Mania: O reflexivo poema de Dorilda Almeida

Poema ‘Mania’ convida o leitor do Jornal ROL a uma pausa reconfortante na rotina.

Dorilda Almeida
Dorilda Almeida
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Eu tenho várias manias:
Mania de dormir à tarde
Todos os dias
Retirar o ego da vida
Para descansar de mim mesma.

Eu tenho várias manias:
Mania de comer bem
Comida feita na hora
Quentinha e saudável
E que faz tão bem.

Eu tenho várias manias:
Mania de sentir alegria
Alegria de viver
Alegria de ser eu
E de amar você.

Eu tenho várias manias:
Mania de conhecer
Gente
Mania de conhecer
O outro
Mania de conhecer
A mim mesma.

Ora eu penso que é mania
Ora eu penso que é querer
Querer sempre é mania
Ou mania é querer?

               

Dorilda Almeida

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Como poderiam saber…

Uma sensível e perspicaz contestação das verdades absolutas da ciência diante da soberania do sentimento humano

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Fotografia realista num formato panorâmico que mostra um casal numa varanda à noite. À esquerda, um homem de cabelo escuro e casaco verde-escuro olha com carinho para uma mulher. À direita, a mulher, com um vestido branco e cabelo ondulado, sorri suavemente, envolvida por uma aura luminosa e brilhante como uma estrela. A varanda está decorada com luzes quentes e plantas. Ao fundo, vê-se o horizonte da cidade sob um céu noturno estrelado com a lua crescente.
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“A estrela mais próxima da Terra é o Sol.”

Mas como poderiam sabê-lo os astrônomos?

Pois, para mim, a estrela mais próxima

É minha amada — ela é a estrela na varanda.

“A era mais longa foi a Idade da Pedra.”

Mas como poderiam sabê-lo os historiadores?

Pois, para mim, a era mais longa

É o tempo em que esperei por você.

“A coisa mais difícil é conhecer a si mesmo.”

Mas como poderiam sabê-lo os filósofos?

Pois, para mim, a coisa mais difícil

É perder você.

“1 + 1 = 2.”

Mas como poderiam sabê-lo os matemáticos?

Que você e eu somos uma só alma.

…Ah, Quanta esperança deposito nas pessoas,

Quantos sonhos espero delas

Nem mesmo os eruditos conseguem me compreender,

Muito menos os tolos.

Bakhtiyar Hasanov

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Território da alma em solo da consciência

Ella Dominici:
A jornada da alma que desarmou o medo para renascer no raiar de uma nova consciência

Ella Dominici
Ella Dominici
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Sento-me diante do medo,
encafifada, vigiando uma fronteira.
Tanto me desconhece aquilo que me indigna.

E, sem nome, em noite de angústias,
declínio em algemas junto ao
abrir de trincheiras.
Um confronto de rivais, são ideias em disputa,
e das bases, fossos, partes, pares partem
aos ataques.

O invisível se apropria de imagens sem barreiras.
Sem bandeiras, só meu verbo é lema sem dono,
onde tremula a audácia no sobreviver da palavra.

De todas as respostas impostas, sem armas e sem adagas,
em silêncio mudo, arde-me o vulto palpitante
e o não querer dizer aquilo que não tem verdade.

Destila o líquido do estopim que me acalora.
Na mente, um livro, linguagem e um debate,
o soletrar na noite que avança e, dentro dela, um resgate e,

Vislumbro.
o passável do impossível,
o possível do indizível,
o visível do mutável!

Não mais me abala a intransigência.
E, dissidente, resisto, me desabrigo e insisto,
sitiado em pôr do sol,
do absurdo que já dorme.

Um radar da Resistência
no raiar da Consciência
Livre-alvedrio
Um despertar do Sol
é um fenômeno intelectual.

Acordo.

E no território secreto da alma,
recolho do silêncio o que ainda sou.
Apenas Ela,
a consciência erguendo-se madrugada,
cale-se o que finda
no amanhecer da liberdade.

Como aprendizado do Sol internamente,
o sorriso do cálice em licor
desfaz a sede antiga
e ilumina o que em mim renasce.

Ella Dominici

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Vício: a liberdade que estamos entregando sem perceber

Joelson Mora reflete sobre como as telas, o consumo e os impulsos automáticos estão moldando nossa rotina

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada pela IA da Meta

Nunca tivemos tanta informação. Nunca tivemos tanta tecnologia. Mas será que estamos mais conscientes das nossas escolhas? Essa é uma das grandes contradições do nosso tempo. Temos respostas instantâneas, mas pouca capacidade de esperar, Temos milhares de conexões, mas dificuldade de estar presentes, Temos acesso a informações sobre saúde, mas continuamos negligenciando o próprio corpo, Temos ferramentas para trabalhar melhor, mas muitos não conseguem mais desligar, Temos liberdade para escolher, mas cada vez mais estímulos tentando escolher por nós. Talvez o grande problema contemporâneo não seja a falta de informação, Seja perda de consciência.
Vício não precisa começar com uma substância, Pode começar com uma tela, Com a necessidade de conferir notificações, Com a comida utilizada para aliviar emoções, Com apostas que prometem dinheiro rápido, Com compras usadas para compensar frustrações, Com jogos que substituem experiências reais, Com o trabalho que nunca termina, Com a necessidade constante de aprovação, Com uma relação na qual já não sabemos quem somos sem o outro Ou até com o hábito de reclamar, julgar e alimentar conflitos.
Nem todo comportamento intenso é um transtorno. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece especificamente alguns comportamentos, como jogo e gaming, quando existe perda de controle e prejuízo significativo na vida.
Por isso, talvez seja mais importante do que perguntar:
“Eu tenho um vício?”
perguntar:
“Existe alguma coisa que eu já não consigo escolher livremente?”
Essa pergunta muda a conversa. A consequência aparece onde menos percebemos,
O problema raramente fica restrito ao comportamento.
Ele transborda.
Para dentro de casa.
Para os relacionamentos.
Para o trabalho.
Para a saúde.
Para as finanças.
Para a autoestima.
Para a presença.
No Brasil, por exemplo, o Ministério da Saúde registrou aumento expressivo dos atendimentos relacionados a problemas com jogos e apostas entre 2018 e 2025.
No mundo, a OMS estima que cerca de 1,2% dos adultos apresentem transtorno do jogo e alerta para consequências que podem alcançar a saúde, as finanças e os relacionamentos.
Nas redes sociais, o cenário também merece atenção. Pesquisa da OMS com adolescentes de 44 países e regiões encontrou sinais de uso problemático em 11% deles, acima dos 7% registrados em 2018.
E não é apenas uma questão de tela.
O Brasil também vive uma mudança importante no cenário alimentar. Segundo o Vigitel, a obesidade entre adultos nas capitais e no Distrito Federal passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.
Esses números não dizem que essas pessoas são “viciadas”.
Eles revelam algo mais amplo:
nossos comportamentos estão mudando e precisamos compreender para onde eles estão nos levando.
O vício contemporâneo tem uma característica poderosa
Ele frequentemente entrega alguma coisa antes de cobrar seu preço.
A rede social entrega estímulo.
A comida entrega prazer.
A aposta entrega esperança.
A compra entrega satisfação.
O jogo entrega recompensa.
O trabalho entrega reconhecimento.
A aprovação entrega pertencimento.
O relacionamento pode entregar segurança.
A reclamação pode entregar a sensação de razão.
Primeiro vem a recompensa.
Depois, a dependência.
E, algumas vezes, só percebemos o preço quando já estamos pagando com aquilo que mais importa.
Tempo. Saúde. Dinheiro. Presença. Confiança. Relacionamentos.
A tecnologia acelerou tudo. Inclusive nossos impulsos; Antigamente, existia um intervalo entre desejar e realizar, Hoje, esse intervalo pode ser de segundos.
Quero comprar.
Clique.
Quero apostar.
Clique.
Quero assistir.
Clique.
Quero aprovação.
Posto.
Quero esquecer um problema.
Abro o aplicativo.
A tecnologia reduziu a distância entre desejo e recompensa E talvez uma das competências mais importantes para o ser humano contemporâneo seja justamente recuperar aquilo que a velocidade está apagando:
a capacidade de esperar.
Esperar antes de comprar.
Esperar antes de responder.
Esperar antes de apostar.
Esperar antes de comer por impulso.
Esperar antes de publicar.
Esperar antes de reagir.
Nesse pequeno intervalo existe algo extraordinário:
a possibilidade de escolher.
Autorresponsabilidade não é culpa
Existe uma diferença enorme entre culpa e autorresponsabilidade.
Culpa olha para trás e pergunta:
“De quem é a culpa?”
Autorresponsabilidade olha para frente e pergunta:
“O que eu posso fazer a partir de agora?”
Não controlamos todos os fatores que influenciam nosso comportamento, Mas podemos começar a observar nossos padrões.
Podemos identificar gatilhos.
Podemos estabelecer limites.
Podemos mudar ambientes.
Podemos pedir ajuda.
Podemos substituir hábitos.
Podemos aprender a tolerar desconfortos sem precisar imediatamente anestesiá-los.
E, principalmente, podemos parar de negociar com aquilo que está destruindo aquilo que dizemos valorizar.
Um exercício simples
Durante sete dias, observe quatro coisas:
O que mais consumiu meu tempo?
O que mais capturou minha atenção?
O que fiz no automático?
O que deixei de viver por causa disso?
Não tente mudar tudo; Escolha um comportamento.
Observe-o.
Compreenda-o.
Descubra o que ele tenta entregar a você.
E então pergunte:
“Existe uma maneira mais saudável de atender essa necessidade?”
Esse é o início do autoconhecimento.
A verdadeira liberdade
Talvez liberdade não seja poder fazer tudo o que queremos.
Talvez liberdade seja não precisar fazer tudo o que queremos.
É conseguir fechar o aplicativo.
É conseguir dizer não.
É conseguir esperar.
É conseguir ficar sozinho sem sentir vazio.
É conseguir amar sem desaparecer dentro de alguém.
É conseguir trabalhar sem transformar trabalho em identidade.
É conseguir receber aprovação sem depender dela.
É conseguir sentir desconforto sem fugir imediatamente.
É conseguir escolher.
Porque aquilo que controla nossas escolhas também participa da construção da nossa vida; Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Do que eu preciso me livrar?”
Mas:
“O que está ocupando um espaço na minha vida que não deveria ocupar?”
A resposta pode incomodar, Mas consciência nem sempre chega para confortar, Às vezes, ela chega para despertar.
E despertar é perceber que ainda existe escolha.
Conhecimento nos informa.
Autoconhecimento nos revela.
Autorresponsabilidade nos movimenta.
E consciência nos devolve aquilo que nenhum algoritmo, substância, compra, aposta ou aprovação deveria possuir:
a liberdade de escolher como queremos viver. 

Joelson Mora

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O caminho da liberdade interior

SAÚDE INTEGRAL

O colunista Joelson Mora convida a despertar do piloto automático, questionar crenças e descobrir a integridade além do ego

Joelson Mora
Joelson Mora
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Despertar não é deixar de sentir, pensar ou acreditar. É desenvolver discernimento para escolher como viver.

Quantas das nossas escolhas são realmente nossas?

Essa pergunta parece simples, mas pode nos conduzir a lugares profundos. Muitas vezes acreditamos estar escolhendo livremente quando, na verdade, estamos apenas repetindo padrões que aprendemos, pensamentos que incorporamos e comportamentos que foram construídos ao longo da nossa história.

“Eu sou assim.”

“Não consigo.”

“Isso não é para mim.”

“Na minha família sempre foi desse jeito.”

“Eu preciso provar meu valor.”

Frases aparentemente comuns podem esconder crenças que, silenciosamente, passam a determinar a maneira como enxergamos a nós mesmos, os outros e a própria vida.

É nesse território que começa uma das jornadas mais importantes do ser humano: o despertar da consciência.

Crenças fazem parte da nossa construção. Elas ajudam a organizar experiências, valores e percepções. O problema surge quando deixamos de perceber que uma crença é uma interpretação e passamos a tratá-la como uma verdade absoluta.

Uma criança que cresce ouvindo que é incapaz pode carregar essa ideia para a vida adulta. Alguém que sofreu uma rejeição pode começar a acreditar que precisa agradar a todos para ser amado. Uma pessoa que experimentou fracassos pode concluir que tentar novamente é perigoso.

Assim nascem muitas das chamadas crenças limitantes, mas existe uma pergunta poderosa:

“Isso é realmente quem eu sou ou é algo que aprendi a acreditar sobre mim?”

Essa pergunta não elimina automaticamente uma crença, mas cria algo precioso: consciência.

Porque aquilo que não percebemos nos conduz, aquilo que percebemos podemos questionar, e aquilo que podemos questionar pode, com discernimento, ser transformado.

Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e ser definido por ele.

Pensamentos aparecem. Alguns são conscientes; outros surgem quase automaticamente. Eles podem nascer de experiências, medos, expectativas, lembranças e interpretações.

O mesmo acontece com os sentimentos.

Sentir raiva não significa ser uma pessoa raivosa, sentir medo não significa ser covarde, sentir tristeza não significa ser uma pessoa triste, sentir insegurança não significa ser incapaz. O sentimento é real, mas ele não precisa se transformar automaticamente em comportamento. É justamente nesse espaço que surge o discernimento, entre o que acontece e aquilo que fazemos existe uma possibilidade de escolha. Talvez a maturidade não esteja em nunca sentir emoções difíceis, mas em aprender a não entregar a elas o controle absoluto das nossas decisões.

O ego pode ser compreendido como uma estrutura relacionada à identidade que construímos: aquilo que acreditamos ser, nossos papéis, nossas histórias, nossas conquistas, nossas feridas e também a necessidade de reconhecimento.

O problema não é necessariamente ter um ego. O problema começa quando acreditamos que somos exclusivamente aquilo que construímos.

“Meu cargo.”

“Meu dinheiro.”

“Meu corpo.”

“Minha reputação.”

“Minha opinião.”

“Minha história.”

Quando essas coisas são ameaçadas, podemos sentir que o próprio “eu” está sendo ameaçado. A consciência, por outro lado, nos convida a observar.

Eu consigo perceber meu pensamento sem necessariamente obedecê-lo?

Consigo reconhecer minha emoção sem transformá-la imediatamente em ação?

Consigo ouvir uma opinião diferente sem sentir que minha identidade está sendo destruída?

Esse espaço de observação é extremamente valioso. É nele que o discernimento começa a nascer.

Nem sempre o ego chega fazendo barulho.

Às vezes ele fala baixo.

Às vezes se apresenta como humildade.

Existe uma diferença entre ser humilde e precisar parecer humilde.

A falsa humildade pode aparecer quando alguém repete constantemente que não precisa de reconhecimento, enquanto, silenciosamente, espera que todos reconheçam o quanto é especial. Também pode aparecer quando o discurso diz uma coisa, mas a prática revela outra. Fala-se sobre empatia, mas não se escuta. Fala-se sobre simplicidade, mas existe necessidade permanente de destaque. Fala-se sobre servir, mas todas as situações precisam terminar com a própria pessoa no centro. Fala-se sobre não buscar aplausos, mas existe sofrimento quando o aplauso não vem. É o ego procurando uma forma sofisticada de permanecer no comando e existe uma pergunta desconfortável que pode ser muito saudável:

“Se ninguém soubesse o que estou fazendo, eu continuaria fazendo?”

Outra:

“Se outra pessoa receber o reconhecimento que eu esperava, consigo celebrar por ela sem sentir que perdi alguma coisa?”

O ego inflado pode transformar a vida em um palco permanente, onde precisamos ser protagonistas de todas as histórias.

Precisamos ser vistos.

Precisamos ser reconhecidos.

Precisamos ter razão.

Precisamos ser o “alecrim dourado” aquela pessoa que acredita, consciente ou inconscientemente, que precisa estar sempre no centro, ser indispensável, especial ou diferente de todos.

Mas consciência também é perceber que não precisamos diminuir ninguém para existir, nem ocupar todos os espaços para ter valor.

Humildade verdadeira não significa pensar menos de si.

Significa não precisar pensar mais de si do que é necessário.

E talvez a prova mais bonita da humildade esteja justamente na coerência:

aquilo que digo sobre mim encontra correspondência na maneira como trato as pessoas quando ninguém está olhando?

Porque consciência não se mede apenas pelo que falamos. Ela aparece naquilo que fazemos. O discurso pode impressionar. A prática revela. E quando discurso e prática caminham na mesma direção, nasce algo muito mais profundo que uma imagem de humildade:

nasce integridade.

O Caibalion, obra associada à tradição hermética, apresenta princípios filosóficos como mentalismo, correspondência, polaridade e ritmo.

Independentemente de concordarmos ou não com suas interpretações, algumas dessas ideias podem funcionar como provocações para a reflexão sobre a maneira como percebemos a realidade. O princípio da polaridade, por exemplo, apresenta a ideia de que aquilo que percebemos como extremos pode possuir diferentes graus dentro de uma mesma dimensão. Na vida cotidiana, isso pode nos levar a perguntar:

Será que uma situação é realmente “tudo ou nada”?

Será que um erro precisa definir toda uma história?

Será que um momento difícil precisa determinar todo o nosso futuro?

O discernimento começa muitas vezes quando abandonamos os extremos e conseguimos enxergar nuances.

A Bíblia também nos convida repetidamente a olhar para dentro e transformar nossa maneira de pensar.

Em Romanos 12:2, encontramos a conhecida orientação sobre a transformação por meio da renovação da mente. A ideia é profunda: transformação não começa apenas do lado de fora. Existe uma mudança de percepção, de pensamento e de compreensão. A fé, nesse sentido, não precisa ser entendida como ausência de questionamentos. Pode ser também uma caminhada de confiança enquanto aprendemos a discernir.

Fé não é necessariamente fechar os olhos.

Pode ser aprender a caminhar mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. E talvez exista aqui uma importante integração entre espiritualidade e consciência: não basta acreditar; é necessário perceber como aquilo em que acreditamos está influenciando a maneira como vivemos.

Em meio a pensamentos acelerados e emoções intensas, o corpo pode ser uma porta de entrada para a presença.

A respiração consciente é uma prática simples que pode nos ajudar a interromper, ainda que por alguns instantes, o piloto automático.

Inspirar.

Perceber.

Expirar.

Observar.

Algumas práticas de respiração circular ou contínua são utilizadas em diferentes contextos de autoconhecimento e espiritualidade. Porém, práticas respiratórias intensas não são indicadas indistintamente para todas as pessoas e devem ser realizadas com orientação adequada quando houver técnicas mais profundas ou desconfortáveis.

O objetivo aqui não é buscar uma experiência extraordinária.

É algo mais simples: voltar para o momento presente.

Porque muitas vezes o corpo está em um lugar enquanto a mente está presa ao passado ou tentando controlar o futuro.

Respirar conscientemente pode ser um lembrete: “Eu estou aqui.”

A ayahuasca também aparece, em diferentes contextos culturais e religiosos, associada a experiências de introspecção, espiritualidade e alteração da percepção.

É importante, entretanto, não transformar uma experiência intensa em sinônimo automático de despertar, uma experiência pode provocar perguntas, pode trazer emoções, pode modificar temporariamente a percepção.

Mas transformação exige integração.

Aquilo que alguém vivenciou precisa encontrar espaço na vida cotidiana: nas escolhas, nos relacionamentos, nos hábitos, na responsabilidade e na maneira de tratar a si mesmo e aos outros.

Uma experiência extraordinária não substitui o trabalho cotidiano da consciência.

O verdadeiro desafio talvez não seja ter uma experiência transformadora, mas transformar a experiência em vida.

Despertar é conquistar liberdade?

Talvez sim, mas não uma liberdade sem limites. Liberdade interior não significa fazer tudo o que desejamos, significa ampliar nossa capacidade de escolher. Uma pessoa dominada pela raiva não é necessariamente livre para escolher. Uma pessoa dominada pelo medo também pode ter sua liberdade reduzida. Uma pessoa que precisa constantemente da aprovação dos outros pode acabar vivendo de acordo com expectativas que nem sequer são suas, Por isso, despertar a consciência é também recuperar espaços de escolha.

Entre o pensamento e a ação.

Entre o sentimento e a reação.

Entre a crença e a decisão.

Entre o estímulo e a resposta.

É nesse pequeno espaço que a liberdade pode nascer. Equilíbrio não significa ausência de conflito. Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa equilibrada deveria estar sempre tranquila, positiva e emocionalmente estável.

Não.

Equilíbrio não significa não sentir.

Significa aprender a atravessar aquilo que sentimos sem perder completamente a direção. Podemos estar tristes e continuar responsáveis. Podemos estar com medo e continuar caminhando. Podemos estar frustrados e escolher não ferir alguém. Podemos discordar e continuar respeitando. Podemos reconhecer nossas sombras sem permitir que elas definam toda a nossa identidade, e talvez essa seja uma das grandes lições da Saúde Integral: corpo, mente, emoções, relações, espiritualidade e comportamento não existem em compartimentos completamente separados. Quando uma dimensão se desequilibra, as outras podem sentir seus efeitos.

Evoluir não deveria significar olhar para outra pessoa e pensar: “sou mais consciente que ela”. Isso seria apenas o ego encontrando uma nova roupa. Evolução é comparar-se com quem fomos. É perceber uma reação que antes era automática e agora consegue ser observada. É reconhecer uma crença que antes parecia absoluta e hoje pode ser questionada. É pedir desculpas quando antes só existia orgulho. É estabelecer limites quando antes existia medo. É ouvir quando antes só queríamos responder. É escolher diferente quando a vida apresenta novamente um velho padrão. Talvez evolução seja menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre tornar-se consciente do caminho enquanto caminhamos.

Não é necessário abandonar a rotina, buscar experiências extraordinárias ou mudar toda a vida de uma vez.

Comece observando.

1. Pare e respire

Durante alguns minutos, diminua o ritmo e observe sua respiração sem tentar controlar tudo.

2. Dê nome ao que sente

Pergunte:

“O que estou sentindo neste momento?”

Raiva? Medo? Ansiedade? Tristeza? Culpa? Alegria?

Nomear ajuda a criar distância entre você e aquilo que está experimentando.

3. Questione o pensamento

Pergunte:

“Isso é um fato ou é a interpretação que estou fazendo sobre o fato?”

Essa pequena pergunta pode mudar muitas respostas.

4. Investigue suas crenças

Escolha uma frase recorrente:

“Eu não consigo.”

Depois pergunte:

“Quem me ensinou isso?”

“Essa crença ainda faz sentido para a pessoa que estou me tornando?”

5. Observe o ego

Quando alguém contrariar você, antes de responder, pergunte:

“Estou defendendo um princípio ou apenas minha necessidade de estar certo?”

6. Crie um espaço entre estímulo e resposta

Quando algo provocar uma reação intensa, respire antes de responder.

Nem todo impulso precisa virar atitude.

7. Escolha conscientemente

Ao final do dia, pergunte:

“Hoje eu vivi de acordo com meus valores ou apenas reagi às circunstâncias?”

Essa pergunta, repetida diariamente, pode se tornar uma poderosa ferramenta de autoconhecimento.

Talvez despertar a consciência não seja alcançar um estado permanente de iluminação.

Talvez seja simplesmente começar a perceber.

Perceber o pensamento antes de acreditar nele.

Perceber o sentimento antes de reagir.

Perceber o ego antes de defendê-lo.

Perceber a crença antes de obedecê-la.

Perceber o corpo antes que ele precise gritar.

Perceber a fé não apenas como aquilo que dizemos acreditar, mas também como aquilo que orienta nossas escolhas.

No fim, liberdade talvez seja isso: não sermos escravos de tudo aquilo que sentimos, pensamos ou acreditamos. E evolução talvez seja aprender, um dia de cada vez, a colocar consciência onde antes existia apenas automatismo. Porque quando aumentamos nossa consciência, ampliamos nosso discernimento. Quando ampliamos nosso discernimento, ampliamos nossas escolhas, e quando ampliamos nossas escolhas, descobrimos que talvez exista dentro de nós muito mais liberdade do que imaginávamos.

Saúde Integral também é isso: cuidar do corpo, compreender a mente, acolher as emoções, cultivar relações saudáveis, fortalecer a espiritualidade e, acima de tudo, aprender a estar presente na própria vida.

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Aprender a estar sós sem nos sentirmos sós

No artigo de Osíris Lópes Valdéz, o silêncio deixa de ser solidão e se torna o reencontro conosco mesmos

Osiris Lópes Valdéz
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Querido e gentil leitor:

Às vezes confundimos estar sozinhos com nos sentirmos sozinhos. Talvez porque tenhamos aprendido a medir nossa companhia pela quantidade de pessoas que temos ao nosso redor, pelas mensagens que chegam ao telefone, pelas conversas que mantemos ou pela presença de alguém do outro lado da cama. E, no entanto, existe uma solidão que dói e outra que pode nos ensinar a viver de uma maneira completamente diferente.

Estar sozinhos nem sempre significa que nos falte alguém. Às vezes significa que, por um momento, deixamos de buscar fora aquilo que precisamos aprender a encontrar dentro de nós mesmos.

Reconheço que nem sempre é fácil. Quando desaparece o ruído dos outros, também surgem nossos próprios pensamentos. E nem sempre queremos ouvi-los. Há silêncios que nos incomodam porque nos obrigam a fazer perguntas que conseguimos evitar enquanto estávamos ocupados ou acompanhados.

Mas talvez seja aí que começa uma das formas mais profundas de nos conhecermos.

Quando aprendemos a estar sozinhos, começamos a descobrir do que realmente gostamos quando ninguém está dando opiniões. O que queremos quando não precisamos atender às expectativas de outra pessoa. Quais coisas fazemos por desejo e quais fazemos simplesmente por medo de decepcionar, de ficar para trás ou de nos sentirmos diferentes.

A solidão também pode nos ensinar a desfrutar da nossa própria companhia. Sair para caminhar sem precisar de uma conversa. Sentar em um café e observar o mundo. Ler um livro durante horas. Ouvir música. Viajar. Cozinhar para nós mesmos. Pensar. Escrever. Até mesmo passar uma tarde sem fazer absolutamente nada e descobrir que o silêncio também pode ser uma forma de descanso.

Há uma liberdade especial em não precisar que alguém esteja permanentemente ao nosso lado para sentir que nossa vida tem sentido.

Isso não significa que deixemos de precisar dos outros. Eu não acredito em uma vida completamente isolada. Acredito na companhia escolhida.

Com o tempo, também compreendi que existe uma enorme diferença entre escolher a solidão e nos sentirmos abandonados por ela. Uma pode se transformar em refúgio; a outra pode se transformar em uma ferida. Por isso, não se trata de romantizar a ausência nem de dizer que não precisamos de ninguém. Trata-se de aprender a reconhecer quando buscamos companhia porque queremos compartilhar nossa vida e quando a buscamos apenas porque temos medo de ficar a sós conosco mesmos.

E então surge uma pergunta que talvez todos devêssemos nos fazer alguma vez: sabemos realmente quem somos quando não há ninguém nos observando?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais necessárias.

Porque, quando deixamos de ter medo da nossa própria companhia, algo muda. Já não aceitamos qualquer presença simplesmente para evitar o vazio. Já não confundimos estar acompanhados com ser amados. Já não sentimos que devemos permanecer em lugares que nos fazem mal apenas porque temos medo de partir.

Estar sozinhos conosco mesmos é uma oportunidade de nos ouvirmos sem interrupções e de descobrir que dentro de nós existe uma pessoa que talvez tivéssemos passado tempo demais sem ir visitar.

E talvez, querido leitor, aprender a estar sozinhos não seja aprender a viver sem os outros. Seja aprender a viver conosco mesmos o suficiente para que a presença dos outros seja uma escolha, e não uma necessidade.

Porque, quando conseguimos desfrutar da nossa própria companhia, deixamos de ter medo do silêncio.

E então compreendemos algo belo: estar sozinhos nem sempre significa estar sem companhia. Às vezes é, simplesmente, ter aprendido a fazer companhia a nós mesmos.

Osiris Lópes Valdéz

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Acolho-me

Uma jornada poética sobre silenciar a mente, abraçar escolhas e mergulhar na própria essência

Eliana Hoenhe Pereira
Eliana Hoenhe Pereira
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Acolho os meus medos,

os meus desejos.

Abraço as minhas escolhas.

Silencio a mente,

foco nas vivências.

exalo a minha essência,

Seleciono os pensamentos

e busco pelo autoconhecimento.

É sobre “aprender a dançar na chuva”

navegar em mar profundo,

dar significado a tudo.

Pouso onde quero

e se quero exagero!    

Eliana Hoenhe Pereira

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