Renata BarcellosRenata Barcellos e Campos – Arquivo pessoal
Depois dos festejos de Reveillon e Carnaval, de fato, agora, iniciamos o ano de 2026. Ufa, em dois meses, tantos acontecimentos fora e dentro do país. Quantos casos de denúncia, quantos atos de atrocidades!!! É preciso ter fôlego, sermos RESILIENTES para superarmos tantas “pedras no caminho”.
Externamente, os conflitos só se agravam. Escândalo na realeza… Quem tem razão? Quem sofre e “paga caro” até com a própria vida é a população. Os dirigentes estão “encastelados”.
Já, no Brasil (país do Carnaval, em todos os sentidos), no centro das discussões, o Supremo Tribunal Federal (STF) está em um cenário de intensa polarização interna e crise de credibilidade, marcado por divergências sobre conduta ética, investigações envolvendo parentes de ministros e conflitos de interesses, especificamente no Caso Master. Você tem conhecimento das funções de um ministro?
Ainda aqui, onde “tudo tende a terminar em pizza”, os assaltos, os furtos… continuam. A violência contra a mulher só aumenta. Um dos casos é o da menina de 12 anos. Os ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania e das Mulheres criticaram a decisão da 9ª câmara Criminal Especializada do TJ/MG que, por maioria, absolveu um homem de 35 anos condenado em 1ª instância a nove anos de prisão por estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos, com quem vivia como casal em Indianópolis, no Triângulo Mineiro. O “entendimento” adotado pelo colegiado não seria um afronta à lógica de proteção integral assegurada às crianças e adolescentes? Devido à pressão social, tiveram de revogar a decisão inaceitável. A sociedade estava indignada.
Esse é um exemplo de como parte dos genitores não tem vínculo de afeto com os seus filhos. Estão os abandonando, os maltratando, os vendendo, os abusando ou os deixando serem violentados por dinheiro, vingança, desavença… Que mundo é este?
Crianças estão usando transportes sozinhos. Adolescentes indo a consultas médicas desacompanhados. Quantos casos temos conhecimento de abuso em transportes e consultórios? E, no carnaval, quantos grupos de adolescentes indo a blocos desacompanhados e até de madrugada nas ruas?
Quando o assunto é sala de aula, a situação só piora. Basta verificarmos a estatística. Quantos docentes estão de licença por problemas físico e ou psicológico? O ano letivo iniciou há um mês e como está a saúde dos docentes? Estes são heróis! Entramos em sala de aula com 40 ou mais alunos. Vale destacar que entre eles há os com múltiplas especificidades. Entretanto, nós professores não somos capacitados para lidar com cada um deles. Missão impossível.
2026 está só iniciando. Precisamos sobreviver. Sejamos resilientes!!! Se ficarmos estagnados, seremos “atropelados”.
Joelson Mora: ‘A força que não discute com barreiras’
Joelson MoraImagem criada por IA do Bing – 26 de fevereiro de 2026, às 11h
Desde os primórdios da observação humana, a água se apresenta como um dos elementos mais eloquentes da natureza, discreta em sua aparência, mas absolutamente poderosa em sua atuação.
Do ponto de vista físico-químico, a água (H₂O) é uma molécula polar formada por dois átomos de hidrogênio ligados a um de oxigênio, característica que lhe confere propriedades singulares, como elevada capacidade de dissolução, alto calor específico e notável tensão superficial. Tais atributos fazem da água o solvente biológico por excelência e um dos principais reguladores térmicos do planeta e do organismo humano.
Outra singularidade fundamental da água é sua presença nos três estados físicos da matéria, fenômeno essencial para o equilíbrio dos ecossistemas e para a dinâmica da vida:
• Estado sólido (gelo): estrutura cristalina organizada, menor densidade que a forma líquida e papel relevante na regulação climática.
• Estado líquido: forma mais abundante na superfície terrestre, marcada pela fluidez, coesão molecular e elevada capacidade de transporte de substâncias.
• Estado gasoso (vapor d’água): fase de alta dispersão molecular, fundamental para os ciclos atmosféricos e para a regulação térmica do corpo humano.
Essa versatilidade física revela uma verdade profunda: a água muda de forma sem perder sua essência.
Ela não discute com barreiras, ela ultrapassa.
A água contorna, se adapta e persiste.
E, ainda assim, a água transforma montanhas.
Essa é uma das mais profundas metáforas para a nossa personalidade e para a forma como conduzimos a vida.
Quando observamos o comportamento da água na natureza, encontramos princípios que a ciência comportamental e a neurociência hoje reconhecem como essenciais para o equilíbrio humano:
• flexibilidade cognitiva
• capacidade de adaptação
• regulação emocional
• resiliência diante de obstáculos
A água não vence pela força bruta, vence pela constância.
Do ponto de vista da psicologia, indivíduos com maior flexibilidade psicológica apresentam melhores indicadores de saúde mental, menor nível de estresse crônico e maior longevidade funcional. Essa característica se aproxima daquilo que a água nos ensina silenciosamente: seguir em frente sem endurecer.
Ser rígido quebra.
Ser fluido atravessa.
A ciência é clara: somos, essencialmente, seres aquáticos em terra firme.
• Aproximadamente 60% do corpo de um adulto é composto por água
• No cérebro, esse valor chega a cerca de 73%
• No sangue, ultrapassa 90%
A água participa diretamente de funções vitais:
transporte de nutrientes
regulação da temperatura corporal
lubrificação articular
funcionamento renal
equilíbrio eletrolítico
desempenho cognitivo
Estudos publicados no Journal of Nutrition demonstram que níveis leves de desidratação já são capazes de prejudicar:
• atenção
• memória de curto prazo
• humor
• performance física
Ou seja: a qualidade da nossa energia diária passa, inevitavelmente, pela qualidade da nossa hidratação.
Ao longo da história, civilizações inteiras reconheceram o valor terapêutico das águas minerais naturais e hoje a hidrologia médica confirma muitos desses benefícios.
Na estância hidromineral de São Lourenço, por exemplo, encontram-se fontes com diferentes composições químicas, cada uma com propriedades específicas.
Principais tipos de águas minerais e seus efeitos
Águas bicarbonatadas
• auxiliam na digestão
• ajudam no equilíbrio do pH gástrico
• podem contribuir em quadros de dispepsia
Águas sulfurosas
• associadas a benefícios dermatológicos
• utilizadas em terapias respiratórias
• ação anti-inflamatória leve
Águas ferruginosas
• ricas em ferro biodisponível
• podem auxiliar em estados de baixa ferritina (com orientação profissional)
Águas magnesianas
• contribuem para o relaxamento muscular
• participam da função neuromuscular
• auxiliam no trânsito intestinal
A hidroterapia e o uso terapêutico de águas minerais são reconhecidos em diversas diretrizes de medicina integrativa na Europa e no Brasil como práticas complementares de promoção de saúde.
O Brasil abriga uma das maiores reservas de água doce do planeta.
Dados amplamente divulgados por organismos ambientais indicam que o país concentra cerca de 12% da água doce superficial do mundo. Além disso, possui imensos aquíferos subterrâneos.
Entre eles, destaca-se o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água doce transfronteiriços do planeta, estendendo-se por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Essa abundância, porém, traz responsabilidade.
A ciência ambiental é unânime ao afirmar que:
• disponibilidade hídrica ≠ acesso universal
• qualidade da água depende de preservação
• uso consciente é determinante para o futuro
Cuidar da água é, literalmente, cuidar da continuidade da vida.
Existe uma dimensão ainda mais profunda.
A água nos ensina sobre:
• humildade sem fraqueza
• movimento sem ansiedade
• persistência sem agressividade
• força sem rigidez
Na prática clínica e no acompanhamento de pessoas em busca de saúde integral, observa-se que os indivíduos que desenvolvem maior capacidade de adaptação emocional apresentam:
• menor incidência de doenças relacionadas ao estresse
• melhor variabilidade da frequência cardíaca
• melhor qualidade do sono
• maior aderência a programas de exercício físico
Ser água, portanto, não é ser passivo.
É ser estrategicamente fluido.
Hidrate-se com consciência
Não espere a sede intensa. A sede já é um sinal tardio.
Valorize águas de boa procedência
Sempre que possível, priorize águas minerais naturais certificadas.
O cenário intelectual brasileiro testemunha o surgimento de figuras que desafiam a especialização rígida, e Eduardo Martínez destaca-se como um exemplo notável dessa versatilidade. Médico Veterinário pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Engenheiro Agrônomo pela Universidade de Brasília (UnB) e jornalista profissional, ele conseguiu costurar saberes aparentemente distantes para consolidar uma transição de sucesso para o topo das letras nacionais.
Diferente de muitos acadêmicos que migram para a literatura após a carreira científica, Martínez já era um escritor estabelecido décadas antes de sua incursão mais famosa na zoologia. Sua estreia literária ocorreu em 2004 com o livro Despido de Ilusões, obra que alcançou um marco impressionante ao figurar entre os títulos mais requisitados da biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no Rio de Janeiro.
Essa veia artística pulsante caminhou lado a lado com o rigor da observação técnica. Foi somente em 2019 que Martínez gravou seu nome na história da zoologia ao publicar, em revista científica, o primeiro artigo na América Latina sobre o comportamento do papagaio eclectus (Eclectus roratus). O estudo, fruto de sua trajetória na UnB, demonstrou uma precisão analítica que ele já exercitava em sua vasta produção textual.
Atualmente, o autor soma quatro livros publicados e mais de 40 participações em coletâneas, mostrando uma produtividade constante que une a ética da ciência à poesia das letras. Sua maturidade criativa atingiu o ápice com a obra 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho, que se tornou um fenômeno de crítica por suas reflexões profundas sobre a existência, o tempo e a condição humana.
Eduardo e o Jornalista José Seabra, o Chefe
A trajetória na literatura ganhou um capítulo decisivo no final de 2022, quando foi convidado pelo jornalista e escritor José Seabra, o Chefe, para integrar o quadro do Notibras. Em pouco tempo, Martínez consolidou-se como o cronista número um da casa, unindo a sensibilidade do escritor à técnica jornalística apurada.
Expandindo sua presença no cenário cultural, no final de 2025, o autor passou a integrar também o quadro de colunistas do Jornal Cultural ROL. O convite partiu do editor-chefe e grande escritor Sergio Diniz da Costa, que reconheceu em Martínez uma voz essencial para o debate literário contemporâneo, marcada pela experiência, lucidez e pelo domínio das ferramentas de comunicação.
Eduardo com o escritor/editor Daniel Marchi e Celso (padrinho)
No portal Notibras, o autor desempenha um papel fundamental além da redação de suas crônicas: ele divide a editoria do Café Literário com os escritores Daniel Marchi e Ju Trinxet. Juntos, eles coordenam um espaço que se tornou referência por sua proposta inclusiva e curadoria de alta qualidade técnica e artística.
O intuito central do Café Literário, sob a liderança deste trio, é ser um espaço democrático para novos talentos da literatura. O projeto funciona como uma vitrine essencial, oferecendo visibilidade para escritores emergentes e fomentando a nova produção intelectual brasileira com a generosidade característica de Martínez e seus parceiros.
Eduardo com o Professor José Geraldo de Sousa Junior
O prestígio de sua escrita foi ratificado por um selo de peso acadêmico: a orelha de seu livro mais recente foi escrita pelo Professor José Geraldo de Sousa Junior, ex-reitor da UnB. O endosso de uma das figuras mais respeitadas do pensamento social brasileiro elevou o autor ao patamar de voz indispensável nas humanidades e na literatura nacional.
O reconhecimento em concursos também marca sua trajetória recente de forma brilhante. Entre suas premiações, estão sua crônica O pai do rock foi um péssimo caçador venceu o concurso do PET de Biblioteconomia e Ciência da Informação da UFSCar (2023). No mesmo ano, o conto Duas vidas, um parque e o silêncio foi o grande vencedor do certame da Revista Eco Literário.
Essas vitórias foram o prelúdio para as grandes honrarias de 2025, quando seu livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho foi o vencedor do prestigiado Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025, e ele foi agraciado com o Prêmio Personalidades Literárias e Culturais. Tais distinções confirmam que Martínez alcançou a excelência técnica tanto na arte da ficção quanto no exercício da crônica jornalística.
Sua trajetória prova que a ciência, o jornalismo e a literatura são faces da mesma moeda. O mesmo homem que descreveu o etograma de uma ave da Oceania em 2019 já descrevia, décadas antes, as nuances do coração humano, provando que o intelecto não deve aceitar limites impostos por diplomas ou cronogramas acadêmicos.
A conexão entre a UFRRJ e a UnB em sua vida vai além do currículo, formando a base de sua conduta ética. Na primeira, compreendeu o valor da vida biológica como veterinário; na segunda, explorou a engenharia agronômica e a ciência aplicada, culminando agora na exploração estética da alma através das palavras e do jornalismo, sua primeira graduação.
Ao final, o legado de Eduardo Cesario-Martínez é um mosaico de sucessos que unem a técnica e a sensibilidade. Com o apoio de nomes como José Seabra e Sergio Diniz, ele se consolidou como uma das figuras mais completas e fascinantes da cultura brasileira atual, provando que a maturidade é a fase mais fértil da criação intelectual.
O autor continua a desafiar o tempo e o senso comum em sua produção diária, onde a objetividade do cientista se mistura à agilidade do jornalista e à sensibilidade do escritor. Martínez escreve para curar a cegueira cotidiana, oferecendo aos leitores uma lente mais humana, detalhada e profunda sobre os dilemas do nosso século.
Sergio DinizImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/699a5d58-795c-8332-948d-e58452c06fb5
As horas me chamam… O Pêndulo da Inspiração badala versos Versos divorciados de rimas. A Pena, embebida na seiva azul, Baila ao compasso de velha sonata Gemendo canções nostálgicas.
Poeta das horas silenciosas Sopro versos como infantes bolhas. Desnudo minh’alma das máculas vespertinas. Sou solitário poeta de seres encantados Solitária câmara desfilando formas. Criador e criatura, ao bafejo de sonhos.
Minha alma e minha Pena: A nudez de meus versos se cobriu Das recatadas vestes do amanhecer. O poeta parte… derradeiro.
Ramos António AmineImagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/699fc88b-daf8-832a-8df0-20e8a7b4ee0a
Na Quinta dos Ímpios, respira-se apenas porque o ar ainda não foi cooptado. Ainda assim, é poluído, não absoluto, mas condicionado.
O sol aquece os sem-solo, sem jamais revelar o que se esconde. As árvores são tão frondosas que suas raízes murcham numa terra de promessas vazias.
A quinta está entre reservas naturais; sua riqueza, cercada por arames farpados, seus guardas, escoltados por cães fardados.
Os donos exibem sorrisos que não naufragam, mas esquecem que uma fenda diminuta foi suficiente para afundar o Titanic.
Farejam entre sorrisos e contratos. Quando decidem tocar o solo, fazem-no como quem encena uma peça de teatro, com cuidado, como se lidassem com extraterrestres.
São sempre atentos a não sujar as mãos; para isso, têm os seus leais, sempre vigilantes em manter o silêncio dos outros; por isso, têm seus executores.
Ali, proclama-se a paz enquanto os frutos colhidos nascem da miséria de um povo empobrecido.
Na Quinta, normalizam-se as dificuldades e vendem-se facilidades. O acesso a elas é escasso, embora não faltem, ao redor, animais que devoram os próprios donos.
As janelas da Quinta são espelhos: refletem rostos limpos, mas por trás de cada reflexo há olhos que já esqueceram o que é compaixão.
Os que passam por fora, indiferentes e sem esperança, acreditam que não há vento capaz de derrubar as muralhas da Quinta. Não percebem que quanto mais indiferentes se tornam, mais neutros são e a neutralidade sempre esteve ao lado das correntes invisíveis.
Mas haverá os que sentirão o chão tremer sob os pés, que verão a sombra do poder em cada folha da árvore frondosa, que reconhecerão o cheiro da injustiça nos jardins bem cuidados por mãos sem compaixão.
Para eles, a Quinta não é quintal: é prisão. E um dia, hão de questionar.
Quando esse dia chegar, as desculpas serão dispensadas a culpa não aceitará morrer solteira e a responsabilidade triunfará.
A voz do silêncio ecoará mais alto que a dos ímpios. Os neutros farejarão, tardiamente, o mesmo odor da injustiça. Os indiferentes dirão que sempre souberam – os hipócritas.
E aqueles que sentiram o chão tremer, que tiveram a coragem de questionar o calor infernal do poder dos ímpios da Quinta?
“O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonhos.” Orson Welles
É realmente incrível como o cinema consegue transmitir/expressar de maneiras tão diversas e, por vezes, curiosamente inusitadas, a partir de óticas incomuns, assuntos que participam das esferas social e cultural, trazendo dilemas cotidianos, dramas familiares e temáticas delicadas como doença, luto e morte.
Vivenciar essas experiências através de histórias absurdas e até impossíveis exige do espectador certa capacidade de suspensão de descrença, termo popularizado em 1817 pelo poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge. Isto é, para infiltrar-se na realidade ficcional é necessário aceitar as premissas da obra, mesmo que elas sejam contraditórias, improváveis, bizarras, excêntricas ou mirabolantes. É apostar em um caminho provável que permite ao espectador habitar a obra da mesma forma que ela participa do mundo compartilhado. Ao mesmo tempo em que se mergulha numa história contada por um viés diferente, esta integra e denuncia a complexidade do sujeito. Por estas e outras razões, é que somos tomados por uma sensação estranha/familiar, controversa, de saber que tal dilema ou drama existe, porém é retratado de modo estapafúrdio ou inquietante.
Falarei de algumas obras para trabalhar essa ideia.
Começando por um longa australiano de terror bastante elogiado, ‘Bring Her Back’ (2025), ‘Faça ela voltar’. A premissa gira em torno da adoção de dois meio-irmãos por uma mulher que trabalha com acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade. Acompanhamos a adaptação destes irmãos na nova casa, onde lá também vive um menino que apresenta comportamentos bastante estranhos. Estes irmãos estão passando por um doloroso luto pela morte de seu pai, tentando adaptar-se à realidade que se apresenta. Acontece que a mãe adotiva também vive seu luto: sua filha morre acidentalmente na piscina. A mulher é tomada por um sentimento devastador de culpa e não há nada que a faça aceitar este terrível desfecho para sua amada filha.
Apesar de o filme ser aterrorizante, com cenas gráficas de violência, apelando para o gore, muitas vezes, a história tem como plano de fundo a dor como narrativa. Um luto não trabalhado de uma mãe que sofre e definha gradativamente. A parte intrigante: ela congela a filha para realizar um ritual envolvendo sacrifício de outras crianças com o intuito de trazê-la de volta ao seu convívio. Embarcamos então em sentimentos conflituosos: nos compadecemos com sua dor, porém queremos salvar as crianças do ritual macabro.
Outra obra de terror e suspense com semelhante temática é o curioso longa escocês ‘A Dark Song’ (2016), ‘Vozes da Escuridão’. Aqui há também a perda de um filho de forma bastante dramática: ele é raptado por um grupo de adolescentes que fazem uma espécie de aposta, porém as coisas tomam outras proporções, e a criança acaba falecendo. A mãe desesperada, procura por um ocultista com o objetivo de trazê-lo de volta. Ela aluga uma casa bastante afastada da cidade grande, onde os dois passam meses confinados executando os ritos, sentenças e atividades requeridas para que o ritual possa se concretizar.
A trama retrata o sofrimento da mãe que além de ser corroída pela culpa, também se vê completamente impotente diante daqueles adolescentes que sequestraram seu filho. Conforme ambos se dedicam ao cansativo ritual, uma verdade é revelada: a mulher mentiu para o ocultista. Ela não busca o retorno do filho, mas vingança para os seus algozes. A partir disso, o filme ganha outros contornos, a tensão aumenta e o espectador embarca junto nesta angustiante mudança de direção que impacta o próprio ritual.
Mais uma vez temos a temática do luto, da não aceitação, do sofrimento pela perda de um ente querido e o sentimento de vingança tão presente em todos nós. Este último, nem sempre passamos ao ato, porém permanece em nosso imaginário.
‘The Surrender’ (2025), algo como ‘A Rendição’, outro suspense bem avaliado e comentado pelo público, tem em sua premissa relações conflitantes entre mãe e filha. De opiniões muito diferentes uma da outra com relação à família, escolhas de vida, visão de mundo e a morte do patriarca, ela acabam parceiras em um projeto nada convencional: realizar um ritual para trazer o pai/marido de volta. Embora mais uma vez há um ritual presente, temos na trama diálogos bastante marcados entre mãe e filha que por vezes resgatam trechos da história de cada uma. São acusações de abandono, renúncia da vida familiar em busca de outros caminhos, uma vida dedicada em grande parte à doença do marido em detrimento de mais atenção à filha, cobranças de ambas por mais amor e afeto, além de ressentimentos que deixaram feridas ao longo dos anos.
O conflito entre elas fica ainda mais intenso quando a mãe revela que para contratar um famoso ocultista, ela investe todas as suas reservas financeiras, inclusive a casa. Acompanhamos de um lado, a esposa totalmente perdida, desbussolada, que se vê sem propósitos para continuar vivendo sem o marido, sem fazer papel de esposa, negando a iminente solidão. De outro lado, uma filha dividida entre atender ao pedido da mãe em fazer o ritual juntas, unidas por uma causa ‘nobre’ compadecendo-se com sua dor e desespero, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a absurda decisão de entregar os bens da família em troca de ter o pai de volta. Um drama muito interessante envolto numa atmosfera obscura sobrenatural. O que pesa mais: renunciar aos bens para ter o pai ou aceitar sua morte?
Os próximos dois filmes a seguir têm a temática maternidade como ponto de partida.
‘Lamb’ (2021) é uma produção do tipo folk horror bem peculiar. Trata-se de um casal que na ânsia de ter um filho a qualquer custo passa a cuidar de uma criatura metade humana, metade ovelha.
A mulher, quando a vê, logo nutre seu lado maternal, inclusive ajudando-a no parto. Ela faz de tudo para afastar sua real mãe, uma ovelha que permanece por dias em sua janela chamando seu bebê de volta. Enfurecida, a mulher mata a ovelha. Mais tarde, ela mostra à criança, já crescida, onde sua mãe biológica está enterrada. Mentiu a ela dizendo que morreu por causas naturais.
Interessante um ponto do filme em que a presença do cunhado, irmão do marido, tenta colocar em xeque o que parecia ser um delírio a dois em chamar de filho aquela estranha criatura. Porém suas investidas não têm sucesso, e o casal continua a protagonizar a família perfeita. Depois de um tempo, a natureza cobra seu preço: o verdadeiro genitor aparece, ele metade homem, metade ovelha. Para vingar a morte da mãe, mata o marido, toma seu filho, deixando a mulher desolada e isolada nos confins das terras remotas islandesas em companhia de um silêncio ensurdecedor.
Para finalizar, temos um longa-metragem tcheco pouco conhecido pelo público em geral, ‘Little Otik’ (2000), também chamado por ‘Greedy Guts’. Talvez a mais estranha premissa até o momento: um casal com problemas de fertilidade passa a cuidar de um graveto como se fosse um bebê. O filme mistura comédia e drama numa atmosfera surrealista, bastante improvável. Há momentos em que tudo parece não passar de um surto ou alucinações de ambos personagens.
O filme é baseado em um conto de fadas ‘às avessas’. Se nos contos tradicionais lobos, ogros e bruxas ameaçam devorar crianças, o graveto criado como ente da família cresce demasiadamente, formando longos troncos fortes e raízes protuberantes e passa a querer devorar seus pais. Além de trabalhar a questão de uma maternidade paranoica levada até as últimas consequências, ‘Little Otik’ também assume a crítica à sociedade do consumo, à regressão infantil focada na oralidade onde objetos assumem dimensões fetichistas e mágicas com vistas a tamponar (o que é impossível) as frustrações.
A ideia deste texto foi apresentar outros modos de contar a vida através da linguagem do cinema. A experiência na tela nos faz mover na história como nos movimentamos no mundo e nos convoca a exercitar ‘pontos fora da curva’. As produções cinematográficas nos mostram como é possível trabalhar aquilo que é mais familiar nos dramas da vida narradas em diferentes cartelas, propostas, possibilitando aberturas para novas ancoragens na realidade, novas perspectivas, novos olhares e atravessamentos. É permitir-se embarcar nas entranhas do estranho.