Perfect day

Jane Nash: Poem ‘Perfect Day’

Jane Nash
Jane Nash
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Coarse hair against hair against hair
Fingers drum down my scalp
Sleepy eyes open the clock is early
The shower blanket drains over fleshy me
Burnt into the brain black marks sing out
From curved wooden bodies and black hilo strings.

Sweet…… Salty……. Umami……
Smooth liquid strokes the inside of me
Hot in report
Comforting skin and stomach

The sun presses into our cheeks
As our rough hands explore skin investigating
Your powerful arms release me
A moment of weightless existence
Brings a smoothing
Of metal or wood for the delivery of stripey socks

Sweet…. Salty…. Umami
Smooth liquid strokes the inside of me
Hot in report
Comforting skin and stomach

Peaty breath with samphire tones
Waves break over me
Sending me
Away to my deep bed

Jane Nash

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Sombras, concreto e fumaça

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly

‘Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini’

Card da coluna Cinema em Tela - Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini
Card da coluna Cinema em Tela – Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini

Analisando de forma linear as metamorfoses da nossa cinematografia, de forma manente, revela-se fascinante a tentativa brasileira de domar o film noir, em seus acertos e desacertos. É um gênero que, por excelência, nasceu nas sombras da ansiedade pós-guerra americana, mas que encontrou no caos urbano latino-americano um terreno surpreendentemente fértil, adequando-se, quando aplicado de forma original, às nossas peculiaridades antropológicas. No centro desse debate, ergue-se a figura de Remo Bellini, o detetive particular criado por Tony Bellotto e transposto para as telas em ‘Bellini e a Esfinge’, (2001) e ‘Bellini e o Demônio’, de (2008).

A trajetória literária e cinematográfica de Bellini oferece um estudo de caso irretocável sobre como traduzimos a estética do hardboiled para a selva de pedra paulistana, subgênero que caminha de mãos dados com a versatilidade noir e suas derivações nas décadas vindouras e que obedece a um conjunto não escrito de regras. Observa-se comumente um protagonista cínico de moralidade dúbia, a femme fatale que o conduz à ruína, um submundo labiríntico e a corrupção institucionalizada que, não raro, também atua como fonte redenção. No entanto, quando aplicamos essas regras ao cotidiano de São Paulo através de Remo Bellini, elas perdem o glamour dos anos 40 e ganham o peso da desigualdade brasileira, nua e crua, de forma mais intensa – até forçadamente – na segunda adaptação, de 2008.

A moralidade em tons gris dos detetives clássicos, citemos Sam Spade de Hammett e Marlowe de Raymond Chandler, cobravam seus honorários para investigar maridos infiéis, mas mantinham um código de honra cavalheiresco. O Bellini de Fábio Assunção, imerso no cotidiano paulistano, lida com uma realidade muito mais elástica. O “caráter dúbio” no Brasil não é apenas uma escolha filosófica; é uma tática de sobrevivência. Bellini navega por um sistema onde o “jeitinho” dita as regras, fazendo acordos velados com policiais corruptos e informantes marginais porque, em São Paulo, a lei raramente alcança a justiça.

De um lado, se no cinema clássico a sedução do abismo representada pela femme fatale era uma herdeira misteriosa em uma mansão esfumaçada, na São Paulo de Bellini ela se fragmenta nas contradições da cidade. Ela pode ser a prostituta de luxo que transita pelos hotéis da Rua Augusta, a dançarina de um inferninho da Boca do Lixo, ou a esposa entediada dos casarões de bairros nobres, escondendo esquemas de lavagem de dinheiro. Fátima (em A Esfinge) personifica essa mulher letal que usa o próprio corpo e os segredos da alta burguesia como moedas de troca em uma metrópole predatória, intensamente interpretada por Malu Mader.

O submundo, sempre atrativo nas fontes literárias e cinematográficas, eleva-se no gênero como uma personagem individual; na fonte estadunidense, esse vetor contrastava a vida pacata com o submundo do crime, criando extremos díspares. Em Bellini, essa fronteira é dissolvida pelo trânsito caótico e pelos muros altos, o submundo não está escondido em becos; ele divide a mesma calçada com a Faria Lima, a Avenida Paulista e Rua da Consolação. O crime de colarinho branco financia o tráfico nas periferias, e o detetive atua exatamente como o tradutor entre essas duas “realidades” que coexistem na mesma metrópole.

Nos romances, Bellotto criou um anti-herói que bebe da fonte de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, conforme adiantada, mas transpira uísque barato, rock nacional e a poeira moral das delegacias do centro. Caminha pela cidade como que por ela amparado, e, de certa forma, inspirado. A literatura de Bellotto é seca, rítmica e direta, características que desafiam o cineasta a traduzir palavras em imagens sem perder a o fio da trama, afinal, tratam-se de formas distintas de story telling, e que demandam suas especificidades de ritmo.

Quando Roberto Santucci assume a direção de ‘Bellini e a Esfinge’, (2001), vemos a tentativa de estabelecer o mito em celuloide. A adaptação acerta ao mapear o contraste social de São Paulo, embora a película por vezes flerte mais com o thriller policial estilizado dos anos 90 do que com a desolação absoluta do noir. Sete anos depois, ‘Bellini e o Demônio’, dirigido por Marcelo Galvão, propõe uma descida ao inferno.

Se o primeiro filme era um labirinto lógico, o segundo rompe com essa estrutura. A fotografia torna-se mais crua, o contraste salta aos olhos e a trama mergulha no ocultismo e em assassinatos ritualísticos. Galvão aproxima a adaptação do neo-noir mais sujo e visceral, mostrando um Bellini mais cansado e amargo — a verdadeira face do detetive mastigado pelo submundo paulistano que ele mesmo tentou decifrar. Nesses membros, não se omite em lançar mão de um, ainda que fragmentado voice over, característica clássica do gênero, que o enriquece, (quando bem feito, à obviedade). 

Para entender o peso de Bellini, é vital analisar a pavimentação dessa estética no Brasil e observar pelo retrovisor as nossas próprias produções. Em ‘A Dama do Cine Shanghai’, de Guilherme de Almeida Prado, lançado em 1987, o espectador depara-se com uma homenagem consciente e luxuosa das produções dos anos 40, onde o protagonista e a mulher fatal movem-se como peças de um xadrez clássico em um ambiente onírico e artificialmente belo.

Se nesse formato, o noir se descortina como fetiche e fantasia, no filme ‘Cidade Oculta’, (1986), de Chico Botelho, por outro lado, respira a noite real e marginal de São Paulo.  A fotografia é azulada, pouco nítida, como a própria garoa que apelida a cidade, trazendo o tom underground como vetor mais explícito e não deglutível. Essa crueza das ruas, delineia o noir – afinal, filme da noite ou black movie – como realidade e sobrevivência, sem sofisticações estilísticas, mas induzindo metáforas imagéticas, 

Remo Bellini, nos cinemas, atua como a síntese imperfeita entre essas duas vertentes. O personagem carrega a aura romântica de “Cine Shanghai”, mas caminha pelas ruas sujas e lida com o apodrecimento institucional tão bem retratado por “Cidade Oculta”, indicando que ambas as roupagens acabam sendo, de certa forma, indissociáveis. Novamente, a cidade como elemento característica é tão poderosa como um personagem autônomo e igualmente pertinente, como que erigindo-se como uma própria Femme Fatale, que ao mesmo tempo apraz e seduz. E, fatalmente, destrói. Em seu brilhando livro analítico sobre o tema, ‘São Paulo: Cidade Azul’, Andrea Barbosa, (Ed. Alameda, 2012, pg. 106/107), aponta:

“(…) O indivíduo passa a ter um espaço não avistado nos contos de Edgar Alan Poe e nas análises da personalidade metropolitana de Simmel. Eles têm força sozinhos e não precisam da multidão para existir. Contudo, não são outsiders como os personagens de Cidade Oculta. Neste filme de Chico Botelho os protagonistas são personagens noturnos como ratos saídos das tocas ocultas da cidade diurna. Anjo, um ex-presidiário, mora numa draga que revira o lixo do fundo dos rios, Shirley é dançarina de cabaré e vive também de repasse de mercadoria roubada; Ratão, policial corrupto e viciado em drogas e Japa, um ingênuo ladrão que acha que vive num filme policial em que os bandidos são leais uns aos outros. (…) A Dama do Cine Shangai de Guilherme de Almeida Prado, também constrói uma cidade noturna e quase onírica, com personagens extraídos de um imaginário noir norte-americano. Um corretor de imóveis, numa quente noite de verão, vai ao cinema que está com ar refrigerado quebrado para assistir um filme policial. No cinema ele localiza uma bela mulher que parece ter saltado da tela e assim se inicia uma tortuosa história de amor e crimes. O interessante é que esses personagens do mundo cinematográfico (como Suzana, a dama do Cine Shangai) se misturam a personagens “comuns” como o corretor de imóveis. Os dois mundos se imbricam e se refazem. O cinema é o lugar do sonho e do inverossímil tornar-se real. O irreal torna-se verossímil. Neste processo, a cidade noturna, estetizada e onírica, pode revelar sentimentos e vivências da cidade da luz do dia e das situações cotidianas. (…)”

Em ambas as obras — e na literatura de Bellotto —, a cidade de São Paulo não é um mero pano de fundo; ela é a força antagônica principal. A arquitetura brutalista, os viadutos manchados de poluição e os letreiros em neon refletidos no asfalto molhado formam uma mise-en-scène* implacável onde a metrópole devora a inocência, e, de certa forma, desperta instintos. A câmera captura a melancolia de uma megalópole onde a luz do sol parece nunca penetrar a crosta de concreto, observada do alto no escritório da agência de detectives, que nos livros, situa-se no icônico Edifício Itália. 

Em última análise, a transposição de Remo Bellini das páginas de Tony Bellotto para as telas atesta a força do nosso cinema em absorver arquétipos estrangeiros e regurgitá-los com inegável sabor local. Como disse certa vez Ariano Suassuna, o “beber” de outras culturas a fim de que nos enriqueça e não nos paralise, num processo de neocolonização. Longe de ser um mero pastiche dos clássicos americanos, o detetive paulistano consolida a identidade de um detetive genuinamente brasileiro. Um universo onde a corrupção institucional não é apenas o desvio de uma maçã podre, mas a própria raiz do sistema, e onde o cinismo do protagonista se torna a única armadura possível contra o caos.

Em “Esfinge”, identifica-se um escaleta mais clássica e ortodoxa, seguindo o check-list do noir ortodoxo transposto às mazelas brasileiras. No segundo filme, a despeito de algumas falhas que levam a trama a perder-se em alguns momentos, com cenas desnecessárias e não aproveitamento mais contundente do material original, cotejado pelo final que recai no clichê americano, ambas as obras devem ser alisadas conjuntamente. É nesse asfalto rachado e encharcado de melancolia que o nosso cinema criminal encontra sua voz mais visceral, e, por que não dizer, real. 

Marcus Hemerly

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Zé Dadá, o invencível

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Zé Dadá, o invencível’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez –
Foto por Irene Oliveira
Imagem gerada pela IA do Gemini - 08 de março de 2026, às 11:26
Imagem gerada pela IA do Gemini 08 de março de 2026, às 11:26

O homem, da sacada da casa de dois andares, ali no Menino Deus, observava o neto, não mais de 10 anos, entretido com joguinhos no aparelho celular. Do nada, quase sem querer, começou a resmungar com seus botões, até que o moleque desviou os olhos da telinha e os manteve firmes aos do avô. Apesar de menino, sabia que daquela boca saíam histórias interessantes. Na verdade, quase sempre. Por isso, tratou logo de aprumar as orelhas para não perder uma palavra que fosse. 

     Zé Dadá era afamado em briga. Não perdia uma. Era murro daqui, chute dali, cabeçada acolá, sobrava rabo de arraia pra todo lado. Pobre adversário, se fosse esperto, caía logo para não apanhar mais. Um olho roxo, um dente quebrado, uma costela partida, tudo era troféu de guerra, mesmo que perdida. Afinal, com Zé Dadá, ninguém podia.

    De boca em boca, os feitos do brigão logo chegaram aos ouvidos de toda a Caxias, terra de Gonçalves Dias. Não demorou, até a polícia evitava cruzar o caminho do Zé Dadá. Isso porque o povo não respeita policial que toma tapa na cara.

      A despeito de tamanho temor, havia um rapazola franzino chamado Raimundo, que dizia não tremer que nem vara verde como tantos ali. Ele levantou o braço e, com a voz mais apagada do que a própria covardia, disse: “Se ninguém tem coragem de enfrentar o Zé Dadá, eu enfrento!” Pra quê? Isso foi cair justamente nos ouvidos do Zé Dadá, que logo quis saber quem era o tal atrevido.  

    A notícia correu toda a cidade, especialmente entre os alunos do Colégio Caxiense, onde o Raimundo penava para passar em matemática. Diante de tantas contas complicadas, chegou a desejar que a luta contra o brigão se desse o mais rápido possível. Antes a cabeça rachada que quebrar a cuca com tantos números. 

    A luta foi marcada. Dali a três dias, lá no Largo de Santa Luzia, que ficava atrás do Caxiense. Em vez de futebol, o lugar seria palco da batalha mais esperada desde que Lampião passou pelo município, fato este que jamais aconteceu. Entre lendas e verdades, o tempo voou, especialmente para o pequeno Raimundo, que já pensava em se escafeder pelo mato, tamanho seu arrependimento por sua irracional impulsividade. Por que diacho ele havia erguido o braço, quando ninguém mais esperava por nada além de um ato de contida covardia?

    O local estava abarrotado, saindo gente pelo ladrão. Até o padre, dizem, teria feito sua fezinha. Obviamente que apostara toda a oferenda do mês no Zé Dadá. Afinal, não dá para brincar com o dinheiro divino sem ter certeza do resultado. 

    De um lado, surgiu o grande Zé Dadá. Perto de 1,80 m, quase 80 kg de puro músculo. Já sem camisa, desfilou no círculo de entusiasmada plateia. Ficou ali por quase cinco minutos à espera do desafiante, que ainda pensava em fugir. No entanto, acabou sendo empurrado para o meio da arena. 

    Raimundo suava frio, apesar dos quase 40 graus. As mãos tremiam, enquanto os dedos tentavam desabotoar a camisa branquinha. Ele não queria sujá-la. Se chegasse em casa com a roupa encardida, teria que enfrentar a fúria de sua mãe. Tomou coragem, apanharia do Zé Dadá, mas manteria o couro livre do açoite certeiro da genitora.

    Apesar de franco favorito, Zé Dadá não estava acostumado a enfrentar um adversário tão atrevido. Como é que aquele magricela teve coragem de desafiá-lo? Seria ele um lutador experiente? Saberia dar golpes ainda desconhecidos pelo campeão dos campeões de Caxias? Ou seria apenas mais um pobre coitado morto de fome? Olha essas costelas finas que nem gravetos secos. Seja como for, tais dúvidas pairavam pela mente ligeira de Zé Dadá.

    O público gritava. Todos queriam ver o sangue jorrar longe. Os oponentes se estudavam, a cautela tomava cada atitude daqueles dois, até que, num gesto ligeiro como bote de louva-deus, Zé Dadá acertou em cheio a fuça do pobre Raimundo. Caiu de bunda! Pensou em revidar, mas a prudência falou mais alto. Zé Dadá partiu para cima com o intuito de dar cabo do adversário, mas logo surgiu a turma do deixa-disso, que apartou a contenda. Foi a deixa para que Raimundo abrisse uma brecha no meio da multidão e se evadisse do local. 

    O derrotado ficou três dias com o nariz inchado. Temendo que sua mãe descobrisse a surra que havia levado, o rapaz passou todo esse tempo evitando encará-la. Não queria apanhar outra vez. Conseguiu, não se sabe como. Talvez a mãe já soubesse de tudo e, piedosa como ela só, não quis causar mais sofrimento ao filho. Nenhuma palavra sobre o acontecido. 

    Após quase uma semana da surra em praça pública, Raimundo desejou ser amigo do seu algoz. Encontrou o grandalhão, que repousava debaixo de uma mangueira. Trocaram poucas palavras, o suficiente para que as coisas se acertassem. Satisfeito com a audácia do adversário, o campeão aceitou quase que de pronto tal proposta. Tornaram-se amigos ou, ao menos, mantiveram uma diplomática relação de respeito mútuo pelos anos seguintes. 

    O avô, assim que terminou a história, percebeu que o neto, totalmente encantado, o encarava. Os dois sorriram, enquanto o aparelho celular parecia ter sido esquecido no canto. 

    — Vô, que coincidência!

    — O quê?   

— O Raimundo tem o mesmo nome do senhor.

Eduardo Cesario-Martínez

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O cara encostado dormindo no semáforo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O cara encostado dormindo no semáforo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do semáforo, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo. 

Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ninguém parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, alguém com histórias que a cidade esqueceu de ouvir.

 O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, porém, todos os sinais já pareciam vermelhos há muito tempo. E enquanto a cidade corria atrás de seus compromissos, o homem dormia — não por descanso, mas por falta de onde acordar.

A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas metálicas das lojas, ônibus lotados cuspindo gente em cada esquina.

 No meio desse turbilhão havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paciência das pessoas termina.

Ali funcionava um semáforo antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.

Mas quase ninguém percebia outra coisa naquele lugar.

Encostado no poste do semáforo, havia um homem dormindo.

Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabeça inclinada para frente. 

Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho — habilidade estranha, mas necessária para quem não possui paredes.

Alguns passavam olhando de relance.

Outros fingiam não ver.

Na cidade, ignorar alguém é uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.

Ninguém ali sabia o nome dele.

Para os motoristas era apenas ‘o cara do semáforo’.

Ele usava uma camisa desbotada, calça gasta e um boné que já havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.

Às vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manhã ele estava dormindo profundamente.

O curioso é que sua expressão não era de sofrimento.

Era uma expressão estranhamente tranquila.

Como se o sono fosse um pequeno refúgio contra o peso da realidade.

Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mecânica e uma filha que gostava de desenhar pássaros.

Mas as cidades têm uma capacidade cruel de apagar histórias.

Uma moça dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.

Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaciência.

— Esse sinal demora demais — murmurou.

Olhou novamente para o homem dormindo.

Por um instante breve, pensou em como alguém poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.

Mas o sinal ficou verde.

Ela acelerou.

A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas são rapidamente esmagadas pela urgência do relógio.

O homem continuou dormindo.

O trânsito continuou passando.

A vida dele não havia desmoronado de uma vez.

Quase nunca desmorona.

Primeiro veio a demissão da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econômica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos temporários, pequenas dívidas.

A esposa foi embora.

Não por maldade, mas por cansaço.

Ela levou a filha.

Ele ficou com as paredes vazias da casa.

Depois vieram o aluguel atrasado, a mudança forçada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.

Até que um dia percebeu algo estranho: não havia mais lugar para voltar.

A rua não se torna casa de repente.

Ela vai se aproximando devagar.

Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.

Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.

Todos carregando suas próprias preocupações.

Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.

Como uma placa enferrujada.

Ou uma rachadura no asfalto.

A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invisíveis.

Não porque elas desapareceram.

Mas porque ninguém quer realmente olhar.

Enquanto dormia encostado no semáforo, o homem sonhava.

No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.

— Olha, pai! — dizia ela.

Era um pássaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.

Ele ria.

No sonho o céu estava limpo e o mundo parecia simples.

Então uma buzina alta explodiu no cruzamento.

Ele abriu os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não sabia onde estava.

O semáforo estava vermelho.

Carros formavam uma fila longa diante dele.

O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os veículos.

Alguns motoristas desviaram o olhar.

Outros fingiram mexer no celular.

Uma criança no banco de trás de um carro perguntou à mãe:

— Por que aquele homem mora na rua?

A mãe demorou alguns segundos para responder.

— Às vezes… a vida fica difícil para algumas pessoas.

O sinal ficou verde.

Os carros partiram novamente.

O homem voltou a encostar no poste.

Sentou-se no mesmo lugar de antes.

O semáforo continuava mudando de cor, obediente à lógica da cidade: vermelho, amarelo, verde.

Parar.

Esperar.

Seguir.

Mas para ele o tempo parecia diferente.

Ele apoiou a cabeça no metal e fechou os olhos outra vez.

Talvez estivesse cansado.

Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele pássaro desenhado pela filha.

E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no semáforo dormia.

Não porque quisesse fugir da vida.

Mas porque, naquele momento, o sono era o único lugar onde ela ainda fazia sentido.

O vento da tarde cortava como lâmina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela não fazia diferença.

 Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem não tinha endereço.

Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ninguém quer ser lembrado de que a miséria existe, e ele era apenas um espelho desconfortável de uma verdade que todos fingiam não ver.

A fome apertava. O estômago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade — aquele pouco que resistia aos dias sem comida, à falta de chão, ao desprezo alheio. 

Dignidade, talvez, fosse a única coisa que a cidade ainda não conseguira roubar.

O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua não conseguia disfarçar a dor.

 Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.

Então, como quem toma coragem pela última vez, ele se levantou. Não para pedir esmola. Não para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atrás da avenida.

Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento. 

E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele — não contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.

Algumas horas depois, o semáforo ainda estava lá, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mecânico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.

Para os motoristas, nada.

Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufocá-lo, agora era apenas um campo de batalha — o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas próprias limitações, contra sua própria vaidade de se fazer invisível.

A noite caiu, e a cidade se iluminou com lâmpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas poças de chuva. Sentiu medo, frio, fome… mas também uma centelha de vida que não havia sentido há anos.

O semáforo, vermelho, continuava lá, mas ele não precisava mais esperar. Ele não era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era alguém que havia decidido  voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endereço, sem conforto, sem aplausos.

Na manhã seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do semáforo. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:

“Acordei. Finalmente. Agora sou meu próprio semáforo: vermelho, amarelo, verde… e sigo quando quiser.”

Ninguém parou para ler. Mas talvez não importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas não da sua própria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.

E enquanto a cidade continuava sua rotina mecânica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu à invisibilidade.

O semáforo continuava ali, parado, mas ele sabia que ninguém, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.

Clayton Alexandre Zocarato

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Depois da quinta

Ramos António Amine: Crônica ‘Depois da quinta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Depois da quinta, as desculpas tornam-se inúteis. A culpa deixa de ser abstrata: tem culpados, e a responsabilidade pesa, inteira, sobre os ímpios. Descobre-se então que a vergonha que nos cobre os rostos não nasceu de nós, mas foi cuidadosamente construída por aqueles que, ao longo do tempo, sobreviveram do silêncio cúmplice. O silêncio, afinal, sempre falou mais alto do que a voz dos ímpios.

Os neutros, que se diziam isentos, sem perceber que todos sabiam que sempre estiveram ao lado das forças invisíveis,  farejam agora o mesmo odor da injustiça que durante anos defenderam ou toleraram.

Os indiferentes apressarão por dizer que sempre souberam que a quinta iria ruir. São esses os verdadeiros hipócritas: não os que erraram, mas os que assistiram em silêncio e deixaram que outros errassem. Durante anos acomodaram-se na confortável ilusão da neutralidade, como se a distância moral os absolvesse daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos.

Diferentes foram aqueles que sentiram o chão tremer quando ainda havia muros, os que ousaram questionar o calor infernal do poder instalado na quinta. A esses cabe agora uma tarefa mais difícil: desfazer-se da chave que manteve a porta da quinta fechada. Porque, depois da quinta, existe sempre o risco de se construir outra: com novos nomes e os mesmos gestos.

Depois da quinta, o silêncio já não é ausência de voz, mas o peso da verdade que resta quando tudo o mais cai. Não há muros a derrubar nem portas a arrombar, porque a quinta nunca foi apenas um lugar. Sempre existiu dentro de cada gesto cúmplice, de cada escolha de não ver, de cada conveniência moral que sustentou o sistema sem precisar de ordens explícitas. 

Quem ousou confrontá-la cedo percebeu que a sua queda não seria fácil, nem física. Não se tratava de destruir paredes, mas de romper consciências. A verdadeira derrubada começaria na recusa de dirigir-se de joelhos ao altar da hipocrisia; na coragem de acolher aquilo que o sistema julga em voz alta enquanto, em surdina, contempla os seus seios; na vigilância ética de quem permaneceu desperto quando era mais compensador dormir. Cada ato de honestidade tornou-se uma renúncia silenciosa à comunhão dos ímpios. Cada silêncio recusado abriu uma racha no cálice que sustentava a prostituta.

Depois da quinta, os muros desabam  e com eles desaparecem as línguas ensalivadas dos bajuladores. A miséria deixa de pagar IVA. Resta apenas o espaço nu da consciência: esse território sem máculas onde cada um é obrigado a decidir se reconstruirá a quinta com outros materiais ou se permitirá que a ética cresça livre sem altar, sem cálice e sem ídolos de teatro.

Depois da quinta não nasce o sagrado. Nasce o peso da escolha. Nasce a intimidade incômoda de olhar para si mesmo sem disfarces, sem rótulos, sem a proteção do corvo que se alimentava dos pintainhos das galinhas dos sem-teto. É aí  e apenas aí que a verdadeira derrubada acontece.

Os ímpios, incapazes de aceitar o que ocorreu, procurarão consolo em salmos 151, inventando escrituras tardias para justificar o que jamais foi justificável. Os seus bens serão repartidos entre os pobres empobrecidos pelos ricos, ricos que não passam de simples endinheirados e os seus descendentes carregarão a vergonha dos nomes que herdaram.

Depois da antiga quinta, a árvore frondosa ao redor da quinta ousará finalmente florir. As suas raízes alargar-se-ão de tanta felicidade contida. O ar, antes poluído, fará falta àqueles que o contaminaram. Os arames farpados que mantiveram intacto o perímetro da exclusão servirão agora para fabricar carros de arame para as crianças de pés descalços.

Os cães fardados reconhecerão os ímpios, mas não lhes obedecerão. Declararão caça não aos executores menores, mas aos emissores das ordens superiores. Os contratos assinados sob a lógica da exploração eterna dos recursos naturais serão desfeitos. Os seus assinantes serão obrigados a engoli-los, tal como foram engolidos os sapos sob o pretexto da paz. Haverá quem queira vê-los incinerados, como foram incinerados, em outros tempos, os críticos que ousaram falar quando ainda havia muros.

Depois da quinta, também aqueles que ruíram a velha quinta serão vigiados, para que não se convertam nos ímpios de amanhã. Porque aquele que diz “eu vos libertei” é mais perigoso do que aquele que explorou. Mesmo mortos, os seus corpos serão vitrificados para que, ao reanimarem, não possam revelar o caminho por onde foi enterrada a chave da velha quinta.

Depois da quinta, nada garante justiça plena. Mas já não há inocência possível. Cada um será obrigado a sujar as mãos para que o jardim prometido em Candide, de Voltaire, seja finalmente cultivado com vida para que cada um se torne digno das flores desse jardim.

Depois da quinta, ninguém pode assegurar que não surgirão novos traidores. Mas estes serão vigiados e, quando descobertos, serão vilipendiados na praça pública. As estátuas erguidas no interior da quinta serão vaiadas, laçadas pelo pescoço e arrastadas para vitalização nas redes sociais. As que resistirem à humilhação serão queimadas, enquanto os ímpios, já impotentes, assistirão à cena sem poder fazer nada. Pedirão que se paute pelo respeito à vida, à liberdade e à propriedade, mas se esquecerão de que jamais permitiram que os catadores de rua tivessem vida, liberdade ou propriedade.

Nesse tempo, este texto não terá circulação clandestina. A sua leitura será obrigatória nas escolas, nos comboios, nos transportes semicoletivos e nas igrejas, e o seu autor já não pensará em continuar o seu livro sobre ‘O País de Questões Silenciadas’. Tudo isso para lhes recordar que estão sozinhos neste buraco chamado mundo. Por isso, nada de desculpas.

Ramos António Amine

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Meigo olhar

Márcia Nàscimento: Crônica ‘Meigo olhar’

Márcia Nàscimento
Imagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ad9324-5f98-8332-8856-17827d6f40d8

Eu estava tão feliz, andei por quilômetros de distância para lhe encontrar e, quando lhe vi pela primeira vez, a alma o reconheceu e fiquei imersa apenas naquele meigo olhar.

Um olhar tão dócil que ama sem ter a necessidade de verbalizar nenhuma palavra, olhar tão puro e amigo, nobre e verdadeiro, daqueles que o mundo, há muito tempo, já se esqueceu, mas que ao lhe vir, pude sentir, que ainda há esperança em um mundo melhor que já advém até nós pela grandeza e força transmitida naquele olhar.

Há uma espécie de segredo, mistério profundo, um misto de encanto e poesia, amor em demasia, saberes, conhecimento e sabedoria que alcançou o âmago do meu ser através deste teu olhar.

E como o rio se deleita indo ao encontro do mar, assim minha alma se alegrou ao vê-lo pessoalmente, e o vendo também o reconheceu de mundos e galáxias distantes, luzes reluzentes como o brilho de uma constelação a iluminar, eu o reconheci através do teu meigo olhar.

Sementes universais do amor incondicional, irmãos das estrelas com missões de elevar as consciências aqui na Terra, que se comunicam telepaticamente através da pureza deste meigo olhar.

Márcia Nàscimento

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Até quando?

Karla Dornelas: Poema ‘Até quando?’

Logo da seção O Leitor Participa
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Imagem gerada por IA do ChatGPT – 08 de março de 2026, às 10:15

Somos atacadas
porque somos mulheres?
A sentença
já nasce no ventre?

Por sermos mulheres
pagamos antes mesmo
de existir?

Pela roupa.
Pelo corpo.
Pela liberdade
que insistem em dizer
que não podemos ter.

Dizem que foi a roupa.
Dizem que foi o horário.
Dizem que foi o comportamento.
Mas nunca dizem
que foi a violência.

Então responda —
com coragem e sinceridade:

Qual das mulheres que você ama
você entregaria
à dor,
ao medo,
ao sangue?

Qual delas aceitaria ver
espancada,
violentada,
assassinada…
e ainda assim
procuraria uma justificativa
para torná-la culpada?

Porque toda vez
que se culpa uma mulher
apenas por ser mulher —
por viver,
errar,
existir
como qualquer ser humano —
a violência encontra abrigo.

Justificar agressões
é participar do silêncio.
É normalizar o horror.

É permitir
que matem uma mulher
antes mesmo
de tirarem sua vida.

Porque a violência contra uma mulher
começa no julgamento.

Culpada
porque é mulher.
Culpada
porque terminou.
Culpada
pela roupa curta.
Culpada
porque falou.
Culpada
porque existiu.

Culpada.
Culpada.
Culpada.

E o veredito final:
apagar quem somos,
silenciar o que amamos.

Até quando?

Karla Dornelas

Karla Dornelas
Karla Dornelas

Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Literatura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.

Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.

Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.

Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.

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