O café que nunca esfria

Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM

Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.

 O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.

 Vivemos uma sinfonia interrompida.

 A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.

 A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.

 O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.

 A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.

 Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.

 A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.

 No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?

 A resposta não está no celular.

Ela mora na pausa.

No gole de café quente.

Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.

Paulo Siuves

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Peguei um punhado de amor

Jakob Kapingala: Poema ‘Peguei um punhado de amor’

Logo da seção O Leitor Participa
Logo da seção O Leitor Participa
Imagem criada por IA da Meta - 14 de dezembro de 2025, às 9:14 PA
Imagem criada por IA da Meta – 14 de dezembro de 2025,
às 9:14 PA

Peguei em cada gota das lágrimas que abraçavam meu rosto,
E pintei-as com as cores do arco-íris com muito gosto.
Transformei a ansiedade que cobria meu peito,
Numa paciência bonita e coberta de muito respeito.

Persegui sem tréguas o coração que me tinha abandonado,
Tocando levemente o pouco da alma que me tinha sobrado.
Corri atrás dos sorrisos que há muito se perderam,
Abraçando o vento melancólico dos tempos que já se foram.

Parei num tempo sem tempo observando a lua,
Com o coração ansioso em trilhar suavemente a rua,
Que dava passagem a um mundo só de alegria,
Enquanto fugia do meu ser mergulhado na fantasia.

Peguei um punhado de amor que encontrei por aí,
Coloquei-o na mochila da positividade e saí,
Correndo livremente igual a um pássaro,
Que traz nos lábios um sorriso raro.

Jakob Kapingala

Jakob Kapingala
Jakob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar em um papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos Poetas da Língua Portuguesa.




Fluxo e refluxo do mar

Lina Veira: Crônica ‘Fluxo e refluxo do mar’

Lina Veira
Lina Veira
Foto tirada pela autora com a própria câmara
Foto tirada pela autora com a própria câmara

Saint-Exupéry, escreveu: “A verdadeira vida é intermitente”. Logo, nossas emoções e relacionamentos também são. Sim, pois quando amamos uma pessoa, não amamos o tempo todo, do mesmo modo desde o início, da mesma forma interrupta. Isso é impossível. E é exatamente neste movimento intermitente da vida, dos fluxos e refluxos de nossa existência, dos sentimentos e sensações que relações estão se perdendo e afundando na beira do mar. Tudo na vida tem fluxo e refluxo, um voltar a atrás, “um por que não?”

Jesus perdoou a tantos para recomeçarem.

 Como a maré a vida tem cheias  e vazantes. Nada é constante o tempo todo.

Tem coisa mais linda que as  ondas do mar quebrando na areia da praia tentando alcançar algo? Retornando confiante com  a mesma força, num vai e volta contínuo.

Confiamos tão pouco no fluxo e refluxo de tudo em nossa vida, seja no sentimento de um amor, de uma amizade, de nós mesmos. Quantas vezes foi preciso retornar, responder, ficar um pouco mais?

Quantas vezes tivemos medo de voltar?

Assim como o mar, vivemos ciclos: temos medo da vazante, da expectativa do silêncio, do vazio deixado entre uma onda e outra, das pausas, do barulho, do devolver e recomeçar. Decidimos nos apoderar do outro reassumindo sinônimos de posse, exigências e enganos,   na busca do conforto que desejamos. Mas só existe conforto e segurança no movimento do fluxo e refluxo da vida, se você enfrentar seu mar, suas ondas…Se você avançar e retornar quando for preciso,  se você entender e respeitar suas vazantes e cheias, seus limites e  ondas intermitentes, cristalinas e secretas, se você ouvir e responder, acolher  e devolver como um presente do mar…

 Que 2026 nos traga muitas possibilidades!

Você pode reviver sim!

Retornar.

Viver o start de uma nova história, o começo de tudo.

Continuar..

Você pode reviver sim!

Retornar.

Viver o start de uma nova história, o começo de tudo.

Lina Veira

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Raízes 2 – Religiosidade

Documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade’ estreia no YouTube e valoriza música sacra e patrimônio histórico de Caratinga

Documentário 'Raízes 2 – Religiosidade', de Nathan Vieira
Documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade’, de Nathan Vieira

Nesta segunda-feira (15), às 20h, o YouTube recebe a estreia do documentário ‘Raízes 2 – Religiosidade‘, idealizado e dirigido pelo músico e jornalista Nathan Vieira. A produção apresenta o registro exclusivo da gravação ao vivo do projeto homônimo, realizado na Igrejinha Histórica de São João Batista, um dos espaços mais simbólicos do patrimônio cultural de Caratinga (MG).

O documentário conduz o público por uma experiência sensível e intimista, onde música sacra, espiritualidade e memória se entrelaçam. A noite registrada marcou um encontro singular entre arte e fé, valorizando compositores caratinguenses em um cenário carregado de significado histórico e afetivo para o município.

Além das performances musicais, a obra reúne entrevistas enriquecedoras que contextualizam a importância histórica, religiosa e cultural do templo, destacando seu papel na formação da identidade local e na preservação da memória coletiva.

Viabilizado com recursos da Lei Aldir Blanc, o projeto reafirma o compromisso com a valorização da cultura, da música autoral e dos espaços históricos, fortalecendo o diálogo entre tradição e contemporaneidade.

O documentário estará disponível gratuitamente no YouTube. O público é convidado a se inscrever no canal e ativar as notificações para acompanhar mais conteúdos culturais como este.

Serviço

📺 Estreia: Documentário Raízes 2 – Religiosidade

🗓 Data: Segunda-feira (15)

Horário: 20h

📍 Plataforma: YouTube

Perfil no Instagram: https://www.instagram.com/nathanvieira_oficial?igsh=MTJ4M2xya2V2Ymo4Yw==

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Rebeldía 14 – PEREGRINA

Marta Oliveri: Poema ‘Rebeldía 14 – PEREGRINA’

Marta Oliveri
Marta Oliveri
Imagem criada por IA da meta – 11 de dezembro de 2025,
às 21:43 PM

Soy la sombra migratoria.
Destello oscuro en las ruinas.
Soy recuerdo deslumbrando
al olvido en las cenizas.

Vengo de tanta memoria
Qué sangra huellas mi verbo.
Envejeciendo horizontes
Con este sino en destierro

Vengo abriendo la dulzura
en un cenit de altos sueños
Constelación rebelada
Contra un cielo raso y muerto.

Soy la antorcha que despierta
albores en el desierto.
Peregrina que regresa
en corazón hacia adentro.

Marta Oliveri

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Grito silencioso

Loide Afonso: Poema ‘Grito silencioso’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem criada por IA da Meta - 12 de dezembro de 2025, às 08:14 PM
Imagem criada por IA da Meta – 12 de dezembro de 2025,
às 08:14 PM

O sol, sempre brilha

Pra os grandes e pequenos

Pretos

E brancos

Amarelos e vermelhos

Putos e kotas

Altos e baixos

Frescos e secos

Aqui, o brilho é o mesmo

O céu sempre sereno

Os raios, oh! Os raios… Os raios aqui não se

partem e nem se deixam partir, porque lhes foi

dito que aqui é pra prosseguir, seguir, com os

olhos vendados, mas sempre em frente e na frente, e na

frente, com os combatentes, não os

angolanos, africanas,, Guiné, Ghana, Botswana, ou Nigéria?

Viajei através de

Memórias do subsolo

Pra procurar um sentido da vida, paz, luz,

E encontrei a escuridão, que por muitos é temida,

esquecida, dorida

Em vez de ser explorada, da melhor forma e

polida..| o que sentes quando o sol brilha?

Loid Portugal

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O sabor suculento da traição e o ego faminto

Clayton Alexandre Zocarato

‘O sabor suculento da traição e o ego faminto’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA da Meta. 11 de dezembro de 2025,
às 18:05 PM

A traição tem um gosto curioso. Não é doce, não é amargo — é um tempero proibido que só interessa a quem está espiritualmente subnutrido. Quem trai, muitas vezes, mastiga o mundo como se estivesse saboreando um prêmio, um troféu de vitória pessoal. Mas essa sensação suculenta dura pouco: é como fruta madura demais, que explode na boca e, segundos depois, deixa apenas o cheiro da própria imaturidade.

Pessoas mal resolvidas consigo mesmas encontram na traição um espelho torto. Em vez de enxergarem suas próprias fissuras, veem, por alguns instantes, uma imagem melhorada de si. Lao-tsé alertava que quem conquista os outros é forte, mas quem conquista a si mesmo é poderoso”. O traidor faz justamente o contrário: tenta conquistar o mundo para não perceber que não conquistou nada dentro de si. Ele se infla, mas continua oco.

Há, na traição, um tipo de euforia infantil. É como se o ego dissesse: vejam, ainda posso ser desejado!, enquanto varre para baixo do tapete a própria incapacidade de lidar consigo. O escritor indiano Rabindranath Tagore dizia que não há óculos capazes de corrigir a visão de quem se recusa a enxergar”. A traição, portanto, é uma tentativa desesperada de ajustar a própria miopia emocional usando lentes emprestadas de outra pessoa.

A música também não perdoa esse tema. Da crueza de ‘Back Stabbers’ do The O’Jays às confissões afiadas de Pitty em ‘Me Adora’, a cultura popular vive repetindo a mesma melodia: quem trai não está falando sobre o outro — está, na verdade, tentando berrar alguma verdade sobre si. A traição é o refrão desafinado de quem não aprendeu a se ouvir.

Na literatura, Machado de Assis já sabia disso quando desenhou personagens que se alimentam das próprias contradições. Ele mostrava que o traidor é muitas vezes um autor frustrado escrevendo sua narrativa de poder, tentando compensar a pequena autoridade que tem sobre a própria vida. Não é sobre amor. É sobre vaidade.

O pensamento oriental costuma tratar o ego como um animal inquieto que, quando não treinado, morde a própria cauda achando que captura algo valioso. Buda ensinava que o desejo é a raiz do sofrimento”. Assim, a traição se revela como um desejo desgovernado que não leva ao prazer duradouro, mas à eterna sensação de vazio — o tipo de vazio que só cresce quanto mais se tenta preenchê-lo com aventuras rápidas e promessas quebradas.

Clayton Alexandre Zocarato

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