Conto os dias e as horas para te ver. Já reguei o meu jardim, Em breve as primeiras flores vão aparecer E chamar as borboletas. É primavera outra vez… Eu sei que vais chegar em uma destas tardes De brisa mansa e sombra na varanda, Enlaçar meu corpo feito gavinhas… Conto também as pedras do caminho, E as centelhas que desprendem de meus olhos Ao encontro dos teus… São as luzes que te guiam até mim! Conto mentalmente as curvas de teu corpo, E o palpitar ligeiro dentro do meu peito. Há pouco para entardecer, O sol já se deita sobre as calçadas de pedra, Os terreiros de terra, sobre os verdes prados… Conto as horas enlouquecidas, que escorrem entre meus dedos, Leves, sedentos… sobre a pele encrespada. E assim, o sol vai escondendo-se no horizonte alaranjado. Mais uma vez, rego o meu jardim, E a mesma água que verte de meus olhos ansiosos, Encharca a terra, renova as folhas das hortênsias E abre uma rosa carmim… Apenas uma rosa, de pétalas sedosas e perfumadas, No fim desta tarde azul… Conto o tempo em minutos e segundos, Tropeço nos números, Colho os últimos raios de sol, Que logo se esvaem de minhas mãos, Para repousar atrás dos montes! Eu ainda te espero, Mesmo que seja para os únicos sussurros deste final de tarde, Ou para a infinitude de teus braços, numa noite enluarada!
Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘Mariposas e borboletas’
Sergio DinizImagem gerada com IA do Bing ∙ 23 de setembro de 2024 às 4:30 PM
O centro das cidades, nos dias úteis e no horário comercial, concentra uma quantidade significativa da população que, em sua roda-viva diária, dirige-se ao trabalho, às compras, para realizar algum negócio específico ou, ainda, simplesmente, como alguns aposentados, sentar nos bancos da praça para prosear ou apreciar a movimentação das pessoas.
Eu sempre gostei de andar pelas ruas do centro da minha Sorocaba. Principalmente após a aposentadoria e, com ela, me dedicar exclusivamente à carreira literária.
Uma das vantagens de não precisar mais ‘matar um leão por dia’ ─ prática essa metaforicamente incorreta, aliás! ─ é, justamente, ter a liberdade de se fazer o que mais gostamos. No meu caso, observar as pessoas, tentando captar o que pensam ou sentem. Um verdadeiro trabalho de ‘investigador da alma humana’!
Há algum tempo, comecei a observar uma, em particular. Uma mulher! Postada sempre na mesma esquina, da mesma rua. Todavia, sem qualquer produto visível, supostamente sendo colocado à venda.
Idade imprecisa, nem jovem ou velha, demais.
O corpo, muito longe do que, hoje, parece ser ─ ou fazem-nos acreditar que o seja ─ o ‘ideal’, ditado pela Moda.
As roupas, aparentemente de grife nenhuma e um tanto quanto exíguas, deixando à mostra um pouco mais aquilo que pessoas mais recatadas e conservadoras considerariam ‘aceitável’.
O rosto, carregado com uma maquiagem feita sem arte, talvez por ter sido produzida com produtos baratos ou por pura falta de conhecimentos desse ofício.
O rosto, refletindo um brilho no olhar que me pareceu enigmático, e um sorriso que, num primeiro momento, me pareceu malicioso.
E ali, na mesma esquina, da mesma rua do centro, ela parece mais um detalhe da paisagem urbana. Um detalhe que, provavelmente, poucos notam ou se detêm nele.
O olhar brilhante e o sorriso, misteriosos, maliciosos, porém, aos poucos foram me mostrando que se detinham em algumas pessoas em especial: os homens!
Ao ter essa percepção, finalmente percebi a realidade de sua presença: ela era o próprio produto colocado à venda! E, imediatamente, lembrei-me da primeira vez que ouvi um adjetivo aplicável a esse tipo de mulher: ‘mariposa’!
Mariposa! Mariposa!… Uma mariposa ali, no centro da cidade.
E em plena luz do dia!
Passei, então, a refletir sobre a palavra e do inseto que a representa. E me lembrei de uma aula de Biologia, quando estudávamos os insetos.
As mariposas ─ as de maior tamanho, também conhecidas como ‘bruxas’ ─, fazem parte da ordem científica Lepidoptera, que significa ‘asas escamosas’. O nome deriva das escamas que caem das asas em forma de pó quando tocadas. A maioria delas tem hábitos noturnos.
Lembrei-me, também, que as mariposas têm muito em comum com as borboletas. Ambas fazem parte da mesma ordem científica e começam suas vidas como lagartas famintas antes de se transformarem em suas versões adultas, voadoras. E ambas se alimentam do néctar das flores.
As mariposas e as borboletas, todavia, têm algumas diferenças. Uma delas é o comportamento das mariposas de voar em círculo em torno das luzes (fototaxia), particularmente as artificiais, comportamento esse ainda não totalmente explicado pela ciência.
Ademais, há diferenças, entretanto, de natureza simbólica. A borboleta é considerada o símbolo da transformação, da felicidade, da beleza, da inconstância, da efemeridade da natureza e da renovação. E, para a psicanálise moderna, é o símbolo do renascimento. A mariposa, por sua vez, por ser um inseto geralmente de hábitos noturnos, simboliza a morte, bem como a força destruidora da paixão.
Voltando dessa ‘aula de reminiscências’, observei, mais uma vez, aquela mulher. Olhei mais atentamente para seu rosto. E, de repente, tive a impressão de que aquele olhar ainda detinha um brilho, mas era uma cintilação diferente, distante. E o sorriso já não mais me parecia malicioso, porém, ingênuo.
Nesse momento, parecia que não via mais uma mariposa, mas uma lagarta; uma lagarta que talvez um dia poderia ter escolhido se transformar numa borboleta. Uma borboleta leve, multicolorida, admirada!
E a única luz, em direção à qual voejaria, seria a do sol.
Aquela esquina, daquela rua, seria tão somente um lugar por onde ela passaria e, momentaneamente, pousaria, até que algum transeunte, um poeta a notasse.
Pietro Costa“A ditosa leveza de uma vivência feliz e plena” Imagem criada pela IA do Bing
Multiplico As estrelas do céu por suaves devaneios A ternura feminina pela busca de aconchego As cores das borboletas por poéticos anseios O perfume das flores por afáveis galanteios
Somo O voo da águia-serrana e a vastidão do universo A curiosidade estudantil e os gênios inquietos O molejo próprio do samba e a coragem do afeto A alegria juvenil e a mística que circunda o sexo O chilreio do Curió e a epifania avivada nos versos O brilhante lampejo da ideia e o som de um bolero A magia do trenó e o clarão que traz cura aos cegos A reflexão profunda e o ensejo do diálogo aberto
Subtraio Depressões dissimuladas por ‘emoticons’ e ‘likes’ A aguda dependência por gurus e celebridades Respeitáveis reputações em detrimento da probidade A conversão a ritos sem a ascensão da espiritualidade
Divido A sabedoria rósea, cultivada no solo da experiência, Pelos mistérios dos ventos, em frutos de transcendência A náusea filosófica, na politicagem de conveniência, Pelo magistério dos tempos, em sementes de resiliência
Encontro, como resultado:
A ditosa leveza de uma vivência feliz e plena, Na espiral da quietude, liberdade e outras proezas, Aventuras longas, memoráveis, mágicas, passageiras, Divina, instrutiva, densa, a matemática da PRESENÇA.