A batalha

Bruno Marquês Areno: Conto ‘A batalha’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
Imagem criada por IA do Grok - 23 de janeiro de 2026, `s 15:38 PM - https://grok.com/imagine/post/6bffaf89-3683-4313-bf72-770c9fa4d2c0
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O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.

As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.

O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.

Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.

Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.

Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.

Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.

Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.

Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.

O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.

O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.

Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.

Bruno Marquês Areno

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Fiat voluntas mihi

Julián Alberto Guillén López: ‘Fiat voluntas mihi

Armafuerte
Armafuerte
Imagem criada por IA da Meta

Los clavecines de Bach
se trocarán en pequeños,
las modulaciones
que soberbio
tocaba Scarlatti desvanecerán como siluetas.

La muerte será apenas
una brizna
rozando las sienes.

El destino
dejará de ser
la guillotina
que amenaza el cuello,
para suavizarse dulce.

No habrá hazaña
que no logres
bajo el licor del anhelo.

Superarás
a los espíritus antiguos,
si tan solo bebes
la ambrosía
de la confianza.

La fuente inalterable,
te digo,
vive en la cúpula
de tu cabeza.

Anda con prudencia
por los bordes estrechos
de tu cornisa.

Aquel
que tome sus pensamientos
y se decida a lavarlos
en hisopo
podrá levantarse ufano.

No le envidiarás nada
a los hombres ilustres
del pasado, pues con fe
construirás tu presente.

Harás calzadas más fuertes que las romanas,
si te enarbolas
de las opresiones mundanas.

No te abandones.

Las humaredas huirán
si eres en tiempo presente
y no fuiste
en tiempo pasado.

Serás semejante al azor
que avista al águila lejos.
Si recuperas al hombre
no habrá ya más imposibles.

Armafuerte

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A jornada da vida

José Antonio Torres: ‘A jornada da vida’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem criada por IA da Meta – 09 de setembro de 2025, às 07:49 PM

É interessante quando refletimos e traçamos um paralelo de como a vida se assemelha a um oceano, e cada um de nós, a um barco.

A vida é cheia de diversidades, adversidades e possibilidades. Algumas vezes ela está agitada e, como um barco em um oceano revolto, somos jogados de um lado para o outro. Subimos e descemos nas ondas dos acontecimentos.

Temos a possibilidade da fartura, mas, nem sempre, o ‘oceano’ está favorável ou nos encontramos no melhor lugar. Às vezes nos falta o controle do leme. Ele não responde ao nosso desejo, à nossa vontade.
As noites sem lua e o céu encoberto nos desorientam. Não temos as estrelas para nos guiar. Ansiamos pelo dia.

Algumas vezes as noites nos parecem longas demais e nos sentimos desesperançados. Mas as noites não são eternas. Em dado momento, percebemos o raiar do dia e com ele a esperança retorna, o sol torna a brilhar, o mar se acalma e retomamos o nosso rumo.

Temos uma longa viagem atravessando esse oceano que é a vida. Enfrentamos dias e noites de tormentas, mas, também, períodos de calmaria. Durante esses momentos de calmaria, nos refazemos e devemos procurar nos fortalecer para as possíveis futuras intempéries. Acondicionar provisões para os momentos mais complexos da viagem. Confiar nos parceiros que seguem conosco e com eles partilhar conhecimentos e experiências.

Alguns irão desembarcar em portos ao longo da nossa viagem. Cada um deles cumpriu a sua própria jornada, assim como cumpriremos a nossa. Vamos ganhando confiança e cada vez mais determinação, em busca do nosso porto final. Sim, chegaremos a ele. O nosso porto derradeiro…

O nosso corpo, assim como o barco no oceano, vai se distanciando do porto de origem e, cada vez mais, se aproximando do nosso destino final. Assim como o barco navegando no oceano, conforme vamos navegando na vida, seguimos, lentamente, desaparecendo da vista dos que ficaram.

Ao chegarmos ao nosso destino, nele descansaremos, reavaliaremos a nossa última jornada, revigoraremos as nossas forças e a nossa determinação, e traçaremos novos rumos para outras viagens.
Continuaremos navegando por outros mares, que nada mais são, do que outras vidas.

José Antonio Torres

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Poetizo, logo vivo – XIV

Pietro Costa: Pensamento ‘Poetizo, logo vivo – IV’

Pietro Costa
Pietro Costa
Imagem criada por IA do Bing - 03 de julho de 2025, às 21:19 PM
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às 21:19 PM

O acaso e o destino revezam seu domínio no jogo de cartas.

Pietro Costa

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O casulo e a borboleta

José Antonio Torres: ‘O casulo e a borboleta’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem criada pela IA do Bing
Imagem criada pela IA do Bing

Me arrasto em busca de mim mesmo;
O que me esperará mais à frente?
Qual será o meu destino?
Possuo muitas dúvidas,
Mas também desejos e metas;
Sim, tenho perspectivas e objetivos.
Embora tendo total consciência de mim,
Sinto que falta algo;
Estou incompleto…
E assim, sigo me arrastando.
Sinto algo muito forte em meu íntimo;
Isso me impulsiona a não desistir;
Intuo algo grandioso e que faz valer a pena o meu rastejar;
Mais um pouco… mais à frente… sigo.
O grande momento se aproxima…
Me recolho em meu interior, meu casulo.
Conhecimentos adquiridos…
Sentimentos intensamente vividos,
Alegrias… decepções… amores… realizações.
A transformação se processa lentamente e se realiza;
Sou recompensado pela persistência;
Meu espírito está livre e radiante como uma linda borboleta.

José Antonio Torres

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Ainda que…

José Antonio Torres: Poema ‘Ainda que…’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
"... não me permito ser contaminado pelo que representa as trevas..."
“… não me permito ser contaminado pelo que representa as trevas…”
Imagem criada pela IA do Bing

Ainda que as tormentas se abatam sobre mim;
Ainda que a escuridão tente ofuscar minha luz;
Ainda que a ingratidão me decepcione;
Ainda que a maldade e a violência caminhem pelo mundo;
Ainda que o próximo esteja distante;
Ainda que a prepotência e a arrogância insistam em se fazer presentes;
Ainda que a intolerância me afronte;
Ainda que a falsidade use a máscara da bondade;
Ainda que a estupidez dissemine conflitos;
Ainda que o descaso e a incompreensão se façam presentes;
Ainda que tudo pareça confluir para uma realidade degradante, onde a humanidade vai se deteriorando em si mesma;
Me recuso a ceder ao desânimo, procurando seguir imerso na luz.
Não me permito ser contaminado pelo que representa as trevas e me mantenho senhor do meu destino.

José Antonio Torres

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Noites e luas num portal

Letícia Mariana: ‘Noites e luas num portal’

Leticia Mariana
Letícia Mariana
Imagem do Banco de Imagens do Canva
Imagem do Banco de Imagens do Canva

Era noite. Algo ocorria dentro de mim. Eu não era a mesma pessoa.
Após tantas letras, alguns números rodeavam minha cabeça. Uma lógica confusa. Meus versos se tornavam além das estruturas – das minhas estruturas. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo.

“Onde estou?”, pensava. Na pracinha do Bairro Peixoto, algo estranho acontecia. Conversei com uma bela moça que me dizia que o destino nos reserva surpresas que só Deus poderia definir.
Mais um dia se passava. Fiquei tão tonta que até para hospitais me levavam. Sua presença era como aprender além do que eu poderia aprender. Troquei meus livros favoritos por livros nos quais jamais leria por conta própria. E eram livros interessantíssimos. Meus versos foram mudando de tom, de som, de saudade. E eu estudei matemática mais um pouco.

A noite era estranha. Eu deveria ser feliz ao seu lado, mas eu não te conhecia. Jamais saberia onde encontrá-lo. Meu destino estava traçado com ele. E ele era real, mas você não era. O portal deveria se fechar antes que algo pior acontecesse. Antes que eu enlouquecesse de vez.
Como fugir do portal? Você era o professor mais incrível do mundo, o amigo mais fiel, o amor que eu jamais teria. Nos meus sonhos, eu te via em várias dimensões. O tempo era diferente com você. O tempo era só nosso. Enquanto o outro homem, que era destinado para casar comigo, me cobrava de todas as maneiras. Eu não sabia o que fazer.

Na verdade, quando me vi longe daquele portal, senti que precisaria te encontrar. Tive que escolher o destino que deveria seguir. Fiquei tão triste, tão sozinha. Você tinha ido embora. E eu não sabia onde encontrar você. Os seus números se foram, suas músicas estranhas, os bailes de época, nosso bebê. Tudo tinha ido embora. Todas as horas do relógio voltaram a ser as mesmas. Tudo estava no lugar. As equações se apagaram e deram luz ao meu novo livro… tão triste como antes. E eu não sabia onde te achar.

Não pude continuar com isso. Minha vida pacata, minhas lágrimas, minhas dúvidas se fico ou se vou, se te procuro ou se aceito o meu destino chato.
Foi quando uma vela se apagou…

e eu te encontrei novamente.

Letícia Mariana

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