Entre a água e o amor

Clayton alexandre Zocarato: ‘Entre a água e o amor’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo na água que nunca se explica por completo, mesmo quando a vemos escorrer entre os dedos como se fosse apenas matéria obediente à gravidade.

            A água parece simples, mas guarda em si um silêncio antigo, uma memória de tudo o que já tocou. Assim também é o amor: pensamos compreendê-lo quando ele nos atravessa, quando ocupa o corpo com sua presença leve e inevitável, mas basta um instante para que ele mude de forma, escorra, evapore, desapareça sem aviso, deixando apenas um vestígio úmido na pele da lembrança.

            E é nesse desaparecer que ele mais se revela.

            O amor nasce como a água brota: inesperado, subterrâneo, vindo de um lugar que não sabíamos existir. Primeiro é um fio tímido, quase imperceptível, um rumor que se anuncia antes de se mostrar.

            Depois cresce, se alarga, toma espaço, contorna pedras, insiste. A água nunca pede licença; o amor também não. Ambos chegam como quem sempre esteve ali, como se fossem uma continuação natural daquilo que somos.

             E, de repente, já não sabemos mais viver sem o seu fluxo constante, sem o seu som repetido, quase musical, preenchendo os vazios que antes eram apenas silêncio.

            Mas o que mais assombra não é o nascimento, é a transformação. A água, quando aquecida, se torna invisível. Sobe, desaparece, se desfaz no ar como um suspiro que ninguém consegue segurar.

             O amor também conhece esse movimento. Ele se eleva sem aviso, deixa de ser presença para virar ausência, e quando percebemos, já não há corpo, já não há toque — apenas um vapor difuso, um eco que insiste em permanecer, embora não se possa mais tocar.

            Como compreender algo que existiu com tanta intensidade e que, ainda assim, se dissolve como se nunca tivesse sido?

            Há uma melancolia própria nesse ciclo, como uma canção tocada em tom menor, repetindo acordes que parecem familiares, mas nunca idênticos.

            A água que escorre hoje não é a mesma de ontem, e o amor que sentimos agora não é o mesmo que nos habitou antes. Ainda assim, carregam algo em comum: uma essência que se recusa a ser fixa.

            São feitos de passagem. São feitos de tempo.

            E o tempo, esse grande regente silencioso, conduz tanto a água quanto o amor em ritmos que não controlamos.

            Há dias em que o amor é chuva intensa, quase tempestade, invadindo tudo, transbordando, ocupando cada espaço disponível. Nesses dias, não há como fugir: somos inundados, tomados por uma sensação que mistura beleza e excesso, como se viver fosse demais.

            Mas há também os períodos de seca, quando o amor se retrai, se esconde, e tudo o que resta é um solo rachado, esperando por algo que talvez não volte.

            A água, nesses momentos, parece uma lembrança distante — e o amor, uma hipótese.

            E ainda assim, mesmo quando desaparecem, ambos deixam marcas. A água molda a pedra com sua insistência suave; o amor molda o coração com sua passagem silenciosa.

            Nenhum dos dois precisa de força para transformar — basta tempo. Basta permanecer, mesmo que em outra forma, mesmo que invisível.

            Porque a água que evapora retorna como chuva, e o amor que se desfaz talvez encontre outro caminho para existir, ainda que não seja mais reconhecível.

            Há uma música escondida nesse processo, algo que não se ouve com os ouvidos, mas com aquilo que resta quando o som termina.

            É um ritmo feito de idas e vindas, de presenças e ausências, de começos que já carregam em si o germe do fim. A água canta quando corre, quando cai, quando evapora — e o amor, de alguma forma, acompanha essa melodia, como se ambos fossem parte da mesma composição, executada em diferentes instrumentos.

            Talvez seja por isso que nos sentimos tão perdidos quando o amor se vai. Não é apenas a perda de algo que estava ali, mas a ruptura de um fluxo, a interrupção de uma música que parecia contínua.

            Ficamos como quem observa um leito seco, tentando lembrar o som da água que já passou por ali.

            E quanto mais tentamos segurar, mais escapa. Porque nem a água nem o amor pertencem a quem tenta possuí-los.

            Eles existem na liberdade de se mover, de mudar, de desaparecer.

            E há beleza nisso, embora doa.

             Há beleza na impermanência, na ideia de que algo pode ser intenso sem ser eterno. A água não precisa permanecer para justificar sua existência; o amor também não. Ambos cumprem seu papel no instante em que são, no toque que deixam, na transformação que provocam.

             O resto é memória — e a memória, assim como o vapor, é uma forma sutil de permanência.

            No fim, talvez amar seja aceitar essa natureza líquida, essa incapacidade de fixar o que por essência é movimento.

             Talvez seja compreender que o desaparecimento não anula o que foi vivido, assim como a água que evapora não deixa de ter existido.

            Ela apenas muda de estado, encontra outro lugar, outro tempo, outro modo de ser.

            E nós ficamos aqui, entre o que escorre e o que evapora, tentando dar nome ao indizível, tentando transformar em palavras aquilo que, como a água e o amor, insiste em escapar.

Clayton Alexandre Zocarato

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homemágua – hidropoema em descompasso

Clayton Alexandre Zocarato

‘homemágua – hidropoema em descompasso’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69c9f48b-d168-83e9-b206-1926f5af4cc9

torneira do pensamento
goteja-mente
mente-goteja

um homem se dissolve em copos de silêncio
e bebe a si mesmo
em goles de ontem

azulcrânio
veiafluviária
corposalgado
respirágua

o tempo escorre
pela palma da mão
— ampulheta líquida —

        gota  
   gota  
gota

gota
mar

ele é mar
mas esquece de ser onda

no café da manhã
mastiga sede
engole nuvens
e arrota rios interrompidos

plim
plim
plim

notícias pingam na testa do dia
informágua
dadoslíquidos
transparêncifra

um peixe atravessa o pensamento
sem pedir licença
sem pedir pulmão

        homem  
   homágua 
 aguahomem

omemágua

(des)forma

a palavra evapora
condensa
chove dentro da boca

há desertos no olhar
e oceanos na língua

ele diz:
— sede

mas o som sai:
— cidade

e ninguém percebe
que a garganta é um mapa rachado

        beba  
   beba-se 
 beba-nos

bebe

até que o corpo
vire verbo

e o verbo
escorra

fim?

não.

ciclo.

Clayton Alexandre Zocarato

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A força que não discute com barreiras

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora: ‘A força que não discute com barreiras’

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada por IA do Bing - 26 de fevereiro de 2026, às 11h
Imagem criada por IA do Bing – 26 de fevereiro de 2026, às 11h

Desde os primórdios da observação humana, a água se apresenta como um dos elementos mais eloquentes da natureza, discreta em sua aparência, mas absolutamente poderosa em sua atuação.

Do ponto de vista físico-químico, a água (H₂O) é uma molécula polar formada por dois átomos de hidrogênio ligados a um de oxigênio, característica que lhe confere propriedades singulares, como elevada capacidade de dissolução, alto calor específico e notável tensão superficial. Tais atributos fazem da água o solvente biológico por excelência e um dos principais reguladores térmicos do planeta e do organismo humano.

Outra singularidade fundamental da água é sua presença nos três estados físicos da matéria, fenômeno essencial para o equilíbrio dos ecossistemas e para a dinâmica da vida:

• Estado sólido (gelo): estrutura cristalina organizada, menor densidade que a forma líquida e papel relevante na regulação climática.

• Estado líquido: forma mais abundante na superfície terrestre, marcada pela fluidez, coesão molecular e elevada capacidade de transporte de substâncias.

• Estado gasoso (vapor d’água): fase de alta dispersão molecular, fundamental para os ciclos atmosféricos e para a regulação térmica do corpo humano.

Essa versatilidade física revela uma verdade profunda: a água muda de forma sem perder sua essência.

Ela não discute com barreiras, ela ultrapassa.

A água contorna, se adapta e persiste.

E, ainda assim, a água transforma montanhas.

Essa é uma das mais profundas metáforas para a nossa personalidade e para a forma como conduzimos a vida.

Quando observamos o comportamento da água na natureza, encontramos princípios que a ciência comportamental e a neurociência hoje reconhecem como essenciais para o equilíbrio humano:

• flexibilidade cognitiva

• capacidade de adaptação

• regulação emocional

• resiliência diante de obstáculos

A água não vence pela força bruta, vence pela constância.

Do ponto de vista da psicologia, indivíduos com maior flexibilidade psicológica apresentam melhores indicadores de saúde mental, menor nível de estresse crônico e maior longevidade funcional. Essa característica se aproxima daquilo que a água nos ensina silenciosamente: seguir em frente sem endurecer.

Ser rígido quebra.

Ser fluido atravessa.

A ciência é clara: somos, essencialmente, seres aquáticos em terra firme.

• Aproximadamente 60% do corpo de um adulto é composto por água

• No cérebro, esse valor chega a cerca de 73%

• No sangue, ultrapassa 90%

A água participa diretamente de funções vitais:

✅ transporte de nutrientes

✅ regulação da temperatura corporal

✅ lubrificação articular

✅ funcionamento renal

✅ equilíbrio eletrolítico

✅ desempenho cognitivo

Estudos publicados no Journal of Nutrition demonstram que níveis leves de desidratação já são capazes de prejudicar:

• atenção

• memória de curto prazo

• humor

• performance física

Ou seja: a qualidade da nossa energia diária passa, inevitavelmente, pela qualidade da nossa hidratação.

Ao longo da história, civilizações inteiras reconheceram o valor terapêutico das águas minerais naturais e hoje a hidrologia médica confirma muitos desses benefícios.

Na estância hidromineral de São Lourenço, por exemplo, encontram-se fontes com diferentes composições químicas, cada uma com propriedades específicas.

Principais tipos de águas minerais e seus efeitos

🔹 Águas bicarbonatadas

• auxiliam na digestão

• ajudam no equilíbrio do pH gástrico

• podem contribuir em quadros de dispepsia

🔹 Águas sulfurosas

• associadas a benefícios dermatológicos

• utilizadas em terapias respiratórias

• ação anti-inflamatória leve

🔹 Águas ferruginosas

• ricas em ferro biodisponível

• podem auxiliar em estados de baixa ferritina (com orientação profissional)

🔹 Águas magnesianas

• contribuem para o relaxamento muscular

• participam da função neuromuscular

• auxiliam no trânsito intestinal

A hidroterapia e o uso terapêutico de águas minerais são reconhecidos em diversas diretrizes de medicina integrativa na Europa e no Brasil como práticas complementares de promoção de saúde.

O Brasil abriga uma das maiores reservas de água doce do planeta.

Dados amplamente divulgados por organismos ambientais indicam que o país concentra cerca de 12% da água doce superficial do mundo. Além disso, possui imensos aquíferos subterrâneos.

Entre eles, destaca-se o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água doce transfronteiriços do planeta, estendendo-se por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Essa abundância, porém, traz responsabilidade.

A ciência ambiental é unânime ao afirmar que:

• disponibilidade hídrica ≠ acesso universal

• qualidade da água depende de preservação

• uso consciente é determinante para o futuro

Cuidar da água é, literalmente, cuidar da continuidade da vida.

Existe uma dimensão ainda mais profunda.

A água nos ensina sobre:

• humildade sem fraqueza

• movimento sem ansiedade

• persistência sem agressividade

• força sem rigidez

Na prática clínica e no acompanhamento de pessoas em busca de saúde integral, observa-se que os indivíduos que desenvolvem maior capacidade de adaptação emocional apresentam:

• menor incidência de doenças relacionadas ao estresse

• melhor variabilidade da frequência cardíaca

• melhor qualidade do sono

• maior aderência a programas de exercício físico

Ser água, portanto, não é ser passivo.

É ser estrategicamente fluido.

1️⃣ Hidrate-se com consciência

Não espere a sede intensa. A sede já é um sinal tardio.

2️⃣ Valorize águas de boa procedência

Sempre que possível, priorize águas minerais naturais certificadas.

3️⃣ Utilize a água como recurso terapêutico

Banhos mornos, imersões, duchas e práticas aquáticas possuem respaldo científico para:

• relaxamento do sistema nervoso

• melhora da circulação

• redução de tensão muscular

4️⃣ Desenvolva a mentalidade da água

Diante dos obstáculos da vida:

• adapte-se

• contorne

• persista

• avance

A água não anuncia sua força, ela a demonstra com o tempo.

Ela esculpe vales.

Move turbinas.

Sustenta organismos.

Cura tecidos.

Equilibra sistemas.

Dentro de cada um de nós existe essa mesma essência.

Que possamos aprender com as águas:

seguir em frente sem endurecer,

adaptar sem perder a essência,

e transformar o caminho com a constância silenciosa de quem entende que a verdadeira força…

é ser profundamente fluido.

Joelson Mora

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Nódoa

Ella Dominici: Poema ‘Nódoa’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA da Meta. 18 de julho de 2025, às 15:43 PM

Amanhã desato o hoje nódoa?
meu copo inócuo nem parece de água

E o corpo nocaute resvala
a represar comportas

são chorosa flama
que em lama deságua

Ideias falhas floração rala
renda de folhas velhas

Esqueceram-se da fotossíntese
sobrou amor carbonizado

Carvão de poesia amiga
nós nos umbigos-barriga

Cordão que o ventre instigou ontem vingando
com este hoje minguado

Liberdade mente-me

Ella Dominici

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Poema de nós dois

Sandra Albuquerque: ‘Poema de nós dois’

Sandra Albuquerque
Sandra Albuquerque
Imagem gerada por IA do Bing. 03 de março de 2025,  às 11:28 AM
Imagem gerada por IA do Bing. 03 de março de 2025,
às 11:28 AM

Do alto da montanha
eu podia ver
toda a natureza indefesa
que estava ao meu alcance.
Ao longe, uma imensidão enegrecida,
um infinito não mais visível aos olhos
Um encontro com o azul refletido na água.
Ao olhar para baixo,
o bailar das ondas que vêm mansamente e se enroscam com a indefesa areia,
e quando voltam,
levam as pegadas deixadas pelo tempo que é um milagre que jamais se repete ao natural.
Mas, do outro lado, eu vejo enormes ondas que espumam
e batem forte na rocha, respingando o meu corpo inerte.
De repente, o quadro começa a mudar.
E o brilho do Sol que reflete nas águas aumenta e, pouco a pouco, encanta o dia que se inicia.
E os pássaros gorjeiam anunciando o novo dia.
E eu me encanto.
Estou só.
Não saio dali.
Não preciso ter pressa e, calmamente, pinto o quadro com tintas aparentes
sobre todo o espetáculo que os meus olhos contemplam.
A brisa soa mansinho e refresca meu corpo.
Com o passar das horas a tarde chega e logo o crepúsculo surge,
anunciando a noite que se aproxima de mansinho.
E com ela a paisagem muda.
E eu não consigo sair dali.
É mais forte que eu.
Preciso ver partir o tom avermelhado que
é aplaudido pelas folhas das árvores que o vento balança
e renascer o brilho prateado do luar, refletido nas águas que agora parecem turvas,
aconchegando os corações enamorados.
Novos sonhos surgem.
Uma perfeita melodia.
E meu corpo em repouso sobre a pedra iluminada na esperança de que você,
em meio à neblina que cai,
surja para me aquecer e que possamos nos amar até o novo amanhecer.

Comendadora Poetisa Sandra Albuquerque
Rio de Janeiro, 03/04/2024

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Soturno

Pietro Costa: Poema ‘Soturno’

Pietro Costa
Pietro Costa
Imagem gerada pela IA do Bing – 29 de julho de 2024, às 9:23 PM

Troquei a noite pelo dia
A água pela tequila
O sono pela fadiga
A inocência pela malícia
A solidão pelas más companhias
O Capitão América pelo Coringa
O carteado pela alquimia
O Às pela Rainha
A Jean Grey pela Vampira

A calmaria deu lugar à taquicardia
O comedimento à ousadia
A autoajuda deu lugar à filosofia
A disciplina à fantasia
A novela deu lugar à ficção científica
Automóveis deram lugar a discos alienígenas

A Terra eu troquei por Saturno
O mocassim pelo coturno
A metrópole pelo subúrbio
O consenso pelo distúrbio
O bom senso pelo tumulto
A obviedade pelo oculto

Flexões por “halterocopismos”
O pudor pelo nudismo
Apolo por Dioniso
A cevada maltada pela levedura do vinho
Silogismos por aforismos
Entendimentos por antagonismos

Pietro Costa

Contatos com o autor

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Estrada de terra

Evani Rocha: Poema ‘Estrada de terra’

Evani Rocha
Evani Rocha
Estrada de terra
Imagem criada pela IA – Gencraft

Estrada de terra

De terra batida

De poças de água

Espelho do céu

De flores pisadas

Brancas margaridas

Me leva pra casa

De volta pra vida

Ranchinho de palha

Que me deu guarida

Na curva do rio

De águas cristalinas

Pra onde me leva

Essa estrada de terra?

De verdes campinas

E de brancas relvas?

Me leva nas nuvens

Escuras de chuva

Que correm ligeiras

No céu do sertão

Me leva nas asas

Daquele sanhaço

Que voa apressado

Rumo ao varjão

Me leva estrada

Na poeira branca

Que sobe faceira

Nos rastros do chão

Me leva de volta

Estrada de terra

P’raquele ranchinho

Lá do da serra

Pro sol do cerrado

P’ras tardes floridas

Me leva pra casa

De volta pra vida!

Evani Rocha

Contatos com a autora

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