A poesia sem fronteiras de Humberto Napoleón!

Humberto Napoleon Varela Robalino:
poesia que ultrapassa fronteiras e conquista uma voz internacional na APB

Humberto Napoleón Varela Robalino recebendo das mãos do presidente da APB, Mhario Lincoln,  a convocagem e nominação de vice-presidente dos assuntos internacionais do APB. Arquivo Pessoal

Humberto Napoleón Varela Robalino pertence a uma geração de escritores equatorianos cuja trajetória reúne literatura, educação e atuação institucional.

Nascido em Tulcán, no Equador, em 7 de dezembro de 1941, estudou no Colegio Nacional Bolívar, no Instituto Normal Juan Montalvo, em Quito, e na Universidad Técnica Particular de Loja.

A Casa de la Cultura Ecuatoriana – Núcleo del Carchi, fonte institucional do país, registra que Varela dedicou 35 anos à educação nacional, integrou a Sociedade de Escritores do Equador, foi fundador e presidente do Grupo Caminos e presidiu por dois períodos o Núcleo do Carchi da Casa de la Cultura. Sua bibliografia inicial inclui Circunstancia Gris, Voces Poesía (1978), Presencia (1980), o ensaio Neruda es Siempre (1983), El Dadaísmo (1984), Literatura Preceptiva (1985) e a antologia Poetas del Siglo XX (2002).

A produção continuou a atravessar fronteiras. Em entrevista reproduzida pela Plataforma Nacional do Facetubes, o próprio escritor contabilizava 20 livros de poesia, ensaio e estudos acadêmicos, construídos ao longo de cerca de cinco décadas de trabalho literário.

Diploma concedido a Humberto Napoleón Varela Robalino, pla Academia  Poética Brasileira
Diploma concedido a Humberto Napoleón Varela Robalino, pela Academia Poética Brasileira

Entre os títulos que alcançaram circulação internacional estão La noche del búho en 40 días, publicado em Montevidéu pela ABRACE em 2014; Pieladentro, lançado em Madri; A dos voces, escrito com a argentina Marta Oliveri e publicado pela Editorial Dunken, em Buenos Aires; e Poesía del bigote humedecido en vino, apresentada também em Belo Horizonte. A continuidade dessa produção está documentada pela Biblioteca del Poder Legislativo do Uruguai, que registra Poesía en viaje, publicado em Montevidéu pela ABRACE em 2023, com 91 páginas e ISBN próprio, reunindo poemas como “Eva”, “Huellas”, “El reino de la memoria” e “Salmo de Las Piedras”.

No Brasil, essa trajetória mantém ligação direta com a Academia Poética Brasileira. A Plataforma Nacional do Facetubes registra Humberto Napoleón como membro-fundador e vice-presidente internacional da APB, representação exercida a partir de Quito e voltada à interlocução da Academia com escritores e instituições de outros países.

O próprio Facetubes criou, em 2025, uma coluna internacional bilíngue destinada à divulgação de sua produção, reforçando um intercâmbio que já incluía publicações, entrevistas e participação em projetos literários brasileiros. Nesse contexto, sua presença no sodalício ultrapassa uma função protocolar: representa a ponte entre a poesia produzida no Equador, o circuito cultural latino-americano e a proposta internacional da Academia Poética Brasileira. É dentro dessa trajetória que poemas como “Este cuerpo” devem ser lidos: como parte de uma obra construída entre memória, condição humana, consciência social, corporalidade e a permanência da palavra diante do tempo.

Análise da poesia “Este Cuerpo”, de Humberto Napoleón Varela Robalino (Divulgação).

Em “Este cuerpo”, Humberto Napoleon transforma o corpo em território da existência. Ele não surge como anatomia nem como simples suporte do indivíduo. É memória, resistência, desejo, medo, poesia e consciência da finitude. Desde a imagem do corpo que resiste ao “chumbo / que lhe dão todos os dias”, o poema estabelece um confronto entre matéria e tempo. Esse corpo recebe o peso de viver e continua seguindo, até mesmo “agarrando-se com as unhas”. A imagem alcança uma dimensão filosófica: existir significa habitar uma matéria submetida ao desgaste, à história e às suas próprias contradições. A leitura encontra proximidade com Maurice Merleau-Ponty, cuja fenomenologia compreende o corpo como parte constitutiva de nossa relação com o mundo. A Stanford Encyclopedia of Philosophy registra que, nessa tradição, o corpo constitui lugar de percepção, afetividade e significado, não uma coisa separada da experiência humana.

A força estrutural do poema nasce das sucessivas metamorfoses desse corpo: “esconderijo de antigos deuses”, “guarda de anjos e demônios”, “vespeiro de poemas”. Cada figura amplia o sentido da anterior. Deuses, anjos e demônios podem representar forças acumuladas pela consciência: culpa, esperança, desejo, medo, lembrança. Quando o poeta chega ao “vespeiro de poemas”, a literatura passa a integrar fisicamente essa experiência. Os poemas picam, incham, doem. A palavra deixa de ocupar uma função decorativa e passa a atuar sobre quem escreve. A poesia nasce, nessa perspectiva, daquilo que o corpo recebeu do mundo e ainda não conseguiu esquecer. O verso funciona como memória organizada daquilo que feriu, sustentou ou transformou o indivíduo.

Essa construção permite uma aproximação com César Vallejo, poeta que também colocou corpo, sofrimento, silêncio e morte no centro de parte de sua produção. O estudo “Silencio y voz en España, aparta de mí este cáliz”, publicado na revista Letras e disponível na base SciELO, reúne leituras críticas que situam o sofrimento entre os elementos recorrentes da poética vallejiana e examina a ligação entre palavra, dor e silêncio.

O trabalho recupera ainda José Carlos Mariátegui, que percebe em Vallejo um sofrimento capaz de ultrapassar a experiência individual e alcançar a condição humana. O verso de Humberto Napoleon — “Quando o silêncio fizer mais ruído” — aproxima os dois universos. Silêncio, em ambos, não significa ausência. Ele possui presença e consequência. Vallejo frequentemente conduz essa dor ao espaço coletivo; Humberto a concentra dentro de um corpo que guarda acontecimentos, perdas e lembranças.

O desfecho consolida a arquitetura filosófica do poema. O mar poderá afogar esse corpo ou “o peso de uma pluma cinzenta” poderá esmagá-lo. A oposição entre o mar e a pluma produz uma síntese da condição humana: aquilo que resistiu a pesos concretos pode ser vencido pelo que parecia não possuir peso algum. A morte deixa de aparecer apenas como encerramento biológico e passa a representar o limite inevitável de toda resistência.

O corpo de Humberto Napoleon atravessa o cotidiano, carrega seus deuses, enfrenta seus demônios, abriga poemas, conhece o desamor, o desamparo e a desmemória. Ao final, permanece a percepção de que viver é carregar no corpo aquilo que o tempo escreve. “Este cuerpo” transforma essa inscrição em poesia e faz do corpo a testemunha material da passagem humana pelo mundo.

Editoria Internacional de Literatura e Arte, da Plataforma Nacional do Facetubes c/Orquídea Santos

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