Abdulla Issa é filho de um dos berços das civilizações mais antigas do mundo e reconhecida por sua rica história e Patrimônios Mundiais da UNESCO!
Abdulla Issa
Abdulla Issa, 62, é um poeta palestino, filho de uma família que buscou refúgio na Síria após a ocupação da Palestina em 1948.
Ganhou o Prêmio de Poesia em 1983 e foi considerado um dos principais símbolos de renovação na poesia árabe contemporânea durante a década de 1980.
Formado no Instituto de Literatura Maxim Gorky, obteve um doutorado em Literatura pelo Instituto de Literaturas Asiáticas e Africanas da Universidade Estatal de Moscou em 2000, onde posteriormente lecionou e ministrou aulas de poesia. Em 2021, recebeu uma distinção acadêmica em reconhecimento às suas contribuições para a cultura e as artes criativas.
Recebeu inúmeros títulos honorários, entre os quais se destacam ‘O Poeta da Palestina no Exílio’ e ‘A Voz Poética da Palestina’. E muitos prêmios árabes e internacionais, dentre os quais: Personalidade do Ano no Diálogo de Culturas e Civilizações – Fundo Mundial de Literatura (2014) Medalha de Mérito em Cultura, Ciência e Artes (Nível Inovação) – concedida pelo Presidente Palestino Mahmoud Abbas (2015) – Medalha Chekhov de Criatividade (2017) – Prêmio Pena de Ouro (2019) – Medalha da Associação Internacional de Sindicatos de Escritores (2024) – Prêmio Internacional da Palestina de Literatura – Poesia (2024).
Publicou inúmeras coletâneas de poesia, incluindo: Pessoas Mortas Preparando o Funeral, Alaa, A Tinta do Primeiro Céu, A Ressurreição dos Muros, Os Pastores do Céu, Os Pastores da Oleandro. Meus Irmãos, Ó Pai, Não o Lobo, Os Mandamentos de Fawzia Al-Hassan, Lá Onde as Sombras Gemem, As Obras Poéticas Completas, O Céu de Gaza e As Colinas de Jenin.
Entre suas obras de crítica, destacam-se ‘Critical Vision’, ‘Word and Spirit in Contemporary Poetry’, ‘Poetics of Aesthetic Creation’ e ‘Methods of Contemporary Arab Artistic Expression’.
Também escreveu para o teatro, notadamente ‘The Kingdom of Demons’.
Suas obras foram traduzidas para muitos idiomas, e ele foi homenageado em inúmeros festivais literários árabes e internacionais.
Abdulla Issa inicia sua jornada na Família ROLiana, com o retumbante texto O poema
O poema
Imagem criada por IA do ChatGPT – 16 de fevereiro de 2026, às 13h04 – https://chatgpt.com/c/69933efb-e5b4-8332-a62a-b9007b3301c9
Rinha de galos
Leve-me ao café.
Estou ficando louco com os passos que circulam a escada.
Já não tenho forças para ficar sozinho.
com os cheiros da cela cega
após os perigos da tortura.
No café, assim como na prisão,
Alcanço o limite máximo da minha primeira liberdade.
Que tolice nos levou à morte—
Como se uma ideia pudesse sobreviver aos nossos corpos!
Como se tivéssemos uma pátria mais querida que a própria vida.
Isso nunca aconteceu, nem uma única vez.
Uma vida que vale a pena ser vivida.
Como se, com o passar dos dias,
Tínhamos crescido em excesso em relação às suas necessidades.
Uma pátria feita sob medida para a derrota,
para que pudéssemos morrer chamando isso de vitória.
Não encontramos escapatória da morte.
que não nos esperaram em nossos túmulos.
Sou mulher e tenho o direito de me atrasar.
para meus encontros com tolos—
Todos os homens, tolos. E você—
Já não sirvo de ser o teu muro alto,
para você se apoiar
quando a terra se inclina sob seus pés.
Olha, isto é uma barreira entre mim e você.
Não há dignidade em um país.
que não possui dignidade própria.
Tenho uma pátria estranha aqui,
uma terra de cujos espelhos me expulsaram,
Assim, tornei-me sua sombra no chão.
Eles trocaram isso por uma sepultura segura em movimento.
e sudários de renda — privilégio daqueles que detêm o comando.
Não tenho pátria para me fazer companhia.
Onde você vive, como eu, na diáspora.
Não há mapas para indicar o caminho até lá.
Como eu, no exílio.
Minha liberdade não é mais meu exílio,
Nem a minha liberdade é a minha pátria.
Eu sou a minha liberdade.
Eu sou a minha pátria.
Se eu for levado embora,
Virei com as flores do meu túmulo.
e testas curvadas.
Leve-me à discoteca.
Quero dançar!
Você extraviou meu corpo?
Ao alcance da sua cama?
Quando danço, não me importo com nada.
o que vem ou não vem—
Nem eu mesmo.
Sou escravo de um escravo—
Como eu poderia dar à luz um mestre?
Não tenho nada para fazer
com prostitutas,
ou porta-aviões,
ou homens ocos,
ou um mensageiro dos deuses rezando com uma camisa de lã,
com censores e retóricos,
com água correndo para lugar nenhum
dos lombos dos animais.
Não direi adeus a um cadáver caído;
Direi: solte minha mão.
Cinquenta mil vítimas morreram,
inteiramente acorrentado pelos mortos;
centenas de milhares às portas do desconhecido,
aguardando o retorno ao que a pequena Terra já foi um dia—
milhares e milhares de poços, árvores, pedras,
nomes, luzes e coisas—
enquanto buscamos refúgio,
no que restou das temporadas do Holocausto,
Em nosso desespero, por causa do nosso desespero.
Leve-me para um exílio distante. Qualquer exílio.
Onde, como uma dama de cristal, livre em meu primeiro eu,
Posso passear entre duas capitais
com um homem que flerta comigo,
e beba uma taça de champanhe.
na beira da calçada,
sozinha como uma deusa
contando às suas maçãs as biografias das serpentes.
Da ‘Ilha do Encanto’, com suas belezas naturais, praias paradisíacas, riqueza cultural e histórica para o ROL, a poesia caribenha de Mario Antonio Rosa!
Marco Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa, natural de San Juan, Porto Rico, é poeta, editor, jornalista cultural e crítico Literário.
Autor dos livros: Misivas para los Tiempos de Paz; Tristezas de la Erótica; Duelo a la Transparencia; avaliado como Livro do Ano pelo jornal El Nuevo Día; Kilómetro Sur; La Tierra de Mañana; Poemas en la isla del incendio e Pasternak en el invierno.
Coautor da Antologia Poetas para el Mundo Voces para la Educación*, juntamente com Ernesto Cardenal e Raúl Zurita, do Chile, patrocinada pelo Sindicato dos Professores do Estado do México, e na Nueva Antología de Poesía Hispanoamericana, patrocinada pela revista Ómnibus, da Espanha.
Participou da Écfrasis, uma publicação da Liga de Arte de San Juan, vinculada à exposição permanente de mesmo nome, com seu poema Albea, inspirado na obra pictórica da artista Consuelo Gotay.
Recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Guajana no Festival Internacional de Poesia de Porto Rico; Prêmio de Poesia Turpial de Ouro, da Sociedade Venezuelana de Arte Internacional; Prêmio Internacional de Poesia patrocinado pela Fundação do Patrimônio Latino em Nova York e, mais recentemente, o Prêmio Internacional de Arte (2023) concedido pela organização de mesmo nome em Nova Jersey.
Marco Antonio se apresenta aos leitores do ROL com o poema Memoria de los troncos viejos, uma Ode à Natureza!
Memoria de los troncos viejos
Imagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/699218ee-ee34-832f-aeda-feaa37564443
Me gusta detenerme a posesión lenta, con aire claro, casi rendido y contemplar los troncos viejos, esa corteza, donde el tiempo relucía con bostezo sus espadas. Ese final, que terminaba extinguido, porque el tronco era demasiado cielo, imantaba reinos, sucedía primogénito por el río de la noche; su silencio ¡mundo! era una sed tejida solo con abrazos bordeada, mal vestida y a la vez hermosa. Me pongo a contar sus vertientes, seguirlas, una contra otra, como relojes cruzados donde jamás ocurrirá la hora legítima. Y el poro, donde se habla solo de un cargado infinito y de los muchos brazos del hombre, los dulces, los violentos, y los descalzos de amor; miro siempre al tope de esa vieja estrella despeinada donde una vez existía el atrio verde.
Quizá no sea modernidad, estar bajo ese momento del siglo, de frente a este tronco, como si algo de un milagro nos mostrara la cara; no es oficio de pandemia, olvidar la tierra, y solo brindarse a esta quietud profusa, en sangre vidrio, brotando invisible al hambre de los ojos.
Y estas orquídeas ebrias de grandeza flotando contra el signo.
‘A solidariedade performativa: quando a ajuda exige testemunhas’
Ramos António AmineImagem criada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69928f07-03e8-832e-8bbc-e377675d2880
Num mundo que tende a expor tudo, torna-se urgente questionar a base moral que orienta a edificação dos alicerces da nossa convivência. A publicação, a partilha e a visualização converteram-se na linguagem convencionada de uma sociedade cada vez mais efémera. É neste contexto que a exposição deixou de ser exceção para se tornar regra.
O dever pelo dever cedeu lugar ao dever viral. A boa ação é captada e, em seguida, publicada com vista a visualizações e as visualizações tendem à monetização. É nesta lógica que se sustenta a solidariedade performativa: uma solidariedade que só se reconhece quando é filmada, fotografada ou exibida.
Movido pela honra mediática, o solidário performativo abandona o seu conforto e desloca-se em direção à vítima, seja ela das inundações, das cheias, das secas ou dos acidentes sociais, para dela se compadecer. Contudo, raramente vai só. Faz-se acompanhar de um quarto poder, ou de uma quinta coluna, no bolso, às costas, ou ainda às costas daqueles que o acompanham. Há, inclusive, quem se faça acompanhar por seguranças, como se a vítima transmitisse ameaça. É aqui que se consuma o aproveitamento mediático e, não raras vezes, político, por parte de indivíduos que se apresentam como detentores de elevada estatura moral.
O lema implícito do nosso tempo parece ser: “ajudo-te, sim, mas que tiremos uma fotografia”. O foco já não é a vítima, mas o mundo. O mundo deve saber quem ajudou quem, e quem foi ajudado por quem. Tudo isso impulsionado pela proliferação do ecrã digital, que seduz e reorganiza os critérios de reconhecimento social. As imagens bastam. A dor da vítima torna-se secundária.
Estou ciente de que não falta quem tente dissuadir-me, argumentando que não há problema algum em filmar uma boa ação e que, se os nossos antepassados não o faziam, era apenas porque viviam na idade da pedra. Tal argumento é facilmente refutável, na medida em que, mesmo neste tempo de exposição do absurdo, continuam a existir pessoas que realizam atos moralmente bons sem necessidade de os filmar para obtenção de gostos ou validação pública.
Reconheço também que a proliferação do ecrã digital contribuiu para a exposição de injustiças, desigualdades, pobreza e exclusão social. Nesse ponto, nada há a objetar. A denúncia pública pode ser um instrumento legítimo da consciência transformadora.
Entretanto, a solidariedade deveria seguir o mesmo fôlego da generosidade: dar antes de ser solicitado e oferecer sem exigir visibilidade. A ação filmada, quando se torna paradigma, tende menos à transformação do mundo e mais à exposição da nossa mediocridade moral. Ri-se do filmado, em vez de se combater o sistema que cria fossos e pune aqueles que neles caem.
É um fato que, o princípio mais profundo da natureza humana é o desejo ardente de ser estimado. Contudo, este princípio deveria conduzir-nos a ações boas em si mesmas. Uma ação boa em si é aquela que é realizada tendo em vista a intenção do sujeito. Aqui, nem o sujeito da ação, nem a consequência da ação assumem primazia. A intenção que precede o ato basta. Infelizmente, hoje, a boa ação clama por testemunhas.
A ajuda que sobrevive da exposição não cura; humilha. Não é oportuna; é oportunista. A solidariedade performativa é interesseira: mantém de pé o sistema que cria vítimas, enquanto simula combatê-lo. A ‘mão que dá’, que outrora era considerada mais nobre do que a que recebe, tornou-se hoje uma mão que exige testemunhas. Já não basta ajudar; é preciso provar que se ajudou.
Maria Beatriz Munoz RuizCumbres Borrascosas – Imagem criada por IA do Grok https://grok.com/imagine/post/b1c6c33a-67ee-46e8-86ba-1e38aeb071d9
Hace un tiempo escribí una crítica literaria sobre la novela de Emily Brontë, Cumbres Borrascosas, sin haber visto su adaptación cinematográfica. Hoy, después de salir del cine, puedo reafirmarme en una idea que rara vez falla: los libros casi siempre son mejores.
He salido con un sabor agridulce. Aún no sé muy bien qué pensar de la película; quizá el problema hayan sido mis propias expectativas. Tal vez esperaba reencontrarme con la intensidad desgarradora de la novela y, en su lugar, me encontré con una versión suavizada.
Tengo la sensación de que buena parte del público no había leído la obra original y, por eso mismo, la disfrutó más que yo. Quien desconoce el texto de Brontë no echa en falta lo que no sabe que ha sido omitido.
Comenzaré por lo positivo. La interpretación de los actores es sobresaliente; el vestuario, impecable; y los paisajes, junto con el decorado, resultan verdaderamente inmejorables. La atmósfera visual está muy lograda, aunque, en mi humilde opinión, habría prescindido de ciertos detalles —como esas gafas de sol en una escena concreta— que rompen la coherencia temporal.
Hablo de “nueva versión” porque, en efecto, lo es: han eliminado personajes fundamentales, suprimido episodios clave —como el encuentro de Heathcliff y Catherine con los Linton— y alterado tanto el carácter como la esencia de varios protagonistas. Incluso han transformado el papel de Isabella hasta hacerlo casi irreconocible, ya que ha pasado de ser hermana a simple acolita. En definitiva, han reescrito media novela. Y digo media porque la segunda parte, al parecer, no despierta demasiado interés.
Es cierto que a mí misma esa segunda parte me resultó más densa en su momento; sin embargo, es en ella donde se revela con mayor crudeza el verdadero Heathcliff: vengativo, devastado, consumido por el resentimiento que nació en la primera mitad de la historia.
La película, en cambio, opta por romantizarlo todo en exceso. Se convierte así en una versión más comercial, más adaptada a la sensibilidad contemporánea. Incluso el ama de llaves, que, aunque no fue de mi agrado en la novela, tampoco era necesario convertirla en una villana envidiosa y vengativa.
Por otro lado, el giro que le han dado al personaje de Isabella desvirtúa por completo la intención original de Brontë. La historia se vulgariza, se sexualiza y se simplifica. Y aunque suene severo, mi crítica no implica que no haya disfrutado ciertos momentos de la película. De hecho, ha logrado materializar una fantasía compartida por muchos lectores: escuchar a los protagonistas pronunciar un “te amo”.
En la novela no hay besos. Ni siquiera una confesión explícita de amor. Y, sin embargo, el amor está en cada página, latiendo con una intensidad que no necesita palabras. Se percibe. Ellos lo saben. El lector lo sabe.
Brontë no buscaba la perfección romántica; creó un universo de pasión desmedida, de frustración y de tormento. Un amor áspero, inquietante, que deja el alma en desasosiego. La película, en cambio, parece desconfiar de la inteligencia del espectador, como si fuera necesario subrayarlo todo, explicarlo todo, hacerlo más evidente —incluso a través de escenas prescindibles— para garantizar su comprensión.
El final, además, da la impresión de cerrar definitivamente la puerta a la continuación de la historia, como si la segunda generación nunca hubiera existido.
En conclusión, si deseas disfrutar plenamente de la película, quizá sea mejor no haber leído la novela. Pero si lo que buscas es comprender la intensidad, la oscuridad y la complejidad del amor que imaginó Emily Brontë, entonces acude al libro… y no esperes demasiado de la película.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Joaquim e as cartas’
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada por IA do Gemini – 15 de fevereiro de 2026, às 01:27 AM
Joaquim das Couves adorava cartas. Aliás, antes que alguém possa pensar que seu nome era mesmo esse, já lhe digo que não. Chamava-se Joaquim Manoel de Almeida. No entanto, como era dono de uma banca de frutas e legumes na feira, acabou ganhando essa alcunha, que carregava por todos os cantos. Vendia ovos caipiras também. Mas, como já havia o Zé do Ovo bem ali na outra barraca, ficou das Couves mesmo.
A despeito de couves, cenouras, tomates, alfaces e ovos caipiras, Joaquim gastava seu tempo livre com algo fora de moda. Apaixonado desde sempre por cartas, pegava uma boa quantidade de folhas e danava a derramar um monte de palavras sobre elas. Caprichosamente delineadas, pois não queria causar dúvida ao destinatário quanto aos dizeres. Jota era jota, gê era gê, todos os emes com três perninhas. Quanto aos enes, cabiam-lhes apenas duas.
É verdade que quase não mais recebia missivas, mas isso não o desanimava. Final de tarde, o homem se sentava à mesa da sala e, rodeado dos apetrechos necessários, tratava logo de escrever, escrever, escrever. E, caso as ideias lhe faltassem, bebericava o café ao lado, cuidadosamente preparado no antigo coador de pano. Não se sabe se era por hábito ou milagre, mas os pensamentos lhe corriam que nem os caudalosos rios em direção ao mar.
De vez em quando, Joaquim consultava aquele calhamaço, que havia ganho de presente de um antigo funcionário dos Correios, em busca de um CEP. Colocava os óculos e os empurrava até a ponta do nariz. Virava as folhas fininhas, enquanto o indicador fazia uma busca até a almejada linha. Pronto! Anotava cuidadosamente no verso do envelope: 90150-002.
Às segundas-feiras, dia de folga no trabalho, juntava aquelas dezenas de envelopes e caminhava até a agência dos Correios. Como se tratava de hábito, bem que poderia comprar um monte de selos, colá-los e despachar as cartas numa caixa mais próxima. Não! Fazia questão de esperar na fila e ser atendido por qualquer um dos funcionários. Não importava qual, pois todos o conheciam de longa data.
— Como vai, seu Joaquim?
— Oi, Marcos. Tudo bem. E com você?
— Tudo bem também. Vejo que hoje temos 34 cartas. Parece que o senhor vai ter muita coisa para ler quando receber as respostas.
Joaquim sorria por hábito. Na verdade, há mais de dois anos não recebia uma carta sequer. De vez em quando, sejamos justos, recebia o telefonema de algum destinatário ou mensagem via algum aplicativo eletrônico. Nada além disso.
O feirante voltou para casa pelo caminho de costume. Passou no mercadinho da esquina e comprou um pacote de pó de café. Do melhor, praticamente a única extravagância de uma vida tão simplória.
Assim que abriu a porta da residência, notou um envelope diferente junto a tantas contas para pagar. Olhos arregalados, pensou que aquilo era um sonho. Não era possível! Uma carta!
O homem não reconheceu o nome da remetente. Mas o sobrenome era conhecido. Fabiana Moretti. O endereço era o mesmo do seu amigo de juventude, Bruno, na longínqua cidade natal. Fabiana, certamente, era uma parenta.
Joaquim, de tão emocionado, depositou cuidadosamente a missiva sobre a mesa. Foi até a cozinha, colocou água na chaleira. Passou uma boa quantidade de café. Voltou à sala, sentou-se à mesa, despejou o líquido fumegante até a metade da xícara de louça florida. Deu um gole, mordeu o bigode com os lábios trêmulos, respirou profundamente.
Pegou seus óculos e os colocou como de costume. Com a carta em mãos, abriu cuidadosamente o envelope. Desdobrou as três folhas, como se desembrulhasse um presente há tanto esperado.
Já nas primeiras linhas, percebeu que Fabiana era uma das filhas de Bruno. Este, infelizmente, havia falecido há pouco mais de seis meses, após quase dois de ter entrado em coma. Joaquim se sentiu tocado pela partida do amigo, que jamais havia lhe respondido, a não ser por um ou dois telefonemas ao longo dos últimos cinco anos. Algumas lágrimas escorreram pelo rosto enrugado ao ler um trecho da carta.Sei que o senhor foi muito amigo do meu pai. Como sei disso? Bem, todas as vezes que lia alguma das suas cartas em voz alta, meu pai, mesmo em coma, sorria com lágrimas nos olhos.
‘O Título de Comendador: Origem Histórica, Função Simbólica e Valor na Contemporaneidade’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoUma composição solene que une símbolos da tradição medieval e do Estado moderno, tendo ao centro uma comenda repousando sobre almofada cerimonial. A imagem traduz visualmente o valor histórico, simbólico e contemporâneo do título de Comendador. Imagem criada por IA do ChatGPT
Resumo
O presente artigo analisa o título de Comendador enquanto distinção honorífica de caráter histórico, institucional e simbólico, examinando sua origem etimológica, seu desenvolvimento no contexto das ordens medievais, sua incorporação aos cerimoniais de governo e sua permanência nas instituições culturais e acadêmicas contemporâneas. Partindo de uma abordagem histórico-institucional, o estudo demonstra que a comenda não se restringe a um elemento decorativo ou protocolar, mas constitui um mecanismo de reconhecimento público do mérito, associado à construção da legitimidade política, social e cultural ao longo do tempo. Ao longo do texto, evidencia-se que, desde a Idade Média, o título de Comendador esteve vinculado a funções administrativas, responsabilidades morais e deveres institucionais, sendo posteriormente ressignificado no âmbito dos Estados modernos e das organizações culturais. Na contemporaneidade, a comenda preserva seu valor simbólico ao funcionar como instrumento de memória institucional, distinção honorífica e afirmação de valores éticos e cívicos. Conclui-se que a permanência do título de Comendador confirma a relevância histórica das honrarias como expressões duradouras de reconhecimento social e como elementos estruturantes da identidade das instituições.
This article examines the title of Commander (Comendador) as an honorary distinction of historical, institutional, and symbolic significance. It explores its etymological origins, its development within medieval religious and military orders, its incorporation into governmental ceremonial practices, and its continuity within contemporary cultural and academic institutions. Adopting a historical-institutional approach, the study argues that the commendation is not merely a decorative or protocolary element, but rather a mechanism of public recognition of merit, closely associated with the construction of political, social, and cultural legitimacy over time. The analysis demonstrates that, since the Middle Ages, the title of Commander has been linked to administrative functions, moral responsibilities, and institutional duties, later undergoing a process of redefinition within modern states and cultural organizations. In contemporary society, the commendation retains its symbolic value by serving as an instrument of institutional memory, honorary distinction, and affirmation of ethical and civic values. The article concludes that the enduring presence of the title of Commander underscores the historical relevance of honorary distinctions as lasting expressions of social recognition and as foundational elements of institutional identity.
As distinções honoríficas constituem elementos centrais na organização simbólica das sociedades ao longo da história, desempenhando papel relevante na legitimação do poder, na valorização do mérito individual e na construção da memória institucional. Desde a Antiguidade, diferentes civilizações recorreram a títulos, insígnias e honrarias como formas de reconhecer serviços prestados à coletividade e de reafirmar valores considerados fundamentais à ordem social.
Nesse contexto, destaca-se a comenda, associada ao título de Comendador, cuja trajetória histórica remonta à Idade Média e se estende até os dias atuais. Originalmente vinculada às ordens religiosas e militares, a comenda possuía caráter funcional, estando relacionada à administração de bens, territórios e rendas, bem como ao exercício de autoridade delegada. Com o passar dos séculos, esse instituto passou por profundas transformações, acompanhando as mudanças políticas, sociais e culturais que marcaram a transição do mundo medieval para os Estados modernos.
A partir da consolidação das monarquias nacionais e, posteriormente, dos Estados contemporâneos, as comendas foram progressivamente incorporadas aos cerimoniais de governo, assumindo a forma de distinções honoríficas oficiais concedidas por chefes de Estado e instituições reconhecidas. Nesse processo, embora tenham perdido parte de seu caráter administrativo original, preservaram seu valor simbólico como instrumentos de reconhecimento do mérito, da lealdade institucional e da contribuição relevante à vida pública, cultural e científica.
Na atualidade, as comendas continuam presentes não apenas no âmbito governamental, mas também em academias, institutos históricos, ordens honoríficas civis e entidades culturais, desempenhando função significativa na preservação da memória institucional e na valorização de trajetórias individuais de reconhecido impacto social. Assim, o estudo da comenda e do título de Comendador revela-se relevante para a compreensão das formas pelas quais as sociedades constroem, legitimam e perpetuam seus sistemas simbólicos de honra e reconhecimento.
Dessa forma, o presente artigo tem por objetivo analisar a evolução histórica e o significado contemporâneo do título de Comendador, enfatizando sua função simbólica, seu papel institucional e sua permanência como expressão de distinção honorífica. Ao abordar a temática sob uma perspectiva histórico-institucional, busca-se contribuir para o debate acadêmico sobre as honrarias enquanto elementos constitutivos da cultura política e da memória social.
2 Conceito e significado da comenda
A comenda constitui uma das mais antigas e complexas formas de distinção honorífica da tradição ocidental, caracterizando-se como um instrumento simbólico de reconhecimento público conferido por autoridade legítima a indivíduos cujas ações ou trajetórias se destacam por serviços relevantes prestados à coletividade. Diferentemente de prêmios de natureza meramente simbólica ou episódica, a comenda está historicamente vinculada a sistemas institucionais de honra, autoridade e legitimidade, sendo parte integrante das ordens honoríficas estruturadas ao longo do tempo.
Do ponto de vista conceitual, a comenda articula três dimensões fundamentais: a institucional, a simbólica e a moral. Na dimensão institucional, sua concessão pressupõe a existência de uma entidade dotada de autoridade reconhecida — seja ela estatal, dinástica, acadêmica ou cultural — capaz de legitimar o ato honorífico. Na dimensão simbólica, a comenda materializa-se por meio de insígnias, medalhas ou condecorações que representam valores históricos e identitários da instituição concedente. Já na dimensão moral, a comenda associa-se à ideia de mérito, honra e responsabilidade, projetando sobre o agraciado um compromisso ético com os valores que a distinção representa.
Historicamente, o grau de Comendador ocupa posição elevada nas hierarquias honoríficas, situando-se acima de distinções iniciais e abaixo apenas dos mais altos graus, como a Grã-Cruz ou o Grão-Colar, quando existentes. Essa posição intermediária-superior reflete o reconhecimento de uma contribuição significativa e consolidada, geralmente associada a trajetórias duradouras, liderança institucional ou impacto social relevante (HEINIG, 1997).
No campo da simbologia política e social, a comenda opera como um mecanismo de legitimação pública do mérito. Conforme observa Norbert Elias (2001), as distinções honoríficas desempenham papel central na organização das hierarquias simbólicas das sociedades, funcionando como instrumentos de visibilidade social e reconhecimento institucional. Assim, a comenda não apenas distingue o indivíduo, mas também reafirma a autoridade e os valores da instituição que a concede.
Além disso, a comenda deve ser compreendida como um elemento de memória institucional. Ao registrar publicamente a concessão de uma honraria, as instituições constroem narrativas de continuidade histórica, preservam exemplos considerados exemplares e estabelecem parâmetros simbólicos de excelência. Nesse sentido, a comenda transcende o indivíduo agraciado e passa a integrar o patrimônio simbólico da própria instituição.
3 Origem histórica das comendas
A origem histórica das comendas remonta ao processo de reorganização política, social e religiosa que marcou a transição da Antiguidade para a Idade Média. O termo comenda deriva do latim commendare, verbo que significa “confiar”, “entregar sob proteção” ou “atribuir uma incumbência” (LE GOFF, 1984). Essa etimologia revela o caráter funcional e relacional da comenda em sua forma primitiva, associada à delegação de responsabilidades e à administração de bens ou territórios.
Nos primeiros séculos medievais, a comenda surgiu como prática vinculada às estruturas eclesiásticas e feudais. No âmbito religioso, era comum que bens, rendas ou propriedades fossem confiados a clérigos ou membros de ordens religiosas para sua administração, manutenção e proteção. No plano feudal, a lógica da comenda relacionava-se à concessão de terras ou direitos em troca de fidelidade, serviço e proteção, inserindo-se no complexo sistema de relações de dependência característico do feudalismo.
Com o avanço da cristandade medieval e o surgimento das ordens religioso-militares, especialmente a partir do século XII, a comenda adquiriu contornos institucionais mais definidos. Nesse contexto, passou a designar unidades administrativas das ordens, responsáveis pela gestão de patrimônios, arrecadação de recursos e sustentação das atividades militares, assistenciais e religiosas. O responsável por essa unidade era o comendador, figura investida de autoridade delegada e dotada de funções claramente estabelecidas (BARBER, 1994).
Importa destacar que, nesse período, a comenda não possuía caráter meramente honorífico. Ao contrário, tratava-se de uma função administrativa estratégica, que exigia competência, lealdade e compromisso institucional. A posse de uma comenda implicava deveres concretos e estava associada a mecanismos de controle interno das ordens, reforçando a disciplina e a hierarquia organizacional.
Ao longo da Baixa Idade Média, contudo, observa-se um processo gradual de transformação do instituto da comenda. Com a centralização do poder monárquico e a progressiva secularização das estruturas políticas, muitas comendas passaram a ser concedidas como forma de recompensa e distinção, desvinculando-se parcialmente de suas funções administrativas originais. Esse processo abriu caminho para a ressignificação da comenda como honraria, sem que se perdesse completamente seu vínculo com a ideia de serviço e responsabilidade.
Dessa forma, a origem histórica das comendas revela um percurso marcado pela passagem de uma função essencialmente administrativa e funcional para uma distinção honorífica de elevado valor simbólico. Essa transformação explica a permanência e a adaptabilidade do instituto ao longo dos séculos, permitindo sua incorporação aos cerimoniais de governo e às instituições culturais da modernidade.
4 As comendas na era medieval
Na Idade Média, as comendas alcançaram seu grau mais elaborado de institucionalização, inserindo-se de forma estruturante no funcionamento das ordens religioso-militares que emergiram no contexto das Cruzadas e da expansão da cristandade ocidental. Ordens como a Ordem dos Templários, a Ordem dos Hospitalários e, posteriormente, no espaço ibérico, a Ordem de Cristo, organizaram-se em redes complexas de propriedades e unidades administrativas conhecidas como comendas.
Nesse período, a comenda correspondia a uma circunscrição territorial ou patrimonial da ordem, composta por terras, rendas, edifícios, direitos senhoriais e, em alguns casos, contingentes humanos. A função primordial da comenda era garantir a sustentabilidade econômica da ordem, financiando suas atividades militares, religiosas e assistenciais. O comendador, por sua vez, exercia autoridade delegada, sendo responsável pela administração dos bens, pela arrecadação de receitas e pela observância da disciplina interna.
O cargo de comendador exigia não apenas fidelidade institucional, mas também competência administrativa e reputação moral. A nomeação para uma comenda representava reconhecimento interno da ordem, conferindo prestígio e poder, mas também implicando obrigações rigorosas. Assim, o título de comendador na era medieval estava intrinsecamente ligado à noção de serviço, responsabilidade e hierarquia, diferindo substancialmente da concepção moderna de honraria puramente simbólica.
Além de sua função econômica e administrativa, as comendas desempenharam papel relevante na organização social e política dos territórios onde estavam inseridas. Muitas vezes, os comendadores atuavam como intermediários entre a ordem, o poder régio e as populações locais, exercendo influência política e jurídica. Esse papel contribuiu para a consolidação das ordens como atores relevantes no cenário medieval, dotados de autonomia e capacidade de articulação institucional.
Com o declínio das Cruzadas e as transformações políticas da Baixa Idade Média, o sistema de comendas passou por mudanças significativas. A progressiva centralização do poder monárquico e o fortalecimento das administrações régias reduziram a autonomia das ordens, ao mesmo tempo em que favoreceram a incorporação de suas estruturas ao aparelho do Estado. Esse processo marcou o início da transição da comenda de função essencialmente administrativa para distinção honorífica, sem que se perdesse completamente sua carga simbólica associada ao serviço e à honra.
5 A comenda nos cerimoniais de governo
A incorporação das comendas aos cerimoniais de governo representa um momento decisivo na história das distinções honoríficas. Com o surgimento dos Estados modernos, especialmente a partir dos séculos XV e XVI, as monarquias europeias passaram a reorganizar as antigas ordens medievais, subordinando-as à autoridade régia e transformando-as em instrumentos de afirmação do poder soberano.
Nesse contexto, o soberano assumiu o papel de grão-mestre das ordens honoríficas, centralizando a prerrogativa de concessão das comendas. Esse processo implicou a progressiva secularização das honrarias, que passaram a ser concedidas não apenas por méritos militares ou religiosos, mas também por serviços civis, administrativos, diplomáticos e culturais. A comenda tornou-se, assim, parte integrante do cerimonial de Estado, regulada por normas, estatutos e protocolos específicos.
Conforme observa Elias (2001), os cerimoniais desempenham função essencial na organização simbólica do poder, sendo responsáveis por tornar visíveis as hierarquias sociais e institucionais. Nesse sentido, a outorga de uma comenda configura-se como um ato performativo, no qual o Estado reconhece publicamente o mérito de um indivíduo e, simultaneamente, reafirma sua própria autoridade simbólica.
No Brasil, esse modelo foi incorporado de forma expressiva durante o período imperial, quando as ordens honoríficas passaram a integrar oficialmente o cerimonial do Estado. A concessão de comendas funcionava como instrumento de valorização do serviço público, de estímulo à lealdade institucional e de reconhecimento de contribuições relevantes à administração, às forças armadas, às ciências e às artes. A cerimônia de outorga, revestida de formalidade e solenidade, reforçava o caráter público e simbólico da distinção.
Mesmo após a transição para o regime republicano, o instituto da comenda não desapareceu, sendo ressignificado e mantido em diferentes formatos, tanto no âmbito estatal quanto em instituições civis e culturais. Essa permanência evidencia a capacidade de adaptação das honrarias aos diferentes contextos políticos, preservando sua função simbólica de reconhecimento do mérito e de construção da memória institucional.
Dessa forma, a comenda nos cerimoniais de governo consolida-se como instrumento de mediação entre indivíduo e Estado, articulando reconhecimento pessoal, legitimidade institucional e continuidade histórica. Seu uso reiterado ao longo do tempo demonstra que, mesmo em sociedades marcadas por profundas transformações políticas, as distinções honoríficas continuam a desempenhar papel relevante na estrutura simbólica do poder.
6 As comendas nas instituições culturais e acadêmicas
No contexto contemporâneo, as comendas ultrapassaram o âmbito estritamente estatal e passaram a ocupar lugar relevante nas instituições culturais, acadêmicas e científicas, assumindo função estratégica na preservação da memória institucional e na valorização de trajetórias intelectuais, artísticas e sociais de reconhecido impacto público. Academias de letras, institutos históricos e geográficos, fundações culturais, ordens honoríficas civis e entidades filantrópicas incorporaram a comenda como instrumento legítimo de distinção e reconhecimento simbólico.
Nesse ambiente institucional, a comenda não se limita a reproduzir modelos cerimoniais herdados do Estado, mas adquire significados próprios, associados à missão e aos valores específicos de cada entidade concedente. A outorga do título de Comendador passa a representar o reconhecimento de contribuições duradouras para a produção do conhecimento, para a preservação do patrimônio histórico-cultural, para a promoção das artes ou para o fortalecimento de causas humanitárias e sociais.
Do ponto de vista sociológico, a concessão de comendas por instituições culturais e acadêmicas pode ser compreendida como um mecanismo de construção de legitimidade simbólica. Ao selecionar e distinguir determinados indivíduos, essas instituições estabelecem critérios de excelência, constroem narrativas exemplares e reforçam sua autoridade enquanto guardiãs de valores culturais e científicos. Assim, a comenda funciona como elemento estruturante da identidade institucional, projetando continuidade histórica e coerência axiológica.
Além disso, a prática de concessão de comendas contribui para a consolidação de redes de sociabilidade intelectual e cultural. O agraciado passa a integrar um corpo simbólico de homenageados, vinculando sua trajetória pessoal à história da instituição. Essa vinculação fortalece a dimensão coletiva da honra, deslocando o foco do indivíduo isolado para a comunidade institucional que reconhece e legitima o mérito.
Importa destacar que, no âmbito acadêmico, a comenda não substitui critérios formais de avaliação científica, como produção bibliográfica ou impacto acadêmico, mas atua em plano distinto, reconhecendo trajetórias, serviços institucionais e contribuições de natureza ética, cultural ou social. Desse modo, a comenda assume papel complementar, reafirmando valores que extrapolam a mensuração quantitativa do mérito.
7 O valor simbólico da comenda na atualidade
Na contemporaneidade, marcada pela rapidez das transformações sociais e pela efemeridade das formas de reconhecimento público, a comenda preserva valor simbólico singular ao se apresentar como distinção duradoura, dotada de densidade histórica e institucional. Diferentemente de premiações circunstanciais ou de reconhecimento mediado exclusivamente pela visibilidade midiática, a comenda ancora-se em tradições, ritos e narrativas que conferem estabilidade simbólica ao ato honorífico.
O valor da comenda na atualidade reside, sobretudo, em sua capacidade de articular passado, presente e futuro. Ao ser outorgada, ela evoca uma tradição histórica que remonta às ordens medievais e aos cerimoniais de Estado, reafirma valores institucionais no presente e projeta exemplos para as gerações futuras. Trata-se, portanto, de um instrumento de memória social, que preserva referências simbólicas em contextos de constante mudança.
Sob a perspectiva da cultura política, a comenda continua a desempenhar função relevante na legitimação do mérito e na valorização do serviço público e institucional. Mesmo em sociedades democráticas e igualitárias, as distinções honoríficas mantêm importância ao reconhecer contribuições excepcionais, sem necessariamente implicar privilégios materiais ou jurídicos. Nesse sentido, a comenda opera como reconhecimento simbólico, fundado na ideia de excelência e compromisso com o bem comum.
Ademais, a comenda projeta sobre o agraciado uma dimensão de responsabilidade moral. Ao aceitar a distinção, o comendador passa a representar, ainda que simbolicamente, os valores da instituição concedente, assumindo compromisso ético com sua preservação e promoção. Essa dimensão reforça o caráter relacional da honra, que não se encerra no indivíduo, mas se estende à coletividade.
Por fim, o valor contemporâneo da comenda reside em sua capacidade de resistir à banalização do reconhecimento. Ao exigir critérios institucionais, procedimentos formais e rituais de outorga, a comenda preserva sua excepcionalidade e significado. Sua permanência ao longo do tempo demonstra que, mesmo em contextos de profundas transformações sociais, as sociedades continuam a necessitar de símbolos duradouros de honra, mérito e reconhecimento público.
8 Considerações finais
A análise desenvolvida ao longo deste artigo permitiu compreender o título de Comendador e a comenda não apenas como distinções honoríficas formais, mas como instituições simbólicas profundamente enraizadas na história política, social e cultural do Ocidente. Desde sua origem medieval, vinculada à administração de bens, territórios e responsabilidades no âmbito das ordens religiosas e militares, a comenda revelou-se um instrumento de organização institucional, hierarquização social e legitimação da autoridade.
Ao acompanhar sua trajetória histórica, observa-se que a comenda passou por um processo contínuo de ressignificação, adaptando-se às transformações estruturais que marcaram a passagem do mundo medieval aos Estados modernos. Nesse percurso, o caráter funcional inicialmente associado ao cargo de comendador cedeu espaço, de forma gradual, a uma dimensão predominantemente simbólica, sem que se perdesse, contudo, a associação essencial entre honra, serviço e responsabilidade.
No contexto dos cerimoniais de governo, a comenda consolidou-se como instrumento de reconhecimento oficial do mérito, integrando o repertório simbólico do poder estatal e contribuindo para a construção da memória política e institucional. A sua incorporação às instituições culturais e acadêmicas, por sua vez, evidencia a capacidade de adaptação desse instituto às demandas contemporâneas de valorização da produção intelectual, da preservação do patrimônio cultural e do reconhecimento de trajetórias de relevância social.
Na atualidade, marcada pela multiplicação de formas efêmeras de reconhecimento, a comenda preserva um valor singular justamente por sua vinculação à tradição, à formalidade e à continuidade histórica. Sua concessão implica não apenas a distinção do indivíduo agraciado, mas também a reafirmação dos valores, princípios e narrativas institucionais da entidade concedente. Nesse sentido, a comenda atua como instrumento de memória institucional, contribuindo para a construção de identidades coletivas e para a transmissão simbólica de valores ao longo do tempo.
Conclui-se, portanto, que o título de Comendador permanece relevante no mundo contemporâneo não como resquício anacrônico do passado, mas como expressão viva de uma tradição adaptada às novas configurações sociais e institucionais. Ao reconhecer o mérito de forma pública e solene, a comenda reafirma a centralidade da honra, do serviço e do compromisso ético como fundamentos duradouros da vida institucional e da cultura política.
Referências
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BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 16. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
HEINIG, Paul-Joachim. Orden und Ehrenzeichen: Geschichte, Symbolik und Bedeutung. München: Oldenbourg, 1997.
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1984.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014.
SENNETT, Richard. O declínio do homem público. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
SILVA, Arno Wehling da. Ordens honoríficas e distinções simbólicas no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora UnB, 1999.
‘Carnaval e violência contra a mulher: entrevista com Dra. Mery Janes Corbiceiro Fonseca’
Renata Barcellos
Provavelmente, o carnaval tem sua origem em festas pagãs, como os realizados em honra de Baco (deus do vinho), as saturnais romanas e as Lupercalia, ou aqueles que tiveram lugar em homenagem ao touro Ápis, no Egito. Dessa forma, estudos estimam que o primeiro culto que mais tarde seria conhecido como o Carnaval foi feito anos antes de Cristo, quando os agricultores se reuniram no verão, com os rostos mascarados e corpos pintados inteiramente em torno de uma fogueira para celebrar a fertilidade e produtividade do solo, bem como afastar os maus espíritos da colheita.
Já, segundo alguns historiadores, as origens das festividades do carnaval remontam à antiga Suméria e Egito há mais de 5.000 anos, com celebrações similares no Império Romano, onde o costume se espalhou por toda a Europa. E foi trazido para a América pelos navegantes espanhóis e portugueses a partir do século XV. A primeira concentração carnavalesca está localizada no Egito. A festa era nada mais do que dança, canto, e os participantes usavam máscaras e fantasias como um símbolo de ausência de classes sociais. Seguindo a tradição chegou à Grécia. No século VI a.C., era costume de andar de barco com rodas (navalis carrus) onde as pessoas dançavam todos os tipos de dança.
Em Roma, foi dedicado à deusa egípcia Ísis, espalhando o culto dos celtas e os alemães.
As cerimônias foram um ponto comum. Foram associados com os fenômenos espirituais, astronomia e ciclos naturais, e manifestados através de expressões tais como a dança, música, sátira, máscaras e desordem. Em uma sociedade com muitas diferenças sociais, as partes apresentaram-se para a necessidade de liberdade para todos. Ricos e pobres se misturam durante o carnaval não reconhecido. Em seguida, surge o de Veneza e, depois, os de outros lugares do mundo. E com suas características (máscaras, fantasias, carros alegóricos, desfiles, bailes etc.) adaptadas aos costumes de cada país.
Entretanto, infelizmente, neste período que deveria ser de alegria, é marcado por tristeza para muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência. De acordo com estatísticas, metade das brasileiras (50%) já sofreu assédio sexual durante o Carnaval. Sete em cada dez mulheres têm medo de sofrer assédio na festa. E 73% têm receio de passar por essa situação pela primeira vez ou novamente. Entre mulheres negras, os índices são ainda mais altos. Devido ao aumento a cada ano, desde dezembro de 2023, o Brasil criou a Lei nº 14.786, que institui o protocolo “Não é Não – Mulheres Seguras” em todo o território nacional. A legislação estabelece medidas obrigatórias para casas noturnas, boates, espetáculos musicais realizados em locais fechados ou shows com venda de bebida alcoólica. A lei define como constrangimento qualquer insistência física ou verbal após a mulher manifestar discordância. E reconhece como violência o uso de força que resulte em lesão, dano ou morte, conforme o Código Penal.
Entre os direitos garantidos às vítimas estão a proteção imediata pela equipe do local, o afastamento do agressor e o acompanhamento por pessoa de sua escolha. Os estabelecimentos devem manter ao menos um funcionário capacitado para aplicar o protocolo, afixar informações visíveis sobre como acioná-lo e divulgar os contatos da Polícia Militar e do Ligue 180.
A Secretaria de Estado da Mulher do Rio de Janeiro preparou seis passos fundamentais que podem salvar vidas:
1. Peça ajuda a quem estiver por perto e acione a polícia pelo 190 ou pelo botão de emergência do App Rede Mulher: não se cale!
2. Se presenciar um caso de importunação, ofereça ajuda: finja conhecer a vítima e tente retirá-la daquela situação.
3. Se houver perigo, ou se a mulher estiver desacordada, ferida ou com o agressor em ação, ligue para o 190 ou acesse o botão de emergência do app Rede Mulher.
4. Se for vítima de alguma violência, guarde informações sobre o fato: anote dia, horário, nome e contato de testemunhas e, se possível, registre foto ou vídeo do agressor.
5. Faça o Registro de Ocorrência na Delegacia da Mulher ou na delegacia mais próxima.
6. Procure um dos 53 centros especializados de atendimento à mulher no estado, disponíveis no app Rede Mulher ou no site www.secmulherrj.rj.gov.br.
Outras medidas importantes para quem vai curtir o Carnaval:
– Mantenha sua bebida coberta, até um guardanapo pode evitar que joguem alguma droga no seu copo.
– Compartilhe sua localização durante deslocamentos, faça contato com um familiar ou amigo durante o percurso. Não é Não! Respeite a Decisão.
A seguir, entrevista com Dra. Mery Janes Corbiceiro sobre violência contra a mulher.
Minibiografia de Dra. Mery Janes Corbiceiro: psicanalista Clínica, Coach, Consteladora Familiar, Pedagoga, Pós graduada em Terapia de família. Casada há 34 anos, mãe de dois filhos e avó de uma neta. Apaixonada pelos animais e por Jesus.
1.Quando surgiu seu interesse por Terapia Familiar?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: Meu interesse pela Terapia Familiar surgiu ao longo da minha carreira como professora, que me levou à compreensão de que o sofrimento humano raramente é isolado. Ao longo desse processo, percebi que muitos conflitos emocionais, comportamentais e relacionais estão profundamente ligados às dinâmicas familiares, aos vínculos afetivos e às histórias que atravessam gerações. A Terapia Familiar possibilita olhar o indivíduo dentro de um contexto maior, promovendo compreensão, diálogo e caminhos mais saudáveis para todos os envolvidos.
2. A partir de seus atendimentos, quais fatores motivam a violência contra a mulher?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: A violência contra a mulher é um fenômeno complexo e multifatorial. Entre os fatores mais recorrentes estão padrões culturais machistas, desigualdade de poder nas relações, histórico familiar de violência, dificuldades emocionais não elaboradas, uso abusivo de álcool ou drogas, ciúmes patológicos e a dificuldade do agressor em lidar com frustrações. Muitas vezes, a violência é sustentada pelo silêncio, pela dependência emocional ou financeira e pela naturalização do abuso ao longo da história.
Pormuito tempo a educação utilizou a punição física como método de ensino , levando a criança apreender que quem ama , também bate e se ela apanhou é culpa sua, fez algo errado. Hoje não é mais o pai e nem a mãe é o parceiro que se tona o agressor.
3. Qual a diferença entre psicóloga, psicanalista e Consteladora familiar?
Dra. Mery Janes Corbiceiro: A psicóloga é uma profissional formada em Psicologia, com registro no Conselho Regional, habilitada para avaliação psicológica, diagnóstico e atendimento clínico, utilizando diferentes abordagens científicas.
A psicanalista atua a partir da teoria psicanalítica, focando nos processos inconscientes, na história de vida e nos conflitos internos, podendo ter formação em Psicologia ou áreas afins, com especialização em Psicanálise.
A consteladora familiar trabalha com a abordagem das Constelações Familiares, que busca identificar padrões sistêmicos e emaranhamentos familiares que impactam a vida da pessoa. Cada atuação tem objetivos e métodos diferentes, podendo inclusive ser complementares, desde que respeitados os limites éticos e profissionais.
4- Mensagem a quem está sofrendo violência doméstica:
Dra. Mery Janes Corbiceiro: Você não está sozinha, e a violência nunca é culpa sua. O medo, a vergonha e a confusão fazem parte desse processo, mas é possível romper o ciclo. Buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. Existem profissionais, serviços e redes de apoio preparados para acolher, orientar e proteger você. Sua vida tem valor, sua dor é legítima e você merece viver com respeito, dignidade e segurança. Quem ama não machuca, cuida. Indico a série MAID e o filme: É assim que acaba.