De Moçambique ao ROL, Makala Sankara Anzuruni!

Entre a tecnologia e a literatura, o novo colunista escreve à sombra do embondeiro sobre identidade e esperança.

Makala Sankara Anzurumi

Makala Sankara Anzurumi, natural de Nampula, Moçambique, é escritor, cronista e profissional de Tecnologias de Informação. Licenciado em Informática, com habilitação para o ensino de Informática pela Universidade Licungo, é também mestre em Ação Humanitária e Desenvolvimento Sustentável.

A sua trajetória cruza tecnologia, educação, escrita e desenvolvimento, áreas que se encontram no seu percurso profissional e na sua forma de interpretar a realidade.

Olhar literário e causas sociais

Na escrita, dedica especial atenção às experiências humanas e às questões sociais, explorando temas como:

  • Deslocamento e pertença;
  • Identidade e memória;
  • Juventude, exclusão e esperança na África.

Tecnologia e o Futuro

Como articulista, escreve também sobre tecnologia, inovação e transformação digital, refletindo sobre o papel dessas áreas na educação, no desenvolvimento e na construção de sociedades mais inclusivas.

Makala inicia sua jornada ROLiana com o texto Quando o lar deixa de nos reconhecer, uma crônica reflexiva e tocante, pela qual aborda de forma profunda a complexidade da migração, do exílio e da construção da identidade.

Quando o lar deixa de nos reconhecer

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Há pessoas que atravessam uma fronteira com uma mala na mão e um país inteiro escondido no peito.

Na bagagem vai quase sempre pouco: duas camisas, alguns documentos, uma fotografia dobrada tantas vezes que já conhece a marca dos dedos e, talvez, uma chave. A chave é importante. Quem parte leva-a porque, mesmo quando tudo indica o contrário, ainda guarda a ténue esperança de voltar.

Foi assim que muitos partiram: sem tempo para despedidas, sem o último abraço à porta, sem vizinhos reunidos a desejar boa viagem, sem uma fotografia que eternizasse aquele instante. Há partidas que acontecem depressa demais para serem chamadas de despedida. Há apenas o medo. E quando o medo avança, ninguém pergunta se estamos preparados — ele ensina-nos simplesmente a andar.

Do outro lado da fronteira começa uma vida fora dos planos. É preciso aprender tudo outra vez: onde comprar o pão, onde apanhar o chapa, como pedir ajuda, que palavras usar e como cumprimentar sem que a pronúncia denuncie a nossa origem distante. Aprende-se onde dormir, onde trabalhar e como explicar o próprio nome sem ter de contar a história inteira que o acompanha.

E surge aquela pergunta pequena, quase inocente, mas carregada do peso de uma vida:

De onde és?

No princípio, a resposta é simples. Dizemos o nome da cidade, o país, a terra que ficou para trás, como quem aponta para uma fotografia antiga e afirma:

É ali que eu pertenço.

Depois, o tempo corre.

Cinco anos. Dez anos.

Os filhos crescem. A língua transforma-se ligeiramente: o sotaque perde algumas palavras da infância e ganha os termos da terra que nos acolheu. Aprendemos as ruas e os caminhos; sabemos onde o chapa passa mais cheio, onde comprar o essencial e onde nos abrigar quando a chuva cai de repente. Aprendemos a reconhecer a manhã pelo cheiro e a tarde pela luz que se desdobra sobre os telhados.

Construímos amizades, arranjamos trabalho, amamos, casamos e temos filhos. Enterramos alguns dos nossos mortos e celebramos aniversários. Começamos a cruzar-nos com pessoas que já não perguntam de onde viemos, porque passaram a tratar-nos pelo nome.

Sem percebermos, criamos raízes.

Primeiro frágeis.

Depois profundas.

Até que, um dia, alguém volta a perguntar:

Mas tu és de onde?

A resposta já não cabe numa palavra.

Depois de tantos anos, há algo de nós que permaneceu naquele lugar distante e algo que nasceu neste novo chão.

Se dizemos onde nascemos, ouvimos:

Ah, então és estrangeiro.

Se dizemos onde vivemos, respondem:

Não. Tu não és daqui.

Ficamos suspensos entre duas respostas.

É um lugar sem nome, onde carregamos duas terras no peito, mas nenhuma nos reconhece por completo.

Talvez a maior dor do exílio não seja perder uma casa, mas perder a certeza de que alguma casa ainda nos pertence.

O exílio não termina quando atravessamos a fronteira.

Ele continua.

Continua quando precisamos de justificar a nossa existência, quando o nosso nome é pronunciado como algo estranho ou quando os nossos filhos, nascidos e criados nestas mesmas ruas de Maputo, Nampula ou Pemba, continuam a ouvir a mesma interrogação:

Vocês são de onde?

Como se o nascimento dos filhos tivesse de responder pelos passos dos pais.

Como se uma fronteira pudesse atravessar gerações.

Contudo, há memórias que nenhuma fronteira consegue travar.

A memória não pede passaporte.

Basta a chuva, um aroma, uma música ou uma palavra dita de certa forma para que o presente desapareça por alguns segundos.

Regressa a rua da infância.

Regressa a voz da mãe.

Regressa a casa antiga.

Regressa a voz de quem já morreu.

O corpo pode estar numa rua de Moçambique, mas a memória viaja para longe sem autorização, sem fronteira e sem posto de controlo.

Existe, porém, outra fronteira invisível.

Não surge nos mapas, não tem bandeira nem exige documentos.

Habita dentro das pessoas.

É a barreira que se ergue quando se diz:

Eles são estrangeiros.

Como se a nacionalidade resumisse uma vida.

Como se um documento pudesse medir a dimensão de uma perda.

Como se o lugar onde uma pessoa nasceu fosse mais importante do que o lugar onde aprendeu a amar, a trabalhar, a criar os filhos e a sonhar.

Talvez precisemos de reaprender a palavra lar.

Lar talvez não seja apenas a terra onde nascemos.

Talvez seja também o lugar onde conseguimos continuar.

Onde alguém conhece o nosso nome.

Onde os nossos filhos aprendem a andar.

Onde penduramos uma fotografia na parede.

Onde sabemos qual caminho tomar quando a tarde começa a cair.

Onde alguém pergunta por nós quando faltamos.

Onde a nossa ausência é finalmente sentida.

Talvez lar seja isso:

um espaço que, gradualmente, deixa de nos tratar como passageiros.

Quando vemos alguém chegar com uma mala pequena e um olhar maior do que a estrada percorrida, a bagagem pode vir quase vazia, mas ninguém divisa o que vai no peito.

Ali estão os mortos.

As fotografias.

As vozes.

As ruas.

Os medos.

As saudades.

E a angústia de já não saber onde pertence.

Criar raízes num novo chão não é trair as origens.

É sobreviver.

É continuar.

É permitir que a vida recomece.

O lar começa num gesto simples.

Quando pousamos a mala, sem pressa nem medo, e percebemos que não precisamos de pedir desculpa por existir.

É quando escutamos a palavra:

Fica.

E simplesmente ficamos.

Não porque esquecemos a terra natal.

Não porque a saudade desapareceu.

Mas porque compreendemos que há raízes que não crescem onde nascemos.

Crescem onde a vida nos permite continuar.

Makala Sankara Anzuruni

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Tempestade no rio

Jane Nash: ‘Tempestade no rio’ | Uma fábula tocante e mágica sobre o Rei dos Cisnes, o resgate de um menino perdido e o preço do dever e da redenção!

Jane Nash
Ilustração artística em realismo mágico mostrando um grande cisne branco ao lado de um menino sob um céu de tempestade, representando o conto Tempestade no Rio de Jane Nash.
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O alto macho do cisne olhou rio abaixo. O céu estava se fechando, negro, e sua fêmea e os filhotes de cisne estavam amontoados nos juncos.

— Leve-os rio acima — ordenou ele.

Ela se desenrolou e avançou, com os fofos filhotes cinzentos atrás dela, sua curiosidade ganhando peso. O rei dos cisnes se lembrava dessa tempestade do ano anterior e, desta vez, estava determinado a não deixá-la levar nenhuma criatura viva, seja da água ou das margens. Este ano seria uma batalha para a qual ele havia se preparado.

Enquanto voava sobre os canteiros de juncos e as águas agitadas, podia ver novamente a queda e o arrasto do rio, levando-o para mais fundo até que não houvesse ninguém para resgatar; apenas um espaço vazio na margem onde antes um menino havia se sentado brincando, jogando gravetos diante da margem para vê-los acelerar rio abaixo. O riacho agora era um rio, o cruel sangue vital de sua existência. O rei dos cisnes ficou feliz por estar no ar.

Ainda se desenrolando, mal flutuando como feixes de penas de anjo, os seis filhotes de cisne tinham a cor das nuvens que rolavam rapidamente pelo céu. Ele passou sobre eles nos canteiros de juncos, ouvindo sua fêmea estender o chamado:

— Volte para mim.

O som de seu apelo penetrou em seu senso de dever. Ele pousou na margem, estendendo as asas. A tempestade logo desabaria sobre eles.

Perto dali, Jono estava pescando. Tinha oito anos e meio, com cabelos dourados que ficavam presos na gola de sua camisa xadrez vermelha e azul. Suas botas de borracha tinham um padrão de camuflagem azul e seus joelhos nus estavam cobertos de casquinhas, por ter caído das árvores. Ao lado dele estava uma pequena caixa de ferramentas de plástico verde, aberta, com alguns anzóis, tesouras e um saco de larvas vivas como isca. Ele não percebeu a tempestade que se aproximava. Sua cabeça estava cheia dos filhotes de cisne que havia visto durante a tarde e da concentração necessária para pegar uma perca. Ele sabia identificar uma perca.

Jono não percebeu o relâmpago que rasgou o céu, mas, quando o vento chegou, Jono vestiu um suéter tricotado à mão por sua avó, com a cabeça de um cachorro na frente e o corpo continuando até as costas. Uma cauda tricotada pendia das costas como um bônus adicional.

Aos oito anos e meio, sua destreza ainda não estava desenvolvida e ele rapidamente se viu enredado na linha de sua vara de pesca. O anzol e a larva estavam incrustados em algum lugar daquele suéter. Ele o encontrou, mas fisgou a mão no anzol farpado. Começou a chorar.

O rei dos cisnes elevou-se ao céu ao ouvir a situação daquele coração delicado. Poderosamente equilibrado e voando pouco acima da superfície da água, chegou diante de Jono, que prontamente parou de chorar, chocado ao ver uma ave tão magnífica diante dele.

— Seja corajoso — falou o rei dos cisnes.

Não ocorre a uma criança de oito anos e meio que cisnes não falam e, naquele momento, o menino respondeu:

— Ele pegou minha mão — e ergueu a mão esquerda para ser examinada.

O anzol estava enterrado na pele entre o dedo médio e o primeiro dedo.

— Isso parece dolorido.

A voz profunda da ave acalmou o menino, como se ele tivesse podido acariciar os cabelos do menino. Lágrimas e manchas de sujeira do rio lavavam o rosto angelical do menino. Seus olhos, safiras profundas e reluzentes, acompanharam a ave enquanto ela caminhava desajeitadamente atrás dele. O cisne estava cabeça a cabeça, da mesma altura que o menino.

— Abaixe sua vara de pesca e, com a mão direita, você vai cortar a linha. Deixe o anzol em sua mão.

Diante disso, Jono soluçou.

— Faça o que eu digo. Faça isso, faça isso agora.

A chuva podia ser ouvida à distância. Jono estava tão concentrado em conseguir manejar a tesoura e cortar a linha que se esqueceu do telefone celular que sua mãe havia colocado no bolso externo de sua mochila para emergências.

— Meu nome é Jono — disse o menino enquanto colocava a tesoura no chão.

— Eu sou o Rei dos Cisnes — respondeu o macho.

— E este é o meu rio.

A pele das pernas do menino se arrepiou. Usar shorts já não parecia uma boa escolha e ele desejou estar usando sua calça jeans.

— É hora de voltar para casa.

O rei dos cisnes o afastou da margem do rio com uma cutucada.

— É hora de ir para casa. Agora.

Jono levantou-se e, na confusão e no drama do tempo tumultuado, não conseguia se lembrar do caminho para casa. O céu escureceu e a pequena trilha de grama pisoteada que levava ao seu local de pesca havia desaparecido na atenção do vento. Ansioso para não desobedecer ao rei dos cisnes, Jono caminhou para o interior, sua pequena caixa de ferramentas de plástico em uma das mãos, a outra mão estendida em um ângulo desajeitado ao seu lado, como uma asa quebrada.

Jono sentou-se sob uma árvore ancestral, seus galhos labirínticos oferecendo algum pequeno alívio da chuva que agora estava presente. Ele estava perdido. O cisne voou através do pasto e pousou diante dele.

— Suba nas minhas costas.

Jono olhou fixamente para ele.

— Deixe sua caixa e suba nas minhas costas. Deixe suas pernas penduradas atrás das minhas asas e cuidadosamente envolva seus braços ao redor do meu pescoço e do meu corpo.

A ave recuou em direção ao menino que, encantado, fez o que lhe fora dito.

Um relâmpago dividiu o céu negro e iluminou a imagem mágica de um menino segurando desajeitadamente um grande cisne. Os cachos de linho do menino estavam empurrados para trás, afastados de seu rosto. Ele percebeu um grupo de patos que se curvaram diante do assombro dos sinais da ave e do menino enquanto eles passavam sobre suas cabeças.

Pouco tempo depois, e agora completamente encharcado, o rei dos cisnes mergulhou para baixo atrás do velho celeiro junto à casa da família de Jono.

— Desça. Você está seguro aqui.

Mas Jono foi descuidado e, em sua pressa, prendeu o anzol de sua mão esquerda no peito do rei dos cisnes e rasgou carne e penas. O cisne afastou-se, sibilando para Jono, que rapidamente correu para sua casa, de repente assustado com aquela poderosa criatura.

Nos canteiros de juncos, uma orgulhosa fêmea protegia seus filhotes da tempestade, mantendo-os sobre suas costas, usando as asas como barreiras contra os elementos. Ela levantou a cabeça para ver seu amor, seu rei, chegar ao seu lado. Podia sentir o gosto do sangue dele no ar enquanto ele voava em sua direção.

— O menino.

Sua voz ressoou como o trovão, despertando algumas das bolas de penugem e penas.

— Você fez o que tinha de fazer. O menino não estava seguro.

A fêmea olhou para ele, seu próprio coração doendo, cheio de amor e proteção por aquelas seis bocas famintas.

— Você salvou este aqui — continuou ela suavemente.

O rei dos cisnes conseguia se lembrar da tempestade anterior. Lembrava-se de um menino um pouco mais velho, caindo nos juncos e sendo levado pela correnteza, assustado demais para estender a mão para o cisne que havia voado até ele para ajudá-lo a permanecer flutuando.

— Não foi culpa sua — disse ela, lendo sua mente.

— É o meu rio.

Ela bicou um pouco de musgo e o arrancou das pedras junto às pedras acima da linha da água. Colocou-o no pequeno buraco em seu peito, danificado pelo anzol de pesca.

— Esta não é nenhuma penalidade que você precise pagar — seus tons suaves lembraram-lhe que sua casa era ao lado dela.

— É o meu rio. Posso garantir que isso nunca mais aconteça — e ele afundou ao lado dela, grato por seus olhos, por suas atenções e por suas forças.

— O menino está seguro agora.

E ele descansou a cabeça entre os feixes de penas de anjo aninhados sobre as costas dela. A excitação causada pela cabeça daquele macho de cisne, aconchegando-se em meio ao que até então fora o berçário deles, despertou todos eles, e seus guinchos excitados trouxeram conforto a ele.

Jane Nash

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O profissional de Educação Física

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora

‘O profissional de Educação Física e a sociedade que desaprendeu a se movimentar’

Joelson Mora
Joelson Mora
Fotografia em preto e branco do colunista Joelson Mora fazendo exercício com um halter, ao lado de um texto comemorativo em verde e branco que diz: 01 de Setembro, Dia do Profissional de Educação Física. Mais que movimento. Transformação de vidas.
https://canva.link/s0o278s3t1wy0ds

No dia 1º de setembro celebramos o Dia do Profissional de Educação Física. A data marca a regulamentação da profissão no Brasil, por meio da Lei nº 9.696, de 1º de setembro de 1998. Mas, mais do que uma data comemorativa, este deveria ser um momento de reflexão sobre uma questão cada vez mais urgente: qual é o papel do profissional de Educação Física em uma sociedade que, paradoxalmente, possui cada vez mais informação sobre saúde e, ao mesmo tempo, se movimenta cada vez menos? 

Vivemos uma época de grandes avanços tecnológicos. Trabalhamos diante de telas, conversamos por telas, compramos sem sair de casa e, muitas vezes, nos divertimos sem precisar levantar do sofá.

A tecnologia facilitou a vida. Mas também eliminou grande parte do movimento que antes fazia parte naturalmente dela.

Talvez este seja um dos maiores paradoxos da sociedade contemporânea: nunca tivemos tantos recursos para cuidar da saúde e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos estímulos para permanecer imóveis.

Os números ajudam a demonstrar a dimensão do problema.

Dados recentes da Organização Mundial da Saúde apontam que aproximadamente 1,8 bilhão de adultos no mundo não atingiam os níveis recomendados de atividade física em 2022. Isso representa cerca de 31% da população adulta mundial. Se essa tendência continuar, a estimativa é de que esse percentual alcance 35% até 2030. 

Entre os adolescentes, o cenário é ainda mais preocupante: cerca de 80% não atingem os níveis recomendados de atividade física

Estamos, portanto, formando uma geração extremamente conectada digitalmente, mas progressivamente desconectada do próprio corpo.

E é exatamente nesse cenário que o papel do profissional de Educação Física se torna ainda mais relevante.

Durante muito tempo, a imagem social do profissional de Educação Física esteve associada quase exclusivamente à academia, ao esporte ou à busca por um corpo esteticamente valorizado.

Mas essa visão é limitada.

O profissional de Educação Física contemporâneo atua  ou deveria atuar em um território muito mais amplo.

Ele está nas escolas, contribuindo para o desenvolvimento motor, cognitivo e social de crianças e adolescentes.

Está nos projetos esportivos, utilizando o esporte como ferramenta de inclusão, disciplina e cidadania.

Está nas academias, orientando pessoas com os mais diferentes objetivos e necessidades.

Está nos programas de saúde pública, ajudando a combater doenças crônicas.

Está nas empresas, enfrentando um dos grandes desafios do nosso tempo: o impacto do trabalho sedentário sobre a saúde física e mental das pessoas.

Está no envelhecimento, ajudando idosos a preservarem algo que deveria ser considerado um dos maiores indicadores de saúde: a autonomia.

Porque, no final das contas, não existe exercício físico sem um objetivo humano.

Uma pessoa pode treinar para correr uma maratona.

Mas também pode treinar para conseguir subir as escadas de casa.

Pode querer ganhar massa muscular.

Ou simplesmente recuperar a força necessária para brincar com os filhos.

Pode buscar performance.

Ou apenas não perder a independência.

É por isso que reduzir o profissional de Educação Física à imagem de alguém que “passa treino” é não compreender a profundidade da profissão.

Nós não trabalhamos apenas com músculos. Trabalhamos com possibilidades humanas.

A ciência já não permite tratar a atividade física como um simples complemento de uma vida saudável.

Ela é parte fundamental dela.

A Organização Mundial da Saúde recomenda, para adultos, pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, considerando que o movimento regular contribui para a prevenção e o manejo de doenças cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de câncer e também para a saúde mental e cerebral. 

Mas existe um detalhe importante: saber que precisamos nos movimentar não significa, necessariamente, conseguir transformar esse conhecimento em comportamento.

E talvez seja justamente nesse ponto que reside uma das maiores contribuições do profissional de Educação Física.

A internet está cheia de treinos.

As redes sociais estão repletas de influenciadores fitness.

Aplicativos contam passos, calorias e horas de sono.

Inteligências artificiais podem criar planilhas de treinamento em segundos.

Mas nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, consegue substituir completamente a capacidade humana de observar contexto, compreender limitações, identificar comportamentos e adaptar estratégias à realidade de cada indivíduo.

Uma pessoa não deixa de praticar exercícios simplesmente porque não conhece os benefícios.

Muitas vezes, ela deixa porque está cansada.

Porque não encontra tempo.

Porque sente dor.

Porque tem medo de se machucar.

Porque já tentou várias vezes e desistiu.

Porque se sente constrangida em determinados ambientes.

Porque acredita que exercício é sinônimo de sofrimento.

Ou, simplesmente, porque ainda não encontrou uma forma de movimento que faça sentido para sua vida.

Prescrever um exercício é relativamente simples. Construir aderência é muito mais complexo.

E essa é uma das competências mais importantes do bom profissional.

Os dados brasileiros mostram avanços, mas também revelam que ainda estamos distantes de uma sociedade verdadeiramente ativa.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostrou que 30,1% dos adultos brasileiros atingiam o nível recomendado de atividade física no lazer. Na mesma pesquisa, 40,3% dos adultos foram classificados como insuficientemente ativos quando considerados os diferentes domínios da vida. 

Esses números precisam ser interpretados com inteligência.

Não estamos falando apenas de pessoas que “não gostam de academia”.

Estamos falando de um problema que envolve urbanização, segurança pública, desigualdade social, longas jornadas de trabalho, acesso a espaços adequados e cultura.

É fácil dizer para alguém: “Você precisa se exercitar.”

Mais difícil é perguntar:

Onde?

Quando?

Com que recursos?

Em quais condições?

Por isso, promover saúde por meio do movimento exige mais do que impulso individual.

Exige ambientes que favoreçam escolhas saudáveis.

Cidades mais caminháveis.

Parques e espaços públicos seguros.

Escolas que valorizem a Educação Física.

Empresas que compreendam que saúde não pode ser discutida apenas quando o afastamento acontece.

E políticas públicas que reconheçam o movimento como uma ferramenta de prevenção.

A própria Organização Mundial da Saúde destaca que o enfrentamento da inatividade física exige uma abordagem de toda a sociedade, tornando a prática acessível, segura e possível para diferentes grupos da população. 

Existe ainda uma dimensão pouco discutida da nossa profissão: a educação.

Um bom profissional não deveria criar dependência.

Deveria ensinar autonomia.

Não deveria fazer com que o aluno acreditasse que só consegue se exercitar quando alguém está ao seu lado.

Deveria ajudá-lo a compreender o próprio corpo.

A reconhecer seus limites.

A perceber sua evolução.

A entender que saúde não é construída em desafios de trinta dias, mas nas escolhas repetidas ao longo dos anos.

A palavra “educação” presente no nome da profissão não está ali por acaso.

Nosso papel não é apenas ensinar alguém a executar um movimento corretamente.

É ajudar a pessoa a construir uma nova relação com o movimento.

Porque um corpo saudável não é necessariamente o corpo mais forte, mais magro ou mais esteticamente admirado.

Um corpo saudável é, antes de tudo, um corpo funcional para a vida que aquela pessoa deseja viver.

O futuro provavelmente será ainda mais tecnológico.

Teremos mais automação.

Mais inteligência artificial.

Mais trabalho remoto.

Mais serviços digitais.

E, paradoxalmente, talvez precisemos nos esforçar cada vez mais para realizar aquilo que nossos antepassados faziam naturalmente: movimentar-se.

É por isso que acredito que o profissional de Educação Física será cada vez menos um simples “instrutor de exercícios” e cada vez mais um especialista em comportamento, prevenção, movimento humano e qualidade de vida.

Nossa responsabilidade não é pequena.

Vivemos em uma sociedade que medicaliza sintomas, mas muitas vezes ignora comportamentos.

Que busca soluções rápidas para problemas construídos durante décadas.

Que deseja saúde, mas frequentemente organiza a própria rotina de maneira incompatível com ela.

O profissional de Educação Física ocupa um espaço estratégico nesse cenário.

Porque o movimento não cura todos os problemas da humanidade.

Mas sua ausência contribui para muitos deles.

Neste Dia do Profissional de Educação Física, talvez a maior homenagem que possamos receber seja o reconhecimento de que nossa profissão não trabalha apenas para transformar corpos.

Trabalhamos para preservar autonomia.

Para prevenir doenças.

Para melhorar relações com o próprio corpo.

Para devolver confiança.

Para ensinar disciplina.

Para promover encontros.

Para transformar tempo em qualidade de vida.

Em uma sociedade cada vez mais acelerada, automatizada e sedentária, talvez o profissional de Educação Física tenha uma das missões mais modernas e, ao mesmo tempo, mais antigas da humanidade:

lembrar as pessoas de algo essencial: fomos feitos para nos mover.

E, talvez, cuidar do movimento seja uma das formas mais inteligentes de cuidar da vida.

Feliz Dia do Profissional de Educação Física a todos aqueles que compreenderam que ensinar alguém a se movimentar pode ser muito mais do que ensinar um exercício. Pode ser ajudá-lo a viver melhor.

Joelson Mora

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Se der

Um manifesto poético de Jacob Kapingala sobre a beleza de aceitar nossas fraquezas, recolher os pedaços do coração e ter a coragem de continuar caminhando

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Se der pra segurar a lágrima, segure.
Mas se não der, então chore.
Se der pra fugir de ti, então fuja.
Mas se não der, se proteja.

Se der pra remendar teu coração, remende.
Mas se não der, se reinvente e ande.
Se der pra cortar um pouco de ti, corte.
Mas se não der, não se importe.

Se der pra agarrar na tristeza e jogá-la fora, agarre.
Mas se não der, não tem problema. Viver é como escalar uma torre.
Se der pra sorrir, então sorria.
Mas se não der, não force a alegria.

Se der pra seres tu, seja.
Mas se não der, então finja.
Se der pra abraçar a vida, abrace.
Mas se não der, não se estresse.

Jacob Kapingala

Jacob Kapingala
Jacob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar no papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos

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Poema celebra o fim de agosto com gratidão

Denise Canova colhe ‘margaridas poéticas’ em seus novo poema ‘Fechando agosto’

Denise Canova
Denise Canova
https://chatgpt.com/c/6a972880-63f8-83e9-970f-fbf36217c38f

Fechando agosto

Com alegria e gratidão

Um mês com margaridas poéticas

Que eu colhi

Fecho meu agosto assim

Dama da Poesia

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Mãe de todas as mães

Uma tocante prece de Marli F. Freitas em versos que clama pelo despertar da consciência humana e pela preservação da vida

Marli Freitas
Marli Freitas
https://www.meta.ai/share/m/0N31TCdwU0?utm_source=android_meta_ai_sl&open_in_meta_ai=true

Ó, mãe de todas as mães
(Natureza bendita e santa),
Clame aos ouvidos surdos
Que ferem sem piedade, que
Façam jus às leis da integridade!

Ó, estrela majestosa
(Que ilumina e aquece).
Clame aos olhos cegos
Que abraçam a escuridão,
Que se abram à luz da gratidão!

Ó, movimento que semeia
(Sabiamente em cada estação),
Clame às mãos que agridem
E provocam o medo, que
Recobrem a memória da missão!

Ó, beleza mensageira
(Que flui imanente regando o tempo),
Clame ao exalar inconsequente
De ações contrárias, que faça
Inquestionável a preservação da vida!

Ó, prazer inigualável
(Que abençoa o fruto),
Clame à proliferação do egoísmo
Que acumula sem piedade, que
Faça justiça ao olhar necessitado!

Ó, bendita intuição
(Que consola os aflitos),
Clame à falta de atenção
Que negligencia a dor, que
Faça ser ouvida a voz do coração!

Marli F Freitas

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Cada vez

Uma profunda e tocante obra de Ismaél Wandalika em versos sobre a crueza do sofrimento, a força da resiliência e a poesia como refúgio da alma

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika

Cada vez
que entra a dor acelera o aperto dentro
Dor desconfortável incessante
Parece anunciar a morte
Franqueza paira no peito enfraquece o ânimo
Não há refugio para essa dor forte
Quase tudo que entra lhe desperta de novo
Sinto tudo do começo me esforço para obter resultado…
Não há como fugi-la é picante
Baixa até o autoestima da gente
O rosto muda de formato e a gente emagrece

Cada vez
mais picante
Dói com mais pressão
Dor que parece sentir ilusão
Cada Vez leva força, dói com muita força
São dores físicas que a gente sente
Viver é um ato de coragem entende

Cada vez
penso distante
Me elevo para longe
Me antecipo para frente
Sou forte que nem ndange
Homem/mulher de coragem
Consciente que também morre.

Cada vez
É sempre mais sofrida mais intensa
Fere e estressa, quebra a cabeça, perde na peça, corta o fôlego e interdita a inspiração do poeta, fomenta a criação das letras nas histórias.
Essa dor, lembra aquela dor nascida na dor…

CADA VEZ
Páro por aqui
Páro para sentir
Escrevo para ouvir
Dói lhe sentir.

Cada vez!

Soldado Wandalika

Poeta e escritor angolano

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