Contrato de permanência com o nada

Clayton Alexandre Zocarato desvenda as pequenas mentiras cotidianas e o abismo de um homem diante da própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela manhã, o homem acordou antes que o despertador tocasse. Não havia motivo para isso. O corpo simplesmente abandonara o sono como quem abandona uma cidade condenada. 

Durante alguns segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto, tentando descobrir se havia alguma diferença entre acordar e continuar dormindo. O teto estava ali, branco, indiferente, perfeitamente inútil. Uma pequena rachadura atravessava a pintura e terminava exatamente sobre sua cabeça. 

Pensou que talvez aquela rachadura fosse a única coisa verdadeiramente honesta naquele quarto. Ela não prometia nada. Não escondia sua existência. Não procurava justificar-se.

Levantou-se lentamente. O chão estava frio. Caminhou até o banheiro e observou o próprio rosto no espelho. Não reconheceu imediatamente aquele homem. Havia olhos, barba, pele, rugas discretas e uma expressão que parecia pertencer a alguém que já havia desistido de esperar alguma coisa. Aproximou o rosto do espelho. Durante alguns instantes teve a impressão de que seu reflexo respirava depois dele. Recuou. Piscou. O reflexo continuou imóvel por uma fração de segundo antes de imitá-lo. Sorriu involuntariamente. O outro não sorriu.

Naquele instante compreendeu uma coisa que não conseguiu formular: talvez nunca tivesse sido o homem diante do espelho. Talvez tivesse sido apenas o reflexo de alguma coisa que se recusava a existir.

Preparou café. A água ferveu. O ruído da chaleira ocupou a cozinha com uma espécie de alegria mecânica. Colocou açúcar na xícara, mexeu lentamente e observou o líquido escuro girar. Pensou que a vida talvez fosse aquilo: uma substância amarga que alguém insistia em adoçar para suportá-la. O problema era que, depois de algum tempo, até o açúcar se dissolvia e deixava apenas o gosto original.

Saiu para trabalhar.

‘ Na rua, as pessoas caminhavam depressa. Todas pareciam saber para onde estavam indo. Ele desconfiava disso. Talvez ninguém soubesse. Talvez a pressa fosse apenas uma forma socialmente aceita de esconder o medo.

Os homens carregavam pastas, as mulheres carregavam bolsas, crianças carregavam mochilas maiores do que seus corpos. Os automóveis avançavam uns contra os outros como animais treinados para disputar alguns segundos de existência.

Parou diante de uma faixa de pedestres. Uma senhora ao seu lado segurava duas sacolas de supermercado. Ela respirava com dificuldade. Olhou para ele e perguntou se aquele ônibus passava pelo centro. Ele respondeu que sim, embora não tivesse certeza.

A mulher agradeceu.

Foi embora.

Ele continuou parado.

Pensou que talvez toda relação humana fosse construída sobre pequenas mentiras necessárias. Ela acreditara nele. Ele acreditara que precisava responder alguma coisa. Nenhum dos dois sabia a verdade. Ainda assim, por alguns segundos, tinham dividido uma certeza falsa. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de convivência.

No trabalho, cumprimentou os colegas. Sentou-se diante do computador. 

A tela acendeu e pediu uma senha. Digitou. O sistema carregou lentamente. Na parte superior aparecia seu nome completo, seguido de um número de identificação. Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.

Seu nome parecia menor que o número.

O número parecia mais importante que seu rosto.

Sentiu uma estranha vontade de rir.

Havia passado anos tentando construir uma identidade e agora descobria que bastavam alguns algarismos para substituí-la.

Abriu os arquivos. Respondeu mensagens. Preencheu formulários. Conferiu documentos. O mundo continuava funcionando sem precisar de sua presença interior. Isso o incomodou mais do que deveria. Percebeu que poderia desaparecer naquele instante e, provavelmente, algumas pessoas só perceberiam depois de algumas horas. Outras depois de alguns dias. Algumas talvez nunca percebessem.

O pensamento não o entristeceu.

Pior.

O pensamento lhe pareceu lógico.

Durante o intervalo, foi até a janela. Lá embaixo, centenas de pessoas atravessavam a rua. Observou uma criança correndo atrás de um pombo. O animal levantou voo. A criança parou e riu.

Ele ficou olhando.

Havia uma crueldade naquela cena.

A criança ainda acreditava que correr atrás das coisas era suficiente para alcançá-las.

Ele já sabia que não era.

Talvez crescer fosse exatamente isso: descobrir lentamente a distância entre o desejo e aquilo que o mundo permite. Primeiro desejamos brinquedos. Depois pessoas. Depois reconhecimento. Depois dinheiro. Depois tranquilidade. Finalmente desejamos apenas não desejar mais nada.

E mesmo isso nos é negado.

À tarde, recebeu uma ligação de sua mãe. Ela perguntou se ele estava bem. Respondeu que sim.

Outra mentira.

Ela perguntou se havia comido.

Disse que sim.

Outra.

Perguntou quando iria visitá-la.

Disse que no domingo.

Não sabia se iria.

Desligou.

Ficou olhando para o telefone.

A culpa apareceu, mas não como arrependimento. Era uma culpa antiga, quase doméstica, como um móvel esquecido dentro da consciência. Pensou na mãe envelhecendo. Pensou no pai morto. Pensou nas fotografias guardadas em caixas. Pensou nas pessoas que amamos apenas depois que percebemos que não poderemos mais conversar com elas.

Talvez amar fosse isso: assinar antecipadamente um contrato de sofrimento.

Quanto mais amamos alguém, mais garantimos a nós mesmos uma futura ausência.

Essa ideia lhe pareceu terrível.

Depois lhe pareceu verdadeira.

Ao sair do trabalho, caminhou sem destino. A cidade começava a acender suas luzes. As vitrines exibiam roupas caras, relógios, aparelhos eletrônicos, objetos que prometiam melhorar a existência. Entrou em uma loja e observou um relógio de pulso. Era bonito. Custava mais do que seu salário mensal.

O vendedor aproximou-se.

— Posso ajudá-lo?

Ele olhou para o relógio.

— Quanto tempo ele dura?

O vendedor sorriu, sem entender.

— É um excelente relógio. Tem garantia.

— Não perguntei sobre a garantia.

O vendedor ficou em silêncio.

— Perguntei quanto tempo ele dura.

— Muitos anos.

O homem agradeceu e saiu.

Na calçada, percebeu que não queria comprar o relógio. Queria comprar a sensação de que o tempo pudesse ser possuído.

Não podia.

Ninguém podia.

O tempo era o único proprietário de todos.

Continuou andando.

Entrou em um bar quase vazio. Sentou-se no fundo. Pediu uma bebida. O homem atrás do balcão serviu sem perguntar nada. Aquilo lhe agradou. Havia uma espécie de delicadeza no silêncio de desconhecidos.

Um homem mais velho estava sentado próximo à porta lendo um jornal. De vez em quando franzia a testa. Depois dobrava a página. Depois voltava a ler.

Ele perguntou:

— O senhor encontra alguma coisa importante aí?

O velho levantou os olhos.

— Nada importante.

— Então por que continua lendo?

O velho pensou.

— Porque preciso ocupar o tempo.

O homem sorriu.

— E se o tempo não precisasse ser ocupado?

O velho dobrou o jornal.

— Então teríamos de descobrir o que fazer com nós mesmos.

Nenhum dos dois falou durante alguns minutos.

Depois o velho voltou ao jornal.

Aquela frase permaneceu dentro dele.

Talvez o maior medo humano não fosse a morte.

Talvez fosse o intervalo.

O instante em que não houvesse mais distrações suficientes para impedir alguém de encontrar a própria consciência.

Pagou a conta e voltou para casa.

No caminho, começou a chover.

Não procurou abrigo.

Andou lentamente enquanto a água escorria pelo rosto. Algumas pessoas corriam para debaixo das marquises. Ele continuou.

A chuva não o incomodava.

Havia algo quase reconfortante em ser molhado por uma coisa que não tinha intenção alguma.

Chegou ao prédio.

O elevador estava parado no quinto andar.

Apertou o botão.

Esperou.

Nada.

Subiu pelas escadas.

No terceiro andar ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. Alguém discutia sobre política. No quarto, uma criança chorava. No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Parou diante da própria porta.

Antes de abrir, ouviu alguém atrás dele.

Virou-se.

Não havia ninguém.

Olhou novamente.

No corredor vazio, uma segunda porta aparecera onde antes havia apenas uma parede.

A porta era antiga, de madeira escura.

Havia uma placa pequena.

Nela estava escrito:

CONTRATO DE PERMANÊNCIA COM O NADA.

Ele ficou olhando.

Pensou que aquilo fosse uma alucinação.

Estendeu a mão.

A maçaneta estava fria.

Abriu.

Do outro lado havia o mesmo corredor.

Exatamente o mesmo.

Mas não havia portas.

Apenas uma extensão interminável de paredes brancas.

Entrou.

A porta desapareceu atrás dele.

Continuou caminhando.

Não havia chão visível, mas seus pés tocavam alguma superfície. Não havia teto, mas não sentia o céu. Não havia vento, mas sua roupa se movia.

Depois de algum tempo encontrou uma mesa.

Sobre ela havia, um folha de papel.

Sentou-se.

Leu:

“Você deseja permanecer?”

Abaixo havia duas opções.

SIM.

NÃO.

Ele ficou olhando.

Parecia uma pergunta simples.

Não era.

Se respondesse sim, permaneceria.

Se respondesse não, o que aconteceria?

Procurou uma terceira opção.

Não havia.

Pensou em tudo aquilo que havia vivido. Os trabalhos. As conversas. Os amores interrompidos. As pequenas alegrias. Os fracassos. As esperanças que morreram antes de se transformarem em alguma coisa concreta.

Pensou na mãe.

Pensou na criança correndo atrás do pombo.

Pensou no velho lendo jornal.

Pensou no relógio.

Pensou no espelho.

Pensou na rachadura do teto.

Talvez existir fosse sempre escolher entre duas formas de perda.

Escolheu SIM.

A folha desapareceu.

Outra surgiu.

“Você aceita permanecer sem promessa de sentido?”

Ele respirou profundamente.

A pergunta lhe pareceu quase ofensiva.

Sentido?

Durante anos procurara sentido como quem procura uma casa. Talvez tivesse imaginado que em algum lugar existisse uma resposta esperando por ele. Uma estrutura secreta organizando tudo. Uma razão escondida atrás das coisas.

Mas talvez não houvesse nada.

Talvez o universo não fosse um livro.

Talvez fosse apenas uma página em branco onde criaturas desesperadas escreviam justificativas para não enlouquecer.

Pegou a caneta.

Escreveu:

ACEITO.

A folha desapareceu.

Outra apareceu.

“Você aceita que nenhuma escolha sua seja capaz de derrotar a morte?”

Ele respondeu:

SIM.

“Você aceita que aqueles que ama irão desaparecer?”

SIM.

“Você aceita que também será esquecido?”

Demorou.

Depois escreveu:

SIM.

A sala ficou escura.

Uma voz perguntou:

— Então por que deseja permanecer?

Ele não respondeu.

A voz insistiu:

— Por quê?

Ele tentou encontrar uma resposta.

Não encontrou.

Talvez permanecesse porque não sabia partir.

Talvez a vida não fosse vontade de existir, mas incapacidade de desaparecer.

Lembrou-se de uma ideia que havia lido muitos anos antes: o sofrimento nasce porque desejamos aquilo que o mundo não tem obrigação alguma de nos oferecer. Outra lembrança surgiu: a existência não vinha acompanhada de instruções. 

Depois outra: somos lançados no mundo e obrigados a escolher mesmo quando nenhuma escolha parece boa. E uma última ideia, ainda mais terrível, apareceu dentro dele: talvez a liberdade fosse apenas o nome elegante que damos à nossa condenação de escolher.

A voz perguntou:

— Você ainda quer permanecer?

Ele respondeu:

— Não sei.

Pela primeira vez, a voz pareceu satisfeita.

— Finalmente.

As paredes começaram a desaparecer.

O corredor transformou-se no quarto de sua casa.

Ele estava deitado na cama.

O despertador tocava.

A luz da manhã atravessava a janela.

Levantou-se.

Foi ao banheiro.

Olhou para o espelho.

O reflexo sorria.

Dessa vez, ele não.

A rachadura continuava no teto.

O café estava sobre a mesa.

O telefone tocou.

Era sua mãe.

Ele atendeu.

— Filho?

Ficou em silêncio.

— Você está aí?

— Estou.

— Você vem domingo?

Olhou para a janela.

A cidade estava começando novamente.

— Venho.

Desligou.

Foi até a cozinha.

Preparou café.

Sentou-se.

Durante alguns minutos, permaneceu olhando para a xícara.

Depois percebeu alguma coisa escrita em sua mão.

Não se lembrava de ter escrito.

Era uma frase curta:

“Permanecer também é uma forma de morrer.”

Esfregou a pele.

A frase não saiu.

Lavou as mãos.

Continuou ali.

Naquele momento compreendeu que o contrato nunca havia sido assinado naquela sala impossível. 

Ele vinha sendo assinado todos os dias, silenciosamente, através de pequenas concessões: acordar quando não queria, trabalhar quando não acreditava, sorrir quando estava vazio, amar sabendo que perderia, esperar sabendo que a espera também envelhecia.

O contrato era a própria rotina.

O nada não precisava buscá-lo.

O nada já estava dentro de tudo.

Estava no café que esfriava.

No telefone que parava de tocar.

Na cadeira vazia.

Na fotografia de alguém morto.

No emprego que consumia anos.

Nas palavras que não foram ditas.

Nas palavras que foram ditas tarde demais.

No corpo que envelhecia enquanto a pessoa continuava fingindo ser a mesma.

Levantou-se.

Foi até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para o espelho.

Dessa vez, o reflexo não o acompanhou.

Ficou parado.

Ele abriu a porta.

O reflexo ficou parado.

Desceu as escadas.

No terceiro andar, ouviu uma televisão.

No quarto, uma criança chorava.

No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Saiu para a rua.

A senhora das sacolas estava no ponto de ônibus.

Ela olhou para ele.

— Esse ônibus passa pelo centro?

Ele hesitou.

Dessa vez, respondeu:

— Não sei.

Ela sorriu.

— Tudo bem.

O ônibus chegou.

Ela entrou.

Ele ficou.

A cidade continuou.

Os carros passaram.

As pessoas caminharam.

As lojas abriram.

Os relógios avançaram.

E, em algum lugar invisível entre um segundo e outro, alguém assinou novamente o contrato.

Sem testemunhas.

Sem promessa.

Sem Deus.

Sem sentido.

Apenas a permanência.

E o nada, paciente, permaneceu esperando.

Clayton Alexandre Zocarato

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O Escritor na era da Inteligência Artificial

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘O Escritor na era da Inteligência Artificial: Entre a Criatividade Humana e a Tecnologia’

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A imagem produzida por IA, apresenta o diálogo entre literatura, criatividade humana e Inteligência Artificial, unindo a tradição dos livros ao universo tecnológico contemporâneo. A imagem do autor simboliza o escritor como protagonista dessa transformação cultural. Entre páginas, ideias e tecnologia, a obra reflete sobre autoria, criatividade, ética e os novos caminhos da escrita. Uma produção especial para o Jornal Cultural ROL.

RESUMO

A expansão da Inteligência Artificial (IA) generativa vem produzindo transformações significativas nas formas de criação, produção, circulação e consumo de conteúdos culturais. No campo da literatura, ferramentas baseadas em IA passaram a auxiliar escritores em atividades como pesquisa, organização de ideias, planejamento narrativo, revisão textual, tradução, experimentação estilística e desenvolvimento de personagens. Ao mesmo tempo, a incorporação dessas tecnologias suscita questões fundamentais acerca da criatividade, da autoria, da originalidade, dos direitos autorais, da ética e do futuro da profissão de escritor.

Este artigo tem como objetivo analisar a relação entre o escritor contemporâneo e a Inteligência Artificial, investigando as possibilidades de colaboração entre a criatividade humana e a tecnologia, bem como os riscos decorrentes da dependência tecnológica e da substituição da intervenção intelectual do autor. Parte-se da compreensão de que a literatura constitui uma manifestação cultural profundamente relacionada à experiência humana, à memória, à imaginação, à subjetividade e à interpretação da realidade. Embora sistemas de IA sejam capazes de gerar textos linguisticamente sofisticados, sua atuação não deve ser confundida automaticamente com a experiência humana de criação.

Defende-se, portanto, uma perspectiva de complementaridade: a Inteligência Artificial pode funcionar como ferramenta de apoio e ampliação das capacidades do escritor, desde que submetida à análise crítica, à supervisão humana e aos princípios de responsabilidade e integridade intelectual. Conclui-se que o futuro da literatura não necessariamente será marcado pela substituição do escritor pela máquina, mas pela construção de novas relações entre autor, tecnologia e leitor. Nesse cenário, a principal riqueza do escritor continuará sendo sua capacidade de pensar, sentir, interpretar, imaginar e atribuir significado à experiência humana.

Palavras-chave: Literatura. Escritor. Inteligência Artificial. Criatividade. Autoria. Tecnologia. Ética.

1 INTRODUÇÃO

A história da literatura acompanha a própria trajetória da humanidade. Desde as primeiras manifestações da linguagem escrita, o ser humano encontrou na palavra um instrumento para preservar memórias, transmitir conhecimentos, registrar acontecimentos, expressar sentimentos e imaginar mundos possíveis. A escrita permitiu que experiências individuais ultrapassassem os limites da existência de seus autores; reis, filósofos, poetas, historiadores, romancistas e pensadores deixaram, por meio das palavras, testemunhos capazes de atravessar séculos. A literatura tornou-se, assim, não apenas uma forma de expressão artística, mas também uma das principais vias de preservação da memória cultural.

Entretanto, a atividade literária nunca esteve dissociada do desenvolvimento técnico. A invenção da imprensa por Gutenberg modificou radicalmente a produção e a circulação dos livros. Posteriormente, a máquina de escrever, o computador, a internet, os livros eletrônicos e as plataformas digitais introduziram sucessivas transformações no processo de criação e divulgação literária. No século XXI, um novo avanço ocupa o centro desse debate: a Inteligência Artificial (IA).

A emergência dos sistemas de IA generativa introduziu uma mudança qualitativa nesse panorama. Diferentemente de recursos destinados apenas à edição, ao armazenamento ou à transmissão de textos, os sistemas contemporâneos são capazes de gerar conteúdos linguísticos complexos a partir de comandos (prompts) fornecidos pelos usuários. Essa capacidade abre novas possibilidades para escritores, pesquisadores, professores, jornalistas e profissionais de diversas áreas.

Ao mesmo tempo, surge uma inquietação legítima: se uma máquina consegue produzir poemas, contos, roteiros, ensaios e narrativas, qual será o papel do escritor? A questão ultrapassa o âmbito estritamente técnico e alcança a própria definição de criatividade e autoria. Pode uma máquina ser considerada autora? Um texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial continua sendo uma obra humana? Em que momento a utilização de uma ferramenta deixa de ser auxílio e passa a representar a terceirização da criação? Quais são os limites éticos do uso da IA na literatura? Essas perguntas tornam-se ainda mais urgentes diante da velocidade com que tais tecnologias são incorporadas ao cotidiano.

A UNESCO (2022), em sua Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial, estabelece a dignidade humana, os direitos humanos, a transparência, a responsabilidade e a supervisão humana como princípios fundamentais para o desenvolvimento e a utilização dessas tecnologias. A organização alerta, ainda, que sistemas de IA podem reproduzir e amplificar desigualdades, vieses e formas de discriminação, tornando indispensável uma abordagem crítica e responsável.

No campo literário, essa discussão ganha uma dimensão particular. Um texto literário não é apenas uma sequência organizadamente probabilística de palavras, mas um constructo carregado de memórias, experiências, valores, conflitos, identidades, emoções e visões de mundo. O escritor escreve porque observa, questiona, recorda, imagina e transforma a realidade em linguagem. A Inteligência Artificial pode contribuir para esse processo, contudo a relação entre a ferramenta e o autor precisa ser cuidadosamente balizada.

Este artigo parte, portanto, de uma hipótese central: a Inteligência Artificial não representa inevitavelmente o desaparecimento do escritor, mas provocará uma redefinição de seu papel no processo literário. O escritor do futuro talvez não seja aquele que rejeita a tecnologia, mas aquele que aprende a utilizá-la sem abdicar de sua autonomia intelectual, de sua criatividade e de sua identidade autoral.

2 A ESCRITA E AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES TECNOLÓGICAS

A relação entre literatura e tecnologia não começou com a Inteligência Artificial. Durante milênios, a produção e a circulação do conhecimento dependeram da oralidade e, posteriormente, dos manuscritos. A escrita transformou a relação da humanidade com a memória ao permitir o registro de informações de maneira relativamente permanente. A cultura manuscrita, contudo, apresentava limitações claras: a reprodução de livros era lenta, trabalhosa e restrita ao trabalho de copistas especializados.

A invenção da imprensa por tipos móveis modificou esse cenário. A possibilidade de reproduzir livros em grande escala contribuiu para a democratização do conhecimento e para a formação de novos públicos leitores; o livro deixou de ser um objeto exclusivo para integrar uma nova dinâmica cultural. A tecnologia, portanto, não destruiu a literatura, mas transformou suas condições de produção e alcance. O mesmo fenômeno ocorreu posteriormente com a máquina de escrever, que conferiu velocidade e praticidade ao trabalho do autor, e com o computador, que introduziu recursos inéditos de edição, armazenamento e correção. Em seguida, a internet eliminou barreiras geográficas de circulação e o livro digital ampliou o acesso e a distribuição.

Cada uma dessas transformações provocou receios em sua época. Entretanto, a literatura sobreviveu e se reconfigurou. Isso demonstra que a tecnologia não é uma oposição inerente à criação literária; ela altera os instrumentos empregados pelo escritor sem necessariamente suprimir a necessidade da sensibilidade humana.

Pierre Lévy (1999) observa que as tecnologias digitais provocam transformações culturais profundas, alterando as dinâmicas de comunicação, produção e circulação do conhecimento. O ciberespaço, nesse sentido, constitui não apenas um suporte técnico, mas um ambiente de metamorfose cultural. De modo complementar, Santaella (2003) demonstra que a emergência de novas mídias modifica a relação entre produção cultural, linguagem e participação social. A Inteligência Artificial deve ser compreendida no interior dessa trajetória histórica: trata-se de uma nova etapa do desenvolvimento técnico, contudo com um diferencial qualitativo decisivo — pela primeira vez, a tecnologia participa diretamente da geração da própria linguagem, o que exige uma reflexão teórica e ética ainda mais profunda.

3 A LITERATURA COMO EXPRESSÃO DA EXPERIÊNCIA HUMANA

Definir a literatura apenas como produção textual ou manipulação de código verbal seria insuficiente. A literatura é, fundamentalmente, uma forma de interpretar a existência humana. O escritor transforma acontecimentos, pensamentos, emoções, observações e imaginação em linguagem. Mesmo quando projeta mundos estritamente fictícios, extrai a matéria-prima de sua percepção e vivência da realidade. Um romance, um poema, uma crônica ou um ensaio podem surgir de memórias pessoais, inquietações intelectuais ou da simples contemplação do cotidiano.

Em todas essas manifestações opera uma dimensão subjetiva singular. O escritor não é apenas quem domina a gramática, mas quem constrói uma perspectiva única sobre o mundo. Essa voz literária é moldada ao longo da vida pela leitura, pela educação, pelas relações sociais, pelas perdas, afetos, viagens, conflitos e pelo contexto histórico. Por essa razão, dois autores podem abordar exatamente o mesmo tema e gerar obras radicalmente distintas: a literatura não reside unicamente no tema, mas no olhar e no filtro existencial do autor.

Essa dimensão demarca a diferença fundamental entre o criador humano e os sistemas de IA. Um modelo generativo é capaz de estruturar uma narrativa coesa sobre determinado tema, mas carece de uma biografia vivida. A máquina não envelhece, não guarda a memória da infância, não vivencia o luto, a finitude, o amor ou o deslumbramento existencial. Ela produz linguagem combinatória a partir do processamento de grandes volumes de dados, sem, contudo, experienciar o significado daquilo que articula. Essa distinção não visa anular o valor técnico da tecnologia, mas delimitar com clareza seus limites e possibilidades no fazer literário.

4 INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA E PRODUÇÃO LITERÁRIA

A Inteligência Artificial generativa caracteriza-se como um conjunto de sistemas capazes de produzir novos conteúdos a partir da identificação de padrões em grandes bases de dados. No âmbito textual, os grandes modelos de linguagem (LLMs) geram respostas, narrativas, diálogos e estruturas estilísticas complexas, configurando um recurso de alto potencial para o trabalho do escritor.

No processo criativo, a IA pode atuar no mapeamento de caminhos narrativos, na organização de ideias, no levantamento de hipóteses, na sugestão de estruturas ou na revisão estilística e gramatical. O autor pode utilizá-la para identificar repetições, testar dinâmicas de diálogos, traduzir excertos ou usá-la como interlocutora dialética para refinar seus próprios argumentos. Nesses casos, a tecnologia não substitui o escritor, mas expande seu ecossistema de trabalho.

Torna-se imprescindível, contudo, diferenciar a assistência tecnológica da substituição criativa. Quando o escritor formula a premissa, analisa criticamente as sugestões da máquina, reescreve, pesquisa e assume a responsabilidade ética e estética pelo resultado final, preserva-se a centralidade da autoria humana. Por outro lado, quando o indivíduo delega a produção integral da obra à máquina e a publica sem intervenção crítica substancial, altera-se a natureza do ato criativo.

A questão central não é a simples presença da IA, mas o grau e a qualidade da mediação humana. Estudo recente publicado por Formosa et al. (2025) aponta que a intensidade da assistência tecnológica influencia diretamente a percepção do público e da crítica sobre autoria, criatividade e responsabilidade, além de suscitar debate sobre a obrigatoriedade da transparência do uso desses recursos. Assim, a pergunta central deixa de ser apenas “se” a IA foi utilizada, passando a investigar como ela foi incorporada ao processo.

5 A IA COMO FERRAMENTA DE APOIO AO ESCRITOR

Uma abordagem produtiva consiste em situar a Inteligência Artificial no ecossistema de instrumentos dos quais o escritor historicamente lança mão, como dicionários, enciclopédias, bibliotecas, programas de edição e bancos de dados. Contudo, assim como uma câmera fotográfica não substitui o olhar do fotógrafo e um instrumento musical não anula a sensibilidade do músico, a IA não precisa suprimir a figura do escritor.

O risco emerge quando o autor deixa de empregar a ferramenta para expandir suas capacidades e passa a usá-la para esquivar-se do próprio esforço intelectual. O processo criativo é inerentemente trabalhoso: escrever exige selecionar, cortar, reescrever, duvidar e buscar a palavra precisa. Se a IA pode acelerar etapas operacionais, a decisão final sobre a permanência ou o descarte de cada trecho continua dependendo do julgamento crítico humano.

Nesse cenário, uma das funções primordiais do escritor contemporâneo passa a ser a de curador de linguagem e de conhecimento. Caberá ao autor avaliar a precisão do material gerado, checar fontes, identificar alucinações de dados, refinar respostas genéricas e, sobretudo, assegurar a presença de sua própria voz estilística. Essa prerrogativa converge com a Recomendação sobre a Ética da IA da UNESCO (2022), a qual reitera que os sistemas tecnológicos jamais devem anular a supervisão e a responsabilidade final do ser humano.

6 PODE A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SER CRIATIVA?

Uma das questões mais complexas no debate contemporâneo consiste em determinar se a Inteligência Artificial é capaz de criar. A resposta a essa indagação depende essencialmente do significado atribuído ao conceito de “criatividade”. Se por criatividade entende-se a capacidade de produzir arranjos e combinações inéditas a partir de elementos preexistentes, os sistemas de IA desempenham operações notáveis: são capazes de estruturar frases originais, mesclar estilos literários, desenhar personagens, formular arcos narrativos e compor poesias.

Ocorre que a criatividade humana envolve dimensões que ultrapassam o mero arranjo formal, abrangendo intencionalidade, vivência corporificada, consciência, contexto social e atribuição de significado. O escritor não cria apenas por dominar a técnica de articulação vocabular, mas porque busca comunicar uma visão do mundo. Existe no ato criativo humano uma intenção estética, uma escolha consciente e um vínculo profundo entre a obra e a experiência existencial do autor.

A reflexão sobre a autoria na era das mídias gerativas tem questionado os paradigmas tradicionais. Uebel e Hamamra (2026) argumentam que a IA generativa expõe as fragilidades da concepção do autor enquanto agente isolado e soberano, propondo que se pense a criatividade e a responsabilidade de forma relacional e distribuída. Essa perspectiva evita simplificações, lembrando que a própria criação literária humana jamais ocorreu no vácuo: todo autor dialoga com a tradição, com seu tempo e com as vozes que o antecederam. Machado de Assis dialogou com o século XIX; José de Alencar com as matrizes românticas; Carlos Drummond de Andrade com a poesia tradicional e com o modernismo; e Clarice Lispector construiu uma linguagem singular a partir da investigação profunda da subjetividade. A originalidade não reside na ausência de influências, mas na capacidade de transmutar influências em expressão autêntica e própria.

7 O ESCRITOR E A CONSTRUÇÃO DE UMA VOZ AUTORAL

A voz autoral constitui o elemento distintivo da produção de um escritor. É por meio dela que um leitor qualificado reconhece determinado autor não apenas pelo nome na capa, mas pelo ritmo da frase, pela cadência vocabular, pelas temáticas recorrentes e pelo olhar singular lançado sobre a realidade. Essa identidade estética não é imediata; resulta de um longo processo de amadurecimento que exige leitura constante, prática, experimentação, falhas e depuração técnica.

O risco associado ao uso acrítico ou padronizado da Inteligência Artificial reside na homogeneização do estilo. A utilização massiva dos mesmos modelos de linguagem por diferentes autores pode induzir a uma “padronização da expressão”, resultando em uma literatura previsível e estilisticamente uniforme.

Contudo, nesse novo contexto surge um fenômeno paradoxal: quanto maior for a profusão de textos algoritmicamente corretos e impessoais, maior tende a ser o valor atribuído a uma voz humana genuína. Em um ecossistema saturado de conteúdos linguisticamente polidos, a busca do leitor poderá deslocar-se para a singularidade, a imperfeição estilística consciente, a memória individual e a experiência vivida. A literatura revalorizará, assim, não apenas a correção formal do texto, mas a autenticidade da voz que o profere.

8 AUTORIA, ORIGINALIDADE E RESPONSABILIDADE

Os ecossistemas de IA generativa colocam desafios diretos às definições jurídicas e conceituais de autoria. No contexto nacional, a Lei nº 9.610/1998 constitui o marco geral dos direitos autorais no Brasil, assegurando em seu artigo 22 que pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou (BRASIL, 1998). Ocorre que as obras produzidas com o auxílio de inteligência computacional apresentam gradações que não se ajustam facilmente às categorias tradicionais.

Para ilustrar essa complexidade, considere-se dois cenários distintos. No primeiro, um escritor concibe um projeto original, insere comandos detalhados na ferramenta, recebe rascunhos, reescreve passagens, pesquisa fontes, reestrutura capítulos, ajusta tons e assume a condução editorial do produto final, situação na qual a intervenção intelectual humana permanece central. No segundo cenário, uma pessoa solicita à máquina a geração integral de um romance, realiza modificações superficiais e o publica sob sua autoria. Embora ambos utilizem IA, o nível de agência humana e de responsabilidade intelectual é substancialmente díspares.

Conforme evidenciado pela pesquisa de Formosa et al. (2025), o grau de assistência tecnológica interfere diretamente na percepção social sobre atribuição de autoria, mérito e responsabilidade moral. Em âmbito global, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) conduz debates sobre a redefinição de originalidade e proteção patrimonial das criações assistidas por IA. Nesse cenário, cabe ao escritor compreender que o recurso à tecnologia exige discernimento ético: além de indagar se a ferramenta pode executar determinada tarefa, o autor deve perguntar-se sob quais critérios ela deve ser empregada.

9 IA, PLÁGIO E INTEGRIDADE INTELECTUAL

A facilidade com que textos são gerados automaticamente intensifica a exigência de rigor e integridade intelectual. Embora os modelos de linguagem sintetizem textos gramaticalmente corretos e coesos, eles não garantem a veracidade das informações nem a isenção de problemas em relação às bases de dados utilizadas em seu treinamento.

Diante da propensão das ferramentas de IA para gerar alucinações de dados — produzindo citações fictícias, atribuindo declarações a autores inexistentes, distorcendo cronologias históricas ou apresentando conjecturas como fatos comprovados —, a verificação humana rigorosa torna-se uma etapa indispensável.

O escritor não pode abdicar da pesquisa direta e do manuseio de fontes primárias, documentos, literatura acadêmica e dados auditáveis. A integridade intelectual pressupõe que o autor conheça, domine e responda por aquilo que assina. Não basta disponibilizar um texto estilisticamente articulado; é preciso compreender suas premissas, fundamentar suas afirmações e assumir plena responsabilidade ética sobre o conteúdo publicado.

10 A QUESTÃO DA TRANSPARÊNCIA

Outra dimensão central na relação entre literatura e inteligência artificial diz respeito à transparência. À medida que a tecnologia se consolida na cadeia de produção textual, torna-se uma boa prática ética esclarecer o leitor sobre a extensão do uso desses recursos na elaboração da obra.

Longe de depreciar o valor do trabalho, a declaração explícita de uso reflete maturidade intelectual. A utilização de ferramentas para correção gramatical, brainstormings conceituais, estruturação de tópicos, pesquisas preliminares ou versões brutas de tradução não anula a autoria do escritor, desde que o controle crítico permaneça em suas mãos.

A esse respeito, os achados de Formosa et al. (2025) reforçam que a divulgação do uso e do tipo de suporte tecnológico influencia decisivamente na avaliação social e moral do trabalho. A adoção de notas de transparência ou declarações de coautoria técnica pode consolidar-se como um novo padrão editorial, fortalecendo a relação de confiança entre autores, editoras e leitores.

11 O RISCO DA DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA

Como ocorre em toda inovação de grande impacto, o avanço da inteligência artificial na literatura envolve tanto potencialidades quanto riscos significativos, sendo a dependência cognitiva um dos mais críticos. Se o escritor delegar à ferramenta a concepção integral de suas ideias, a construção dos arcos argumentativos, o desenho das personagens e a redação final do texto, ele arrisca comprometer progressivamente sua autonomia e agência criativa.

Sob essa perspectiva, vislumbra-se um cenário em que o autor se converte em mero formulador de comandos (prompt engineer). Nesses termos, a tecnologia deixa de atuar como extensão do intelecto para assumir um papel substitutivo, descaracterizando o ato de escrever enquanto prática eminentemente reflexiva e humana.

Diante dessa ameaça, é imperativo que a escrita permaneça como um exercício intelectual autônomo: cabe ao autor conceber antes de interrogar a máquina, pesquisar criticamente antes de aceitar respostas automatizadas, redigir antes de delegar e revisar minuciosamente antes de publicar. Como defende a UNESCO (2022), a promoção da alfabetização digital e do pensamento crítico é essencial para que os sujeitos compreendam os sistemas de IA e os utilizem de modo consciente. No âmbito literário, essa formação estende-se ao compromisso de empregar a tecnologia de forma analítica e não submissa.

12 A PADRONIZAÇÃO DA LINGUAGEM E O PERIGO DO TEXTO SEM IDENTIDADE

No campo da estética literária, um dos maiores desafios colocados pela IA generativa é a tendência à homogeneização da linguagem. Concebidos para gerar respostas organizadas, claras, coerentes e estatisticamente prováveis, os modelos de linguagem tendem a favorecer a previsibilidade. A literatura, contudo, extrai sua força poética precisamente daquilo que se desvia do padrão e rompe com o esperado.

A liberdade artística manifesta-se na subversão deliberada da norma gramatical, na introdução do termo incomum, na valorização do registro regional, no uso estratégico do silêncio, na ambiguidade calculada, na fragmentação narrativa ou na provocação do desconforto. A literatura não visa à eficiência utilitária; ela pode ser lenta, elíptica, contraditória e desafiadora.

Na medida em que sistemas treinados para a otimização de conteúdo impõem padrões de comunicação polidos e impessoais, cabe ao escritor o discernimento de quando acatar tais convenções ou quando subvertê-las. A autenticidade literária não se esgota no texto formalmente correto, mas reside na capacidade de produzir uma obra esteticamente necessária.

13 A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO NOVA FORMA DE COLABORAÇÃO

Sob um prisma propositivo, seria reducionista compreender a Inteligência Artificial exclusivamente como uma ameaça ao fazer literário, haja vista seu potencial como parceira de experimentação criativa. O autor pode recorrer à ferramenta como um espaço de teste para interrogar comportamentos de personagens, explorar conflitos narrativos, mapear contextos históricos, organizar estruturas complexas ou avaliar variações de um argumento.

Nesse processo, o retorno gerado pela IA não precisa ser tomado como solução definitiva, mas como estímulo reflexivo ou provocação dialingual. A ferramenta atua, assim, como uma espécie de “espelho intelectual”: ao receber uma resposta, o escritor a analisa, discorda, reformula e refina suas próprias concepções. O valor do recurso reside no processo dialógico por ele instaurado.

Essa dinâmica aproxima-se das formulações de Uebel e Hamamra (2026) sobre a criatividade distribuída e a responsabilidade relacional. Longe de anular a autoria humana, o uso colaborativo da IA reconfigura o ecossistema criativo, posicionando o escritor em uma nova dimensão de trabalho interativo com a tecnologia.

14 O ESCRITOR COMO CURADOR DO CONHECIMENTO

Diante da capacidade dos sistemas generativos de produzir textos em escala e velocidade sem precedentes, o diferencial do escritor desloca-se da mera capacidade de geração textual para a competência da curadoria intelectual. Em um cenário caracterizado pela superabundância de dados, o autor assume o papel de curador de informações, fontes, ideias, matizes de linguagem e perspectivas teóricas.

Produzir mais conteúdo não equivale a produzir com superioridade qualitativa. Nesse contexto, o valor cultural da literatura passa a residir também no discernimento sobre o que merece ser lido, preservado e interpretado.

Esse movimento reconfigura a atuação de editoras, críticos, educadores e leitores, elevando o escritor à condição de mediador entre a densidade de informações disponíveis e a experiência humana singular. Em vez de disputar produtividade quantitativa com algoritmos, a literatura reafirma sua vocação sintética, concentrando-se no que exige hermenêutica, sensibilidade e atribuição de sentido.

15 O ESCRITOR BRASILEIRO DIANTE DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

No cenário nacional, a discussão sobre inteligência artificial e literatura ganha contornos específicos em razão da vasta pluralidade cultural e linguística do país. Expressa em uma rica diversidade de regiões, sotaques, manifestações populares, memórias e registros idiomáticos, a literatura brasileira recusa a imposição de um padrão linguístico uniforme.

Por um lado, as ferramentas de IA oferecem oportunidades inéditas para ampliar a circulação da literatura nacional no exterior, facilitando processos de tradução, edição digital, adaptação para audiolivros e difusão em plataformas globais. Por outro lado, há o risco iminente de que modelos de linguagem treinados a partir de bases de dados hegemônicas atenuem ou apaguem as marcas de brasilidade e os regionalismos expressivos.

Conforme assinala a UNESCO (2022), o respeito à diversidade cultural e a promoção da inclusão são pilares indispensáveis para a governança ética da IA. Assim, o debate sobre o uso da tecnologia na literatura brasileira ultrapassa as questões de produtividade para alcançar a preservação da memória e da identidade cultural do país.

16 INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, LITERATURA E EDUCAÇÃO

A relação entre IA e literatura projeta-se diretamente sobre o campo educacional. Docentes encontram nessas ferramentas recursos para a concepção de atividades de leitura, elaboração de exercícios, análise comparativa de estilos e desenvolvimento de materiais pedagógicos. Estudantes, por sua vez, podem empregá-las para a apreensão de conceitos complexos, organização de itinerários de estudo e exploração de diferentes correntes hermenêuticas.

Contudo, manifesta-se no ambiente escolar o mesmo risco observado no fazer literário: a supressão do esforço intelectual autônomo. O estudante que delega integralmente a redação de um trabalho acadêmico à IA priva-se da experiência formadora da pesquisa, do confronto com as fontes e do exercício da escrita. Da mesma forma, o escritor que terceiriza a sua criação abdica de etapas constitutivas da sua maturação intelectual.

A educação contemporânea enfrenta, assim, o desafio de ensinar o uso instrumental da tecnologia sem negligenciar o desenvolvimento do pensamento crítico. O objetivo pedagógico no século XXI não deve ser a formação de sujeitos aptos apenas a formular comandos para a obtenção de respostas automatizadas, mas a capacitação de indivíduos dotados de rigor analítico para avaliar, questionar e contextualizar o conhecimento produzido pelas máquinas.

17 O FUTURO DO LIVRO

É plausível conceber que a materialidade e o suporte do livro do futuro sofram contínuas transformações. Seja impresso, digital ou híbrido, o livro poderá incorporar elementos multimídia, recursos de tradução simultânea, mecânicas interativas, camadas dinâmicas de leitura e algoritmos de personalização e acessibilidade.

Nada obstante tais mutações técnicas, subsiste uma dimensão invariante na cultura: a necessidade ontológica de narrar. A tecnologia reconfigura o suporte, a velocidade de difusão, os canais de circulação e as formas de interação com o texto, contudo não extingue o impulso humano de estruturar a experiência por meio de histórias.

Trata-se de um continuum histórico. A humanidade narrou ao redor do fogo, grafou memórias em paredes rochosas, registrou pensamentos em papiros e pergaminhos manuscritos, multiplicou ideias com a imprensa, difundiu informações pelo jornalismo, inventou a imagem em movimento com o cinema e a televisão, estruturou redes digitais em blogs e mídias sociais e, no presente, mobiliza a Inteligência Artificial. Os ecossistemas mudam; a busca pelo sentido traduzido em narrativa permanece.

18 O LEITOR NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

As transformações em curso não se restringem ao polo da produção; alcançam de igual modo a recepção e a figura do leitor, que passa a demandar novas competências críticas. Em uma sociedade caracterizada pela hiperprodução e aceleração textual, saber discernir densidade de superficialidade converte-se em um requisito indispensável.

O leitor crítico é incitado a interrogar a gênese do texto: quem o formulou, sob quais condições operacionais, mediante quais fontes bibliográficas e com qual grau de rigor, originalidade e identidade. Tais questionamentos ganham urgência em razão da escala exponencial com que os conteúdos automatizados são postos em circulação. O impasse do futuro não será a carência de textos, mas a saturação de informações e a escassez de síntese.

Nesse cenário de superabundância, a capacidade de leitura reflexiva consolida-se como habilidade essencial. O leitor precisará transitar com discernimento entre produções de autoria estritamente humana, textos assistidos por tecnologia e materiais gerados prioritariamente por algoritmos. A literatura reafirma-se, assim, como um espaço de resistência contra a pasteurização da linguagem e a superficialidade comunicativa.

19 UMA NOVA ÉTICA DA ESCRITA

A consolidação da Inteligência Artificial na cultura textual exige a formulação de uma nova deontologia da escrita, pautada por vetores normativos fundamentais:

  1. Responsabilidade: o autor e o editor devem responder integralmente pelas afirmações e pelo teor do conteúdo publicado;
  2. Transparência: cabe declarar expressamente a extensão e a natureza da assistência tecnológica quando esta for determinante no processo de criação;
  3. Verificação: as informações sintetizadas por sistemas de IA devem ser submetidas a criteriosa checagem e cotejo com fontes primárias auditáveis;
  4. Preservação da Autoria: o escritor deve assegurar o primado de sua agência intelectual, impedindo a anulação de sua voz e de sua identidade criativa;
  5. Proteção aos Direitos Autorais: o uso de modelos generativos deve respeitar as normativas jurídicas no que tange ao uso de obras protegidas em bases de treinamento e ao reconhecimento da propriedade intelectual;
  6. Supervisão Humana (Human-in-the-Loop): a decisão final e o controle crítico sobre o produto cultural devem permanecer sob a égide do julgamento humano.

Conforme postula a UNESCO (2022), responsabilidade, transparência, explicabilidade e supervisão humana constituem as premissas para a governança dos ecossistemas digitais. Transpostos para o campo literário, tais princípios erigem a base de uma ética da escrita compatível com as exigências da era digital.

20 ENTRE A MÁQUINA E O HUMANO: O QUE SIGNIFICA SER ESCRITOR?

A indagação determinante na contemporaneidade ultrapassa a pergunta sobre a capacidade de a IA vir a substituir o autor. Consiste, fundamentalmente, em delimitar o que significa ser escritor em um contexto no qual sistemas automatizados também produzem textos de elevada correção sintática.

O fazer literário jamais se reduziu à simples montagem sequencial de palavras. Ser escritor implica escolher vocábulos com intencionalidade estética, sustentar uma visão de mundo, converter vivência existencial em linguagem, assumir posições diante do presente, construir memória e conceber personagens capazes de iluminar os meandros da condição humana.

A Inteligência Artificial pode gerar volumes massivos de páginas em fração de segundos, contudo quantidade não se confunde com relevância literária; o volume de uma biblioteca não garante a existência de uma obra-prima. A literatura realiza-se quando a linguagem estabelece uma conexão viva e dotada de sentido entre autor, texto e leitor. O desafio premente do escritor contemporâneo não é rivalizar com a velocidade e a escala dos algoritmos, mas resguardar a densidade do que torna sua escrita humanamente singular. A máquina pode produzir; o escritor precisa significar.

21 O ESCRITOR DO FUTURO: AUTOR, PESQUISADOR E TECNÓLOGO

O perfil do escritor do futuro delineia-se a partir de um conjunto multifacetado de competências. Exigir-se-á dele a compreensão dos ambientes digitais, o domínio dos fundamentos da inteligência artificial, a habilidade de formulação estratégica de comandos, o rigor na verificação de dados, a consciência dos marcos regulatórios de direitos autorais e a navegação fluida em plataformas de difusão cultural.

Esse letramento tecnológico, todavia, não pode prescindir das faculdades que historicamente fundamentam o ato criativo: a leitura acumulada, a observação do cotidiano, a reflexão filosófica, a imaginação, a sensibilidade poética, o apuro estilístico, a capacidade crítica e a vivência da experiência humana.

A tecnologia estende os horizontes operacionais e o alcance do escritor, mas não substitui o conteúdo de sua consciência. O futuro demandará um autor tecnicamente proficiente, sem que isso implique o arrefecimento de sua dimensão humana. Pelo contrário: quanto maior a presença da tecnologia na mediação cultural, mais indispensável se fará a afirmação da humanidade na literatura.

22 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Inteligência Artificial representa uma das transformações tecnológicas mais profundas do nosso tempo, reconfigurando irreversivelmente o universo da literatura. A capacidade dos modelos generativos de produzir textos, auxiliar em pesquisas, organizar ideias, revisar conteúdos, traduzir obras e propor experimentações linguísticas coloca à disposição do autor instrumentos sem precedentes.

A adoção dessas ferramentas, contudo, não se confunde com a abdicação da responsabilidade autoral. A literatura é essencialmente mais do que uma estrutura de linguagem bem articulada: trata-se da experiência humana traduzida em palavra, carregada de memória, imaginação, interpretação, sensibilidade, identidade e visão de mundo. Por essa razão, a Inteligência Artificial deve ser compreendida como um recurso de ampliação das capacidades intelectuais do escritor, e não como um elemento de substituição da criatividade.

O escritor contemporâneo é desafiado a utilizar a tecnologia de forma crítica e não submissa. Cabe-lhe saber acolher ou rejeitar sugestões algorítmicas, verificar a veracidade das informações, preservar a singularidade de sua voz, respeitar os marcos de direitos autorais e assumir a responsabilidade final pelo texto que assina. O dilema atual não consiste em tentar impedir a inserção da Inteligência Artificial no campo da arte, mas em edificar uma relação ética, analítica e criativa entre o ser humano e a técnica.

Nesse novo paradigma, a autoria adquire contornos mais complexos e relacionais. Conforme aponta a literatura acadêmica contemporânea, sobressai uma concepção de criatividade distribuída, em que diferentes ferramentas e agentes participam da elaboração do texto, sem que isso exima a liderança e a responsabilidade ético-intelectual do autor. O escritor do futuro continuará a mobilizar a IA do mesmo modo que autores de outras épocas incorporaram a imprensa, a máquina de escrever ou a edição digital.

A verdadeira distinção do fazer literário reside naquilo que não se converte em mero comando de programação: a capacidade humana de vivenciar a realidade e transformar essa vivência em significado.

A máquina pode produzir palavras; o ser humano produz histórias. A máquina combina informações; o ser humano interpreta o mundo. A máquina simula estilos; o escritor constrói uma voz. A máquina gera narrativas; o escritor lhes confere sentido.

A literatura, portanto, não exige uma escolha excludente entre a criatividade humana e a tecnologia; ao contrário, pode colocar o recurso técnico a serviço da potência inventiva. O futuro da literatura delineia-se não como um embate entre o homem e a máquina, mas como uma oportunidade de ressignificar o ato de criar, escrever e ser autor. Em última análise, a grande lição da era da Inteligência Artificial é que, quanto mais sofisticada e presente se torna a tecnologia, mais indispensável é o compromisso do ser humano com a sua própria humanidade.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm. Acesso em: 4 set. 2026.

FORMOSA, Paul; BANKINS, Sarah; MATULIONYTE, Rita et al. Can ChatGPT be an author? Generative AI creative writing assistance and perceptions of authorship, creatorship, responsibility, and disclosure. AI & Society, v. 40, p. 3405-3417, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s00146-024-02081-0.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

MAZZI, Francesca. Authorship in artificial intelligence-generated works: exploring originality in text prompts and artificial intelligence outputs through philosophical foundations of copyright and collage protection. The Journal of World Intellectual Property, v. 27, p. 120-145, 2024. DOI: https://doi.org/10.1111/jwip.12310.

ROLAND, Edwin; SO, Richard Jean; LONG, Hoyt. The social AI author: modeling creativity and distinction in simulated cultural fields. AI & Society, v. 41, p. 4333-4347, 2026. DOI: https://doi.org/10.1007/s00146-025-02790-0.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

UEBEL, Michael; HAMAMRA, Bilal. Authorship after generative AI: distributed creativity and relational responsibility. Philosophy & Technology, v. 39, art. 152, 2026. DOI: https://doi.org/10.1007/s13347-026-01170-w.

UNESCO. Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial. Paris: UNESCO, 2022. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137_por. Acesso em: 4 set. 2026.

WIPO – WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION. Artificial Intelligence and Intellectual Property. Geneva: WIPO, 2024. Disponível em: https://www.wipo.int/en/web/frontier-technologies/artificial-intelligence. Acesso em: 4 set. 2026.

WIPO – WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION. Generative AI: WIPO Conversation, IP and Frontier Technologies. Geneva: WIPO, 2024. Disponível em: https://www.wipo.int/publications/en/details.jsp?id=4750. Acesso em: 4 set. 2026.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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Percepção

Conheça o poema que desmistifica o valor do ouro diante da verdadeira arte

Surendra Nagaraju - Elanaaga
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Belas ragas não podem emanar
de flautas feitas de ouro;
pétalas de rosa não servem
para preparar qualquer curry.

Os valores monetários
distorcem a percepção do homem.

Surendra Nagaraju

Perception

Sweet ragas can’t emanate from 
Flutes made of gold;
Rose petals can’t come in handy 
for cooking any curry.

Monetary values 
mar man’s perception.

Surendra Nagaraju

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Vandalismo em nome da limpeza

O choque entre a sensibilidade da natureza e a ignorância burocrática que prefere queimar folhas a entender o outono

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
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As árvores do parque

viram o corte das florestas,

erguem os braços ao céu e agradecem

por um dia terem deixado sua terra natal.

As montanhas distantes em que confiei

ergueram uma bandeira branca.

Foram as primeiras a se render ao inverno.

As árvores estão tirando suas roupas,

como se entregassem suas roupas ao solo

para que o solo não sinta frio no inverno.

Mas a prefeitura da cidade

manda recolher e queimar as folhas.

Névoa branca nas montanhas depois da chuva,

névoa negra no parque.

A teoria do preto e branco de Aristóteles ainda está em vigor.

Mas a teoria da lógica difusa de Lotfi Zadeh

também não deve ser esquecida.

Há um arco-íris de mil cores ao longe.

E, no entanto,

eu conheço este presidente da prefeitura.

Para que a cidade fique limpa,

ele queimaria os manuscritos

tanto de Aristóteles quanto de Lotfi Zadeh.

Mas eu, olhando para estas árvores,

sinto saudade da minha terra natal.

Penso que esta teoria

é uma teoria mais precisa

do que a teoria do preto e branco,

e do que a teoria da lógica difusa.

Precisa e trágica.

Bakhtiyar Hasanov

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Amantes da beleza

Mohamed Rahal apresenta a história e os versos do poema folclórico de Ahmed Ben Triki que virou patrimônio musical na Argélia

Mohamed Rahal
Mohamed Rahal
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Amantes da Beleza‘ é um poema popular do poeta folclórico Ahmed Ben Triki (1650-1750), da província de Tlemcen:

Ó amantes da beleza, ajudem-me, meu coração está triste.

Minhas faces estão feridas por lágrimas que fluem constantemente.

O fogo da separação foi aceso em meu coração, e o abandono continua.

Ó minha saudade, meu coração se curou de dizer não…

Esta beleza requintada, como alguém pode ser feliz com ela?

Não há ninguém como você, esbelta e graciosa.

Seu amor é inexpugnável para seu amado, aflito e angustiado.

Ó minha saudade, meu coração se curou de dizer não.

Essas pessoas me invejavam por meu amor por você, ó ramo do desespero, murcho pelo sono.

Seus olhos são como os olhos de uma gazela.

Todos que mediram minha beleza desconhecem a lua.

Ó minha saudade, meu coração se curou de dizer não.

A questão do amor é grande, minha paciência se esgotou, meu coração está sempre perturbado.

Nesta opressão, seu dono jamais encontra consolo.

Seja misericordiosa com a submissão. Escrevi um contrato com a caligrafia da justiça.

Oh, meu anseio, meu coração se curou de dizer não.

Não, não, você é a mais bela das luas, sua beleza consome vidas em todas as terras.

Não há ninguém como você, Haifa Zaabala. Minha mente voou.

Ninguém se assemelha ao meu amor.

Oh, meu anseio, meu coração está contente por dizer não.

Sua figura é um galho esguio, uma verdadeira tentação para as pessoas.

Sua face é uma rosa em um jardim murcho, cintilante. Que jardim reúne.

Suas sobrancelhas são afiadas como navalhas.

Oh, meu anseio, meu coração está contente por dizer não.

Seu pescoço é um pescoço radiante, como se fosse uma maçã presa na estreiteza.

Seus lábios são de ágata e seu peito é um rubi flamejante.

Seus cabelos são escuros e sua testa tem uma lua brilhante.

Oh, meu anseio, meu coração se contenta em dizer não…

Sobre o poeta

Ahmed Ben Turki nasceu em Tlemcen, na Argélia Otomana, em 1650, filho de pai turco e mãe árabe. Pertencia aos Kouloughlis, um grupo predominante em Tlemcen.

Começou a escrever poesia ainda jovem, tendo como professor o poeta folclórico Said Al-Mandasi.

Ahmed Ben Turki é considerado um dos grandes nomes da famosa poesia Hawzi de Tlemcen. É descrito como “a ode da primavera e do amor”, assim como outros poetas famosos de Malhoun, como Boumediene Bensahla e Mohamed Ben Messaib.

Sua poesia é uma fonte de informação sobre os costumes da época, o estado de espírito e o desenvolvimento da língua durante esse período.

Ben Turki foi expulso da cidade de Tlemcen a pedido de algumas famílias Kouloughli. Ele exilou-se na região de Beni Yeznasen.

Durante esse período de exílio, escreveu muitos poemas para expressar a dolorosa separação de sua terra natal, e este poema é um dos mais importantes. “Amantes da Beleza” já era conhecido antes da Revolução Argelina, na década de 1950, quando o grande artista Ahmed Wahbi o reviveu a pedido do poeta Abdelkader El Khaldi, que acreditava ser um poema que deveria ser cantado e revivido.

Ele o imortalizou em um dos maiores clássicos da música de Oran, tornando-o uma das canções mais famosas do patrimônio argelino. Essa canção foi frequentemente revivida em diversas ocasiões após a revolução e tornou-se uma das mais famosas associadas ao grande artista Ahmed Wahbi, juntamente com “Oran, Oran”, “Por Que Você Me Culpa?”, “Yamina” e “Sela, Cavaleiro do Tapa”.

É uma canção folclórica popular, não Raï, e a mais famosa versão foi feita pelo falecido artista Omar Zahawi. Entre aqueles que a reviveram, estavam o artista Mohamed Taher Fergani na década de 1990 e o artista Salim Chaoui em 2022, em memória do falecido Ahmed Wahbi.

Mohamed Rahal

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Ochanomizu (御茶ノ水)

Jacky Yuen Man-leuk: ‘Ochanomizu (御茶ノ水)’ | Uma caminhada lírica por Tóquio entre o espírito artesão da poesia asiática, o realismo mágico dos animes e as cicatrizes da história

Jacky Yuen Man-leuk
Jacky Yuen Man-leuk
Fotografia diurna tirada da Ponte Hijiri em Ochanomizu, Tóquio, mostrando o rio Kanda cortando o cenário urbano. À direita, um trem laranja e cinza da linha Chuo na estação; abaixo, um trem vermelho do metrô linha Marunouchi cruza uma ponte sobre as águas, cercados por modernos edifícios espelhados sob um céu com nuvens.
Foto por Jacky Yuen Man-leuk

Quando leio a prosa escrita pelos meus amigos, sempre sinto uma vontade repentina de escrever algo também — especialmente quando o autor toca na interação com os poetas de Tóquio, uma experiência da qual também fiz parte. Refiro-me ao novo livro de Winson Tsang (曾詠聰), Ukima-Funado (《浮間舟渡》).

Ele já documentou a leitura de poesia em Okubo, Tóquio, durante o verão de 2023 em seu livro, mas tenho alguns detalhes a acrescentar. Uma leitura de poesia, naturalmente, não poderia acontecer por mero acaso. Entrei em contato primeiro com Yotsumoto Yasuhiro (四元康祐), dizendo-lhe que esta era a minha primeira vez visitando o Japão e que esperava que pudéssemos nos encontrar. Sabendo que, ao meu lado, outros quatro poetas — Morrie Yim (嚴瀚欽), Ann Wu (胡世雅), Lorraine Lo (盧真瑜) e Winson Tsang — estavam nesta viagem, ele expressou o desejo de organizar uma sessão de leitura de poesia de Hong Kong. Ele nos pediu para enviar nossos poemas para que ele e Okamoto Kei (岡本啓) pudessem colaborar na tradução deles para o japonês. Por várias noites através dos cabos de fibra óptica, deliberamos sobre cada palavra. O diálogo mais frequente era: “O que este termo significa em chinês? A tradução em inglês não está muito clara para mim.”

Esta não foi a primeira vez que presenciei o quão sério ele era em relação à poesia. Eu realmente queria que meus alunos vissem esse espírito artesão — nem que fosse para expandir seus horizontes. De qualquer forma, preparativos meticulosos foram feitos antes da partida; tudo o que restava era dar ao Sr. Yotsumoto nosso endereço assim que chegássemos. Ele disse que nos levaria para jantar antes da leitura.

Na noite anterior, nosso grupo tinha acabado de jantar em um izakaya em Umeda com Angus Lee (李日康), que viaja frequentemente entre Hong Kong e o Japão. Em seguida, pegamos o último trem-bala Shinkansen da estação Shin-Osaka às 21h20 para chegar à lendária Tóquio. Essa foi a primeira vez na minha vida andando de Shinkansen. Hilarantemente, anos atrás, durante minha primeira viagem no trem de alta velocidade de Taiwan, de Chiayi para Taipé, eu também estava arrastando minha bagagem, correndo como se minha vida dependesse disso. Embora realizar meu desejo me deixasse entusiasmado, eu me perguntava se meu destino astrológico era de alguma forma incompatível com esse tipo de trem.

Nas primeiras horas da manhã, levando minha família de Shinagawa através da Linha Yamanote até nossa hospedagem, elas ficaram maravilhadas com a facilidade com que eu navegava pelas rotas como um morador local — um feito que devo à minha antiga obsessão por dramas japoneses e animes. Enquanto isso, meus amigos escritores no mesmo trem foram até a Estação de Tóquio; embora ambos estivessem na Linha Yamanote, eles tiveram que viajar meia volta a mais.

Tanto faz. Depois disso, saí para caminhar com os amigos que haviam chegado. Conversamos até que as portas da represa se abriram e as lágrimas brotaram. Afinal, alguma amargura esteve acumulada por anos; chorar assim foi libertador. No dia seguinte, incapazes de acordar cedo, esperamos em nossa pousada pela sessão de leitura da noite. O Sr. Yotsumoto chegou cedo e nos ligou ao chegar. Pensei que nos encontraríamos em algum local específico, mas abrir a porta trouxe uma surpresa maravilhosa.

Winson Tsang intitulou seu artigo “Ukima-Funado”. Ele escolheu um nome de estação tão poético, deixando-me um pouco invejoso. Qual nome de estação eu poderia pegar emprestado para fazer eco ao dele sem parecer uma imitação barata? Eu já tinha um alvo em mente.

Você assistiu a Suzume (《すずめの戸締まり》)? Sou um grande fã de Makoto Shinkai (新海誠); sua trilogia sobre desastres é profundamente emocionante, embora meus favoritos continuem sendo Voices of a Distant Star (《ほしのこえ》) e 5 Centimeters per Second (《秒速5センチメートル》). Em Suzume, Iwato Suzume (岩戸 鈴芽) embarca em uma jornada para salvar o mundo, fechando uma a uma as portas que trazem desastres. Ao chegar a Tóquio, um clímax brilhante se desenrola em Ochanomizu (御茶ノ水). Tendo comprado um passe de metrô de 3 dias, levei minha esposa e filha a Ochanomizu para uma peregrinação naquela noite — embora “peregrinação” fosse apenas eu ficando extremamente empolgado enquanto elas simplesmente se sentiam exaustas. De pé sobre a famosa Ponte Hijiri (聖橋), a vista era deslumbrante. O luar estava impecável, com trens cruzando para dentro e para fora da estação, levando os passageiros noturnos aos seus respectivos destinos. Não havia monstros vermes gigantescos, nem apocalipse.

A respeito de desastres, Yotsumoto Yasuhiro mencionou uma vez um garçom que viu durante sua infância em Hiroshima que praticamente não tinha dedos. Aquela nuvem de cogumelo há muito se tornou um símbolo universal de catástrofe, mas em seu coração, provavelmente empalidece em comparação com a visão daquela palma deformada. Mais tarde, escrevi um longo poema intitulado “Kiboukyou (The Forgotten Homeland)” (〈帰忘郷〉), partindo do Grande Terremoto no Leste do Japão de 2011 e tocando em várias pessoas e assuntos caros ao meu coração, incluindo os poetas que conheci em diferentes cantos do globo — mas essa é uma história para outro momento.

Conheci Yotsumoto Yasuhiro pela primeira vez durante as “Noites Internacionais de Poesia em Hong Kong” de 2019, quando ele foi convidado a Hong Kong por Bei Dao (北島) e Chris Song (宋子江). Naquela época, transitar pelas ruas da cidade era particularmente difícil, mas o evento foi realizado na colina de Mei Foo, que permaneceu relativamente não afetada. Lembro-me de que ele passou por um momento em que esteve quase perdido na noite em Tsim Sha Tsui, e ainda assim aproveitou bastante. Em 2020, a pandemia aprisionou todos os vivos — apenas os mortos foram libertados. No tédio absoluto de tudo aquilo, Yotsumoto entrou em contato para colaborarmos em um renka (連歌, verso encadeado).

No renka, cada pessoa escreve uma estrofe de poesia em uma corrente interconectada que deve tanto ecoar o que veio antes quanto abrir novos caminhos. Às vezes é difícil aceitar perder para a outra pessoa em termos de imagens ou estrutura frasal, mas agir sem cautela estragaria o poema. Como jogar badminton, é um ir e vir constante; saber quando dar uma cortada e quando apenas tocar a peteca suavemente exige um equilíbrio delicado e concessões fascinantes.

Ele escrevia em japonês e traduzia imediatamente para o inglês. Eu respondia com poesia chinesa, também traduzindo para o inglês para ele. Yotsumoto era um aluno exemplar que estudou Literatura Inglesa na Universidade Sophia. Enfrentando suas cortadas dignas de livro didático vezes sem conta, minha pressão vinha metade da escrita da poesia e metade da sua tradução. No entanto, não era um confronto; era mais como construir conjuntamente uma suíte completa de poemas.

No auge de uma pandemia em que ninguém sabia onde ficava o fim, a poesia não era uma barreira, mas uma Torre de Babel que reconstruímos usando três idiomas. Yotsumoto me pediu para dar um título a este poema, e eu soube instantaneamente que apenas um nome seria adequado — anos atrás, no Museu Britânico, eu tinha visto a Pedra de Roseta. Inscrita com três escritas — hieróglifos do Egito Antigo, demótico e grego antigo —, sua descoberta permitiu que a escrita hieroglífica, perdida por mil anos, fosse finalmente decifrada.

“Rosetta”. Eu não entendia japonês e ele não entendia chinês, mas, ao traduzirmos nossos próprios versos poéticos para o inglês, permitimos que o poema se vinculasse estrofe por estrofe através dos fusos horários. Mais tarde, foi publicado em diferentes idiomas no Japão e em Hong Kong, permanecendo como um testemunho poético da resistência à pandemia. No final de 2022, convidei Yotsumoto para ministrar um curso introdutório de poesia japonesa para meus alunos. Graças à tecnologia da internet avançando a passos largos devido à pandemia, ele viu um auditório cheio de professores e alunos através da tela. Nós, é claro, também podíamos vê-lo. Alguns alunos até conversaram com ele diretamente em japonês — uma experiência totalmente nova para ambos os lados, tanto na forma quanto no conteúdo.

Então, quando abrimos a porta e vimos Yotsumoto, embora não fizesse um tempo excessivamente longo, reencontrar-se em Tóquio após a pandemia parecia uma vida inteira de distância. Durante o jantar, continuamos nos preparando para a leitura de poesia antes de caminharmos até o bar “Hikari no Uma” (Light Horse). Lá, um aluno meu chegou sozinho para se juntar a nós; ele estuda filosofia e escreve poesia, sendo uma verdadeira raridade em uma escola secundária tradicional em Hong Kong.

O luar sobre Okubo estava lindo, caindo sobre os telhados baixos. Ao lado da estrada erguiam-se trilhos de trem elevados, altos como muralhas da cidade; caminhamos sob eles, com bicicletas ocasionalmente passando tinindo. O “Hikari no Uma” ficava em um lugar assim, aninhado dentro de um dos edifícios, descendo uma escada estreita até o subsolo. Não havia pessoas comuns ali; todos os presentes eram escritores ou acadêmicos que vieram pela poesia de Hong Kong. Senti-me imensamente afortunado por ter colegas poetas ao meu lado para reforçar minha confiança — caso contrário, minha síndrome do impostor provavelmente teria acabado comigo.

Compartilhamos poesia e compartilhamos desastres. O “Rosetta”, escrito em parceria por mim e Yotsumoto, ao lado dos poemas recitados pelos poetas de Hong Kong, era todo sobre várias experiências pessoais ou coletivas de desastre. Um poeta japonês recitou um poema sobre a Ucrânia com uma voz rugida e um toque teatral, assustando uma criança japonesa por perto. Meus próprios filhos não reagiram muito — tudo parecia muito novo para eles, e assim por diante.

Suzume é um filme de estrada apocalíptico. Os lugares que Suzume visita correspondem precisamente aos locais de vários grandes terremotos. A batalha em Ochanomizu ecoa o Grande Terremoto de Kanto de 1923, que tirou mais de 100.000 vidas. A Ponte Hijiri foi uma das pontes de reconstrução construídas após o Grande Terremoto de Kanto, concluída em 1927. Foi chamada de Ponte Hijiri (Ponte dos Santos) porque suas duas extremidades apontam para a confuciana Yushima Seido e para a Ortodoxa Catedral da Santa Ressurreição (Nikolai-do), respectivamente.

Parece que a escolha de Makoto Shinkai por Ochanomizu como campo de batalha foi bem pensada. Curiosamente, o nome Ochanomizu (Água para Chá) derivou originalmente da água da fonte do templo Kōrin-ji, nas proximidades, que era tão pura que o Xogunato Tokugawa a usava para preparar chá. Transmite uma atmosfera muito serena — um contraste emocional gritante com as calamidades posteriores de grandes terremotos e ataques aéreos.

Como Winson Tsang escreveu “Ukima-Funado”, apresento “Ochanomizu” em retribuição. Em seu artigo, ele mencionou assistir aos fogos de artifício de Edogawa; eu, por outro lado, fui para perto assistir aos fogos de artifício simultâneos de Ichikawa. A multidão era avassaladora, tornando impossível chegar à margem do rio. Só podíamos assistir às bolas de fogo desabrochando no céu estreito a partir de uma rua lotada. Ainda assim, cercado por famílias locais e jovens casais usando yukata, com vendedores de comida de rua gritando ao longo das vias, isso combinou muito mais comigo do que assistir aos fogos de artifício de uma vista panorâmica.

Estava tarde demais quando o evento terminou. Caminhamos de volta para a pousada a partir de Ichikawa. Como havia multidões por toda parte, não havia motivo para preocupação. Caminhar ao longo do Rio Edo em uma noite de fim de verão, olhando para a paisagem noturna de Tóquio ainda explodindo de energia, conversando e rindo com a família — foi realmente agradável. Mais tarde, nosso grupo foi a um parque para brincar com estrelinhas de fogo de artifício. A fumaça cinzenta subia junto com as línguas de fogo até ser absorvida pela noite — essa foi nossa última noite em Tóquio.

O auge do verão de 2023 foi um breve alívio em meio a várias reviravoltas na vida. Naquela época, as coisas recém haviam se acalmado, sem que soubéssemos dos eventos muito mais aterrorizantes que enfrentaríamos nos dois anos seguintes — mas essa é uma história para outra longa série. Eu não vou necessariamente escrever essas histórias de forma factual, mas vou transformá-las em poesia. Em 2025, publiquei Ecological Succession, derramando meu coração e alma nele. Talvez, em comparação com a escrita de prosa, eu ainda ame mais a poesia.

Jacky Yuen Man-leuk

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Setembro Amarelo

Adriana Rocha: ‘Setembro Amarelo: quando a escuta também pode salvar’ | Uma reflexão profunda sobre como a mediação e a escuta ativa são ferramentas capazes de romper o silêncio e acolher a dor alheia

Adriana Rocha
Adriana Rocha
Laço dourado simbolizando união e esperança, cercado por pessoas de diferentes origens e mãos que protegem uma pequena planta, em aquarela.
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Há silêncios que não significam ausência de palavras. Às vezes, significam excesso delas — pensamentos que se acumulam, sentimentos que não encontram espaço, dores que não sabem como ser ditas.

É nesse território delicado que o Setembro Amarelo nos convida a permanecer atentos: ninguém deveria precisar gritar para ser ouvido.

Falar sobre prevenção ao suicídio é, antes de tudo, falar sobre humanidade. É compreender que acolher não significa ter respostas prontas, oferecer soluções imediatas ou tentar convencer alguém de que “vai ficar tudo bem”. Acolher pode começar simplesmente pela disposição genuína de estar presente.

E talvez seja justamente aqui que os princípios da mediação nos ofereçam uma importante inspiração, pois na mediação, aprendemos que escutar é muito mais do que ouvir. A escuta ativa pressupõe presença, atenção, respeito e disponibilidade para compreender o que está sendo comunicado — inclusive aquilo que não é dito explicitamente.

O mediador não escuta para julgar ou para disputar razão.
Não escuta para preparar uma resposta.Escuta para compreender!

Essa postura, tão essencial à construção de diálogos qualificados, também pode transformar relações cotidianas. Uma pergunta feita com genuíno interesse, um olhar atento, um espaço sem julgamentos ou simplesmente a disponibilidade para permanecer ao lado de alguém podem representar uma diferença significativa para quem atravessa um momento de sofrimento.

O diálogo qualificado não elimina a dor, mas pode impedir que a dor seja vivida em absoluta solidão.

Na perspectiva da mediação, o conflito não precisa ser compreendido apenas como ruptura. Ele pode também revelar necessidades, sentimentos, interesses e histórias que precisam ser reconhecidos.

Com a vida acontece algo semelhante. Por trás de um comportamento que nos incomoda, de um afastamento repentino, de uma mudança de rotina ou de um silêncio persistente, pode existir uma história que ainda não encontrou espaço para ser contada.

Por isso, prevenir também é perguntar. É perguntar e realmente permanecer para ouvir. “Como você está?” não deveria ser apenas uma pergunta automática, mas ser uma porta. “Quer conversar?” pode ser um convite. “Estou aqui para ouvir você.” pode ser uma forma de dizer: sua existência importa para mim.

A mediação nos ensina o valor de construir espaços nos quais as pessoas possam falar sem serem imediatamente interrompidas, rotuladas ou desqualificadas. Espaços em que diferentes perspectivas possam coexistir e em que a dignidade de cada pessoa seja preservada.

No Setembro Amarelo, essa aprendizagem ganha uma dimensão ainda mais profunda.

Precisamos construir, em nossas famílias, escolas, organizações, instituições e comunidades, uma verdadeira cultura da conversa.

Uma cultura em que pedir ajuda não seja interpretado como fraqueza.Em que demonstrar vulnerabilidade não seja motivo de vergonha. Em que cuidar da saúde emocional seja compreendido como parte do cuidado com a própria vida.

E, sobretudo, uma cultura em que saibamos reconhecer os limites da nossa escuta: acolher não significa substituir o cuidado profissional. Quando há sofrimento intenso ou risco de suicídio, é fundamental buscar ajuda especializada e acionar os serviços de saúde e emergência adequados.

A mediação nos lembra que algumas situações precisam de um espaço protegido para o diálogo.

O Setembro Amarelo nos lembra que algumas dores também precisam de um espaço protegido para existir — e para serem cuidadas.

Talvez o grande convite deste mês seja justamente este: antes de procurar a palavra certa, ofereça presença. Antes de oferecer conselhos, ofereça escuta.
Antes de julgar, procure compreender. Antes de concluir que alguém está bem, pergunte novamente.

Porque existem conversas que não resolvem tudo, mas existem conversas que podem fazer alguém perceber que não está sozinho.

E, às vezes, é nesse pequeno espaço entre uma pergunta e uma escuta verdadeira que nasce uma possibilidade: a possibilidade de pedir ajuda, de ser acolhido, de encontrar cuidado e de continuar.

Setembro Amarelo nos convida a iluminar a vida.
A mediação nos ensina que, para isso, precisamos aprender a escutar.

Que sejamos, portanto, presença onde houver silêncio, diálogo onde houver distância e acolhimento onde alguém estiver precisando encontrar um lugar seguro para dizer:
“Eu preciso conversar.” E ouvir como resposta: “Vamos Conversar!”

Adriana Rocha

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