Vida no campo

Marli Freitas: Poema ‘Vida no campo’

Marli Freitas
Marli Freitas
Imagem criada pela Ia do Gemini

O dia ainda não raiou, mas a lida no campo chama.

É hora de reunir o gado, separar as vacas para ordenha.

A cerração ainda está baixa, as ervas estão enfeitadas de orvalho

Enquanto o sol, ainda tímido, desponta no horizonte.

Gosto de ouvir o mugir do gado, ver o movimento gentil do vaqueiro,

Sentir o cheiro de café fresquinho e respirar o ar puro do campo.

Acompanhar o vai e vem do compadre, ouvir a prosa da comadre,

Ajudar na lida, colher frutas, aguar a horta,

Plantar flores e imaginar amores.

Depois da ordenha é hora do pastoreio.

Parece tudo muito simples para quem vê, mas a labuta diária

Obedece uma rotina rígida e exige compromisso.

É preciso cuidar da cana, bater o pasto, reparar a cerca,

Fazer o aceiro, combater as pragas que agridem o gado

E estar atento às vacas prenhas para não perder as crias.

Em tempos de seca, corta-se a cana e a capinheira

Que, depois do transporte, passa na ensiladeira,

Reúne o gado no curral para o alimento

Que garante que tudo continuará como sempre.

Vida simples, perfumada de flores silvestres, embalada

Pelo chilrear dos pássaros e os sons familiares dos animais.

De vez em quando o compadre se deleita em contemplação,

De coração calmo, sabe que o olho do dono engorda o gado.

De mãos calejadas e pele sofrida sente a paz do dever cumprido.

A mesa farta convida para uma boa prosa.

Existem tempos de glória e muitas histórias,

Mas sobretudo o orgulho de ser simples, ser do campo,

Ser da lida e estar em harmonia com o Criador.

Marli Freitas

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Flores negras

Laskiaf Amortegui: Poema ‘Flores negras’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
Imagem criada pela IA do Gemini
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Flores negras

​um enigma requintado.

​As flores negras não são para os mortos

nem para a maldade;

são para os amantes de verdade.

Elas são a matéria escura,

uma manifestação máxima do universo

onde uma gota de luz dá origem a cores inimaginadas.

É a manifestação do status e do glamour.

As flores negras nos amam,

são tão requintadas e finas

que poucos podem atrapar seu aroma inesquecível

e seu perfume raramente é encontrado.

Elas são poder,

mistérios e enigmas;

no final são todas as matrizes, inclusive as brancas…

quando não há mais gama com que brincar.

Laskiaf Amortegui

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Alexandre Cardoso

O intelecto multifacetado que dá vida à cadeira 19 da Academia de Letras de Indaiatuba

Alexandre Cardoso
Alexandre Cardoso

Na intersecção entre o rigor administrativo, a docência e a explosão criativa, encontramos Alexandre Cardoso.

Servidor Público Federal (INSS) e membro efetivo da Academia de Letras de Indaiatuba (ALI), Alexandre ocupa com distinção a cadeira n.º 19, sob o patronato de José de Alencar.

Sua presença na Academia não é apenas um título, mas o reflexo de uma mente que não aceita gavetas e transita, com naturalidade, entre as artes e as ciências humanas.

Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, Alexandre possui uma formação que impressiona pela diversidade e profundidade.

Com MBA em Administração Pública, ele é especialista em áreas tão distintas quanto Design de Interfaces, Teologia Comparada e História em Quadrinhos.

Suas extensões universitárias que vão da Ilustração de Livros Infantis até a Investigação e Inteligência Privada, revelam o DNA de um pesquisador nato e um observador atento do comportamento humano.

Do Traço à Palavra: O Nascimento de “LUQ” e “Nina e Jolie”

A produção literária de Alexandre Cardoso é indissociável de sua visão artística visual.

Seu livro “LUQ” é o exemplo perfeito dessa metamorfose: concebido inicialmente como uma história em quadrinhos, o projeto evoluiu para o formato literário, carregando as vivências e as respostas que Alexandre, um pensador inquieto desde a infância, foi colhendo pelo caminho.

Já em “Nina e Jolie” (Editora UICLAP), o autor nos prova que a realidade é, muitas vezes, mais encantadora que a ficção.

As personagens são reais e as situações narradas aconteceram de fato.

Com sensibilidade, Alexandre usou a escrita para registrar um “amor incomum”, criando apenas o necessário para emoldurar o que a vida já havia desenhado de forma extraordinária.

Para ele, o mundo está repleto de grandes histórias; o papel do autor é apenas ter a coragem de contá-las.

Um Artista Pleno

Além da literatura e da docência, Alexandre é um artista de múltiplos suportes.

Ilustrador, cartunista, músico e compositor, ele imprime em tudo o que faz uma cadência única.

Essa versatilidade também pode ser conferida em sua participação na coletânea “A Magia do Natal em Contos, Versos e Lembranças” (Editora Scienza).

Ao acompanharmos a obra de Alexandre Cardoso, percebemos que a cadeira n.o 19 da ALI está ocupada por um autor que, assim como seu patrono Alencar, busca entender as nuances da alma e do cotidiano.

Ele transforma o “viver” em um constante e belo exercício de registrar o extraordinário.

REDES SOCIAIS DO AUTOR

LUQ

SINOPSE

LUQ conta a história de um garoto sonhador que possui uma capacidade incomum para sua idade, perceber o real sentimento das pessoas e que gosta de filosofar, refletir sobre a vida.

Passa por um momento decisivo de autoconhecimento.

LUQ é o nosso lado puro e sincero, que se permite sonhar.

Assista a resenha do canal @oqueli no YouTube

NINA E JOLIE

SINOPSE

Nina e Jolie é sobre a amizade, cumplicidade e amor entre duas espécies com diferentes características, que terão que aprender a conviver e a se respeitar para superarem juntas os desafios do dia a dia.

OBRAS DO AUTOR

LUQ
LUQ

Nina e Jolie
Nina e Jole

ONDE ENCONTRAR


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Resenhas da colunista Lee Oliveira




15 segundos de inconsciência

Milton Gaspar Domingos: Conto ’15 segundos de inconsciência’

Logo da seção O Leitor Participa
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Fazia já seis minutos desde que o motor de 16 cavalos começara a rugir, e dois minutos desde que deixara os  seus aposentos. Os cinco ocupantes já sentiam o gosto da mandioca, o gosto da ginguba, o gosto da ginguenga, o gosto de tudo o que a fazenda lhes poderia oferecer. Umblina sempre pensava num jeito mais artístico de confeccionar a muteta. Clemente almejava bijir a kizaka do passado fim-de-semana -, leve como a erva de batata, saborosa como só ela conseguia fazer: “você é o máximo!” pensou alto. 

– Quê? – inquiriu a mulher, que estava no pendura. 

– Hum?!, dando-se conta de que havia soltado o seu pensamento para o público, fez-se de bobo. 

– “O que foi que disseste?

– Ah… deixa pra lá! As crianças ficam muito animadas quando a gente vai à fazenda, né?!

– Elas não são as únicas, pois não?

– Pois é!

Nem a forte e fresca brisa conseguia silenciar o entusiasmo da rapaziada. A alegria perfumava, especialmente, o banco de trás do Mitsubishi L 200. Na estrada nacional 140, já haviam contornado a rotunda “EU AMO MALANJE”, saindo da rua do Só Delegado e percorrido já um bom bocado. A escola de condução – à esquerda e, mais à diante, a Casa Branca – à direita, já se entristeciam de lhes terem deixado apenas com o frio da manhã e reclamavam dos seus direitos à socialização.

O carro branco trespassava o ar como a espada de um samurai e cortava a brisa com uma sutileza de serpente. O desvio para o Kambaxi pedia aflitivamente por socorro, pois o silêncio e a névoa o asfixiavam sem quase o deixar respirar.  A carrinha deslizou suave e confiantemente para a esquerda, levando grande alegria para as veias que escoavam a seiva de Kambaxi para o coração das Pedras. 30 segundos foi o tempo necessário para um monstro verde e enferrujado exigir o respeito que lhe cabia em seu território. Sem nem sequer um pavio que denunciasse a sua presença na faixa contrária, pois na sua havia vários buracos exibindo uma vaidade maliciosa, mas compreensível para quem já os conhecia bem.

Quando Clemente se confrontou com a monstruosidade à sua frente, era tarde demais. Tudo o que ele conseguiu, foi evitar beijar o velho monstro pela boca, mas lhe deu beijo na matama esquerda com a sua bochecha esquerda e o L 200 entregou as suas partes mais baixas ao ar a meio aos capins, numa baixeira, sacudindo de alegria a névoa que envolvia o lugar. Após um assustador estrondo, fez-se um silêncio ensurdecedor, embora o rádio continuasse a soltar as vozes das Gingas do Maculusso:

Canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Oh canta, não chora

Que eu ainda voltarei

Aqui no mundo existe a má-língua

Ai meu amor que mal é que eu fiz

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Kudizanga, kudizanga

Ngolo yamiye

Ey ah, wolo dinanza mukonda ngi wadyama

Si nga kukwatela ki nga kubana jimbangala

A patrulha, que vinha em bisga na mesma direção de onde saía o camião velho, ostentando toda a sua virilidade e lucifericidade, não ignorou o infortúnio. 

Os para militares desceram com uma intrepidez de arrepiar o corpo. Parecia já terem sido informados do acidente, parecia já terem visualizado o espaço e treinado a coreografia perfeita.

Deitado no chão, de bruços, Clemente não se conseguia mexer, mas com a chegada da polícia, ouvia ao longe vozes que pareciam circunloquiar. Ficou assim durante 15 segundos. Assim que se apercebeu do que estava a acontecer, fingiu estar apagado, pois temia pela sua vida, uma vez que  sentira apalpadelas nos bolsos e o seu esvaziamento  e ouvira os visitantes num escrutínio: “Vê no porta-luvas, nos bolsos da madame!” Berrou o alguém a partir da cabine. “Tem Multicaixa Xpress?!” preguntou o mesmo homem. “Rápido, rápido, despachem-se!” ordenou-os.

Em 1 único minuto terminaram a vistoria e, zás, foram-se embora.

Já consciente, Clemente ouve o acelerar dos bongós, abre o olho direito e inclina-se um pouquinho para vigiar e, levanta-se e vai depressa socorrer a família, que ainda se encontrava inertes no carro capotado. Sem mesmo tocar no carro, a mulher e dois de seus filhos se despertam, tontos, semi inconscientes. O marido ajudou Umblina, e juntos ajudaram a descendência a se livrarem dos sintos de segurança. A mãe abraçou a mais nova de casa e o pai estava com os dois rapazes.

Umblina procurou pelo tablet, mas o vazio lhe fazia caretas. Vendo isto, o marido contextualizou-a:

  • Não adianta eles levaram tudo!
  • Eles? Eles quem?
  • Vamos. Falamos depois.

Um starlet vermelho, que também ía a Kambaxi, parou, mesmo sem um pedido de ajuda. Depois de o motorista ser informado da situação, Clemente pôs a família no carro e foram para o Hospital regional.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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Do México ao Jornal ROL, Adriana Rodríguez!

As letras de Adriana Rodrígues trazem aos leitores do ROL as cores do México, o País das Mil Vozes, visto como um encontro entre a terra e o divino e o passado sagrado e a modernidade pulsante!

Adriana Rodríguez

Adriana Rodríguez, natural de Heroica Matamoros, México, é escritora e criadora literária.

Sua obra transita entre a poesia e o conto, explorando emoções humanas, memória, vulnerabilidade e o claro-escuro da experiência cotidiana.

Participou de eventos de poesia presenciais e virtuais, além de contribuir para programas e publicações em diversas revistas digitais.

Seus trabalhos foram incluídos em inúmeras antologias e projetos editoriais independentes.

Entre seus títulos publicados estão as coletâneas de contos ‘Pesadelos: Crônicas dos Sonhos e Hábitos das 6 da Manhã’, bem como as coletâneas de poesia ‘Desaparecida’ e ‘Fragmentos’.

Atualmente, continua a desenvolver projetos literários focados na exploração íntima da linguagem e das sensibilidades contemporâneas.

Adriana Rodríguez inaugura sua contribuição no ROL com o poema Donde empieza mi nombre (Onde meu nome começa), complexa reflexão sobre identidade, silêncio e o sofrimento de dar voz à própria essência!

Donde empieza mi nombre

Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a10db0c-cd64-83e9-986a-742079cf55f3

Cuento con los dedos las letras de mi ser
nombrándome en silencio
abriendo en la herida
mientras me hallo escondida
detrás de una muralla que cae a pedazos

Hay en mi un pulso torcido
respira inquieto a través de mis poros
y arde incluso con anhelo
cuando debería mantenerse callado
a la sombra de un murmullo que duerma lento

Un suspiro que muere por nacer
pero a cambio se queda ahogado entre las pestañas
en el sonido de una palabra que aún no existe
entre sílabas frías que separan lo innombrable
del manto sagrado que cubre las verdades

Nace un lunes antes del ocaso
y se rompe justo antes del amanecer
crece sin caber, sin el peso de una existencia
y se nombra ausencia cuando siente que nace.

Onde meu nome começa

Conto nos dedos as letras do meu ser
nomeando-me em silêncio
abrindo a ferida
enquanto me encontro escondida
atrás de uma parede que se desmorona em pedaços

Há um pulso retorcido dentro de mim
respira inquieto pelos meus poros
e queima até mesmo com saudade
quando deveria permanecer em silêncio
na sombra de um murmúrio que dorme lentamente

Um suspiro que anseia por nascer
mas, em vez disso, permanece sufocado entre os cílios
no som de uma palavra que ainda não existe
entre sílabas frias que separam o inominável
do manto sagrado que cobre as verdades

Nasce numa segunda-feira antes do pôr do sol
e irrompe pouco antes do amanhecer
cresce sem se encaixar, sem o peso de uma existência
e é chamado de ausência quando sente que está nascendo.

Adriana Rodríguez

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O velho, o café e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘O velho, o café e o mendigo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada pela IA do Gemini - https://gemini.google.com/share/8be665a4a504
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/8be665a4a504

O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

            Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

            Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

            O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

            Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

            Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

            A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: “Peço a Deus que estique o tempo do senhor!”

Eduardo Cesario-Martínez

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Somos a ponte e a multidão

Evani Rocha: Poema ‘Somos a ponte e a multidão’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pelo ChatGPT em 25 de maio de 2026, às 9h25

Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
A estibordo do navio
E o porão a naufragar

Somos calor de verão
Folhas secas no outono
Somos cada estação
Na insanidade dos sonhos

Somos o pó da estrada
E a ventania a soprar
As pegadas na areia
A maré a marejar

Somos feito andarilhos
Pelos caminhos da vida
Ora largo, ora estreito
Nos vales e na subida

Somos as pedras e as flores
A depender das emoções
As páginas escritas do livro
As vírgulas e os travessões

Somos sol ou somos chuva
A semente a germinar
Às vezes a erva daninha
A outras ervas, sufocar

Lua minguante ou cheia
Nós também podemos ser
Cada um tem o seu jeito
De brilhar ou de esconder-se

Somos os homens que lutam
Sob o reinado insolente
A mesa posta e a fartura
A fome do inocente

Somos pais e somos filhos
O abraço e a ausência
Um sorriso escancarado
Ou o pranto incontido

Somos parede e telhado
Por vezes, somos o piso
Somos trem descarrilhado
A estação e os trilhos

Somos aves, somos bichos
A terra e a serrapilheira
O lugar de cada nicho
A serpente e a sereia

Somos águia a voar
Por sobre montes e vales
A procura de um tudo
Ou tão somente, um nada

Somos presa e predador
O caos e a sobriedade
O ataque e a defesa
A fome e a saciedade

Somos céu e arco-íris
Das cores, a aquarela
O pincel e a pintura
O ramalhete na janela

Somos o mar e a maresia
A areia branca e o véu
As ondas na maré cheia
O mel da boca e o fel

Somos água turbulenta
Por vezes, somos serenas
Somos fossas abissais
Morando dentro da gente

Somos a mala e o conteúdo
A poltrona e a passagem
O túnel no viaduto
E as sombras da viagem

Somos chegada e partida
Quem vai embora ou quem fica
As medalhas da vitória
E as flores da despedida

Somos nossa própria história
O epitáfio na lápide fria
A desculpa na retórica
E a pálida fotografia

Somos a ponte sobre o rio
E a multidão a passar
Os olhos no infinito
E as mãos em prece a rogar!

Evani Rocha

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