Joaquim e as cartas

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Joaquim e as cartas’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada por IA do Gemini - 15 de fevereiro de 2026, às 01:27 AM
Imagem criada por IA do Gemini – 15 de fevereiro de 2026,
às 01:27 AM

Joaquim das Couves adorava cartas. Aliás, antes que alguém possa pensar que seu nome era mesmo esse, já lhe digo que não. Chamava-se Joaquim Manoel de Almeida. No entanto, como era dono de uma banca de frutas e legumes na feira, acabou ganhando essa alcunha, que carregava por todos os cantos. Vendia ovos caipiras também. Mas, como já havia o Zé do Ovo bem ali na outra barraca, ficou das Couves mesmo.

           A despeito de couves, cenouras, tomates, alfaces e ovos caipiras, Joaquim gastava seu tempo livre com algo fora de moda. Apaixonado desde sempre por cartas, pegava uma boa quantidade de folhas e danava a derramar um monte de palavras sobre elas. Caprichosamente delineadas, pois não queria causar dúvida ao destinatário quanto aos dizeres. Jota era jota, gê era gê, todos os emes com três perninhas. Quanto aos enes, cabiam-lhes apenas duas. 

           É verdade que quase não mais recebia missivas, mas isso não o desanimava. Final de tarde, o homem se sentava à mesa da sala e, rodeado dos apetrechos necessários, tratava logo de escrever, escrever, escrever. E, caso as ideias lhe faltassem, bebericava o café ao lado, cuidadosamente preparado no antigo coador de pano. Não se sabe se era por hábito ou milagre, mas os pensamentos lhe corriam que nem os caudalosos rios em direção ao mar. 

           De vez em quando, Joaquim consultava aquele calhamaço, que havia ganho de presente de um antigo funcionário dos Correios, em busca de um CEP. Colocava os óculos e os empurrava até a ponta do nariz. Virava as folhas fininhas, enquanto o indicador fazia uma busca até a almejada linha. Pronto! Anotava cuidadosamente no verso do envelope: 90150-002. 

           Às segundas-feiras, dia de folga no trabalho, juntava aquelas dezenas de envelopes e caminhava até a agência dos Correios. Como se tratava de hábito, bem que poderia comprar um monte de selos, colá-los e despachar as cartas numa caixa mais próxima. Não! Fazia questão de esperar na fila e ser atendido por qualquer um dos funcionários. Não importava qual, pois todos o conheciam de longa data.

           — Como vai, seu Joaquim?

           — Oi, Marcos. Tudo bem. E com você?

           — Tudo bem também. Vejo que hoje temos 34 cartas. Parece que o senhor vai ter muita coisa para ler quando receber as respostas.

           Joaquim sorria por hábito. Na verdade, há mais de dois anos não recebia uma carta sequer. De vez em quando, sejamos justos, recebia o telefonema de algum destinatário ou mensagem via algum aplicativo eletrônico. Nada além disso.

           O feirante voltou para casa pelo caminho de costume. Passou no mercadinho da esquina e comprou um pacote de pó de café. Do melhor, praticamente a única extravagância de uma vida tão simplória. 

           Assim que abriu a porta da residência, notou um envelope diferente junto a tantas contas para pagar. Olhos arregalados, pensou que aquilo era um sonho. Não era possível! Uma carta! 

           O homem não reconheceu o nome da remetente. Mas o sobrenome era conhecido. Fabiana Moretti. O endereço era o mesmo do seu amigo de juventude, Bruno, na longínqua cidade natal. Fabiana, certamente, era uma parenta. 

           Joaquim, de tão emocionado, depositou cuidadosamente a missiva sobre a mesa. Foi até a cozinha, colocou água na chaleira. Passou uma boa quantidade de café. Voltou à sala, sentou-se à mesa, despejou o líquido fumegante até a metade da xícara de louça florida. Deu um gole, mordeu o bigode com os lábios trêmulos, respirou profundamente.

           Pegou seus óculos e os colocou como de costume. Com a carta em mãos, abriu cuidadosamente o envelope. Desdobrou as três folhas, como se desembrulhasse um presente há tanto esperado. 

           Já nas primeiras linhas, percebeu que Fabiana era uma das filhas de Bruno. Este, infelizmente, havia falecido há pouco mais de seis meses, após quase dois de ter entrado em coma. Joaquim se sentiu tocado pela partida do amigo, que jamais havia lhe respondido, a não ser por um ou dois telefonemas ao longo dos últimos cinco anos. Algumas lágrimas escorreram pelo rosto enrugado ao ler um trecho da carta.           Sei que o senhor foi muito amigo do meu pai. Como sei disso? Bem, todas as vezes que lia alguma das suas cartas em voz alta, meu pai, mesmo em coma, sorria com lágrimas nos olhos.

Eduardo Cesario-Martínez

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Museu da Língua Portuguesa

Museu da Língua Portuguesa faz formação em método de letramento a partir da escrita de cartas

Ciete Silvério - Projeto DePara durante o Festival Cultura e Pop Rua
Ciete Silvério
Projeto DePara durante o Festival Cultura e Pop Rua

Objetivo é que participantes conheçam a metodologia do projeto DePara e repliquem a ação, que também promove a retomada de vínculos afetivos.

Projeto de escrita de cartas, o DePara tem sido uma ferramenta de aproximação com letramentos e retomada de vínculos e cidadania desde quando foi criado, em 2023.

A fim de fomentar multiplicadores da iniciativa, o Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, promove a formação Método DePara: selar vínculos através da carta.

O público-alvo são pessoas interessadas em conhecer de perto o projeto e replicar a ação em outros grupos e outras realidades.

A atividade vai acontecer nos dias 30 de abril e 2 de maio, presencialmente, na Sala Multiuso do Museu da Língua Portuguesa, das 14h às 17h. Para participar, é preciso se inscrever, gratuitamente, pelo Sympla (clique aqui).

Nos dois encontros, serão apresentados o histórico do projeto DePara, sua metodologia e repercussão junto às pessoas atendidas.

Os encontros serão apresentados pela artista visual e educadora Carmen Garcia, parceira na concepção do projeto, que vai compartilhar sua experiência com esta atividade.

Nos encontros do projeto DePara, mesa, cadeiras e materiais para escrita são colocados na calçada do Museu para estimular as pessoas a se sentar e escrever uma carta.

A atividade tem o apoio de oficineiros e profissionais do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa, realizador da iniciativa.

Professores, psicólogos, assistentes sociais e redutores de danos, entre outros, já participaram do projeto ao longo de sua existência.

No Festival Cultura e Pop Rua, realizado em agosto de 2023, em parceria com o Sesc São Paulo, com correalização da Prefeitura de São Paulo, o DePara ganhou protagonismo.

O projeto teve uma tenda própria, onde pôde apresentar produções desenvolvidas durante os encontros e viabilizar a escrita e envio de dezenas de cartas.

Imagem de destaque da Formação Método DePara.
Imagem de destaque da Formação Método DePara.

SERVIÇO

Formação Método DePara: selar vínculos através da carta
Dias 30 de abril (terça-feira) e 2 de maio (quinta-feira), das 14h às 17h
Inscrição pelo Sympla (clique aqui
Na Sala Multiuso do Museu da Língua Portuguesa
Grátis (haverá a emissão de certificado de participação)

Museu da Língua Portuguesa
Praça da Língua, s/nº – Luz – São Paulo

SOBRE O MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Localizado na Estação da Luz, o Museu da Língua Portuguesa tem como tema o patrimônio imaterial que é a língua portuguesa e faz uso da tecnologia e de suportes interativos para construir e apresentar seu acervo.

O público é convidado para uma viagem sensorial e subjetiva, apresentando a língua como uma manifestação cultural viva, rica, diversa e em constante construção.

O Museu da Língua Portuguesa é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, concebido e implantado em parceria com a Fundação Roberto Marinho.

O IDBrasil Cultura, Esporte e Educação é a Organização Social de Cultura responsável pela sua gestão.

PATROCÍNIOS E PARCERIAS

A temporada 2024 conta com patrocínio da CCR, do Instituto Cultural Vale e da John Deere Brasil; com apoio do Itaú Unibanco, do Grupo Ultra e da CAIXA.

Conta ainda com a parceria das empresas Instituto Votorantim, Epson, Machado Meyer, Verde Asset Management e Paramount Têxteis.

Revista Piauí, Guia da Semana, Dinamize e JCDecaux são parceiros de mídia. A EDP é patrocinadora máster da reconstrução do Museu.

A reconstrução e a temporada 2024 são uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet.

Museu da Língua Portuguesa – Comunicação

Alan Faria | | alan.faria@idbr.org.br – 11 99894 0702

Renata Beltrão | renata.beltrao@idbr.org.br – 11 99267 5447

Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo – Assessoria de Imprensa

(11) 3339-8062 / (11) 3339-8585

imprensaculturasp@sp.gov.br  

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