O pomo da discórdia

Eduardo Martínez: Conto ‘O pomo da discórdia’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA do Gemini – 25 de janeiro de 2026, às 02:00 AM

Não sou tiete, mesmo quando estava lá com meus 15, 16 anos, nunca tive ídolos, apesar de andar com outras garotas da minha idade, todas apaixonadas por algum cantor ou astro do cinema. Minha mãe sempre disse que, ainda no tempo da creche, era eu uma adulta de fraldas. Certo exagero, mas que talvez retrate um pouco sobre o meu íntimo, reservada que quase sempre sou.

          Andei com uns problemas aí. Melhor, os problemas ainda continuam por aqui, enquanto tento lidar com eles de maneira racional. No entanto, por mais que busque seguir o caminho da razão, eis que o coração me faz tomar, vez ou outra, um desvio. Desvio? Não sei se a palavra exata seja essa, até porque fica parecendo que a vida é um jogo de xadrez, que você precisa sacrificar a felicidade para manter os pés calçados. 

          Descobri que andar descalça não é somente prazeroso, como também necessário. Além de massagear os pés sobre a areia macia, e mesmo que de vez em quando nos deparemos com alguma pedra pontiaguda ou um espinho, isso faz bem para a alma. A saúde mental agradece, e podemos, assim, buscar conforto em outras coisas.

          Tenho me alimentado melhor, tenho saciado minha mente de poesias. Nossa, como isso é bom! E você, por acaso, já se deparou com Drummond? Já reparou que Drummond rima com bombom?

          Não me entenda mal, mas confesso que tenho me interessado por outro. É verdade que o Carlos continua com seu cantinho reservado no meu coração. E como poderia ser diferente? Amo aquele jeito tímido e, ao mesmo tempo, atrevido desse mineiro com gosto de pão de queijo. Seja como for, confesso que tenho outro. E pode apontar todos os dedos para mim, que aceito a sina de ser culpada. 

          Antes de revelar o pomo da discórdia, deixe-me contar um pouco como tudo começou. Pois estava eu fragilizada pelo término trágico de um relacionamento, que nem eu, apaixonada que estava, tinha muita esperança de que vingasse. Coisa do tipo de encontro fortuito na balada, mas que insistimos, pura teimosia, esticar para ver onde vai dar. Durou pouco mais de mês, e poderia ir até o final do mês seguinte, caso não fosse por algo bobo, comum e, não obstante, derradeiro. 

          — Aurélio, o que você tá fazendo com a minha escova de dente?

          — Ué, escovando os dentes.

          — Que nojo!

          Pois é, não tinha como continuar com alguém que mal conhecia, apesar dos tórridos momentos de puro prazer, e que se apossa de algo que é só seu. De tão possessa que fiquei, não tive dúvida e mandei o, até aquele momento, amado, pegar as suas coisas e ir embora.

          — Laura, você é maluca!

          Maluca? Eu? Bem, não vou tentar fazer defesa em causa própria. As palavras do Aurélio não me afetaram. Maluca? Creio que ele pegou pesado comigo. Pois maluca é a mãe daquele sem-noção, usurpador de escovas de dente alheias. 

          Não sei se isso acontece com você, mas quando sinto princípio de desavença interna, busco na poesia o apaziguamento do qual necessito. E foi assim que fiz. Peguei meu Drummond na estante e, em meus braços, o levei para cama. Mas eis que algo me incomodou.

            — Carlos, por acaso estou errada?

          Mudo, o poeta me encarou de maneira serena. Pior mesmo foi aquele sorriso discreto de canto de boca, como se querendo dizer: “Laura, Laura, dessa vez você pegou pesado!”

          — Pois hoje você vai dormir novamente sozinho na estante, seu Carlos!

          E lá fui eu para a sala devolver Drummond, o meu amado Drummond, companheiro de tantos anos, o meu mineirinho com gosto de pão de queijo, para a estante de madeira. Que passasse a noite entre Vinicius, Bandeira, Castro Alves e tantos outros. Pensei, de relance, puxar pelas mãos o Casimiro. Muito menino, queria alguém com mais maturidade. 

          Quase desistindo, eis que vi debaixo da porta um envelope. Hum! Pelo volume parecia algo substancial. Nada de contas e contas a pagar. Tomei-o em minhas mãos e logo percebi que a remetente era a minha grande amiga Sarah Munck, poetisa das melhores. Curiosa, abri o envelope e me deparei com o livro ‘A verdade nos seres’, de Daniel Marchi. Folheei e li a dedicatória.

 Querida Laura, 

Tenho certeza de que estes poemas chegarão a você em momento apropriado.

Da sua amiga,

Sarah Munck

             Não quis parecer muito interessada a princípio, já que acabara de ter rusgas com o meu amor de longa data. Entretanto, como quem não quer nada, peguei o Daniel e o levei para meu quarto, onde passei a noite inteira tentando decifrá-lo. Se me sinto culpada por isso? Hum! Quem mandou o Carlos ficar do lado do Aurélio?

Eduardo Martínez

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Coletivo Mulheres Artistas – CMA promove mais um encontro do projeto Eles, Amigos Delas

No programa de hoje (8), uma conversa que irá revelar o que os convidados pensam sobre questões relacionadas ao cenário sociocultural brasileiro e as realizações de mulheres artistas

Hoje (8), às 18h, o Coletivo Mulheres Artistas – CMA promove mais um encontro do projeto Eles, Amigos Delas.

Nesta edição,  Angeli Rose, escritora, fundadora e coordenadora do CMA; Rose Pereira, escritora, advogada atuante e secretária-geral da UBE-PB e Vivian Gestial, secretária escolar, iniciante como escritora e ativista cultural, conversam com o carioca Daniel Marchi, advogado e professor na Universidade Candido Mendes; o iguaçuano Carlos Augusto Souto de Alencar, Poeta, cronista, trovador, contista, seminarista, haicaísta, professor, geógrafo, historiador e técnico em meteorologia e o sorocabano Sergio Diniz, escritor, poeta e jornalista , um dos editores do Jornal Cultural ROL e do Inter-NET Jornal, que vão responder o que pensam sobre questões relacionadas ao cenário sociocultural brasileiro e as realizações de mulheres artistas.

Coletivo Mulheres Artistas – CMA

O CMA foi fundado pela escritora Angeli Rose um pouco antes da pandemia, a partir de conversas com amigas e confreiras de organizações diferentes.

O Coletivo surgiu num grupo de whatsapp com adesões que foram sendo feitas à medida que Angeli ia explicando, propondo e convidando.

Com uma adesão que chegou a contar com 42 pessoas, hoje o Coletivo reúne 36.

Como coletivo cultural, o CMA é autossustentável, sem fins lucrativos e coparticipativo. Tem como objetivos principais dar visibilidade à produção estética de mulheres artistas nas diferentes linguagens e produzir conteúdo para reflexões sobre a condição da mulher na contemporaneidade.

Atualmente, o Coletivo Mulheres Artistas tem dois projetos fixos: MULHERES ARTISTAS CONVERSAM… e ELES, AMIGOS DELAS. Todavia, já há uma memória bem estabelecida que está registrada no canal do YouTube do CMA.

Um dos princípios que rege o “coletivo” é promover o protagonismo feminino, por isso, as mediações são hoje em rodízio, de maneira a possibilitar que todas aquelas que desejem sejam mediadoras de algum evento.

O projeto Ele, Amigos Delas foi idealizado a partir da demanda de frequentadores das lives que, além de amigos, tinham um posicionamento de apoiar o CMA e a luta de mulheres e corpos feminizados.

A pauta “violência contra a mulher” permeia várias iniciativas, quer estética, quer puramente política. A inclusão social é outro ponto da pauta do CMA.

De acordo com Angeli Rose, “o bom desse projeto é o fato de que estamos entre amigos e cidadãos bastante qualificados”.