Estou farto de saber que sou capaz

Guilherme Machado reflete que a distância mais dolorosa do mundo é aquela que separa o orgulho de saber do que somos capazes da coragem de viver à altura desse potencial

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
Fotografia conceitual de um homem observando a paisagem através de uma janela reflexiva.
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“Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.”
Provérbios 16:3

Durante muito tempo, essa seria uma frase que eu diria com orgulho. Hoje, curiosamente, ela também me incomoda.

Talvez porque eu esteja começando a perceber que existe uma diferença enorme entre saber do que somos capazes e viver à altura dessa capacidade.

Recentemente, estabeleci uma série de metas para o meu processo de emagrecimento. Em vez de olhar apenas para um objetivo distante, decidi dividi-lo em pequenas etapas difíceis o suficiente para me exigirem, mas tangíveis o bastante para que eu pudesse alcançá-las.

Bati a primeira meta antes do prazo. Deveria ter sido combustível para continuar. Foi quase o contrário: eu me acomodei.

Passei cerca de dez dias sem me exercitar. Houve circunstâncias que contribuíram — inclusive a chuva, que dificultou minhas corridas e minhas idas à academia —, mas seria confortável demais responsabilizá-las.

A meta seguinte venceu e, dessa vez, precisei de alguns dias a mais para alcançá-la.

Poderia enxergar nessa pequena sequência apenas as oscilações naturais de um processo de emagrecimento. Mas percebi que a balança estava começando a me mostrar algo que não tinha relação apenas com meu peso.

Às vezes, o corpo também funciona como espelho. E eu não gostei completamente do que comecei a enxergar no meu.

Quando ser capaz também pode se tornar uma armadilha

Percebi um comportamento que não está restrito à balança. Ele aparece em diferentes áreas da minha vida.

Quando uma situação se torna crítica, alguma coisa parece despertar dentro de mim. Penso rápido, crio alternativas e encontro soluções — muitas vezes, não uma, mas várias.

Durante muito tempo, enxerguei isso apenas como uma qualidade. Hoje começo a perceber seu outro lado.

Não porque exista algo de errado em ser capaz de reagir. Pelo contrário. Essa capacidade já me foi extremamente útil.

Talvez o problema nunca tenha estado na ferramenta, mas na maneira como aprendi a utilizá-la.

Quando você sabe que consegue reagir muito bem diante de uma emergência, existe o risco de começar a tolerar demais a aproximação dela. É como se houvesse uma certeza silenciosa: depois eu resolvo.

E o pior é que, muitas vezes, eu resolvo. Talvez seja justamente esse o problema.

Talvez eu tenha aprendido a confiar tanto na minha capacidade de reagir que nunca tenha aprendido verdadeiramente a confiar na minha capacidade de permanecer.

Essa constatação doeu.

Porque existe um preço escondido nisso.

Você acaba utilizando sua capacidade para apagar incêndios que sequer precisariam existir.

Quando olho para minha vida sob esse novo referencial, surge uma pergunta desconfortável: até onde eu poderia ter chegado se tivesse colocado na constância a mesma capacidade que tantas vezes coloquei na reação?

Não sei. Só Deus sabe. E talvez nunca saber seja justamente uma das partes mais dolorosas dessa descoberta.

Porque algumas coisas podem ser recuperadas. Projetos podem ser retomados. Dinheiro pode ser reconquistado. Quilos podem ser perdidos novamente.

O tempo não aceita o desaforo.

O tempo que deixei queimar enquanto apagava incêndios não volta.

Mais do que um número

Existe um objetivo que, neste momento, significa muito para mim: quero voltar a enxergar dois dígitos na balança.

Para algumas pessoas, pode parecer apenas um peso. Para mim, não é.

Eu já emagreci antes. Já treinei, fui disciplinado e experimentei a sensação de olhar para meu corpo e reconhecer nele o resultado das minhas escolhas.

Depois me acomodei.

Posterguei por muito tempo a decisão de emagrecer novamente porque não queria passar por todo aquele longo processo outra vez.

Existe uma ironia dolorosa nisso: se eu tivesse cuidado daquilo que conquistei, não precisaria reconquistá-lo.

Dessa vez, porém, deixei a situação avançar a ponto de perder algo mais importante do que condicionamento físico.

Comecei a perder a confiança em mim mesmo.

Eu, que tantas vezes havia encontrado soluções quando tudo parecia perdido, comecei a duvidar se conseguiria resolver a minha própria situação mais uma vez.

Por isso, voltar a enxergar dois dígitos na balança não representa apenas emagrecimento. Representa retomada da confiança.

Mas comecei a perceber que meu desafio talvez não esteja apenas em acreditar que consigo chegar. Está também em aprender a atribuir àquilo que conquistei o mesmo valor que eu atribuía quando ainda parecia difícil de alcançar.

Existe alguma coisa nos grandes desafios que me seduz. Quanto mais distante parece um objetivo, mais ele desperta o melhor de mim.

Às vezes penso em um gato brincando com um novelo de lã. Enquanto o novelo escapa, ele corre, salta, insiste. Quando finalmente o alcança, porém, parte do fascínio desaparece, embora o novelo continue sendo o mesmo.

O que mudou foi apenas a dificuldade de alcançá-lo.

Talvez eu tenha feito isso comigo mais vezes do que gostaria de admitir. Talvez eu tenha confundido, durante muito tempo, a dificuldade de conquistar com o valor da conquista.

Foi doloroso perceber que, dessa maneira, eu estava utilizando minha própria capacidade contra mim.

Quando o corpo começa a falar

Talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes que a atividade física tem me ensinado: o corpo torna visível aquilo que, em outras áreas da vida, conseguimos esconder de nós mesmos.

Ele não conhece nossas intenções. Não sabe quantas vezes prometemos começar amanhã. Não se impressiona com nossos planos.

O corpo responde àquilo que repetimos.

E, enquanto observava minhas respostas aos exercícios, percebi que não estava conhecendo apenas meu corpo.

Estava conhecendo meus padrões.

A balança mede meu peso, o relógio mede meu tempo e a distância registra quanto percorri. Mas nenhum deles mede a maneira como tenho conduzido minha própria vida.

Essa parte precisei começar a medir sozinho.

Talvez meu maior problema tenha sido justamente o resultado. Eu conseguia, resolvia, chegava — e isso acabava funcionando como meu álibi.

Se no final eu conseguia chegar, por que questionar a maneira como percorria o caminho?

Agora me faço uma pergunta diferente: por que tantas vezes preciso chegar ao limite para começar a caminhar na direção que já sabia que deveria seguir?

Ainda estou atravessando

Não escrevo estas palavras como alguém que descobriu uma fórmula mágica para mudar.

Estou vivendo esse processo agora.

Voltei para a terapia, a cuidar do meu corpo e a estabelecer metas.

Tenho buscado em Deus direção para me reconduzir enquanto tento colocar em ordem aquilo que está do lado de fora. Talvez uma das coisas que esteja aprendendo seja justamente que reconhecer minha capacidade não significa acreditar que preciso resolver tudo sozinho.

Talvez parte desse processo seja também aprender a me esvaziar de mim mesmo — da necessidade de controlar, resolver e encontrar todas as respostas — para me encher do Espírito e da presença de Deus.

Não estou do outro lado da ponte.

Ainda estou atravessando.

Foi durante essa travessia que, ontem, depois de orar, parei diante do espelho.

Olhei para mim e disse que vou atingir meus objetivos. Eu creio nisso.

Mas, naquele momento, percebi que já não queria simplesmente fazer outra promessa motivacional ou convocar novamente aquela versão de mim que aparece quando tudo se torna crítico e consegue encontrar uma saída.

Eu conheço esse homem: sua criatividade, sua força e sua capacidade de encontrar caminhos quando aparentemente eles não existem.

Essa versão de mim já me salvou muitas vezes. E sou grato a ela.

Mas, diante daquele espelho, em lágrimas, reconheci algo que talvez estivesse demorando anos para admitir: estou farto de viver assim.

Não quero mais precisar da emergência para acessar minha capacidade nem transformar potencial em ferramenta de resgate. Sobretudo, estou farto de imaginar quanto tempo deixei pelo caminho simplesmente porque sempre confiei que conseguiria correr depois.

Conheço muito bem a versão de mim que aparece quando tudo parece perdido.

Agora quero conhecer outra.

Quero descobrir quem posso ser quando não existe uma emergência me obrigando a agir.

Eu ficaria encantado em conhecer essa versão de mim mesmo.

Talvez por isso uma pergunta tenha começado a me acompanhar:

Quanto da nossa capacidade usamos para construir — e quanto gastamos consertando aquilo que a constância poderia ter evitado?

Eu ainda não conheço todas as minhas respostas.

Também não sei exatamente onde esse processo vai me levar. Talvez esteja aprendendo justamente a não precisar saber.

Entreguei meus planos a Deus e o chamei para pelejar comigo essa batalha. Agora estou aprendendo a permanecer no caminho mesmo quando não existe uma emergência me empurrando por ele.

O passado deixou aprendizados, consequências e um tempo que não posso recuperar.

Mas ainda existe caminho pela frente.

Em uma das palavras dirigidas a Jó, encontro uma imagem que gosto de carregar comigo:

“Tudo o que você fizer dará certo, e a luz brilhará no seu caminho.”
Jó 22:28

Não sei exatamente onde esse caminho vai me levar.

Talvez, desta vez, eu não precise saber.

Preciso apenas permanecer.

Guilherme Machado

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A estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato e uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela cidade pequena, onde as ruas ainda pareciam conhecer pelo nome aqueles que passavam por elas, havia uma estrada que começava depois da última casa e desaparecia lentamente entre os cafezais, as árvores antigas e algumas propriedades esquecidas pelo tempo. Não possuía placa, não aparecia nos mapas mais recentes e quase ninguém se lembrava de onde terminava. Os mais velhos diziam apenas que aquela estrada sempre existira, como se tivesse nascido junto com a própria cidade.

            Chamavam-na de Estrada Deserta.

            Não porque fosse completamente abandonada, pois de vez em quando alguém ainda passava por ali com uma carroça, uma bicicleta velha ou uma caminhonete carregada de ferramentas.

             Era deserta porque, segundo os antigos, quem caminhava por ela começava a ouvir coisas que a cidade moderna havia aprendido a silenciar.

            O vento.

            Os pássaros.

            O próprio pensamento.

            E, sobretudo, o coração.

            A cidade havia mudado muito.

            Durante muitos anos, as pessoas deixavam as portas abertas durante o dia. As crianças brincavam nas calçadas até que alguma mãe aparecesse na esquina chamando pelo nome.

            Os homens se reuniam diante da venda depois do trabalho, enquanto as mulheres conversavam nas cadeiras colocadas nas calçadas, comentando a vida dos vizinhos, o preço do café, o casamento de alguém ou simplesmente o tempo.

            Havia pouca riqueza, mas existia uma espécie de abundância que não aparecia nos livros de economia.

            As pessoas tinham tempo.

            Tempo para conversar.

            Tempo para esperar.

            Tempo para visitar um doente.

            Tempo para sentar diante de uma praça e observar a tarde morrer lentamente.

            Com os anos, chegaram as,  máquinas, os telefones inteligentes, os aplicativos, os carros silenciosos, as entregas rápidas e a promessa de que tudo poderia ser feito sem que ninguém precisasse sair de casa.

            A cidade ganhou velocidade.

            Mas perdeu demora.

            E talvez tenha sido justamente a demora que um dia havia permitido que as pessoas se encontrassem.

            Seu Anselmo percebeu isso antes de quase todos.

            Tinha setenta e oito anos e ainda conservava uma pequena oficina de consertos de relógios numa rua próxima à praça central. A oficina era estreita, cheirava a madeira velha, óleo e café passado. Havia relógios pendurados pelas paredes, alguns funcionando, outros parados em horários diferentes, como se cada um guardasse uma pequena morte.

            Seu Anselmo dizia que relógio parado não era relógio quebrado.

            Era memória.

            — O relógio não deixa de existir porque deixou de marcar as horas — costumava dizer.

            Poucos compreendiam.

            Ele também já não fazia questão de explicar.

            Tinha aprendido que certas coisas somente são entendidas quando a vida nos coloca diante delas.

            Todas as manhãs, abria a porta da oficina às oito. Colocava uma cadeira na calçada e esperava os primeiros movimentos da cidade.

            Antigamente, conhecia quase todos.

            Agora conhecia apenas os passos.

            As pessoas passavam olhando para baixo, os olhos presos às pequenas telas luminosas de seus telefones.

            Às vezes, duas pessoas caminhavam lado a lado sem trocar uma palavra.

            Seu Anselmo observava aquilo com tristeza, mas não com raiva.

            Sabia que a modernidade não havia chegado para destruir ninguém.

            Ela simplesmente havia chegado prometendo facilitar a vida.

            E, sem perceber, havia começado a ocupá-la.

            Certa manhã, uma mulher chamada Helena entrou na oficina.

            Tinha pouco mais de quarenta anos e carregava uma expressão de cansaço que não parecia vir do trabalho. Pediu que Seu Anselmo consertasse um relógio de pulso que pertencera ao pai.

— Ele morreu há três anos — disse.

            Seu Anselmo pegou o relógio cuidadosamente.

            — E ele funcionava?

            — Funcionava.

            — Então por que parou?

            Helena ficou alguns segundos em silêncio.

            — Acho que parou quando meu pai morreu.

            Seu Anselmo olhou para ela.

            Não corrigiu.

            Não disse que relógios não possuem sentimentos.

            Apenas abriu a tampa traseira.

            — Às vezes, o mecanismo continua funcionando por algum tempo — falou. —   Mas chega uma hora em que a gente percebe que estava dando corda para uma lembrança.

            Helena sorriu tristemente.

            Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém falava com ela sem tentar resolver sua vida.

            Naquela tarde, ela voltou para buscar o relógio.

            Seu Anselmo havia feito o conserto.

            Quando colocou o objeto no pulso, Helena ouviu o pequeno tic-tac.

            Por alguns segundos, pareceu escutar a voz do pai.

            Não uma voz verdadeira, mas aquela voz que a memória inventa quando sente falta de alguém.

            — Quanto devo?

            — Nada.

            — Como assim?

            — O senhor seu pai já pagou.

            Helena franziu a testa.

            — Pagou?

            — Pagou quando ainda estava vivo. Consertou meu telhado numa época em que eu não tinha dinheiro.

            Ela não se lembrava.

            Talvez porque a memória também seja uma casa cheia de quartos que esquecemos de visitar.

            Helena saiu da oficina olhando para o relógio.

            Na praça, os bancos estavam quase vazios.

            Um homem velho alimentava alguns pombos.

            Uma criança passava de bicicleta.

            Uma senhora atravessava lentamente a rua com uma sacola de pão.

            E por um instante a cidade pareceu voltar a ser aquela que existia antes dos telefones, antes das notificações, antes da pressa.

            Foi apenas um instante.

            Mas alguns instantes são maiores que muitos anos.

            Naquela mesma cidade morava Joaquim, antigo ferroviário.

            A estação havia sido desativada décadas antes. Restava apenas o prédio envelhecido, com suas paredes manchadas e a plataforma tomada por mato.

            Joaquim ainda ia até lá todas as tardes.

            Sentava-se num banco de madeira e ficava olhando os trilhos que já não levavam ninguém.

            Os jovens riam quando passavam.

            — Seu Joaquim espera o trem até hoje?

            Ele respondia:

            — Não espero o trem.

            — Então espera o quê?

            — O que o trem levou.

            Ninguém entendia.

            Talvez nem ele.

            Mas sabia que os trilhos tinham levado mais do que passageiros.

            Tinham levado uma época.

            Antes, quando o trem chegava, a cidade inteira parecia acordar. Havia vendedores, famílias, trabalhadores, estudantes, crianças correndo, malas, despedidas e reencontros.

            O trem era mais do que transporte.

            Era acontecimento.

            Hoje, tudo chegava rapidamente pelos caminhões, pelos aplicativos, pelas estradas asfaltadas.

            Mas nada parecia chegar de verdade.

            Joaquim dizia que uma cidade começa a envelhecer quando suas pessoas deixam de esperar umas pelas outras.

            E talvez tivesse razão.

            Na padaria de Dona Nair, o tempo ainda caminhava devagar.

            Ela acordava antes do sol e preparava o pão como aprendera com a mãe. Não utilizava grandes máquinas. Fazia quase tudo com as próprias mãos.

            A massa era sovada lentamente.

            O café era passado no coador.

            As portas eram abertas cedo.

            E havia sempre alguém sentado à mesa do canto.

            Dona Nair conhecia as histórias de quase todos.

            Sabia quem tinha filho estudando longe.

            Quem estava procurando emprego.

            Quem havia se separado.

            Quem estava doente.

            Quem fingia estar bem.

            Ela dizia que cidade pequena era como família.

            — Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

            Depois acrescentava:

            — O problema é que hoje ninguém mais quer saber de verdade.

            O comentário parecia simples, mas carregava uma tristeza profunda.

            Porque saber não é o mesmo que conhecer.

            Hoje as pessoas sabiam onde as outras estavam.

            Sabiam o que comiam.

            Sabiam onde viajavam.

            Sabiam o que compravam.

            Sabiam o que fotografavam.

            Mas não sabiam quando alguém estava triste.

            Talvez a modernidade tivesse criado uma nova forma de solidão: aquela em que ninguém está sozinho, mas quase ninguém está verdadeiramente acompanhado.

            Naquela cidade, havia também Miguel, rapaz de vinte e seis anos, nascido ali, mas com os olhos sempre voltados para longe.

            Trabalhava remotamente para uma empresa de uma grande cidade.

            Passava o dia diante do computador.

            Recebia mensagens de pessoas que nunca havia visto.

            Participava de reuniões em que todos falavam, mas ninguém realmente conversava.

            Morava sozinho num apartamento pequeno.

            Tinha internet rápida, televisão enorme, celular moderno e uma geladeira cheia.

            Mesmo assim, algumas noites jantava sentado no chão porque não havia ninguém para conversar.

            Sua mãe morava duas ruas acima.

            Ele poderia visitá-la em cinco minutos.

            Mas quase sempre dizia:

            — Amanhã eu vou.

            O amanhã tornou-se um lugar onde muitas pessoas enterram seus afetos.

            Um sábado, Miguel decidiu caminhar pela antiga estrada.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez tivesse cansado de olhar para uma tela.

            Talvez estivesse cansado de si mesmo.

            Caminhou pela cidade, passou pela praça, pela antiga estação, pela padaria de Dona Nair e seguiu até o começo da estrada.

            O céu estava avermelhado.

            O campo tinha aquele cheiro úmido das tardes depois da chuva.

            Ao longe, ouviam-se algumas vacas.

            Era estranho perceber que ainda existiam sons que não pediam atenção.

            A estrada seguia silenciosa.

            Miguel caminhou.

            Depois de alguns minutos, encontrou Joaquim sentado à sombra de uma árvore.

            — O senhor vem sempre aqui?

            Joaquim sorriu.

            — Eu poderia perguntar o mesmo.

            Miguel sentou-se ao lado dele.

            Ficaram alguns minutos sem falar.

            Na cidade, o silêncio parecia constrangedor.

            Ali, não.

            Ali o silêncio parecia uma conversa.

            — O senhor não sente falta do trem? — perguntou Miguel.

            — Sinto.

            — Então por que continua vindo?

            Joaquim olhou para a estrada.

            — Porque sentir falta também é uma maneira de continuar amando.

            Miguel ficou quieto.

            A frase permaneceu dentro dele como uma pedra jogada num poço.

            Naquele momento percebeu que passara anos tentando fugir daquilo que sentia.

            Fazia compras para preencher espaços.

            Assistia a filmes para não pensar.

            Trabalhava para não lembrar.

            Conversava virtualmente para não precisar olhar alguém nos olhos.

            Acreditava que estar conectado era estar acompanhado.

            Mas talvez conexão fosse apenas uma palavra bonita para esconder a distância.

            Quando voltou para casa, encontrou sua mãe sentada na varanda.

            Ela segurava uma xícara de café.

            — Você sumiu.

            — Fui caminhar.

            — Sozinho?

            Miguel hesitou.

            — Nem tanto.

            Ela sorriu.

            — Então entrou em alguma estrada?

            — Entrei.

            A mãe levantou-se e foi buscar outra xícara.

            Não perguntou mais nada.

            Algumas mães sabem que certas perguntas precisam esperar.

            Sentaram-se juntos.

            Conversaram por quase duas horas.

            Falaram do pai.

            Da infância.

            Da antiga casa.

            Do quintal.

            Dos vizinhos.

            Da primeira bicicleta.

            Do tempo em que Miguel brincava na rua até anoitecer.

            Ele descobriu que sua mãe ainda guardava uma caixa com seus desenhos de criança.

            Achou engraçado.

            Depois chorou.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez porque percebesse que havia passado anos procurando novidades quando suas maiores riquezas estavam guardadas em caixas antigas.

            A cidade continuava mudando.

            Novos prédios surgiam.

            Casas antigas eram demolidas.

            A praça recebia novas luminárias.

            A antiga padaria ganhava uma máquina moderna de café.

            A estação permanecia fechada.

            A estrada continuava lá.

            E as pessoas continuavam envelhecendo.

            Seu Anselmo morreu numa manhã de inverno.

            A oficina permaneceu fechada por algumas semanas.

            Na porta, alguém colocou uma pequena fotografia dele sentado na cadeira da calçada.

            Abaixo, uma frase escrita à mão:

            “Consertava relógios, mas entendia de tempo.”

            Helena levou flores.

            Joaquim ficou em silêncio.

            Dona Nair preparou café para todos.

            Miguel apareceu com sua mãe.

            Foi uma despedida simples.

            Sem discursos.

            Sem música.

            Apenas algumas pessoas lembrando de um homem que havia passado grande parte da vida tentando impedir que as coisas desaparecessem completamente.

            Depois da morte de Seu Anselmo, Helena começou a visitar a praça todos os domingos.

            Joaquim passou a conversar mais com Miguel.

            Dona Nair colocou uma mesa maior na padaria.

            Aos poucos, outras pessoas começaram a aparecer.

            Não era um movimento organizado.

            Não havia projeto.

            Não havia aplicativo.

            Era apenas gente sentando perto de gente.

            Uma tarde, alguém levou um rádio antigo.

            Outro trouxe um álbum de fotografias.

            Uma senhora apareceu com uma receita de bolo que aprendera com a avó.

            Um antigo trabalhador da ferrovia levou fotografias da estação.

            As crianças começaram a perguntar sobre os trens.

            Os velhos começaram a contar histórias.

            E a cidade descobriu que memória não é apenas aquilo que ficou para trás.

            Memória também é aquilo que impede o presente de ficar vazio.

            Certa noite, Miguel caminhou novamente pela estrada.

            O céu estava cheio de estrelas.

            Pensou em todas as pessoas que haviam passado por aquela cidade.

            Algumas haviam partido.

            Outras haviam morrido.

            Outras continuavam vivas, mas distantes.

            Talvez a vida fosse uma longa estrada feita de encontros e ausências.

            Ninguém permanece.

            Nenhuma casa permanece exatamente igual.

            Nenhum amor permanece da mesma maneira.

            Nenhuma cidade consegue impedir o tempo.

            Mas isso não significa que tudo seja perdido.

            Há coisas que desaparecem dos olhos e permanecem no coração.

            Miguel entendeu então que a solidão não era simplesmente estar sozinho.

            Era perder a capacidade de reconhecer os outros.

            Era atravessar uma praça cheia de pessoas sem encontrar ninguém.

            Era possuir milhares de contatos e não saber para quem telefonar quando a noite ficava difícil.

            Era ter tudo imediatamente e não possuir ninguém com quem esperar.

            A estrada parecia interminável.

            Miguel continuou caminhando.

            Lembrou-se de Seu Anselmo.

            Do pai de Helena.

            Dos trilhos.

            De sua mãe.

            Da padaria.

            Das fotografias.

            De tudo aquilo que parecia pequeno demais para o mundo moderno, mas grande demais para desaparecer.

            Pensou que talvez o progresso não fosse o inimigo.

            O problema era acreditar que progresso significava abandonar tudo aquilo que nos tornava humanos.

            A tecnologia poderia aproximar distâncias.

            Mas não poderia abraçar ninguém.

            Uma mensagem poderia atravessar continentes em segundos.

            Mas não poderia substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.

            Uma fotografia poderia guardar um rosto.

            Mas não poderia devolver uma voz.

            Um relógio poderia marcar as horas.

            Mas não poderia dizer o que fazer com elas.

            Miguel parou.

            Olhou para trás.

            A cidade estava iluminada ao longe.

            As casas pareciam pequenas estrelas espalhadas sobre a terra.

            Havia carros passando.

            Algumas janelas estavam acesas.

            Talvez alguém estivesse trabalhando.

            Talvez alguém estivesse chorando.

            Talvez alguém estivesse esperando.

            Ele percebeu que, apesar de toda a modernidade, ainda existiam pessoas desejando aquilo que sempre desejaram.

            Ser lembradas.

            Ser escutadas.

            Ser amadas.

            Ser necessárias.

            A estrada deserta não era realmente deserta.

            Estava cheia de ausências.

            Cada árvore guardava uma história.

            Cada curva escondia uma lembrança.

            Cada pedra parecia ter sido pisada por alguém.

            A solidão, pensou Miguel, não nasce apenas quando alguém vai embora.

            Às vezes ela nasce quando deixamos de olhar para aquilo que ficou.

            Na manhã seguinte, ele acordou cedo.

            Não abriu o computador.

            Não pegou imediatamente o telefone.

            Foi até a casa da mãe.

            Bateram café juntos.

            Depois caminharam até a praça.

            Encontraram Helena.

            Dona Nair apareceu com pão quente.

            Joaquim chegou mais tarde.

            Ninguém havia combinado.

            Era assim que antigamente as coisas aconteciam.

            As pessoas simplesmente apareciam.

            E talvez fosse essa a maior diferença entre aquele tempo e o presente.

            Hoje tudo precisava ser marcado.

            Agendado.

            Confirmado.

            Compartilhado.

            Antigamente, algumas coisas simplesmente aconteciam.

            E, quando aconteciam, ninguém precisava fotografar.

            Bastava viver.

            Ao meio-dia, Miguel voltou para casa pela mesma rua de sempre.

            Mas alguma coisa havia mudado.

            Não na cidade.

            Nele.

            A estrada continuava deserta.

            A estação continuava abandonada.

            Os relógios continuavam marcando horas diferentes.

            As casas continuavam envelhecendo.

            As pessoas continuavam partindo.

            Nada havia sido consertado.

            E talvez essa fosse a verdade mais difícil de aceitar.

            A vida não conserta tudo.

            Algumas coisas permanecem quebradas.

            Algumas ausências nunca deixam de doer.

            Algumas estradas não conduzem a lugar algum.

            Mas mesmo uma estrada sem destino pode ensinar alguém a caminhar.

            E talvez o sentido da vida não esteja em chegar.

            Talvez esteja em não atravessar o caminho completamente sozinho.

            Naquela noite, Miguel desligou o telefone.

            Abriu a janela.

            Ouviu o vento.

            Por alguns minutos, não fez nada.

            Apenas escutou.

            A cidade estava silenciosa.

            Muito longe, um cachorro latiu.

            Uma motocicleta passou.

            Uma porta se fechou.

            Depois, novamente, o silêncio.

            Miguel sorriu.

            Não porque tivesse encontrado uma resposta.

            Mas porque finalmente compreendera que talvez não precisasse de uma.

            O coração também possui suas estradas.

            Algumas são iluminadas.

            Outras desaparecem na escuridão.

            Há caminhos que seguimos por amor.

            Outros por medo.

            Alguns por necessidade.

            E existem aqueles que percorremos simplesmente porque não sabemos para onde ir.

            A estrada deserta continuaria ali.

            Esperando os passos daqueles que ainda tivessem coragem de caminhar sem pressa.

            Talvez um dia alguém encontrasse uma velha placa caída no mato.

            Nela estaria escrito apenas:

ESTRADA DESERTA DO CORAÇÃO.

            E talvez essa pessoa sorrisse.

            Porque descobriria que toda cidade possui uma estrada assim.

            Um lugar onde o passado não morreu completamente.

            Onde as vozes dos antigos ainda atravessam o vento.

            Onde a infância continua escondida atrás de uma árvore.

            Onde um trem inexistente ainda parece chegar nas tardes de domingo.

            Onde o cheiro de café lembra uma casa que já não existe.

            Onde uma fotografia antiga consegue fazer alguém chorar.

            E onde a solidão, por alguns instantes, deixa de ser ausência e transforma-se em memória.

            Porque talvez seja isso que nos resta quando o mundo corre depressa demais: Parar.

Olhar.

Lembrar.            

E reconhecer que, apesar de todos os caminhos modernos, ainda precisamos uns dos outros para atravessar a estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato

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A cama dos casados I

Conto de Makala Sankara Anzuruni — À luz de uma fogueira ancestral, as lições de um velho professor sobre o lugar onde o amor aprende a respirar através das palavras.

Retrato em close do escritor moçambicano Makala Sankara Anzuruni vestindo camisa branca, olhando ligeiramente para cima com um fundo claro decorado com flores vermelhas.
Makala Sankara Anzuruni
Pintura digital de pessoas reunidas ao redor de uma fogueira sob uma grande árvore em uma aldeia africana durante a noite.
https://gemini.google.com/app/8072c724ee29e27e?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Há camas onde o corpo descansa e outras onde o casamento aprende a respirar

A reunião começou quando a noite já tinha tomado conta da aldeia.

Não havia energia eléctrica. Não havia televisão. Não havia telefone para interromper a conversa. Havia apenas a lua, o som dos grilos e uma fogueira acesa debaixo da grande figueira.

Os homens estavam sentados em bancos de madeira. As mulheres ocupavam as esteiras. As crianças, depois de muitas corridas pelo terreiro, brincavam perto das mães.

Naquela aldeia, quando a noite chegava, a palavra ainda tinha tempo.

No centro da roda estava o professor.

Começou por cantar uma pequena música tradicional. As mulheres responderam em coro. A fogueira estalava, lançando pequenas faíscas para o escuro.

Quando terminou a canção, o professor olhou para os casais.

— Minhas mwanas, para que serve uma cama?

Maboa, que estava sentado perto do fogo, respondeu sem pensar:

— Para dormir, professor.

As mulheres riram.

O professor também sorriu.

— É exactamente por pensarmos assim que alguns casamentos passam a vida deitados e nunca descansam.

Maboa ajeitou-se no banco.

— Professor, cama é cama.

— Não, Maboa. Cama de solteiro pode ser cama. Cama de hospital pode ser cama. Mas a cama dos casados é outra escola.

Janete, que desde o princípio acompanhava tudo com atenção, levantou a mão.

— Professor, então o que se aprende nessa escola?

O professor aproximou as mãos do fogo.

— Aprende-se a conhecer a pessoa que dorme ao teu lado.

— Mas isso não se aprende antes do casamento?

O professor sorriu.

— Antes do casamento aprendemos a gostar. Depois do casamento aprendemos a conhecer.

Algumas mulheres trocaram olhares.

O professor continuou:

— A cama dos casados também é lugar de intimidade. É natural que marido e mulher tenham ali a sua vida de casal. Mas reduzir a cama apenas ao encontro dos corpos é esquecer que o casamento também precisa do encontro das palavras.

A roda ficou silenciosa.

— Há casais que sabem deitar juntos — prosseguiu —, mas não sabem conversar. Sabem dividir a cama, mas não sabem dividir os problemas. Sabem procurar carinho, mas não sabem pedir desculpa.

Janete baixou os olhos.

Maboa mexeu na lenha com um pequeno pau.

— A cama pode ser o lugar onde marido e mulher conversam sobre os filhos, sobre o dinheiro, sobre a machamba, sobre a construção da casa e sobre aquilo que está a pesar no coração.

Uma senhora perguntou:

— Então a cama também serve para fazer planos?

— Serve, sim.

O professor apontou para a casa ao lado.

— Antes de uma casa crescer com tijolos, muitas vezes começa a crescer numa conversa.

Maboa levantou a mão.

— Professor, quer dizer que a cama também é escritório?

— É escritório, conselho de família, lugar de reconciliação e, quando a discussão aperta, até tribunal.

A gargalhada correu pela roda.

— Mas existe uma diferença — acrescentou o professor. — No tribunal, alguém precisa ganhar. No casamento, se um ganha e o outro perde, os dois acabam perdendo.

Janete bateu palmas.

— Essa frase vou levar para casa.

O marido olhou para ela.

— Leva também a lenha.

Todos riram.

Janete respondeu:

— Estás a ver, professor? Já começou o julgamento.

O professor abanou a cabeça.

— É por isso que o casamento precisa de humor. Quando marido e mulher deixam de rir juntos, começam a procurar motivos para rir um do outro.

A mãe de Impwana, uma senhora conhecida por falar pouco e observar muito, levantou a mão.

— Professor, por que razão existem casais que vivem muitos anos juntos e continuam a não se entender?

O professor ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Porque morar na mesma casa não significa viver na mesma vida.

A senhora baixou a cabeça.

O professor prosseguiu:

— Há marido que conhece o preço do pão, mas não conhece a preocupação da mulher. Há mulher que sabe a hora de o marido regressar, mas não sabe o que ele traz dentro do coração.

O fogo estalou.

Ninguém riu.

— O casamento começa a adoecer quando as conversas diminuem. Primeiro deixam de conversar sobre sonhos. Depois deixam de conversar sobre problemas. Mais tarde, conversam apenas sobre comida, crianças, dinheiro e trabalho.

Maboa levantou novamente a mão.

— Professor, e o dinheiro?

— O dinheiro também precisa de conversa.

Todos olharam para ele.

— Não estou a falar de esconder notas debaixo da esteira — esclareceu. — Estou a falar de planeamento. Marido e mulher precisam de saber quanto ganham, quanto gastam e o que querem construir juntos.

Um homem sentado mais atrás comentou:

— Se a minha mulher souber tudo o que ganho, professor, onde fica a surpresa?

— A surpresa — respondeu o professor — será quando descobrires que o dinheiro acabou antes de o mês terminar.

A gargalhada foi geral.

Maboa até bateu palmas.

Depois, o professor ficou novamente sério.

— Família sem plano é como barco sem remador. Conhece o rio, mas não escolhe a margem.

Janete perguntou:

— E quando um dos dois não quer conversar?

— Começa-se por escutar.

— E se não quiser escutar?

— Fala-se com calma.

— E se continuar sem querer?

O professor olhou para ela.

— Minha filha, há portas que não se abrem com pancadas. Algumas precisam de paciência.

A frase ficou suspensa sobre a roda.

Ao longe, ouviu-se o canto de um galo, enganado pela claridade da fogueira.

O professor fechou o caderno.

— Meus filhos, casamento não é apenas dividir uma casa. É dividir responsabilidades, sonhos, dificuldades e decisões.

Fez uma pausa.

— A cama dos casados é pequena demais para carregar o orgulho de duas pessoas.

Ninguém falou.

— Mas é grande o suficiente para caber uma conversa sincera.

A reunião terminou.

A fogueira continuou acesa por mais algum tempo.

As mulheres recolheram as esteiras. Os homens despediram-se. As crianças foram chamadas para dentro de casa.

Janete caminhou ao lado do marido.

Maboa ficou para trás, procurando o seu chinelo, amarrado com arame.

Naquela aldeia, naquela noite, ninguém precisava de televisão para ocupar o silêncio.

Ninguém precisava de telefone para lembrar que existia alguém ao lado.

Havia a fogueira.

Havia a palavra.

E havia a cama dos casados, à espera de duas pessoas que talvez naquela noite descobrissem que dormir juntos é fácil.

Difícil é acordar todos os dias e continuar a escolher um ao outro.

Porque há problemas que não precisam de uma casa maior.

Precisam apenas de duas pessoas dispostas a sentar-se juntas, conversar com sinceridade e olhar para o mesmo futuro.

Makala Sankara Anzuruni

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Entrevista com a artista visual iraquiana Hala Kusiak

“A verdadeira propriedade da arte é tornar-se parte da memória dos outros.” (Dra. Hala Kusiak)

Logotipo "Entrevistas ROLianas" do Jornal Cultural ROL. Apresenta uma ilustração de uma mão segurando um microfone de entrevista e os textos "Entrevistas ROLianas", "Jornal Cultural" e a marca "ROL" com seu símbolo geométrico laranja.
Logotipo da Seção Entrevistas ROLianas

Entrevista realizada por Ali Sahin Abdul Aziz

Dra. Hala Kusiak
Dra. Hala Kusiak – Foto cedida pela entrevistada

As obras da artista visual e acadêmica iraquiana, Dra. Hala Kusiak, refletem, ao mesmo tempo, orientações filosóficas e intelectuais. É dentro dessas reflexões que nascem suas pinturas, incorporando sua visão e seu desejo de expressar suas ideias por meio da obra de arte — por meio da escolha de suas ferramentas, de suas formas de expressão filosófica e de sua visão sobre a humanidade e as razões de sua existência na Terra. Assim, vemos essas emoções refletidas naturalmente em sua produção artística.

É precisamente isso que nossa entrevistada confirma ao afirmar que “a arte é um diálogo, não uma palestra”, e que a escola surrealista lhe proporciona liberdade para transitar entre a realidade e o inconsciente, enquanto a ideia e a emoção determinam sua própria linguagem visual.

Para lançar luz sobre suas realizações, realizamos esta entrevista com ela, abordando diversos aspectos de sua experiência artística. Eis suas respostas:

Dra. Hala Kusiak
Dra. Hala Kusiak – Foto cedida pela entrevistada

• Em sua exposição “Fingers of Fate” (“Dedos do Destino”), parecia haver uma espécie de investigação criminal artística sobre determinada realidade. A quem se dirigia sua mensagem?

Esta exposição não era dirigida a uma pessoa específica, mas, sobretudo, era um confronto com o próprio ser humano — com aqueles espaços nos quais fazemos nossas escolhas e, depois, atribuímos suas consequências ao destino.

Eu explorava a complicada relação entre aquilo que escolhemos por nós mesmos e aquilo que nos é imposto; entre liberdade e determinismo; e entre o impacto que nossas ações deixam em nossas próprias vidas e nas vidas dos outros.

Portanto, pode-se dizer que a exposição contém algo de uma “investigação artística” sobre a psique humana. Não ofereço respostas prontas; em vez disso, coloco o espectador diante de perguntas que talvez tenha passado muito tempo evitando:

Quanto do que nos aconteceu foi realmente destino? E quanto foi resultado de nosso silêncio, medo, escolhas ou concessões?

Minha mensagem era dirigida ao ser humano, onde quer que ele esteja, porque acredito que a verdadeira arte começa com uma experiência pessoal, mas só alcança seu êxito quando se transforma em uma experiência humana compartilhada.

• “The N of Visual Surrealism” (“O N do Surrealismo Visual”) é uma das descrições marcantes de seu trabalho. As outras escolas de arte visual não conseguiram acolher suas ideias e ambições?

Não considero uma escola artística como um conjunto de limites dentro dos quais devo permanecer. Para mim, uma escola é conhecimento, não uma restrição.

Um crítico pode encontrar surrealismo, abstração, simbolismo ou até traços de expressionismo em meu trabalho. Mas não começo uma pintura dizendo: “Hoje vou pintar uma obra surrealista” ou “Hoje vou criar uma pintura abstrata”.

Geralmente começo com a ideia e o sentimento e, então, permito que eles escolham sua própria linguagem visual.

Talvez o surrealismo pareça próximo da minha experiência porque me dá a liberdade de transitar entre a realidade e o inconsciente, e entre aquilo que é visível e aquilo que ocultamos dentro de nós mesmos.

Mas, em última análise, estou buscando minha própria linguagem, em vez de procurar filiação a uma determinada escola. O que importa para mim é que, um dia, uma obra seja reconhecida como portadora da assinatura de Hala antes que alguém diga que ela pertence a esta ou àquela escola.

• Como o espectador ocidental percebe a arte visual iraquiana contemporânea? E você desempenhou algum papel na aproximação dessas perspectivas?

Acredito que o público ocidental tenha se tornado cada vez mais curioso em relação à arte iraquiana contemporânea. No entanto, muitas vezes ainda a enxerga através da imagem política ou histórica do Iraque, ou de sua associação com as guerras.

É aí que reside a responsabilidade do artista iraquiano contemporâneo: dizer ao mundo que o Iraque não é apenas uma notícia política, nem somente uma civilização antiga. É também uma sociedade viva e em transformação, repleta de perguntas, contradições e beleza.

Por meio de minha participação internacional, tenho tido o cuidado de não me apresentar simplesmente como uma artista iraquiana em sentido folclórico, nem como uma artista ocidental desconectada de suas raízes.

Procuro ser uma ponte entre as duas.

Quando um espectador em Nova York ou na Europa se coloca diante de uma pintura de uma artista iraquiana e descobre que a questão levantada pela pintura também o toca como ser humano, as distâncias geográficas e culturais começam a desaparecer.

Para mim, esse é um dos papéis mais importantes da arte: descobrir que, por trás de nossas diferenças de língua e identidade, carregamos medos, desejos e sonhos semelhantes.

• No sentido mais amplo e filosófico, existe uma relação entre a cor e aquilo que o artista visual deseja deixar para trás depois de concluir uma pintura. A quem pertencem, em última instância, suas pinturas, e que legado você deixou?

A propriedade legal de uma obra de arte pode passar para um colecionador, uma instituição ou um museu. Mas não acredito que uma obra de arte permaneça inteiramente propriedade do artista depois que deixa o ateliê.

No momento em que me coloco diante de uma pintura e sinto que a concluí, ela começa uma nova vida própria, independente de mim.

Alguém pode adquiri-la, mas, em termos de significado, ela se torna propriedade de todos aqueles que se colocam diante dela e encontram nela uma parte de si mesmos.

Talvez, muitos anos depois, o espectador não saiba em que circunstâncias a pintei, ou sequer conheça minha história pessoal. Ainda assim, ele a lerá à sua própria maneira.

Quanto ao legado que desejo deixar, não é o número de pinturas que levam meu nome. Em vez disso, espero deixar uma linguagem visual e ideias que façam com que alguém, muito depois de eu ter partido, se coloque diante de uma pintura e diga:

“Esta pintura me fez pensar de maneira diferente.”

Para mim, esta é a verdadeira propriedade da arte: tornar-se parte da memória dos outros.

• O que distingue suas pinturas é a grande precisão com que você emprega a cor, combinada à estranheza das ideias. Você não acha que precisamos construir uma ponte com o espectador?

Certamente, precisamos construir essa ponte. Mas não acredito que a solução seja simplificar a arte a ponto de eliminar seu mistério.

Gosto de oferecer ao espectador uma chave, mas não quero abrir todas as portas para ele.

Existe uma diferença entre uma obra misteriosa e uma obra inacessível. Uma bela ambiguidade o atrai, enquanto o fechamento o afasta da obra.

Por isso, procuro garantir que minhas pinturas contenham um ponto de entrada para o espectador. Pode ser uma cor, uma forma, um movimento ou um paradoxo visual.

Depois disso, o espectador começa a criar sua própria história.

Também acredito que o espectador é mais inteligente do que alguns artistas imaginam. Não precisamos explicar tudo a ele; antes, devemos respeitar sua capacidade de sentir e interpretar.

Para mim, a arte é um diálogo, não uma palestra.

• Em que medida a crítica contribui para avaliar e aperfeiçoar a arte visual?

A crítica genuína é essencial para um artista porque lhe oferece um segundo olhar, através do qual ele pode enxergar aquilo que não consegue ver enquanto está imerso em sua própria experiência.

Mas existe uma grande diferença entre crítica e julgamento.

Uma boa crítica não diz ao artista: “Faça isto e não faça aquilo”. Em vez disso, revela as relações, os contextos, os pontos fortes e as fragilidades presentes em sua experiência artística e, então, deixa o artista livre para tomar a decisão.

Por isso, escuto as críticas e respeito o crítico que possui conhecimento, experiência e visão. Ao mesmo tempo, porém, protejo minha voz interior.

Se um artista começa a criar para agradar aos críticos, ao mercado ou ao público, perde algo essencial de sua liberdade.

Trato a crítica como um espelho: olho para ele atentamente, mas não permito que decida quem sou.

• Todo começo deve ter sido influenciado por alguma experiência. Conte-nos sobre as características de seus primeiros passos e o que a influenciou.

Acredito que meus verdadeiros começos aconteceram antes que eu tivesse consciência de que me tornaria uma artista.

Desde a infância, eu via as coisas de maneira diferente. Lembro-me de que o desenho entrou muito cedo em minha vida como um espaço onde eu podia dizer aquilo que não conseguia expressar em palavras.

Cresci em um ambiente iraquiano que carregava muita beleza, mas que também continha um grande sistema de restrições sociais: “Não”, “Isso é vergonhoso”, o que deveria ser dito e o que deveria permanecer sem ser dito.

Talvez seja por isso que a arte tenha se tornado, mais tarde, para mim, um ato de liberdade.


Biografia

Nome: Hala Aziz Abdul Hadi
Nome artístico: Hala Kusiak
Em inglês: Hala Kusiak
Nascida em: Bagdá, Iraque
Nacionalidade: Iraquiana e canadense
Formação: Mestrado em Tradução

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Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro

Alexandre Rurikovich Carvalho

A Base Histórica da Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro –  Literatura, Memória, Identidade e Preservação do Legado Cultural

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A arte apresenta uma composição histórico-cultural dedicada à Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro,  unindo literatura, memória e identidade nacional. Em destaque, aparecem José de Alencar, Gonçalves Dias,  Álvares de Azevedo e Castro Alves, grandes referências do Romantismo brasileiro. Na parte inferior, destaca-se  a identificação do autor e do Jornal Cultural ROL.

RESUMO 

O presente artigo analisa a fundamentação histórica, literária e cultural da Comenda Estrelas  do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências,  Letras e Artes (FEBACLA), como instrumento institucional de reconhecimento a  personalidades e instituições que se destacam por relevantes contribuições à literatura, à  cultura, à educação, à pesquisa, à preservação da memória nacional e à promoção de  valores humanísticos associados ao legado do Romantismo brasileiro.

A instituição da  Comenda encontra inspiração na trajetória e na obra de quatro nomes fundamentais das  letras nacionais: José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves,  representantes de diferentes vertentes do movimento romântico e de momentos distintos da  formação da literatura brasileira oitocentista.

O estudo apresenta aspectos biográficos e  literários desses autores, destacando a construção de uma literatura voltada para temas  nacionais, a valorização da natureza, do indígena, da identidade brasileira, dos sentimentos,  da subjetividade, da liberdade e das questões sociais. Examina-se, ainda, a finalidade da  Comenda, seus destinatários e sua importância como mecanismo simbólico de preservação  da memória cultural.

Conclui-se que a homenagem contemporânea aos grandes  representantes do Romantismo não constitui mera celebração retrospectiva, mas representa  uma forma de manter vivos princípios fundamentais da tradição literária brasileira,  estimulando novas gerações a valorizar a cultura, o conhecimento, a pesquisa, a educação e  a produção intelectual.

Palavras-chave: Romantismo brasileiro; José de Alencar; Gonçalves Dias; Álvares de  Azevedo; Castro Alves; Literatura brasileira; Memória cultural; Honrarias; FEBACLA. 

1 INTRODUÇÃO 

A história da literatura brasileira é inseparável do processo de formação da identidade  cultural do país. Ao longo do século XIX, especialmente após a Independência do Brasil,  escritores, poetas, intelectuais e artistas passaram a participar de um amplo processo de  construção simbólica da nacionalidade, procurando identificar temas, personagens,  paisagens, sentimentos e valores capazes de conferir à literatura brasileira características  próprias. 

Nesse contexto, o Romantismo brasileiro ocupou posição fundamental. Mais do que uma  escola literária, o movimento representou um momento de intensa transformação cultural, no  qual a literatura passou a desempenhar importante papel na construção de imagens do Brasil  e na valorização de elementos considerados representativos da experiência nacional. 

A literatura romântica brasileira desenvolveu diferentes tendências. O nacionalismo e o  indianismo estiveram presentes na primeira geração; a subjetividade, o sentimentalismo, a  idealização amorosa e a temática da morte ganharam força na segunda geração; e,  posteriormente, a poesia social e abolicionista encontrou em Castro Alves uma de suas  expressões mais vigorosas. 

É nesse amplo panorama que se inserem José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de  Azevedo e Castro Alves. Embora tenham produzido obras distintas e pertencido a  diferentes vertentes do Romantismo, os quatro contribuíram para a consolidação de uma  literatura brasileira capaz de expressar aspectos da identidade, da sensibilidade, da história e  das contradições da sociedade oitocentista. 

A Academia Brasileira de Letras reconhece, em sua tradição crítica e memorialística, a  relevância desses autores para as letras nacionais. Gonçalves Dias e José de Alencar, por  exemplo, são associados diretamente ao processo de nacionalização da literatura brasileira,  especialmente por meio do indianismo e da incorporação de temas brasileiros à poesia e à  prosa. 

É nesse patrimônio intelectual que encontra fundamento simbólico a Comenda Estrelas do  Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências,  Letras e Artes (FEBACLA). 

A Comenda pretende transformar a memória em reconhecimento e o reconhecimento em  incentivo à continuidade da produção cultural brasileira. Seu propósito não é simplesmente  homenagear autores do passado, mas estabelecer uma ponte entre a tradição e o presente,  reconhecendo aqueles que, em seu próprio tempo, contribuem para que a literatura, a  cultura, a educação, a pesquisa e a memória nacional permaneçam vivas. 

2 O ROMANTISMO E A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA 

O Romantismo brasileiro desenvolveu-se durante o século XIX, em um período marcado por  profundas transformações políticas e sociais. A Independência do Brasil, proclamada em  1822, criou um ambiente favorável à busca de elementos capazes de expressar  culturalmente a autonomia política alcançada pelo país. Nesse cenário, a literatura passou a  desempenhar uma função significativa na elaboração de uma identidade nacional.

A preocupação com a natureza brasileira, a valorização do indígena, a representação das  paisagens nacionais, o sentimento patriótico, a recuperação de episódios históricos e a  busca por uma linguagem literária identificada com o país constituíram elementos  importantes desse processo. 

Gonçalves Dias desempenhou papel central nesse movimento. Segundo a Academia  Brasileira de Letras, sua obra lírica e indianista incorporou temas e paisagens brasileiras à  literatura nacional e contribuiu para o processo de diferenciação cultural em relação à  tradição portuguesa. 

Na prosa, José de Alencar desenvolveu projeto igualmente importante. Sua produção  percorreu diferentes modalidades do romance brasileiro, incluindo o indianismo, o romance  histórico, o romance regionalista e o romance urbano. Entre suas obras encontram-se O  Guarani, Iracema, Ubirajara, Senhora, Lucíola, O Sertanejo e O Gaúcho, entre muitas outras. 

Assim, o Romantismo contribuiu para ampliar a percepção de que a literatura brasileira  poderia encontrar sua matéria-prima na própria realidade nacional. 

3 JOSÉ DE ALENCAR: O ROMANCE COMO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO  NACIONAL 

José Martiniano de Alencar (1829–1877) ocupa lugar de destaque na história do romance  brasileiro. Nascido em Messejana, no Ceará, Alencar foi advogado, jornalista, político, orador,  romancista e teatrólogo. Sua trajetória intelectual ultrapassou os limites da literatura,  envolvendo também questões políticas, linguísticas e culturais. A Academia Brasileira de  Letras o considera patrono da Cadeira nº 23. 

Sua contribuição para a formação da literatura nacional foi especialmente significativa porque  Alencar procurou construir uma ficção profundamente relacionada ao Brasil. Em O Guarani,  publicado em 1857, desenvolveu uma narrativa de caráter indianista que alcançou grande  popularidade. Em Iracema, publicado em 1865, aprofundou a elaboração literária do indígena  e da paisagem brasileira, articulando mito, natureza, linguagem e formação nacional. 

Sua produção, entretanto, não se limitou ao indianismo. Alencar escreveu romances urbanos,  históricos e regionais, procurando representar diferentes dimensões da sociedade brasileira.  Sua importância também está relacionada à reflexão consciente que realizou sobre a própria  atividade literária. Em Como e por que sou romancista, apresentou aspectos de sua  formação intelectual e de sua concepção estética. 

A Academia Brasileira de Letras destaca que sua obra contribuiu para a nacionalização da  literatura e para a consolidação do romance brasileiro. Nesse sentido, José de Alencar  representa, para a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, o valor da criação literária  como instrumento de construção da identidade cultural e de representação da realidade  nacional. 

4 GONÇALVES DIAS: POESIA, NACIONALIDADE E INDIANISMO 

Antônio Gonçalves Dias (1823–1864) foi poeta, professor, crítico, historiador e etnólogo.  Nascido em Caxias, no Maranhão, estudou Direito em Coimbra e retornou posteriormente ao  Brasil, onde desenvolveu intensa atividade literária e intelectual. Sua obra constitui um dos  pilares da primeira geração romântica brasileira.

A publicação de Primeiros cantos, em 1846, representou importante momento de afirmação  de uma poesia voltada para temas brasileiros. Sua famosa “Canção do Exílio”, escrita em  1843, tornou-se uma das composições mais conhecidas da língua portuguesa. 

O indianismo de Gonçalves Dias alcançou especial relevância. Poemas como “I-Juca Pirama”, “Canto do Piaga”, “Canto do Guerreiro”, “Canto do Tamoio” e “Leito de folhas  verdes” demonstram sua capacidade de transformar elementos indígenas em matéria  poética. 

Sua produção não se restringiu à poesia. Gonçalves Dias também desenvolveu pesquisas  linguísticas e etnográficas, escreveu peças teatrais, realizou estudos históricos e participou  de atividades intelectuais e científicas. 

A Academia Brasileira de Letras identifica em sua obra uma contribuição decisiva para a  incorporação de temas e paisagens brasileiras à literatura nacional, associando sua produção  à formação de uma consciência literária brasileira. Gonçalves Dias representa, portanto, na  simbologia da Comenda, a valorização da poesia, da identidade nacional, da pesquisa e da  memória cultural brasileira. 

5 ÁLVARES DE AZEVEDO: SUBJETIVIDADE, JUVENTUDE E SENSIBILIDADE  ROMÂNTICA 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) representa uma das expressões mais  marcantes da segunda geração do Romantismo brasileiro. Nascido em São Paulo, estudou  no Colégio Pedro II e posteriormente na Faculdade de Direito de São Paulo. Sua vida foi  interrompida precocemente, aos vinte anos, no Rio de Janeiro. A Academia Brasileira de  Letras o reconhece como patrono da Cadeira nº 2. 

Sua obra caracteriza-se por forte subjetividade, presença do sentimentalismo, idealização  amorosa, melancolia, conflito entre sonho e realidade e recorrência de temas como a morte,  a noite e a impossibilidade. 

Álvares de Azevedo expressou uma dimensão diferente do Romantismo brasileiro. Enquanto  a primeira geração enfatizou especialmente a nacionalidade e o indianismo, sua poesia  voltou-se para o universo interior do indivíduo, revelando conflitos, desejos, angústias e  idealizações. Sua produção tornou-se particularmente significativa por revelar que o  Romantismo brasileiro não constituiu movimento homogêneo. 

A tradição crítica da Academia Brasileira de Letras identifica diferentes vertentes do  romantismo brasileiro, incluindo o caráter mais sombrio e noturno associado a Álvares de  Azevedo, em contraste com outras expressões do movimento. Sua presença na  fundamentação simbólica da Comenda representa, assim, a liberdade criadora, a  subjetividade, a sensibilidade artística e a importância da expressão individual na literatura. 

6 CASTRO ALVES: POESIA SOCIAL, LIBERDADE E HUMANISMO 

Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871) foi uma das vozes mais expressivas da  poesia social brasileira. Nascido na Bahia, estudou Direito no Recife e em São Paulo e  participou intensamente da vida intelectual de seu tempo. Sua poesia adquiriu forte  dimensão social, especialmente em sua oposição à escravidão.

A Academia Brasileira de Letras registra que Castro Alves assumiu consciência do papel  social do poeta, desenvolvendo uma poesia marcada por grande força oratória e  preocupação com questões coletivas. Entre suas obras encontram-se Espumas Flutuantes, A  Cachoeira de Paulo Afonso, Gonzaga, ou a Revolução de Minas e Os Escravos

A poesia de Castro Alves ampliou as possibilidades do Romantismo brasileiro ao transformar  a palavra poética em instrumento de denúncia e defesa da liberdade. Sua produção constitui  importante testemunho da dimensão humanística que a literatura pode assumir quando  ultrapassa o espaço individual e se volta para questões sociais. 

Nesse sentido, Castro Alves representa, na inspiração da Comenda, os valores da liberdade,  da dignidade humana, da justiça, da consciência social e do compromisso humanístico da  produção intelectual. 

7 AS QUATRO ESTRELAS DO ROMANTISMO BRASILEIRO 

A escolha de José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves como  referências da Comenda permite construir uma representação simbólica das principais  dimensões do Romantismo brasileiro. Podemos compreendê-los a partir de quatro grandes  eixos: 

José de Alencar: Nacionalidade, romance e construção da identidade cultural; • Gonçalves Dias: Poesia, indianismo, natureza e sentimento nacional; • Álvares de Azevedo: Subjetividade, sensibilidade, juventude e liberdade criadora; • Castro Alves: Liberdade, humanismo, consciência social e defesa da dignidade. 

A expressão “Estrelas do Romantismo Brasileiro” adquire, portanto, um profundo significado  simbólico. As estrelas representam luz, memória e permanência. Mesmo pertencendo a um  período histórico distante, esses autores continuam iluminando a cultura brasileira por meio  de suas obras. 

A própria Academia Brasileira de Letras preserva institucionalmente essa memória,  mantendo esses autores como patronos de cadeiras e destacando sua importância para a  formação das letras nacionais. 

8 A INSTITUIÇÃO DA COMENDA ESTRELAS DO ROMANTISMO BRASILEIRO 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), nasce como uma iniciativa de  valorização da memória literária e cultural brasileira. Sua fundamentação simbólica está  associada ao legado de quatro grandes representantes do Romantismo, mas sua finalidade  não se restringe à homenagem histórica. 

A Comenda estabelece uma relação entre memória e reconhecimento. Preservar a memória  de um movimento literário significa reconhecer que a cultura não se constrói apenas pela  produção do presente. Ela resulta da continuidade de experiências, obras, ideias, valores e  conhecimentos transmitidos entre gerações. Dessa forma, a honraria procura reconhecer  aqueles que, em diferentes áreas, dão continuidade ao espírito de valorização da cultura  brasileira.

9 FINALIDADES DA COMENDA 

Entre as principais finalidades da Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, podem ser  destacadas: 

9.1 Valorizar a literatura brasileira 

Reconhecer escritores, poetas, pesquisadores, críticos literários e demais agentes que  contribuam para o desenvolvimento e a preservação das letras nacionais. 

9.2 Preservar a memória cultural 

Estimular ações destinadas à preservação da memória de escritores, instituições,  movimentos literários, obras e manifestações culturais brasileiras. 

9.3 Incentivar a educação 

Reconhecer educadores e instituições que utilizem a literatura, a história e a cultura como  instrumentos de formação humana e cidadã. 

9.4 Estimular a pesquisa 

Valorizar pesquisadores dedicados ao estudo da literatura, história, cultura, patrimônio,  memória e identidade brasileira. 

9.5 Reconhecer o patrimônio intelectual 

Contribuir para que a produção intelectual seja compreendida como parte integrante do  patrimônio cultural da sociedade. 

9.6 Promover valores humanísticos 

Valorizar iniciativas relacionadas à liberdade, dignidade humana, solidariedade, educação,  conhecimento, justiça, cultura e respeito à diversidade das experiências humanas. 

9.7 Incentivar novas gerações 

Estimular jovens escritores, pesquisadores, professores, estudantes e agentes culturais a  conhecer e preservar a tradição literária brasileira. 

Esta primeira parte está pronta e revisada! Quando desejar, pode enviar a segunda parte para continuarmos a avaliação e estruturação final. 

10 A QUEM SE DESTINA A COMENDA 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro poderá ser destinada a personalidades e  instituições cuja trajetória esteja relacionada à valorização da cultura e do conhecimento,  especialmente nas áreas de: 

• Literatura; 

• Poesia; 

• História; 

• Filosofia;

• Educação; 

• Pesquisa; 

• Cultura; 

• Patrimônio histórico e cultural; 

• Preservação da memória; 

• Biblioteconomia e documentação; 

• Museologia; 

• Jornalismo cultural; 

• Produção cultural; 

• Artes; 

• Estudos literários; 

• Promoção dos valores humanísticos. 

Podem ser contemplados escritores, poetas, professores, pesquisadores, historiadores,  acadêmicos, artistas, jornalistas, gestores culturais, instituições de ensino, academias de  letras, centros culturais, museus, bibliotecas, arquivos, fundações e demais entidades que  tenham desenvolvido ações relevantes relacionadas aos objetivos da honraria. 

A distinção deve estar vinculada a uma trajetória efetiva de contribuição, evitando que a  homenagem seja compreendida apenas como distinção honorífica desvinculada de  realizações concretas. 

11 A IMPORTÂNCIA DO RECONHECIMENTO CULTURAL 

As honrarias culturais possuem uma dimensão simbólica particularmente relevante.  Reconhecer publicamente uma trajetória significa registrar socialmente que determinada  contribuição possui importância para além da esfera individual. Nesse sentido, a Comenda  pode funcionar como instrumento de memória institucional. 

A sociedade contemporânea vive em um ambiente marcado pela velocidade da informação e  pela constante substituição de referências. Obras, autores e acontecimentos históricos  podem perder espaço na memória coletiva quando não são continuamente estudados,  divulgados e reinterpretados. 

A preservação da memória, portanto, não significa simplesmente olhar para o passado.  Significa estabelecer condições para que o passado continue dialogando com o presente. 

A homenagem aos grandes autores românticos adquire especial significado porque eles  próprios participaram de um processo de construção de identidade nacional. Ao reconhecer  aqueles que hoje preservam e ampliam esse patrimônio, a FEBACLA estabelece uma  continuidade simbólica entre diferentes gerações de produtores do conhecimento. 

12 O LEGADO HUMANÍSTICO DO ROMANTISMO 

Embora o Romantismo seja tradicionalmente estudado como movimento literário, seu legado  pode ser compreendido de maneira mais ampla: 

José de Alencar colocou em evidência a necessidade de construção de uma  literatura capaz de representar o Brasil; 

Gonçalves Dias transformou a natureza, o indígena e o sentimento nacional em  matéria poética; 

Álvares de Azevedo demonstrou a força da subjetividade e da liberdade criadora;

Castro Alves elevou a poesia à condição de instrumento de reflexão social e defesa  da liberdade. 

Assim, as quatro referências escolhidas para inspirar a Comenda permitem compreender o  Romantismo brasileiro como um campo de experiências múltiplas. Há, em seus diferentes  representantes, uma valorização da identidade, da liberdade, da sensibilidade, da memória,  da criatividade e da condição humana. Esses elementos justificam sua permanência como  referências para o presente. 

13 A COMENDA COMO INSTRUMENTO DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA 

A criação de uma honraria inspirada em determinado período histórico pode desempenhar  função importante na preservação da memória coletiva. No caso da Comenda Estrelas do  Romantismo Brasileiro, o ato de reconhecer contemporaneamente personalidades e  instituições comprometidas com a literatura e a cultura estabelece uma espécie de diálogo  entre passado e presente. 

O homenageado não recebe apenas uma distinção; recebe também a responsabilidade  simbólica de integrar uma cadeia de transmissão cultural. A ideia fundamental é que a  memória somente permanece viva quando é estudada, ensinada, preservada e transmitida. 

Por essa razão, a Comenda pode ser entendida como uma forma de reconhecimento cultural  que ultrapassa o caráter protocolar da solenidade. Ela representa uma declaração  institucional de apreço pelo conhecimento, pela cultura e pela produção intelectual. 

14 FEBACLA E A VALORIZAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 

Ao instituir a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, a Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) insere-se em uma tradição de  valorização das letras, das ciências, das artes e da memória cultural. 

A escolha de quatro nomes representativos do Romantismo brasileiro estabelece uma  conexão direta com um dos períodos mais importantes da formação da literatura nacional. A  iniciativa também amplia o conceito de homenagem cultural, pois não se limita à preservação  de nomes consagrados. 

A Comenda busca reconhecer aqueles que continuam produzindo conhecimento, formando  novas gerações, pesquisando a história, escrevendo, preservando acervos, desenvolvendo  projetos culturais e mantendo viva a memória brasileira. Nesse sentido, a homenagem ao  passado transforma-se em incentivo à construção do futuro. 

15 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO “ESTRELAS” 

A palavra “estrelas” possui forte valor simbólico. Na tradição cultural, a estrela representa  luz, orientação, permanência e inspiração. Aplicada ao universo literário, a expressão permite  compreender os grandes autores como referências que continuam iluminando gerações  posteriores. 

José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves pertencem  historicamente ao século XIX, mas suas obras continuam presentes nos estudos literários,  nas escolas, nas universidades, nas academias e no imaginário cultural brasileiro.

As quatro estrelas escolhidas como inspiração da Comenda podem, portanto, ser  compreendidas como símbolos de quatro dimensões fundamentais: 

Alencar: identidade e nacionalidade; 

Gonçalves Dias: poesia e brasilidade; 

Álvares de Azevedo: subjetividade e criação; 

Castro Alves: liberdade e humanismo. 

Juntas, essas dimensões formam uma constelação simbólica da cultura brasileira.

16 A ATUALIDADE DO LEGADO ROMÂNTICO 

O legado do Romantismo não pertence exclusivamente ao século XIX. Em uma sociedade  marcada por transformações tecnológicas, novas formas de comunicação e profundas  mudanças culturais, questões como identidade, pertencimento, liberdade, memória e  valorização da cultura continuam presentes. A literatura permanece como espaço  privilegiado para a reflexão sobre o indivíduo e a sociedade. 

A preservação do patrimônio literário também assume importância diante das novas  tecnologias e da expansão da inteligência artificial. Quanto maior a capacidade tecnológica  de produzir e reproduzir conteúdos, maior se torna a responsabilidade humana de preservar  referências históricas, autoria, contexto, memória e significado cultural. 

Nesse cenário, iniciativas de valorização de autores e movimentos literários históricos podem  contribuir para evitar que a inovação tecnológica produza um distanciamento em relação às  raízes culturais. A modernidade não precisa significar abandono da memória. Ao contrário, o  conhecimento do passado pode oferecer fundamentos para compreender criticamente o  presente e construir o futuro. 

17 A COMENDA E A TRANSMISSÃO ENTRE GERAÇÕES 

Uma das funções mais importantes de qualquer instituição cultural é promover a transmissão  do conhecimento. A geração que conhece José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de  Azevedo e Castro Alves possui a responsabilidade de apresentar suas obras às gerações  seguintes. 

Da mesma forma, pesquisadores, professores, escritores, academias, universidades,  bibliotecas, museus e instituições culturais desempenham papel fundamental na conservação  desse patrimônio. 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro pode ser compreendida, nesse sentido, como  um símbolo dessa transmissão. O reconhecimento concedido no presente dialoga com os  valores intelectuais do passado e procura estimular novas contribuições para o futuro. 

18 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), possui fundamentação simbólica  assentada em um dos períodos mais significativos da formação da literatura brasileira.

Sua inspiração em José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves permite representar diferentes dimensões do Romantismo: a construção da identidade  nacional, a valorização da natureza e da cultura brasileira, a subjetividade, a liberdade  criadora, a consciência social e os valores humanísticos. 

José de Alencar contribuiu decisivamente para a consolidação do romance brasileiro e para  a elaboração literária de temas nacionais. Gonçalves Dias conferiu grande força à poesia  indianista e à expressão da nacionalidade. Álvares de Azevedo tornou-se referência da  subjetividade e da sensibilidade romântica. Castro Alves, por sua vez, elevou a poesia social  e a defesa da liberdade a uma de suas expressões mais vigorosas. 

A escolha dessas quatro personalidades não representa a tentativa de reduzir a riqueza do  Romantismo brasileiro a apenas quatro nomes. O movimento foi amplo, diverso e composto  por numerosos autores e tendências. A escolha constitui, antes, uma síntese simbólica de  diferentes dimensões do legado romântico. 

Nesse contexto, a Comenda assume uma finalidade que ultrapassa o simples  reconhecimento protocolar. Ela representa uma iniciativa de preservação da memória,  valorização da literatura, incentivo à pesquisa, reconhecimento da educação e promoção da  cultura brasileira. Homenagear aqueles que dedicam suas vidas ao conhecimento significa  reconhecer que a cultura é patrimônio coletivo. 

Da mesma maneira que as estrelas permanecem como pontos de referência no céu, os  grandes autores permanecem como pontos de referência na trajetória cultural de uma nação.  Por isso, a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro pode ser compreendida como uma  homenagem àqueles que mantêm acesa a luz da literatura, da educação, da pesquisa, da  cultura e da memória. 

Mais do que recordar o passado, trata-se de reconhecer aqueles que ajudam a preservar,  interpretar e ampliar o patrimônio intelectual brasileiro. E, ao fazê-lo, a FEBACLA reafirma  uma concepção essencial: uma nação que preserva sua memória cultural fortalece sua  identidade e oferece às novas gerações melhores condições para compreender seu  passado, interpretar seu presente e construir seu futuro. 

REFERÊNCIAS 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Álvares de Azevedo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de  Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/alvares-de-azevedo. Acesso  em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Castro Alves: biografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira  de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/castro-alves/biografia.  Acesso em: 17 set. 2026. 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Castro Alves: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/castro alves/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Gonçalves Dias: biografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/goncalves dias/biografia. Acesso em: 17 set. 2026. 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Gonçalves Dias: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/goncalves dias/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. José de Alencar: biografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-de alencar/biografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. José de Alencar: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-de alencar/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. Brasília, DF: Edições Câmara, 2017. ALVES, Castro. Espumas flutuantes. Bahia: Camilo Lellis Masson, 1870.  

ALVES, Castro. O navio negreiro e Vozes d’África. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, Edições  Câmara, 2013. (Série Prazer de Ler, n. 5). Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/c765ec5e cf89-4f52-b25c-ac6a2f37c291/full. Acesso em: 17 set. 2026.  

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. São Paulo: Martin Claret, 2005. 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 50. ed. São Paulo: Cultrix, 2015.  

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880. 16. ed.  Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: FAPESP, 2017.  

COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo de Faria (dir.). A literatura no Brasil. 7. ed. São Paulo:  Global, 2004.  

DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1846.  

DIAS, Gonçalves. Últimos cantos. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1851.  

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. 4. ed.  São Paulo: É Realizações, 2014.  

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira: das origens ao romantismo. 4. ed. São Paulo:  Cultrix, 2001.  

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do  romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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O caminho da liberdade interior

SAÚDE INTEGRAL

O colunista Joelson Mora convida a despertar do piloto automático, questionar crenças e descobrir a integridade além do ego

Joelson Mora
Joelson Mora
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Despertar não é deixar de sentir, pensar ou acreditar. É desenvolver discernimento para escolher como viver.

Quantas das nossas escolhas são realmente nossas?

Essa pergunta parece simples, mas pode nos conduzir a lugares profundos. Muitas vezes acreditamos estar escolhendo livremente quando, na verdade, estamos apenas repetindo padrões que aprendemos, pensamentos que incorporamos e comportamentos que foram construídos ao longo da nossa história.

“Eu sou assim.”

“Não consigo.”

“Isso não é para mim.”

“Na minha família sempre foi desse jeito.”

“Eu preciso provar meu valor.”

Frases aparentemente comuns podem esconder crenças que, silenciosamente, passam a determinar a maneira como enxergamos a nós mesmos, os outros e a própria vida.

É nesse território que começa uma das jornadas mais importantes do ser humano: o despertar da consciência.

Crenças fazem parte da nossa construção. Elas ajudam a organizar experiências, valores e percepções. O problema surge quando deixamos de perceber que uma crença é uma interpretação e passamos a tratá-la como uma verdade absoluta.

Uma criança que cresce ouvindo que é incapaz pode carregar essa ideia para a vida adulta. Alguém que sofreu uma rejeição pode começar a acreditar que precisa agradar a todos para ser amado. Uma pessoa que experimentou fracassos pode concluir que tentar novamente é perigoso.

Assim nascem muitas das chamadas crenças limitantes, mas existe uma pergunta poderosa:

“Isso é realmente quem eu sou ou é algo que aprendi a acreditar sobre mim?”

Essa pergunta não elimina automaticamente uma crença, mas cria algo precioso: consciência.

Porque aquilo que não percebemos nos conduz, aquilo que percebemos podemos questionar, e aquilo que podemos questionar pode, com discernimento, ser transformado.

Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e ser definido por ele.

Pensamentos aparecem. Alguns são conscientes; outros surgem quase automaticamente. Eles podem nascer de experiências, medos, expectativas, lembranças e interpretações.

O mesmo acontece com os sentimentos.

Sentir raiva não significa ser uma pessoa raivosa, sentir medo não significa ser covarde, sentir tristeza não significa ser uma pessoa triste, sentir insegurança não significa ser incapaz. O sentimento é real, mas ele não precisa se transformar automaticamente em comportamento. É justamente nesse espaço que surge o discernimento, entre o que acontece e aquilo que fazemos existe uma possibilidade de escolha. Talvez a maturidade não esteja em nunca sentir emoções difíceis, mas em aprender a não entregar a elas o controle absoluto das nossas decisões.

O ego pode ser compreendido como uma estrutura relacionada à identidade que construímos: aquilo que acreditamos ser, nossos papéis, nossas histórias, nossas conquistas, nossas feridas e também a necessidade de reconhecimento.

O problema não é necessariamente ter um ego. O problema começa quando acreditamos que somos exclusivamente aquilo que construímos.

“Meu cargo.”

“Meu dinheiro.”

“Meu corpo.”

“Minha reputação.”

“Minha opinião.”

“Minha história.”

Quando essas coisas são ameaçadas, podemos sentir que o próprio “eu” está sendo ameaçado. A consciência, por outro lado, nos convida a observar.

Eu consigo perceber meu pensamento sem necessariamente obedecê-lo?

Consigo reconhecer minha emoção sem transformá-la imediatamente em ação?

Consigo ouvir uma opinião diferente sem sentir que minha identidade está sendo destruída?

Esse espaço de observação é extremamente valioso. É nele que o discernimento começa a nascer.

Nem sempre o ego chega fazendo barulho.

Às vezes ele fala baixo.

Às vezes se apresenta como humildade.

Existe uma diferença entre ser humilde e precisar parecer humilde.

A falsa humildade pode aparecer quando alguém repete constantemente que não precisa de reconhecimento, enquanto, silenciosamente, espera que todos reconheçam o quanto é especial. Também pode aparecer quando o discurso diz uma coisa, mas a prática revela outra. Fala-se sobre empatia, mas não se escuta. Fala-se sobre simplicidade, mas existe necessidade permanente de destaque. Fala-se sobre servir, mas todas as situações precisam terminar com a própria pessoa no centro. Fala-se sobre não buscar aplausos, mas existe sofrimento quando o aplauso não vem. É o ego procurando uma forma sofisticada de permanecer no comando e existe uma pergunta desconfortável que pode ser muito saudável:

“Se ninguém soubesse o que estou fazendo, eu continuaria fazendo?”

Outra:

“Se outra pessoa receber o reconhecimento que eu esperava, consigo celebrar por ela sem sentir que perdi alguma coisa?”

O ego inflado pode transformar a vida em um palco permanente, onde precisamos ser protagonistas de todas as histórias.

Precisamos ser vistos.

Precisamos ser reconhecidos.

Precisamos ter razão.

Precisamos ser o “alecrim dourado” aquela pessoa que acredita, consciente ou inconscientemente, que precisa estar sempre no centro, ser indispensável, especial ou diferente de todos.

Mas consciência também é perceber que não precisamos diminuir ninguém para existir, nem ocupar todos os espaços para ter valor.

Humildade verdadeira não significa pensar menos de si.

Significa não precisar pensar mais de si do que é necessário.

E talvez a prova mais bonita da humildade esteja justamente na coerência:

aquilo que digo sobre mim encontra correspondência na maneira como trato as pessoas quando ninguém está olhando?

Porque consciência não se mede apenas pelo que falamos. Ela aparece naquilo que fazemos. O discurso pode impressionar. A prática revela. E quando discurso e prática caminham na mesma direção, nasce algo muito mais profundo que uma imagem de humildade:

nasce integridade.

O Caibalion, obra associada à tradição hermética, apresenta princípios filosóficos como mentalismo, correspondência, polaridade e ritmo.

Independentemente de concordarmos ou não com suas interpretações, algumas dessas ideias podem funcionar como provocações para a reflexão sobre a maneira como percebemos a realidade. O princípio da polaridade, por exemplo, apresenta a ideia de que aquilo que percebemos como extremos pode possuir diferentes graus dentro de uma mesma dimensão. Na vida cotidiana, isso pode nos levar a perguntar:

Será que uma situação é realmente “tudo ou nada”?

Será que um erro precisa definir toda uma história?

Será que um momento difícil precisa determinar todo o nosso futuro?

O discernimento começa muitas vezes quando abandonamos os extremos e conseguimos enxergar nuances.

A Bíblia também nos convida repetidamente a olhar para dentro e transformar nossa maneira de pensar.

Em Romanos 12:2, encontramos a conhecida orientação sobre a transformação por meio da renovação da mente. A ideia é profunda: transformação não começa apenas do lado de fora. Existe uma mudança de percepção, de pensamento e de compreensão. A fé, nesse sentido, não precisa ser entendida como ausência de questionamentos. Pode ser também uma caminhada de confiança enquanto aprendemos a discernir.

Fé não é necessariamente fechar os olhos.

Pode ser aprender a caminhar mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. E talvez exista aqui uma importante integração entre espiritualidade e consciência: não basta acreditar; é necessário perceber como aquilo em que acreditamos está influenciando a maneira como vivemos.

Em meio a pensamentos acelerados e emoções intensas, o corpo pode ser uma porta de entrada para a presença.

A respiração consciente é uma prática simples que pode nos ajudar a interromper, ainda que por alguns instantes, o piloto automático.

Inspirar.

Perceber.

Expirar.

Observar.

Algumas práticas de respiração circular ou contínua são utilizadas em diferentes contextos de autoconhecimento e espiritualidade. Porém, práticas respiratórias intensas não são indicadas indistintamente para todas as pessoas e devem ser realizadas com orientação adequada quando houver técnicas mais profundas ou desconfortáveis.

O objetivo aqui não é buscar uma experiência extraordinária.

É algo mais simples: voltar para o momento presente.

Porque muitas vezes o corpo está em um lugar enquanto a mente está presa ao passado ou tentando controlar o futuro.

Respirar conscientemente pode ser um lembrete: “Eu estou aqui.”

A ayahuasca também aparece, em diferentes contextos culturais e religiosos, associada a experiências de introspecção, espiritualidade e alteração da percepção.

É importante, entretanto, não transformar uma experiência intensa em sinônimo automático de despertar, uma experiência pode provocar perguntas, pode trazer emoções, pode modificar temporariamente a percepção.

Mas transformação exige integração.

Aquilo que alguém vivenciou precisa encontrar espaço na vida cotidiana: nas escolhas, nos relacionamentos, nos hábitos, na responsabilidade e na maneira de tratar a si mesmo e aos outros.

Uma experiência extraordinária não substitui o trabalho cotidiano da consciência.

O verdadeiro desafio talvez não seja ter uma experiência transformadora, mas transformar a experiência em vida.

Despertar é conquistar liberdade?

Talvez sim, mas não uma liberdade sem limites. Liberdade interior não significa fazer tudo o que desejamos, significa ampliar nossa capacidade de escolher. Uma pessoa dominada pela raiva não é necessariamente livre para escolher. Uma pessoa dominada pelo medo também pode ter sua liberdade reduzida. Uma pessoa que precisa constantemente da aprovação dos outros pode acabar vivendo de acordo com expectativas que nem sequer são suas, Por isso, despertar a consciência é também recuperar espaços de escolha.

Entre o pensamento e a ação.

Entre o sentimento e a reação.

Entre a crença e a decisão.

Entre o estímulo e a resposta.

É nesse pequeno espaço que a liberdade pode nascer. Equilíbrio não significa ausência de conflito. Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa equilibrada deveria estar sempre tranquila, positiva e emocionalmente estável.

Não.

Equilíbrio não significa não sentir.

Significa aprender a atravessar aquilo que sentimos sem perder completamente a direção. Podemos estar tristes e continuar responsáveis. Podemos estar com medo e continuar caminhando. Podemos estar frustrados e escolher não ferir alguém. Podemos discordar e continuar respeitando. Podemos reconhecer nossas sombras sem permitir que elas definam toda a nossa identidade, e talvez essa seja uma das grandes lições da Saúde Integral: corpo, mente, emoções, relações, espiritualidade e comportamento não existem em compartimentos completamente separados. Quando uma dimensão se desequilibra, as outras podem sentir seus efeitos.

Evoluir não deveria significar olhar para outra pessoa e pensar: “sou mais consciente que ela”. Isso seria apenas o ego encontrando uma nova roupa. Evolução é comparar-se com quem fomos. É perceber uma reação que antes era automática e agora consegue ser observada. É reconhecer uma crença que antes parecia absoluta e hoje pode ser questionada. É pedir desculpas quando antes só existia orgulho. É estabelecer limites quando antes existia medo. É ouvir quando antes só queríamos responder. É escolher diferente quando a vida apresenta novamente um velho padrão. Talvez evolução seja menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre tornar-se consciente do caminho enquanto caminhamos.

Não é necessário abandonar a rotina, buscar experiências extraordinárias ou mudar toda a vida de uma vez.

Comece observando.

1. Pare e respire

Durante alguns minutos, diminua o ritmo e observe sua respiração sem tentar controlar tudo.

2. Dê nome ao que sente

Pergunte:

“O que estou sentindo neste momento?”

Raiva? Medo? Ansiedade? Tristeza? Culpa? Alegria?

Nomear ajuda a criar distância entre você e aquilo que está experimentando.

3. Questione o pensamento

Pergunte:

“Isso é um fato ou é a interpretação que estou fazendo sobre o fato?”

Essa pequena pergunta pode mudar muitas respostas.

4. Investigue suas crenças

Escolha uma frase recorrente:

“Eu não consigo.”

Depois pergunte:

“Quem me ensinou isso?”

“Essa crença ainda faz sentido para a pessoa que estou me tornando?”

5. Observe o ego

Quando alguém contrariar você, antes de responder, pergunte:

“Estou defendendo um princípio ou apenas minha necessidade de estar certo?”

6. Crie um espaço entre estímulo e resposta

Quando algo provocar uma reação intensa, respire antes de responder.

Nem todo impulso precisa virar atitude.

7. Escolha conscientemente

Ao final do dia, pergunte:

“Hoje eu vivi de acordo com meus valores ou apenas reagi às circunstâncias?”

Essa pergunta, repetida diariamente, pode se tornar uma poderosa ferramenta de autoconhecimento.

Talvez despertar a consciência não seja alcançar um estado permanente de iluminação.

Talvez seja simplesmente começar a perceber.

Perceber o pensamento antes de acreditar nele.

Perceber o sentimento antes de reagir.

Perceber o ego antes de defendê-lo.

Perceber a crença antes de obedecê-la.

Perceber o corpo antes que ele precise gritar.

Perceber a fé não apenas como aquilo que dizemos acreditar, mas também como aquilo que orienta nossas escolhas.

No fim, liberdade talvez seja isso: não sermos escravos de tudo aquilo que sentimos, pensamos ou acreditamos. E evolução talvez seja aprender, um dia de cada vez, a colocar consciência onde antes existia apenas automatismo. Porque quando aumentamos nossa consciência, ampliamos nosso discernimento. Quando ampliamos nosso discernimento, ampliamos nossas escolhas, e quando ampliamos nossas escolhas, descobrimos que talvez exista dentro de nós muito mais liberdade do que imaginávamos.

Saúde Integral também é isso: cuidar do corpo, compreender a mente, acolher as emoções, cultivar relações saudáveis, fortalecer a espiritualidade e, acima de tudo, aprender a estar presente na própria vida.

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Versos e flores

Denise Canova: entre a voz da primavera e o florescer tímido da poesia

Denise Canova
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Versos e flores

A voz da primavera

Ela também poetisa

A garota envergonhada

Versos floridos.

Dama da Poesia

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