Preocupar-se-á a ciência com as questões da cidadania, da solidariedade, dos Direitos Humanos e com outros valores universais? Ou pelo contrário, tais assuntos não interessam à ciência em geral e aos cientistas em particular? Nesta perspectiva parece-me que a questão é pertinente porque vivemos numa sociedade difícil, complexa, em busca da satisfação pessoal, a multiplicação de experiências, a exploração do negativo, do espetacular, do sensacional, do escandaloso, o que estará a conduzir para uma desmoralização da vida pública, com reflexos na vida política, principalmente nos mais jovens, que se relaciona com a tentativa, sistematicamente organizada de, se não eliminar, pelo menos substituir os conteúdos morais e éticos, substantivos, valores orientadores, devidamente ajustados à prática.
Ao decidir realizar esta breve, insuficiente e deficiente investigação sobre a necessidade imperiosa de desencadear os mecanismos legais/académicos de sensibilização das consciências para o cumprimento dos Direitos Humanos, precisamente no âmbito da Epistemologia, tinha a indicação das dificuldades que iria encontrar, contudo: enquanto cidadão, no pleno exercício dos seus deveres e direitos; como eterno aprendiz de filósofo, tenho, igualmente, o dever de refletir sobre estes temas.
Podemos abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades: estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece-me pertinente invocar a máxima: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (ONU: Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artº 1º) e: «Não se deve perder a fé na humanidade: a humanidade é um oceano limpo e um par de pingos sujos não sujam o oceano.» (GANDHI).
A próxima comemoração do 78º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10 Dezembro 1948 – 10 de Dezembro de 2026) infelizmente com o recrudescimento de conflitos e fundamentalismos éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos, comecem a ser tratados com o devido e merecido discernimento e seriedade que merecem; estando sabido que hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, continuam a ser tratados como “boas intenções”, concretamente: por interesses económicos ou burocracias instaladas; por ditaduras e repressões políticas e religiosas.
A manifesta irrelevância com que os Direitos Humanos são invocados é, cada vez mais, alvo de denúncia por parte das Organizações Não Governamentais, do olhar indiscreto dos Média, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra. Neste aniversário, quantos milhões de crianças, idosos e marginalizados estão a passar fome, sabendo-se que algumas Organizações pagam para não se produzir alimentos, para se controlar as matérias-primas, com o objetivo de se criarem condições para que a especulação tenha o caminho mais livre?
Por outro lado, novos desafios apareceram: eutanásia, tráfico de órgãos, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, até mesmo o processo de globalização das economias. A subordinação dos cidadãos ao poder da força bélica dos que “querem, podem e mandam”, pode verificar-se em todos os cantos do mundo. Os Relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” que se pretende livre, justa, digna e pacífica!
BIBLIOGRAFIA.
GANDHI MAHATMA, (1869-1948) líder pacifista indiano. Principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência. (Grande deensor dos Direitos Humanos
ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Lisboa: Amnistia Internacional, Secção Portuguesa, 1998;
BIBLIOGRAFIA GERAL
Venade/Caminha – Portugal, 2026
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
Entre as dores do tempo, as feridas da história e o clamor místico a N’ZAMBI: a força visceral e a resistência da alma africana na poesia de Ismaél Wandalika
Soldado Wandalika Imagem criada pela IA Gemini
Fugindo do tempo A dor me cruza no obsoleto Vivo no agrafador do pesadelo de meu túmulo Mendigo meus sentimentos no espetáculo de meu mundo Me Intensifico em cada discrepância de meu quotidiano Cavalgo nos planos escritos no murro levito no mar da vida mergulho no ar atmosférico Abraço a brisa e suas lembranças Absorvo os ventos do vacuo Viajo nas trilhas de minhas melodias Enfermo meu corpo N’ZAMBI provendencia curas… A arte pinta os quadros que a política rotula O artista é o cientista do empirismo lógico Nos átrios clamamos : Phendula, Phendula! A vida soma os alaridos dos batuques nas ondas de uma surfista As palmas salvam a cidade de malícia O caminho escurece a cada partida O mar esconde os segredos mais negros da Europa Os remos são coniventes nessa história Nos átrios clamamos: Phendula! Phendula! Phendula! Phendula! N’ZAMBI é a nossa cura! Os montes desabaram, olhamos nos olhos da esperança que desesperada mente! Fugindo do tempo Nos átrios clamamos : Phendula Phendula N’ZAMBI! A África encanta seus lamentamos O destino veste os pontos de seus escolhidos!…
Quando a vida consome como o cigarro: o grito poético e cirúrgico que ecoa na alma dos esquecidos
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)Ilustração criada por IAl via DALL-E/ChatGPT
Uma ponta de cigarro no cinzeiro ainda está fumegando. Quer queimar até o fim. Quer viver até o fim. E eu a esmago e a apago porque sua fumaça se espalha pela casa.
Mas por 35 anos essa fumaça tem enchido meus pulmões. Na verdade, eu amei minha casa mais do que minha vida, porque sou muito pobre. Esta vida nos é dada pela natureza de graça, mas uma casa é construída ao preço de uma vida inteira.
No geral, os pobres também são como os cigarros. Enquanto o cigarro está no maço, significa que está na prisão. Para viver, ele deve sair do maço e queimar. O pobre também é assim. Enquanto estiver preso nesta caixa chamada mundo, ele não vive. Para viver, ele deve queimar. Para queimar, ele deve escapar do mundo e morrer.
Remma Hamza Uma denúncia visceral contra a neutralidade dos cinzentos, o peso esmagador do exílio e as feridas abertas de uma pátria carregada nas costas
Pouco antes do otimismo — ou o que quer que repouse além do segredo dos começos —, atamos nossas esperanças às estações. No entanto, a primeira chuva veio como pedras caindo sobre as intenções do nosso assassinato. Então, erguemos quarenta rosas — quarenta preces — a Deus. Como um estranho surpreendido pelo anoitecer, clamamos enquanto a ansiedade reverberava por nossas articulações. Examinamos nossa ferida e suportamos um calafrio extraordinário, metade sussurro, metade gemido. Ainda assim, nosso pulso gagueja em direção à manhã como uma criança aprendendo a engatinhar, nesta era que nos ameaça com a morte.
Quem diz que já não estamos mortos?
Mordemos os lábios e expiramos até o suspiro final de um profeta. Soltamos os espelhos das feições do tempo, ensanguentados diante de nossas possibilidades, e o vemos como uma mera frase em um mundo que se tornou crucificado e gramaticalmente confinado.
Terá esta tempestade de areia secado nossas gargantas e nossas fontes internas, extinguido nossas lanternas tímidas e espalhado seus grãos de poeira em nossos olhos? Terá ela impelido nossas desilusões de florestas de fogo para cidades de gelo? Da condição de poesia para a condição de narrativa?
Ó amados companheiros de infortúnio, a primavera secou naquelas manhãs moldadas pela poesia, e o caminho de volta para a felicidade também secou. Nesta esquizofrenia aguda entre o branco e o preto, as areias cinzentas nos engoliram com sua origem desconhecida, suas feições borradas. Rostos de cera, fabricados antecipadamente, tomaram o centro do palco, vestindo gravatas pretas e sapatos polidos.
Pálida é esta cor siberiana, neutra, que nada revela de seu sangue. Os cinzentos são uma raça miserável por si só, merecedores de piedade porque não possuem coragem para dar o primeiro passo. São como hienas que não ousam se aproximar de sua presa até que os leões tenham terminado de se alimentar e lhes deixem as sobras.
Eles viram o rosto para não apertar a mão da verdade. A dúvida os seduz; e a dúvida é o sadismo das almas ressentidas, a companheira íntima dos espíritos fracos, prisioneira das trevas da suspeita.
Há uma criança no coração de cada um de nós, correndo através das histórias, através dos olhos, através daquelas pequenas calamidades que florescem, na mão direita de Deus, em uma rosa de paciência.
Mas o cinzentismo pode transformar essa criança em uma pomba da paz durante o dia e em um lobo uivando nas trevas da noite. Pode fazê-la cantar a beleza enquanto, dentro de seu peito, uma civilização hedionda espreita. Pode escrever sobre a pureza enquanto sua língua está afundada na lama, lambendo poças estagnadas.
Ou talvez ela seja seduzida pela imagem do palhaço consumado no circo da vida, tendo cordas como seu parquinho. Ou talvez desempenhe o papel do ator consumado, dominando cada papel para arrancar a simpatia do público através de sua performance dramática e roteiro trágico.
E, no final, ela se esconderá sob o manto do engano, buscando abrigo do frio da verdade. Não sairá para caçar até que a tempestade tenha passado.
Se estar preenchido até a borda com o acontecimento não nos ensina a caminhar sobre o ferro em brasa, enquanto nossas línguas estão exaustas e nossos rostos estão exaustos; se nosso rosário não for de cem contas de derrotas despedaçadas, que no entanto continuamos a passar, conta por conta, de uma ferida a outra, esperando que o amanhecer de Deus desça sobre os nomes —então, se, e se, e se…permaneçamos agachados dentro do abrigo seguro dos cinzentos.
Aqueles que patinam sobre a palavra pátria, por mais desesperadamente que tentem apresentar a este mundo um certificado de boa conduta, terão esse certificado atirado de volta em suas faces; o mundo os acusará de falsificação.
Eles ficarão nas filas dos aeroportos como ovelhas pesarosas, perguntando-se: Por que não podemos passar pelos portões dos mestres como todos os outros viajantes? And quando o faro dos cães policiais finalmente terá misericórdia de nós?
Por isso eu vos digo: saibam disto —dormir sobre a memória de uma pátria é suave como a areia quando você se estende sobre ela; mas torna-se pesado — tão terrivelmente pesado — quando você a carrega nas costas.
Ó vós, cinzentos, entre a verdade e a falsidade reside uma distância chamada consciência.
E como pode a consciência se tornar um traje folclórico que vestimos como dançarinos em grupos tradicionais? Ou como um trecho de muwashshahat andaluz? Ou qudud alepino? Ou um passaporte escrito em ornamentada caligrafia Diwani, correndo da direita para a esquerda?
Desta plataforma, deste canto livre, digo a todos que escolheram a neutralidade passiva entre o céu e o inferno; a todos a quem os sinos da verdade não conseguiram despertar; a todos que caminharam abertamente sobre nossas feridas; a todos que nos ensinaram o amor por duas noites e nos abandonaram na terceira; a todos que simplesmente nos assistem queimar:
Não ficaremos em seu limiar a implorar: “Salpique-nos com a água do reencontro.” Nem lhes traremos nossas provas, como pardais no tribunal da clareza.
Pois vocês negaram o horizonte, encontraram conforto em sua ilusão e lançaram fora a sua rosa — na injustiça e na arrogância. E Deus é testemunha do que digo.
Ismaél Wandalika: ‘Vida na capital’ — quando a arte sorri diante das feridas de uma sociedade desigual
Soldado Wandalika Foto do autor, editada pelo ChatGPT
Oh! O ápice é um catálogo que embriaga a população Dormir pra que se já não há nada a sonhar Realismo social atravessa o âmago de quem só quer somar. Sorrisos desfilam no pulsar de cada coração Lamentam os pratos em cada olhar… A Vida Na Capital É versátil tal como a carreira de C4 Pedro É corrida como a vida de Valentino Rossi Nostálgica como a carta de guerra di Bárbara Tinoco Tem ritmo de kuduro, R.A.P e Zouk e Semba tudo O mundo cabe na palma da minha Capital AQUI: Há quem sustenta a família entre os enganos recolhidos das migalhas dos ignorantes… Todos sabem mas ninguém faz A vida é controvérsia aos outros pontos do planeta Até os pássaros têm pressa A Arte encanta a pobreza Artistas vivem suas loucuras e atraem riqueza Todos têm fome de comer pelo seu nome com honra… A VIDA NA CAPITAL É nobre e miserável A Política é o troféu da força motriz É Perturbadora e Confortável Aprende-se a tradução dos olhares em cada sorriso infeliz… A VIDA NA CAPITAL AQUI: A saúde testa seus idiomas nos corpos dos indefesos O Sorriso esconde as lágrimas no canto dos olhos A música anestesia o sofrimento dos chamados Os escolhidos bebem as águas do ☀️ sol, mesmo com os testes positivos!
Oh! O ápice é um catálogo que embriaga a população Dormir pra quê se já não há nada a sonhar Realismo social atravessa o âmago de quem só quer somar. Sorrisos desfilam no pulsar de cada coração Lamentam os pratos em cada olhar…
Soldado Wandalika
Poeta e escritor angolano CEO do projeto Luso internacional POETAS DA ILUSÃO