Ondaka 6.7

Renata Barcellos entrevista Ondaka 6.7: da oralidade à literatura, a força da palavra africana!

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Ondaka 6.7. Jovem preto de camisa clara, com livros nas mãos, Fundo preto.
Ondaka 6.7

Minicurrículo: Ondaka 6.7 (Osvaldo Boaventura Francisco), de Porto Amboim, Angola, nasceu aos 06 de Julho de 1994.

Formado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto.

Membro fundador do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, MNIA.

Agente de Desenvolvimento Comunitário com certificação em TFT in Practice – Training for Transformation (metodologia baseada na obra de Paulo Freire).

Curador e Bibliotecário do Mosaiko, onde desenvolve actividades que visam fomentar o acesso ao conhecimento e a participação cívica.

Venceu o Prémio Imprensa Nacional de Literatura 2023 e o Concurso de Contos Celebrando Talentos Literários 2024 da Grace Publisher. Obras Publicadas: Ntangu e Ntima ou A Absoluta Mama Mboze;  Uma Festa Lá No Céu.

Entrevista

1 Como surgiu o interesse pelas letras?

ONDAKA 6.7: O primeiro input me foi dado por um tio que a dada altura veio viver em nossa casa e contáva-nos diversas estórias. Eu nem ler, nem escrever em condições ainda sabia. Isso se me aceitas nessa pergunta incluir as estórias contadas (oralmente) porque os meus pais não tinham livros em casa. E foi muito tempo depois que aquela entrada deu alguma inquietação quando um professor e padre do ensino médio citava vários clássicos da literatura mundial ao dar a sua aula de gramática. E depois, vi-me a fazer letras na universidade. 

2 Quais são os objetivos do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola ?

ONDAKA 6.7: Importa lembrar que a Associação MNIA hoje é uma extensão do pensamento de Viriato da Cruz, primeiro teorizador e activista do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, surgido em 1948, sob o lema “Vamos Descobrir Angola”, que abriu uma nova página na história da literatura angolana. O MNIA agora renovado pretende lutar pela expressão dos interesses populares e da autêntica natureza africana em todas as formas de Arte e Cultura angolana, baseados no sentido estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas; desenvolver actividades culturais e educativas que visem sempre a revitalização do lúmen ou energia interior do ser humano.

3 Qual o papel da biblioteca na contemporaneidade? 

ONDAKA 6.7: Continua tendo o mesmo papel, que é de acolher e disseminar conhecimento. Entretanto, vai perdendo o impacto quando não é dinamizada, quando não se vai atrás dos leitores. Numa época como a nossa, em que se acentua o modo breve e imediato de ser, as pessoas vivem desinteressadas do que é essencial. No caso de Angola, por exemplo, além desse desinteresse global, adiciona-se a escassez de bibliotecas públicas e das que existem estão estáticas, desligadas dos desafios actuais. Ainda, agrava-se o facto de a escolas públicas não possuírem bibliotecas. E que os alunos chegam às universidades sem conhecerem uma biblioteca. 

4 Quais são as características de um bom conto? 

ONDAKA 6.7: A brevidade e o impacto. Talvez diria o fascínio provocado pela forma como é trabalhada e/ou condensada a linguagem. Por exemplo, ouvíamos por várias horas o tio a contar inúmeras estórias, mas nós também participávamos respondendo, ora dando um fio aos enredos. Enfim, não consigo desassociar o conto da oralidade. Acho que o conto sai sempre do oral para o escrito, onde deve voltar sempre. O conto é oral!

5 Mensagem ao leitor:

ONDAKA 6.7: Leia(m), porque a leitura é uma forma prazerosa de libertação.

Renata Barcellos

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A arte e a ética

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘A arte e a ética’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem criada por IA do Grok
Imagem criada por IA do Grok

A relação entre a Arte e a Ética apresenta, pelo menos, duas correntes, segundo as quais: a Arte tem o direito de ser imoral; a Ética deve ser moral. Entretanto, e numa perspetiva eclética, há os que defendem que a Arte é amoral.

Afirmar a amoralidade da Arte, provavelmente, comporta dois aspetos que são: negar, pura e simplesmente a possibilidade de uma relação ético-estética e afirmar que a imoralidade se dissolve no cadinho da Arte. 

No primeiro aspeto: nega-se, implicitamente, a ação formativa da Arte no sentido vivo, amplo, de formação de gerações inteiras, pelo contato direto com as grandes manifestações artísticas; no segundo aspeto, a Arte transformaria tudo em que toca, e então o mais fétido lodo surgiria transformado em oiro. 

Tratar o elemento estético à maneira de realidade de coisa, é tratá-lo como matéria de que o artista se serve. O artista, como tal, escolhe o que exprime, exprime o que pensa. Mas o artista pode ser moral ou imoral, mas desta situação nada se conclui para a Arte.

O preceito dado ao artista, numa perspetiva de amoralidade da Arte, destina-se a dar-lhe plena liberdade de ação ou é desnecessário? A amoralidade só pode ser preceito negativo se condicionar o passo do artista, de contrário só o liberta de uma condição prévia, ou seja, de um preceito.

A Arte jamais pode ser vista, exclusivamente, pela perspetiva da eticidade, na medida em que se pode encontrar o belo numa qualquer manifestação de Arte, seja ela moralmente condenável ou não. A Beleza abstrai-se, distingue-se e aprecia-se naquilo que ela nos toca de mais profundo, no nosso juízo de gosto, pois quem não admira um nu do Éden, quem não se maravilha com um óleo da maternidade? 

A Arte e a Ética jamais se confundem, ou se condicionam, muito embora se entenda como bela uma boa ação moral, no entanto, tal beleza é de natureza abstrata, inefável e, nesse campo, poderemos relacionar a Arte e a Ética defendendo, então, que toda a atividade humana, logo e também a atividade artística, se deve conformar às leis da moral e deve ser orientada no sentido do fim último do homem, que é Deus.

Daqui não será líquido concluir que o artista tenha sempre em vista a glorificação de uma virtude, porque na alma dos espetadores a emoção estética, que o artista sentiu pela produção de tal obra, é manifestamente patente, sendo por meio desta emoção estética que a Arte se realiza, e inspira virtude, porque na verdade a emoção estética desapega a alma de tudo o que é pequeno e mesquinho, elevando-se à contemplação de Deus, fonte de toda a Beleza.

Obviamente que a Arte é um refúgio, onde o homem encontra repouso das suas preocupações vitais, porque faz nascer nele o sentimento de admiração, desenvolve a simpatia, produz o respeito, contribui para uma melhor educação individual e coletiva e, nesse sentido, se pode afirmar que um país sem Arte, é um país sem cultura, porque as obras de Arte mostram-nos o que de mais perfeito foi feito, num determinado país, durante uma época bem definida.

Naturalmente que na Arte, a que me venho referindo, tem pleno cabimento e justificação uma breve alusão à literatura, porque pela expressão escrita, o seu autor, coloca a sua sensibilidade, os seus sentimentos, a sua análise acerca do tema que aborda, deixando para os leitores a interpretação que entendem e que, em certas matérias, poderá ser muito subjetiva, tal como o autor, quantas vezes, também não consegue fugir a essa inevitabilidade.

BIBLIOGRAFIA

DUCASSÉ, P., (s.d.). As Grandes Correntes da Filosofia. 5ª Ed. Lisboa: Publicações Europa-América

HADJINICOLAOO, N., (1978). História das Artes e Movimentos Sociais. Lisboa: Edições 70

MARCUSE, H., (s.d.). A Dimensão Estética. Lisboa: Edições 70

PLAZAOLA, Juan, (1973). Introdución a la Estética. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos

SCHILLER, Johann Christoph Friedrich von, (s.d.). Cartas Sobre a Educação Estética da Humanidade. Buenos Aires: Ed. Aguilar.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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