Soam os sinos: a salsa clássica e a loucura
Mario Antonio Rosa: Soam os sinos – homenagem à salsa clássica
Uma análise profunda sobre o monólogo de Carlos Canales e a filosofia de Foucault, onde a música é o último refúgio da memória e da liberdade humana


A seguir, apresento a análise detalhada do monólogo teatral “Suenan las campanas (Homenaje a la salsa clásica)” de Carlos Canales, baseando-me estritamente no texto fornecido:
- Análise geral do monólogo A obra se desenvolve em um asilo de idosos e é protagonizada por um idoso em cadeira de rodas que oscila constantemente entre a lucidez e os estragos da demência ou do deterioramento cognitivo. Por meio de suas chamadas desesperadas por “Mai” e da recriação de uma estação de rádio imaginária (WVOZ Radio Voz, Carolina, Porto Rico), o personagem revive a música de sua juventude, seus delírios de grandeza, sua religiosidade sincera e a dor de seu isolamento.
- Voz narrativa e elementos criativos
- Voz narrativa: A obra utiliza um monólogo dramático em primeira pessoa (“Ele”), em que o protagonista é tanto a voz que enuncia quanto o sujeito de seu próprio fluxo de consciência. A narrativa se fragmenta mediante “transições” e repetições que refletem o funcionamento de uma mente fragmentada pela velhice e pelo esquecimento.
- Elementos criativos:
- A rádio como fio condutor: A simulação de transmissões de rádio (“Esta é a WVOZ Radio Voz, Carolina, Porto Rico…”) atua como um recurso metateatral e uma ponte nostálgica em direção à sua identidade caribenha.
- Inclusão de letras musicais: Intercalam-se canções icônicas da salsa clássica (Richie Ray e Bobby Cruz, Héctor Lavoe, Rubén Blades) que dialogam diretamente com o estado anímico e psicológico do personagem.
- Contrastes delirantes: O desdobramento do personagem em figuras mesiânicas ou proféticas (“María del Rosario, filha de Deus”) diante de sua realidade vulnerável em uma cadeira de rodas.
- Temas, estado de espírito do autor, a nostalgia e os ambientes de vida
- Temas principais: A velhice, o abandono, a perda da memória e da identidade, o refúgio na fé e na loucura, o poder consolador da música e os laços familiares rompidos.
- Estado de espírito: Predomina um sentimento de profunda melancolia, desorientação, angústia existencial, mas também de júbilo efêmero quando a música evoca suas lembranças felizes.
- A nostalgia e o ambiente: O ambiente de vida do protagonista reduz-se às frias paredes de um asilo, o que contrasta intensamente com a nostalgia vibrante por sua natal Carolina (Porto Rico), seus bairros, a rua, a religiosidade popular e as festas onde tocava a salsa clássica.
- O clímax do monólogo O clímax ocorre em direção ao final da obra, quando a confusão do personagem se torna insustentável e sua desorientação atinge o ponto máximo de ruptura: «E a Mai? E a Mai? E a Mai? E a Mai? Onde você está, Mai? Mai, por que você não chega?! Mai, onde estou? … Mai, quem sou eu? Mai, você sabe quem sou eu? Mai, qual é o meu nome? […] Se alguém sonhar comigo, que acorde! Se alguém me esquecer, que se lembre de mim! […] Maaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiii!» Este é o ponto de máxima tensão dramática, em que o protagonista colapsa diante da perda absoluta de sua identidade, suplicando pela presença de “Mai” antes de deixar cair definitivamente a cabeça e os braços.
- A “Salsa Clássica” como distintivo e significado na existência do autor A salsa clássica não funciona meramente como um fundo musical, mas como a âncora vital e o arquivo da memória do personagem. Músicas como “El día de mi suerte” de Héctor Lavoe, “Amor y control” ou “Maestra vida” de Rubén Blades expressam as dores, aprendizados e verdades de sua própria existência. Através da música, o protagonista recupera a dignidade, o orgulho de sua terra (Porto Rico, Cali) e os sentimentos que o asilo e o tempo lhe arrebataram. É a prova de que, embora sua mente fraqueje, seu espírito continua dançando e cantando “do seu jeito”.
- O manejo do existencial na obra O existencial é abordado a partir da vulnerabilidade da condição humana diante da passagem do tempo. A obra reflete sobre como o ser humano se apega a ilusões, delírios de grandeza ou à fé para suportar a solidão e a incompreensão do seu entorno. As referências à morte, ao destino e aos ciclos da vida (como em Maestra vida: “Te dá e te tira e te tira e te dá”) confrontam o espectador com a fragilidade da vida, propondo que, no final, todos transitamos por um caminho de perdas onde o único que verdadeiramente permanece são os sentimentos genuínos e a memória do que fomos.
Em sua emblemática obra “História da Loucura na Idade Clássica” e em outros ensaios filosóficos, o pensador francês Michel Foucault examina como as sociedades ocidentais construíram, definiram e confinaram o conceito de loucura ao longo da história. Longe de vê-la como uma simples doença natural ou biológica, Foucault a analisa como uma construção social e cultural ligada ao exercício do poder e aos limites da razão.
A seguir, destacam-se os temas centrais que ele aborda em relação ao homem, ao seu mundo interior e à loucura:
- A loucura como o “outro lado” da razão
- Foucault argumenta que a loucura não existe em um vácuo natural, mas se define em contraposição à razão. Para que uma sociedade estabeleça o que é o pensamento “normal”, útil ou são, ela precisa criar uma margem obscura: a desrazão.
- O homem são define a si mesmo marginalizando aquilo que teme ou que não compreende de seu próprio interior.
- A interioridade trágica diante do silenciamento médico
- No Renascimento, a loucura era vista como uma experiência trágica e cósmica; permitia-se que ela “falasse”, e ela carregava uma verdade oculta sobre os limites da condição humana (como na figura da Stultifera Navis ou a “Nau dos Insensatos”).
- No entanto, com o advento da Idade Clássica e da Modernidade, essa voz interior profunda foi reduzida ao silêncio. A loucura deixou de ser um diálogo filosófico ou artístico sobre o destino do homem para se transformar em um objeto de estudo, um sintoma que devia ser enclausurado e corrigido.
- O grande internamento e o controle moral do homem
- Foucault detalha como durante o século XVII ocorreu o “internamento geral”: um processo massivo em que os loucos, juntamente com os pobres, os vagabundos e os dissidentes, foram trancafiados em instituições de reclusão.
- O estado interior do homem começou a ser medido sob estritas normas morais. A loucura passou a ser punida sob a premissa da ordem social, do trabalho obrigatório e da disciplina burguesa.
- A medicalização e o “poder de julgar”
- Com o surgimento da psiquiatria moderna (com figuras como Philippe Pinel ou, mais tarde, a psicanálise), o louco já não era visto apenas como um criminoso moral, mas como um doente mental.
- Não obstante, Foucault adverte que isso não libertou o homem: simplesmente mudou o poder de mãos. O médico transformou-se em uma figura de autoridade quase religiosa (“o homem sábio”) cujo julgamento clínico define a verdade íntima e a liberdade do indivíduo.
Reflexão geral: Para Foucault, a história da loucura é, na realidade, a história de como o homem ocidental tentou domesticar sua própria liberdade interior, catalogando tudo aquilo que sai da norma como um erro que deve ser silenciado ou curado.
Foucault; História da Loucura na Idade Clássica.
Este vídeo oferece uma revisão conceitual e acessível das principais teses de Michel Foucault sobre a separação entre a razão e a desrazão.