblemático e amplamente  estudado da trajetória política da princesa Isabel. Mais do que um episódio isolado da história  imperial, o fim da escravidão representa uma das mais profundas transformações sociais,  econômicas e jurídicas da história brasileira, encerrando formalmente um sistema que  estruturara a sociedade colonial e imperial durante mais de três séculos. A assinatura da Lei  Áurea, em 13 de maio de 1888, projetou Isabel para o centro da memória nacional,  consolidando sua imagem como símbolo da libertação dos escravizados e atribuindo-lhe o  título de “a Redentora”. 

Todavia, a historiografia contemporânea tem problematizado as interpretações tradicionais  que colocavam a princesa como protagonista exclusiva do processo abolicionista. Se,  durante décadas, predominou uma leitura de caráter laudatório e quase hagiográfico  frequentemente associada à memória monárquica e à construção de uma narrativa heroica  do Império, estudos mais recentes passaram a enfatizar a complexidade histórica da abolição  e a multiplicidade de sujeitos envolvidos em sua construção. 

Nessa perspectiva, a assinatura da Lei Áurea deve ser compreendida não como ato isolado  de benevolência régia, mas como culminação institucional de um longo processo de  desgaste da ordem escravista. Tal processo envolveu pressões internacionais,  transformações econômicas, mobilizações populares, resistência escrava e intensa  articulação política conduzida por diferentes setores da sociedade brasileira. 

Ao longo da segunda metade do século XIX, o sistema escravista passou a sofrer crescente  erosão estrutural. A expansão do capitalismo industrial, a pressão diplomática britânica  contra o tráfico negreiro, o avanço das ideias liberais e humanitárias e a gradual substituição  do trabalho escravo por formas de trabalho livre alteraram significativamente o cenário  econômico do Império. Paralelamente, a urbanização crescente de cidades como Rio de  Janeiro, Recife e Salvador favoreceu o surgimento de novos espaços de sociabilidade  política, ampliando o alcance das campanhas abolicionistas. 

Nesse contexto, multiplicaram-se associações emancipatórias, clubes abolicionistas, jornais  militantes, conferências públicas e campanhas de arrecadação para compra de alforrias.  Intelectuais, jornalistas, juristas, estudantes, militares, artistas e parlamentares passaram a  integrar um movimento cada vez mais amplo em defesa da extinção da escravidão. Figuras  como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luís Gama, Silva Jardim e André Rebouças  assumiram papel central nos debates públicos sobre a questão servil.

A historiografia contemporânea também destaca o protagonismo dos próprios escravizados  no processo abolicionista. Fugindo das fazendas, organizando quilombos, promovendo  revoltas, negociando coletivamente melhores condições de vida e recusando-se  crescentemente ao trabalho compulsório, homens e mulheres escravizados contribuíram  decisivamente para o colapso da disciplina senhorial. Em diversas províncias, sobretudo na  década de 1880, verificou-se verdadeira crise da autoridade dos proprietários rurais,  incapazes de manter intacto o sistema de coerção escravista. 

É nesse cenário de crescente instabilidade que se deve compreender o papel político  desempenhado pela princesa Isabel. A atuação da regente, embora relevante, estava  inserida em uma ampla rede de pressões sociais e institucionais. Estudos historiográficos  recentes, particularmente os desenvolvidos por Roderick J. Barman, Martha Abreu e Hebe  Mattos, sugerem que Isabel não foi a “criadora” do movimento abolicionista, mas uma figura  institucional decisiva na consolidação jurídica de um processo já em curso. 

A interpretação de Barman, em especial, enfatiza que a aproximação mais intensa da  princesa com a causa abolicionista ocorreu nos anos imediatamente anteriores à Lei Áurea.  Diversos episódios reforçam essa percepção: sua participação em ações filantrópicas, o  apoio financeiro a fundos de emancipação, o acolhimento de escravizados fugidos em  Petrópolis e a proximidade com intelectuais abolicionistas ligados à corte, como André  Rebouças. Tais atitudes demonstram sensível adesão moral à causa da liberdade, embora  não configurem militância política direta nos moldes dos grandes líderes públicos do  movimento. 

De fato, Isabel não atuava como agitadora de massas, oradora popular ou organizadora de  campanhas de rua. Sua intervenção ocorria sobretudo por meio da esfera institucional e da  autoridade simbólica da monarquia. Sua visão acerca da escravidão parecia estar fortemente  ancorada em princípios religiosos, em noções de caridade cristã e em uma compreensão  moral da dignidade humana, mais do que em uma análise sistemática das estruturas  econômicas da escravidão. 

Essa dimensão religiosa de sua atuação tornou-se particularmente evidente na construção  posterior de sua imagem pública. A propaganda monárquica e setores católicos passaram a  representar Isabel como instrumento providencial da libertação, reforçando a associação  entre a princesa e uma missão moral de caráter quase messiânico. O título de “Redentora”,  amplamente difundido após 1888, integrava esse processo de sacralização simbólica da  figura imperial. 

A Lei Áurea, sancionada em 13 de maio de 1888, possuía redação extremamente breve.  Composta por apenas dois artigos, extinguia definitivamente a escravidão no Brasil sem  prever indenização aos proprietários de escravizados. A ausência de compensações  financeiras provocou profundo ressentimento entre parcelas da elite agrária, especialmente  grandes cafeicultores do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista, muitos dos quais passaram a  afastar-se politicamente da monarquia após a abolição. 

Diversos historiadores interpretam essa ruptura como um dos fatores que aceleraram o  enfraquecimento do regime imperial nos meses que antecederam a Proclamação da  República, em 1889. Setores escravistas passaram a considerar a monarquia incapaz de  proteger seus interesses econômicos, enquanto parte significativa do Exército e das elites  urbanas já demonstrava crescente simpatia pelo republicanismo.

Apesar do enorme significado jurídico e simbólico da Lei Áurea, a abolição não foi  acompanhada de políticas estruturais de integração social dos libertos. Não houve  distribuição de terras, programas amplos de educação pública, políticas de reparação  econômica ou mecanismos eficazes de inserção cidadã da população negra recém-liberta.  Dessa maneira, embora a liberdade legal tenha sido conquistada, as estruturas de  desigualdade racial e exclusão socioeconômica permaneceram profundamente enraizadas  na sociedade brasileira. 

A sociologia e a historiografia posteriores demonstraram que grande parte dos ex escravizados foi incorporada a formas precárias de trabalho, ocupações de baixa  remuneração e relações marcadas por discriminação racial persistente. A ausência de  políticas públicas de inclusão contribuiu para a perpetuação de desigualdades que  atravessariam toda a história republicana brasileira. 

Sob perspectiva historiográfica contemporânea, o papel da princesa Isabel deve, portanto,  ser interpretado de maneira equilibrada: nem reduzido à imagem mítica da “salvadora  solitária” da população escravizada, nem completamente descartado como irrelevante diante  das forças sociais mais amplas. Sua importância histórica reside sobretudo no fato de ter  ocupado posição institucional estratégica em um momento decisivo da história brasileira,  sancionando juridicamente o fim da escravidão e tornando-se símbolo político de uma  transformação que vinha sendo construída por múltiplos agentes sociais ao longo de  décadas. 

Assim, a figura de Isabel permanece no centro de debates historiográficos não apenas sobre  a abolição, mas também sobre memória, poder, gênero, religião e construção das narrativas  nacionais no Brasil pós-escravista. 

Consequências da Lei Áurea

A abolição da escravidão representou uma transformação jurídica fundamental na história  brasileira, mas não eliminou os problemas sociais herdados de mais de três séculos de  regime escravista. A população liberta passou a enfrentar profundas dificuldades de inserção  econômica e social, sem acesso amplo à terra, à educação ou a políticas públicas que  garantissem condições efetivas de cidadania. 

No campo econômico, a extinção do trabalho escravo acelerou a consolidação das relações  de trabalho livre e favoreceu a expansão de novos modelos produtivos, sobretudo na  cafeicultura e nos centros urbanos. Simultaneamente, intensificou-se a política de incentivo à  imigração europeia, que contribuiu para redefinir a composição da força de trabalho no país. 

Politicamente, a Lei Áurea ampliou o isolamento da monarquia entre setores da elite agrária,  especialmente entre proprietários que defendiam indenizações pela perda dos escravizados.  Esse afastamento contribuiu para o enfraquecimento do regime imperial e para o ambiente  que culminaria na Proclamação da República em 1889. 

A relevância histórica da princesa Isabel transcende o ato formal de sancionar a Lei Áurea.  Como regente do Império, ela ocupou posição decisiva no momento em que o Estado  brasileiro extinguiu juridicamente a escravidão, tornando-se um dos principais símbolos  desse processo histórico.

Sua memória, entretanto, permanece objeto de interpretações distintas. Enquanto algumas  correntes destacam sua adesão à causa abolicionista e sua importância institucional, outras  enfatizam os limites de uma visão que atribui a abolição a uma única personalidade,  ressaltando o protagonismo dos movimentos sociais, dos intelectuais abolicionistas e,  sobretudo, da população escravizada. 

Além disso, sua trajetória oferece importante campo de reflexão sobre a participação  feminina nos espaços de poder do século XIX. Em uma sociedade predominantemente  masculina, Isabel exerceu funções políticas de grande relevância, tornando-se personagem  central para os estudos sobre gênero, autoridade e representação política no Brasil imperial. 

Sob a perspectiva da historiografia contemporânea, a princesa Isabel deve ser compreendida  não como única responsável pela abolição, mas como uma agente política relevante em um  processo histórico complexo e multifacetado. Sua atuação institucional foi decisiva para a  formalização jurídica do fim da escravidão, ao mesmo tempo em que sua imagem  permaneceu profundamente vinculada à memória nacional da liberdade. 

Por essa razão, Isabel continua ocupando lugar de destaque nos estudos sobre a história do  Brasil oitocentista, constituindo uma figura fundamental para a compreensão das relações  entre monarquia, abolição, memória histórica e construção das identidades nacionais. 

Sensibilidade humanitária e compromisso com a causa da liberdade 

Além de sua atuação institucional, a princesa Isabel desenvolveu ao longo da vida uma  imagem associada à caridade, à assistência social e à defesa de princípios humanitários  inspirados por sua profunda religiosidade católica. Desde a juventude, participou de obras  beneficentes, instituições de assistência e iniciativas voltadas ao amparo de populações  vulneráveis, prática comum entre membros da família imperial, mas que nela assumiu  particular relevância. 

No contexto da crise do sistema escravista, sua sensibilidade humanitária aproximou-a  progressivamente da causa abolicionista. Diversos relatos da época e estudos posteriores  indicam que Isabel demonstrava crescente desconforto moral diante da escravidão,  compreendendo-a como incompatível com os valores cristãos que orientavam sua formação  pessoal. 

Entre os episódios frequentemente mencionados pela historiografia e pela tradição  memorialística destacam-se seu apoio a fundos de emancipação destinados à compra de  alforrias, sua proximidade com líderes abolicionistas, como André Rebouças, e a proteção  concedida a escravizados que buscavam refúgio em propriedades ligadas à família imperial  na região de Petrópolis. Embora alguns desses relatos sejam objeto de debate entre os  historiadores quanto à sua extensão e alcance, eles contribuem para compreender a imagem  pública construída em torno da princesa ainda durante sua vida. 

Sua adesão à causa da liberdade não se expressava por meio da militância política direta ou  da liderança de movimentos populares, mas principalmente através de sua influência moral,  de ações filantrópicas e do apoio institucional a medidas que conduzissem gradualmente ao  fim da escravidão. Essa postura contribuiu para consolidar sua reputação como figura  sensível às questões sociais e fortaleceu a associação entre sua imagem e o movimento  abolicionista.

Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, essa percepção foi amplamente difundida pela  imprensa favorável à monarquia e por setores católicos, que passaram a apresentar Isabel  como símbolo de compaixão, justiça e defesa da dignidade humana. Embora a historiografia  contemporânea procure analisar essa representação de forma crítica e contextualizada,  permanece amplamente reconhecido que a princesa demonstrou genuína simpatia pela  causa da emancipação e desempenhou papel relevante na consolidação política e jurídica do  processo abolicionista brasileiro. 

Exílio, morte e memória 

Após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a família imperial brasileira  foi obrigada a deixar o país, iniciando um longo período de exílio na Europa. Acompanhada  do marido, o conde d’Eu, e de seus filhos, a princesa Isabel estabeleceu-se inicialmente em  Portugal e, posteriormente, na França, onde viveria a maior parte de seus últimos anos. O  afastamento definitivo da vida política brasileira marcou profundamente sua trajetória,  obrigando-a a acompanhar à distância as transformações ocorridas no país sob o novo  regime republicano. 

Embora permanecesse como principal representante da causa monárquica após a morte de  Dom Pedro II, em 1891, Isabel exerceu papel político limitado durante o exílio. Suas  atividades concentraram-se sobretudo na vida familiar, na prática religiosa e na preservação  da memória da monarquia deposta. Ainda assim, manteve correspondência com  simpatizantes monarquistas e acompanhou atentamente os debates políticos que envolviam  o futuro da antiga Casa Imperial brasileira. 

O exílio contribuiu significativamente para a transformação de Isabel de personagem política  em figura memorial. Distante das disputas cotidianas do poder, sua imagem passou a ser  cada vez mais associada à abolição da escravidão e aos valores de devoção religiosa,  caridade e compromisso moral. Progressivamente, consolidou-se uma representação pública  que enfatizava menos sua atuação concreta como regente e mais seu papel simbólico na  história nacional. 

A princesa Isabel faleceu em 14 de novembro de 1921, no Castelo d’Eu, na França, aos  setenta e cinco anos de idade. Sua morte encerrou uma trajetória diretamente vinculada aos  momentos decisivos do Segundo Reinado e ao processo de abolição da escravidão.  Somente décadas mais tarde, em 1953, seus restos mortais seriam trasladados para o Brasil,  sendo atualmente preservados na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis. 

A construção de sua memória histórica ocorreu de formas diversas e, por vezes,  contrastantes. Em setores monarquistas e católicos, consolidou-se a imagem de uma  princesa profundamente piedosa, caridosa e comprometida com a causa da liberdade,  frequentemente celebrada como “a Redentora”. Em contrapartida, a historiografia  contemporânea passou a analisar sua atuação de maneira mais crítica e contextualizada,  enfatizando tanto sua relevância institucional quanto os limites de interpretações que  atribuem exclusivamente à princesa a responsabilidade pelo fim da escravidão. 

Os estudos mais recentes têm procurado compreender Isabel como parte de um processo  histórico mais amplo, marcado pela atuação de movimentos abolicionistas, parlamentares  reformistas, intelectuais, associações civis e, sobretudo, pela resistência protagonizada pela 

população escravizada. Sob essa perspectiva, sua importância não é diminuída, mas inserida  em um contexto mais complexo e historicamente fundamentado. 

Assim, a memória da princesa Isabel permanece marcada por permanentes disputas de  interpretação. Sua trajetória continua a suscitar reflexões sobre a abolição da escravidão, a  monarquia, a participação feminina na política, a construção das memórias nacionais e os  diferentes modos pelos quais a sociedade brasileira interpreta o seu passado. Mais de um  século após sua morte, Isabel permanece como uma das personagens mais conhecidas,  debatidas e simbolicamente significativas da história do Brasil. 

Conclusão 

A princesa Isabel ocupa lugar singular na história do Brasil. Sua trajetória foi marcada por  uma formação rigorosa, profunda religiosidade, responsabilidades dinásticas e pelo exercício  formal do poder em um período de intensas transformações políticas e sociais. Seu ato mais  conhecido, a sanção da Lei Áurea, encerrou juridicamente a escravidão no país e tornou seu  nome indissociável de um dos acontecimentos mais significativos da história brasileira. 

Ao mesmo tempo, sua importância histórica não pode ser compreendida isoladamente do  contexto mais amplo da crise do Império e da luta abolicionista. A abolição resultou de um  processo coletivo e multifacetado, construído pela atuação de movimentos sociais,  intelectuais, parlamentares, associações civis e, sobretudo, pela resistência da população  escravizada. Nesse cenário, Isabel desempenhou papel institucional decisivo, ainda que não  exclusivo, na consolidação jurídica do fim da escravidão. 

Seu legado revela-se, portanto, simultaneamente político, institucional, simbólico e  historiográfico. Admirada por alguns como símbolo da liberdade e analisada criticamente por  outros à luz das limitações da monarquia e das insuficiências do processo de emancipação, a  princesa permanece como personagem central dos debates sobre a formação do Brasil  contemporâneo. 

Figura de transição entre o mundo escravista do século XIX e a sociedade que emergiu após  a abolição, Isabel continua despertando interesse de historiadores, pesquisadores e do  público em geral. O estudo de sua vida e de sua atuação permite compreender não apenas  os últimos anos do Império, mas também as complexas relações entre poder, memória,  gênero, escravidão e construção das narrativas históricas nacionais. Mais de um século após  sua morte, sua trajetória permanece como um dos temas mais relevantes para a  compreensão da história política e social do Brasil. 

REFERÊNCIAS 

ABREU, Martha. Cultura popular, festas e tradição no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,  1999. 

BARMAN, Roderick J. Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX. Tradução de Luiz  Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. 

BRASIL ESCOLA. Princesa Isabel: biografia, abolição, fuga do Brasil, morte. 2024. Disponível em:  https://brasilescola.uol.com.br/biografia/princesa-isabel.htm. Acesso em: 30 mai. 2026.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. 7. ed. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 2019. 

CARVALHO, José Murilo de. Teatro de sombras: a política imperial. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização  Brasileira, 2019. 

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 28. ed. Rio de Janeiro: Civilização  Brasileira, 2024. 

CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte.  São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 

EBIOGRAFIA. Biografia de Princesa Isabel. 2021. Disponível em:  

https://www.ebiografia.com/princesa_isabel/. Acesso em: 30 mai. 2026. 

FUNDAÇÃO ESTADUAL DE SAÚDE (FUNESA). ABNT NBR 6023: referências bibliográficas.  Disponível em: https://funesa.se.gov.br/wp-content/uploads/2024/01/ABNT-NBR-6023-Referencias Bibliograficas.pdf. Acesso em: 1 jun. 2026. 

MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista – Brasil,  século XIX. 3. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013. 

MUNDO EDUCAÇÃO. Princesa Isabel: resumo, casamento, filhos, fuga do Brasil. 2025. Disponível  em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/princesa-isabel.htm. Acesso em: 2 jun. 2026. 

NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. São Paulo: Martin Claret, 2000. 

QUERO BOLSA. Lei Áurea: marco histórico e transformações no Brasil. 2023. Disponível em:  https://querobolsa.com.br/enem/historia-brasil/lei-aurea. Acesso em: 2 jun. 2026. 

QUERO BOLSA. Princesa Isabel: quem foi, Lei Áurea, filhos e morte. 2025. Disponível em:  https://querobolsa.com.br/enem/historia-brasil/princesa-isabel-quem-foi-lei-aurea-filhos-e-morte.  Acesso em: 3 jun. 2026. 

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São  Paulo: Companhia das Letras, 1998. 

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia  das Letras, 2015. 

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ). Cadernos de lições: a educação das  princesas Isabel e Leopoldina nos Paços Imperiais (1850-1864). 2021. Disponível em:  https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UERJ_2d1fd009a90a1d075ce4cb6a33a68015. Acesso em: 3 jun.  2026. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO (UFPE). ABNT NBR 6023:2018. Disponível em:  https://www.ufpe.br/documents/40070/1837975/ABNT+NBR+6023+2018+(1).pdf. Acesso em: 3 jun.  2026.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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Mudança

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora

‘Mudança: a ponte entre quem somos

e quem podemos ser’

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada pélo ChatGPT - 07 de junho de 2025, às 18h
Imagem criada pélo ChatGPT – 07 de junho de 2025, às 18h

A vida é movimento.

Tudo o que existe está em constante transformação. As estações mudam. Os rios mudam seu curso. As árvores perdem suas folhas para florescer novamente. O próprio corpo humano se modifica diariamente, substituindo células, adaptando-se ao ambiente e respondendo aos desafios da existência.

Ainda assim, entre todas as criaturas da natureza, talvez o ser humano seja aquele que mais resiste à mudança.

Queremos novos resultados mantendo os mesmos hábitos. Desejamos uma nova realidade carregando as mesmas crenças. Sonhamos com um futuro diferente enquanto nos agarramos ao conforto do passado.

A palavra mudança costuma despertar sentimentos contraditórios. Para alguns, representa esperança. Para outros, insegurança. Há quem a veja como oportunidade e quem a perceba como ameaça.

Mas existe uma verdade inevitável: mudar não é uma opção. É uma condição da própria vida.

A ciência nos mostra que nosso organismo está em permanente renovação. A pele se regenera. Os ossos se remodelam. O cérebro cria novas conexões neurais ao longo da vida. Biologicamente, somos seres programados para a transformação.

Entretanto, as mudanças mais profundas não acontecem apenas no corpo.

Elas acontecem na forma como enxergamos o mundo.

Uma pessoa pode permanecer décadas na mesma cidade e, ainda assim, transformar-se completamente. Outra pode cruzar continentes e continuar prisioneira dos mesmos medos, das mesmas limitações e dos mesmos padrões.

A verdadeira mudança não começa nos pés.

Começa na mente.

Recentemente vivi uma mudança significativa ao deixar Sorocaba, cidade que marcou minha história, para iniciar uma nova etapa em Joinville. Ao empacotar meus pertences, percebi algo curioso: muitas vezes carregamos muito mais do que caixas.

Carregamos memórias.

Carregamos identidades.

Carregamos versões antigas de nós mesmos.

Em certos momentos da vida, mudar exige coragem para deixar para trás não apenas lugares, mas também pessoas, familiares, amigos, que participaram desta jornada até aqui. 

A filosofia antiga ensinava que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque nem o rio é o mesmo, nem a pessoa permanece igual. A existência é um fluxo contínuo.

Talvez o sofrimento surja justamente quando tentamos congelar aquilo que nasceu para se transformar.

Relacionamentos mudam.

Empresas mudam.

Profissões mudam.

Corpos mudam.

Sonhos mudam.

Nós mudamos.

E isso não deveria ser motivo de medo.

Deveria ser motivo de gratidão.

A mudança é a prova de que estamos vivos.

Do ponto de vista espiritual, existe uma reflexão ainda mais profunda. Muitas tradições ensinam que a evolução humana acontece através de ciclos. Há momentos de construção, momentos de colheita e momentos de desapego.

Nenhuma borboleta nasce sem abandonar o casulo.

Nenhuma árvore cresce sem romper a semente.

Nenhum amanhecer acontece sem que a noite chegue ao fim.

Talvez algumas das mudanças que tanto tememos sejam, na verdade, convites para nos tornarmos aquilo que ainda não tivemos coragem de ser.

Por isso, vale uma pergunta:

O que em sua vida está pedindo mudança neste momento?

Um hábito?

Uma crença?

Uma atitude?

Um relacionamento?

Uma forma de enxergar a si mesmo?

Muitas vezes procuramos respostas fora, quando a transformação começa dentro.

O mundo muda quando mudamos nossa forma de vê-lo.

E talvez o maior desafio não seja mudar de cidade ou de rotina.

Talvez o maior desafio seja permitir que uma nova versão de nós mesmos venha à luz.

Porque toda mudança verdadeira carrega uma despedida.

Mas também carrega um nascimento.

E entre aquilo que deixamos para trás e aquilo que ainda iremos descobrir existe uma ponte invisível chamada coragem.

Atravessa-la é uma escolha.

Mas permanecer parado também é.

E a vida, silenciosamente, continua seguindo adiante.

Joelson Mora

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