Carlos Carvalho Cavalheiro

Professor e historiador de Porto Feliz participa de evento sobre literatura operária em Sorocaba

Adilene Cavalheiro e Carlos Carvalho Cavalheiro - Foto: Flávio Miyata
Adilene Cavalheiro e Carlos Carvalho Cavalheiro – Foto: Flávio Miyata

Carlos Carvalho Cavalheiro, docente da EMEF Coronel Esmédio, apresentou obras que resgatam a memória dos trabalhadores têxteis e a luta sindical na região

Porto Feliz/Sorocaba — O professor, historiador e escritor Carlos Carvalho Cavalheiro, docente de História na EMEF Coronel Esmédio, em Porto Feliz (SP), foi um dos convidados da 22ª edição do evento ‘Café & Cultura – Vamos Jogar Conversa Dentro‘, realizada pela Academia Sorocabana de Letras em parceria com a Padaria Real. O encontro, ocorrido no último mês, trouxe como tema central a ‘Literatura Operária’ e foi conduzido pelo confrade Luiz Fernando Martins de Lima.

Natural de São Paulo e radicado em Sorocaba há mais de 50 anos, Carlos Carvalho Cavalheiro é mestre em Educação pela UFSCar (campus Sorocaba) e doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO). Durante sua participação, o autor falou sobre sua trajetória na pesquisa histórica e na literatura, com ênfase no resgate da memória dos trabalhadores das fábricas têxteis, sobretudo nas décadas de 1920 e 1930 em Sorocaba.

Cavalheiro apresentou obras como ‘Memória Operária’, ‘Salvadora!’ (biografia de Salvadora Lopes Peres, primeira mulher eleita vereadora em Sorocaba, em 1947) e os romances ‘Entre o sereno e os teares’ e ‘O legado de Pandora’. O mediador do debate concentrou as perguntas no livro ‘Entre o sereno e os teares’, que narra a história de Rodrigo Trindade, conhecido como Meia-Volta, um malandro que se transforma ao conviver com Zilda, operária e militante anarquista. A obra foi eleita o melhor livro de 2018 em Sorocaba e é vencedora do Prêmio Anual Sorocaba de Literatura.

Além da produção literária, Cavalheiro também atua diretamente na educação básica pública. Na EMEF Coronel Esmédio, em Porto Feliz, o professor coordenou projetos como ‘Ori-gens’, voltado ao resgate de raízes de afrodescendentes por meio de entrevistas realizadas por alunos, e ‘Meu quintal é maior do que o mundo’, iniciativa de intervenção ambiental que alia cidadania e senso crítico. Carlos Carvalho Cavalheiro é colaborador dos jornais ROL e Tribuna das Monções, além do Portal Marimba Selutu de Angola. É acadêmico correspondente da FEBACLA e efetivo da Academia Independente de Letras.

O evento contou ainda com a participação do escritor Carlos Araújo, autor de ‘Companheiros’ e ‘Linha de Frente’ — livros-reportagem sobre os sindicatos dos metalúrgicos e dos rodoviários de Sorocaba. Araújo analisou a transformação do sindicalismo na cidade a partir da década de 1980, inspirado no modelo do ABC paulista.

De acordo com os organizadores, a proposta do encontro foi discutir como a literatura operária preserva não apenas os fatos históricos, mas também a dimensão humana da luta por dignidade e pertencimento social.




A minha vizinha da frente

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A minha vizinha da frente’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/108827234ee2

Hoje acordei com vontade de escrever, mas me faltam memórias para tal. Saudade de um tempo em que corria por este bairro de onde saí tão jovem. Tinha lá meus 18 quando, por sorte, passei no concurso do Banco do Brasil. Há tanto tempo, que todos os meus amigos me invejaram, tamanho que era o salário naquela época. O pessoal na rua comentava: “Você viu? Pois é, o Quinzinho, filho da dona Eulália, passou pro Banco do Brasil.”

             Como consequência desse sortilégio, fui tomar posse em uma cidadezinha lá do interior de Minas Gerais, tão distante desta em que agora me encontro. Fui, mas com a promessa de retornar em poucos anos. Tal jura, no entanto, só fui cumprida há pouco mais de dois meses, quando aqui estou com meus quase 70.

             Durante o longo período de bancário, trabalhei com afinco e, aos poucos, fui galgando cargos até que, quase 20 anos após, cheguei ao invejado posto de gerente geral da agência. Todos me conheciam como senhor Oliveira. Todos! Desde o mais graúdo investidor até os que sobreviviam com meros vinténs. 

             De tão afamado me tornei, o próprio presidente do Banco do Brasil veio me pedir para não me aposentar quando completei meu tempo de serviço. Comovido com tamanha honraria, fiquei por mais alguns anos. Na verdade, agora que estou em tal situação, não preciso mais viver sob a fumaça da hipocrisia. Fiquei por conta da sensação de poder, além, é óbvio, pelas inúmeras regalias, sem contar o salário muito maior do que eu poderia gastar. 

            Os anos seguintes foram, talvez, os mais incríveis da minha vida. E, se não foram, são os que ainda pululam minha mente. Jantares regados a iguarias, noites em quartos de hotéis cinco estrelas, sempre muito bem acompanhado por mulheres lindas, mesmo que recompensadas por notas graúdas, que não me fizeram falta. 

            Aos 66, conheci Sandra, que tinha lá seus 38. Linda, linda, linda! Não sei o que ela viu em mim, já que era de uma família mais abastada do que todo o dinheiro que eu poderia ganhar trabalhando no mais alto posto do Banco do Brasil por mais de um século. Seja como for, nos envolvemos e, de tão apaixonados, resolvemos comemorar nosso primeiro ano juntos. 

          Viajamos para Paris, onde ficamos hospedados no Ritz. Passeamos pela famosa cidade, fomos a museus e todos os passeios possíveis durante oito dias, até que Sandra pôs na cabeça que queria realizar um antigo sonho: sobrevoar Paris num balão. Apesar do flagrante pavor, pois não nasci com asas, decidi acompanhar a minha amada.  

             Foi numa quarta-feira quando tudo aconteceu. Contratamos um baloeiro, que nos orientou sobre o voo. Tudo parecia maravilhoso, até para mim. Comecei a me soltar quando, de repente, aquela enorme bola cheia de gás começou a rodopiar pelo céu da capital francesa e, desesperados com as labaredas cada vez mais próximas, pulamos quando estávamos há pouco mais de 20, 30 metros do chão. 

            O baloeiro, que até hoje não sei o nome, e minha Sandra tiveram morte instantânea. Eu, por sorte ou azar, sobrevivi, apesar de múltiplas fraturas, incluindo três vértebras cervicais, que me deixaram paralisado do pescoço para baixo. 

             Depois de quase dois anos de fisioterapia, retornei para esta antiga casa, herança da minha falecida mãe, dona Eulália. Passo o dia inteiro deitado numa cama cheia de controles, que consigo acionar com um canudo preso à minha boca. Meu maior divertimento, o único na verdade, é observar a minha linda vizinha, que costuma sair de casa e se sentar numa dessas cadeiras de praia na calçada.

             Minha vizinha, de vez em quando, cumprimenta alguém que passa, com um sorriso, que me chega aos olhos como o mais lindo que conheci. Mas ela parece preferir se entreter com seu aparelho celular. Não sei se ela já me viu ou se sabe da minha existência. Todavia, ainda me resta uma última esperança, provavelmente a única que me faz querer viver: descobrir o seu nome.

Eduardo Cesario-Martínez

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Dia da Marinha Portuguesa

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

’20 de maio. Dia da Marinha Portuguesa.
Altruísmo e espírito de missão

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Servir na Armada Portuguesa, de facto, não era para qualquer pessoa.

Esta circunstância alimentou, e reforçou a autoestima de um jovem humilde, pobre, mas que não virou as costas a um sonho, lutou, correu atrás dele e venceu, sempre convicto de que seria capaz de atingir este primeiro desiderato na sua vida, foi um pouco como refere o adágio popular: “O homem sonha; Deus quer e a obra nasce”, neste caso, o projeto, concretiza-se. 

Um de Abril de mil novecentos e sessenta e seis, data histórica, que prevalece na memória de um cidadão, hoje, pai e avô, que continua a orgulhar-se do privilégio de ter servido na Armada Portuguesa, com total empenho, desvanecimento incontido e, acima de tudo, um grande respeito pelos valores que continuam a orientar todas as pessoas, nas diversas especialidades, com as diferentes patentes e motivações, que excedem todas as expetativas, continuam a “Amar” a nossa Armada.

O lema que continua a orientar a vida deste cidadão: “A Pátria Honrae que a Pátria vos Contempla”. 

A escolha, feita há sessenta anos, considera-a, ainda hoje, como sempre, a mais acertada, isto é: “servir a Armada Portuguesa, foi a forma que considerou a mais abnegada, de amar o seu país”, nada pedindo, então, em troca.

No dia um de Abril de mil novecentos e sessenta e seis (que não foi nenhuma mentira), aquele jovem sonhador apresentava-se no Corpo de Marinheiros no Alfeite, onde adquiriria todo o fardamento necessário, para, de imediato, e ainda no mesmo dia, receber a respetiva “Guia de Marcha” e dirigir-se para o Grupo Número Um de Escolas da Armada, em Vila Franca de Xira, onde se processaria a preparação militar dos mancebos, e também dos recrutas, que se prolongou até quinze de Julho DE MIL NOVECENTOS E SESSENTA E SEIS, data do “Juramento de Bandeira”, a que correspondia o fim da recruta.

O contingente de abril de mil novecentos e sessenta e seis era composto por mais de mil homens: cerca de quinhentos e cinquenta, mancebos voluntários, com dezassete/dezoito anos; os restantes, jovens recrutados na idade normal para o serviço militar, com vinte/vinte e um anos de idade.

Na época, cumprir o serviço militar na Armada Portuguesa, como de resto, nos restantes ramos das Forças Armadas, era, naturalmente, uma imposição que pendia sobre todos os jovens Portugueses, todavia, existia a outra alternativa, que já foi identificada: a emigração que, até ao vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro, era feita sob a “capa” da clandestinidade, com imensos riscos, incluindo perigo de vida, para os Portugueses que optavam por sair do país.

O cumprimento do serviço militar na Armada Portuguesa constituía e, continua a ser, uma incomparável “Escola de Vida Excecional”. Aqui se cultivavam os valores da solidariedade, da camaradagem, da lealdade, do humanismo, do respeito, da tolerância, da compreensão, da disciplina e da entreajuda; nela, na Armada, se cumprem: com rigor, profissionalismo e atualização, as diversas funções que cabem a cada mulher e a cada homem; neste ramo das Forças Armadas o “espírito de missão”, o altruísmo com que se realizam as gratificantes tarefas, por mais “penosas” que possam parecer, é uma constante e uma honra.

“A Pátria honrae que a Pátria vos Contempla”. 

E não há que ter complexos ao se escrever, e/ou pronunciar a palavra “Pátria”, porque ela significa o Território, a Língua, a História, a Cultura, com as suas tradições, usos e costumes, os objetivos, enfim um Destino comum. 

Tudo isto se defende no serviço militar, em geral e na Armada em particular.

É muito importante, para a formação da pessoa, verdadeiramente humana, que, as/os jovens Portugueses, cumpram um período, ainda que de alguns meses, de serviço militar, mesmo que seja em regime de voluntariado, sem prejuízo das suas atividades profissionais, pelo menos em tempo de paz, porque não há melhor escola na vida, do que tudo o que se aprende na Escola Militar.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

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A qualidade do encontro

Marli Freitas: ‘A qualidade do encontro’

Marli Freitas
Marli Freitas
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Entardeceu mais uma vez. Estou sentindo aquela vontade boa de sair por aí fazendo trocadilhos no meio do caminho. Quero sorrir sem nenhum motivo, sentir o frescor do vento, ouvir o canto dos pássaros e ver a delicadeza do riacho. Subitamente me lembro que estou aguardando a visita do meu filho caçula que, neste momento, está atrasado. Então penso que não virá e tudo perdeu a graça instantaneamente. O filme romântico que parecia engraçado perdeu o tempero. Aperto o ‘pause’ e vou saciar a minha ansiedade na cozinha. Preparo uma massa recheada de queijo mineiro e um coquetel de cereais. Nada parece fazer sentido.

Então entendo que não é a proximidade física que une as pessoas e me lembro do meu primogênito. Desde o início a nossa relação foi marcada por obstáculos físicos. Durante a gestação eu trabalhava em uma escola na zona rural que ficava depois da torre de televisão, no ponto mais alto da cidade de Dom Cavati aqui no leste das ‘Terras das Alterosas’. Eu saía de casa às 5:15 da manhã, portanto antes do raiar do dia. Tinha que enfrentar o medo do escuro, a subida íngreme, o gado no meio do caminho e o mal-estar que sempre vinha pela manhã devido à gravidez. Quando chegava na torre, depois de ter caminhado mais de 5 km, ainda descia mais uns 2 km. Essa rotina durou até o sétimo mês de gestação, pois ele nasceu em 2 de março do ano seguinte.

Vivemos momentos intensos no seu primeiro ano de vida. Como mãe de primeira viagem mantinha sentinela por 24 horas no dia. De volta ao trabalho, depois da licença-maternidade, notei ao chegar em casa a sua solidão e logo encomendei um irmãozinho para fazer-lhe companhia. A fragilidade do meu corpo ficou visível. Estava grávida e, desta vez, doente. Mal conseguia dar uns passos dentro de casa. A recomendação médica era repouso total ou perderia o feto ainda com 3 meses de gestação. Tirei licença do trabalho e o meu primogênito, tão pequenino, não podia ficar comigo, pois era uma criança hiperativa e colocaria em risco a vida do irmãozinho. Vivemos esse dilema por longos meses. O pai o levava para ficar com os avós enquanto ele trabalhava. Eu só podia ficar com ele à noite sob vigilância.

Bem, deu tudo certo! O irmãozinho nasceu e ele se sentiu responsável por nós desde o primeiro instante. Pode parecer bizarro, mas em um minuto de distração ele, com um aninho, tirou o irmão do berço que estava no quarto e me entregou na copa, onde conversava com as visitas. Assim tivemos dias de glória enquanto a família crescia.

Mais uma vez estava grávida e logo eu teria ‘três mosqueteiros’. Eu os chamava assim para fazer valer o lema, “um por todos e todos por um”. O primogênito levou muito a sério o papel responsável que tinha na família. Era o comandante da casa, mas logo aos 17 anos saiu de casa para estudar e trabalhar numa cidade vizinha. Teve que enfrentar a vida de frente e lutar pelo pão, enquanto eu me desdobrava para pagar o Curso de Direito. Entre as muitas dificuldades que enfrentou, o único alento era o orgulho que tinha de ‘sua mãe’. Passava o intervalo, entre as aulas, no orelhão da escola falando comigo, quando na verdade queria mostrar para aquelas pessoas o quanto ele me amava.

Por muitos anos vivemos assim. A conta telefônica alta, na época, era o único luxo que tínhamos. Se apaixonou pela moça mais inteligente e mais bonita da sua turma. Desafiou a realidade e ganhou com elegância o seu coração.

Tão logo concluíram o curso, passaram no Exame da Ordem e se casaram. Ainda teriam que passar por muitas dificuldades, mas ergueram a cabeça e ganharam o mundo. Foram morar no Japão.

O que posso dizer é que sofri a dor do parto por longos anos, mas hoje, se parar para fazer as contas, a ausência física já ultrapassou a presença, mas ainda sinto como se ele estivesse aqui dentro de mim. Todos os momentos que estou com ele, mesmo à distância, estamos verdadeiramente presentes. Sinto como se não houvesse nenhum limite nessa comunhão. Desde muito pequeno ele já me olhava e via algo que, naquele instante, parecia incompreensível para mim. Muitas vezes pensei, ‘o que esse menino vê em mim? ‘.

De uma coisa eu sei, ninguém nunca me olhou e enxergou com tanto zelo e precisão. Ele foi o meu primeiro incentivo real na vida. Os nossos instantes virtuais têm qualidade, o nosso vínculo cresce substancialmente a cada encontro. A minha neta Alice, que nasceu do outro lado do planeta já sente responsabilidade em me ver. Já aprendeu a dar carinho espontâneo e verdadeiro. Tem sempre um bom motivo para vir ao meu encontro. O que me faz acreditar que não é a proximidade física que une as pessoas e sim a qualidade do encontro.

Marli Freitas

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Clareza

Eliana Hoenhe Pereira: Crônica ‘Clareza’

Eliana Hoenhe Pereira
Eliana Hoenhe Pereira
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Clareza é quando, em um relacionamento, por parte de um dos parceiros, acontece afastamento. Sem expor  suas razões, cria espaço para suposições, rastros de desentendimentos e erros de julgamentos.

A clareza é o elo para uma boa convivência. Promove o autoconhecimento, impede conflitos e traz sentido. Ninguém possui o direito de magoar o outro.  Nada mais elegante que uma relação com leveza de sentimentos que não leve a ressentimentos.

Eliana Hoenhe Pereira

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Congada de Oliveira

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora

‘Congada de Oliveira: quando a memória dança
para que a história não morra’

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada por IA do Bing - 19 de maio de 2026, às 10h00
Imagem criada por IA do Bing – 19 de maio de 2026, às 10h00

Em Minas Gerais, a história não vive apenas nos livros. Ela caminha pelas ruas ao som de tambores, veste coroas, empunha bastões, canta cantigas e transforma fé em resistência cultural. É exatamente isso que acontece na tradicional Congada de Oliveira, em Minas Gerais, uma manifestação que ultrapassa o campo do folclore e se estabelece como um verdadeiro patrimônio vivo da memória afro-brasileira.

A cidade de Oliveira carrega uma das expressões mais marcantes do congado mineiro, tradição que remonta ao período colonial e que possui raízes profundas no antigo Reino do Congo, na África Central. Historiadores apontam que já no século XVII existiam registros de coroações simbólicas de reis negros em irmandades religiosas no Brasil, especialmente ligadas à devoção de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, santos que passaram a representar acolhimento espiritual aos negros escravizados.  

A Congada nasceu do encontro doloroso entre dois mundos: de um lado, povos africanos arrancados brutalmente de sua terra; de outro, a imposição cultural europeia durante o processo escravagista. No entanto, aquilo que parecia apagamento tornou-se resistência. Os africanos preservaram ritmos, símbolos, espiritualidade e hierarquias reais de seus povos, adaptando-os ao contexto brasileiro.

Em Oliveira, assim como em outras cidades mineiras, a Congada acontece como um grande cortejo sagrado. As ruas tornam-se palco de um teatro histórico a céu aberto. O som grave dos tambores ecoa como batimentos cardíacos ancestrais. Caixas, reco-recos, pandeiros, ganzás e violas acompanham os cantos que misturam português com expressões de origem banto.  

As músicas possuem um caráter profundamente espiritual e narrativo. Algumas canções exaltam os santos protetores:

“Viva o Rosário de Maria…”

Outras relembram a dor da escravidão, os ancestrais perdidos no Atlântico e o clamor pela liberdade. O canto geralmente é puxado por um capitão ou mestre, e o grupo responde em coro, uma dinâmica que simboliza unidade coletiva.

Entre os personagens representados estão figuras que remetem à estrutura de uma corte africana:

Rei Congo

Rainha Conga

Príncipes e princesas

Embaixador

Secretário

Capitães

Guerreiros

Vassalos

Conguinhos (crianças que perpetuam a tradição)

Esses personagens não aparecem por acaso. Eles representam a preservação simbólica da dignidade africana em um período em que pessoas negras foram desumanizadas pelo sistema escravocrata. Vestir uma coroa, naquele contexto histórico, era reafirmar humanidade diante de um sistema que tentava negá-la.

Um momento particularmente simbólico em muitas congadas mineiras e presente no imaginário popular de Oliveira é a homenagem à Princesa Isabel. Após a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, muitas guardas passaram a reverenciar a princesa como personagem de libertação. Durante os cortejos, é comum cânticos de agradecimento e menções simbólicas à figura da monarca.

Contudo, uma análise histórica mais profunda nos convida à reflexão: embora a princesa tenha assinado a lei, a verdadeira libertação foi construída também pela resistência negra diária, pelos quilombos, pelas irmandades, pela cultura e pela sobrevivência espiritual de um povo que jamais aceitou ser apagado.

A Congada também encena batalhas simbólicas entre cristãos e mouros, ou entre diferentes reinos africanos, representando conflitos, reconciliações e a coroação do rei. Essas dramatizações unem dança, teatro e religiosidade em um espetáculo profundamente rico em significados.  

Sob a perspectiva da saúde integral, a Congada nos ensina algo poderoso: um povo adoece quando perde sua memória. Cultura também é saúde. Pertencimento também cura. Ritmo também organiza emoções. Espiritualidade também fortalece identidades.

A dança melhora o condicionamento físico. O canto coletivo fortalece vínculos sociais. A espiritualidade reduz sentimentos de isolamento. A preservação cultural combate o adoecimento emocional causado pelo apagamento histórico.

Talvez por isso, geração após geração, os tambores continuam ecoando em Oliveira.

Porque enquanto houver Congada, haverá memória.

E enquanto houver memória, haverá resistência.

Joelson Mora

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Whale song

Jane Nash: Story ‘Whale song’

Jane Nash
Jane Nash
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He held the V tool in his right hand pushing it away from his anchoring fingers through the rubber block. Slowly. He’d already drawn an outline of his whale for guidance but the details were waiting to come out of his hand and fingers. The silence of the room was punctuated by the rattle of his breathing. Medication keeping him alive and focused were responsible for the speed of his breathing. The rattle, leftover from a week of hay-fever, faded far out of his consciousness, leaving him only aware of the tiny grooves he was carving.

He was meticulous in his carving. It took him an hour to create the whale. He sat back, looking at the 15 x 9 cm carving. Rubber blocks were easier to carve and handle than Lino.  He liked the process rather than final results. Finished products no longer belonged to him as they were ready for sale.

A movement on the desk caught his attention. The whale’s tail flicked out of the block. The blowhole spouted a tiny spurt of water.  The sound of his loud breathing was eclipsed by the sounds of the ocean. Gull cries and the swish of waves entered his ears. A deep whine of whale call rang through his body leaving him breathless. As suddenly as it started, it stopped when he put his hands onto the rubber block.  

Hand printing is a process of patience and accuracy creating something special, a limited edition, a ghost or unique print.  All the while during this process, he couldn’t dismiss his  supernatural experience.  He stared at the black ink spread upon the perspex plate. He carved to add a waterspout coming from the whale on the block.  He covered the block in ink. He laid the paper upon the block and using a baren he pressed the paper into the block. Each press brought with it once again, the sound of crashing waves.

He printed a limited edition of 10. He left them pegged to a line. That night he fell asleep to the sound of whale song.

The next morning was quiet. He shook himself to counter yesterday’s hallucination.  First, a strong cup of sweet tea before he entered his studio. Every print was blank. The block had been inked.  Prints had been pegged to dry but there was nothing to show. He stared hard at the carved block. He half expected the whale to tease him and move a fin, do anything but it didn’t move. He could no longer hear whale song in his mind. The pod he created had swum away in the night. 

Deep breath sighing, he debated whether to reprint the whale or carve something different.  There was clear evidence he’d printed the day before, that wasn’t an hallucination or was it?

He stared at the blank sheets. Convinced the whales had escaped his studio in the night, he settled down to another strong cup of strong tea and began to plan how his art could repopulate the oceans.

Jane Nash

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