O segundo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O segundo sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Aquele que nascera da mistura proibida entre uma das filhas da quinta e um lavrador de mãos encaladas conheceu, desde o primeiro sopro, o peso da rejeição. Para os filhos legítimos da quinta, não passava de um erro, um desvio na ordem preservada, um corpo estranho num lugar onde a pureza era lei.

Mas a mãe, contra todas as vozes e silêncios, acolheu-o. E jurou, com a firmeza de quem desafia o destino de Édipo, protegê-lo da comunhão dos ímpios e oferecer-lhe aquilo que a própria quinta tinha de mais paradoxal: um luxo nascido do lixo, uma dignidade construída sobre restos.

O miúdo cresceu, assim, como uma promessa cuidadosamente lascada. Educado segundo os mais elevados valores da Era das Luzes, inalava o mundo com uma sede que não era apenas de saber, mas de fuga. Para além das primeiras letras, mergulhou nas línguas antigas, grego, latim, e nas estruturas rígidas do alemão. A mãe acreditava, com uma fé quase ingénua, que o domínio das línguas para lá dos muros da quinta lhe daria asas suficientes para os ultrapassar.

Aos cinco anos, já lia clássicos vindos de terras distantes, como se cada palavra fosse um ensaio de liberdade.

Enquanto isso, o pai era arrancado da lavra e lançado ao garimpo, não por necessidade do tripalium, mas por vingança. Os irmãos da mãe não perdoavam o gesto que manchara o nome da quinta. E, pior ainda, não perdoavam o fruto desse gesto: um filho que desafiava a própria lógica da sua existência.

No garimpo, o homem encontrou um mundo ainda mais cruel do que aquele que deixara. Ali, descobriu que muitos dos considerados desaparecidos no outro lado da quinta não o estavam: haviam sido engolidos pela terra e pelo silêncio, mantidos como reféns de uma mina que alimentava, ironicamente, os próprios filhos da quinta, cultores da pureza e da ordem, à custa de silêncios cúmplices.

No primeiro dia, foi espancado. Chamaram-lhe intruso, ameaça, substituto. Cada golpe agravava-lhe a respiração curta, já marcada pela asma. Ainda assim, sobreviveu. E, como tantos outros no garimpo, aprendeu a sobreviver não pela força, mas pelo cansaço. Foi-se moldando à brutalidade, até que esta deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Dias depois, encontrou ouro ensanguentado. Não um ouro qualquer, mas aquele que poderia reescrever destinos. Um brilho raro, quase impossível, como se a própria terra, por um instante, tivesse decidido recompensá-lo.

Mas a fortuna, para os condenados da terra, é sempre breve.

Um olhar trémulo seu gerou um gesto mal interpretado pelos outros. E vieram os golpes, desta vez mais pesados, mais decididos. Não resistiu. Caiu ali mesmo, entre a poeira e o silêncio cúmplice dos demais. O ouro mudou de mãos. O corpo, esse, foi descartado, lançado numa cova rasa, coberto à pressa, como se nunca tivesse acolhido algo valioso: uma alma.

Na quinta, o tempo seguia o seu curso, indiferente. O miúdo crescia. Os filhos da quinta arrastavam-se pelos corredores das decisões, alheios, ou fingindo sê-lo, ao que se passava no garimpo.

E, mesmo que soubessem, o silêncio seria sempre a sua primeira decisão.

Mas há verdades que recusam permanecer enterradas.

Um cão, guiado talvez pelo instinto, ou pela justiça que falta aos homens, desenterrou o que restava do corpo. E assim, o segredo começou a apodrecer à superfície. Espalhou-se em zum-zum, depois em olhares desviados, até alcançar os ouvidos daqueles que mais temiam a sua revelação.

Tentaram contê-lo. Falharam.

Porque há sempre quem escute onde não deve, quem veja o que lhe é interdito: a guardiã dos avisos ignorados. E assim, a notícia chegou até ela.

A mãe.

Recebeu-a como quem recebe uma sentença. Não chorou de imediato. Primeiro veio o niilismo: um esvaziamento moral, e depois um silêncio pesado, absoluto, como a pedra de Sísifo. Mais tarde, a certeza: ele estava morto. Espancado por ter encontrado, por um instante, aquilo que lhes poderia ter mudado a vida.

O medo instalou-se. Não o medo da morte dela ou do miúdo, mas o da permanência na quinta. Criar o filho ali, sozinha, dentro daqueles muros inumanos, isso, sim, parecia-lhe insuportável, e ao mesmo tempo uma contradição aos valores de igualdade, solidariedade e fraternidade sobre os quais fora educada.

E então decidiu.

Fugir.

Mas fugir implicava atravessar o impossível: muros altos, arames farpados, cães treinados para impedir a liberdade. Ainda assim, havia algo mais forte do que tudo isso, uma vontade crua, quase selvagem, de não pertencer mais àquele lugar.

Antes que o filho fosse estendido no altar da hipocrisia, como oferenda imolada pelos ímpios no seu próximo ritual, preferia a incerteza da liberdade à segurança contaminada. Preferia cair fora da quinta como uma prostituta ressuscitada a apodrecer dentro dela.

E foi assim, no silêncio de uma decisão sem retorno, que se anunciou o segundo sinal da queda da quinta.

Ramos António Amine

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Depois da quinta

Ramos António Amine: Crônica ‘Depois da quinta’

Ramos António Amine
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Depois da quinta, as desculpas tornam-se inúteis. A culpa deixa de ser abstrata: tem culpados, e a responsabilidade pesa, inteira, sobre os ímpios. Descobre-se então que a vergonha que nos cobre os rostos não nasceu de nós, mas foi cuidadosamente construída por aqueles que, ao longo do tempo, sobreviveram do silêncio cúmplice. O silêncio, afinal, sempre falou mais alto do que a voz dos ímpios.

Os neutros, que se diziam isentos, sem perceber que todos sabiam que sempre estiveram ao lado das forças invisíveis,  farejam agora o mesmo odor da injustiça que durante anos defenderam ou toleraram.

Os indiferentes apressarão por dizer que sempre souberam que a quinta iria ruir. São esses os verdadeiros hipócritas: não os que erraram, mas os que assistiram em silêncio e deixaram que outros errassem. Durante anos acomodaram-se na confortável ilusão da neutralidade, como se a distância moral os absolvesse daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos.

Diferentes foram aqueles que sentiram o chão tremer quando ainda havia muros, os que ousaram questionar o calor infernal do poder instalado na quinta. A esses cabe agora uma tarefa mais difícil: desfazer-se da chave que manteve a porta da quinta fechada. Porque, depois da quinta, existe sempre o risco de se construir outra: com novos nomes e os mesmos gestos.

Depois da quinta, o silêncio já não é ausência de voz, mas o peso da verdade que resta quando tudo o mais cai. Não há muros a derrubar nem portas a arrombar, porque a quinta nunca foi apenas um lugar. Sempre existiu dentro de cada gesto cúmplice, de cada escolha de não ver, de cada conveniência moral que sustentou o sistema sem precisar de ordens explícitas. 

Quem ousou confrontá-la cedo percebeu que a sua queda não seria fácil, nem física. Não se tratava de destruir paredes, mas de romper consciências. A verdadeira derrubada começaria na recusa de dirigir-se de joelhos ao altar da hipocrisia; na coragem de acolher aquilo que o sistema julga em voz alta enquanto, em surdina, contempla os seus seios; na vigilância ética de quem permaneceu desperto quando era mais compensador dormir. Cada ato de honestidade tornou-se uma renúncia silenciosa à comunhão dos ímpios. Cada silêncio recusado abriu uma racha no cálice que sustentava a prostituta.

Depois da quinta, os muros desabam  e com eles desaparecem as línguas ensalivadas dos bajuladores. A miséria deixa de pagar IVA. Resta apenas o espaço nu da consciência: esse território sem máculas onde cada um é obrigado a decidir se reconstruirá a quinta com outros materiais ou se permitirá que a ética cresça livre sem altar, sem cálice e sem ídolos de teatro.

Depois da quinta não nasce o sagrado. Nasce o peso da escolha. Nasce a intimidade incômoda de olhar para si mesmo sem disfarces, sem rótulos, sem a proteção do corvo que se alimentava dos pintainhos das galinhas dos sem-teto. É aí  e apenas aí que a verdadeira derrubada acontece.

Os ímpios, incapazes de aceitar o que ocorreu, procurarão consolo em salmos 151, inventando escrituras tardias para justificar o que jamais foi justificável. Os seus bens serão repartidos entre os pobres empobrecidos pelos ricos, ricos que não passam de simples endinheirados e os seus descendentes carregarão a vergonha dos nomes que herdaram.

Depois da antiga quinta, a árvore frondosa ao redor da quinta ousará finalmente florir. As suas raízes alargar-se-ão de tanta felicidade contida. O ar, antes poluído, fará falta àqueles que o contaminaram. Os arames farpados que mantiveram intacto o perímetro da exclusão servirão agora para fabricar carros de arame para as crianças de pés descalços.

Os cães fardados reconhecerão os ímpios, mas não lhes obedecerão. Declararão caça não aos executores menores, mas aos emissores das ordens superiores. Os contratos assinados sob a lógica da exploração eterna dos recursos naturais serão desfeitos. Os seus assinantes serão obrigados a engoli-los, tal como foram engolidos os sapos sob o pretexto da paz. Haverá quem queira vê-los incinerados, como foram incinerados, em outros tempos, os críticos que ousaram falar quando ainda havia muros.

Depois da quinta, também aqueles que ruíram a velha quinta serão vigiados, para que não se convertam nos ímpios de amanhã. Porque aquele que diz “eu vos libertei” é mais perigoso do que aquele que explorou. Mesmo mortos, os seus corpos serão vitrificados para que, ao reanimarem, não possam revelar o caminho por onde foi enterrada a chave da velha quinta.

Depois da quinta, nada garante justiça plena. Mas já não há inocência possível. Cada um será obrigado a sujar as mãos para que o jardim prometido em Candide, de Voltaire, seja finalmente cultivado com vida para que cada um se torne digno das flores desse jardim.

Depois da quinta, ninguém pode assegurar que não surgirão novos traidores. Mas estes serão vigiados e, quando descobertos, serão vilipendiados na praça pública. As estátuas erguidas no interior da quinta serão vaiadas, laçadas pelo pescoço e arrastadas para vitalização nas redes sociais. As que resistirem à humilhação serão queimadas, enquanto os ímpios, já impotentes, assistirão à cena sem poder fazer nada. Pedirão que se paute pelo respeito à vida, à liberdade e à propriedade, mas se esquecerão de que jamais permitiram que os catadores de rua tivessem vida, liberdade ou propriedade.

Nesse tempo, este texto não terá circulação clandestina. A sua leitura será obrigatória nas escolas, nos comboios, nos transportes semicoletivos e nas igrejas, e o seu autor já não pensará em continuar o seu livro sobre ‘O País de Questões Silenciadas’. Tudo isso para lhes recordar que estão sozinhos neste buraco chamado mundo. Por isso, nada de desculpas.

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Prisioneiro

Evani Rocha: Poema ‘Prisioneiro’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA do Copilot – 24 de fevereiro de 2026, às 18:08 PM

Ele é prisioneiro do seu pensamento,
Dos paradigmas que nunca quebrou,
Das palavras presas na garganta,
E tanto ‘não’ que ignorou!

Ele é seu próprio algoz,
Nas noites escuras e insones,
Sem taça cheia ou luz da lua…
Na cumplicidade que forjou!

Ele é o vazio das ruas,
Das calçadas molhadas e lodosas…
O anônimo em frente ao espelho,
Os becos recônditos da alma!

Ele é o rosto triste na janela,
Esperando a chuva cessar,
Esperando passar o carteiro…
Esperando uma flor desabrochar!

Ele é o lencinho na despedida,
Nas mãos que acenam um adeus…
O epitáfio na lápide fria,
A última gota que verteu!

Ele é o réu, em frente ao juiz
A retórica ‘não crível’ que ensaiou…
Ele é o juiz dos seus próprios deslizes
E o apenado, que ele mesmo julgou!

Evani Rocha

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Delicadeza

Eliana Hoenhe Pereira: Poema ‘Delicadeza’

Eliana Hoenhe Pereira
Eliana Hoenhe Pereira
Imagem Pixabay.com

Delicadeza

Como não se apaixonar?

É como admirar um beija-flor

Suspirando pela sua flor

Na dança do amor.

Um não vive sem o outro.

Há cumplicidade envolta.

Livre pela natureza, 

Esbanja beleza 

Floreado de delicadeza.

Coração florido

Liberdade no sorriso,

Sutileza no olhar capaz de desvendar 

Todos os mistérios do fundo do mar.

Um jeito terno de afeto!

Dá vontade de ficar perto.

Eliana Hoenhe Pereira

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