A estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato e uma narrativa sensível sobre o tempo, a memória e tudo o que a pressa da vida moderna tenta silenciar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela cidade pequena, onde as ruas ainda pareciam conhecer pelo nome aqueles que passavam por elas, havia uma estrada que começava depois da última casa e desaparecia lentamente entre os cafezais, as árvores antigas e algumas propriedades esquecidas pelo tempo. Não possuía placa, não aparecia nos mapas mais recentes e quase ninguém se lembrava de onde terminava. Os mais velhos diziam apenas que aquela estrada sempre existira, como se tivesse nascido junto com a própria cidade.

            Chamavam-na de Estrada Deserta.

            Não porque fosse completamente abandonada, pois de vez em quando alguém ainda passava por ali com uma carroça, uma bicicleta velha ou uma caminhonete carregada de ferramentas.

             Era deserta porque, segundo os antigos, quem caminhava por ela começava a ouvir coisas que a cidade moderna havia aprendido a silenciar.

            O vento.

            Os pássaros.

            O próprio pensamento.

            E, sobretudo, o coração.

            A cidade havia mudado muito.

            Durante muitos anos, as pessoas deixavam as portas abertas durante o dia. As crianças brincavam nas calçadas até que alguma mãe aparecesse na esquina chamando pelo nome.

            Os homens se reuniam diante da venda depois do trabalho, enquanto as mulheres conversavam nas cadeiras colocadas nas calçadas, comentando a vida dos vizinhos, o preço do café, o casamento de alguém ou simplesmente o tempo.

            Havia pouca riqueza, mas existia uma espécie de abundância que não aparecia nos livros de economia.

            As pessoas tinham tempo.

            Tempo para conversar.

            Tempo para esperar.

            Tempo para visitar um doente.

            Tempo para sentar diante de uma praça e observar a tarde morrer lentamente.

            Com os anos, chegaram as,  máquinas, os telefones inteligentes, os aplicativos, os carros silenciosos, as entregas rápidas e a promessa de que tudo poderia ser feito sem que ninguém precisasse sair de casa.

            A cidade ganhou velocidade.

            Mas perdeu demora.

            E talvez tenha sido justamente a demora que um dia havia permitido que as pessoas se encontrassem.

            Seu Anselmo percebeu isso antes de quase todos.

            Tinha setenta e oito anos e ainda conservava uma pequena oficina de consertos de relógios numa rua próxima à praça central. A oficina era estreita, cheirava a madeira velha, óleo e café passado. Havia relógios pendurados pelas paredes, alguns funcionando, outros parados em horários diferentes, como se cada um guardasse uma pequena morte.

            Seu Anselmo dizia que relógio parado não era relógio quebrado.

            Era memória.

            — O relógio não deixa de existir porque deixou de marcar as horas — costumava dizer.

            Poucos compreendiam.

            Ele também já não fazia questão de explicar.

            Tinha aprendido que certas coisas somente são entendidas quando a vida nos coloca diante delas.

            Todas as manhãs, abria a porta da oficina às oito. Colocava uma cadeira na calçada e esperava os primeiros movimentos da cidade.

            Antigamente, conhecia quase todos.

            Agora conhecia apenas os passos.

            As pessoas passavam olhando para baixo, os olhos presos às pequenas telas luminosas de seus telefones.

            Às vezes, duas pessoas caminhavam lado a lado sem trocar uma palavra.

            Seu Anselmo observava aquilo com tristeza, mas não com raiva.

            Sabia que a modernidade não havia chegado para destruir ninguém.

            Ela simplesmente havia chegado prometendo facilitar a vida.

            E, sem perceber, havia começado a ocupá-la.

            Certa manhã, uma mulher chamada Helena entrou na oficina.

            Tinha pouco mais de quarenta anos e carregava uma expressão de cansaço que não parecia vir do trabalho. Pediu que Seu Anselmo consertasse um relógio de pulso que pertencera ao pai.

— Ele morreu há três anos — disse.

            Seu Anselmo pegou o relógio cuidadosamente.

            — E ele funcionava?

            — Funcionava.

            — Então por que parou?

            Helena ficou alguns segundos em silêncio.

            — Acho que parou quando meu pai morreu.

            Seu Anselmo olhou para ela.

            Não corrigiu.

            Não disse que relógios não possuem sentimentos.

            Apenas abriu a tampa traseira.

            — Às vezes, o mecanismo continua funcionando por algum tempo — falou. —   Mas chega uma hora em que a gente percebe que estava dando corda para uma lembrança.

            Helena sorriu tristemente.

            Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém falava com ela sem tentar resolver sua vida.

            Naquela tarde, ela voltou para buscar o relógio.

            Seu Anselmo havia feito o conserto.

            Quando colocou o objeto no pulso, Helena ouviu o pequeno tic-tac.

            Por alguns segundos, pareceu escutar a voz do pai.

            Não uma voz verdadeira, mas aquela voz que a memória inventa quando sente falta de alguém.

            — Quanto devo?

            — Nada.

            — Como assim?

            — O senhor seu pai já pagou.

            Helena franziu a testa.

            — Pagou?

            — Pagou quando ainda estava vivo. Consertou meu telhado numa época em que eu não tinha dinheiro.

            Ela não se lembrava.

            Talvez porque a memória também seja uma casa cheia de quartos que esquecemos de visitar.

            Helena saiu da oficina olhando para o relógio.

            Na praça, os bancos estavam quase vazios.

            Um homem velho alimentava alguns pombos.

            Uma criança passava de bicicleta.

            Uma senhora atravessava lentamente a rua com uma sacola de pão.

            E por um instante a cidade pareceu voltar a ser aquela que existia antes dos telefones, antes das notificações, antes da pressa.

            Foi apenas um instante.

            Mas alguns instantes são maiores que muitos anos.

            Naquela mesma cidade morava Joaquim, antigo ferroviário.

            A estação havia sido desativada décadas antes. Restava apenas o prédio envelhecido, com suas paredes manchadas e a plataforma tomada por mato.

            Joaquim ainda ia até lá todas as tardes.

            Sentava-se num banco de madeira e ficava olhando os trilhos que já não levavam ninguém.

            Os jovens riam quando passavam.

            — Seu Joaquim espera o trem até hoje?

            Ele respondia:

            — Não espero o trem.

            — Então espera o quê?

            — O que o trem levou.

            Ninguém entendia.

            Talvez nem ele.

            Mas sabia que os trilhos tinham levado mais do que passageiros.

            Tinham levado uma época.

            Antes, quando o trem chegava, a cidade inteira parecia acordar. Havia vendedores, famílias, trabalhadores, estudantes, crianças correndo, malas, despedidas e reencontros.

            O trem era mais do que transporte.

            Era acontecimento.

            Hoje, tudo chegava rapidamente pelos caminhões, pelos aplicativos, pelas estradas asfaltadas.

            Mas nada parecia chegar de verdade.

            Joaquim dizia que uma cidade começa a envelhecer quando suas pessoas deixam de esperar umas pelas outras.

            E talvez tivesse razão.

            Na padaria de Dona Nair, o tempo ainda caminhava devagar.

            Ela acordava antes do sol e preparava o pão como aprendera com a mãe. Não utilizava grandes máquinas. Fazia quase tudo com as próprias mãos.

            A massa era sovada lentamente.

            O café era passado no coador.

            As portas eram abertas cedo.

            E havia sempre alguém sentado à mesa do canto.

            Dona Nair conhecia as histórias de quase todos.

            Sabia quem tinha filho estudando longe.

            Quem estava procurando emprego.

            Quem havia se separado.

            Quem estava doente.

            Quem fingia estar bem.

            Ela dizia que cidade pequena era como família.

            — Todo mundo sabe da vida de todo mundo.

            Depois acrescentava:

            — O problema é que hoje ninguém mais quer saber de verdade.

            O comentário parecia simples, mas carregava uma tristeza profunda.

            Porque saber não é o mesmo que conhecer.

            Hoje as pessoas sabiam onde as outras estavam.

            Sabiam o que comiam.

            Sabiam onde viajavam.

            Sabiam o que compravam.

            Sabiam o que fotografavam.

            Mas não sabiam quando alguém estava triste.

            Talvez a modernidade tivesse criado uma nova forma de solidão: aquela em que ninguém está sozinho, mas quase ninguém está verdadeiramente acompanhado.

            Naquela cidade, havia também Miguel, rapaz de vinte e seis anos, nascido ali, mas com os olhos sempre voltados para longe.

            Trabalhava remotamente para uma empresa de uma grande cidade.

            Passava o dia diante do computador.

            Recebia mensagens de pessoas que nunca havia visto.

            Participava de reuniões em que todos falavam, mas ninguém realmente conversava.

            Morava sozinho num apartamento pequeno.

            Tinha internet rápida, televisão enorme, celular moderno e uma geladeira cheia.

            Mesmo assim, algumas noites jantava sentado no chão porque não havia ninguém para conversar.

            Sua mãe morava duas ruas acima.

            Ele poderia visitá-la em cinco minutos.

            Mas quase sempre dizia:

            — Amanhã eu vou.

            O amanhã tornou-se um lugar onde muitas pessoas enterram seus afetos.

            Um sábado, Miguel decidiu caminhar pela antiga estrada.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez tivesse cansado de olhar para uma tela.

            Talvez estivesse cansado de si mesmo.

            Caminhou pela cidade, passou pela praça, pela antiga estação, pela padaria de Dona Nair e seguiu até o começo da estrada.

            O céu estava avermelhado.

            O campo tinha aquele cheiro úmido das tardes depois da chuva.

            Ao longe, ouviam-se algumas vacas.

            Era estranho perceber que ainda existiam sons que não pediam atenção.

            A estrada seguia silenciosa.

            Miguel caminhou.

            Depois de alguns minutos, encontrou Joaquim sentado à sombra de uma árvore.

            — O senhor vem sempre aqui?

            Joaquim sorriu.

            — Eu poderia perguntar o mesmo.

            Miguel sentou-se ao lado dele.

            Ficaram alguns minutos sem falar.

            Na cidade, o silêncio parecia constrangedor.

            Ali, não.

            Ali o silêncio parecia uma conversa.

            — O senhor não sente falta do trem? — perguntou Miguel.

            — Sinto.

            — Então por que continua vindo?

            Joaquim olhou para a estrada.

            — Porque sentir falta também é uma maneira de continuar amando.

            Miguel ficou quieto.

            A frase permaneceu dentro dele como uma pedra jogada num poço.

            Naquele momento percebeu que passara anos tentando fugir daquilo que sentia.

            Fazia compras para preencher espaços.

            Assistia a filmes para não pensar.

            Trabalhava para não lembrar.

            Conversava virtualmente para não precisar olhar alguém nos olhos.

            Acreditava que estar conectado era estar acompanhado.

            Mas talvez conexão fosse apenas uma palavra bonita para esconder a distância.

            Quando voltou para casa, encontrou sua mãe sentada na varanda.

            Ela segurava uma xícara de café.

            — Você sumiu.

            — Fui caminhar.

            — Sozinho?

            Miguel hesitou.

            — Nem tanto.

            Ela sorriu.

            — Então entrou em alguma estrada?

            — Entrei.

            A mãe levantou-se e foi buscar outra xícara.

            Não perguntou mais nada.

            Algumas mães sabem que certas perguntas precisam esperar.

            Sentaram-se juntos.

            Conversaram por quase duas horas.

            Falaram do pai.

            Da infância.

            Da antiga casa.

            Do quintal.

            Dos vizinhos.

            Da primeira bicicleta.

            Do tempo em que Miguel brincava na rua até anoitecer.

            Ele descobriu que sua mãe ainda guardava uma caixa com seus desenhos de criança.

            Achou engraçado.

            Depois chorou.

            Não sabia exatamente por quê.

            Talvez porque percebesse que havia passado anos procurando novidades quando suas maiores riquezas estavam guardadas em caixas antigas.

            A cidade continuava mudando.

            Novos prédios surgiam.

            Casas antigas eram demolidas.

            A praça recebia novas luminárias.

            A antiga padaria ganhava uma máquina moderna de café.

            A estação permanecia fechada.

            A estrada continuava lá.

            E as pessoas continuavam envelhecendo.

            Seu Anselmo morreu numa manhã de inverno.

            A oficina permaneceu fechada por algumas semanas.

            Na porta, alguém colocou uma pequena fotografia dele sentado na cadeira da calçada.

            Abaixo, uma frase escrita à mão:

            “Consertava relógios, mas entendia de tempo.”

            Helena levou flores.

            Joaquim ficou em silêncio.

            Dona Nair preparou café para todos.

            Miguel apareceu com sua mãe.

            Foi uma despedida simples.

            Sem discursos.

            Sem música.

            Apenas algumas pessoas lembrando de um homem que havia passado grande parte da vida tentando impedir que as coisas desaparecessem completamente.

            Depois da morte de Seu Anselmo, Helena começou a visitar a praça todos os domingos.

            Joaquim passou a conversar mais com Miguel.

            Dona Nair colocou uma mesa maior na padaria.

            Aos poucos, outras pessoas começaram a aparecer.

            Não era um movimento organizado.

            Não havia projeto.

            Não havia aplicativo.

            Era apenas gente sentando perto de gente.

            Uma tarde, alguém levou um rádio antigo.

            Outro trouxe um álbum de fotografias.

            Uma senhora apareceu com uma receita de bolo que aprendera com a avó.

            Um antigo trabalhador da ferrovia levou fotografias da estação.

            As crianças começaram a perguntar sobre os trens.

            Os velhos começaram a contar histórias.

            E a cidade descobriu que memória não é apenas aquilo que ficou para trás.

            Memória também é aquilo que impede o presente de ficar vazio.

            Certa noite, Miguel caminhou novamente pela estrada.

            O céu estava cheio de estrelas.

            Pensou em todas as pessoas que haviam passado por aquela cidade.

            Algumas haviam partido.

            Outras haviam morrido.

            Outras continuavam vivas, mas distantes.

            Talvez a vida fosse uma longa estrada feita de encontros e ausências.

            Ninguém permanece.

            Nenhuma casa permanece exatamente igual.

            Nenhum amor permanece da mesma maneira.

            Nenhuma cidade consegue impedir o tempo.

            Mas isso não significa que tudo seja perdido.

            Há coisas que desaparecem dos olhos e permanecem no coração.

            Miguel entendeu então que a solidão não era simplesmente estar sozinho.

            Era perder a capacidade de reconhecer os outros.

            Era atravessar uma praça cheia de pessoas sem encontrar ninguém.

            Era possuir milhares de contatos e não saber para quem telefonar quando a noite ficava difícil.

            Era ter tudo imediatamente e não possuir ninguém com quem esperar.

            A estrada parecia interminável.

            Miguel continuou caminhando.

            Lembrou-se de Seu Anselmo.

            Do pai de Helena.

            Dos trilhos.

            De sua mãe.

            Da padaria.

            Das fotografias.

            De tudo aquilo que parecia pequeno demais para o mundo moderno, mas grande demais para desaparecer.

            Pensou que talvez o progresso não fosse o inimigo.

            O problema era acreditar que progresso significava abandonar tudo aquilo que nos tornava humanos.

            A tecnologia poderia aproximar distâncias.

            Mas não poderia abraçar ninguém.

            Uma mensagem poderia atravessar continentes em segundos.

            Mas não poderia substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.

            Uma fotografia poderia guardar um rosto.

            Mas não poderia devolver uma voz.

            Um relógio poderia marcar as horas.

            Mas não poderia dizer o que fazer com elas.

            Miguel parou.

            Olhou para trás.

            A cidade estava iluminada ao longe.

            As casas pareciam pequenas estrelas espalhadas sobre a terra.

            Havia carros passando.

            Algumas janelas estavam acesas.

            Talvez alguém estivesse trabalhando.

            Talvez alguém estivesse chorando.

            Talvez alguém estivesse esperando.

            Ele percebeu que, apesar de toda a modernidade, ainda existiam pessoas desejando aquilo que sempre desejaram.

            Ser lembradas.

            Ser escutadas.

            Ser amadas.

            Ser necessárias.

            A estrada deserta não era realmente deserta.

            Estava cheia de ausências.

            Cada árvore guardava uma história.

            Cada curva escondia uma lembrança.

            Cada pedra parecia ter sido pisada por alguém.

            A solidão, pensou Miguel, não nasce apenas quando alguém vai embora.

            Às vezes ela nasce quando deixamos de olhar para aquilo que ficou.

            Na manhã seguinte, ele acordou cedo.

            Não abriu o computador.

            Não pegou imediatamente o telefone.

            Foi até a casa da mãe.

            Bateram café juntos.

            Depois caminharam até a praça.

            Encontraram Helena.

            Dona Nair apareceu com pão quente.

            Joaquim chegou mais tarde.

            Ninguém havia combinado.

            Era assim que antigamente as coisas aconteciam.

            As pessoas simplesmente apareciam.

            E talvez fosse essa a maior diferença entre aquele tempo e o presente.

            Hoje tudo precisava ser marcado.

            Agendado.

            Confirmado.

            Compartilhado.

            Antigamente, algumas coisas simplesmente aconteciam.

            E, quando aconteciam, ninguém precisava fotografar.

            Bastava viver.

            Ao meio-dia, Miguel voltou para casa pela mesma rua de sempre.

            Mas alguma coisa havia mudado.

            Não na cidade.

            Nele.

            A estrada continuava deserta.

            A estação continuava abandonada.

            Os relógios continuavam marcando horas diferentes.

            As casas continuavam envelhecendo.

            As pessoas continuavam partindo.

            Nada havia sido consertado.

            E talvez essa fosse a verdade mais difícil de aceitar.

            A vida não conserta tudo.

            Algumas coisas permanecem quebradas.

            Algumas ausências nunca deixam de doer.

            Algumas estradas não conduzem a lugar algum.

            Mas mesmo uma estrada sem destino pode ensinar alguém a caminhar.

            E talvez o sentido da vida não esteja em chegar.

            Talvez esteja em não atravessar o caminho completamente sozinho.

            Naquela noite, Miguel desligou o telefone.

            Abriu a janela.

            Ouviu o vento.

            Por alguns minutos, não fez nada.

            Apenas escutou.

            A cidade estava silenciosa.

            Muito longe, um cachorro latiu.

            Uma motocicleta passou.

            Uma porta se fechou.

            Depois, novamente, o silêncio.

            Miguel sorriu.

            Não porque tivesse encontrado uma resposta.

            Mas porque finalmente compreendera que talvez não precisasse de uma.

            O coração também possui suas estradas.

            Algumas são iluminadas.

            Outras desaparecem na escuridão.

            Há caminhos que seguimos por amor.

            Outros por medo.

            Alguns por necessidade.

            E existem aqueles que percorremos simplesmente porque não sabemos para onde ir.

            A estrada deserta continuaria ali.

            Esperando os passos daqueles que ainda tivessem coragem de caminhar sem pressa.

            Talvez um dia alguém encontrasse uma velha placa caída no mato.

            Nela estaria escrito apenas:

ESTRADA DESERTA DO CORAÇÃO.

            E talvez essa pessoa sorrisse.

            Porque descobriria que toda cidade possui uma estrada assim.

            Um lugar onde o passado não morreu completamente.

            Onde as vozes dos antigos ainda atravessam o vento.

            Onde a infância continua escondida atrás de uma árvore.

            Onde um trem inexistente ainda parece chegar nas tardes de domingo.

            Onde o cheiro de café lembra uma casa que já não existe.

            Onde uma fotografia antiga consegue fazer alguém chorar.

            E onde a solidão, por alguns instantes, deixa de ser ausência e transforma-se em memória.

            Porque talvez seja isso que nos resta quando o mundo corre depressa demais: Parar.

Olhar.

Lembrar.            

E reconhecer que, apesar de todos os caminhos modernos, ainda precisamos uns dos outros para atravessar a estrada deserta do coração

Clayton Alexandre Zocarato

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O inusitado dentro do coletivo

O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma foto tirada dentro de um ônibus urbano em movimento. No lado esquerdo, um jovem casal está se beijando apaixonadamente no assento, com o homem segurando a mulher no colo. No lado direito, uma mulher sentada ao lado da janela ri, cobrindo a boca com a mão, enquanto olha para o casal. Outros passageiros são visíveis ao fundo, e uma rua da cidade pode ser vista pelas janelas.
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Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Um dia na vida real

Um retrato cru da era digital, do desemprego e do silêncio na Avenida São João, por Evani Rocha

Evani Rocha
Evani Rocha
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Deita novamente no sofá, estica as pernas, levanta e aumenta a velocidade do ventilador de teto. Vai até a janela, puxa a cortina veneziana, olha a rua. O sol escaldante brilha no asfalto preto. Os carros se enfileiram no sinaleiro. Imagina o calor que os transeuntes devem estar sentindo. Vai até a geladeira, abre a porta, sente necessidade de comer algo, de preferência doce. Não está com fome. Começa abrindo os vários potes de plástico… quem sabe encontra algo interessante. Abre um, dois, três e, dessa vez, achou um pedaço de goiabada esquecido numa lata de sorvete.  Pensa rápido: ‘Acho que goiabada não estraga…’ Procura por um creme de leite, lógico, daria uma boa incrementada naquele achado. Oba! Encontrou na porta da geladeira em meio à algumas garrafas e potes com coisas não identificadas. Apanhou a caixa, balançou; tinha um restinho. Olhou a data. Estava vencido. Pensou novamente: ‘Creme de leite estraga…’. Resolveu deixar de lado. Ficou só com a goiabada mesmo.

Foi até ao armário da cozinha, abriu a segunda gaveta; os talheres estavam muito misturados. Mexeu, mexeu e finalmente encontrou um garfo. Espetou-o no pedaço de doce e jogou a lata dentro da pia, de qualquer jeito. Uma pilha de louça suja, saía para fora da cuba. Foi até ao sofá, deitou-se e recostou-se confortavelmente nas almofadas amassadas. Começou a degustar o doce. Seus olhos passeavam pelo ambiente. Seu cérebro processava, processava…reparou o lustre caindo, pendurado apenas por um fio, lembrou-se também da lâmpada queimada. Pegou novamente o celular. Passou rapidamente pelas redes, viu alguns vídeos e pulou vários. Abriu o Instagram, nenhuma novidade há vinte minutos. Começou a repassar algumas conversas antigas no WhatsApp. Ninguém havia falado com ele nas últimas seis horas. 

O doce acabou. Pôs o garfo sobre a mesinha de centro, juntamente com três copos sujos, que ali jaziam há pelo menos três dias. Continuou mexendo no celular. Nada lhe apetecia. Jogou-o no sofá; sentou-se. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha necessidade fisiológica. Enquanto se olhava no espelho, processava, processava…pensou em fazer a barba, talvez cortar um pouco os cabelos. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas. Abriu a torneira da pia, enxaguou a boca, jogou água no rosto. De súbito ouviu um apito no celular, enxugou o rosto e correu para o sofá. Apanhou o celular, viu que havia uma mensagem nova no WhatsApp.

Um amigo perguntou se ele estava bem, porque estava sumido!? Teve vontade de responder que estivera muito ocupado, com muito trabalho…processou. Resolveu gravar um áudio; assim poderia explicar melhor. Começou a gravar: ‘Que nada, cara, estou sempre por aqui, sabe como é, as coisas estão difíceis, estou levando currículo em vários lugares…aguardando ser chamado em algum!’ Preferiu dizer a verdade. Não gostaria de aumentar seus problemas cometendo o primeiro pecado capital. 

Ficou à espera de que o amigo continuasse a conversa, mas nada, o aplicativo mostrava ‘mensagem não visualizada’. Processava, processava…Chegou à conclusão de que o amigo era só mais um daqueles que dizem: ‘Olha, você sabe como te considero, cara, se precisar de alguma coisa, é só falar!’. Estava cansado dessa hipocrisia disfarçada de amizade. Lembrou que sua conta bancária estava praticamente no vermelho; tinha que economizar o máximo que pudesse, pois não havia mesmo com quem contar. Também, lá se vão sete meses desempregado. Levantou-se novamente do sofá. Andou pela sala em círculos por algumas vezes. Processava, processava…o celular na mão, de segundo em segundo, passava por todos os aplicativos e redes sociais que frequentava. Nada, nada, nada…pensou que estava com ranço dessa tal tecnologia…

Foi até a geladeira pela enésima vez, agora não procurou comida, pois já sabia que seria em vão. Pegou uma garrafa de plástico transparente com água, procurou por um copo limpo, viu que toda a louça que tinha estava suja dentro da pia, pensou que não ligava para isso, pegou um copo de vidro com um resto de líquido escuro e jogou fora. Era certamente resquício do café fraco feito pela manhã daquele dia. Tomou a água em um só gole. Voltou à sala, rodou o dedo novamente nos aplicativos e redes sociais. Olhou a mensagem enviada ao amigo: ‘Não visualizada’. Processou, processou…Tinha certeza de que o tal amigo fingiu que não viu a mensagem. Pensou: ‘Ninguém quer se comprometer…’

Foi até a janela novamente. O sol já havia abaixado. Dali a pouco seria noitinha. Talvez saísse para dar uma volta com Leocádio, seu cãozinho poodle. Por pensar em Leocádio, atentou-se que por horas não o via. Deu uma volta no pequeno apartamento. Olhou pela sala e cozinha e foi até seu quarto. O cãozinho dormia o sono dos deuses sobre seu edredom, embolado. Suspirou aliviado e pensou que pelo menos alguém conseguia dormir naquela casa. Com o celular na mão, foi novamente até a janela da sala. Olhava as pessoas passando apressadas sobre a calçada estreita, pensou que certamente a maioria delas estava indo ou voltando do trabalho. Teve vontade de gritar, sabe-se lá o quê. Chamar um nome aleatório.

Mas quem iria ouvir um chamamento do terceiro andar daquele prédio antigo da avenida São João, se o barulho do trânsito era insuportável. Olhou novamente o celular. Processou, processou, processou… Nada de novo, nem uma mensagem, nem uma curtida na última foto postada…, ninguém falou com ele nas últimas duas horas. Exceto o tal amigo, que não tinha tempo para responder à mensagem.

Evani Rocha

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Genuíno, o sincero

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Genuíno, o sincero’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Genuíno Lhano é o que se pode chamar de homem peremptório. Sim, isso mesmo! Direto como uma flecha, não fazia rodeios para dizer o que tinha que dizer. Ou, como gostava de falar o seu amigo, o Juarez, Genuíno falava o que era para ser falido, dizia o que era para ser dizido. Seja com português rebuscado ou inventado pela sabedoria popular, esse homem diz o que pensa, mesmo que nem sempre pense o que fala. 

    Histórias não faltam sobre esse homem quase octogenário que não faz rodeio nem para montar cavalo xucro, caso seja necessário. Uma delas aconteceu justamente na primeira vez que viu o Augustinho, o primogênito da dona Augusta e do seu Augusto, os então novos moradores do bairro Menino Deus, na linda e acolhedora Porto Alegre. 

    O jovem casal, orgulhoso do seu herdeiro, passeava com aquele bebê de apenas seis meses. Os moradores paravam para elogiar aquela coisa mais fofa do mundo. Dona Lídia, uma das mais antigas, fez questão até de tascar um baita beijo naquelas bochechas rosadas. Nem a marca do batom vermelho pareceu incomodar os pais do menino. Na verdade, os dois pareciam acreditar que mereciam tudo aquilo, tão certos que estavam de que o pequeno Augustinho era mesmo um príncipe de tão lindo. 

        Nisso, eis que surgiu o Genuíno, que não entendeu o porquê daquela algazarra em volta daquele carrinho de bebê. Curioso, foi até lá, quando a Alzira lhe sorriu ao mesmo tempo em que apontou para o Augustinho. 

        — Vem ver, Genuíno! Vem ver esse menino mais lindo do mundo!

        O velho se aproximou do grupo e, finalmente, olhou olho a olho pro Augustinho. Para falar a verdade, bem que ele quis permanecer calado, dar as costas e ir embora. Mas foi impedido pela Alzira, que, eufórica, queria porque queria a opinião do Genuíno. O velho torceu a cara e acabou causando um mal-estar, que poderia ter virado até caso de polícia, caso o seu Valdo não interviesse.

    — Por que viraram o piá do avesso?

    Esse reboliço foi assunto no bairro durante os próximos anos, até que o Augustinho, já com seus quase 8, estava jogando bola na quadra em frente ao cachorródromo do Tesourinha. Chuta daqui, chuta dali, eis que um bicudo mais forte fez com que a bola ultrapassasse a grade e fosse parar justamente aos pés do Genuíno. 

    O idoso, que estava acompanhado do velho Ludo, um vira-lata de pelo rasteiro, fez questão de demonstrar suas habilidades futebolísticas, que não eram muitas. Agachou-se com certa dificuldade, pegou a bola e tentou devolvê-la com um chute. Sem sucesso, pois ela caiu no gramado do cachorródromo, bem ao lado da grade. Foi até lá e, com mais um esforço, conseguiu jogá-la do outro lado. Augustinho, já com a bola nas mãos, agradeceu o velho pela generosidade. O velho sorriu e disse uma coisa que o menino não entendeu.

    — Você ficou bem melhor depois que te reviraram.

    Parece que tal interlúdio foi parar nos ouvidos da dona Augusta, que, até aquele momento, guardava certa mágoa do Genuíno. Todavia, todo esse rancor de anos havia chegado ao fim. Na verdade, a mãe do Augustinho passou até a ser uma defensora do velho, que ainda guardava alguns desafetos no bairro. Tanto é que, certo dia, a dona Augusta resolveu fazer uma visita para o Genuíno. Sem saber o que levar, colheu algumas pimentas no jardim. Colocou-as cuidadosamente numa vasilha e, já na calçada, percebeu que o velho acabara de entrar em casa.

    Dona Augusta caminhou até a residência do Genuíno, tocou a campainha. Logo o velho surgiu. Ela, para desfazer qualquer mal-entendido, sorriu com todos os dentes, ao mesmo tempo em que cumprimentou o vizinho. Trocaram algumas palavras com promessas de uma visita para um café daqui a alguns dias. Nisso, a mãe do Augustinho se lembrou das pimentas e entregou o potinho para o mais sincero dos homens.

    — São para o senhor. 

    — O que é isso?

    — Ah, são pimentas do meu jardim. Eu que plantei.

  — Muito agradecido, minha filha. Mas as minhas hemorroidas não me permitem tal extravagância.

Eduardo Cesario-Martínez

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Diário de um Bobo

Entre risos e verdades, Koringa transforma o cotidiano em arte e reflexão

Diário de um Bobo. Entre risos e reflexões Crônicas do cotidiano
Diário de um bobo

Radialista, artista e eterno bobo da corte, Hilton Rufino reúne em livro um olhar bem-humorado e sensível sobre o dia a dia.

Há quem transforme histórias da vida em espetáculo.

Hilton Luiz Rufino, conhecido pelo público como Koringa, o Bobo da Corte, é desses artistas que fazem do riso uma ponte… e do humor, uma forma de dizer verdades.

Hilton Ruffino , o Koringa
Hilton Ruffino, o Koringa

Com uma trajetória que atravessa décadas, Hilton Rufino construiu sua carreira levando alegria por onde passa.

Radialista formado em Comunicação Social, palhaço, mágico e animador de palco, ele atua desde 1989 encantando públicos de todas as idades com apresentações que misturam música, brincadeira, interação e, claro, muito humor.

Radicado em Indaiatuba desde 1997, Koringa se tornou uma figura conhecida e querida na cidade e região, participando de eventos, projetos culturais e ações sociais que marcaram gerações.

De festas infantis a eventos corporativos, de programas de rádio e televisão a festivais internacionais, como sua participação em Cuba, em 2023, sua arte sempre esteve presente, levando leveza e conexão.

Mas, para além dos palcos, existe também o olhar observador.

A ideia do livro nasce justamente desse outro espaço: das palavras.

A partir de colunas semanais escritas para jornais da região, Hilton reuniu textos que, juntos, formam uma obra que reflete o cotidiano com humor e sensibilidade.

Inspirado na figura medieval do bobo da corte, aquele que, por meio da leveza, conseguia dizer verdades desafiadoras, o autor constrói uma narrativa que diverte, mas também faz pensar.

É um humor que não é vazio.

É um humor que observa, traduz e, muitas vezes, revela.

Com linguagem acessível e um olhar atento aos detalhes do dia a dia, o livro se torna um convite para enxergar a vida por outra perspectiva mais leve, mais humana e, quem sabe, até mais verdadeira.

Entre risadas e reflexões, Koringa nos lembra de algo essencial: Às vezes, é no riso que encontramos as verdades mais profundas.

E talvez seja justamente essa a maior arte, transformar o cotidiano em algo que toca, diverte… e permanece.

REDES SOCIAIS DO AUTOR

DIÁRIO DE UM BOBO

SINOPSE

Mais do que um registro de época, a obra é um mosaico de instantes vividos entre 2019 e 2021, onde humor e crítica caminham juntos, revelando que, às vezes, rir é a forma mais lúcida de compreender a realidade.

Um livro leve, humano e provocador, que mostra que o bom humor pode ser também uma forma de sabedoria.

OBRA DO AUTOR

Diário de um bobo. Entre risos e reflexões Cronicas do cotiadiano
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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Hoje eu sonhei com você

Paulo Siuves: Poema ‘Hoje eu sonhei com você’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem gerada pela IA do Bing – 10 de março de 2026, às 12:34

Hoje eu sonhei com você.

E você jamais saberá disso,

a menos que tropece neste poema.

Sonhei — e foi bom — de um jeito simples,
como quem encontra abrigo numa varanda

enquanto a tarde desmancha.

Acordei sorrindo, sem pressa,

com a sensação de que o mundo, por um instante,

tinha se alinhado ao que eu queria sentir.

Não importa o que fizemos.
Nem o que dissemos.
Amor, nós não fizemos.

Ficamos vestidos, inteiros, leves,
como duas brasas que preferem o calor contido
ao incêndio.
Rimos. Flertamos.
E havia ali algo maior
do que o cotidiano comporta,
um brilho que não cabe
na claridade comum dos dias.
Foi bonito. Tão bonito
que quase doeu ao despertar.

Mas eu não vou te contar.
Não direi que sonhei,
que gostei,
que por segundos desejei
que tudo tivesse sido real.

Guardo o sonho comigo,
como se fosse uma garrafa de água fresca
que não se divide,
porque minha sede
não acabou no sonho.

Paulo Siuves

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Entre o meu amor que celebra e o meu país que chora

Paulo Siuves

‘Entre o meu amor que celebra e o meu país que chora’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
magem criada por IA da GEmini - 05 de dezembro de 2025, às 14:10 PM
Imagem criada por IA da GEmini – 05 de dezembro de 2025,
às 14:10 PM

No primeiro dia de dezembro, minha casa acorda com uma alegria que não precisa de aviso nem preparo. É o aniversário da minha esposa. Desde que Delaine chegou, essa data acende uma luz diferente no nosso cotidiano, como se o dia viesse embalado em delicadeza própria. Ela sempre desperta achando que algo bom vai acontecer; e eu, mesmo sem prometer nada, quase sempre deixo acontecer.

 No dia seguinte, é a vez do aniversário da minha filha. E essa coincidência, que o calendário poderia ter distribuído de forma banal, virou um laço bonito entre elas. Já improvisamos mesas às pressas, comemoramos em dobro, rimos misturado, acendemos velas de aniversário que pareciam iluminar o mesmo sopro de alegria. Não foi o tempo que construiu isso. Foi a convivência. Foi a escolha. Foram os gestos que se reconhecem.

 Delaine entrou na vida das minhas filhas como quem chega com a alma aberta. Nunca quis ocupar o lugar de ninguém, nunca desejou disputar sombra nem afeto. Disse, desde o início, que não seria a madrasta má das histórias, que seria uma presença honesta. Alguém que acompanha, que orienta, que partilha. E Kenya e Kelly a acolheram com amizade verdadeira. Ver esse vínculo crescer é um privilégio silencioso. Há beleza em testemunhar três mulheres que não precisavam, mas escolheram construir cuidado.

 Tenho meus modos próprios de celebrar. Não gosto de um amor que vire protocolo, nem de transformar afeto em checklist anual. Mas Delaine sempre espera o café da manhã na cama. Às vezes eu levo, às vezes surpreendo de outro jeito. E essa espera diz mais sobre nós do que qualquer gesto planejado. Entre filhos, netos e a ausência que 2019 me deixou quando perdi minha mãe, minha família é tudo o que eu tenho. Tudo o que eu sou.

 Talvez por isso os acontecimentos desta semana tenham me atravessado com tanta força.

 Como compreender que uma simples linha de anzol seja suficiente para um homem atirar a própria esposa aos tubarões? E pior: como entender que ele faça isso duas vezes? Como aceitar que alguém arraste uma mulher pela Marginal Tietê como se ela fosse objeto? Ou que um influenciador, conhecido por ensinar ‘postura’, seja preso por agredir justamente a mulher com quem divide a casa?

 O que me assusta não é apenas a violência em si, mas a banalidade que a antecede. A rapidez com que a frustração vira ódio. A facilidade com que um cotidiano se transforma em risco. O instante em que um parceiro se converte em algoz. O amor que prometeu cuidar é o mesmo que tenta destruir. Não há lógica que dê conta disso. Não consigo imaginar nenhuma das mulheres da minha vida passando por algo semelhante. Só de supor, o pensamento se torna insuportável, porque ele dói antes mesmo de existir.

 Enquanto celebramos aniversários aqui em casa, os números do país contam outra história. Crescem as perseguições, a violência psicológica, as ameaças que antecedem o feminicídio. São estatísticas que parecem frias, mas ali estão registradas as horas que antecedem o tapa, o silêncio que precede o grito e o medo que anuncia o fim.

 E talvez seja exatamente aqui que os dois mundos se cruzem: o íntimo e o social.

 Porque amar as mulheres da minha família me obriga a olhar também para as que não têm quem as ampare, para as que convivem com o perigo dentro de casa e para as que talvez nem alcancem o próximo aniversário. Ser homem, para mim, nunca foi sinônimo de força física; é sinônimo de responsabilidade. Responsabilidade de não tolerar machismo, de não normalizar insultos, de criar filhos decentes, de apoiar autonomia e independência feminina. Proteção não é posse. É permitir que cada mulher caminhe com liberdade.

 No próximo ano, quando eu preparar o café da manhã para Delaine, seja na cama ou não, vou saber que o gesto carrega outra intenção. Não apenas celebrar sua vida, mas reafirmar que cada vida feminina merece continuidade. Em um país onde tantas mulheres não chegam ao dia seguinte, cada aniversário que comemoramos é também um manifesto silencioso. Que nenhuma mulher precise sobreviver para merecer o próprio amanhã. Porque, no fim das contas, garantir que ela amanheça viva é o mínimo que um país decente deveria entregar.

Paulo Siuves

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