homemágua – hidropoema em descompasso
Clayton Alexandre Zocarato
‘homemágua – hidropoema em descompasso’


torneira do pensamento
goteja-mente
mente-goteja
um homem se dissolve em copos de silêncio
e bebe a si mesmo
em goles de ontem
azulcrânio
veiafluviária
corposalgado
respirágua
o tempo escorre
pela palma da mão
— ampulheta líquida —
gota
gota
gota
gota
mar
ele é mar
mas esquece de ser onda
no café da manhã
mastiga sede
engole nuvens
e arrota rios interrompidos
plim
plim
plim
notícias pingam na testa do dia
informágua
dadoslíquidos
transparêncifra
um peixe atravessa o pensamento
sem pedir licença
sem pedir pulmão
homem
homágua
aguahomem
omemágua
(des)forma
a palavra evapora
condensa
chove dentro da boca
há desertos no olhar
e oceanos na língua
ele diz:
— sede
mas o som sai:
— cidade
e ninguém percebe
que a garganta é um mapa rachado
beba
beba-se
beba-nos
bebe
até que o corpo
vire verbo
e o verbo
escorra
fim?
não.
ciclo.