Getúlio andava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de Laís, a noiva de feições faceiras e curvas de parar o trânsito. Talvez fosse apenas impressão ou, ao menos, era isso que dona Felícia, a quase sogra, tentava incutir na mente do sujeito.
— Mas, dona Felícia, a senhora tem certeza?
— Getúlio, meu rapaz, você acha que uma filha consegue esconder alguma coisa da mãe?
— Bem… Ela mentiu pra mim, e não foi só uma vez.
Dona Felícia se espichou que nem girafa, lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada, a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude, talvez ele tivesse dito coisa que não devia.
Os minutos seguintes duraram uma eternidade, embora, na conta do relógio na parede, não tivessem chegado a meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesta. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.
— Venha se sentar.
Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante daquela mulher.
— O café tá do seu agrado?
— Tá sim, senhora.
— E os bolinhos?
— Os melhores que já provei.
Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu a voz.
— Pois vou lhe dizer uma coisa muito séria!
Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.
— A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo aquelas que ainda não chegaram a acontecer.
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/8be665a4a504
O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.
Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato.
Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.
O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher.
Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto.
Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.
A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: “Peço a Deus que estique o tempo do senhor!”
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA do Gencraft
Naquela manhã, o cheiro de terra molhada se misturava ao perfume doce das flores do cafezal.
O sol ainda nem havia rompido por inteiro o nevoeiro quando o sino da igrejinha tocou três vezes, pausado, grave, anunciando o que todos já sabiam desde a madrugada: o nonno se fora.
Na casa grande, de paredes caiadas e janelas azuis, o silêncio se estendia como uma colcha pesada.
As mulheres da família — todas de luto antecipado — sussurravam em dialeto italiano, entre orações e prantos contidos.
A morte, naquele tempo, não era espetáculo; era trabalho.
E como todo trabalho no interior, pedia mãos firmes, gestos práticos e respeito profundo.
O corpo do velho Giuseppe foi lavado no tanque do quintal, com água tirada do poço, ainda fria.
Duas mulheres da comunidade, acostumadas a lidar com o “passamento”, vinham sempre ajudar nessas horas.
Uma delas preparava a bacia com folhas de manjericão e alecrim, “pra afastar os maus espíritos”, dizia.
A outra penteava o cabelo branco, alisando-o com um pano úmido, como se quisesse devolver ao rosto enrugado um pouco da dignidade dos tempos de lavoura.
Não havia velório em salão, nem caixão comprado às pressas na cidade. O filho mais velho, o tio Ângelo, cortara a madeira do próprio pai há anos, quando a saúde dele começara a fraquejar.
“Um homem deve estar preparado até pra sua partida”, dizia o nonno, rindo com os dentes manchados de fumo. O caixão fora guardado no paiol, coberto com um lençol e cheiro de milho.
Agora, era trazido para dentro, posto sobre duas cadeiras, enquanto se ajeitava o corpo com o mesmo cuidado que se tem ao preparar o pão antes do forno.
O velório durou a noite toda.
As lamparinas tremeluziam, e o café era passado sem descanso.
Ninguém chorava alto; havia um pudor na dor, um respeito que impedia o desespero.
As pessoas falavam baixo, lembrando histórias de colheitas fartas, de domingos de missa e das longas conversas na varanda.
De tempos em tempos, alguém fazia o sinal da cruz e murmurava: “Que Deus o receba na terra boa”.
As crianças, que não compreendiam bem a morte, espiavam curiosas o corpo imóvel e os gestos das mulheres.
A mãe, com voz firme, dizia: “Não se tem medo, se tem respeito.” E essa frase, dita tantas vezes naqueles dias, se gravava como lição de vida — e de morte.
O cortejo, no dia seguinte, saiu logo após o toque das seis.
O caixão foi colocado sobre a carroça, coberto por um pano branco e enfeitado com ramos de café e flores do quintal.
Não havia banda, nem padre acompanhando.
O padre ficaria à espera no cemitério, onde a terra já estava aberta.
Os homens tiravam o chapéu ao passar e as mulheres juntavam as mãos.
O som das rodas no chão de terra batida parecia um rosário, repetido no compasso das passadas lentas.
O caminho até o cemitério atravessava os cafezais, e o cheiro das folhas, misturado ao orvalho, dava àquela despedida um ar de colheita tardia.
Era como se a terra, que tanto recebera o suor do nonno, agora se preparasse para recebê-lo inteiro, como paga justa de uma vida de trabalho.
No cemitério, as cruzes de madeira se inclinavam ao vento. O padre, de batina gasta, disse as palavras breves, e cada familiar jogou um punhado de terra.
O som surdo dos torrões batendo no caixão parecia o fecho de um ciclo, o último eco de uma vida simples.
Depois, todos voltaram à casa. O café fumegava no fogão a lenha, e o cheiro de pão fresco preenchia o vazio.
Alguém comentou que o céu estava bonito, “cor de café com leite”.
E assim, entre um gole e outro, a vida foi retomando seu curso lento, como o rio que contorna as margens, sem nunca deixar de correr.
Nos dias seguintes, o canto dos galos voltou, os bois foram levados à lavoura, e a rotina retomou seu ritmo.
Mas, ao entardecer, quando o sol se escondia por trás dos cafezais, alguém sempre olhava para o horizonte e dizia baixinho: “Lá vai o nonno, cuidando das plantações do outro lado.”
A morte, ali, não era um fim brusco, mas uma continuidade muda — uma semente enterrada que renascia em memória, em cheiro de café torrado, em reza sussurrada.
E talvez fosse esse o segredo dos tempos antigos: entender que, na simplicidade do rito, havia mais do que despedida.
Havia o reconhecimento de que toda vida, como o café, precisa ser colhida no tempo certo — e devolvida à terra com gratidão.
Acordei. Me vislumbrei sem espelhos, pois já me reconheço ao longe. A luta que carrego se transforma em mais um sorriso matinal. Me sentei para meditar: o relógio diz que são seis da manhã.
“Mas é claro que o Sol vai voltar amanhã Mais uma vez, eu sei…”
Lavo a louça, tomo café, jogo o lixo, lavo a louça. Dou um beijo em meu amor. Arrumo a mochila, oro pelas pessoas que amo. Oro por mim.
“Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã Espera que o sol já vem…”
Tento ser fria, mas sou mais quente que o café que me acolhe. E a cada manhã me faço mais poesia. Desço pelas escadas do eu, me reconecto, leio meus devaneios. O quanto já sofri. O quanto já quis viver o hoje.
“Tem gente que está do mesmo lado que você, Mas deveria estar do lado de lá Tem gente que machuca os outros Tem gente que não sabe amar…”
O amor é a mais bela nuance de um ser humano. Gosto de amar. Quero amar! Nunca soube me amar e por isso me culpo quando tenho um resquício de amor por mim. Minha psicóloga diz que não é egoísmo se priorizar, se amar e se cuidar. Mas continuo achando que o mundo dos outros é de minha responsabilidade.
“Tem gente enganando a gente Veja a nossa vida como está, Mas eu sei que um dia a gente aprende…”
Pus um coração rosa em meu quadro. Sempre que faço um ato de amor-próprio, desenho um coração lá. É um compromisso comigo. Amor-próprio me parecia tão longe. Agora é lei.
“Se você quiser alguém em quem confiar, Confie em si mesmo Quem acredita sempre alcança!”
Ouvi muita coisa nessa vida. Tudo que eu faço parece um fardo para alguém. Mas não quero carregar incômodos alheios nos meus cômodos particulares.
“Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena Acreditar no sonho que se tem…”
Minha vida me é plena…
“Ou que seus planos nunca vão dar certo…”
Mais uma rotina estudantil…
“Ou que você nunca vai ser alguém…”
Lágrimas na hora do almoço. Seco o rosto e vou pra aula.
“Tem gente que machuca os outros Tem gente que não sabe amar…”
Pego a câmera. Treino a fotografia.
“Mas eu sei que um dia a gente aprende…”
Estudar foto é estudar almas.
“Se você quiser alguém em quem confiar, Confie em si mesmo!”
Em quatro anos serei jornalista. Em quatro anos serei comunicadora. Mas talvez eu já seja. Me chamaram de narcisista. Me chamaram de egoísta. Pela primeira vez em toda a minha vida, penso em mim. Respiro e me sinto alegre perante o mundo. O tanto que já me senti um fardo. Amo as pessoas. Amo quem sou. Amar é perigoso em todas as nuances.
Francisco Evandro Farick“Os rios de águas profundas, onde nadava feliz o menino negro”
Ao encerrar sua participação na terra e no leito, ele antes de exalar seu último suspiro ele escreveu: – Nasci um menino sudanês e nas belas e majestosas florestas do meu país eu caçava sempre com as demais crianças de minha aldeia.
Nos rios de águas claras e profundas eu costumava espairecer e isso me dava um imenso prazer, viver daquela maneira como uma criança simples.
Assim costumava ser minha vida e não sabia o que era ser um branco e os mais velhos falavam sempre que era para ter muito cuidado com os brancos.
Certo dia, eu havia ido para caçar com outras crianças da aldeia e após a caça estávamos nos esparrando à vontade e me deliciava em um dos rios que circundavam a aldeia e quando dei por mim já me encontrava preso e manietado por vários brancos junto com outras crianças da mesma aldeia.
Aí começava minha outra fase de vida. Em um porão fétido e extremamente calorento fui posto com as demais crianças que brincavam no rio comigo.
O calor era por demais insuportável e tal local passou a ser por muitas luas minha nova residência oficial. O balanço do barco e o fedor da maresia me faziam vomitar tudo que havia posto e que não colocara no organismo.
Um dos brancos olhava-me e me fazia engolir algumas bolinhas brancas que, com o passar do tempo, percebi que toda vez que isso acontecia eu parava de vomitar e acalmava o meu enjoo. Depois de várias humilhações e muito desespero eu tive o imenso prazer de ver de novo a luz da estrela maior, o dia estava belo e isso me deu uma imensa alegria, porque descobri que ainda estava vivo a despeito de todos os maus tratos.
Muitos de meus amigos foram jogados ao mar porque não haviam conseguido superar tal infâmia de vida. Pouco depois, manietado e amarrado com outras crianças fui posto em exposição em um local que havia muito e muitos brancos e eles nos examinavam e depois de um certo tempo uma linda jovem branca me levou para sua residência.
Lá passei a habitar com várias pessoas de outras línguas, mas que também estavam nas mesmas condições minhas.
A casa era muito grande e logo percebi que todos os brancos me chamavam pelo nome de escravo e como passei a trabalhar de sol a sol me tornei um escravo do meu senhor e do café! Durante 87 anos, palavra que aprendi para contar o tempo, eu vivi naquela casa de sofrimentos e decepções, a despeito de conviver em um belo e majestoso país chamado Brasil.
Deixei dois filhos, netos e netas que me substituíram no plantio e colheita do café; aliás; por falar em café – que bebida gostosa! Hoje, estou às portas da grande escuridão, a espera do anjo da noite chegar! Já o vejo se aproximar de minha cama, mas estou imensamente feliz!
Estou voltando a ser criança, estou voltando para minha liberdade.
Deixei há muito de ser escravo de um senhor muito mal, porque fugi por duas vezes do engenho em que trabalhava, mas passei a ser senhor e escravo do café da minha luta diária para sobreviver e me esconder continuadamente desse senhor perverso.
Porém, como é belo e majestoso para mim, ser novamente uma criança queniana livre e feliz, e veio a falecer.
Como ele era muito conhecido e admirado na Vila, a caminho do seu último adeus, teve muitas pessoas e sentiriam muito sua ausência e uma desses foi um dos seus netos, João Sabino, o qual veio ser sapateiro de profissão e também fazia selas de animais, roupas de vaqueiros e botas de profissão e casou-se com uma mulher branca, loura e muito bonita chamada Rachel Amélia de Souza, cujo pais vieram fugidos da França após a guerra napoleônica e se estabeleceram na Vila de Maranguape.