Sobre o poema A Albatroza

Ella Dominici: ‘Sobre o poema A Albatroza’

Ella Dominici
Ella Dominici

A Albatroza nasceu de um diálogo entre a modernidade poética francesa e a condição contemporânea da mulher que pensa, escreve e contempla.

A inspiração inicial remete ao célebre poema O Albatroz, de Charles Baudelaire, no qual a ave majestosa, soberana nos céus, torna-se desajeitada e vulnerável ao tocar o convés do navio. Nessa imagem, Baudelaire reconheceu a condição do poeta diante de uma sociedade frequentemente incapaz de compreender a natureza do pensamento criador.

Em A Albatroza, essa figura é revisitada sob uma perspectiva feminina. A ave transforma-se em símbolo da mulher intelectual, da poeta, da escritora e da pensadora que, ao elevar seu olhar para além das convenções imediatas, frequentemente encontra incompreensão, censura ou estranhamento.

Há também uma discreta sombra de Stéphane Mallarmé, especialmente na presença do ‘branco’ como espaço de permanência do poema e na ideia de que o pensamento lança seus dados ao invisível. Entretanto, a obra não se limita à homenagem literária. Ela busca afirmar uma voz própria, onde contemplação, lucidez e sensibilidade coexistem.

A palavra Albatroza, criada pela feminização poética do albatroz baudelariano, torna-se mais que uma imagem: converte-se em arquétipo. Representa a mulher que aceita a altitude da reflexão sem renunciar à delicadeza, que suporta a incompreensão sem abandonar a própria voz e que encontra na escrita uma forma de permanência.

Se Baudelaire escreveu a queda do poeta, A Albatroza procura escrever a permanência da poeta.

Rute Ella Dominici

A Albatroza

Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/s/m_6a2b6e923a20819185b58face9214358
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A mulher de espírito assemelha-se à albatroza das alturas,

abrindo suas asas ao vento com serena desenvoltura.

O voo lhe é contemplação,

onde a dúvida se transforma em lúcida razão.

Nos céus, lança pensamentos como dados ao invisível,

e seus versos aprendem a dizer o indizível.

Mas quando desce às terras ordinárias,

erguem-se as vozes telúricas, severas e contrárias.

Chamam excesso ao que é apenas ascensão,

confundem o silêncio com erro ou negação.

E riem da ave que não sabe caminhar

entre os passos apressados dos que temem pensar.

Assim, viva nos ares, torna-se estranha na terra;

suas vastas asas ultrapassam toda fronteira.

Contudo, entre vaias e juízos amargos,

permanece fiel aos seus horizontes largos.

Pois quando o tumulto terrestre se desfaz enfim,

resta o branco onde o poema retoma seu jardim:

o antigo voo da ideia que ousa ainda existir,

porque pensar é voar —

e voar é persistir.

Ella Dominici

L’Albatrosse

La femme d’esprit ressemble à l’albatrosse des hauteurs,

ouvrant ses ailes au vent avec une sereine grandeur.

Le vol est pour elle contemplation,

où le doute devient lumineuse raison.

Dans les cieux, elle lance ses pensées comme des dés vers l’invisible,

et ses vers apprennent à parler l’indicible.

Mais lorsqu’elle descend vers les terres ordinaires,

s’élèvent les voix telluriques, sévères.

Elles nomment excès ce qui n’est qu’essor,

confondent le silence avec quelque tort.

Et elles se moquent de l’oiseau qui ne sait marcher

parmi les pas pressés de ceux qui craignent de penser.

Ainsi, vivante dans les airs, elle demeure étrangère sur la terre ;

ses vastes ailes dépassent toute frontière.

Pourtant, au milieu des huées et des jugements amers,

son destin demeure fidèle à la lumière.

Car lorsque le tumulte terrestre s’efface enfin,

il reste le blanc où le poème reprend son chemin :

l’ancien vol de l’idée qui ose encore exister,

car penser, c’est voler —

et voler, c’est persister.

Ella Dominici

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Félix Nicolau

Entrevista com o escritor e professor universitário romeno
Félix Nicolau

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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“Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se
contra a censura”. (Félix Nicolau)

Professor Felix Nicolau - Arquivo pessoal
Professor Felix Nicolau – Arquivo pessoal

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, e´ com grande prazer que vos apresento Félix Nicolau, um erudito e uma das personalidades da literatura romena contemporânea, com uma carreira complexa e multifacetada que combina, com naturalidade, a criação literária, a reflexão crítica e a atividade académica. 

Licenciado em Filologia e Filosofia, obteve o título de Doutor em Filologia em 2003, com uma tese de literatura comparada. A sua estreia editorial ocorreu em 1996 com o livro de poesia Ascultând cerurile, publicado na revista Arca de Arad, marcando o início de uma atividade literária prolífica e diversificada. 

É membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras.  

Ao longo do tempo, Felix Nicolau publicou uma obra rica que inclui poesia (quatro volumes), prosa (dois romances) e ensaios e crítica literária (nove livros). 

No domínio da poesia, obras como Kamceatka, Time is Honey (2014), Bach, manele & kostel (2003), Salonul de invenții (2002) e Cucerirea râsului (1996) revelam um poeta preocupado com o jogo semântico, a ironia cultural e a expressão lúdica.

No que se refere à prosa, os romances Tandru și rece (2007) e Pe mâna femeilor (2011) são exemplos do seu interesse pela exploração das relações interpessoais e dos paradigmas socioculturais do espaço pós-moderno romeno. 

No domínio da crítica literária e da teoria cultural, Nicolau publicou vários volumes de ensaios e estudos que refletem profundas preocupações teóricas. Entre as suas obras de referência, destacam-se: Homo Imprudens (2006), Anticanonice (2009), Codul lui Eminescu (2010), Estetica umană: de la postmodernism la Facebook (2013) e os volumes de 2014: Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity e Comunicare și creativitate. Interpretarea textului contemporan e Take the Floor. Professional Communication: Theoretical Contextualization. Mais recentemente, Nicolau publicou Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice (2021) e Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale (2024), no qual aborda temas atuais relacionados com a hermenêutica, a identidade e o discurso cultural na era digital.

Além da paixão pela escrita e pela crítica, Felix Nicolau é um professor universitário dedicado e respeitado. Leciona literatura, comunicação e estudos culturais em diversas instituições académicas, nomeadamente como professor convidado do Instituto da Língua Romena (ILR) na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade de Granada, como professor na Universidade Técnica de Construções Civis de Bucareste, na Roménia, e como professor convidado na Universidade de Lund, na Suécia.

Além disso, é afiliado à Escola de Doutoramento em Filologia da Universidade “1 de Dezembro de 1918” de Alba Iulia, na Roménia, onde contribui para a formação de investigadores nas áreas da literatura e da comunicação.

A obra e a atividade de Felix Nicolau inserem-se nos debates contemporâneos sobre literatura e cultura, dado que o autor participa ativamente na vida jornalística e académica, tanto romena como internacional, colaborando com publicações como o Swedish Journal of Romanian Studies, a Littera Nova ou a Bucovina literară.

Através das suas abordagens teóricas, ensaísticas e criativas, Felix Nicolau procura conferir clareza e profundidade ao discurso literário, explorando simultaneamente as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade.

Rhea Cristina: Conhece e fala sete línguas estrangeiras: inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, português e sueco. O que o levou a estudar português? O que representam para si o Brasil e a América do Sul em geral?

Felix Nicolau: Há muitos anos, frequentei cursos de língua e cultura portuguesas na embaixada do Brasil em Bucareste. Com certeza irei frequentar um novo curso num instituto para atualizar os meus conhecimentos da língua. Por isso, conheço melhor o português do Brasil, que, aliás, tem uma pronúncia mais clara. 

Sempre me interessei pela cultura de expressão portuguesa, devido à sua vastidão temporal e espacial. O Brasil e a América do Sul são um caldeirão de culturas que não se pode deixar de conhecer. E como nós, romenos, também usamos uma língua neolatina, seria uma pena não aceder ao original do que as culturas de expressão portuguesa têm para oferecer.

Rhea Cristina: O que significam para si as palavras «história», «identidade» e «memória individual e coletiva»? 

Felix Nicolau: São conceitos essenciais para o ser humano. Por exemplo, não basta uma pessoa falar com um certo grau de correção a língua portuguesa ou a língua romena para se poder dizer que é brasileira ou romena. A identidade, que inclui os tipos de memória, significa conhecer a história sem distorções, as tradições e a cultura em causa. Sem isso, ninguém pode assumir uma identidade específica. 

Pelo contrário, se um estrangeiro aprender bem essas coisas, então torna-se mais nativo do que um habitante local que não se esforça para desenvolver a sua identidade. Portanto, a identidade conquista-se, não é algo que se tenha por direito. É em vão que muitos se gabam de ter nascido num determinado lugar. Podiam ter nascido noutro qualquer lugar. 

A falta de pensamento crítico e os automatismos são pragas da humanidade que só podem ser curadas através da exposição à cultura autêntica. No entanto, isso está a tornar-se cada vez mais difícil, pois a educação está cada vez mais diluída. Especialmente para se obter o ser humano globalizado, o homem de plasticina.

Rhea Cristina: Durante os 50 anos de totalitarismo, a Europa de Leste produziu apenas cultura de propaganda? A cultura da Europa de Leste submeteu-se totalmente aos cânones da ideologia oficial? Que ensinamentos sobre os valores do ser humano nos legou essa cultura?

Felix Nicolau: …De modo algum. É verdade, porém, que apenas a cultura alinhada com o sistema comunista foi promovida. Além disso, era mesmo perigoso produzir cultura não alinhada. Muitos acabaram na prisão, foram mortos ou perderam o estatuto social por causa disso. Em suma, apenas os fanáticos, os idiotas e os oportunistas se submeteram aos cânones da cultura oficial. 

A verdadeira cultura, a não alinhada, revelou o lado absurdo, ou mesmo feroz, do mundo. Não existe uma cultura do Leste europeu, mas sim várias. Os romenos promovem criações com um toque folclórico, mas também o absurdo e as vanguardas. Os checos têm um sentido de humor ingênuo-absurdo no cinema. Os húngaros têm uma inclinação para o absurdo sofisticado e para uma visão romântica e misteriosa. E assim sucessivamente. São povos com matrizes culturais semelhantes, mas também diferentes. 

Daí os frequentes conflitos e a incapacidade de estabelecer uma aliança político-militar-econômica em toda a região. Isso diz muito sobre as diferenças.

Rhea Cristina: Num mundo com grandes mudanças geopolíticas, como o atual, qual é ou qual deveria ser o papel da cultura a nível mundial? Que importância tem a cultura europeia? E a literatura sul-americana? 

Felix Nicolau: A cultura tem, como sempre, um papel duplo: preservar identidades e tradições elevadas, não bárbaras, e construir pontes interculturais. Não é uma tarefa fácil e, infelizmente, muitos promotores culturais têm um domínio limitado da cultura, limitando-se a procurar um lugar confortável em diversas instituições e projetos. Além disso, há muitos projetos supostamente culturais, mas centrados em aspectos da moda e ideologizados que, na verdade, não contribuem em nada para a vida cultural. 

A literatura sul-americana tem um papel especial precisamente devido à cultura de onde provém. Como se sabe, esta literatura abordou, com meios estilísticos espetaculares, temas relacionados com a ditadura e o autoritarismo. Afinal, é isso que a literatura deve fazer: propor novas formas narrativas e desenvolver a humanidade, expondo temas e situações de forma desideologizada. Não impor uma única forma de leitura.

Rhea Cristina: Qual é, atualmente, o estatuto do escritor, filósofo e tradutor no espaço cultural europeu e mundial? 

Felix Nicolau: Existem diferenças significativas entre estas três figuras. O escritor tornou-se um pilar da sociedade do espetáculo e um crítico desta, apenas na medida em que não é movido pelo desejo de receber prêmios. Refiro-me aos escritores representativos, aqueles que são apoiados pelos sistemas. No entanto, também existem escritores livres que não se deixam condicionar pelas relações comerciais em busca do sucesso. 

Ultimamente, os filósofos representativos têm recuperado a vantagem perdida face aos escritores. Surgem filósofos-influenciadores que dão conselhos, sobretudo, sobre a felicidade. Quanto aos tradutores, tinham alcançado um certo nível de respeitabilidade, sobretudo sob a pressão dos estudos de tradução. No entanto, a explosão de programas baseados em inteligência artificial irá reduzir a sua contribuição. Ficarão muito poucos tradutores, que se dedicarão mais a aperfeiçoar as traduções feitas com IA. 

Porém, os escritores também começaram a criar textos de forma pós-algorítmica com a ajuda da IA, embora poucos o reconheçam. De qualquer forma, um artista define-se pela liberdade na sua arte. Enquanto o artista se preocupar em incorporar a correção política do momento no seu processo criativo, a sua arte estará morta a nível ontológico. Por mais prêmios que receba.

Rhea Christina: Que tipo de intelectual existe atualmente na Europa e na cultura sul-americana? Estão presentes na cena cultural mundial?

Felix Nicolau: Na minha opinião, um intelectual não é apenas um especialista ou um homem de cultura pago pelo Sistema. O intelectual é alguém que está genuinamente em busca da verdade, com espírito crítico, e que se esforça por acumular informação de tantos domínios quanto possível. Essa informação é depois integrada no seu sistema cultural com base em critérios de valor, e não em função de ofertas e oportunidades. 

Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se contra a censura. Poderia dizer que uma pessoa amplamente aceite pelo Sistema e multipremiada não pode, de forma alguma, ser um intelectual. A função do intelectual consiste, acima de tudo, em lutar pela decência e pelos direitos, e não em alinhar com os diversos discursos do poder. Da mesma forma, um intelectual esforça-se por construir a sua cultura através de várias línguas estrangeiras. 

A verdade é que esta condição humana é extremamente rara e, na maioria dos casos, é marginalizada. A história mostra-nos que a espécie humana não gosta de jogos justos e baseados em regras. Desde sempre que os sistemas têm influenciado o resultado do jogo e da competição. O mundo poderia ter sido um paraíso para todos, mas está longe disso. 

O mito do robô que libertará o homem do trabalho e lhe permitirá dedicar-se à construção cultural não passa de um mito. A proliferação dos robôs empurra o homem verdadeiramente trabalhador, que não usufrui de diversos privilégios imerecidos, para fora do panorama, tornando-o inútil e dispensável. É uma perspetiva sombria, nada intelectual.

Rhea Cristina: Qual é a sua mensagem para a comunidade romena no Brasil e para a comunidade cultural brasileira?  

Felix Nicolau: Uma mensagem de coragem e abertura cultural, ou seja, de esforço intelectual contínuo, de acumulação e interpretação. Não nos limitemos à superfície das culturas; estudemos com energia durante toda a vida. Só assim as culturas podem permanecer verdadeiramente vivas e não se transformar em mecanismos festivos para a promoção de diversos funcionários. 

Lutem pela verdade e não se deixem levar apenas pelos influenciadores culturais. Procurem os verdadeiros sábios. Pensem, portanto, na vitória e na alegria.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com

Rhea Cristina

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Quincasblog, meus encontros

Magna Aspásia Fontenelle: Crítica literária ‘Quincasblog, meus encontros’

Magna Aspásia Fontenelle
Magna Aspásia Fontenelle

Quincasblog é um blog que foi transformado em livro, denominado ‘Quincasblog, meus encontros‘, escrito pelo Embaixador Dr. Lauro Moreira, com 416 páginas, publicado pela editora Art Point em 2019, cujo título faz menção ao escritor brasileiro Machado de Assis. 

Capa do livro 'Quincasblog'
Capa do livro ‘Quincasblog’

A compilação é constituída por registros de suas vivências e trajetórias profissionais, que foram documentados em seu Blog desde 2012. O conteúdo é caracterizado por uma abordagem narrativa poética, metafórica e histórica. 

A literatura, por meio de sua abordagem poética, sem considerar as  variações dialetais,  sotaques, nacionalidades, constitui-se um elo  essencial  para a  união dos povos através das Letras. Promover  o idioma de um país e divulgá-lo, insere-se na  formação humana permitindo seu pleno crescimento pessoal, laboral, cultural e social.

O criador trabalha com imagens, sons, dialetos, culturas, valores, religiosidade, políticas e ideologias em um espaço temporal semiótico através de concepções que sempre correspondem a uma verdade singular e acerta quando segue sua intuição genial e a deixa aflorar por meios de seus escritos.

Ao longo de sua história, o escritor se relacionou com figuras importantes da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Manuel Bandeira, que foram seus padrinhos de casamento com a poetisa Marly de Oliveira, mãe de suas duas filhas, assim como, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Aurélio Buarque de Holanda, Antônio Houaiss, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, dentre outros.

Dr. Lauro Moreira

[…] Eu tive o privilégio., embora não sendo poeta mas gostando  tanto de Poesia, de viver sempre muito próximo dela e de vários de seus cultores e criadores, alguns de altíssima linhagem como Cecília Meireles[…]. (p.57,parágrafo 3º,linha 1-4.)

[…]Conviver com homens é mais terrível do que com deuses. E ninguém conhece epopeia mais dolorosa que a de moldar dia a dia, clara e verdadeira, a fugitiva condição humana.

Na sua emocionada e emocionante Elegia obre a morte de Ghandi repetia as palavras desoladas ouvidas do próprio

 Mahatma, ”Les hommes sont des brutes, madame”…] (p.62,parágrafo 2º,linha 1-9.).

‘[…]Les hommes sont des brutes, madame”[…] 

O vento leva a tua vida toda, e a melhor parte da minha.

Sem bandeira.

Sem uniformes. 

Só alma, no meio de um mundo desmoronado.

Estão prosternadas as mulheres da Índia, 

Como trouxas de soluços.

Tua fogueira está ardendo. 

O Ganges  te levará para longe,

Punhado de cinzas que as águas beijarão intimamente,

Que o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus.[..]

[…]Les hommes sont des brutes, madame[…].

(p.63, parágrafo 1º, línea1-11- Cecilia Meireles).

Nessa nuance, o timoneiro Lauro fundou o grupo musical ‘Solo Brasil‘, promovendo a música  brasileira no Brasil e exterior, como explicado em sua narração.

[…] Ao longo das apresentações de mais de cinquenta canções consagradas ,distribuídas em blocos cronológicos contextualizados por breves comentários de um narrador, o espetáculo traça um rico panorama da música  popular brasileira, de Chiquinha Gonzaga a nossos dias do chorinho ao samba, do frevo à bossa-nova, além de oferecer uma visão da música típica de várias regiões geográficas do país[…] (p.196, paragrafo 1, línea 6-17).

Machado de Assis
Foto do blog do autor Lauro.
https://quincasblog.wordpress.com/quem-sou/

Lauro faz alusão a Machado de Assis: […] Tive que preparar uma comunicação obre uma obra de meu patrono. Escolhi “Dom Casmurro”. Foi um choque para mim: senti-me diante de algo completamente novo. E apaixonei-me por Machado de Assis. Por seu estilo enxuto, avesso aos arroubos sintomáticos da escola romântica, por suas entrelinhas, seu humor fino, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos[…](p. 22,parágrafo 1,línea 5-9).

Machado de Assis,(1839-1908) é um dos maiores representantes da literatura brasileira. Instalou o  Realismo, iniciando com a obra ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, publicada em 1881. Machado deixou um conjunto vasto de obras. Foi contista, cronista, jornalista, poeta e teatrólogo, além do que é o fundador da cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras.

Lauro, nos conta:

[…] Um dia, após quase dois meses de espera fora chamado ao Gabinete do Senhor Ministro, fora recebido pelo Diretor IRB, que lhe informou, que mesmo o Senhor Ministro gostando do texto, Parecia ser muito profundo e portanto, não apropriado para uma cerimonia de amenidades como deve ser uma formatura. Aliás, se o senhor quiser poderá apresentá-lo como conferência aos alunos do Rio Branco[…].(p. 265, parágrafo 2, linea 23-26).

Naquele momento a  censura tolhia a voz dos estudantes…

O Diretor dissera a Lauro que era natural sua preocupação, mas, que ninguém queria saber disso. Lauro rebateu e disse-lhe: ”não sei fazer discurso de amenidades…”

Lauro  reuniu a turma  e informa o acontecido, leu o discurso, pede um parecer, e informar sobre sua desistência da função de representante da turma, ninguém aceitou tal fato. Com isso formaram uma comissão e solicitaram uma audiência com o Senhor Ministro para esclarecimentos.

A reunião fora longa, após argumentos, fora dito que não precisaria falar de amenidade, mas sim, que fosse modificado alguns pontos no texto, pois ao proferir o discurso, corria-se o risco de Jornal Correio da Manhã publicar: […] Jovem diplomata dá aulas ao Presidente da República mostrando que democracia social é o caminho para o Brasil[…](p.267,paragrafo 1º, línea,28-30). 

O texto fora atenuado com algumas palavras sinonimizadas sem alterar seu teor e entregue ao Gabinete do Ministro, o qual nunca deu resposta, nem tão pouco agendou a data da cerimonia de formatura da turma.  Com esse relato, Lauro ao meu ver, nunca se furtou de suas ideias, seu patriotismo, e também nunca falou de amenidade no seu labor, tanto que por onde passou, mesmo nas metáforas, elevou o nome do Brasil mundo afora, divulgando  a  diversidade cultural, literatura, arte e  música brasileira.

Guimarães Rosa
Guimarães Rosa. Foto do blog do autor Lauro.
https://quincasblog.wordpress.com/quem-sou/

Apaixonado pela literatura, Lauro, na sua criatividade, cria o recital, […[“Três epopeias brasileiras[…]’(p. 295), que consiste num recital, onde ele reúne poemas de  três escritores de maior grandeza brasileira, y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro de Castro Alves, e Caçador de Esmeraldas de Olavo Bilac.

Os três poemas épicos fazem alusão à formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e alargamento do território pelos bandeirantes, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano escravizado. Da fusão étnica e cultural dessas três raças básicas nasce o Brasil[…] (p. 295, parágrafo 1-2, línea 1-12). 

Um outro Embaixador, dessa vez das Gerais, autor da grande obra brasileira Sagarana, (1946), Guimarães Rosa, tornam-se amigo e colegas  no Instituto Rio Branco, amizade pra toda vida.

Rosa, escritor que canta  em suas obras  o sertão; […[ Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoiévski e Flauber, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão,[…]. (p. 347,parágrafo 3º, línea12-17). 

Nesse misto de saudades, um outro sertanejo maranhense Gonçalves Dias, considerado o pai do romantismo brasileiro, em seu poema escrito no exílio, denominado “Canção do Exílio”,(publicado em 1857 no livro, Primeiros Cantos), canta em versos seu  amor, e a saudade de sua terra natal; 

Transcrevo o estribilho: 

“Minha terra, tem palmeiras, 

Onde cantam as sábias, 

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá, 

Não permitas Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá, 

Sem que aviste as palmeiras onde cantam as sábias…”

Além das narrativas  aqui mencionadas, Lauro aborda em sua obra fatos como: futebol, morte, imortalidade acadêmica, lusofonia, filosofia, CPLC, figura representativa de sua terra natal Goiás, países onde atuou como Embaixador, andanças  literárias, dentre outros. 

Desse modo, por meio de suas evocações multicoloridas, podemos conhecer uma parte de sua trajetória através da obra ‘Quincasblog, meus encontros’, que perpassa pelo pretérito, estendendo-se no presente e avançando ao futuro numa abordagem histórica singular exercendo influência direta sobre o leitor, levando-o ao prazer estético que provoca uma reflexão acerca das várias fases da vida do autor, num reviver metafórico no  contexto social, politico e cultural no qual o escritor encontra-se  inserido no mundo contemporâneo.

Boa leitura!

Leia a obra e a tenha na sua biblioteca! 

Magna Aspásia Fontenelle

Contatos com a autora

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