Priscila Mancussi é condecorada com o Título de Cidadã Sorocabana em sessão solene repleta de arte e emoção
Priscila Mancussi
SOROCABA, SP – Em uma tarde marcada pela celebração da educação e das artes, a professora, poeta, ativista cultural e colunista do Jornal ROL, Priscila Mancussi foi oficialmente condecorada com o Título de Cidadã Sorocabana. A cerimônia ocorreu no dia 10 de abril de 2026, na Câmara Municipal de Sorocaba, por iniciativa do vereador Fábio Simoa, autor do projeto que reconhece a trajetória de dedicação da homenageada ao município.
Natural de Cubatão e residente em Sorocaba, Priscila consolidou sua história na cidade como professora da rede municipal de ensino e como uma das principais vozes da cena literária local. Atualmente presidente do coletivo Café & Arte em Movimento, sua atuação transcende as salas de aula, unindo pedagogia e fomento cultural.
Um Espetáculo de Homenagens Culturais
A solenidade foi enriquecida por um momento cultural vibrante, onde diversos artistas e amigos prestaram tributo à nova cidadã sorocabana:
Poesia: O público se emocionou com as interpretações de Josemir Lemos, com o poema “Borboletas”; da Poetisa da Luz, Shirley Ferro, com “A arte que abraça”; e de Ricco Cassiano, que apresentou “Às crianças pequeninas”.
Música e Dança: A harmonia musical ficou a cargo de Leonardo Andreh e Márcia Cassis, interpretando as canções “Colibri” e “Sonho Bonito”. A arte do movimento foi representada por Vânia Moreira e Jéssica Moreira na apresentação de dança “Vasto mundo”.
Audiovisual: Um vídeo comovente de quatro minutos trouxe mensagens de figuras importantes na trajetória de Priscila, como Simone Moisés, o embaixador da paz Romário Filho, Paulo Medrado e Cris Vaccarezza.
Agradecimentos e Reconhecimento
Em seu discurso, Priscila fez questão de destacar o apoio fundamental de sua rede de afeto e trabalho. Expressou gratidão especial ao diretor da E.E. Brigadeiro Tobias, Sérgio Armenio, por sua liderança e parceria na educação
No âmbito pessoal e artístico, a homenageada agradeceu o carinho de sua tia, Lilian Menezes, e de suas amigas e poetas Vânia Moreira e Cris Pimentel e sua esposa Renata Alexandre pelo apoio incondicional e permanente desde sempre, figuras constantes em sua caminhada.
”Este título é o reflexo de um trabalho coletivo. Agradeço imensamente ao vereador Fábio Simoa por esta honraria e a todos que acompanharam este momento tão especial, seja presencialmente ou através da transmissão pelo YouTube. Em especial pela presença ilustre do jornalista e escritor Sérgio Diniz, que vem acompanhando minha trajetória. Sorocaba é, agora e oficialmente, o meu lar e a minha inspiração,” declarou Priscila Mancussi.
Com a galeria repleta de amigos, familiares e membros do coletivo Café & Arte em Movimento, a Sessão Solene reafirmou o papel de Priscila como uma ponte essencial entre a educação pública e a produção artística independente em Sorocaba.
Alexander Anchía Vindas é um navegante de contos, microcontos e poesia, originário da Costa Rica – país considerado ‘mosaico vivo’ de natureza -, aportando no ROL!
Alexander Anchía Vindas
Alexander Anchía Vindas, natural de San José, Costa Rica, é escritor e professor universitário de Turismo e professor de espanhol como segunda língua em diversos contextos.
Embaixador do Círculo Universal da Paz. Embaixador da Palavra da Fundação Egidio Serrano.
Integrou os comitês editoriais das revistas literárias Dunamis (Peru) e Azay Art (Espanha). Traduziu poemas do poeta indiano Aschok Chakravarti do inglês para o espanhol. Publicou artigos acadêmicos nos periódicos de Línguas Modernas da Universidade da Costa Rica e no Repertório Americano.
Escreveu e publicou artigos acadêmicos na área literária, e alguns de seus poemas foram traduzidos para o romeno, mandarim e inglês.
Entre suas obras publicadas estão: Puentes Inconexos (contos, 2013) e a coletânea de poemas Retratos Elementales – El Hombre Mundano (2014). Entre suas obras, destacam-se a coletânea de poesia O Mistério Despertado em Você (2018) e o romance Apocalipse do Testamento de Dom Sixto (2017).
Em relação à produção literária, a coletânea de poesia Retratos Elementares foi semifinalista no Primeiro Concurso de Literatura de Fronteira, organizado pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) em seu campus no Texas. Em 2015, recebeu Menção Honrosa pelo poema “Origem” em um concurso organizado pela Associação La Carta e pelo Museu de Altino, na Itália.
Em 2016, participou do Encontro Mundial de Poetas: ‘Seguindo os Passos do Poeta’, realizado no norte do Chile. Também participou do Encontro de Poetas de Salamanca de 2018, dedicado ao 800º aniversário da Universidade de Salamanca, onde apresentou sua coletânea de poesia, O Mistério Despertado em Você.
Foi incluído na Enciclopédia Oral de Poesia pelo projeto Zaragoza Booksmovie.
Alexander inaugura sua colaboração no ROL com o poema Cobardia (Covardia), poema existencialista sobre a alienação de si mesmo.
Cobardia
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69e0fc9d-e8ec-83e9-bc46-66edc54b72d8
Hay un desconocido que evade mis preguntas Hay un desconocido que piensa por mí.
Hay una versión de mí más carnal y rústica que no acaba de aparecer.
Aunque vaya devotamente a toparlo a la entrada del crepúsculo. Pasa de mí, se burla porque no puedo ser él.
Quizás al morir, lo pongan en la misma caja. Quizás ni la consiga detener nuestro susto, cuando por fin desaparezca en mí aquél que nunca nació.
Mientras tanto trataré de encontrarlo cuando el whisky levante su espuma. Y en la interminable playa de la pregunta sólo quede yo.
Alexander Anchía Vindas
Covardia
Há um estranho que se esquiva das minhas perguntas.
Há um estranho que pensa por mim.
Há uma versão mais carnal e rústica de mim que nunca chega a aparecer.
Mesmo que eu vá devotamente encontrá-lo ao amanhecer do crepúsculo.
Ele me ignora, zomba de mim porque eu não posso ser ele.
Talvez quando eu morrer, o coloquem na mesma caixa.
Talvez nem mesmo o nosso medo seja capaz de impedi-lo, quando, finalmente, aquele que nunca nasceu desaparecer dentro de mim.
Enquanto isso, tentarei encontrá-lo quando o uísque formar sua espuma.
E na praia infinita da pergunta, só eu permanecerei.
(Inspirada na canção Please Forgive Me) Clayton A. ZocaratoImagem gerada pelo ChatGPT
Nem todo amor precisa continuar para permanecer. Alguns atravessam o tempo, mudam de forma… e ainda assim vivem dentro de nós.
Entre memórias, silêncios e reencontros, essa história revela que há sentimentos que não acabam — apenas aprendem a existir de outro jeito.
Havia algo nos anos 1990 que parecia suspenso no ar, como se o tempo respirasse mais devagar, permitindo que cada instante se impregnasse de significado.
As tardes eram longas, atravessadas por rádios chiando, fitas cassete rebobinadas com caneta e promessas que não sabiam ainda o peso que carregariam no futuro. Era uma época em que o mundo começava a se abrir, mas os sentimentos ainda eram guardados com uma espécie de pudor antigo, quase sagrado.
E foi nesse intervalo entre o analógico e o que viria depois que nasceu aquilo que jamais terminou de existir.
Ele lembra do primeiro olhar como quem recorda um sonho recorrente. Não havia nada de extraordinário na cena, exceto o modo como o coração decidiu interromper sua rotina e bater fora de compasso.
Era simples, quase banal, mas carregava uma densidade inexplicável. Talvez porque, naquela década, os encontros ainda não eram mediados por telas, e o acaso tinha mais autoridade do que qualquer algoritmo jamais teria.
Ela tinha um jeito de sorrir que parecia negar o peso do mundo. E ele, ainda imerso em dúvidas juvenis, encontrou naquele sorriso um tipo de abrigo que não sabia nomear.
Conversavam sobre tudo e nada, como se o tempo lhes fosse infinito. Falavam de filmes, de livros que talvez nunca leriam, de músicas que marcariam seus dias — e entre elas, uma em especial, que se infiltrava nas pausas do silêncio e nas lacunas do que não era dito.
“Please forgive me“, tocava baixo, quase como uma confissão que nenhum dos dois tinha coragem de fazer em voz alta.
E ali, entre versos que falavam de erro, arrependimento e amor persistente, eles construíam um território invisível, onde cada gesto ganhava um significado que o mundo exterior não compreendia.
Havia uma espécie de ingenuidade naquele vínculo, mas também uma profundidade que só os encontros verdadeiros carregam.
Porque, no fundo, amar nunca foi sobre saber — sempre foi sobre sentir.
Mas o tempo, esse escultor impiedoso, começou a intervir.
A década avançava, trazendo consigo suas mudanças. A modernidade insinuava-se nas pequenas coisas: novos aparelhos, novas formas de comunicação, novas urgências.
E com ela, vieram também as distâncias — não apenas geográficas, mas existenciais. Cada um seguiu um caminho que parecia inevitável, como se a vida tivesse decidido que aquele encontro pertencia mais à memória do que ao futuro.
Eles não brigaram. Não houve ruptura dramática. Apenas um afastamento lento, quase imperceptível, como o apagar de uma luz ao entardecer.
E talvez tenha sido isso que mais doeu: a ausência de um fim claro.
Porque aquilo que não se encerra continua existindo de alguma forma, insistindo em permanecer nos cantos da consciência.
Os anos passaram.
E com eles, vieram as responsabilidades, os erros, as escolhas que moldam quem nos tornamos. Ele construiu uma vida, como todos fazem. Trabalhou, amou outras vezes, errou outras tantas.
Mas havia sempre uma espécie de eco, uma lembrança persistente que surgia nos momentos mais inesperados. Um cheiro, uma música, um entardecer específico — e lá estava ela, intacta no tempo.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…“
A canção surgia como um portal. E não importava quantos anos tivessem passado, bastava ouvi-la para que tudo retornasse com uma nitidez quase cruel.
Não como saudade comum, mas como algo mais profundo — uma consciência de que certas conexões não obedecem às regras do tempo.
Ele começou a se perguntar se aquilo era amor ou apenas memória idealizada. Afinal, o que permanece não é necessariamente o que foi real, mas aquilo que escolhemos preservar.
No entanto, havia algo naquela lembrança que resistia à análise racional. Não era perfeita, não era romantizada demais — era simplesmente viva.
E então, num daqueles acasos que parecem ensaiados pelo próprio destino, eles se reencontraram.
Não foi como nos filmes. Não houve música ao fundo nem câmera lenta. Foi simples, quase comum. Um olhar que reconhece antes mesmo da razão compreender. Um silêncio carregado de tudo o que nunca foi dito. E, no entanto, havia ali uma estranha familiaridade, como se o tempo tivesse dado uma volta completa apenas para colocá-los novamente frente a frente.
Ela ainda sorria daquele mesmo jeito.
Mas havia algo diferente. Não no sorriso em si, mas na forma como ele o recebia. Antes, era descoberta.
Agora, era reconhecimento. E talvez essa seja a diferença fundamental entre o amor jovem e o amor que atravessa o tempo: o primeiro surpreende, o segundo confirma.
Sobre a vida, sobre os caminhos que seguiram, sobre o que perderam e o que encontraram. E em meio a essas palavras, havia uma corrente invisível que os conectava ao passado. Não como um peso, mas como uma base — algo que, de alguma forma, nunca deixou de existir.
Ele percebeu então que o tempo não havia apagado o que sentiram. Apenas havia transformado.
Porque o amor, quando verdadeiro, não precisa permanecer constante para continuar sendo real.
Ele pode mudar de forma, de intensidade, de presença — mas não desaparece completamente. Torna-se parte daquilo que somos, influenciando nossas escolhas, nossos medos, nossas esperanças.
E naquele reencontro, não havia mais a urgência dos anos 90, nem a ingenuidade dos primeiros sentimentos.
Havia algo mais profundo: uma aceitação tranquila do que foram e do que ainda poderiam ser, mesmo que de maneira diferente.
A música, inevitavelmente, voltou a surgir.
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Eles riram ao perceber como aquela canção ainda os atravessava. Não como antes, mas com uma nova camada de significado.
Antes, era promessa. Agora, era memória. E, de certa forma, também era reconciliação.
Porque talvez o amor não seja sobre permanecer juntos, mas sobre aquilo que permanece em nós, independentemente das circunstâncias.
Ao se despedirem, não houveram promessas grandiosas. Não houveram tentativas de recuperar o que o tempo já havia transformado.
Houve apenas um entendimento silencioso de que aquele encontro, mesmo interrompido, nunca foi em vão.
Ele seguiu seu caminho com uma leveza diferente.
Não porque tivesse recuperado algo perdido, mas porque finalmente compreendeu que certas histórias não precisam de continuidade para terem significado. Elas existem como fragmentos de eternidade dentro de nós, lembrando-nos de quem fomos e, de alguma forma, de quem ainda somos.
E assim, entre lembranças, músicas e o lento passar dos anos, ele entendeu que o amor — aquele amor dos anos 1990 — não havia terminado.
Apenas havia aprendido a existir de outro jeito.
Mas essa constatação não veio como um alívio imediato. Pelo contrário, trouxe consigo uma densidade nova, quase filosófica, como se o sentimento precisasse agora ser compreendido não mais pela emoção crua da juventude, mas por uma consciência amadurecida, atravessada pelo tempo, pelas perdas e pelas inevitáveis transformações do ser.
Porque há uma diferença profunda entre sentir e compreender o que se sente.
Na juventude, o amor se impõe. Ele não pede licença, não exige justificativa, não se preocupa com coerência.
Ele simplesmente acontece, como um fenômeno natural, quase biológico, que toma o corpo e reorganiza o mundo ao redor.
Já na maturidade, o amor se torna também um problema filosófico.
Ele precisa ser interpretado, revisitado, questionado. E, ainda assim, escapa.
Era isso que o inquietava.
Como algo que aparentemente havia ficado no passado podia ainda pulsar com tanta presença no agora? Seria memória? Seria desejo? Ou haveria, de fato, uma dimensão do amor que transcende o tempo cronológico?
A canção voltava, como sempre.
Não mais apenas como trilha sonora de uma lembrança, mas como um texto, quase um tratado emocional condensado em poucos versos. Ele começou a ouvi-la com outro tipo de atenção, como quem tenta decifrar não apenas a música, mas a si mesmo através dela.
“Please forgive me, I know not what I do…“
Havia algo de profundamente humano nesse pedido. O reconhecimento da própria limitação.
A consciência de que amar, muitas vezes, é agir sem plena compreensão das consequências. É errar, insistir, retornar. É desejar mesmo quando a razão aconselha o contrário.
E então ele pensou: talvez o amor verdadeiro não seja aquele que acerta, mas aquele que persiste apesar do erro.
Essa ideia o atravessou com força.
Durante anos, ele havia tentado organizar sua vida sob a lógica da coerência. Escolhas racionais, caminhos previsíveis, relações que fizessem sentido dentro de um projeto de estabilidade.
Mas aquele amor antigo — ou melhor, aquela presença contínua — desafiava essa estrutura.
Não fazia sentido permanecer, mas permanecia. Não era útil, mas era essencial. Não era atual, mas era vivo.
E isso o levava a outra reflexão: nem tudo que é verdadeiro precisa ser funcional.
Vivemos, pensou ele, numa época que exige utilidade de tudo — até dos sentimentos. Amar deve levar a algo: a uma construção, a uma família, a uma história contínua.
Mas e quando o amor não leva a lugar algum, e ainda assim transforma tudo?
Talvez esse seja o tipo mais raro de amor. Aquele que não se realiza externamente, mas que, por isso mesmo, se aprofunda internamente.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…” novamente.
Ele percebeu que essa frase já não era mais um lamento. Era quase uma constatação ontológica.
Como se amar não fosse uma escolha, mas uma condição. Não algo que se inicia ou se encerra, mas algo que simplesmente é o que é em si mesmo.
E então surgiu uma ideia ainda mais inquietante: e se o amor não pertencesse ao tempo?
Se tudo o que vivemos está submetido ao tempo — nascimento, crescimento, declínio — talvez o amor seja uma das poucas experiências que desafiam essa lógica. Não porque ele não mude, mas porque ele não desaparece completamente. Ele se transforma, se dilui, se reconfigura, mas não se anula.
Ele se torna parte da estrutura do ser.
Nesse ponto, a lembrança dela já não era mais apenas pessoal. Era quase simbólica.
Representava não apenas um encontro específico, mas a possibilidade de um tipo de conexão que ultrapassa circunstâncias. Ela se tornava, em sua memória, menos uma pessoa concreta e mais uma ideia viva — a ideia de que é possível tocar o outro de maneira irreversível.
E isso o levou a uma pergunta inevitável: quantas pessoas carregamos dentro de nós sem percebermos?
Talvez sejamos feitos não apenas do que vivemos, mas de todos os encontros que nos atravessaram profundamente.
Pessoas que, mesmo ausentes, continuam operando silenciosamente em nossas escolhas, em nossos medos, em nossas formas de amar.
Nesse sentido, ninguém vai embora completamente.
E talvez seja por isso que a saudade dói de um jeito tão específico. Não é apenas a falta do outro — é o confronto com uma parte de nós mesmos que só existia na presença daquele outro.
A música, mais uma vez:
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Agora, essa necessidade não era mais literal. Não se tratava de querer a presença física, o reencontro constante, a reconstrução de algo perdido.
Era uma necessidade mais sutil e, ao mesmo tempo, mais profunda: a necessidade de reconhecer que aquilo existiu e que continua existindo de alguma forma.
Porque negar seria empobrecer a própria experiência de vida.
Ele começou então a perceber que o reencontro não tinha sido sobre retomar, mas sobre legitimar. Como se ambos, ao se verem novamente, tivessem autorizado a memória a deixar de ser apenas nostalgia e se tornar compreensão.
E há algo de profundamente libertador nisso.
Quando deixamos de lutar contra o passado e passamos a integrá-lo, ele perde seu peso e ganha sentido. Não como algo que nos prende, mas como algo que nos compõe.
Ainda assim, havia uma melancolia inevitável.
Não a melancolia desesperada da perda, mas uma melancolia lúcida, quase serena. A consciência de que algumas coisas são belas justamente porque não permanecem da forma como começaram.
Porque, se permanecessem, talvez se tornassem comuns, previsíveis, desgastadas.
O tempo, nesse caso, não destruiu — refinou.
Transformou o amor vivido em algo mais amplo: uma espécie de sensibilidade, uma abertura para o mundo, uma capacidade maior de sentir.
E isso o levou a uma última reflexão, talvez a mais difícil de aceitar: nem todo amor é feito para ser vivido plenamente no plano concreto.
Alguns existem como experiência formadora, como acontecimento interno, como marca. Não são histórias para serem continuadas, mas para serem compreendidas.
E, paradoxalmente, são essas que mais permanecem.
“Please forgive me…“
Dessa vez, ele não ouviu a frase como um pedido dirigido a ela. Mas a si mesmo.
Perdoar-se por não ter entendido tudo na época. Por não ter sabido nomear o que sentia. Por ter deixado escapar algo que só mais tarde compreenderia em sua profundidade.
Mas também por ter vivido.
Porque, no fim, não há erro em sentir intensamente. O erro, talvez, esteja em tentar reduzir o amor a algo que ele não é: simples, linear, controlável.
O amor é excesso. É transbordamento. É aquilo que escapa.
E naquele instante — já distante dos anos 1990, mas ainda atravessado por eles — ele finalmente aceitou que algumas histórias não precisam de conclusão.
Elas continuam.
Não no mundo visível, não nas rotinas compartilhadas, não nas promessas cumpridas.
Mas no pensamento, na memória, na forma como vemos o mundo depois delas.
E isso, de alguma forma, é uma forma de eternidade.
A canção terminou.
Mas, como sempre, deixou algo no ar.
Não um vazio — mas uma presença silenciosa.
Como o próprio amor.
E foi nesse silêncio, mais eloquente do que qualquer palavra, que algo novo começou a se insinuar dentro dele.
Não era a repetição da saudade, nem o retorno de uma dor antiga. Era diferente. Mais suave, mais luminoso, quase como se o sentimento, depois de atravessar tantos anos e tantas formas, estivesse finalmente encontrando um modo de existir sem ferir.
Porque há um momento — raro, mas possível — em que o amor deixa de ser ausência e se torna possibilidade.
Ele não soube identificar exatamente quando essa mudança começou. Talvez tenha sido no instante em que deixou de perguntar “e se tivesse sido diferente?” E passou a se perguntar “e se ainda puder ser, de outro modo?”.
Essa pequena inflexão no pensamento abriu um espaço inesperado, como uma janela em uma casa antiga que, por muito tempo, permaneceu fechada.
E pela primeira vez em muitos anos, a lembrança dela não veio acompanhada de peso, mas de leveza.
Ele voltou a pensar naquele reencontro.
No modo como os olhares se sustentaram sem pressa. Na forma como o tempo, por alguns instantes, pareceu suspenso — não como nos anos 1990, quando tudo era intensidade e descoberta, mas agora como um reconhecimento tranquilo, quase sereno, de algo que havia resistido.
E se aquilo não fosse apenas passado?
Essa pergunta, que antes pareceria ingênua, agora se apresentava com uma dignidade inesperada. Não como ilusão, mas como hipótese. Não como fuga da realidade, mas como abertura para ela.
Porque, afinal, o que define o tempo de um sentimento?
A cronologia ou a verdade que ele carrega?
Ele começou a perceber que talvez tivesse sido rígido demais ao interpretar a própria história.
Como se o amor só pudesse ser válido dentro de certos formatos: início, meio, continuidade. Como se tudo aquilo que escapasse desse modelo estivesse condenado à categoria de “inacabado”.
Mas e se o inacabado não for ausência de sentido — e sim excesso?
E se algumas histórias permanecem abertas não porque falharam, mas porque não cabem em um único ciclo?
A ideia o inquietou, mas também o aqueceu.
Porque, ao pensá-la, ele não sentia mais apenas nostalgia. Havia algo de vivo, algo que apontava não para trás, mas para frente. Como se o passado, em vez de encerrar possibilidades, estivesse, na verdade, alimentando novas formas de existência.
A música voltou, quase como se acompanhasse essa transformação interna.
“Please forgive me, if I need you like I do…“
Mas agora, havia um detalhe diferente: ele não ouvia mais essa frase como um apego ao que foi.
Havia nela um pedido que também era convite. Como se o amor, mesmo transformado, ainda encontrasse caminhos para se manifestar.
E então ele pensou nela — não como lembrança fixa, mas como presença possível no presente.
Onde estaria agora? O que sentiria? Será que também carregava aquele mesmo eco? Ou teria seguido de forma mais leve, deixando tudo no passado?
Essas perguntas já não doíam.
Elas tinham, curiosamente, um tom de esperança.
Porque, pela primeira vez, ele não precisava que as respostas confirmassem nada.
Bastava saber que o vínculo existiu — e que, de alguma forma, ainda vibrava.
E talvez fosse isso que o amor amadurecido oferece: não a necessidade de possuir, mas a capacidade de reconhecer.
Reconhecer que houve verdade. Que houve encontro. Que houve transformação.
E que isso, por si só, já é extraordinário.
Ainda assim, algo dentro dele ousava ir além.
Não como insistência, mas como delicadeza.
E se o reencontro não tivesse sido apenas um fechamento, mas um recomeço silencioso?
Ele se lembrou do último olhar que trocaram ao se despedirem. Havia ali uma pausa — breve, quase imperceptível — mas carregada de algo que não se disse. Não era arrependimento. Não era urgência. Era… possibilidade.
Uma possibilidade tímida, quase envergonhada de existir.
Mas real.
E foi nesse ponto que ele compreendeu algo essencial: a esperança não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.
Às vezes, ela se apresenta em gestos mínimos. Em pensamentos que persistem. Em uma música que insiste em voltar. Em um nome que, mesmo não sendo dito, continua habitando o silêncio.
Ele não sabia se voltariam a se encontrar.
Não sabia se o tempo, novamente, cruzaria seus caminhos de forma concreta. Mas isso já não era o mais importante.
Porque, de alguma forma, eles já haviam se reencontrado em um nível mais profundo — aquele onde o passado deixa de ser distância e se torna presença integrada.
E, ainda assim, havia espaço para o futuro.
Um futuro que não precisava repetir o que foi, nem corrigir o que não aconteceu. Um futuro que poderia simplesmente acolher aquilo que permanece.
“Please forgive me, I can’t stop loving you…“
Dessa vez, ele sorriu ao ouvir.
Não havia mais conflito nessa frase.
Amar não era mais um problema a ser resolvido, nem uma memória a ser superada. Era uma condição tranquila, quase serena, como quem aceita a própria história sem resistência.
E, curiosamente, foi essa aceitação que abriu espaço para algo novo.
Porque quando deixamos de nos prender ao que deveria ter sido, começamos a perceber o que ainda pode ser.
Ele passou a caminhar com outra disposição.
Os dias, antes atravessados por uma nostalgia difusa, começaram a ganhar uma tonalidade diferente.
Não era euforia, nem expectativa exagerada. Era uma espécie de abertura — uma sensibilidade renovada para o encontro, para o acaso, para aquilo que a vida ainda poderia oferecer.
E isso incluía, inevitavelmente, a possibilidade de revê-la.
Mas, se isso acontecesse, não seria mais como antes.
Não haveria a urgência da juventude, nem o medo de perder. Haveria algo mais raro: a escolha consciente de estar.
Porque o amor que atravessa o tempo aprende uma coisa fundamental — ele deixa de ser necessidade e se torna presença.
E presença não se impõe. Ela se oferece.
Talvez, pensou ele, o verdadeiro reencontro ainda não tenha acontecido.
Talvez tudo até agora tenha sido apenas preparação.
Não no sentido de destino inevitável, mas de maturidade suficiente para que, se um novo encontro acontecer, ele seja vivido de forma inteira — sem as interrupções do medo, da imaturidade ou da falta de compreensão.
E, se não acontecer, ainda assim estará tudo bem.
Porque o amor já cumpriu seu papel mais profundo: transformá-lo.
Ainda assim, ele não negava — havia um desejo suave, quase silencioso, de que a vida lhes desse mais uma chance. Não para repetir o passado, mas para reinventá-lo.
Para olhar novamente, mas com outros olhos.
Para tocar, mas com outra consciência.
Para amar, não apesar do tempo, mas através dele.
A noite caiu devagar, como nos anos 1990.
E, por um instante, ele teve a sensação de que o tempo não era uma linha, mas um círculo — onde certos encontros não se perdem, apenas aguardam o momento certo de se revelar novamente.
A música, como sempre, encontrou seu caminho de volta.
Mas dessa vez, não trouxe apenas memória.
Trouxe futuro.
E, no silêncio que se seguiu, ele percebeu que o amor — aquele amor — já não era apenas saudade.
Sandra AlbuquerqueImagem gerada pela IA do Grok – https://grok.com/c/902cfb86-be0e-4cf7-ae5d-08b4c965f493?rid=1df541ab-0c6a-4517-8ffe-63aceb43af6b
Ah, Painho! Eu, aqui nesta terra de chão vermelho Descalço, sentindo a quentura que do vapor sobe Contrastando com esta brisa que levemente soa E olhando as gaivotas pairando no ar Após o seu lindo bailado Desenhando entre as nuvens baixas Um espetáculo a parte. Ah, Painho… Que saudade do tempo da inocência Da infância com os meus bisavós Esta paisagem era bem diferente: Os rios eram mais extensos e volumosos As árvores eram amontoadas e os verdes se misturavam. O aroma das flores diversas, porém inconfundíveis. O homem respeitava a fauna e a flora Cada um tinha seu habitat intacto. A mãe Terra era feliz. Todos os dias o sol vistava os povos e ao crepúsculo, despedia-se, dando lugar a noite que se aproximava, com a chegada, aos poucos da lua e das estrelas. O plantio e a colheita eram contados pelas luas. A mulher dava à luz, orientada pelas 9 luas. Comíamos o que a Mãe Terra nos oferecia através do solo,das matas e das águas dos rios e mares. Caçávamos e pescávamos, apenas, para a sobrevivência. À noite acendíamos as fogueiras e dançávamos ao redor delas, até a hora de repousar os nossos corpos nas redes produzidas pelas mulheres de nossas aldeias. E era através da melodia dos pássaros pela manhã e dos uivos que ouvíamos a noite que fazíamos sons que se transformavam em doces e ricas melodias. E a tua sabedoria nos dava a noção de criar os instrumentos musicais. Os contos dos antigos eram o nosso saber. Era tudo tão perfeito! De repente, o homem branco chegou e tudo ficou diferente. A ganância levou as nossas riquezas embora . Agora é erosão, desmatamento, queimadas e extinção. Trocaram a pureza pelo efeito estufa: o aquecimento global. E o tempo agora é o nosso maior inimigo. Ah, Painho!… Que saudade que dá !
Eduardo Cesario-Martínez Foto por Irene OliveiraImagem gerada pela IA do Gemini
Era notória, naqueles cantos, a paciência dos urubus, por mais ansiosos que estivessem, em esperar por mais uma criatura faminta ou, então, acometida de alguma moléstia finalmente sucumbisse. Ajoelhada e sem vontade de rezar, Veridiana olhou aquelas aves e teve a certeza de que os sonhos de infância não passaram de devaneios de alguém que não conseguia enxergar a própria sina.
Com as palmas das mãos sobre o solo rachado da caatinga, a mulher soltou um arre! e conseguiu erguer o corpo. Nunca fora boa com números, mas sabia que havia um povoado a duas léguas. Que fossem sete ou oito, ela estava decidida a não virar repasto de urubu. Não naquele dia. Que fossem procurar por outra carcaça com menos vontade de prosseguir nessa sobrevida ingrata.
Aos 38 anos, passara por momentos de penúria e raros confortos. Desde sempre fora explorada, seja pelo pai, seja pelos irmãos, seja pelo homem que se fez seu marido. Seca nas carnes e por dentro, nunca engravidou, apesar das indesejadas investidas do macho que a cobria sem lhe dar sossego.
Horácio não se conformava por escolha tão despropositada. Para que servia mulher estragada, se não era capaz de lhe dar os filhos que tanto queria? Pois tratou de arrumar uma mais nova e de procedência garantida.
Cassiana, a vizinha, era viúva e sustentava dois meninos graúdos. O homem foi ter um dedo de prosa e a coisa ficou acertada. Divorciou de Veridiana e desposou a outra. Não tardou, constatou que a escolha havia sido acertada, pois a nova esposa logo apresentou os primeiros enjoos.
Quanto à Veridiana, foi colocada de lado para os afazeres domésticos. Perdera o posto de esposa, mas Horácio necessitava de alguém para ajudar a nova mulher na lida com a casa. Vez ou outra, dependendo da falta de disposição da Cassiana, deitava-se com a ex-consorte. Rosto virado para o lado ou fixo no teto, Veridiana aguardava o arfar do sujeito se esvair num urro. Coisa de minutos, que pareciam uma eternidade.
Enquanto caminhava, Veridiana se recordava da vida miserável que se acostumou a levar. Não tinha raiva de Cassiana, muito menos das crianças e do bebê a caminho. Eram todas vítimas da perversidade do inferno onde nasceram. E nada de indulgências para os desprovidos de sorte. Que cumprissem as próprias agruras.
Horácio, todavia, não era visto com qualquer benevolência. Tanto é que Veridiana decidiu pôr um ponto final não apenas nas investidas do gajo, como também fazê-lo pagar por todos os pecados. Ela pensou numa maneira que não levantasse suspeitas.
Após quase dois meses, eis que Veridiana percebeu que o melhor era envenenar o traste. Que ele gostava de doces, todos sabiam. Que morresse empanturrado de quebra-queixo!
Tentou antúrio, mas não conseguiu provocar nada além do que diarreia e vômito no homem. Abusou de óleo de mamona, mas tratou de jogar fora todo o tacho porque os meninos e a buchuda reclamaram seu quinhão.
— Estragou.
— E desde quando doce estraga?
— Pois esse estragou. Faço outro amanhã.
A desculpa parece que não convenceu Cassiana, mas nada que provocasse intriga entre as duas. Quanto às crianças, foram ludibriadas por generosos nacos de rapadura.
Os dias prosseguiram, até que, por algo tão inesperado como picada de cobra, eis que Horácio, ao acordar depois de passar mais uma noite sobre Veridiana, foi calçar a botina. Pelo barulho do chocalho, parece que foi cascavel, que buscara refúgio no calçado do homem.
Veridiana nunca sentiu tamanho regozijo ao encarar o desespero de Horácio, que gritava. Não tardou, Cassiana surgiu e ainda pode ver a serpente se esgueirando para debaixo da cama. As duas mulheres, cúmplices nos desejos, viram o homem se esvair em pouco mais de duas horas.
— Vá buscar ajuda!
— Vou.
Cansada pela longa caminhada, Veridiana, finalmente, chegou ao povoado, onde sabia não existir médico. Tratou de comunicar o ocorrido ao padre, que acompanhou a mulher até o sítio da família. Nem deu tempo de fazer a extrema unção. Horácio, tipo comum da região, tinha um filete de sangue ressequido no canto dos lábios.