Diamantino BártoloImagem criada por IA da Mata – 26 de janeiro de 2026, às 08h24
Como se sabe, a compreensão envolve, permanentemente, a linguagem, a confrontação com um outro horizonte humano, um ato de penetração histórica, por isso, a Hermenêutica abarca uma teoria texto.
Compreender é uma operação essencialmente referencial; compreende-se algo, quando se compara com algo, que já se conhece. O homem não realiza o seu conhecimento a partir do nada, mas por meio de uma reestruturação, correção e integração dos seus próprios ‘a prioris’ e ‘a posterioris’, por isso, a interpretação é um conhecimento simultaneamente: reconstrutivo e integrativo. (cf. ORTIZ-OSÉS, op. cit.)
Do que foi escrito, facilmente se dá conta que a compreensão possui uma estrutura intrinsecamente histórica portanto: «Não precisamos cair numa atitude psicologizante para defender que a compreensão não pode ser concebida independentemente das relações significativas que tem com a nossa experiência anterior.» (PALMER, 1969:102), pois esta, como ato histórico, está sempre relacionada com o presente. Seria ingénuo falar-se de interpretações objetivamente válidas, porque isto implicaria ser possível uma compreensão que partisse de um ponto de vista exterior à história.
Na realidade, no seu situar-se mundano (responsável pelo mundo), o homem responde desde o seu posicionamento atual: quer a um passado a interrogar e a integrar; quer a um futuro a predizer (possibilidade), isto é, antes de tomar uma decisão fundamental, emprega a sua experiência, interpreta e está interpretado na sua própria circunstância: «A sua atitude fundamental não aparece nem como progressiva nem como regressiva, mas como ingressiva, integradora.» (ORTIZ-OSÉS, 1983:48).
Compreendemos um texto, não com a consciência vazia, mas porque mantemos um modo de ver já estabelecido, e algumas conceções prévias ideacionais, (pré-estrutura da compreensão): «O passado não se nos pode opor como objecto de interesse arqueológico. A autointerpretação do indivíduo é apenas uma luz trémula na corrente fechada da vida histórica. Por essa razão, os juízos prévios do indivíduo são mais que meros juízos; são a realidade histórica do ser.» (PALMER, 1969:185).
Os juízos prévios traduzem a capacidade que toda a pessoa tem para compreender a história: dentro ou fora das ciências, não pode haver compreensão sem pressupostos, resultantes da tradição em que cada indivíduo se insere (horizonte no interior do qual pensamos).
Uma dupla operacionalidade se apresenta: uma operacionalidade do presente no passado – não há uma visão pura da história, sem referência ao presente; e uma operacionalidade do passado no presente (consciência historicamente operativa) – o presente só é visto e compreendido através das intenções, modos de ver e pré-conceitos que o passado transmite: «Não podemos inventar nem recusar o horizonte que faz alteridade à nossa consciência.» (ORTIZ-OSÉS, 1983:12).
O passado não é um amontoado de factos, é antes um fluxo, em que nos movemos e participamos: «A tradição não se coloca, pois, contra nós, ela é algo em que nos situamos e pela qual existimos.» (PALMER, 1969:180). Dá-se no ato de compreensão uma simbiose do estranho e do familiar (simultaneidade).
A tensão, presente-passado, é, em si mesma, essencial e frutífera em Hermenêutica; a distância temporal tem, simultaneamente, uma função negativa e positiva, tanto faz com que se eliminem certos juízos prévios, como provoca o aparecimento daqueles que nos levam a uma compreensão verdadeira.
Os nossos pressupostos não podem ser tomados como absolutos, mas sim como algo sujeito a mudança. São positivos: quando conduzem à compreensão; e negativos, quando conduzem ao mal entendimento. Esta distinção faz-se no interior da própria experiência hermenêutica.
BIBLIOGRAFIA
ORTIZ-OSÉS, Andrés, (1983). Antropologia Hermenêutica. Tradução, L. Ferreira dos Santos. Braga: Eros.
PALMER, Richard E., (1969). Hermenêutica. Tradução, Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Lisboa: Edições 70
Venade/Caminha – Portugal, 2026
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O pomo da discórdia’
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada por IA do Gemini – 25 de janeiro de 2026, às 02:00 AM
Não sou tiete, mesmo quando estava lá com meus 15, 16 anos, nunca tive ídolos, apesar de andar com outras garotas da minha idade, todas apaixonadas por algum cantor ou astro do cinema. Minha mãe sempre disse que, ainda no tempo da creche, era eu uma adulta de fraldas. Certo exagero, mas que talvez retrate um pouco sobre o meu íntimo, reservada que quase sempre sou.
Andei com uns problemas aí. Melhor, os problemas ainda continuam por aqui, enquanto tento lidar com eles de maneira racional. No entanto, por mais que busque seguir o caminho da razão, eis que o coração me faz tomar, vez ou outra, um desvio. Desvio? Não sei se a palavra exata seja essa, até porque fica parecendo que a vida é um jogo de xadrez, que você precisa sacrificar a felicidade para manter os pés calçados.
Descobri que andar descalça não é somente prazeroso, como também necessário. Além de massagear os pés sobre a areia macia, e mesmo que de vez em quando nos deparemos com alguma pedra pontiaguda ou um espinho, isso faz bem para a alma. A saúde mental agradece, e podemos, assim, buscar conforto em outras coisas.
Tenho me alimentado melhor, tenho saciado minha mente de poesias. Nossa, como isso é bom! E você, por acaso, já se deparou com Drummond? Já reparou que Drummond rima com bombom?
Não me entenda mal, mas confesso que tenho me interessado por outro. É verdade que o Carlos continua com seu cantinho reservado no meu coração. E como poderia ser diferente? Amo aquele jeito tímido e, ao mesmo tempo, atrevido desse mineiro com gosto de pão de queijo. Seja como for, confesso que tenho outro. E pode apontar todos os dedos para mim, que aceito a sina de ser culpada.
Antes de revelar o pomo da discórdia, deixe-me contar um pouco como tudo começou. Pois estava eu fragilizada pelo término trágico de um relacionamento, que nem eu, apaixonada que estava, tinha muita esperança de que vingasse. Coisa do tipo de encontro fortuito na balada, mas que insistimos, pura teimosia, esticar para ver onde vai dar. Durou pouco mais de mês, e poderia ir até o final do mês seguinte, caso não fosse por algo bobo, comum e, não obstante, derradeiro.
— Aurélio, o que você tá fazendo com a minha escova de dente?
— Ué, escovando os dentes.
— Que nojo!
Pois é, não tinha como continuar com alguém que mal conhecia, apesar dos tórridos momentos de puro prazer, e que se apossa de algo que é só seu. De tão possessa que fiquei, não tive dúvida e mandei o, até aquele momento, amado, pegar as suas coisas e ir embora.
— Laura, você é maluca!
Maluca? Eu? Bem, não vou tentar fazer defesa em causa própria. As palavras do Aurélio não me afetaram. Maluca? Creio que ele pegou pesado comigo. Pois maluca é a mãe daquele sem-noção, usurpador de escovas de dente alheias.
Não sei se isso acontece com você, mas quando sinto princípio de desavença interna, busco na poesia o apaziguamento do qual necessito. E foi assim que fiz. Peguei meu Drummond na estante e, em meus braços, o levei para cama. Mas eis que algo me incomodou.
— Carlos, por acaso estou errada?
Mudo, o poeta me encarou de maneira serena. Pior mesmo foi aquele sorriso discreto de canto de boca, como se querendo dizer: “Laura, Laura, dessa vez você pegou pesado!”
— Pois hoje você vai dormir novamente sozinho na estante, seu Carlos!
E lá fui eu para a sala devolver Drummond, o meu amado Drummond, companheiro de tantos anos, o meu mineirinho com gosto de pão de queijo, para a estante de madeira. Que passasse a noite entre Vinicius, Bandeira, Castro Alves e tantos outros. Pensei, de relance, puxar pelas mãos o Casimiro. Muito menino, queria alguém com mais maturidade.
Quase desistindo, eis que vi debaixo da porta um envelope. Hum! Pelo volume parecia algo substancial. Nada de contas e contas a pagar. Tomei-o em minhas mãos e logo percebi que a remetente era a minha grande amiga Sarah Munck, poetisa das melhores. Curiosa, abri o envelope e me deparei com o livro ‘A verdade nos seres’, de Daniel Marchi. Folheei e li a dedicatória.
Querida Laura,
Tenho certeza de que estes poemas chegarão a você em momento apropriado.
Da sua amiga,
Sarah Munck
Não quis parecer muito interessada a princípio, já que acabara de ter rusgas com o meu amor de longa data. Entretanto, como quem não quer nada, peguei o Daniel e o levei para meu quarto, onde passei a noite inteira tentando decifrá-lo. Se me sinto culpada por isso? Hum! Quem mandou o Carlos ficar do lado do Aurélio?
conchas esmagadas em sofrido aperto contritas consternadas pelo vento constantes sopros desmesurados neste amor que une graciosas pérolas rochas com a sedimentação dos tempos
águas colam enquanto passam argolas adentrando os montes pelas grutas choro nas paredes lágrimas nos tetos nas lástimas me inundo em lago interno
dentro vigora azul profundo água-estéril pinga-pinga de arbustos-folhas-sacras ondas desiguais do mar na praia estrondos violência em sons espetaculares
como o mar se comporta mediante Impassibilidade das rochas recontam o amor louco e estupendo em tuas rochas abres fenda e adentro enquanto mar no ímpeto
O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.
As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.
O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.
Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.
Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.
Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.
Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.
Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.
Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.
O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.
O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.
Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.
Nem toda história nasce de uma ideia que insiste enquanto estamos deitados, olhando o teto. Algumas chegam de fora, quase por engano, e ficam. Este conto veio assim. Eu o encontrei já contado, mas malcuidado, atravessado pela pressa. Havia algo ali que me incomodou — e não era a história, era a forma. Então fiz o que pude: fiquei com o que pulsava e deixei o resto cair. Não sei dizer se o reescrevi ou se apenas o acompanhei até um lugar mais silencioso. Sei apenas que, ao final, ele já não me parecia novo — parecia antigo. E talvez por isso tenha ficado.
Vamos ao conto.
Um sultão ouviu dizer que havia, no mercado, uma escrava cujo preço excedia o de cem outras. Intrigado, mandou chamar o mercador responsável pela venda.
— Por que pedes tanto por uma só mulher? — perguntou. — Que qualidade justificaria tal valor?
O mercador respondeu com cuidado, escolhendo as palavras:
— Majestade, dizem que essa mulher carrega algo raro. Pensa antes de falar e fala apenas quando é necessário. Há quem diga que, ao ouvi-la, se aprende mais do que se espera.
O sultão permaneceu em silêncio por um instante.
— Traga-a — ordenou.
Quando a escrava entrou no salão, manteve o olhar baixo apenas o suficiente para cumprir o protocolo. Parou diante dele com uma dignidade incomum àquele lugar. Não havia pressa em seus gestos, nem temor visível em seu corpo.
O sultão observou-a longamente.
— Dizem que há em ti algo que não se mede com moedas — disse. — Veremos.
Fez então a proposta:
— Far-te-ei uma pergunta. Se responderes de modo que me convença, conceder-te-ei a liberdade. Caso contrário, morrerás.
Diz-me: qual é a roupa mais bonita, o perfume mais agradável, a comida mais deliciosa, a cama mais macia e o país mais bonito?
Ela permaneceu em silêncio por um instante. Não era hesitação. Era cuidado.
Depois, respondeu:
— A roupa mais bonita — disse — é aquela que preserva a dignidade de quem a veste. É como a honestidade: não se rasga, não envelhece e sempre enfeita quem se cobre com ela.
Pausou. Olhou para o sultão com firmeza e continuou:
— O perfume mais agradável é o que não anuncia quem chega, mas permanece depois que a pessoa se vai. É como o perdão, que espalha suavidade até mesmo entre inimigos.
Ela pousou a mão sobre o estômago, respirou fundo e prosseguiu:
— A comida mais deliciosa é a que se reparte, porque o sabor cresce quando há outro à mesa. Assim é a sabedoria: alimenta a alma e jamais se esgota.
Abrandou o tom da voz.
— A cama mais macia é aquela onde se dorme com a consciência em paz. Nela, o sono vem sem ser chamado e não há sobressaltos durante a noite.
Por fim, ergueu os ombros e, com o olhar firme, concluiu:
— E o país mais bonito é aquele onde um ser humano não é comprado nem vendido, onde ninguém teme dizer a verdade.
O sultão não respondeu de imediato.
— Pedi coisas que costumam ser escolhidas — disse por fim. — E tu me falaste de estados que não se escolhem com facilidade.
Levantou-se. Caminhou pelo salão. As sedas acompanhavam seus passos, e os anéis pesavam nos dedos.
— Tenho roupas raras.
Perfumes trazidos de longe.
Mesas sempre servidas.
Leitos onde o corpo descansa.
Parou diante dela.
— Ainda assim, não sei onde repousa o que mais me escapa.
Fez um gesto breve. Os guardas soltaram os grilhões.
— Vai.
A escrava inclinou levemente a cabeça e partiu. O sultão permaneceu ali, cercado de ouro, sedas e poder.
Tudo continuava em seu lugar. Ainda assim, sentiu que algo se deslocara — não nos mapas, nem nos cofres, mas em um ponto impreciso onde costumava repousar a certeza.
Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévski
CINEMA EM TELA
Marcus Hemerly
‘Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévski’
Card da coluna Cinema em Tela – Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévbski
O personagem de Robert De Niro em Taxi Driver (1976), o atordoado Travis Bickle, em seu estilo de narrativa voice-over, gravita como um autômato, e, ao mesmo tempo, completamente integrado — em seu desintegrar — em relação à metrópole. Enquanto verte suas concepções — até mesmo poder-se-ia dizer, delírios — acerca de sociedade, valores morais, ainda que distorcidos, sua função no mundo a partir do plano utilitarista, o motorista traça um ideário sobre si e quanto ao mundo. Inquietações catalisadas e concomitantemente diluídas entre os prédios da cidade, que figura como personagem de igual modo vivaz em sua inércia. Imperioso traçar um paralelo com a novela Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), na qual seu protagonista inominado, no introito da obra – o Subsolo – assim como Travis dirigindo seu táxi em meio a seus rompantes filosóficos notívagos, tece uma série de teses críticas acerca do conceito de construção social, do elemento humano e de seu papel nas organizações humanas. Um quê de reflexão sociológica, moral ou imoral, e de igual sorte existencial, é notado no discurso do Homem do Subsolo, como se convencionou chamá-lo.
Nessa primeira parte do livro, de forma similar às cenas iniciais do filme, o personagem se apresenta, seja a partir de suas visões sobre a coletividade e sua decadência moral, seja a partir de sua atuação como elemento daquela sociedade. O Homem do Subsolo, de Memórias (1864), e Travis Bickle, de Taxi Driver (1976), dirigido pelo cineasta Martin Scorsese, compartilham um viés existencial marcado pela hiperconsciência, realismo cru sobre a decadência humana e crítica feroz à sociedade, culminando em insurgência social e conflito interno autodestrutivo. De forma relevada, a sátira irônica é moldada de forma sofisticada dentro de uma roupagem filosófica díspar dos demais romances do Russo, a título de exemplo, citamos o forte Gente Pobre que assente a característica realista.
No segundo plano da trama, intitulado “A propósito da neve molhada”, o personagem interage com outros elementos do enredo, quase pondo em prática suas teses, em uma autoanálise distorcida que, ao final, se revela catártica. Há um imbricamento entre o “eu” e o “outro”, o sujeito e sua subjetividade, como um indivíduo composto de valores e ações que, não raro, se contradizem. A evolução do ex-funcionário público, robótico e frustrado – impossível não lembrar do escriturário Bartleby, de Herman Melville – que amargurado, traduz o rebelde com causa, entoando “o homem, as vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato”.
Na película, acompanhamos o deambular do personagem de De Niro pelo submundo nova-iorquino. Entre prostitutas, cafetões, cinemas pornográficos, cafés 24 horas e traficantes de armas, levando todo tipo de passageiro em meio ao trânsito sempre caótico, tal como sua mente em perene ebulição. Em sua visão enevoada da realidade, ele idealiza, ainda que sem qualquer substrato fático, a pureza retratada na prostituta Iris, interpretada por Jodie Foster em um de seus primeiros papéis no cinema, e se vê como um baluarte heroico que irá salvá-la de sua agônica realidade. Divagações — (falsas?) percepções de seus derredores, nuances equivocadas entre significado e significante — fazem com que o personagem justifique a si próprio o frenesi violento que encerrá o iminente embate com os vilões, tão reais quanto imaginários. Enquanto evolui sua persona rumo ao plano concebido como uma libertação de seu cotidiano, Travis tenta um romance frustrado com a personagem de Cybill Shepherd, que trabalha como voluntária na campanha de um candidato às primárias presidenciais, Charles Palantine. Inicialmente, louvado pelo taxista solitário, mas que, após o rompimento de quaisquer chances com a moça — de igual modo idealizada —, transfigura suas frustrações na figura do candidato, transformando-o em seu nêmesis não correspondido, por assim dizer. Já foi dito que a celebrada obra de Martin Scorsese, escrita pelo brilhante Paul Schrader em um roteiro então quase autobiográfico, narra o próprio enlouquecimento de um indivíduo. Mas que tipo de enlouquecimento?
Em meio à insanidade, muitas vezes encontra-se a lucidez. Nessa linha de ideia, a personagem central — que podemos até chamar de anti-herói —, tratada em Memórias do Subsolo, sempre anseia por sua inserção social bem-sucedida, em meio ao próprio núcleo de pares a respeito dos quais lança críticas. Gravita aos extremos da mal contida subserviência instintiva, ao mesmo tempo em que nada em sua própria torrente de insurgência, distribuindo agressões, ironias e ataques verborrágicos àqueles cuja companhia e igualdade são ideadas/cobiçadas.
E, ao fim da novela, o elemento do subsolo, o desajustado — remetendo ao próprio Travis —, apaixona-se ou se autossugestiona uma atração sentimental em relação à prostituta Liza, uma espécie de Sônia de Crime e Castigo, talvez nela vendo o reflexo de si próprio, como um elemento díspar entre o rebanho. Ainda que repudie veementemente aquela pecha. Se as conturbações interiores servem de matéria-prima à arte em todas as suas derivações, no contexto das duas obras citadas, filme e livro, é perceptível que tal vetor ganha mais robustez quando paralelizado ao senso de não pertencimento. Travis em sua narrativa sobreposta, descreve-se “a solidão me acompanha por toda a vida, em todos os lugares. Em bares, em carros, calçadas, lojas, em todo lugar. Não há escapatória. Sou o homem solitário de Deus”.
Sua insatisfação não diagnosticada deflagra uma odisseia investigativa de aprovação e desaprovação quando dirigidas as demãos seres, em forma de espelhamento, ainda que a explicação resida apenas em seu subconsciente. Ambos os personagens habitam um “subsolo” psicológico de isolamento existencial, onde a consciência, ou sua distorção hiperbólica paralisa a ação e gera prazer na própria ruína. O narrador de Dostoiévski reflete sobre o absurdo da existência, rejeitando racionalismos utilitaristas em favor de uma liberdade irracional e autodestrutiva, enquanto Travis vaga pelas ruas de Nova York em uma “cápsula existencial” de táxi, acumulando desgosto em diários obsessivos. Essa solidão não é passiva, mas corrosiva, transformando o mundo em espelho de suas falhas internas.
Os dois traçam um retrato realista e impiedoso da degradação social, e como tal modus vivendi emoldura e condiciona seu pensar e existir. São Petersburgo úmida e sufocada para o Homem do Subsolo, e Nova York decadente, suja e imoral para Travis. Eles criticam a vulgaridade alheia com superioridade ressentida, vendo a sociedade como podre e indigna, mas projetam nela suas próprias ambiguidades recalcadas. Essa visão extremista de julgamentos morais solitários, lastreia a insurgência como explosão de uma tensão interna irresolúvel. O Eros, ou seja, o que falta, é o desejo de reconhecimento indo de encontro ao ódio à vulnerabilidade, levando a atos violentos ou humilhantes.
Trata-se em verdade, da eterna mágoa interna que se exterioriza ontra todos, flertando com a visão neurótico das cercanias sociais. Travis age como justiceiro autoproclamado, “purificando” a cidade, enquanto o narrador falha em conexões como com Liza, sabotando-as por crueldade; novamente direcionadas a si a a outrem. Ironicamente, ambos ganham “recompensa” ilusória — o narrador persiste na confissão, Travis é heróiizado —, revelando o ciclo vicioso de ilusão como forma, reitere-se, de autoengano e mecanismo de defesa psíquica. Enquanto que ao “salvar” a jovem Iris, Travis vira o herói que pretendia ser, mesmo que de outra forma, o Homem dos recônditos ratifica o que é sem querer ser, o anti-herói amargurado, sem a catarse que aguardava como se fosse seu direito.
Decerto, os Travis e o Homem Subterrâneo, igualmente fascinantes, também partilham outro ponto comum, a verve turbulenta da irresignação e o bálsamo ilusório que repousa na fantasia. Percebemos que ambos os homens pertencem de forma indissociável ao “subsolo”, ainda que iluminados pela luz do dia ou da noite; nas estrelas que atravessam a bruma russa ou no retrovisor de um taxi. O que muda é o contexto de sua busca, contudo, sem ponto de chegada.
Ismaél Wandalika: ‘Teu sorriso combina com a vida’
Soldado Wandalika Imagem crfiada por IA do Grok – 23 de janeiro de 2026, às 06:13 PM – https://grok.com/imagine/post/f07334c5-7ece-41be-b76d-649b2ef02f26
Entoa poesia melódica, celebra mais um dia A vida inspira poetas na via, tira da linha toda malícia Agulha afia o som que consome a fome dos homens No imo das mulheres, acelera a palavra dá a luz ao prazer
Viver Fazer To live, to see A vida ensina aos pobres, versos que enriquecem o dinheiro que embriaga a caneta da dança!
Teu sorriso combina com a vida Teu sorriso combina com o amor Teu sorriso é perfeito para o livro na capa Teu sorriso humilha a dor.