Enquanto poeta falaremos
Florência Mário: ‘Enquanto poeta falaremos’


Esta é a realidade
Porque nela contém dor e ódio angústia e memórias
Fechem as bocas e abram os ouvidos,
Porque o que eu vou contar é a verdade
São histórias esquecidas história negligenciadas
são histórias de opressão que causam depressão,
mas é preciso muita narração
É a pura realidade
São emoções, sensações, contos e história dor, ódio e tristeza
sentimentos de alguém que foi roubada a honra
honra é um dos bens mais precioso de uma mulher
Para alguns é só prazer mas para outros é tudo
Lembro-me de tudo como se fosse ontem
Tudo aconteceu muito rápido
Numa noite escura, o silêncio tomou conta ouvi passos e logo me escondi
O coração não parava de bater tic-tac, tic-tac ,como um relógio assombrado
A minha mente estava confusa
Quando eu acordei eu não me lembrava,
mas aos poucos, fui lembrando
e a memória era tão horrível que me faziam chorar um rio de lágrimas.
Florência Mário

Florência Mário, residente em Luanda. Frequenta a 9°classe no colégio Meury & Dores. A literatura surgiu de forma repentina. No momento gosta de escrever poesia e contos. Pretende se tornar uma grande escritora a nível nacional e internacional explorando outras áreas da literatura. Faz parte do projecto escrita criativa do mentor Tomás Eugénio Tomás.
Resistência
Loide Afonso: Poema ‘Resistência’


Tum tum
Tum tum
Dois batimentos por vez
Foi assim que
Eu senti
Meu coração bater
Sabes quantos segundos tem um milésimo?
Não.
Ou talvez saibas
Será que Pitágoras sabia?
Pode ser que sim
Pode ser que sim
Que não
Ou meio sim
Meio não
Só lembro das batidas
Como se eu fosse
Ter um ataque
Ataque de realidade
Isto existe?
Tabom, vou ser mais prática
Talvez foi
De pânico
Mais não senti medo
Dor
Nem angústia
Foi seco
Sem cheiro
Cor
Ou sistemático
Alguém aquí já esteve num terramoto?
Se nunca esteve, nunca saberá
Bem, não vou me revelar contra
O sistema.
Já passou.
Loid Portugal
Vitamina D
Loide Afonso: Poema ‘Vitamina D’


às 15:58 PM
Olhar distante
Cabeça pra baixo
Corpo doce
Alma vazia
Você já comeu
Pó?
Arranhou seu rosto
Chorando?
Sentiu angústia
E olhou de lado
E estava sozinho?
Calma.
Vá dar uma volta
Corra
Leia um livro
Saia
Espera, você já dançou na frente do Sol, logo de manhã?
Sentiu o cheiro das plantas da sua casa?
Se abraçou e se pediu desculpas hoje?
Se olhou na alma e disse: você é um amor?
Olhou o céu hoje e viu os pássaros?
Você sabe mesmo, qual é a sensação de respirar conscientemente?
Ufh!
Loid Portugal
O toque divino
José Antonio Torres: Poema ‘O toque divino’


às 7:18 AM
Caminhava olhando para baixo…
Vez por outra, olhava para os lados e para a frente,
Mas não importavam as paisagens, as pessoas…
Vivia ensimesmado…
Uma angústia fria e torturante habitava em mim;
Perdido, não conseguia divisar uma saída…
Esticava meus braços para baixo
E só havia a terra fria e árida…
Estendia-os para os lados e não encontrava amparo…
Ao estende-los para a frente,
Via o futuro fugir e se distanciar de mim.
Quando o desespero e o desânimo já tomavam conta do meu ser,
E com o espírito destroçado pelo vazio da minha existência,
Em uma súplica final,
Ergui os braços para o alto e,
Como um raio quente e revigorante percorrendo meu corpo,
Senti o toque suave e acolhedor da mão de Deus.
José Antonio Divino
O vazio
COLUNA PSICANÁLISE E COTIDIANO
Bruna Rosalem: ‘O vazio’


Imagem criada pela IA do Bing
Vazio. Na definição do dicionário Houaiss: “Que não contém nada, apenar ar”. “Que falta fundamento, valor, substância, realidade.”. “Ausência de conteúdo, oco, vão.”. “Falta de saciedade, sentimento de insatisfação.”. Curiosamente, vazio também nomeia uma parte do boi, muito utilizada em churrascos, “o vazio da carne”.
Numa outra ótica bem diferente, temos o lugar de vazio do analista numa sessão de manejo psicanalítico. Aquele que faz semblante do morto, o que permite ao sujeito escutar-se em sua própria história.
Várias definições tentam significar esta palavra e trazer algum sentido. Nas ciências exatas, por exemplo, na Matemática, temos o conjunto vazio. Na Física, a ideia de vácuo, ou ainda, o espaço não ocupado por matéria.
Se utilizarmos vazio enquanto metáfora, teremos uma série de possibilidades em que esta palavra pode ser aplicada: “Estou me sentido vazia, oca por dentro, uma tristeza sem fim.”, “Meu estômago está vazio, sinto fome!”; “Acho que minha vida está vazia, não tenho sonhos, desejos, nem propósitos…”.
Paradoxalmente, a palavra vazio sugere ausência, mas ao colocá-la em cena, ela se presentifica. Anne Frank, adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto que ficou famosa pela publicação póstuma de seu diário, dizia: “Aquele vazio, aquele vazio enorme está sempre presente.”. Isso demonstra que não há como escapar desta sensação, certamente em algum momento de nossas vidas sentiremos este tal vazio que, para cada sujeito, se inscreve e se expressa de maneira singular.
Há ainda aquele sentimento de angústia que nos toma, entrecorta a carne, deixa o coração apertado, como uma espécie de ‘rombo’ no peito, um vazio na alma.
No luto, é muito comum sentir a sensação do nada, de oco. Perder alguém muito querido e amado deixa essa sensação, como se algum conteúdo fosse arrancado do corpo. É como ter a carne dilacerada, destruída, restando apenas buracos, lacunas.
A sensação de vazio muitas vezes pode tornar a existência insuportável. E por mais que lutemos para ocupar este espaço em que ‘o nada’ existe (soa até contraditório), não há o que ser preenchido, já que o vazio enquanto metáfora, é uma tentativa de apalavrar a dor de sentir que algo perdeu o sentido, o brilho, o fervor, a excitação.
Consciente disso, é possível que o vazio se torne objeto de investigação para o sujeito abrir-se para o desconhecido, para o enigmático inconsciente com vistas a possíveis elaborações.
O vazio é um sentimento inevitável em nossa história, a questão é como lidaremos com algo tão presente e tão visceral. Precisaremos mergulhar pelas profundezas de suas raízes… quem sabe.
Bruna Rosalem
Contatos com a autora
Desabafo poético
Verônica Moreira: ‘Desabafo poético’


Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer
Meu sentimento por ele é profundo, é como amar a morte, pois somente ela nos liberta da angústia de desejar sem poder alcançar.
Talvez eu pareça tola, ou talvez carente, ansiando por viver um amor intenso, carnal e voraz.
Eu gostaria de ser como os outros, mas o destino decidiu que eu seria uma poetisa. Um ser que se atreve a tocar o Sol sem medo de se queimar por completo.
Por que escolher ser poeta? Havia opções mais discretas! Por que me tornei poetisa? Tive que abrir mão de tantas coisas!
Oh, meu Deus, por que tantas divagações, tantos conflitos e desejos? Não poderias afastar de mim este sofrimento?
Estou perdida, transbordando de emoções. Não sei se consigo ser feliz com tantos desabafos poéticos sufocados.
Não posso provocar ciúmes, não posso ser genuína, não é possível ser feliz sem ser um pouco louca.
Eu o amo, o amo como quem espera a sorte, como quem ama a morte.
Verônica Moreira

