Dicionário de narrativas midiáticas tem colaboração de pesquisadores da região
Card do Dicionário Brasileiro de Narrativas Midiáticas
Produzido pela Rede de Pesquisa em Narrativas Midiáticas Contemporâneas (Renami), o Dicionário Brasileiro de Narrativas Midiáticas acaba de ser lançado em sua versão online e gratuita.
O Dicionário Brasileiro de Narrativas Midiáticas é uma compilação de 96 verbetes com caráter enciclopédico, produzidos por 79 pesquisadores em narrativas de todo o Brasil. O objetivo da publicação de 344 páginas, para além de ocupar uma lacuna aberta desde há muito nos estudos de narrativa no Brasil, é servir como marco referencial atestando a maturidade, e a importância, que a pesquisa em narrativas atingiu passados dez anos da criação da Renami, de onde o projeto nasce e tem abrigo. A organização é de Agnes Arruda, Demétrio de Azeredo Soster e Mara Rovida. O prefácio, de Cremilda Medina. A editora, Clea Editorial, de Alumínio, São Paulo.
Dentre os pesquisadores que participaram da construção desse Dicionário estão os professores Carlos Carvalho Cavalheiro e Paulo Celso da Silva; e as professoras Adilene Ferreira Carvalho Cavalheiro e Rosa Aparecida Pinheiro.
Carlos Carvalho Cavalheiro
Carlos Carvalho Cavalheiro é professor de História da rede pública da Porto Feliz desde 2006, Mestre em Educação pela UFSCar e, atualmente, é Doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO).
Paulo Celso da Silva é seu orientador no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura. Juntos eles produziram os verbetes ‘Comunicação rebelde’ e ‘Geografias da Comunicação’.
O primeiro verbete é um conceito que está sendo construído pelos pesquisadores para explicar ações de pessoas ‘comuns’, mas que se contrapõem ao estabelecido pelo status quo. A ação em si é uma comunicação de contraposição e, portanto, rebelde. Por comunicação rebelde, entendem-se os comportamentos de desafio, resistência ou oposição a autoridades, normas sociais ou convenções estabelecidas. Mesmo que de maneira inconsciente, somente pelo exercício de ‘existir’, enquanto ser produtor de cultura, símbolos e códigos, essas práticas são rebeldes.
Adilene Ferreira C. Cavalheiro
Adilene Ferreira Carvalho Cavalheiro, que também atuou como professora da rede pública municipal de Porto Feliz até 2009, é Mestre em Educação pela UFSCar e Doutoranda também em Educação pela mesma Universidade.
Atualmente trabalha como Orientadora Pedagógica na rede pública municipal de Sorocaba.
Sua orientadora no Doutorado é a professora Rosa Pinheiro. Juntas elas elaboraram o verbete ‘Comunicação Pedagógica’.
Caetano cantando Divino Veloso Ode à Alegria, Alegria Os astros lhe são guia O mundo é perigoso Nos acordes da sinfonia! Caetano Maravilhoso. Cantando o Caetano Cai tanto o sol quanto a chuva No céu de Sampa No Planalto da Rampa Na fina estampa… Caetano cantando Divino Veloso Caetano Maravilhoso.
Carlos Carvalho Cavalheiro
Uma roda que gira, mas segue imutável
Elaine dos Santos: ‘Uma roda que gira, mas segue imutável’
Elaine dos SantosImagem do Canva– 30 de abril de 2025, às 10h
Recentemente, tive a oportunidade de conversar com um professor da disciplina da História e pesquisador da ocupação espanhola e portuguesa no Rio Grande do Sul, estado da federação no qual resido e conheço parte da História, porque a Literatura tem-na representado em diferentes obras.
Na escola, entrelinhas, parecem-nos afirmar que o estado mais meridional do Brasil sempre foi território português, desde que Pedro Álvares Cabral chegou à Bahia em 1500 e, claro, não fomos acostumados a questionar essas informações dadas como verdadeiras.
Não faz muito tempo, li postagens em redes sociais perguntando o motivo pelo qual não se ‘comemorava’ mais o dia do índio. Como escreveu Olavo Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas”, como desconheceis a Constituição Cidadã de 1988 e as escolhas dos povos originários do teu país? Ora, por que precisas ler, refletir, questionar, não é mesmo?
A grande obra romanesca que procura abarcar a História oficial sul-riograndense, fazendo-o do ponto de vista ficcional, é a trilogia de O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Contudo, o ponto de partida é a presença de tropeiros paulistas na região, destinados à preia do gado, isto é, caçar (talvez, laçar) e conduzir bois e mulas para as feiras no interior paulista, que se destinavam à venda de charque, bem como mulas para o transporte nas Minas Gerais, no tempo do apogeu da mineração.
Talvez sobre o período áureo de Vila Rica (atual município de Ouro Preto), tenhamos uma obra satírica que nos conceda uma visão menos formal, menos romanesca daqueles tempos. Trata-se de Cartas Chilenas, composta por diversos poemas dotados de extrema ironia, obra atribuída a Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo de Critilo, descrevendo as condições sociais, políticas, econômicas em Santiago do Chile, na verdade, Vila Rica, e os desmandos de seu administrador, Fanfarrão Minésio – o governador da Capitania de Minas Gerais – e a corrupção em seu governo. As Cartas são endereçadas a um interlocutor que residiria em Madri, Claudio Manoel da Costa, cujo pseudônimo era Doroteu.
Entretanto, retomando a conversa com o meu interlocutor versado em História, aprofundamo-nos no tema da violência que marcou a ocupação do Rio Grande do Sul. De novo, recorro à Literatura e ao conjunto de textos de Contos gauchescos, obra de Simões Lopes Neto, cujo narrador Blau Nunes não nos deixa esquecer que a violência estava presente nas guerras, mas também nas corridas de cancha reta, nos amores não correspondidos ou nas traições amorosas.
Esse tom belicoso, combativo, fez inúmera vítimas em solo gaúcho, independente da forma como a ficção o representasse.
No meu município, situado na região central do estado, há uma ponte em ruínas, cujas tábuas que uniam os pilares foram queimadas entre 1893 e 1895, num dos mais violentos enfrentamentos ocorridos nessas terras, a Revolução Federalista, também chamada Revolução da Degola, em que os adversários eram, de fato, degolados.
Necessariamente, essas conversas derivam para o mundo ocidental, que melhor conhecemos (ou achamos que conhecemos), afinal, Edward Said já nos ensinou que o Oriente é uma construção narrativa do Ocidente.
Quantas guerras estão em andamento no mundo? Quantas guerras temos conhecimento que estão em andamento no mundo hoje? Poucas pessoas sabem, mas há um território em algum lugar em que estão mulheres e filhos/filhas de homens, de diversas nacionalidades, que pertenciam ao Estado Islâmico e morreram, inclusive, em missões suicidas.
A questão é o que fazer com crianças e adolescentes ‘sem pátria’? Sim, a pátria de suas mães ou de seus pais teme recebê-los. As mães não querem apartar-se dos filhos. Eles configuram uma responsabilidade para os territórios que os abrigam. Esses espaços constituem algo semelhante a campos de concentração?
Finalizamos com o assunto que domina os noticiários. Incontáveis chacinas nos últimos 30 anos no Rio de Janeiro, mas o crime só cresce. A minha primeira lembrança de uma facção remonta à Falange Vermelha, na década de 1980, que se transformou em Comando Vermelho.
Achille Mbembe e sua necropolítica acabaram sendo a ‘explicação’, se é que ela existe, para a violência contemporânea – particularmente, no século XXI (21).
Lembrei-me que, em 1995, a escritora Patrícia Melo, publicou o livro O matador, que se tornou o filme O homem do ano, em 2003. O tema? Na mesma linha de Rubem Fonseca, a violência urbana. Maiquel, o protagonista, torna-se um criminoso brutal, aplaudido pela população, bem pago pelos mandantes dos crimes, até a sua derrocada, tornando-o vítima da mesma violência que ele protagonizava.
Cia Cria Mundos apresenta ‘Histórias com a Mafralda’ em escolas e espaços culturais de Sorocaba
Card do espetáculo ‘Histórias com a Mafralda‘Cena do espetáculo ‘Histórias com a Mafralda’ – Foto Divulgação
A CiaCria Mundos apresenta o espetáculo ‘Histórias com a Mafralda’, uma montagem lúdica e envolvente voltada para o público infantil, que mistura fantasia, humor e um toque de mistério. Na trama, a bruxinha Mafralda enfrenta uma missão especial: recuperar seu poder mágico de se transformar em animais. Para isso, ela precisa contar mil histórias, e falta apenas uma para completar o feitiço e recuperar seu encantamento!
Com a ajuda de três assistentes atrapalhados e bem-humorados, Mafralda convida as crianças a escolherem o livro que inspirará a última narrativa. A partir desse momento, objetos, adereços e bonecos ganham vida, transformando a contação em uma experiência teatral cheia de cor, humor e fantasia.
Estão no elenco: Maria Helena Barbosa, Ivanise de Carlo e Júlio Scandolo, somando a eles o músico Mauro Tanaka e o intérprete de libras João Mendes.
O projeto é contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba – LINC/2014 e realiza apresentações gratuitas em diferentes pontos da cidade, levando arte, imaginação e poesia às escolas e espaços culturais.
Programação:
05/11 – Escola Municipal Wanderlei Acca Sessões às 8h e 13h Rua Cervantes, 678 – Vila Assis
07/11 – Biblioteca Municipal de Sorocaba Sessões às 10h e 14h Rua Ministro Coqueijo Costa, 180 – Alto da Boa Vista
11/11 – CEI 57 João Salerno Engenheiro Sessões às 10h e 14h Rua José Virgílio da Silva, 307 – Júlio de Mesquita Filho
12/11 – E.M. Professor Oswaldo de Oliveira Sessões às 10h e 14h Rua Flor do Carvalho, 929 – Éden
14/11 – Céu das Artes Sessões às 11h e 14h Rua Washington Pensa, 969 – Jardim Santa Cláudia
Uma experiência encantadora para crianças e adultos, que convida todos a redescobrirem o prazer de ouvir e contar histórias!
Silêncio. É nele que o amor se reconhece. Não no grito, nem no toque, mas naquilo que pulsa quando o mundo cala. O silêncio é um corpo que respira entre dois corações — um sopro antigo, herdado da terra.
Sou mulher feita de luz e sombra, como a árvore que recorda o chão e ainda assim deseja o céu. A minha pele carrega memórias de séculos, areias de mulheres que dançaram sobre a mesma dor e esperança. Em mim, há o sangue das que não se ajoelharam e a ternura das que ensinaram o perdão com o olhar.
Tu me olhas, e em teus olhos reconheço a ancestralidade da noite. Há um continente inteiro entre nós — mas o amor atravessa oceanos invisíveis. Teu silêncio me fala em língua de tambores, onde cada batida é um nome, cada pausa, uma oração.
Amo-te não como quem possui, mas como quem devolve ao universo o que era dele. Teu corpo é território e templo, é tambor e travessia. Quando te toco, não busco a carne: procuro a lembrança da vida.
O amor é uma forma de resistência. Ser mulher negra é guardar dentro do peito a geografia inteira do tempo — é ser pátria e poema, vento e raiz, voz e eco.
E se o destino me reduzir em cinzas, como temeu Senghor, que minhas cinzas fertilizem o solo da ternura. Que minhas palavras cresçam como flores negras sobre o medo, e que cada pétala diga: “Eu amei, e por isso vivi”.
Seria una inmoralidad de mi parte si me negara a relatar los extraordinarios acontecimientos que he tenido la fortuna de contemplar durante todo este tiempo.Todos saben que mi humilde condición de foco no me permite más que el silencioso lenguaje de la luz pero aún así debo confesar que algunos amigos me han ayudado a expresar mis visiones a través de la palabra.
Cierto día precisamente el de mi nacimiento, sentí que me cegaba una luz más potente que la del sol una gran turbación se apoderó de mí por que pensé que era el mismísimo Satán que me arrojaba a su precipicio de fuego, pero fue grande mi sorpresa al descubrir que una mano semejante a la de un mono me enroscaba ferozmente en una especie de tubo cubierto por una sombrilla celeste “Oh Dios ¿Dónde me encuentro?” exclamé. Inmediatamente comprendí que esa encandiladora luz provenía de mí mismo.
Miré con recelo la habitación: era ciertamente el cuarto de un niño, sobre la cómoda de pino habían colocado numerosos adornos infantiles: un pequeño Chihuahua de yeso, el casco de una antigua locomotora y una espada de juguete; pero lo que llamó particularmente mi atención fue una cajita de música que estaba ubicada en el lado superior derecho de la cómoda. No era justamente un objeto infantil, sino que por el contrario tenía un aire arcaico semejante al de una preciada pieza de museo.
Al mirar hacia la cama del niño descubrí la engolada imagen de un ángel, su rostro de porcelana fina destellaba una expresión amanerada, abullonadas mangas de seda y alas doradas que le daban un cierto aire carnavalesco.
El ángel convencido de su estatus divino aseveró “El señor te ha mandado”.Indignado respondí:
-¿Qué sabes tú de mi origen?-
-Ciertamente el señor te ha mandado- repitió el ángel, puesto que hace tanto tiempo que estamos en la más profunda de las tinieblas.
-Una semana exactamente- chilló una vocecita…y para ser precisa prosiguió, -exactamente una semana, nueve horas, 3 minutos y 18 segundos-. Una calculadora abría su bocota mientras sus teclas se movían con una rapidez indescriptible.
El ángel prosiguió-Sólo la luz es hija de los grandes acontecimientos, y por cierto si la vista no me engaña eres una perfecta fuente de luz, y leído ya está en los antiguos libros que día llegará en que solo del señor brote la luz divina-.
No había mucho que decir, aquel ángel era un perfecto mojigato, obviamente nunca había estudiado nada de ciencia, y peregrinas fantasmagorías medievales nublaban su pobre inteligencia.
– No he venido por mi voluntad- dije, me han enroscado a este tubo sin pedirme permiso y si se me he puesto a alumbrar no ha sido más que una fortuita consecuencia de decisiones ajenas-.
En ese momento una dulce melodía interrumpió nuestra disertación, yo ya estaba poniéndome molesto con tanta cháchara, cuando aquella música se interpuso entre nosotros, era un delicado sonido que deslumbró la habitación con el Nocturno de Chopín. La vieja caja de música… Todos se quedaron en silencio, el ángel juntó sus manos poniendo los ojos en blanco, la espada de juguete emitió un leve destello, el perrito de yeso cerró los ojos y la calculadora detuvo su incesante tecleo. Hasta la última nota un respetuoso silencio detuvo el tiempo en aquella habitación. A poco de terminar, una voz cascada dijo entre suspiros:
-Años he estado escuchando estas inútiles contiendas, y mi ancianidad, me ha dado el privilegio de diferenciar lo inútil de lo práctico y por cierto que no hay nada más inútil que una discusión sin provecho. Nadie se atrevió a replicar, la antigua caja de música era una reliquia familiar y tenía autoridad suficiente como para hacer callar a todos aquellos que osaran contradecir sus palabras. Me invadió un extraño sentimiento de respeto y no opuse resistencia a sus palabras.
-Y tú- dijo dirigiéndose a mi-No tienes idea alguna de la inmensa tristeza que nos invade en vísperas de esta nueva Navidad-
¡Caramba! yo tan poco avezado en las practicas de las ceremonias humanas, ni siquiera comprendía a qué podría referirse con “Navidad”.
Tal vez en pocos días todos terminemos en el viejo tacho de los desperdicios, ya que nuestro pequeño amo no estará más aquí para cuidarnos.
-Nuestro pequeño amo?
– Oh sí -prosiguió la cajita de música ya no puedo tocar mis bellos valses, sólo salen de mi corazón las más tristes melodías. Nuestro niño ya no vivirá con nosotros-.
Y calló al instante pues unos pasos se oyeron en el pasillo y pronto la puerta de la habitación se abrió.
Entonces vi. entrar a un niño pequeño de la mano de su madre; no tendría mas de siete años, su cabello castaño, y sus ojos, ah, sus ojos, me llamaron la atención, fijos extrañamente fijos, no sé posaron en, mí, por el contrario, su mano delicada iba tocando los bordes de los muebles, acariciando las cosas como si a través de ellas pudiera comprender el mundo que lo rodeaba.
– Está ciego- Me susurro el ángel -un mal de nacimiento jamás ha visto un color. Para él ,rojo , azul , dorado, el verde de los árboles son simples palabras que repite sin comprender.
-Entonces no puedo serle útil en ningún sentido -dije y sentí un raro vuelco en mi corazón.
-Existen los milagros – volvió a susurrar el ángel -en San Lucas… dice que…
_ ¡Chist!-le interrumpió la cajita de música – no niego que los milagros existan pero no debes hablar con tanta seguridad de aquello que desde el principio de los tiempos se nos presenta como un misterio-.
_Yo no creo que haya demasiado misterio- agregué no sin pesar -es una cuestión claramente científica, tengo ciertos circuitos que… bueno… cuando estos dejen de funcionar yo también dejaré de existir –
El ángel me miró con desdén
-El pensamiento positivista ha llevado a la ruina el corazón del hombre-.
-¡Chist!- Interrumpió la cajita; El niño acababa de acostarse aferrado a su peluche, un osito celeste al que abrazaba, la madre se había retirado y todos observamos consternados como caían lágrimas de sus ojitos sin vida.
-Lo van a internar en una escuela para niños ciegos- aclaró la cajita de música.
-. Eso es una Injusticia- se indignó la espada de juguete -tendrán que vérsela conmigo si lo hacen-.
-Es un sacrilegio acotó el ángel; La calculadora se puso a teclear nerviosamente los días exactos que restaban para dicho acontecimiento. El perrito de yeso frunció el hocico en señal de desaprobación.
Otra vez se sintieron pasos en el pasillo,la puerta volvió a abrirse, la madre entró, suavemente besó al niño en la frente, lo arropó y me apagó.
En el silencio de la casa sólo se oían los leves quejidos del niño. Sentí una honda tristeza: cuan inútil era mi luz para aquel pequeño “¿cual era entonces el sentido de alumbrar en vano?”me dije y mi vida me pareció por completo absurda y miserable. El ángel seguía observándome con desdén pero ya no me irritaba por el contrario, talvez de algún modo lo tendría merecido.
Así fueron pasando los días en vísperas de Navidad, el ángel me relató puntillosamente el motivo de cada una de estas fiestas, supe que se festejaba el nacimiento de un niño, un pequeño que había nacido para dar luz y esperanzas a los hombres: insultante me pareció aquel relato cada vez que observaba al pequeño aferrase a su osito de peluche derramando lágrimas en sus ojitos muertos, la cajita comenzó anotar mi pesadumbre y me consoló diciendo: “Los ciegos llevan la luz en sus manos”.
“Pobres palabras sin sentido” me dije, “estos sólo piensan en el futuro que les espera cuando el cuarto quede desalojado ,nadie siente con sinceridad la tristeza de un niño que nunca ha podido contemplar la sinfonía infinita de la luz, el cristal que desmiembra los colores. “Tal vez es necesario haber nacido luz para sentir el exacto peso de las sombras me dije”.Y ya no pude pensar en otra cosa.
Tal vez sea por la carga de mis pensamientos o por algún misterio que esconde, después de todo, la existencia de las cosas, que poco a poco empecé a debilitarme.
Una mañana me desperté sobresaltado, se habían olvidado de apagarme y sentí que dentro de mi cuerpo, ese pequeño filamento que es el corazón de las lámparas, comenzaba a parpadear.
Me dije que era el desgaste de una noche de descuido.
Lo cierto es que algo comenzó a cambiar de extraordinaria manera. ¿Lo notarían el ángel, la espada, el perrito, la caja de música y la obcecada calculadora? consideré que no.
El caso es que, aquella noche, al llegar a su habitación, el niño abrazó a su peluche sin llorar, después vi que por primera vez sus ojos se fijaban en mí, quedé inmóvil y debo admitir que me emocioné, traté de darme fuerza para brillar aun más, entonces el niño sonrió y sus ojos parpadearon por primera vez.
Estaba frente a las puertas de un misterio… quién podría asegurarlo.
Sea como fuese, la cuestión es que a la tarde siguiente decidí repetir la misma ceremonia, mi pequeño fusible me quemaba el cuerpo de vidrio pero eso no me importó, vi al niño parpadear otra vez y después sonreír, luego lo observé levantarse casi sin rozar los muebles y sentarse junto a su escritorio acariciando su espada de juguete.
Antes de dormir el pequeño y su osito hablaron en secreto, nadie supo nunca que se dijeron.
Y tal vez nunca pueda saberse.
El caso es que la tercera tarde, me sentí sumamente débil; consideré que estaba enfermo pero el niño alzó una mirada suplicante hacia mí y no pude menos que tensar mi fuerza hasta brillar de un modo que jamás hubiera imaginado conseguir. El pequeño parpadeó alegremente, se levantó de un salto y salió de la habitación, entonces sentí una gran debilidad, un cansancio mortal se apoderó de mi ser y el último parpadeo fue el llamado de las sombras, me extinguí como una pequeña vela en fin de su mecha.
EPÏLOGO
Han pasado tres días desde entonces: hoy es Navidad.
Junto al árbol poblado de borlas y guirnaldas, el niño coloca las luces cuidadosamente.
Sus padres se aproximan y lo abrazan repitiendo incansablemente que aquel es un verdadero regalo de Dios.
Al ángel lo han puesto junto al pesebre, inflamado de orgullo, éste recita el evangelio según San Lucas. La cajita de música está sobre la mesa de los regalos y entona un alegre vals de Strauss. El niño ha traído sus juguetes preferidos, la espada late orgullosa en su mano. El perrito de yeso abre los ojos oferente con su mejor cara de adorno. La calculadora anota la fecha del gran acontecimiento. “El pequeño ha recuperado la vista exactamente dos horas antes de la mañana de Navidad”:
Un milagro perfecto al tono del más esperanzado cuento de hadas.
Sólo resta agregar un pequeño detalle:
En el tacho de los desperdicios, mas allá de los fulgores y las repetidas plegarias, sólo hay un habitante: el foquito,
Raimundo Campos Filho, Renata Barcellos e Jorge Eduardo Magalhães
A maçonaria nasceu como organização de ajuda mútua e, ao longo do tempo, constituiu-se também como espaço de sociabilidade, oferecendo rede de apoio político, social e simbólico a seus membros e à sociedade. A maçonaria moderna surgiu em 1717, na Inglaterra, com a fundação da Grande Loja de Londres, marcando a transição das guildas de pedreiros medievais (maçonaria “operativa”) para uma sociedade filosófica e filantrópica.
Por convenção, muitos pesquisadores do tema adotaram como marcador histórico maçônico a Constituição de Anderson (elaborada na segunda metade do século XVIII). O documento é um compilado de registros maçônicos que reúne informações relativas aos direitos e deveres dos iniciados. A Constituição de Anderson regula os Franco-Maçons desde 1723 e é considerado o principal documento e a base legal da Maçonaria Especulativa que, aos poucos, foi substituindo os preceitos tradicionais que até aquele momento regulavam as atividades da Maçonaria Operativa.
Embora os autores brasileiros não tenham criado personagens abertamente maçons com frequência, a temática e os ideais da maçonaria influenciaram o contexto histórico no qual as Literaturas Brasileiras foram produzidas, principalmente no período do Império. Escritores como Machado de Assis e Jorge Amado mesmo não sendo comprovado o vínculo como maçons, suas obras e contextos estão relacionados ao ambiente cultural no qual a maçonaria se desenvolveu no Brasil. Sendo assim, no que se refereao Machado de Assis: trata-se de um dos maiores mistérios das Literaturas Brasileiras. Não há um documento que comprove a iniciação do escritor. Entretanto, há evidências de que Machado era um profundo conhecedor ou um ‘maçom sem avental’. Obras como Esaú e Jacó, com seus personagens e a tábua de logosofia, são repletos de simbolismo maçônico. Além disso, ele era amigo íntimo de maçons notórios, como o Visconde do Rio Branco.
O bruxo do Cosme Velho, escritor brasileiro, considerado por muitos, o maior nome das Literatura Brasileiras. Ele escreveu romances, contos e crônicas. Em uma série denominadas “Balas de Estalo” (1883), escritas sob o pseudônimo de “Lélio”, ele conta que recebeu uma correspondência remetida pela Maçonaria (correspondència do Grande Oriente do Brasil). Como considerou “muito estranho” a forma da escrita em abreviaturas, este escreve:
“Como por uma grat∴ sup∴ Suponho que o leit∴ não é maç∴ Não me dig∴ que é, porque não prec∴ que não seja, para saber se, não sendo, recebeu também uma folh∴ cor de tijolo, contendo os estat∴ de uma Assoc∴ de Benf∴ e Previsão do Gr∴ Or∴ do Br∴ … – [… ] Assim, por exempl∴ o § 8 do art. III diz que farão parte dos fundos da assoc∴ “todos os metais e mais valores existentes nas oficinas que, por qualquer motivo, abaterem colunas”. Eu suponho que todos os maç∴ sabem o que isto quer dizer; mas, em suma, eu não sou maç∴ e, se me mandaram…”.
Já o poeta dos escravos, Castro Alves, emprestou sua genialidade à causa da abolição, um ideal fortemente defendido pela Maçonaria no Brasil. Sua participação na irmandade reforçou seu compromisso com a liberdade e a igualdade. Registros históricos apontam sua iniciação na “Loja Amizade e Segredo” em São Paulo.
Autores maçons:
Além da representação em obras de ficção, a própria biografia de escritores brasileiros pode ter conexões com a maçonaria, mesmo que a afiliação não se reflita diretamente em seus personagens.
Da Camino: maior escritor Maçônico Brasileiro – Eterno Mestre Maçom Gaúcho. De juiz a escritor, Da Camino é reconhecido como uma das maiores figuras da Maçonaria brasileira, deixando um vasto legado literário e uma carreira que inspirou gerações. Com mais de 60 obras publicadas, muitas delas essenciais para o estudo da Maçonaria. Entre suas mais renomadas publicações, destacam-se títulos como “A Maçonaria”, “O Maçom e a Intuição”, “Dicionário Filosófico de Maçonaria” e “Simbolismo do 1º Grau – Aprendiz”. Seu trabalho refletia sua profunda compreensão dos mistérios maçônicos, da ritualística e da filosofia que permeia a prática maçônica. Sua produção literária continua a ser um importante referencial para estudiosos e praticantes da Maçonaria no Brasil e no mundo.
Joaquim Nabuco: o escritor abolicionista e diplomata foi maçom. Apesar disso, o foco de sua obra literária e política era o abolicionismo, não a maçonaria.
José do Patrocínio: jornalista e escritor, foi uma figura importante do movimento abolicionista no Brasil.
Luiz Gama: o poeta e advogado abolicionista também era maçom. Seus textos e poemas defendiam a causa abolicionista e os direitos civis, ideais que eram compatíveis com a atuação de alguns setores da maçonaria.
Rui Barbosa: advogado, jornalista e escritor, é uma figura central na história do Brasil e membro da maçonaria.
Tomás Antonio Gonzaga: poeta e jurista, autor de “Marília de Dirceu”, é considerado um dos grandes nomes do Arcadismo brasileiro e, como muitos de sua época, era maçom.
Zildo Pacheco: um dos grandes nomes da literatura maçônica no Brasil. O escritor ocupa a cadeira nº 7 da Academia Maçônica Brasileira. Autor de diversas obras que abordam a filosofia, a história e os ritos da Maçonaria. Seus trabalhos, como o Volume XXVI “Explorando a Filosofia da Ordem”, são considerados importantes para o estudo e aprofundamento dos irmãos maçons.
Comparação com a literatura estrangeira
A ausência de personagens maçons explícitos nas Literaturas Brasileiras contrasta com a abordagem de autores estrangeiros, que, frequentemente, incorporavam o tema em suas obras.
Alexander Pushkin: maior poeta da Rússia, considerado o fundador da literatura russa moderna, foi iniciado na Maçonaria durante seu exílio em Quichinev. Seus ideais de liberdade e seu espírito rebelde encontraram eco nos círculos maçônicos, que na época eram vistos com suspeita pelo regime czarista. Há registros de sua filiação à Loja “Ovídio nº 25”, em Quichinev (hoje na Moldávia).
Arthur Conan Doyle: criador do detetive mais lógico da literatura, Sherlock Holmes, era um homem fascinado pelo misticismo e pela espiritualidade. Conan Doyle foi um maçom ativo e via na ordem uma irmandade que promovia a moralidade e a caridade. Embora Holmes seja um personagem puramente racional, a vida de seu criador era rica em interesses esotéricos. Registros da “Phoenix Lodge No. 257” em Southsea, Inglaterra e diferentes biografias sobre o autor sustentam sua participação na maçonaria.
Johann Wolfgang von Goethe: gênio alemão, autor de Fausto, foi um maçom ativo e dedicado. Ele via na ordem uma via para o aperfeiçoamento moral e espiritual do ser humano. Muitos analistas veem um profundo simbolismo maçônico em suas obras, especialmente em Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, que descreve a jornada de um jovem em busca de conhecimento e autodesenvolvimento. Registros da Loja “Amalia” em Weimar, Alemanha, indicam que Goethe foi membro a partir de 1780.
Mark Twain: O icônico escritor americano, autor de As Aventuras de Huckleberry Finn, foi um maçom durante boa parte de sua vida. Embora tenha se afastado em seus últimos anos, suas cartas e discursos mostram familiaridade com os ritos e ideais da ordem. Ele foi membro da Loja “Polar Star Lodge No. 79” no Missouri.
Oscar Wilde: O brilhante e controverso autor de O Retrato de Dorian Gray teve uma passagem pela Maçonaria durante seus anos de estudo. Ele foi iniciado em Oxford e parece ter se interessado pelos aspectos ritualísticos e estéticos da ordem, embora sua participação não tenha sido duradoura. Registros da “Apollo University Lodge No. 357” da Universidade de Oxford tratam de sua participação na Ordem.
Rudyard Kipling e Leo Tolstoy: escritores estrangeiros são conhecidos por explorar o ritual e o simbolismo maçônico em obras como O Homem Que Queria Ser Rei e Guerra e Paz.
Voltaire: filósofo e escritor francês, um dos maiores nomes do Iluminismo, foi iniciado na Maçonaria em seus últimos dias. Sua iniciação foi um evento lendário, com a presença de figuras como Benjamin Franklin. Para Voltaire, a Maçonaria representava a materialização dos ideais de liberdade, tolerância e combate ao fanatismo que ele defendeu por toda a vida. Registros históricos da Loja “Les Neuf Sœurs” (As Nove Irmãs) em Paris, confirmam sua iniciação em 7 de abril de 1778.
Essa distinção reflete a particularidade da maçonaria no Brasil, que teve um papel mais discreto na cultura popular. Mas influente na política e na história, em contraste com a maneira como a irmandade foi retratada em outros países. Existem pesquisadoras e autoras que escrevem sobre a Maçonaria, como Eliane Lucia Colussi, autora do livro A maçonaria brasileira no século XIX. Na atualidade, há escritores maçom como:
Zara Paim de Assis (membro da Ordem dos Capelões, presidente da Academia Mundial pela Paz, Letras e Artes, do Instituto Brasileiro de Culturas internacionais. Membro de diversas Academias de Letras, já obteve prêmios literários. Publicou poemas, crônicas, ensaios, artigos de opinião em antologias e periódicos. Ensaios em Coletâneas brasileiras, portuguesas, francesas e italianas) que não aborda questões referentes à maçonaria. Em 2013, escreveu o ensaio “Gonçalves Dias”, o Romantismo e seus poemas amorosos”. Em 2016, o ensaio “José Bonifácio de Andrada e Silva” com o título: “Sesquicentário de Euclides da Cunha – Esboço de sua trajetória”…
E Jorge Eduardo Magalhães (membro da Grande Loja: Baden Powell VII 35, professor, ensaísta, romancista, contista, cronista e autor teatral, colunista do Portal Polo de Notícias e apresentador do quadro Baú do Samba, programa SAMBA À VERA. Fomentador da Cultura Carioca, é diretor da harmonia da Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial membro de diversas Academias de Letras…) escreve artigos e já ganhou concursos Literários, por exemplo, com o artigo Graciliano Ramos e José Lins do Rego: adaptações para o cinema e a televisão, texto teatral Uma janela para Euclides…