Um dia na vida real

Um retrato cru da era digital, do desemprego e do silêncio na Avenida São João, por Evani Rocha

Evani Rocha
Evani Rocha
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Deita novamente no sofá, estica as pernas, levanta e aumenta a velocidade do ventilador de teto. Vai até a janela, puxa a cortina veneziana, olha a rua. O sol escaldante brilha no asfalto preto. Os carros se enfileiram no sinaleiro. Imagina o calor que os transeuntes devem estar sentindo. Vai até a geladeira, abre a porta, sente necessidade de comer algo, de preferência doce. Não está com fome. Começa abrindo os vários potes de plástico… quem sabe encontra algo interessante. Abre um, dois, três e, dessa vez, achou um pedaço de goiabada esquecido numa lata de sorvete.  Pensa rápido: ‘Acho que goiabada não estraga…’ Procura por um creme de leite, lógico, daria uma boa incrementada naquele achado. Oba! Encontrou na porta da geladeira em meio à algumas garrafas e potes com coisas não identificadas. Apanhou a caixa, balançou; tinha um restinho. Olhou a data. Estava vencido. Pensou novamente: ‘Creme de leite estraga…’. Resolveu deixar de lado. Ficou só com a goiabada mesmo.

Foi até ao armário da cozinha, abriu a segunda gaveta; os talheres estavam muito misturados. Mexeu, mexeu e finalmente encontrou um garfo. Espetou-o no pedaço de doce e jogou a lata dentro da pia, de qualquer jeito. Uma pilha de louça suja, saía para fora da cuba. Foi até ao sofá, deitou-se e recostou-se confortavelmente nas almofadas amassadas. Começou a degustar o doce. Seus olhos passeavam pelo ambiente. Seu cérebro processava, processava…reparou o lustre caindo, pendurado apenas por um fio, lembrou-se também da lâmpada queimada. Pegou novamente o celular. Passou rapidamente pelas redes, viu alguns vídeos e pulou vários. Abriu o Instagram, nenhuma novidade há vinte minutos. Começou a repassar algumas conversas antigas no WhatsApp. Ninguém havia falado com ele nas últimas seis horas. 

O doce acabou. Pôs o garfo sobre a mesinha de centro, juntamente com três copos sujos, que ali jaziam há pelo menos três dias. Continuou mexendo no celular. Nada lhe apetecia. Jogou-o no sofá; sentou-se. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha necessidade fisiológica. Enquanto se olhava no espelho, processava, processava…pensou em fazer a barba, talvez cortar um pouco os cabelos. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas. Abriu a torneira da pia, enxaguou a boca, jogou água no rosto. De súbito ouviu um apito no celular, enxugou o rosto e correu para o sofá. Apanhou o celular, viu que havia uma mensagem nova no WhatsApp.

Um amigo perguntou se ele estava bem, porque estava sumido!? Teve vontade de responder que estivera muito ocupado, com muito trabalho…processou. Resolveu gravar um áudio; assim poderia explicar melhor. Começou a gravar: ‘Que nada, cara, estou sempre por aqui, sabe como é, as coisas estão difíceis, estou levando currículo em vários lugares…aguardando ser chamado em algum!’ Preferiu dizer a verdade. Não gostaria de aumentar seus problemas cometendo o primeiro pecado capital. 

Ficou à espera de que o amigo continuasse a conversa, mas nada, o aplicativo mostrava ‘mensagem não visualizada’. Processava, processava…Chegou à conclusão de que o amigo era só mais um daqueles que dizem: ‘Olha, você sabe como te considero, cara, se precisar de alguma coisa, é só falar!’. Estava cansado dessa hipocrisia disfarçada de amizade. Lembrou que sua conta bancária estava praticamente no vermelho; tinha que economizar o máximo que pudesse, pois não havia mesmo com quem contar. Também, lá se vão sete meses desempregado. Levantou-se novamente do sofá. Andou pela sala em círculos por algumas vezes. Processava, processava…o celular na mão, de segundo em segundo, passava por todos os aplicativos e redes sociais que frequentava. Nada, nada, nada…pensou que estava com ranço dessa tal tecnologia…

Foi até a geladeira pela enésima vez, agora não procurou comida, pois já sabia que seria em vão. Pegou uma garrafa de plástico transparente com água, procurou por um copo limpo, viu que toda a louça que tinha estava suja dentro da pia, pensou que não ligava para isso, pegou um copo de vidro com um resto de líquido escuro e jogou fora. Era certamente resquício do café fraco feito pela manhã daquele dia. Tomou a água em um só gole. Voltou à sala, rodou o dedo novamente nos aplicativos e redes sociais. Olhou a mensagem enviada ao amigo: ‘Não visualizada’. Processou, processou…Tinha certeza de que o tal amigo fingiu que não viu a mensagem. Pensou: ‘Ninguém quer se comprometer…’

Foi até a janela novamente. O sol já havia abaixado. Dali a pouco seria noitinha. Talvez saísse para dar uma volta com Leocádio, seu cãozinho poodle. Por pensar em Leocádio, atentou-se que por horas não o via. Deu uma volta no pequeno apartamento. Olhou pela sala e cozinha e foi até seu quarto. O cãozinho dormia o sono dos deuses sobre seu edredom, embolado. Suspirou aliviado e pensou que pelo menos alguém conseguia dormir naquela casa. Com o celular na mão, foi novamente até a janela da sala. Olhava as pessoas passando apressadas sobre a calçada estreita, pensou que certamente a maioria delas estava indo ou voltando do trabalho. Teve vontade de gritar, sabe-se lá o quê. Chamar um nome aleatório.

Mas quem iria ouvir um chamamento do terceiro andar daquele prédio antigo da avenida São João, se o barulho do trânsito era insuportável. Olhou novamente o celular. Processou, processou, processou… Nada de novo, nem uma mensagem, nem uma curtida na última foto postada…, ninguém falou com ele nas últimas duas horas. Exceto o tal amigo, que não tinha tempo para responder à mensagem.

Evani Rocha

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Páscoa de injustiças e desigualdades

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Páscoa de injustiças e desigualdades’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem criada por IA no Bing - 19 de abril de 2025, às 21:41 PM
Imagem criada por IA no Bing – 19 de abril de 2025,
às 21:41 PM

Páscoa Portuguesa que ainda é vivida no meio de tanta desgraça, de tanta injustiça, de tanto desemprego, embora este tenha diminuído, miséria, fome, doença e suicídio, os portugueses, solidariamente, continuam a exigir, mesmo que desarmados, à mercê de um adversário, quantas vezes: por um lado: insensível, desumano; por outro lado, poderoso e violador de direitos adquiridos, apesar de alguns benefícios, estarem a ser repostos, recentemente.

Por isso, acreditam, até agora, numa “ressurreição” da sua dignidade, pelo menos enquanto pessoas humanas, de deveres e direitos, e acreditam que, mais tarde ou mais cedo, o seu próprio “Domingo de Aleluia” há-de chegar, que os responsáveis por esta morte lenta, terão de prestar contas, e vão ser sancionados, cívica e democraticamente, dando, ainda e generosamente, mais uma oportunidade de arrependimento de quem está envolvido e tem culpas naquela que foi uma calamidade nacional. Esse dia, o da Redenção, chegará se Deus e as pessoas assim o conseguirem e, certamente, a vitória dos oprimidos será o resultado.

Parece inadmissível que filhos de um mesmo povo se coloquem contra os seus progenitores, contra os seus concidadãos, que por eles tudo deram, para os elevar aos estatutos que hoje possuem. Como foi possível que se decretassem tão injustas e desumanas medidas contra avós, pais, irmãos, parentes, amigos e cidadãos em geral, por obstinação, por teimosia, por avidez de demonstração de um poder que, generosamente, foi entregue, confiando em promessas que pareciam sinceras, agora se confrontem com a deslealdade? 

Páscoa, tempo de Ressurreição, de alegria, de libertação de uma morte lenta que, durante alguns anos, conduziu ao túmulo da brutal austeridade. Tempo para uma nova esperança, para se acreditar nas potencialidades de cada pessoa humana, digna, verdadeiramente humilde, honesta e trabalhadora.

Confie-se, portanto, nas capacidades morais, éticas, intelectuais e físicas de cada português, de cada família, das empresas e das instituições de solidariedade social. Acredite-se que o dia da libertação poderá estar próximo, que será possível a reconciliação, porque é isso o que mais importa. 

Um apelo deixo aos mais favorecidos, a começar nos governos de todas as Nações, para que nunca, em circunstância alguma, descurem os cuidados humanistas que devem, e têm obrigação para com os seus concidadãos, afinal, todos os que lhes concederam o imenso poder que, após o voto popular, assumem em seus países.

Essa é que é a obra mais importante e que nesta Páscoa sirva de profunda reflexão para toda a população mundial. Páscoa que se pretende para todas as pessoas, como um dia, pelo menos um dia no ano, de meditação, de recuperação de valores humanistas universais; um dia para festejar e recomeçar com: Precaução, Moderação, Robustez, Justiça, Fé, Confiança, Caridade, Comiseração e Generosidade.

Nesta Páscoa, ficam aqui os votos muito sinceros do autor desta reflexão, que apontam no sentido de uma Páscoa com muita saúde, muito feliz, muito alegre, apesar da situação de guerras em que o mundo está mergulhado, considerando situações de diversa natureza, que não podemos ignorar: catástrofes, guerra, fome, miséria e morte.

Uma nova Esperança Redentora, entre a família e que também penetre nos verdadeiros e incondicionais amigos. A todas as pessoas, desejo uma Páscoa, onde não faltem a Saúde, Alegria e Felicidade. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Venade/Caminha – Portugal, 2025
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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