A última conexão – Peça em um ato
Clayton Alexandre Zocarato estreia a dramaturgia no ROL em um sensível manifesto sobre os nós do amor na era do MSN

Uma Nova Cortina se Abre no Jornal ROL!
O Jornal ROL abre suas cortinas digitais para uma estreia absoluta em suas páginas: a dramaturgia. Pela primeira vez, trazemos aos nossos leitores uma peça teatral contemporânea, escrita pelo talentoso colunista e autor Clayton Alexandre Zocarato.
Em “A última conexão – Peça em um único ato”, somos transportados em uma cápsula do tempo até o ano de 2006. Embalados pelos sons de Hoobastank e Avril Lavigne, reencontramos a atmosfera nostálgica dos primórdios da internet discada e das janelas de conversa do MSN.
Contudo, por trás do cenário que marcou uma geração, o autor costura um diálogo profundamente maduro e atemporal. Cruzando as angústias do amor juvenil com as vozes de grandes pensadores como Platão, Erich Fromm e Roland Barthes, a obra nos convida a refletir sobre os limites do afeto, as armadilhas das expectativas virtuais e a coragem necessária para se desatar de nós que já não nos prendem.
Acomode-se na poltrona, imagine o som da chuva ou dos carros lá fora e permita-se vivenciar este belíssimo ato.

Personagens:
LIA, vinte e poucos anos, estudante de Letras.
MIGUEL, vinte e poucos anos, estudante de Filosofia e amigo de Lia.
CLARA, amiga dos dois, prática e observadora.
Cenário:
Uma sala pequena de apartamento, em São Paulo, no ano de 2006. Há um computador de mesa ligado à internet discada, uma pilha de CDs gravados, um telefone celular antigo, uma caneca de café frio e um aparelho de som. Pela janela, ouvem-se carros e, ao longe, o barulho de uma festa. No computador, a janela do MSN está aberta. A música “The Reason”, da banda Hoobastank, toca baixinho no aparelho de som. Nenhuma letra é reproduzida.
LIA está sentada diante do computador. Digita uma mensagem, apaga, torna a digitar. MIGUEL está no chão, encostado ao sofá, folheando um livro. CLARA entra com três copos de refrigerante.
CLARA: Se você apagar essa mensagem mais uma vez, o computador vai achar que está sendo rejeitado também.
LIA: Ele pelo menos não vai entender errado.
MIGUEL: Talvez entenda. As máquinas também têm seus dramas. A diferença é que não mandam mensagem às duas da manhã perguntando por que a gente sumiu.
LIA: Engraçado. Você diz isso como se nunca tivesse feito.
MIGUEL: Eu mandei uma mensagem uma vez.
CLARA: Uma vez por noite, durante duas semanas.
MIGUEL: Eu estava filosoficamente inquieto.
LIA: Você estava apaixonado.
MIGUEL: São estados parecidos, mas nem sempre compatíveis.
CLARA: E você, Lia, vai mandar ou não?
LIA: Não sei o que escrever.
CLARA: A verdade costuma ser um começo razoável.
LIA: “Oi, André. Eu gosto de você, mas percebi que talvez você só goste de mim quando está entediado.” Parece agressivo.
MIGUEL: Parece específico.
LIA: Ele aparece quando quer conversar, me conta tudo, pergunta o que eu penso, diz que sou importante. Aí, quando eu pergunto se a gente pode ser alguma coisa, ele diz que não quer estragar a amizade.
CLARA: E você acredita?
LIA: Acredito que ele não quer ficar comigo. O resto é que eu não consigo entender.
MIGUEL: Às vezes, não existe um resto escondido. Às vezes, a resposta é dolorosamente simples.
LIA: Eu sei. Só queria que ele dissesse isso sem me deixar esperando em frente a uma janela do MSN. O status dele ficou “ausente” há três horas. Eu sei que é ridículo, mas fico olhando.
CLARA: Não é ridículo. É triste, que é diferente.
LIA: A pior parte é que eu comecei a calcular. Se eu responder rápido, pareço desesperada. Se demorar, talvez ele ache que não me importo. Se eu não mandar nada, talvez sinta minha falta. Eu estou tentando transformar o amor numa estratégia de horário.
MIGUEL: Como se o coração fosse uma prova de múltipla escolha e a gente só precisasse marcar a alternativa certa.
CLARA: E, mesmo assim, você está estudando para a prova.
LIA: Estou. Porque não quero perdê-lo.
MIGUEL: Você já sabe que não tem o que perder?
LIA: Tenho a amizade.
CLARA: Tem a amizade que existe ou a amizade que você espera que um dia vire outra coisa?
LIA fica em silêncio. A música termina. O aparelho de som passa para outra faixa: “Complicated”, de Avril Lavigne.
LIA: Às vezes eu penso que ele gosta de mim, só não sabe dizer. Ele tem medo. Talvez eu esteja sendo injusta.
MIGUEL: Pode ser. Mas existe uma diferença entre tentar compreender alguém e construir, sozinha, uma explicação que mantenha você presa.
LIA: Você fala como se fosse fácil.
MIGUEL: Não é. Eu passei um ano gostando de uma pessoa que me dizia que eu era “especial”. Eu achei que “especial” significava “escolhido”. Depois descobri que, para ela, significava “amigo que conserta o computador”.
CLARA: Você consertou?
MIGUEL: Consertei. O computador. Não a situação.
LIA: E o que você fez?
MIGUEL: Fiquei triste. Depois parei de fingir que a tristeza era uma prova de amor.
LIA: Como assim?
MIGUEL: Eu achava que, se doesse muito, então era verdadeiro. Como se sofrer fosse uma espécie de certificado. Mas sofrimento não prova que alguém nos ama. Às vezes, só prova que estamos tentando segurar uma coisa que o outro não está segurando.
CLARA: Erich Fromm escreveu que amar não é apenas sentir; é também uma prática, uma capacidade que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Não é uma fórmula para obrigar alguém a corresponder. É quase o contrário: amar alguém também é reconhecer que essa pessoa pode não nos escolher.
LIA: Reconhecer isso não faz parar de doer.
CLARA: Não. Só impede que a dor vire desculpa para continuar pedindo uma coisa que o outro não quer dar.
MIGUEL: Platão, no Banquete, apresenta o amor como desejo que nos move em direção à beleza e ao que julgamos bom. Mas, quando a gente se apaixona, às vezes põe toda a beleza numa pessoa só. Ela vira o céu inteiro. Então, se ela fecha a janela, parece que acabou o universo.
LIA: É fácil falar de beleza quando não é você esperando uma resposta.
MIGUEL: Você tem razão. Platão não está aqui para olhar o status do André.
CLARA: E talvez o problema nem seja pensar no amor como algo que nos eleva. O problema é esquecer que a pessoa amada não é uma ideia. É alguém real, com desejos próprios, limites, contradições e o direito de não sentir o mesmo.
LIA: Eu transformei o André numa resposta.
CLARA: Talvez. Você vê nele o que ele faz, mas também o que espera que ele venha a fazer.
LIA: Quando ele me liga, eu sinto que sou a pessoa mais importante do mundo. Quando some, fico achando que não sou nada.
MIGUEL: É muito poder para uma pessoa só receber.
LIA: Eu não queria dar esse poder. Aconteceu.
CLARA: Aconteceu porque você é humana. Mas agora pode escolher o que faz com isso.
LIA: E se eu escolher errado?
MIGUEL: Vai doer também. A vida não oferece uma escolha sem risco, só escolhas que a gente consegue sustentar.
LIA: Você ainda acredita no amor romântico?
MIGUEL: Acredito que ele existe. Só não acho que seja uma espécie de destino que absolve tudo. Tem gente que usa “amor” para justificar ciúme, invasão, controle, promessa quebrada. Como se sentir muito desse o direito de fazer qualquer coisa.
CLARA: O amor romântico pode ser bonito, mas não é automaticamente justo. A gente cresceu vendo histórias em que insistir vira prova de amor e o “não” da outra pessoa vira obstáculo a ser vencido. Na vida real, um “não” não é o primeiro capítulo de uma perseguição. É um limite.
LIA: Mas e o amor platônico? Todo mundo fala como se fosse um amor puro, sem interesse, quase superior.
MIGUEL: “Platônico” virou nome para gostar de alguém que não corresponde. Mas isso não é exatamente o que Platão quis dizer. O amor filosófico não precisa ser um amor distante, impossível, sem corpo. Pode ser um desejo que nos faz sair de nós mesmos e buscar compreender o outro e o mundo.
CLARA: Só que, às vezes, chamamos de “platônico” aquilo que não conseguimos viver de verdade. A distância parece segura. A pessoa fica perfeita porque não precisa dividir a pia, cancelar planos, ter mau humor ou dizer que não quer nada com a gente.
LIA: Então o amor imaginado é mais fácil?
CLARA: Mais controlável. Não necessariamente mais bonito.
MIGUEL: Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, observa como quem ama vive interpretando sinais: a demora, a palavra, a ausência, o ponto final de uma mensagem. Olha para uma tela e tenta descobrir nela o próprio valor.
LIA: Parece que ele escreveu sobre o MSN.
MIGUEL: Escreveu antes. O sofrimento é antigo; a tecnologia só mudou o cenário.
CLARA: Antes, a pessoa esperava o telefone tocar. Agora espera o sinal de “digitando”.
LIA: E, quando aparece, o coração dispara. Aí a mensagem some. A pessoa desiste de escrever e você passa cinco minutos imaginando o que quase foi dito.
MIGUEL: O silêncio sempre teve espaço para a imaginação. A internet só colocou um relógio ao lado dele.
CLARA: E uma lista de contatos para você conferir se a pessoa está online com todo mundo, menos com você.
LIA: Quando ele aparece online e não fala comigo, parece que está escolhendo não me escolher diante dos meus olhos.
MIGUEL: Essa frase é terrível.
LIA: Mas é o que parece.
CLARA: O sentimento é real. A conclusão talvez não seja toda a realidade.
LIA: Como é que separa uma coisa da outra?
CLARA: Não separa de uma vez. Você pergunta o que sabe e o que está imaginando. Sabe que ele não quer uma relação? Ele já disse isso?
LIA: Disse que não quer namorar agora.
MIGUEL: E disse que quer ficar com você?
LIA: Não.
CLARA: Então há uma resposta, ainda que não seja a que você gostaria.
LIA: Eu queria que ele tivesse coragem de ser direto.
MIGUEL: Talvez também precise de coragem para ouvir o que ele já está dizendo.
LIA: Você sempre consegue transformar uma frase cruel em uma frase inteligente.
MIGUEL: É um mecanismo de defesa. Minha mãe chama de “falar difícil para não chorar”.
CLARA: A minha chama de “pegar o copo e lavar depois”.
LIA ri, pela primeira vez. O telefone toca. Ela olha para o aparelho, mas não se mexe.
CLARA: Não vai atender?
LIA: Não é ele. Ele mandaria mensagem.
MIGUEL: E se fosse?
LIA: Eu atenderia. É isso que me assusta.
CLARA: Você não precisa fingir indiferença. Só precisa decidir o que aceita.
LIA: Eu aceito conversar. Aceito gostar dele. Não aceito continuar me oferecendo em parcelas, esperando que um dia ele perceba que já me tem inteira.
MIGUEL: Isso parece uma frase que você deveria escrever.
LIA: Parece uma frase que eu queria acreditar.
CLARA: Então comece por ela.
LIA: E se eu perder a amizade?
CLARA: Talvez você perca a fantasia de que a amizade está equilibrada. Isso não é a mesma coisa.
LIA: Você acha que eu devo mandar a mensagem?
CLARA: Acho que você deve escrever o que precisa dizer sem tentar controlar a resposta.
MIGUEL: E sem colocar a responsabilidade pela sua vida inteira nas mãos dele.
LIA: Vocês são péssimos conselheiros. Ninguém está prometendo que vai dar certo.
CLARA: Conselheiro bom não promete final feliz. Só tenta evitar que você se abandone para manter alguém por perto.
LIA volta ao computador. A janela do MSN continua aberta. Ela começa a digitar, mas dessa vez não apaga. Lê em voz alta enquanto escreve.
LIA: “André, gosto de você e queria uma relação que fosse mais clara e recíproca. Entendi que você não quer isso comigo. Não estou escrevendo para mudar sua resposta. Preciso me afastar um pouco, porque continuar esperando está me fazendo mal. Espero que você compreenda.”
MIGUEL: É honesto.
CLARA: E não acusa.
LIA: Nem implora.
MIGUEL: Você pode ainda querer que ele responda “esperei a vida inteira por isso”.
LIA: Posso. Não sou uma estátua de sabedoria. Uma parte de mim ainda quer que ele leia e perceba que me ama.
CLARA: Não precisa expulsar essa parte. Só não deixe que ela escreva a mensagem por você.
LIA posiciona o cursor sobre o botão de enviar. Hesita.
LIA: Amar alguém é aceitar que ele seja livre?
MIGUEL: Também. E aceitar que você seja livre para sair.
CLARA: O amor real não é menos bonito por ter limites. Talvez seja mais difícil justamente porque o outro não existe para completar a nossa história do jeito que imaginamos.
LIA: Então o amor filosófico seria aprender a amar sem transformar o outro em propriedade?
MIGUEL: E o amor romântico, quando amadurece, talvez seja tentar viver isso sem apagar o desejo, o corpo, o ciúme, a insegurança. Não deixar que essas coisas governem tudo, mas também não fingir que elas não existem.
CLARA: Amar não é ser perfeitamente generoso. É perceber quando o medo está falando por nós e tentar não fazer do outro refém desse medo.
LIA: E ser rejeitado?
MIGUEL: É descobrir que alguém não pode ou não quer caminhar com você. Não é descobrir que você não merece ser amada.
LIA: Eu sei que essa frase é verdadeira. Só ainda não consigo senti-la.
CLARA: Tudo bem. Às vezes, a gente precisa atravessar uma verdade antes de conseguir morar nela.
LIA respira fundo e clica em “enviar”. O computador faz um ruído discreto. Ela continua olhando para a tela, mas não atualiza o status de André.
LIA: Foi.
MIGUEL: Foi.
CLARA: E agora?
LIA: Agora não sei.
CLARA: Essa é uma resposta honesta.
LIA: Eu pensei que, quando mandasse, ia me sentir corajosa.
MIGUEL: E se sentir triste não cancela a coragem.
LIA: Eu queria que amor fosse uma coisa simples. Duas pessoas se encontram, gostam uma da outra e pronto.
CLARA: Às vezes acontece. Mas mesmo aí tem conta para pagar, família para visitar, mau humor, medo, trabalho, silêncio. O amor não tira a gente do mundo. Acontece dentro dele.
MIGUEL: E o mundo dos anos 2000 está cheio de novidades que prometem aproximar todo mundo. Celular, MSN, Orkut, mensagens a qualquer hora. Mas estar conectado não é o mesmo que estar junto.
LIA: A gente vê a pessoa online e acha que tem acesso a ela.
CLARA: A tela mostra presença. Não promete intimidade.
MIGUEL: E uma foto no Orkut não revela a vida inteira de ninguém. Só mostra o que a pessoa escolheu colocar ali.
LIA: Como uma versão melhorada de nós mesmos.
CLARA: Ou uma versão que espera ser escolhida.
LIA: Talvez eu também tenha feito isso. Tentei ser a pessoa que ele queria: ouvi as bandas de que ele gostava, fingi não me importar quando ele cancelava, respondi “tudo bem” quando não estava tudo bem.
MIGUEL: Para ser amada, você tentou ficar fácil de amar.
LIA: E esqueci de perguntar se eu ainda gostava de mim daquele jeito.
CLARA: Essa é a pergunta que muda a conversa.
LIA: Não sei se vou conseguir me afastar.
MIGUEL: Você não precisa resolver o resto da vida hoje. Só não precisa desfazer o que acabou de dizer por causa de cinco minutos de saudade.
LIA: Você acha que o amor pode voltar depois de uma rejeição?
MIGUEL: Pode nascer outra coisa. Pode continuar existindo carinho. Pode haver amizade, se os dois conseguirem construí-la sem usar o outro como sala de espera. Mas não dá para exigir que o sentimento obedeça a um plano.
CLARA: E não dá para chamar qualquer vínculo de amizade só para não admitir que ainda espera mais.
LIA: Vocês estão acabando com todas as minhas ilusões.
MIGUEL: Estamos tentando não acabar com você junto.
LIA se afasta do computador. Vai até o aparelho de som e troca o CD. Começa “Amor I Love You”, de Marisa Monte. Ela sorri, mas não canta.
CLARA: Essa música ainda funciona.
LIA: Funciona porque parece que alguém sabe seu fim…