O chamado da floresta: quando a arte se torna voz da Terra
Ouro da Floresta
Algumas histórias nascem do silêncio e outras, de um grito.
Foi assim que a escritora Niara Su, natural de São Bernardo do Campo (SP), encontrou sua voz.
Depois de uma trajetória pessoal marcada por desafios e superação, ela transformou sua sensibilidade em um instrumento de denúncia e esperança.
Niara Su
O resultado é Ouro da Floresta, seu primeiro livro, um grito de alerta em forma de arte.
Formada em Direito, Niara sempre foi movida por um olhar crítico e empático sobre o mundo.
Ao se deparar com reportagens sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, a violência contra povos indígenas e o colapso ambiental provocado pela exploração desenfreada, sentiu nascer o impulso de escrever.
Unindo o raciocínio jurídico à sensibilidade artística, ela encontrou um caminho para traduzir a dor da floresta em palavras.
“Percebi que poderia unir meu olhar jurídico à escrita criativa para chamar a atenção do público sobre o que acontece na Amazônia” Niara Su
Inicialmente concebido como um roteiro de longa-metragem, Ouro da Floresta chegou às quartas de final do prestigiado BlueCat Screenplay Competition, nos Estados Unidos, antes de se transformar em livro.
A mudança de formato, porém, ampliou seu alcance e deu nova força à mensagem, uma fusão entre ficção, denúncia e espiritualidade, onde os próprios espíritos da floresta parecem sussurrar suas dores e sabedorias.
Na obra, Niara aborda a engrenagem humana por trás da destruição ambiental, revelando a complexa rede que sustenta o garimpo ilegal, dos pilotos que sobrevoam pistas clandestinas ao impacto devastador sobre comunidades tradicionais e povos originários.
Tudo isso sem abrir mão da beleza poética que envolve a narrativa.
Mais do que um livro, Ouro da Floresta é um chamado à consciência.
É a lembrança de que o ouro que brilha nos mercados pode custar o silêncio das árvores, o envenenamento dos rios e o desaparecimento de culturas inteiras.
Hoje, Niara entende que seu caminho de transformação social se faz pela arte.
E é exatamente isso que ela entrega em cada página: um manifesto literário pela vida, da floresta, das pessoas e do planeta.
Jonas é um piloto ambicioso que se envolve em um perigoso esquema de garimpo ilegal na Bacia do Tapajós, no Pará.
Seduzido pela promessa de riqueza fácil, ele intercepta informações privilegiadas sobre a maior jazida de ouro do país, localizada em território indígena.
Tais informações eram destinadas a Rocha, um temido líder do crime organizado na região, que fará de tudo para recuperar o que lhe foi subtraído.
Consumido pela própria ganância, Jonas verá suas escolhas causarem efeitos devastadores sobre a floresta e os povos que nela habitam.
Para se libertar, precisará enfrentar as consequências e responder a um chamado interior de redenção.
Sua jornada o conduzirá a uma missão sagrada ao lado de Kayãn, Ayana, Niara, do Pajé e de toda a comunidade indígena: transmitir ao mundo uma mensagem vital dos espíritos da floresta.
Mas antes que essa aliança se forme, eles pagarão um alto preço pelas decisões imprudentes do piloto.
A exposição estará aberta ao público até o dia 30/11/2025, na Biblioteca Municipal de Sorocaba
Card do Movimento Cultivista Café com Poema Sorocaba – Exposição de Poemas‘Entre as linhas, consciência’
O coletivo literário Movimento Cultivista Café com Poemas Sorocaba convida a comunidade de Sorocaba e região para a exposição de poemas Entre as Linhas, Consciência. Sob a coordenação da escritora Priscila Mancussi e com a colaboração de Vânia Moreira e Cristina Pimentel, a mostra reúne dez textos originais de dez autores distintos que abordam, cada um a seu modo, o tema da Consciência Negra, identidade, pertencimento, memória e resistência.
Os poemas selecionados são:
● “Revogo” – Priscila Mancussi
● “Africanidade” – Ricardo Oliveira
● “Tom de respeito” – Cris Pimentel
● “Sou negro” – Romário Filho
● “Grito de pretitude” – Vânia Moreira
● “Descendência” – Débora Domingues
● “Consciência não tem cor” – Josemir Lemos
● “Se a cor falasse” – Carina Gameiro
● “Consciência Negra” – Leandro Flores
● “Pantera Negra” – Cris Vaccarezza
A exposição estará aberta à visitação gratuita durante todo o mês de novembro de 2025, aproximando a arte da poesia à urgência da reflexão cultural e social que o tema impõe.
Conexão com a temática da Consciência Negra no Brasil
A escolha do tema “Consciência Negra” ocorre em momento propício para reflexão sobre a trajetória do povo afro-brasileiro, sua inserção, resistência e contribuição à formação da sociedade brasileira. A expressão “consciência negra” refere-se ao processo de reconhecimento da identidade negra, de suas raízes históricas e culturais, ao tempo em que implica a tomada de consciência das desigualdades estruturais e das violências racializadas presentes no Brasil.
A data de 20 de novembro, celebrada como Dia da Consciência Negra, homenageia Zumbi dos Palmares – líder do histórico Quilombo dos Palmares –, símbolo da resistência negra contra o regime escravista. A escolha desta data marcou um movimento dos ativismos negros brasileiros na década de 1970 para dar protagonismo ao sujeito negro e à sua história no Brasil.
Estudos apontam que o processo de construção da consciência racial no Brasil rompe com o mito da “democracia racial” e revela como o racismo estrutural está incorporado nas desigualdades educacionais, de renda, ocupação e representação social.
Ao articular os dez poemas dessa exposição com esse arcabouço cultural e social, a mostra propõe:
● valorizar a estética da poesia como espaço de voz e visibilidade de narrativas negras,
● evidenciar a ancestralidade como recurso de memória e empoderamento,
● destacar que “consciência negra” não é apenas comemoração, mas um chamado à reflexão e ação frente às desigualdades persistentes,
● reafirmar que, como afirma o próprio Estado brasileiro, “a história preta do Brasil é a própria história do Brasil”. Serviços e Informações do Brasil
Cada poema, com seu título e autor, inscreve-se nessa trajetória: seja pelo tema da africanidade, da descendência, da identidade (“Sou negro”), da cor como elo de voz ou resistência (“Pantera Negra”), ou pelo recado direto de que “consciência não tem cor”. Essa diversidade amplia o espectro de entendimento e sentimento da negritude, não como abstrato, mas concreto, pulsante, cotidiano.
Relevância para a sociedade
A realização de uma exposição com foco literário-cultural sobre consciência negra num município como Sorocaba permite que a reflexão sobre identidade, cultura e equidade racial transite para além dos grandes centros, dispondo-se à comunidade local. Nesse sentido, o evento se insere como parte das práticas culturais, educativas e cidadãs que contribuem para:
● promover o diálogo entre diferentes públicos (estudantes, leitores, ativistas, curiosos) em torno de temas essenciais à convivência democrática;
● fomentar o protagonismo da voz negra na produção artística e intelectual;
● reforçar que a equidade racial é um desafio contemporâneo que perpassa educação, cultura, políticas públicas e sensibilização social.
Como estudos recentes ressaltam, embora a população preta ou parda tenha aumentado seus níveis de escolarização, ainda persistem desigualdades raciais no Brasil que justificam práticas de visibilidade cultural, voz ativa e reparação simbólica.
Serviço
Exposição: Entre as Linhas, Consciência
Movimento Cultivista Café com Poemas Sorocaba
Coordenação: Priscila Mancussi
Colaboração / organização: Vânia Moreira, Cristina Pimentel e Graziele Yabiku.
Local: Biblioteca Municipal de Sorocaba – Sorocaba (SP)
Renata BarcellosRenata Barcellos e Regina Pouchain
Este projeto consiste em os alunos do Terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Estadual José Leite Lopes (NAVE RJ – disponível Link de ebook gratuito) interagirem com os escritores afro-brasileiros e indígenas. Trata-se de um trabalho final de Ensino Médio com objetivo de conhecerem autores contemporâneos das diversas vertentes literárias. A proposta sugerida foi de apresentarmos uma minibiografia, redes sociais, foto, uma breve entrevista acompanhada da técnica da retextualização cuja definição é “o processo de transformação de uma modalidade textual em outra […]. Reescrita de um texto para outro, processo que envolve operações que evidenciam o funcionamento social da linguagem” (DELL’ISOLA, 2007, p. 10).
As literaturas contemporâneas abordam temas instigantes e complexos, refletindo a realidade e as preocupações do nosso tempo. Entre os temas mais relevantes, destacam-se a diversidade e inclusão, as questões sociais e políticas, a memória e a identidade, o meio ambiente e a tecnologia, além da exploração da experiência humana em um mundo globalizado e em constante transformação. Urge adotarmos a leitura de autores contemporâneos também em nossas práticas pedagógicas da Educação Básica à Superior.
Na poesia, especificamente, na vertente literária da Poesia Visual, vertente datada de 300 a.C, ganhou impulso a partir das vanguardas estéticas como movimento artístico do século passado. A Poesia Concreta, parte desse movimento, de forma singular promoveu a ruptura da tradição artística pelas inovações estéticas com uma linguagem poética inaugural de sólida base teórica e de procedimentos planificados, visuais e sintéticos. Apropriou-se de princípios estéticos de diversas tendências artísticas, teorias, autores e obras e desdobrado em poema-processo e a videopoesia, definindo a poesia visual contemporânea. Por exemplo: a obra de Regina Pochain está pautada pela visualidade e tecnologia, a fim de suscitar questões referentes à metalinguagem, intertextualidade e intersemioticidade, compondo uma multiplicidade de relações, de uma polissemia poética vetorizada a uma abstração plástica da palavra, numa relação de procedimentos contemporâneos Pós-Modernos.
Assim, a partir do uso d as linguagens: verbal (escrita) e não verbal (imagens) e sua fusão semissimbólica, forma-se um novo código: a Poesia Visual. A poesia vinculada a elementos imagéticos compõe uma estética híbrida própria de uma parte da produção literária contemporânea. A visualidade, como elemento semiótico constitutivo do poema, suscita aos leitores novos caminhos interpretativos. Quanto a uma das escritoras do projeto Com a palavra o autor, REGINA POUCHAIN, realizado por: Camila Oliveira e Iasmim Loranny, da turma: 3001.
MINIBIOGRAFIA: carioca, poeta, designer gráfica, artista intermídia, programadora e diagramadora visual, engajada no poema contemporâneo experimental e na poesia discursiva; produzindo em artes visuais e outros meios; pós-graduada em Artes e Filosofia pela PUC; vem realizando projetos diversificados próprios de criação; curadoria e exposições, publicações de livros e obras tais como, fotopoemas, poema visual gráfico, poemas matemáticos – eletrônicos, poemasobjetos, desenvolvendo trabalhos com mídia mista, colagens, desenhos e pintura, livros-de-artista, participando em diversas revistas eletrônicas e projetos em co-autoria com o poeta gráfico Wlademir Dias-Pino.
REDES SOCIAIS:
Facebook: https://www.facebook.com/rpouchain
Instagram: @reginapouchainhttps
Blog: wwwlambuja.blogspot.com/?view=flipcard
Entrevista
1.Qual foi a sua primeira obra?
R. Minha primeira obra escrita e publicada chama-se Partitura Maghinética. Trata-se de um romance na linha tradicional.
2. Qual a obra que você já fez e foi a mais “difícil”?
R. Minha obra mais “difícil” de ser trabalhada foi Partitura Maghinética, por ter sido a primeira.
3. Qual a sua motivação?
R. Minha motivação em escrevê-la, está relacionada ao meu projeto de vida, que seria o de me tornar uma escritora e na medida do possível uma poeta de importância para a literatura brasileira.
4. LIVROS RECOMENDADOS: LITERATURA TRADICIONAL
R.Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima (que considero a obra de poesia mais importante escrita no Brasil)
Grande Sertão Veredas, de João Guimarães
Rosa Qualquer, de Clarice Lispector
A Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar
NO POEMA VISUAL
Conhecer a obra do poeta e artista gráfico carioca Wlademir DiasPino, especialmente o poema A AVE. Conhecer Hana Hatherly, poeta e artista plástica portuguesa nascida em Lisboa. Conhecer os trabalhos da poeta Regina Pouchain
5. MENSAGEM AOS ALUNOS:
R. Para quem pretende tornar-se poeta ou escritor, assim como professor de literatura brasileira, é imprescindível ler/conhecer, tanto o tradicional quanto a vanguarda brasileira. E para quem não pretende nem uma coisa nem outra, a leitura/ cultura é indispensável para qualquer tipo de formação.
Análise de Poema Visual: Poesia
Por: Renata Barcellos
Ebook Poesia Visual: https://bit.ly/4dYXPHt
Neste poema, Regina brinca com a palavra “poesia”. Trata-se da figura de linguagem metalinguagem a forma textual poesia com o mesmo conteúdo no qual as letras são desordenadas como se estivessem no ar. Há também o verbal “ver” no infinitivo e o pretérito “vi” que, juntamente, com o icônico a imagem do cadeado remete a algo oculto. O leitor pode estar diante de alguma imagem e remeter a outro sentido. Afinal, como disse Humberto Eco, a “obra é aberta”. Cada leitor imprime um sentido de acordo com sua vivência.
Uma singela homenagem ao poeta mato-grossense Manoel de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916 — Campo Grande, 13 de novembro de 2014) um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente, à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Wikipédia: a enciclopédia livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros>.Acesso em 13/11/2014
‘O julgamento do tempo: razão e desrazão em diálogo’
Clayton ZocaratoImagem criada por IA do Grok
(Cenário: Um espaço indefinido, entre ruínas e telas luminosas. No fundo, notícias piscam, protestos ecoam, o som de redes sociais se mistura a ruídos de bombas e aplausos. No centro, duas figuras humanas — Razão e Desrazão — sentam-se frente a frente, uma com um livro antigo nas mãos, outra com um smartphone brilhando no escuro.)
Razão: O mundo tornou-se um espetáculo. O que era reflexão virou manchete, o que era busca virou trend. Já não se lê para compreender — lê-se para vencer.
Desrazão: E por que não? A vitória é o novo critério da verdade. Antigamente, vocês, filósofos, diziam que a verdade libertaria o homem. Hoje, a liberdade é o álibi da mentira.
Razão: Não chame isso de liberdade. É fuga. Desde Sócrates, eu caminho ao lado do homem tentando ensinar que pensar é um ato de coragem. Mas vocês, os filhos da pressa, transformaram o pensamento em meme.
Desrazão: E você, mãe dos códigos, ainda acredita que o pensamento muda o mundo? Marx acreditava. Gramsci acreditava. Mas o capital aprendeu a falar em hashtags. A revolução agora é patrocinada por empresas de tecnologia, e os algoritmos são os novos deuses do destino.
Razão: Os algoritmos são espelhos — refletem a alma de quem os programou. E o homem, ao entregar seu julgamento às máquinas, apenas confessa sua preguiça moral.
Desrazão: Ah, moral… essa palavra enferrujada. Quem ainda acredita em virtude num tempo em que os heróis são processados e os corruptos dão palestras sobre ética? Olhe ao redor: o planeta está quente, a humanidade fria.
Razão: Ainda assim, existe esperança. Veja as ruas: jovens protestando, vozes que não se calam diante da injustiça. Da Revolução Francesa à Primavera Árabe, a chama da resistência não se apagou.
Desrazão: Chama? Eu vejo fagulhas. E logo depois, selfies. A revolta foi domesticada, virou produto. Até a dor tem marketing. As guerras agora são streams ao vivo, e cada cadáver é um ‘conteúdo sensível’.
Razão: A tecnologia não é a vilã — é a escolha que define o uso. Quando Gutenberg imprimiu a Bíblia, muitos disseram que a escrita destruiria o espírito. E, no entanto, foi ela que preservou a memória humana.
Desrazão: Memória? (ri) Nós vivemos no império do esquecimento. O passado é inconveniente, e o presente precisa de filtros. Negamos a escravidão, reescrevemos ditaduras, chamamos censura de opinião. Eu sou o novo senso comum, e você, velha amiga, é apenas uma página esquecida de Kant.
Razão: Mesmo esquecida, eu resisto. Quando a humanidade erra, é a mim que procura para se justificar. Após Auschwitz, Hiroshima e tantas covas rasas, é a Razão que os sobreviventes invocam para tentar entender o absurdo.
Desrazão: E, no entanto, o absurdo volta. Vestido de progresso, de fé, de segurança nacional. Os séculos mudam, mas o vício é o mesmo: o homem ama o poder mais do que a verdade.
Razão: O poder sem razão é tirania. Veja a história — Roma caiu pela arrogância, Napoleão pela ambição, Hitler pelo delírio.
Desrazão: E todos eles tinham filósofos para explicar suas glórias. A filosofia, minha cara, sempre chega atrasada — aparece depois do sangue, com um discurso pronto sobre o sentido da tragédia.
Razão: Talvez, mas sem ela, o sangue seria apenas lama. É a reflexão que transforma a dor em consciência.
Desrazão: Consciência? O mundo anestesiou-se. Freud chamou o inconsciente de rei oculto, mas hoje ele virou refém do consumo. A terapia é uma assinatura mensal, e a culpa, um emoji triste.
Razão: (fecha o livro lentamente) Mesmo assim, há beleza. Ainda há poetas, cientistas, professores, mães que ensinam os filhos a pensar.
Desrazão: Professores? Esses são os novos inimigos. O conhecimento foi colocado em julgamento. A ignorância é mais rentável — forma massas dóceis, fáceis de conduzir. Lembra-se de Galileu? Pois é, agora a fogueira é virtual.
Razão: Então, você admite que a história se repete. A diferença é que agora as chamas são invisíveis, mas queimam mais.
Desrazão: Sim, e o cheiro é de dados, não de carne. O homem ofereceu a alma ao mercado. E o mercado devolveu-lhe um aplicativo.
Razão: Há séculos, Lutero denunciava a venda do perdão. Hoje, vendem-se curtidas, desejos, ideologias. Tudo se compra, inclusive a verdade.
Desrazão: Exato. E eu sou a gerente desse negócio. (ri alto) As redes sociais são o meu império. Eu governo pelo impulso — raiva, medo, vaidade. Ninguém mais lê Rousseau, todos querem ser influenciadores.
Razão: Mas a influência sem reflexão é tirania estética. O belo sem o bom é o veneno da civilização.
Desrazão: E quem quer o bom quando o belo rende mais visualizações? Veja, Razão, você é nobre, mas ingênua. O mundo não quer pensar — quer sentir.
Razão: Sentir sem pensar é o caminho da barbárie.
Desrazão: E pensar sem sentir é o caminho da indiferença. Eis o dilema eterno entre nós.
(Um silêncio. Ao fundo, projeções de guerras, protestos, incêndios florestais e discursos políticos. A luz pisca como se o tempo oscilasse entre séculos.)
Razão: Você se alimenta da crise. Eu, do diálogo. Enquanto houver palavra, há chance de equilíbrio.
Desrazão: Palavra? A língua foi sequestrada. Cada termo virou campo de batalha. ‘Democracia’, ‘liberdade’, ‘povo’ — todos usados até perder o sentido.
Razão: O sentido se reconstrói. Ele nunca morre. Assim como o homem sempre tenta reerguer-se depois da queda.
Desrazão: O homem tenta, mas tropeça. A pandemia mostrou o quanto somos frágeis: negamos a ciência, adoramos conspirações. Você viu? Até a morte virou estatística.
Razão: E mesmo assim, houve solidariedade. Médicos que trabalharam até cair, cientistas que dividiram conhecimento, vizinhos que se ajudaram. A tragédia revela tanto o pior quanto o melhor de nós.
Desrazão: Sim, mas eu fui mais rápida. Entrei nas redes, espalhei medo, cansaço e divisão. O mundo acredita mais nas minhas sombras do que na tua luz.
Razão: Talvez, mas lembre-se: toda noite é sucedida pelo amanhecer.
Desrazão: Bela metáfora. Pena que os homens andam sem janelas. Vivem trancados nas suas bolhas, gritando sozinhos.
Razão: Por isso mesmo eu insisto: é hora de reaprender a escutar. A democracia não é um grito, é uma escuta coletiva.
Desrazão: Democracia… (ri) Essa palavra está cansada. Uns a usam para censurar, outros para se perpetuar. Ela virou moeda de troca.
Razão: Mas ainda é o melhor dos caminhos imperfeitos. Churchill sabia. E mesmo ele, envolto em guerras, acreditava que o diálogo era a única forma de civilizar o conflito.
Desrazão: Ah, o conflito… o meu palco favorito! Sem mim, vocês não evoluem. Admitam: toda invenção, toda mudança, nasce de mim — do caos, da dúvida, do erro.
Razão: Verdade. Mas eu sou a costura. Você rasga, eu reconstruo. O mundo precisa de ambos — mas com equilíbrio.
Desrazão: Equilíbrio… a palavra mais entediante que existe. O ser humano não nasceu para o equilíbrio. Nasceu para o abismo.
Razão: Talvez. Mas é no abismo que ele aprende a voar.
(Luz baixa. A projeção no fundo mostra uma ampulheta virando lentamente. Som de batimentos cardíacos. Razão e Desrazão se encaram em silêncio por alguns segundos.)
Desrazão: Diga-me, Razão… depois de tantos séculos, de tanto sangue e tanta promessa, ainda acredita no homem?
Razão: Não. Acredito na humanidade. É diferente. O homem cai, mas a humanidade se levanta.
Desrazão: E se um dia ela não se levantar?
Razão: Então, ao menos terá tentado. E essa tentativa será a prova de que existiu.
Desrazão: (sorri) Talvez eu devesse poupá-la, então. Afinal, sem ti, eu também desapareço.
Razão: Vê? Até você compreende que somos interdependentes. A história é o nosso espelho — onde tua loucura e minha lógica dançam lado a lado.
Desrazão: Uma dança eterna.
Razão: Até o último acorde da consciência.
(As luzes diminuem. No fundo, a imagem de um planeta em rotação. Vozes indistintas ecoam — discursos, poemas, risadas, orações. O som de uma página sendo virada encerra a cena.)
FIM
Observação para encenação ou leitura crítica:
Este texto propõe uma reflexão filosófico-jurídica e social sobre o mundo contemporâneo, explorando temas como pós-verdade, democracia, tecnologia, desigualdade, história e memória, sem divisão formal de atos ou cenas. A linguagem é provocativa, mas equilibrada entre o poético e o político.
‘A educação como missão real: a visão pedagógica de Dom Pedro II e a nobreza da docência’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoRetrato de Dom Pedro II em pose reflexiva, em estilo clássico do século XIX. O imperador é representado em tons sépia, com gesto sereno e expressão contemplativa, simbolizando sua admiração pela educação e pelo papel do professor.
Resumo. O presente artigo analisa a célebre frase atribuída a Dom Pedro II — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro” — como expressão de um ideal humanista e civilizatório que marcou o Segundo Reinado brasileiro. Busca-se compreender o pensamento educacional do monarca, sua influência sobre o desenvolvimento da instrução pública e sua concepção do magistério como missão moral. A pesquisa, de caráter qualitativo e interpretativo, fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise documental, contextualizando o imperador como patrono das letras, das ciências e das artes. Conclui-se que Dom Pedro II via na educação o instrumento fundamental para o progresso nacional e via o professor como o verdadeiro construtor do futuro.
Palavras-chave: Dom Pedro II; Educação; Docência; Humanismo; História da Educação Brasileira.
1. Introdução
A história da educação brasileira é inseparável da figura de Dom Pedro II (1825–1891), monarca que, mais do que governar, dedicou-se ao estudo, à cultura e à ciência. Sua frase — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — ultrapassa o valor retórico e revela um ideal ético e pedagógico. No contexto do século XIX, a afirmação de um soberano que via no magistério a mais nobre das profissões representa um marco de pensamento ilustrado e progressista. Para o imperador, educar era não apenas transmitir conhecimento, mas formar consciências e preparar cidadãos para o futuro da nação.
O presente artigo tem por objetivo analisar o significado dessa declaração e suas implicações para a história da educação no Brasil, discutindo as políticas culturais e o legado intelectual de Dom Pedro II à luz da pedagogia humanista e do papel transformador do professor.
2. Contexto Histórico e Intelectual do Segundo Reinado
Dom Pedro II ascendeu ao trono em 1840 e reinou até 1889, período conhecido como Segundo Reinado, marcado por estabilidade política, expansão econômica e florescimento cultural. Desde jovem, recebeu uma formação ampla e rigorosa, orientada por mestres como o padre Diogo Antônio Feijó, o marquês de Itanhaém e outros intelectuais de destaque da época. Dotado de notável inteligência e curiosidade intelectual, o monarca tornou-se poliglota, dominando mais de dez idiomas, entre eles o grego, o hebraico, o árabe e o tupi. Demonstrava grande apreço pelas ciências humanas e naturais, mantendo correspondência com personalidades científicas e literárias de renome mundial, como Victor Hugo, Louis Pasteur, Richard Wagner, Alexandre Dumas e Alexander von Humboldt, com quem trocava ideias sobre arte, filosofia e progresso técnico.
Segundo José Murilo de Carvalho (2007, p. 45), “Dom Pedro II foi um dos raros monarcas do século XIX cuja verdadeira paixão residia no conhecimento”. Essa paixão se refletiu em políticas que incentivaram o avanço educacional, artístico e científico no Brasil. O imperador foi patrono da Academia Brasileira de Letras e protetor de instituições culturais, como o Museu Nacional, a Biblioteca Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que desempenharam papel fundamental na construção da identidade nacional. Também estimulou o desenvolvimento de infraestruturas modernas, como o telégrafo, a ferrovia e a fotografia, introduzindo o país no contexto da modernidade oitocentista.
O Colégio Pedro II (1837), criado ainda durante o período regencial, mas consolidado sob seu patrocínio, tornou-se modelo de ensino secundário e referência de qualidade intelectual. Além disso, Dom Pedro II incentivou a criação de escolas normais para formação de professores, reconhecendo o magistério como pilar da civilização. Em carta de 1873, afirmou: “Nada eleva mais um povo do que o saber; e nada o degrada tanto quanto a ignorância”. Essa convicção de caráter iluminista o levou a patrocinar o estudo de jovens brasileiros na Europa, apoiando bolsas de estudo e missões pedagógicas, especialmente na França e na Alemanha, com o objetivo de trazer ao Brasil novas metodologias e paradigmas científicos.
A postura intelectual do monarca refletia uma visão cosmopolita e humanista, que conciliava tradição e progresso. Dom Pedro II via a cultura como instrumento de emancipação moral e política, acreditando que o conhecimento poderia elevar o Brasil ao patamar das nações mais civilizadas. Sob sua influência, o país vivenciou um período de efervescência intelectual, com o surgimento de revistas literárias, debates científicos e a consolidação de uma elite letrada comprometida com a modernização nacional.
3. A Concepção Humanista e Moral da Educação
A frase analisada neste estudo contém um núcleo filosófico que remete ao ideal humanista. Para Dom Pedro II, a educação deveria transcender o ensino de conteúdos e promover o desenvolvimento integral do ser humano. Tal perspectiva aproxima-se das ideias de Rousseau e Condorcet, para quem a instrução pública é condição essencial de liberdade e moralidade.
O imperador acreditava que o educador era o verdadeiro condutor do progresso nacional. Em discurso de 1876, declarou:
“Educar não é apenas instruir, mas formar o caráter. O mestre não ensina apenas o que sabe, mas o que é.”
Essa visão traduz um compromisso ético com a formação do cidadão e antecipa princípios pedagógicos que mais tarde seriam retomados por pensadores brasileiros como Rui Barbosa, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.
Conforme Saviani (2007, p. 23), “a educação é sempre um ato político e moral”. Essa noção é coerente com o pensamento de Dom Pedro II, que via na docência uma missão espiritual, capaz de transformar o destino do país por meio da cultura e do conhecimento.
4. Políticas e Ações Educacionais de Dom Pedro II
O reinado de Dom Pedro II foi marcado por importantes iniciativas voltadas à disseminação do ensino, à valorização cultural e ao fortalecimento das instituições de saber. O monarca via a educação como base indispensável para o progresso moral e material da nação, e, por isso, adotou uma postura ativa na promoção de políticas públicas voltadas ao ensino, à ciência e às artes. Entre as principais ações, destacam-se:
Criação e fortalecimento do Colégio Pedro II, que se tornou referência nacional em educação humanista e científica. A instituição foi concebida como modelo de excelência, com currículo abrangente que integrava disciplinas clássicas, línguas estrangeiras, filosofia, ciências naturais e história, formando gerações de intelectuais e estadistas. O próprio imperador acompanhava seu funcionamento, participando de cerimônias, visitando salas de aula e premiando alunos de destaque.
Estímulo à formação docente, com a fundação de escolas normais em várias províncias, especialmente a partir da década de 1870. Dom Pedro II compreendia que o progresso do ensino dependia da qualificação do professorado, e incentivou reformas pedagógicas inspiradas em modelos europeus, como o francês e o alemão. Essas escolas tornaram-se centros de difusão de novas metodologias de ensino, contribuindo para o fortalecimento do magistério nacional.
Apoio às instituições científicas e artísticas, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Museu Nacional, o Observatório Imperial do Rio de Janeiro e a Academia Imperial de Belas Artes. Sob seu patrocínio, tais instituições desempenharam papel fundamental na produção e preservação do conhecimento, além de promoverem o intercâmbio intelectual entre o Brasil e a Europa. O imperador também incentivou a realização de expedições científicas, especialmente nas áreas de botânica, geografia e arqueologia, consolidando o país como centro emergente de investigação científica no hemisfério sul.
Patrocínio à imprensa, à difusão cultural e à tradução de obras científicas e literárias, ampliando o acesso ao conhecimento. Dom Pedro II acreditava que a circulação de ideias era essencial para o desenvolvimento do espírito público e da cidadania. Assim, apoiou publicações educativas, jornais literários e a tradução de textos fundamentais das ciências e das humanidades, aproximando o Brasil das grandes correntes de pensamento do século XIX.
Concessão de bolsas de estudo no exterior, destinadas à formação de estudantes, engenheiros, artistas e professores brasileiros. Essa política contribuiu para a modernização das práticas pedagógicas e científicas nacionais, permitindo que o país assimilasse avanços tecnológicos e concepções filosóficas do Velho Mundo. Entre os bolsistas estavam nomes que mais tarde se destacariam no cenário intelectual brasileiro, colaborando com o projeto civilizatório de Dom Pedro II.
Como observa Lilia Moritz Schwarcz (1998, p. 112), “a figura do imperador confundia-se com a do intelectual, que fazia da cultura um instrumento de poder simbólico e de prestígio internacional”. Essa postura consolidou o Brasil como uma das monarquias mais cultas e respeitadas de seu tempo, distinguindo-se por seu compromisso com o saber e com a modernidade ilustrada. Além disso, o legado educacional e científico de Dom Pedro II ultrapassou as fronteiras do Império, sendo reconhecido por instituições estrangeiras como a Academia de Ciências de Paris e a Royal Society de Londres, das quais foi membro correspondente.
O conjunto dessas políticas demonstra que Dom Pedro II compreendia o conhecimento como elemento estruturante do Estado e via na educação o caminho para a emancipação do indivíduo e o engrandecimento da nação. Sua visão de governo, profundamente marcada pelo humanismo, pelo racionalismo e pela fé no progresso, deixou marcas duradouras no sistema educacional brasileiro e na construção de uma identidade cultural própria.
5. O Professor como Agente de Transformação
Ao declarar que desejaria ser professor, Dom Pedro II revela não apenas uma admiração pessoal pela docência, mas uma profunda compreensão do poder formador da palavra, do exemplo e da transmissão do conhecimento. Sua afirmação — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — sintetiza uma visão de mundo iluminista e humanista, na qual o saber se coloca acima do poder e a educação é vista como instrumento de emancipação individual e social. Para o monarca, o verdadeiro governante e o verdadeiro mestre compartilham a mesma missão: “dirigir inteligências” e “preparar homens do futuro”, conduzindo o povo pelo caminho da razão e da virtude.
Essa concepção coloca o professor no centro do processo civilizatório, reconhecendo-o como figura essencial na formação moral e intelectual da sociedade. Assim como o monarca dirige a nação, o educador conduz as mentes — mas sua autoridade é moral, ética e intelectual, e não política. O imperador compreendia que a força de um país residia menos nas armas do que nas escolas, e que somente por meio da educação o Brasil poderia alcançar o patamar das nações civilizadas. Em diversos discursos, Dom Pedro II exaltou o magistério como “a mais nobre das profissões”, chegando a afirmar que “a ignorância é a verdadeira inimiga da liberdade”.
A figura do professor, portanto, era para Dom Pedro II símbolo do progresso, do altruísmo e da construção do caráter nacional. Ele via na docência não apenas uma função técnica, mas uma missão espiritual e patriótica, responsável por moldar consciências e cultivar valores éticos, científicos e humanísticos. Em várias ocasiões, o imperador fez questão de visitar escolas públicas e privadas, dialogando com mestres e alunos, e demonstrando sincero interesse pelo cotidiano do ensino. Seu respeito pelos professores era público e constante, o que contribuiu para elevar o prestígio moral da profissão em uma época ainda marcada pela desigualdade educacional e pela escassez de recursos didáticos.
Segundo Fernando de Azevedo (1958, p. 67), “a educação brasileira deve a Dom Pedro II o impulso inicial de seu despertar cultural e o prestígio moral do magistério”. Essa valorização do professor como guardião do saber e agente da transformação social permanece como um ideal a ser plenamente alcançado na contemporaneidade. O imperador antecipava, de certo modo, ideias que mais tarde seriam defendidas por educadores como Anísio Teixeira e Paulo Freire, ao considerar que ensinar é um ato de libertação e que a instrução popular é o caminho mais seguro para a justiça e o desenvolvimento.
O legado de Dom Pedro II, portanto, não se limita às reformas institucionais, mas estende-se à formação de uma mentalidade educacional que valoriza o conhecimento como bem supremo. Sua visão coloca o professor como mediador entre o saber e o cidadão, como aquele que constrói pontes entre o passado e o futuro, entre a tradição e a inovação. Ainda hoje, em tempos de desafios educacionais e crises de valores, o exemplo do “imperador professor” continua a inspirar a crença de que a transformação do mundo começa pela sala de aula.
6. Atualidade do Pensamento de Dom Pedro II
No século XXI, a profissão docente enfrenta desafios complexos e persistentes, como a desvalorização social, a precarização das condições de trabalho, a sobrecarga emocional e a carência de políticas públicas consistentes voltadas à formação continuada e à valorização salarial dos educadores. Em meio a esse cenário, a mensagem de Dom Pedro II adquire nova relevância, ressoando como um apelo ético, filosófico e simbólico em defesa do magistério e do papel essencial da educação na construção de uma sociedade justa e esclarecida. Sua célebre admiração pela docência — expressa na frase “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — transcende o tempo, reafirmando a dignidade e a missão humanizadora do ensino.
Para Dom Pedro II, ensinar era um ato de elevação moral, um compromisso com o progresso intelectual e espiritual do povo. Essa convicção, ancorada nos ideais iluministas e no humanismo cristão, encontra eco nas discussões pedagógicas contemporâneas sobre o papel transformador da educação. No mundo atual, marcado pela aceleração tecnológica, pela crise de valores e pela desigualdade de oportunidades, o pensamento do imperador permanece como referência de esperança e propósito: o conhecimento continua sendo a via mais segura para a liberdade e para o fortalecimento da cidadania.
Como afirmou Anísio Teixeira (1969, p. 14), “sem professores não há nação possível”. Essa máxima reforça o sentido atemporal da frase imperial: formar inteligências é formar o próprio destino de um povo. A educação, vista por Dom Pedro II como instrumento de emancipação e progresso, mantém-se o principal caminho para o desenvolvimento nacional. Sua postura de respeito à ciência, à cultura e ao magistério oferece um contraponto inspirador diante da crise de reconhecimento que hoje atinge os profissionais da educação.
A atualidade do pensamento de Dom Pedro II reside, portanto, em sua capacidade de articular valores éticos, políticos e culturais em torno da figura do professor e da centralidade da escola como espaço de formação cidadã. Ao reconhecer no educador o verdadeiro construtor da pátria, o imperador antecipou um ideal que atravessa gerações: o de que nenhum projeto de nação é sustentável sem investimento intelectual e moral em seus mestres.
Mais do que um legado histórico, sua visão constitui uma lição permanente de valorização, respeito e esperança. Em tempos de transformações globais, é urgente resgatar o espírito que animava o “imperador professor”: a crença de que educar é servir à humanidade, e que o saber, mais do que um privilégio, é um dever compartilhado entre governantes e cidadãos. Assim, o pensamento de Dom Pedro II continua a iluminar o presente, inspirando novas gerações de educadores a manter viva a fé na força transformadora da educação e no poder civilizador da palavra e do exemplo.
7. Considerações Finais
Dom Pedro II compreendia a educação como a verdadeira base de sustentação de um país civilizado. Sua frase sintetiza uma visão de mundo em que o saber é o mais elevado dos poderes e o professor, seu mais digno representante. O imperador não via o trono como símbolo de dominação, mas como espaço de serviço à cultura e à ciência. Seu amor pelo ensino e sua admiração pelo professorado representam um legado moral e intelectual que ultrapassa os limites do tempo. Ao desejar ser mestre, Dom Pedro II eternizou a imagem de um governante que acreditava no poder das ideias — e, sobretudo, no poder do educador de transformar o mundo.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1958.
CARVALHO, José Murilo de. Dom Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAVIANI, Dermeval. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
TEIXEIRA, Anísio. Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.BARROS, Maria do Carmo. O Ideal Educador de Dom Pedro II. Rio de Janeiro: MEC/INEP, 1989.
Os séculos XIX e XX foram marcantes ao campo artístico, especialmente em relação ao desenvolvimento de equipamentos utilizados para a captura de imagens. A fotografia alcançou grande dimensão e alterou a relação do público com a arte, sendo um dos campos mais explorados pela indústria cultural até hoje.
A capacidade de registrar o mundo em diversos segmentos e miniaturas com efeitos visuais ganhou uma evolução rápida que, por volta de 1840, transformou o pintores em fotógrafos, como escreveu Walter Benjamin em seu texto:
“Pequena história da fotografia”
Quem não tem na sua família um pintor, fotografo ou escultor?
Hoje , achei um retrato antigo, do tempo de meus avós, nem parece que o mundo passou por duas guerras mundiais. Quanto tempo! Ainda vivi o tempo em que as famílias tinham interesse em deixar registrados momentos de carinhos juntos. E meus avós maternos, estavam sempre juntos!
Uma fotografia é quase que uma pintura. Uma representação visual de uma pessoa, de seus gestos e comportamentos. Real ou imaginária, criada por efeitos visuais ou por emoções, um desenho, uma pintura, uma escultura ou fotografia. Pura arte em transformação.
Nesta foto, percebi as névoas do tempo recobrindo nossa pele, os detalhes de um sorriso e olhares vazios da vida, me roubaram a atenção. O cabelo branquinho de meus avós…Minha Irmã Andressa estava no colo deles. Eu não sorria, mas em todas as fotos eu sempre sorri. Por dentro de toda arte existe a verdadeira vida, derivada da luz, de ondas percebidas pelo olho humano a deriva de todo tom e cor diferente. As mudanças são inevitáveis. Por dentro de toda arte existe uma leitura, uma síntese, a verdadeira verdade, um nascimento, algo informal também. Um dia quando eu morrer, essa foto também morrerá.
Cecília Meireles (1901-1964) marco da literatura brasileira soube escrever muito bem. Nos versos da terceira parte do poema Retrato, assume que já não se reconhece mais depois da sua transformação :
“Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
Minha fotografia predileta, estava intacta. Sentada no pé de seriguela, atualizando meus pensamentos e sorrindo. Meu colo era no quintal, no tronco do pé de seriguela que me viu crescer, onde meus dias sempre foram como as manhãs de domingo num dia ensolarado.
Que bom que existe a arte e suas diversas formas de expressão, que bom que guardei algumas fotos daquele tempo, que bom que escrevo.
Minha arte é manual – tem a segurança de deixar coisas e pessoas para trás e conseguir carregar tudo que sou, somos, vejo e vemos, tudo que atualizamos por ser realmente útil e absolutamente natural se manifestar.