Ensaio sobre a atriz e escritora romena Claudia Motea

Rhea Cristina

‘Claudia Motea: A atriz romena que transformou o palco em um universo de emoções. O raro fenômeno do teatro romeno’

Rhea Cristina
Rhea Cristina

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, tenho o imenso prazer de apresentar este ensaio escrito por mim sobre Claudia Motea, atriz, dramaturga, escritora, poeta, roteirista, tradutora e professora de arte dramática. É uma daquelas artistas raras que construíram uma carreira entre a Romênia, o Canadá, a Europa e os Estados Unidos.

Por meio de seus espetáculos solo (one-woman-shows), de seus livros e de seus projetos multimídia, ela transforma a história, a cultura e as grandes personalidades romenas em experiências vivas, capazes de emocionar o público em todos os lugares.

Claudia Motea - Claudia Motea - Arquivo Pessoal
Claudia Motea – Arquivo Pessoal

Uma carreira construída entre a Romênia e a América

Definir Claudia Motea em poucas palavras é uma tarefa difícil. Atriz, poetisa, escritora, dramaturga, roteirista, tradutora e professora de arte dramática, ela é, ao mesmo tempo, produtora e coordenadora de projetos culturais. É uma daquelas personalidades artísticas que conseguiram afirmar seu valor em diferentes áreas e espaços culturais.

Sua carreira internacional começou com o espetáculo Les Danaïdes, com direção de Silviu Purcărete. Logo após se formar na faculdade, ela participou de prestigiosos festivais de teatro em Dublin, Amsterdã, Paris, Avignon, Glasgow e Recklinghausen, culminando em apresentações no Lincoln Center, em Nova York.

Claudia Motea – Arquivo Pessoal

O encontro com Silviu Purcărete continua sendo uma das experiências determinantes de sua trajetória artística:“Acredito que o Maestro Silviu Purcărete traça destinos. Ele é um Deus do palco e, por conseguinte, da alma artística… No meu caso, o destino sorriu para mim através do encontro com esse diretor. Foi o grande encontro da minha vida, uma verdadeira experiência de vida (a life time experience)…”

Após emigrar para o Canadá, Claudia Motea continuou atuando e escrevendo, conseguindo se impor em um novo meio artístico, mesmo sem falar inglês no início. Ela conquistou prêmios de atuação, dramaturgia, produção e a apreciação do público, incluindo os prêmios Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além de uma indicação ao Brickenâden Award.

Ela participou de importantes eventos e festivais nos Estados Unidos, entre eles o Hollywood Film Festival, o Los Angeles Comedy Fest, o Hollywood Fringe Theater Festival, o New York in LA e o Lincoln Center Theater Festival. Sua estreia em Hollywood aconteceu em 2010, no The Magic Castle, no show de variedades The Big IF.

Olhando retrospectivamente para o período canadense, a artista o resume por meio de uma sucessão de palavras que definem sua jornada:

Claudea Motea
Claudia Motea – Arquivo pessoal

“Busca, Conscientização, Audácia, Luta, Trabalho, Sobrevivência, Redescoberta, Brilho. Uma marcha inabalável sempre em frente!”

Em 2012, ela retornou à Romênia e continuou a criar espetáculos, filmes e projetos culturais.

A força de um one-woman-show

Uma das dimensões mais espetaculares de sua atividade são os espetáculos de one-woman-show. Claudia Motea transformou essa forma teatral em um verdadeiro território de criação, interpretando múltiplos personagens e trazendo para o palco personalidades emblemáticas da cultura e da história.

Seus espetáculos combinam documentação histórica, teatro, música, poesia, cinema e multimídia, construindo uma relação direta e intensa com o público.“Na essência, sou atriz. Amo muito o Teatro, em primeiro lugar. Tudo o que vem a mais complementa o meu ser artístico. Também amo o cinema. Escrevi alguns roteiros e produzi curtas-metragens”, declara a atriz romena Claudia Motea, que transforma as grandes histórias romenas em teatro.

Essa concepção de teatro reflete-se em seus projetos mais importantes, dedicados a personalidades como Constantin Brâncuși, a Rainha Maria ou Veronica Micle.

“Brâncuși, meu amor!” – nove mulheres, um universo

Um dos espetáculos mais importantes de Claudia Motea é “Brâncuși, meu amor!”, inspirado na vida e nos amores de Constantin Brâncuși. A peça foi incluída no volume MUCH LOVE – Decalog Teatral, publicado pela Libris Editorial, e o projeto foi realizado como uma coprodução romeno-sueca. O espetáculo estreou em Karlskrona, na Suécia, e em 2021 a peça foi traduzida e publicada em cinco idiomas, para projetos e turnês na Europa e na América.Na Feira Gaudeamus 2019, o volume MUCH LOVE – Decalog Teatral foi selecionado, em uma campanha da Radiodifusão Romena, entre os livros mais queridos da feira.

O livro Brâncuși, meu amor foi traduzido para 10 idiomas e transformado em um espetáculo de teatro e multimídia único, com direção de Beatrice Rancea. Claudia Motea interpreta nove personagens femininas, inspiradas pelas mulheres que foram, de uma forma ou de outra, musas do grande escultor.

No ano de 2026, dedicado a Constantin Brâncuși por ocasião dos 150 anos de seu nascimento, o espetáculo ganha um significado especial.“Os nove personagens femininos que interpreto são nove universos distintos. Cada um tem sua respiração, seu ritmo, sua luz. A transição de um para o outro é um desafio artístico intenso, mas também uma alegria profunda.”

„Ame-me… América!” – a experiência da emigração transformada em arte

Após retornar à Romênia, Claudia Motea produziu e atuou, em 2012, em “Ame-me… América!”, um espetáculo multimídia realizado em colaboração com a R.A.D.E.F. România Film, com direção de Al. G. Croitoru e produzido pela Associação International Artiscan.

O espetáculo parte da experiência de uma atriz romena emigrada para a América e transforma o tema da emigração, da adaptação e da redescoberta em uma narrativa cênica.

„Prelúdios” – a poesia que se torna espetáculo

Claudia Motea também é autora de volumes de poesia e dramaturgia. Seu primeiro livro de versos, Prelúdios na Cidade do Sol (Preludii în Cetatea Soarelui), foi lançado no final de 2017 no Teatro Nottara, em Bucareste.

Seguiram-se lançamentos em Los Angeles, Lucerna, Chisinau — no Teatro Nacional “Eugene Ionesco” — e Cahul — no Teatro Musical-Dramático “B. P. Hasdeu” —, bem como apresentações em importantes feiras internacionais do livro em Paris, Leipzig, Chisinau, Turim e Madri.

O espetáculo multimídia “Prelúdios na Cidade do Sol – ROMÊNIA 100” foi apresentado na Feira Internacional do Livro e da Música Libris Brașov, destacando-se entre os eventos mais apreciados do evento.

„Shalom, Israel!” – literatura e diálogo cultural

Outro projeto importante é “Shalom, Israel!”, inspirado no volume de mesmo título publicado pela Libris Editorial.

O livro recebeu em Israel o prêmio de “Livro do Ano de 2019”, em Tel Aviv, servindo posteriormente de base para o projeto teatral realizado com o envolvimento do Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu”.

Em 2021, o Centro Cultural Israelense-Romeno de Tel Aviv, a revista Maximum e a editora Teșu concederam ao volume Shalom, Israel! o título de Livro do Ano de 2021. Em 2022, o livro foi apresentado no Salão Internacional do Livro de Turim e, em seguida, na Bookfest.

No mesmo ano, Claudia Motea recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel, por sua atividade cultural e artística dedicada ao desenvolvimento das relações de amizade romeno-israelenses.

Outros projetos: teatro, cinema e música

A atividade de Claudia Motea abrange inúmeros projetos que reúnem teatro, cinema, poesia e música.

“Já Pensou Nisso?” (Te-ai Gândit Vreodată?) é um recital de poesia e jazz, realizado em parceria com Lucian Sabados, diretor do Teatro Dramático “Maria Filotti” de Brăila, e produzido pela Libris Brașov. O projeto também incluiu a gravação de um CD.

Em “O Casamento de Zamfira” (Nunta Zamfirei), um musical folclórico romeno-sueco, a artista atua ao lado de Dorel Vișan, Maia Morgenstern, Marius Bodochi e Monica Anghel.

Pelo filme Kandy, no qual interpreta o papel principal e assina o corroteiro e a coprodução, Claudia Motea recebeu, em 2016, o prêmio de Melhor Atriz no Festival Modern-Movie de Galați.

Em 2017, em Roma, apresentou para cerca de 5.000 espectadores o espetáculo A Pequena Malandra do 13º Andar (Pușlamaua de la etajul 13), de Mircea M. Ionescu, com direção de Vlad Stănescu.

“Que eu posso sonhar e criar… Que estou no caminho mais nobre e bonito da minha vida… Que EU SOU EU!”

„O Coração da Rainha Maria” – um papel que permanece no coração

Um dos espetáculos mais representativos de Claudia Motea é “O Coração da Rainha Maria” (“Inima Reginei Maria”), dedicado à soberana mais conhecida da Romênia.

A artista não busca apenas a reconstrução da personagem histórica, mas a descoberta da mulher por trás da imagem real: a mãe, a artista, a diplomata, a mulher que amou a Romênia e se tornou um símbolo de coragem e dignidade.

“Interpretar a Rainha Maria é uma responsabilidade espiritual e uma bênção. Não interpreto apenas uma rainha, mas uma mulher que amou a Romênia com uma força quase mística.”

Em 2026, o espetáculo chegou ao Royce Hall – UCLA, em Los Angeles, em um evento organizado por ocasião do Dia da Língua Romena pela União e Liga das Sociedades Romeno-Americanas, juntamente com o Grupo La Steaua, o Grupo de Língua e Literatura Romena e o Consulado Geral da Romênia em Los Angeles.

O momento tem um forte valor simbólico, pois em 2026 completa-se um século da histórica turnê da Rainha Maria pelos Estados Unidos, visita que impressionou a América e contribuiu para consolidar a imagem da Romênia no cenário internacional.

O pianista Daniel Manoiu completou a atmosfera do espetáculo e, ao final, o público teve a oportunidade de participar de um diálogo com a artista e receber autógrafos no livro “Rainha Maria. Solilóquio Real” (“Regina Maria. Soliloc Regal”).

Para Claudia Motea, o encontro com a personagem real é profundamente pessoal:

“Para mim, a Rainha Maria não é um papel que termina nos aplausos. É um papel que permanece no coração e continua a me ensinar sobre dignidade, coragem e amor.”

Prêmios e reconhecimento internacional

A carreira de Claudia Motea foi recompensada com inúmeros prêmios e distinções na Romênia, no Canadá, nos Estados Unidos e em Israel.

Entre eles estão os prêmios de Best Actress, Best Original Script, Best Production e Best Audience Awards, além da indicação ao Brickenâden Award.

Na Romênia, a artista recebeu o Magna cum Laude da UARF, o Prêmio de Excelência no Gala Celebrităților (Gala das Celebridades), a Claquete de Ouro – Prêmio de Excelência concedido pela União dos Autores e Realizadores de Filmes da Romênia, e foi designada uma das dez Mulheres de Sucesso do Ano de 2016. Em 2018, recebeu o título de Mulher do Ano na Gala Mulheres de Sucesso.

Pela atividade literária e cultural, recebeu o prêmio de Livro do Ano de 2019 em Israel por Shalom, Israel! e, em junho de 2021, foi agraciada na Academia Romena com o Prêmio Cronica Timpului (Crônica do Tempo), concedido pela União dos Jornalistas Profissionais da Romênia.

Em 2021, Shalom, Israel! também recebeu o título de Livro do Ano de 2021, e em 2022 a artista recebeu a Medalha Governamental Numismática do Estado de Israel, “Kol Israel Haverim” — Amigos de Israel.

Em 2024, Claudia Motea foi homenageada na Gala “Valori Contemporane” (Valores Contemporâneos) por sua maestria nas artes cênicas.

A arte como forma de educação e entrega

Além dos prêmios e espetáculos, Claudia Motea é uma artista preocupada com a relação entre a 

cultura e as pessoas.

Atualmente, ela é diretora artística do Teatrul NostruM – UZPR, afiliado à União dos Jornalistas Profissionais da Romênia, professora de arte dramática no Centro Cultural UNESCO “Mihai Eminescu” de Bucareste e representante da Editora Creator (parte do grupo Libris) para eventos de lançamento de livros em Bucareste.

Para ela, a arte também é uma forma de educação, e o teatro pode se tornar um espaço onde as pessoas encontram a história, a literatura e a sua própria identidade.

“Um solilóquio… confessado no papel sobre o meu amor pelas pessoas, pela arte, pela vida… Um meio de aprofundar a minha mensagem artística para as pessoas…”

Talvez o verbo que melhor a define seja “entregar” ou “dedicar” (a dărui). Claudia Motea constrói seus projetos a partir dessa necessidade de comunicação e de proximidade com o público.

“Gosto de pensar que sou uma pessoa normal, às vezes sou tímida, mas ambiciosa, sou generosa, com uma grande empatia pelas pessoas, sou perdoadora, grata, afetuosa, leal, responsável e com um coração grande para tudo o que é belo e bom, ou seja, para a arte!”

E o seu credo é simples:

“Vamos rir com vontade e aproveitar cada momento da vida. E venham em grande número aos meus espetáculos… Sim, espero sempre por vocês com amor e luz, lindas pessoas!”

Uma embaixadora cultural da Romênia

De Les Danaïdes e dos grandes festivais europeus até a experiência canadense e os projetos na América, a trajetória de Claudia Motea fala de perseverança, coragem e fidelidade à vocação artística.

Brâncuși, meu amor!, Ame-me… América!, Prelúdios, Shalom, Israel!, Já Pensou Nisso?, O Casamento de Zamfira, Kandy, A Pequena Malandra do 13º Andar e O Coração da Rainha Maria são marcos de uma carreira em que o teatro se encontra permanentemente com a literatura, a cinematografia, a música e a história.

E a presença de “O Coração da Rainha Maria” na UCLA representa muito mais do que um sucesso pessoal. É um momento em que uma história romena, contada pela voz de uma artista romena, chega diante de um público internacional.

Claudia Motea não leva para o exterior apenas espetáculos. Ela leva histórias, memória, emoção e identidade.

Talvez seja exatamente aí que reside a essência de sua arte: transformar o passado em emoção, a cultura em diálogo e o palco em um lugar onde as pessoas podem se encontrar além das fronteiras.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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Christian Tămaș

Cristina Rhea

‘Entrevista com o escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș’

Logotipo da seção Entrevistas ROLianas
Logotipo da seção Entrevistas ROLianas

“O que me preocupa, na verdade, é a busca por um caminho de retorno do ser humano às suas realidades e valores últimos, cada vez mais sufocados pela arrogância megalomaníaca do homem contemporâneo.” (Christian Tămaș)

Crhistian Tamas - Arquivo pessoal
Christian Tămaș – Arquivo pessoal

Queridos amigos, tenho a grande alegria e a honra de dar continuidade à minha série de entrevistas na maravilhosa revista Jornal Cultural ROL, com trechos da minha entrevista com o ilustre escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș.

É escritor, filósofo, orientalista e tradutor de oito línguas estrangeiras (árabe, francês, inglês, italiano, espanhol, português, catalão e irlandês), consultor de Ciências Humanas do IBC – Cambridge (Reino Unido) e pesquisador da Universidade „Al. I. Cuza“, em Iași (Romênia), além de professor de língua e civilização árabe no Centro Cultural Árabe de Iași (Romênia).

Christian Tămaș é Doutor “Magna cum laude” em Filosofia, com a tese “Estratégias de comunicação no Alcorão”. As línguas estrangeiras nas quais atua como tradutor são: árabe, francês, espanhol, italiano, português, catalão, inglês e irlandês (celta).

Também é membro da União dos Escritores da Romênia.

Capa do livro ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013
Capa do livro ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013

A entrevista foi publicada no meu quarto livro de entrevistas, ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (Editora Pro Universitaria, 2013).

O volume contém 32 entrevistas com 29 personalidades culturais e sociopolíticas da Romênia contemporânea, nas quais analiso diversos aspectos da vida política, socioeconômica e cultural da Romênia, bem como as formas pelas quais esses aspectos foram afetados pela ideologia comunista e pela transição para a democracia após 1989.

Os temas abordados nessas entrevistas tratam da ideia de nação romena e do destino do povo romeno nos planos cultural, social, histórico e político, analisando o processo do comunismo na Romênia, o período de transição pós-comunista e o período da monarquia constitucional romena.

Nascido em 13 de novembro de 1964, o escritor, tradutor e pesquisador romeno Christian Tămaș é uma personalidade única no âmbito da cultura romena.

Sua obra é abrangente e inclui: trabalhos especializados (livros); artigos e estudos; trabalhos apresentados em conferências, congressos e colóquios nacionais e internacionais; prefácios, estudos introdutórios, notas e comentários, organização e preparação de edições; traduções (livros); além de numerosos artigos, resenhas e traduções publicados em periódicos culturais romenos e internacionais.

Parte de seus trabalhos foi incluída em dicionários e obras de referência biobibliográficas de instituições internacionais especializadas (Centre for Translations and Textual Studies, Irish Research Council for Humanities and Social Sciences, Dublin, Irlanda; International Biographical Centre, Cambridge, Reino Unido; American Biographical Institute, Raleigh, Carolina do Norte, EUA).

Além disso, Christian Tămaș recebeu importantes prêmios nacionais (Prêmio da União dos Escritores da Romênia – Filial de Iași, Romênia, 2008; Prêmio de Tradução do Festival Internacional „Lucian Blaga”, Alba Iulia, Romênia, 2011) e internacionais (Prix Na‘man, Beirute, Líbano, 2007; Medalha de Ouro por Excelência Intelectual, Lima, Peru, 2012).

Sempre que nos encontramos, tive o mesmo sentimento: o de que qualquer diálogo com Christian Tămaș é único e, depois de apenas alguns minutos de conversa, transforma-se em um verdadeiro colóquio espiritual, no qual você, como ouvinte, assiste, mudo de assombro, à essência conflituosa/benéfica dos temas mais debatidos do mundo contemporâneo: o mundo árabe, o cristianismo, o espaço ocidental, os horizontes transcendentais, a sacralidade, a modernidade, a comunicação religiosa, a condição humana, o neopaganismo contemporâneo, a ideologia, a sociedade pluralista, a hegemonia mundial, o comunismo e o capitalismo.

Convido vocês a lerem trechos da entrevista a seguir, realizada em 2013, na qual analisamos grande parte desses temas fundamentais do mundo contemporâneo.

Rh. C.: O intelectualidade romena corre atualmente o risco de ser eliminada do cenário social e político da sociedade?

Ch. T.: A intelectualidade romena, infelizmente, já foi eliminada dos cenários aos quais o senhor se refere. E aqui me refiro ao verdadeiro intelectual, não àquele que possui um diploma de ensino superior. Mas isso é uma consequência natural da falta de clareza e de visão que a sociedade romena enfrenta em seu conjunto. E isso, por sua vez, é consequência do choque representado pela Revolução de 1989, uma mudança brusca e radical de uma maneira de compreender o mundo, por assim dizer, para outra, diametralmente oposta. Mais ou menos como na história de Abu Hasan, que certa manhã acordou califa.

Em nosso país, o comunismo deixou marcas profundas, por meio de uma “nivelização pela base” da sociedade, da destruição sistemática da individualidade e do deslocamento da atenção desta para a comunidade — mas não de uma comunidade entendida como o conjunto das individualidades de seus membros, e sim como uma multidão amorfa. É claro que os outros povos da Europa Central e Oriental que compartilharam nosso destino também passaram por isso, mas a tradição e a experiência pré-comunistas às quais me referi em determinado momento fizeram com que as sequelas do totalitarismo assumissem uma gravidade diferente em cada caso.

Ora, se o intelectual tem seu lugar (e sua razão de ser) no seio da comunidade, ele se torna um elemento negligenciável aos olhos de pessoas manipuladas e impedidas de desenvolver plenamente sua individualidade.

Rh. C.: O que significa o tipo de pesquisa científica que o senhor propunha, em 2013, no plano europeu e mundial?

Ch. T.: Não saberia dizer o que isso significa. Poderia, entretanto, dizer para onde ela se dirige: para o conhecimento da realidade do “outro”, tal como ela é, sem distorções nem preconceitos, com o objetivo de estabelecer uma base para o diálogo e a compreensão entre os seres humanos. É para isso que se voltam minhas preocupações e pesquisas das últimas décadas, não apenas desde 2009, ano de minha chegada à Universidade “Alexandru Ioan Cuza”, em Iași, e é também para isso que continuarão voltadas no futuro.

O que me preocupa, na verdade, é a busca por um caminho de retorno do ser humano às suas realidades e valores últimos, cada vez mais sufocados pela arrogância megalomaníaca do homem contemporâneo, para parafrasear o filósofo espanhol Milán-Puelles, que nos torna prisioneiros de uma autossuficiência cada vez mais desprovida de horizontes transcendentais.

Sinto que essa é a missão que me foi confiada e que me esforço para levar a bom termo, dentro das minhas possibilidades.

Rh. C.: Quais são as diretrizes que definem e a situação profissional do escritor/pesquisador romeno? Um bastardo da Europa? A elite intelectual europeia?

Ch. T.: É difícil definir as diretrizes que caracterizam o escritor ou pesquisador romeno. Isso depende de cada indivíduo, de seu horizonte, de seus ideais e dos objetivos concretos que estabelece para si. Em essência, elas são — ou deveriam ser — as mesmas de todos os escritores ou pesquisadores do mundo.

Em uma sociedade normal, plenamente “estruturada”, depende em grande medida dele tornar-se um “bastardo” ou um membro da “elite” intelectual de um país ou de um continente. Depende dele e da maneira como sabe compreender e assumir a missão que lhe cabe neste mundo.

Quanto à sua situação profissional, ela está longe de ser invejável, pois parece que, em nosso país, se confirmam as palavras do Salvador, que dizia que “ninguém é profeta em sua própria terra”. A falta de transcendência de nosso universo interior e exterior nos dota, enquanto sociedade, de umas formidáveis viseiras que nos impedem de enxergar além do estreito campo de visão que nos é imposto. Daí também a crescente falta de apetite por tudo aquilo que significa cultura e educação.

Rh. C.: O comunismo tentou minar a identidade cultural da Europa Oriental. O que a Romênia trouxe de novo e o que preservou, nesse espaço geográfico, especialmente no que diz respeito à cultura?

Ch. T.: Em primeiro lugar, não acredito que se possa falar de uma identidade cultural stricto sensu da Europa Oriental anterior ao comunismo. Os povos dessa região provêm de duas vertentes da espiritualidade e, consequentemente, da cultura cristã: a católico-protestante, de um lado, e a ortodoxa, de outro, que evoluíram de maneiras bastante diferentes.

O comunismo procurou minar, ideologicamente falando, as características dos povos sobre os quais estendeu seu domínio, tentando nivelar as diferenças sob as esteiras do totalitarismo, mas não conseguiu. Os povos dessa região da Europa permaneceram os mesmos, assim como suas mentalidades.

É difícil dizer o que a Romênia trouxe de novo. Quanto ao que preservou, manteve suas tradições e sua língua, que somente agora correm o risco de se perder. É um paradoxo, sem dúvida, mas apenas aparentemente. A falta de liberdade, em seu sentido absoluto, destrói as almas; a liberdade as rouba.

Rh. C.: A escola romena tem futuro?

Ch. T.: Qualquer discussão a respeito da “Escola romena” (que não consigo deixar de comparar, quase por reflexo, com a situação da educação nos demais países europeus) me faz pensar em uma pintura do artista alemão do século XVI, Hans Baldung Grien, intitulada “As Três Idades do Homem”.

Ali, à esquerda, aparece uma mulher nua, jovem e bela — a “escola” europeia, na minha visão, ou a “escola” como ela deveria ser —, enquanto, no centro, aparece uma mulher também nua, mas enrugada e descarnada, cujos ossos são mantidos unidos apenas pela pele; atrás dela está a morte, olhando por cima de seu ombro: a “escola” romena e seu futuro. É a resposta mais direta que posso lhe dar.

Rh. C.: Qual é a importância da cultura do Leste para a Europa?

Ch. T.: É muito importante, pois reflete as mentalidades, as ideias e as tradições de povos que sempre fizeram parte desse espaço cultural, que professaram a mesma religião cristã, compartilharam os mesmos tipos de valores e enfrentaram ameaças comuns ao longo da história.

Apesar dos conflitos de todos os tipos e das duas guerras devastadoras do século passado, a Europa, seja Ocidental ou Oriental, do ponto de vista espiritual ou ideológico, sempre constituiu uma comunidade circunscrita ao mesmo espaço interior que seus povos foram destinados — ou condenados — a administrar da melhor maneira que conseguiram.

Rh. C.: Em que consistiu o naufrágio do regime comunista na Romênia? Foi semelhante ao dos países da Europa Oriental? Quais são atualmente os grandes sofrimentos do povo romeno e os perigos que a Romênia enfrenta (no plano europeu e mundial — refiro-me sobretudo às alianças político-econômicas e à invasão da religião na vida da sociedade)?

Ch. T.: O comunismo foi, desde o início, uma utopia no sentido mais pleno da palavra e, por isso, fracassou tanto na Romênia quanto nos demais Estados europeus. E as causas de seu naufrágio foram mais ou menos as mesmas. Talvez tenham diferido apenas as nuances, não a essência.

O grande fracasso do comunismo, que também provocou sua queda, foi o econômico, fato que desencadeou uma reação em cadeia. O rebanho, se não recebe alimento, dispersa-se.

Quanto aos sofrimentos do povo romeno, sobretudo no plano europeu, acredito que eles gravitam em torno de uma crise de identidade. A velocidade das mudanças na Europa nas últimas duas décadas talvez seja um pouco rápida demais para nós, acostumados, quase geneticamente, a outro ritmo e a outra maneira de vivenciar a passagem do tempo.

Quanto aos perigos determinados pelas alianças político-econômicas, eles são os mesmos que dizem respeito aos nossos aliados: crises econômicas, conflitos internacionais…

O maior perigo vem de dentro, de nós mesmos, por assim dizer, da falta de coerência que marca nossas ações. Esse é o maior perigo que se manifesta, em um nível mais elevado, por meio da crise de identidade mencionada anteriormente.

E ele não está relacionado a uma invasão da religião na vida da sociedade, mas, ao contrário, ao seu afastamento ou, melhor dizendo, ao fato de a religião estar sendo empurrada para as margens da sociedade. A invasão à qual você se refere é apenas aparente e está relacionada, na melhor das hipóteses, a aspectos formais, ritualísticos, e não às essências. A exacerbação do ritualismo no âmbito de uma religião constitui um sinal clínico de sua morte.

A presença da religião na vida de uma sociedade, seja aqui ou em qualquer outro lugar, não diz respeito ao que você faz quando vai à igreja, mas ao que faz fora dela; em outras palavras, à maneira como você entende que deve viver efetivamente aquilo que professa.

Rh. C.: O que os seres humanos representam para o senhor? Eles nascem necessariamente com alma e consciência?

Ch. T.: O ser humano é uma criação de Deus, de quem recebe tanto a alma quanto a consciência. Ele nasce, portanto, bom, com alma e consciência, que conserva até o fim de sua existência. O que acontece com ele ao longo de sua existência terrena depende, em ordem cronológica, em grande medida, de uma série de fatores sociais presentes em seu entorno imediato, que condicionam seu desenvolvimento: os pais, os educadores, os amigos, a sociedade.

Por ser uma criação de Deus, assim como eu também sou, o ser humano é meu semelhante, é uma alteridade na qual eu me reconheço.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com  

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