Geometria da redenção macabra

Clayton Alexandre Zocarato

Conto: ‘Geometria da redenção macabra’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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“Há homens que procuram a salvação como quem procura uma saída. Outros
descobrem, tarde demais, que a saída era apenas mais um corredor.”
(C. A. Zocarato)

Quando o velho Aristeu completou sessenta e sete anos, decidiu desenhar um quadrado.

Não uma casa.

Não um mapa.

Não um projeto.

Um quadrado.

Passou horas diante da mesa, observando o papel vazio como um sacerdote contempla um altar abandonado. A mão tremia. Os olhos ardiam. 

A vida inteira lhe pesava nos ombros como uma biblioteca construída com pedras.

Finalmente traçou quatro linhas.

Perfeitas.

Quatro limites.

Quatro fronteiras.

Quatro prisões.

Sorriu.

E chorou.

Naquele instante compreendeu algo que a maioria dos homens jamais percebe: toda existência humana é uma tentativa desesperada de desenhar formas geométricas sobre o caos.

O casamento.

A carreira.

A religião.

A moral.

A pátria.

A identidade.

Tudo não passava de linhas imaginárias riscadas sobre um universo que jamais pedira organização.

Você, leitor, talvez não goste dessa ideia.

Talvez prefira acreditar que sua vida possui um centro.

Uma finalidade.

Uma direção.

Mas responda sinceramente:

Quantas vezes você mudou de opinião?

Quantas vezes traiu os próprios princípios?

Quantas vezes chamou de verdade aquilo que depois chamou de erro?

O que mudou?

O mundo?

Ou apenas o desenho que você fazia dele?

Aristeu sabia.

Sabia porque carregava cadáveres dentro da memória.

Não cadáveres físicos.

Piores.

Cadáveres morais.

Os amigos abandonados.

Os amores destruídos.

As covardias justificadas.

As oportunidades assassinadas pela preguiça.

Cada erro era um ponto.

Cada culpa era uma linha.

Cada arrependimento acrescentava um novo ângulo à arquitetura secreta da alma.

Foi então que começou a construir sua geometria.

Durante meses, isolou-se.

Os vizinhos acreditavam que estivesse enlouquecendo.

Talvez estivesse.

Mas existe uma diferença entre o louco e o filósofo.

O louco acredita ter encontrado respostas.

O filósofo descobre perguntas.

E Aristeu estava afogado nelas.

Desenhava círculos.

Triângulos.

Espirais.

Poliedros impossíveis.

Cada figura representava um pecado.

Cada vértice representava uma escollha.

Cada linha simbolizava uma consequência.

Com o tempo percebeu algo perturbador.

Nenhuma figura era perfeita.

Todas possuíam falhas.

Pequenas deformações.

Assim como os seres humanos.

Assim como a própria moral.

Afinal, quem inventou o bem?

Quem definiu o mal?

Quem distribuiu certificados de virtude?

Os vencedores?

Os sacerdotes?

Os políticos?

Os mortos?

Você já pensou nisso?

Ou apenas repetiu as respostas que herdou?

A sociedade produz certezas da mesma forma que uma fábrica produz parafusos.

Em série.

Sem reflexão.

Sem profundidade.

Sem alma.

Aristeu percebeu que havia passado décadas vivendo segundo fórmulas que nunca examinara.

Era um homem educado.

Honesto.

Respeitável.

Mas também era um escravo.

Como quase todos.

Escravo de opiniões.

De expectativas.

De medos.

Principalmente de medos.

Numa madrugada de inverno encontrou um velho livro numa estante esquecida.

As páginas estavam amareladas.

Cheiravam a poeira e fracasso.

Leu uma frase que mudou tudo:

“A redenção não é apagar os erros. É compreendê-los.”

Fechou o livro.

Permaneceu imóvel.

Horas.

Dias.

Talvez anos espirituais tenham passado naquele silêncio.

Porque compreendeu uma verdade aterradora.

A humanidade construiu uma religião da absolvição.

Todos querem ser perdoados.

Ninguém quer ser compreendido.

Nem compreender.

Querem lavar as mãos.

Limpar o currículo moral.

Apagar manchas.

Como crianças que escondem sujeira debaixo do tapete.

Mas o universo não esquece.

A consciência não esquece.

A memória não esquece.

O passado é um arquiteto paciente.

Constrói silenciosamente os corredores pelos quais caminharemos amanhã.

Aristeu então abandonou a busca pelo perdão.

Passou a buscar entendimento.

E foi aí que começou sua redenção macabra.

Macabra porque exigia encarar os monstros.

Não os monstros externos.

Esses são simples.

Os monstros internos.

Os mais perigosos.

A inveja disfarçada de justiça.

A vaidade fantasiada de humildade.

O egoísmo vestido de amor.

A covardia escondida atrás da prudência.

Você conhece esses monstros?

Claro que conhece.

Talvez esteja alimentando um deles agora.

Talvez ele esteja lendo este texto através dos seus olhos.

Aristeu descobriu que o ser humano possui um talento extraordinário para mentir.

Principalmente para si mesmo.

Nenhum mentiroso é tão eficiente quanto a própria consciência tentando preservar sua autoimagem.

A alma fabrica desculpas como uma máquina produz fumaça.

Sem parar.

Sem descanso.

Sem vergonha.

Por isso a verdade é rara.

Ela exige sacrifício.

Exige mutilação.

Exige coragem.

A verdade não conforta.

A verdade opera.

Sem anestesia.

Os anos passaram.

As paredes da casa estavam cobertas por diagramas.

Milhares deles.

Quem entrasse ali acreditaria ter encontrado um laboratório secreto.

E de fato havia encontrado.

O laboratório da condição humana.

Cada figura representava uma conclusão.

Cada conclusão destruía uma ilusão.

Cada ilusão destruída aproximava Aristeu de algo que ele chamava de centro.

Não o centro geométrico.

O centro existencial.

O núcleo obscuro onde habitam nossas contradições.

Foi então que percebeu a maior descoberta de sua vida.

O ser humano não busca felicidade.

Busca distração.

Felicidade exige presença.

Distração exige apenas movimento.

Observe as multidões.

Correndo.

Comprando.

Consumindo.

Postando.

Acumulando.

Competindo.

Fugindo.

Sempre fugindo.

Mas de quê?

Da pobreza?

Da morte?

Do fracasso?

Não.

Fogem do encontro consigo mesmas.

O silêncio tornou-se o último terror moderno.

Porque no silêncio surgem perguntas.

E perguntas são mais perigosas que armas.

Na noite de seu aniversário de setenta anos, Aristeu terminou a obra.

Era uma figura gigantesca.

Formada por milhares de linhas.

Uma estrutura tão complexa que parecia impossível compreendê-la.

No centro havia apenas um ponto.

Um único ponto.

Nada mais.

Nenhuma explicação.

Nenhuma legenda.

Nenhuma resposta.

Apenas um ponto.

Sorriu novamente.

O mesmo sorriso do primeiro quadrado.

Sentou-se diante da figura.

Permaneceu observando-a até o amanhecer.

Então compreendeu.

Toda sua geometria apontava para aquele centro.

Todos os fracassos.

Todas as vitórias.

Todos os arrependimentos.

Tudo convergia para um único lugar.

A consciência.

O tribunal que jamais fecha.

O juiz que jamais dorme.

A testemunha que jamais desaparece.

A verdadeira redenção não estava fora.

Nunca esteve.

Nenhuma instituição poderia concedê-la.

Nenhuma ideologia.

Nenhuma autoridade.

Nenhum guru.

Nenhum profeta.

A redenção nascia quando o homem abandonava a mentira sobre si mesmo.

Somente isso.

Nada mais.

Nada menos.

Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram a casa vazia.

Aristeu havia desaparecido.

Nenhuma carta.

Nenhuma despedida.

Nenhum corpo.

Nenhum vestígio.

Somente a imensa figura geométrica cobrindo as paredes.

Durante décadas, estudiosos tentaram interpretá-la.

Fracassaram.

Matemáticos.

Filósofos.

Psicólogos.

Teólogos.

Todos fracassaram.

Porque procuravam respostas.

E a obra não continha respostas.

Continha espelhos.

Quem a observava enxergava apenas a si mesmo.

Como acontece com toda grande filosofia.

Como acontece com toda grande literatura.

Como acontece com a própria vida.

Agora chegamos ao fim desta história.

Ou talvez ao início.

E resta uma pergunta.

A única que realmente importa.

Se sua vida fosse transformada numa figura geométrica, que forma ela teria?

Um círculo de repetições?

Um triângulo de conflitos?

Uma espiral de desejos?

Um labirinto de desculpas?

Ou uma prisão construída pelas próprias mãos?

Pense com cuidado.

Porque um dia todas as linhas que você traçou se encontrarão.

Todos os ângulos convergirão.

Todas as máscaras cairão.

E quando isso acontecer, não haverá público.

Não haverá aplausos.

Não haverá seguidores.

Não haverá títulos.

Não haverá currículos.

Não haverá narrativas.

Apenas você.

E o ponto central.

O núcleo silencioso daquilo que realmente foi.

A geometria da redenção macabra começa exatamente aí:

No instante em que o homem percebe que passou a vida inteira tentando escapar de si mesmo, e descobre, tarde demais, que era justamente para dentro de si que todos os caminhos apontavam.

Clayton Alexandre Zocarato

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Cláusulas para um espaço que não existe

Clayton Alexandre Zocarato

‘Cláusulas para um espaço que não existe’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Quando recebeu a carta, pensou primeiro no erro burocrático. O envelope era cinza, sem remetente, e carregava apenas seu nome escrito numa caligrafia excessivamente precisa, como se cada letra tivesse sido desenhada por alguém que jamais escrevera à mão antes.

            Dentro havia um contrato.

            As páginas eram amareladas, embora o papel cheirasse a novo. No topo, em letras pequenas:

            “CLÁUSULAS PARA UM ESPAÇO QUE NÃO EXISTE.”

            Ele riu sozinho no apartamento vazio. A pia estava cheia de pratos, a geladeira emitia um zumbido contínuo, e a chuva escorria pela janela como um pensamento cansado.

            Passou os olhos pelas cláusulas.

Cláusula I

Todo indivíduo ocupa um espaço simbólico na realidade, ainda que tal espaço não exista materialmente.

Cláusula II

O ocupante será responsabilizado pela manutenção emocional desse espaço.

Cláusula III

Não haverá compensação ao final do processo.

            Releu aquilo três vezes.

            Não porque estivesse confuso, mas porque sentiu algo pior: reconhecimento.

            Dobrou as folhas e as colocou sobre a mesa.

             Tentou voltar ao trabalho, mas o cursor piscando na tela parecia zombar dele.

            Fazia semanas que escrevia relatórios para uma empresa que vendia softwares administrativos para outras empresas que também pareciam não produzir nada além de relatórios.

            Às vezes imaginava o mundo inteiro como uma engrenagem girando no vazio, sustentada apenas pelo medo coletivo de admitir que não havia máquina alguma.

            À noite, sonhou com corredores infinitos.

            Portas alinhadas em ambos os lados. Em cada uma delas havia uma placa com nomes de pessoas. Amigos mortos. Antigas amantes. Colegas esquecidos da escola. Seus pais.

            Quando abriu uma das portas, encontrou apenas um cômodo branco e sem móveis.

            Nada.

            Abriu outra.

            Nada.

            Outra.

            Nada novamente.

            Ao fim do corredor havia um espelho. Quando se aproximou, percebeu que seu reflexo não o imitava exatamente.

            O homem do outro lado parecia mais velho, mais cansado.

            O reflexo falou primeiro:

            — Você ainda acredita que existe um centro para tudo isso?

            Acabou suando.

            Nos dias seguintes, começou a notar pequenas falhas na realidade.

            Uma mulher no metrô repetia exatamente o mesmo movimento de ajeitar o cabelo a cada dois minutos.

            Um cachorro ficou parado na esquina por horas olhando para uma parede.

            O jornaleiro perto de seu prédio disse “bom dia” com a mesma entonação perfeita durante três manhãs seguidas, como uma gravação.

            Começou a suspeitar que o mundo não estava vivo.

            Talvez nunca tivesse estado.

            Passou então a reler o contrato obsessivamente.

            Havia cláusulas escondidas que antes não estavam ali.

Cláusula IX

O vazio percebido pelo ocupante não constitui defeito estrutural.

Cláusula XII

A consciência é um mecanismo temporário destinado a suportar a ausência de significado.

Cláusula XVII

Perguntas sem resposta deverão continuar sendo formuladas até a extinção do ocupante.

            Ele tentou rasgar as páginas.

            Na manhã seguinte, elas estavam intactas sobre a mesa.

            Tentou queimá-las.

            As folhas não pegavam fogo.

            Tentou jogá-las fora.

            À noite, encontrou o contrato novamente ao lado da cama.

            Como um animal paciente.

            A partir daí, começou a evitar pessoas.

            Descobriu que toda conversa humana funcionava da mesma forma: duas solidões trocando ruídos para esquecer o abismo.

            No trabalho, ouviu colegas discutindo metas trimestrais com uma seriedade religiosa.

            Num bar, viu um casal brigando porque um deles não respondera mensagens. Na televisão, políticos prometiam futuros que sabiam impossíveis.

            Tudo lhe pareceu grotesco.

            A humanidade inteira atuando numa peça sem plateia.

            Passou então a caminhar pela cidade durante a madrugada.

            As luzes dos prédios acesas pareciam olhos insônes.

             Pensava nas milhares de pessoas acordadas naquele instante: algumas chorando, outras desejando morrer, outras tentando desesperadamente encontrar sentido em rotinas repetidas.

            Mas sentido era apenas uma superstição sofisticada.

            A razão humana havia construído ciência, leis, máquinas, religiões e sistemas filosóficos para evitar uma conclusão simples:

            O universo não precisava de nós.

            Nunca precisou.

            A consciência talvez fosse apenas o acidente mais cruel da matéria: o instante em que o vazio ganhou olhos para contemplar a si mesmo.

            Certa madrugada, encontrou uma porta no fim de um beco.

            Nunca estivera ali antes.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            No centro, havia uma pequena placa metálica:

            “ESPAÇO DESIGNADO AO OCUPANTE.”

            Não sentiu medo.

            Sentiu alívio.

            Encostou a mão na porta e ela se abriu lentamente.

            Do outro lado não havia escuridão.

            Nem luz.

            Havia ausência.

            Um espaço impossível de descrever porque não continha forma, profundidade ou tempo.

            Era como olhar para algo anterior à própria ideia de existência.

            Então compreendeu.

            Toda vida humana era uma tentativa desesperada de mobiliar aquele vazio.

            Amor, trabalho, fé, arte, memória — móveis frágeis colocados dentro de um cômodo inexistente.

            Nada permanecia.

            Nada sustentava.

            Nada respondia.

            O universo não odiava os homens.

            Isso exigiria interesse.

            O universo apenas continuava.

            Indiferente.

            Elias deu um passo adiante.

            O chão desapareceu imediatamente sob seus pés, mas não houve queda.

            Seu corpo parecia dissolver-se em silêncio, como fumaça dentro de um espaço sem ar.

            Antes de desaparecer completamente, ouviu uma última frase, vinda de lugar nenhum:

Cláusula Final

O ocupante esteve sozinho durante todo o processo.

Então até a consciência terminou. E o vazio, finalmente, deixou de ser observado

Clayton Alexandre Zocarato

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