Lina Veira: ‘Sessões de terapia nos dias da semana’
Lina VeiraImagem do Canva, com texto de Lina Veira
— Como você está se sentindo?
Outro dia constatei que nossa aventura existencial é incrivelmente desumana. Silenciosamente tudo começa no útero de nossa mãe; lá passamos a ter muitas caras, gostos e a assumir uma variedade de modelitos e comportamentos que apenas ouvimos; detalhe: não são nossos.
É um tempo, digamos, de muitas informações e poucas conclusões sobre nós mesmos, sobre nossa vida. Afinal, ninguém nos conhece ainda. Mas superamos com um pouco de psicologia ao crescer e, digamos, com uma boa leitura e amigos. Depois de muitas transformações individuais, crescemos, e quase adultos, percebemos que nada durante toda nossa vida é tão nosso e tão desmascarado quanto a expressão do pensamento, quanto o pensar. Nele somos nós mesmos, estamos nus. Somos nós!
Viva a justiça da existência humana! Eu posso ser eu mesma pensando! Que maravilha! E assim, embora nada nos aquiete ou nenhuma resposta nos convença, dia a dia o sol nasce e se põe, dia a dia continuamos a ouvir, a obedecer e aceitar as leis da física, as leis jurídicas, as leis da ciência, as leis de nossos pais! Tudo é como o outro deseja, como o pai sonha, como a mãe quer, como os colegas aceitam, como as normas e diretrizes da sociedade determina.
Tudo continua como no ventre de nossa mãe. Pensamentos que vêm e vão, que passeiam por dentro e fora de nós como um mar agitado ao vento, confuso de enigmas e sensações. Parece que todo desejo nos é roubado desde o nascer — o livre arbítrio de exercer nossas verdades — os nossos gostos, a nossa miséria, a nossa existência e segredos. Desde o começo é assim, tudo nos é imposto, inventado, controlado.
Literalmente tudo nos é forçado, combinado, feito de estatutos e decretos que amenizam tudo, menos o que sentimos. Vamos vivendo como se estivéssemos dentro de uma bolha, prontos para explodir dentro de nós mesmos, procurando respirar num mundo estranho onde cada um é obrigado a fazer a sua parte, sem nunca ter sido inteiro.
Escrito em 2018, em minhas sessões reais de terapia.
Clayton Alexandre Zocarato: ‘Entre o céu e o fuzil’
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do Grok
O sol nasce cedo demais no alto do morro. A luz bate nas lajes como quem cutuca um ferido que ainda dorme.
Lá embaixo, a cidade desperta com café passado e trânsito engarrafado; aqui em cima, o dia começa com o eco metálico do primeiro tiro da manhã.
Ninguém se espanta. A vizinhança aprendeu a distinguir o calibre pelo som.
Na viela da Dona Juraci, o portão ainda guarda as marcas de bala da semana passada. Ela varre o chão como quem reza.
Diz que limpar o sangue do menino Caíque foi o pior trabalho da vida — e olha que ela já trabalhou em casa de madame, limpando sujeira de festa e de culpa.
Agora, o pó é outro: não o do tapete, mas o que corre pelas veias dos meninos do beco, embalado em sacolés de cinquenta.
O cheiro de café se mistura ao da pólvora.
Na birosca do Zeca, a televisão fala de política e de corrupção — palavras grandes demais pra quem vive espremido entre o morro e o esquecimento.
“O problema do Brasil é a violência”, diz o âncora, engomado e seguro atrás do vidro. Aqui, a frase soa como piada.
A violência não é o problema — é o ar que se respira. O problema é não poder parar de respirar.
As crianças jogam bola no campinho de terra.
A trave é de cano velho, a bola, remendada com fita isolante. Lá em cima, dois homens observam. Estão armados, mas parecem entediados.
Um deles, de apelido Muringa, mastiga um chiclete e diz que queria ter sido jogador também.
O outro ri, dizendo que no morro, quem chuta bola demais acaba chutado pela vida.
Eles guardam o território, o ‘movimento’, a fronteira invisível que separa o asfalto do abismo.
E é curioso: aqui, as fronteiras são feitas de medo, não de muros. Todo mundo sabe até onde pode ir. A linha entre o ‘deles’ e o ‘nosso‘ é mais sagrada que mandamento.
Cruzar o beco errado é cometer pecado mortal. Mas, diferentemente da Bíblia, aqui o perdão não vem depois da confissão — vem com chumbo.
No domingo, o bar do Valdir enche.
O samba come solto, o churrasco fumaça o ar e, por um instante, o morro esquece que está sitiado.
Dona Lúcia dança, o pequeno Jonatas brinca de vender cerveja, e o riso corre solto. Até que o rádio chiado de um dos rapazes estala.
Uma mensagem curta, sussurrada no chiado das ondas: “Avisaram que o caveirão tá subindo”. O samba morre no mesmo acorde.
O silêncio que segue é pesado como caixão.
Cada um corre pra sua toca, cada olhar procura refúgio.
Os traficantes recolhem os fuzis e as garrafas, num balé ensaiado. O morro se transforma em trincheira. E o menino Jonatas, aquele da cerveja, fica ali, perdido, sem saber pra onde correr.
Quando o primeiro estampido vem, ele se joga no chão, instintivamente. E aprende — cedo demais — que no morro a vida se mede em segundos de reação.
Depois do tiroteio, o cheiro de gás lacrimogêneo desce como névoa. Os helicópteros ainda rondam, cuspindo luz sobre telhados.
O locutor do rádio, no asfalto, diz que “a operação foi um sucesso”. Aqui, o sucesso tem outro nome: sobreviver.
Na segunda-feira, o comércio reabre. Zeca limpa a vitrine, ajeita os engradados, finge normalidade.
A normalidade é uma armadura — quem tira, morre.
As crianças voltam à escola, mas o professor falta. Dizem que ficou preso na Linha Amarela, por causa da operação.
A aula vira recreio improvisado. Uma menina desenha o céu, mas o pinta de cinza.
– Por quê, Clara – pergunta Zeca, curioso.
– Porque azul não existe mais – responde ela, sem levantar os olhos.
O azul virou lenda. O morro vive em tons de concreto, ferrugem e medo.
O céu, quando não está coberto de fumaça, parece longe demais, quase uma ofensa.
E é nesse cenário que o cotidiano insiste em florescer. Dona Juraci continua vendendo quentinha — arroz, feijão, carne moída e esperança.
O gás acabou, mas ela dá um jeito. Muringa passa na porta, armado, e compra uma. Diz “bom dia” com um sorriso tímido, como se pedisse desculpa por existir.
E talvez peça mesmo. Aqui, todo mundo deve alguma coisa a alguém — e ninguém sabe exatamente o quê.
De vez em quando, um corpo desce o morro, enrolado em lençol.
A TV não mostra, o jornal não imprime. Só quem carrega o peso é o povo, que segue o cortejo em silêncio, enquanto o funk de algum barraco explode alto — não por desrespeito, mas por sobrevivência.
O som alto é o escudo contra o choro.
À noite, o morro se ilumina com luzes trêmulas: lâmpadas penduradas em fios roubados, velas acesas em altares improvisados, cigarros brilhando nas sombras.
Lá de cima, a cidade brilha como um outro planeta, inacessível.
O contraste é cruel: o luxo iluminado pela miséria.
E, ainda assim, há vida — pulsando, teimosa, quente.
Dona Juraci reza. Pede paz, mas já nem sabe o que isso quer dizer. Muringa observa o horizonte e pensa se um dia vai poder andar na praia sem medo de ser preso. O menino Jonatas dorme abraçado num carrinho de brinquedo — o único que sobrou inteiro. E o som dos tiros, mesmo quando cessam, continuam ecoando dentro de cada um.
No dia seguinte, o noticiário fala de “mais uma operação bem-sucedida”. A cidade aplaude, aplaude de longe, de longe onde o sangue não salpica.
“Bandido bom é bandido morto”, dizem. Mas esquecem que, aqui no morro, bandido e vítima moram na mesma casa, dividem o mesmo prato, o mesmo sobrenome.
Porque o que chamam de ‘violência’ é, muitas vezes, o nome que dão à pobreza quando ela resolve gritar.
E o morro grita, sim. Grita com funk, com tiro, com prece, com festa.
Grita pra não ser apagado. Grita porque o silêncio seria o fim.
No fim da tarde, o sol se põe devagar sobre o Rio, tingindo o céu de vermelho. O mesmo vermelho que mancha o chão do beco, o mesmo que tinge a bandeira da esperança.
A cidade é linda — dizem os cartões-postais. Mas ninguém tira foto do lado de cá.
E se tirasse, talvez não coubesse em moldura: uma cidade partida, onde o fuzil é rei, o medo é súdito e a vida, mera sobrevivência.
Mas há algo que resiste — teimoso, desobediente — entre os becos e as balas.
É o amor, aquele mesmo, clandestino e corajoso.
Aquele que faz nascer criança em meio à guerra, que faz mãe lutar, que faz o morro inteiro dançar mesmo quando o ‘caveirão’ronda.
Talvez seja isso que o asfalto nunca entenda: que o morro, apesar de tudo, não é só tragédia.
É também vida, barulho, cor, improviso e fé.
É o território onde o impossível se acostumou a existir.
No fim da noite, quando o silêncio finalmente pousa, o vento traz o som distante de um tamborim. E alguém canta, baixinho, lá no alto:
“Enquanto houver sol, haverá esperança.”
A música sobe e desce pelas vielas, como um recado.
E o morro, cansado, mas vivo, responde com um sopro: “A gente ainda tá aqui.”
Osvaldo Manuel AlbertoImagem criada por IA do Grok
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que a vergonha tenha vergonha de nos envergonhar
Vamos nos amar para que as lutas sejam colectivas e tornem-se mais fáceis de vencer.
Vamos nos amar para que a soberba diminua e a petulância se esvazie, para compreender que tudo é vaidade.
Vamos nos amar para que não precisemos de justificar nada, para que a empatia e a solidariedade não sejam objectos das redes sociais motivados por likes, que sejam naturais e refrescantes como a brisa do mar no entardecer.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que a ciência se torne comum ao senso de todos os meros mortais, para que a pedra não pese sobre nós em forma de julgamento.
Vamos nos amar para que na presença ou na ausência os corações continuem verdejantes como a floricultura bem tratada.
Vamos nos amar para sentir menos dor, para ter paz, diluir qualquer peso que possa abalar a estrutura de uma consciência.
Vamos nos amar para que nem a dor, nem a doença e nem a morte possa importunar a criação dos nossos filhos. Mesmo quando o cerne é o corpo, em nada adianta proteger a carne quando o coração está em pedaços.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para juntos ultrapassarmos as intempéries calamitosas deste sistema, para juntos combatermos as armadilhas do passarinheiro. Para que a amizade perdure no tempo nessa caminhada efémera.
Vamos nos amar para evitar o empobrecimento da alma e o embrutecer do coração.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para não nos procurarmos quando já não é possível nos preocuparmos. Para evitar que morramos em vida. Para que a morte não signifique o fim, mas, tão somente, a etapa necessária que todos os seres viventes passarão.
Vamos nos amar. Vamos nos amar para que ainda que um de nós parta, parta seguro de que ficará a saudade, as lembranças positivas e que nenhum peso abale a estrutura de uma consciência costurada pelo amor.
Vamos nos amar para demostrar segurança, não porque é desejo dos outros, mas porque o comando interno assim está programado.
Vamos nos amar para dar de beber quem tem sede, para criar uma barreira intransponível e ouvir os gritos do silêncio!
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo ‘Jornalismo’
Diamantino BártoloImagem criada por IA da Meta
É ponto assente, entre os estudiosos da filosofia da imprensa, que o direito à informação é fundamental, numa sociedade plural e, com tal pressuposto, numa imprensa nacional é indispensável a existência de uma rede de delegados, ou correspondentes, em todo o país, e no estrangeiro, para que se possa ampliar a informação, não devendo nunca o jornalista impor a sua opinião, na medida em que: se por um lado, presumivelmente, poderá desagradar ao leitor, quantas vezes tão bem ou melhor preparado que o jornalista; por outro lado, é necessário salvaguardar o direito do leitor, à boa qualidade e rigor da informação.
Não é fácil para um jornalista obter informações, tantas vezes ocultadas por razões de vária ordem, mas, é fundamental não ignorar que a informação é, em determinadas circunstâncias, mais importante do que as suas próprias opiniões.
A especificidade do jornalista não reside no facto de escrever nos jornais; como não está, também, no facto de ter opiniões, nem de as exprimir, nem de modificar a sociedade mas, bem pelo contrário, a sua função social própria, é transmitir comunicações úteis, é uma tarefa universalista, porquanto ele deve, desde logo, captar os rumores da sociedade, dar sentido a esses rumores, transformá-los objetiva e isentamente em informação, em notícia, porque ele deixou de ser como que um “mago que sabe tudo”, para assumir o papel de especialista em comunicação, por isso, detentor de uma competência técnica nesta matéria.
Um aspeto importante é o que se prende com as facilidades que são concedidas, ou não, ao jornalista para chegar à fonte de informação. Tal obstáculo está diretamente relacionado com a natureza da notícia que pretende divulgar, o seu impacto social, económico, estratégico ou militar e, ainda, com a credibilidade informativa do Órgão de Comunicação que representa, e do reconhecimento público da sua própria idoneidade moral e deontológica.
Naturalmente que hoje em dia, o jornalista deve ter acesso às fontes de informação, todavia, devem ser sempre acautelados os factos que, pelo seu melindre, venham a contribuir para desinformação. O jornalista tem o direito, e a obrigação, de saber, contudo: saber é uma coisa; publicar é outra.
É correto pensar-se que o Poder necessita ao mesmo tempo: do segredo e da propaganda, pelo que se torna legítimo que não só os jornalistas, mas também o público, se esforcem pelo direito à informação, e exijam do Órgão respetivo, transparência, rigor, oportunidade, isenção e, acima de tudo, a salvaguarda da identidade nacional.
Venade/Caminha – Portugal, 2022
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal