A renovação ética em tempos de divisão

Taghrid Bou Merhi

‘A renovação ética em tempos de divisão: como a palavra reconstrói o mundo’

Taghrid Bou Merhi
Taghrid Bou Merhi
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Em tempos em que os mapas se fragmentam e as distâncias entre o medo e o discurso se estreitam, o mundo parece entrar em uma nova fase de partilha: partilha de geografias, de riquezas, de narrativas e até mesmo da própria definição da verdade. As lealdades se distribuem como se distribuem os interesses, e as fronteiras são traçadas dentro da linguagem antes de serem desenhadas sobre a terra.

Nesse clima tenso, a questão já não é apenas política ou cultural — ela se torna, em sua essência, ética: como o ser humano pode recuperar o equilíbrio dos valores em um tempo dominado por paixões, interesses e visões conflitantes? Daí nasce a necessidade de uma renovação ética que não se reduza a um discurso moralizante nem se limite a slogans genéricos, mas que se manifeste como uma transformação profunda da consciência individual e coletiva — uma reconstrução do ser humano a partir de dentro.

A partilha não é um conceito neutro; ela implica uma distribuição de poder e de sentido. Quando os povos dividem a terra, dividem também a história, a memória e os símbolos que a acompanham. Quando as comunidades compartilham narrativas, as verdades se multiplicam a ponto de se confrontarem, e a voz única se fragmenta em estilhaços de vozes. Essa realidade cria um estado de rigidez moral, em que os princípios se tornam instrumentos de defesa e a diferença passa a ser percebida como ameaça. Em tais momentos, não basta apegar-se aos valores herdados; é preciso questioná-los, interrogar suas raízes e libertá-los do uso utilitário que esvazia seu significado.

A renovação ética não significa substituir superficialmente um sistema por outro, mas retornar às perguntas fundamentais: o que é justiça? O que é responsabilidade? Quais são os limites da liberdade quando ela se cruza com a liberdade do outro? Essas questões ocuparam os filósofos ao longo dos séculos, e, a cada época turbulenta, novas respostas emergiram. Após as guerras europeias, o filósofo alemão Immanuel Kant escreveu sobre o dever moral como um compromisso interior baseado no respeito do ser humano por si mesmo e pelo outro.

Seu projeto não era mera especulação racional, mas uma tentativa de estabelecer um critério que transcendesse interesses imediatos. A ideia do “imperativo categórico” surgiu como um convite a agir de modo que a ação pudesse ser universalizada — um comportamento cuja legitimidade provém de sua possibilidade de se tornar regra comum entre os seres humanos.

Cerca de um século e meio depois, em meio ao colapso dos valores europeus nas duas guerras mundiais, o filósofo francês Emmanuel Levinas apresentou uma concepção ética distinta, colocando a responsabilidade pelo outro como origem de todo sentido. Ele não partiu de uma lei abstrata, mas do rosto do outro, cuja presença se impõe como um chamado ético impossível de ignorar. Em tempos de divisão, quando grupos se cristalizam em identidades rígidas, recordar o rosto do outro torna-se um ato de resistência contra a objetificação e a exclusão.

A literatura também não permaneceu distante dessa inquietação ética. Nos romances de Fiódor Dostoiévski, o conflito entre o bem e o mal se desenrola no interior da alma humana, em contextos sociais marcados por desigualdade e angústia espiritual. Suas personagens vivem em ambientes turbulentos, onde a responsabilidade individual é constantemente posta à prova: pode o ser humano justificar seu erro pelas circunstâncias? A renovação nasce da confissão ou da punição? Suas obras revelam que a transformação ética começa quando o indivíduo enfrenta a si mesmo com honestidade dolorosa.

Albert Camus, por sua vez, abordou a moralidade em um mundo absurdo. Em seu romance “A Peste”, a epidemia torna-se metáfora do mal coletivo e da prova da consciência. As personagens não dispõem de certezas metafísicas que as tranquilizem, mas escolhem a solidariedade e a ação. A renovação ética aparece, assim, como um gesto cotidiano, uma insistência no sentido em meio ao absurdo.

Em outro contexto, o pensador indiano Rabindranath Tagore escreveu sobre a unidade entre o ser humano e a natureza, defendendo a superação do egoísmo nacional em direção a um horizonte mais amplo de humanidade. Sua visão não era política no sentido restrito, mas espiritual e cultural: a renovação começa pela reconciliação entre o eu e o mundo. Em tempos de disputa por poder e recursos, seu chamado à abertura e à tolerância soa como um convite ao reequilíbrio interior.

A filosofia árabe contemporânea também abordou essa questão sob diversas perspectivas. O pensador marroquino Mohammed Abed Al-Jabri propôs uma crítica da razão árabe e sua reconstrução sobre bases racionais, afirmando que qualquer renascimento ético exige a desconstrução das estruturas mentais que perpetuam o fechamento. O filósofo libanês Charles Malik, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, via na dignidade humana o alicerce de qualquer projeto ético moderno. Esses esforços demonstram que a renovação não é ruptura com a tradição, mas leitura crítica que abre novos horizontes.

Na era digital, a crise ética assume novas formas. A verdade se dispersa entre plataformas, e a opinião se converte em mercadoria. Nesse cenário, a honestidade torna-se uma responsabilidade ainda mais pesada. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa recorda que a liberdade de expressão não é privilégio, mas compromisso. O escritor e o jornalista não podem se refugiar na neutralidade quando a dignidade humana está em jogo. A renovação ética implica redefinir a relação entre liberdade e responsabilidade, entre o direito de falar e o dever de verificar.

O trabalho também ocupa lugar central nesse debate. O Dia Internacional dos Trabalhadores destaca a dignidade das mãos que constroem, cultivam e cuidam. Em um mundo onde a riqueza é distribuída de forma desigual, reconhecer o valor do trabalho é um ato ético. O filósofo alemão Karl Marx identificou na alienação do trabalhador um sintoma de desordem moral na estrutura econômica. Sua análise não era apenas econômica, mas crítica à perda da humanidade em um sistema que transforma o indivíduo em instrumento de produção. Sob essa perspectiva, a renovação ética exige repensar as condições de justiça social.

A questão ambiental igualmente integra esse processo. O Dia Internacional da Biodiversidade nos lembra que a relação entre humanidade e planeta não é mera exploração, mas responsabilidade. O filósofo alemão Hans Jonas formulou o “princípio da responsabilidade” voltado às gerações futuras, defendendo uma nova ética capaz de reconhecer a fragilidade do mundo natural. Em tempos de crise climática, a renovação ética torna-se uma necessidade existencial ligada à preservação da vida em todas as suas formas.

Diante desses exemplos, torna-se evidente que a renovação ética não nasce de decretos, mas de transformações sutis na consciência. Ela começa quando o indivíduo compreende que sua identidade não anula a humanidade compartilhada, que sua força não legitima a dominação e que sua pertença não justifica a exclusão. Em tempos de divisão, pode ser tentador apegar-se ao interesse imediato; contudo, a história mostra que sociedades que negligenciam sua dimensão ética mergulham em ciclos de violência difíceis de romper.

Literatura, filosofia e ciência não são esferas isoladas da vida cotidiana, mas laboratórios de sentido. Quando um poeta escreve sobre a dor do outro, redistribui a luz sobre áreas esquecidas da consciência. Quando um cientista reflete sobre o impacto de nossas escolhas no planeta, coloca diante de nós um espelho do futuro. Quando um filósofo questiona justiça e liberdade, abre caminhos para reconstrução.

A renovação ética, portanto, não é luxo intelectual, mas condição para a sobrevivência do sentido em um mundo fragmentado. É um percurso que exige coragem para reconhecer erros, disposição para escutar e capacidade de imaginar um mundo que acolha a diferença sem convertê-la em conflito permanente. Talvez não transforme rapidamente os mapas políticos, mas transforma o ser humano que os desenha.

Ao final, permanece a pergunta suspensa no espaço da reflexão: se o mundo divide terras, riquezas e narrativas, seremos capazes de compartilhar também a responsabilidade e reconstruir uma ética comum que salve nossa humanidade da erosão ou permitiremos que a partilha se converta em fratura irreversível?

Taghrid Bou Merhi

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The dance of the naked

Abdulla Issa: Poem ‘The dance of the naked’

Abdulla Issa
Abdulla Issa
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Naked , he wears a necktie
To hide his nakedness with the skins of the victims,
Preparing his speech
For the rites of his own funeral.
Afflicted with ruins and despair,
Beneath David’s sling,
I never began a war
So that it might end.

For two centuries
I have shored up a land
Promised to me alone
With a ram’s twin horns.
Brought to me as a ransom by the heaven’s folks
I shall no longer be a god to any soldier,
To see myself wandering the corridors of a miracle
That never comes.
No prophet will find peace
Planting myrtle in the shade of my grave;

No victor, fattened on my hatred-
Not even by a fingertip-
Will dare to stare into the eyes of the wretched,
the maimed,
Or those stripped of hope,
Of any hope at all, in life
Nor those useless who hate me.
Who guide my people to the brink of disaster.
Nothing resembles me but my kingdom
A woman with her dog
Fled twenty years ago from Crimea,
And settled in Hebron, cried it out-
Bring back to me the body of my son,
Tormented in the war of Ukraine,
And the life of my grandson,
Held hostage in the depths of Gaza’s tunnels!
You- who have driven my people
With the whips of sins.
Someone casts his voice into the space between them-
There is no place where we can feel safe
For our tomorrow except through our journeys,
No refuge sufficient to bury us in,
No riddles that could, after your death,
Be turned into miracles
Of your dwelling among the lives of the ancients.
And a child, who saw what he saw
In the corridors of Al- Shifa Hospital,
Cries out:
Look at him!
He is the one-
Naked,
Driven by the deeds of his hands
Those who stoned the prophets, naked.

Abdulla Issa

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O discurso da incompetência

José Ngola Carlos: ‘O discurso da incompetência!’

Kamuenho Ngululia
Kamuenho Ngululia
Imagem criada por IA do Bing – 26 de janeiro de 2025,
às 19:30 PM

O que é que os incompetentes já fizeram para a humanidade?!

À primeira vista, a resposta é: NADA! Mas, com um pouco de ponderação, percebe-se que esta pode não ser a resposta mais correta. Os incompetentes sempre desencorajaram os empreendimentos revolucionários, criativos e inovadores sob a alegação de que, já tendo se inventado tudo, nada mais é possível de se inventar.

Sim, este discurso é um discurso da incompetência!

O que é incompetência?

Com a vossa licença, vamos defini-lo a partir da noção de competência. Competência é um termo que compreende o conjunto de saberes, fazeres e valores pertinentes ao exercício de uma atividade, visando dar uma resposta satisfatória a uma situação-problema. Deste ponto de vista, a incompetência, que morfologicamente resulta da combinação do prefixo IN e a palavra COMPETÊNCIA, pode ser entendida como a falta de saberes, fazeres e valores pertinentes ao exercício de uma atividade que impede os homens e as mulheres de dar uma resposta satisfatória aos problemas.

Pensar que já não existe nada que se possa criar ou inventar porque tudo já foi inventado, é um discurso que só os incompetentes fazem porque, à luz da MATESE (Ciência Filosófico-Educativa do Aprender Humano) e da ESCOPESE (Ciência Filosófico-Educativa da Avaliação), OS SERES HUMANOS SÃO ONTOLOGICAMENTE SERES QUE SE FAZEM SENDO dentro de um determinado curso histórico e geográfico. FAZER-SE SENDO remete-nos a clara noção de que os homens e as mulheres são seres incompletos. Sua incompletude é uma caraterística ontogenética que lhes é indissociável e lhes abre uma infinidade de possibilidades de criação e inovação, pelo que, não existe nenhum fundamento válido para o discurso de que já não há nada que se possa criar ou inventar.

Vê-se que, se este discurso fosse verdadeiro, haveria toda uma necessidade de se mudar a concepção, cientificamente comprovada, da natureza inacabada do ser humana, o que, de resto, tem fortes implicações nas suas capacidades e habilidades, assim como amplia seu leque de infinitas possiblidades de reflexão, saber e atuação.

Este discurso impeditivo e irresponsável, é um que não é peculiar à nossa época, porque desde sempre houveram incompetentes no mundo. Enquanto o ser humano for este ser inacabado, aberto a infinidades de ser, saber e fazer, nunca se dará por completo e acabado.

Que, os que se prezam e prezam o desenvolvimento social, continuem a desafiar e a se desafiar na invenção de coisas, pensamentos e novos valores!

OBS.: Tanto a MATESE quanto a ESCOPE são pensamentos filosófico-educativos inéditos do professor e pesquisador angolano José Ngola Carlos, que os entende como complementos necessários da DIDÁTICA (Ciência que se ocupa com o estudo dos saberes, fazeres e valores pertinentes ao ensino), formando a composição tripartida e elementar da PEDAGOGIA (Ciência da Educação).

José Ngola Carlos, Msc.

Malanje, 26 de janeiro de 2026

Como citar este artigo: 

Carlos, J. N. (2026:1). O Discurso da Incompetência! Brasil: Jornal Cultural ROL.

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Entrevista com escritor e palestrante Michael Winetzki

Celso Ricardo entrevista o escritor e palestrante Michael Winetzki que está lançando o seu novo livro intitulado “Falando e Convencendo – Um manual de oratória e persuasão”

“Michael é um palestrante experiente e exerceu cargos de liderança em empresas de tecnologia, além de ter se dedicado ao estudo da maçonaria e história após sua aposentadoria. Seu livro mais recente, “Falando e Convencendo – Um manual de oratória e persuasão”, foi inspirado em técnicas aprendidas durante o curso na USP e tem como objetivo compartilhar sua experiência e ensinamentos para ajudar outros oradores a aprimorarem suas palestras.

Bem-vindos a mais uma entrevista da série “Entrevistas ROLianas”! Hoje, temos o prazer de receber o renomado escritor Michael Winetzki (https://www.michaelwinetzki.com.br), que está lançando seu mais novo livro intitulado “Falando e Convencendo – Um manual de oratória e persuasão”. Além de escritor, Michael é historiador e palestrante, trazendo consigo uma vasta experiência como executivo de empresas de alta tecnologia médica, especialmente na área de telemedicina, sendo um dos pioneiros no Brasil.

Atualmente, Michael é diretor comercial da trading Brasil Global Importação e Exportação e também presta consultoria a pequenas e médias empresas. Sua trajetória na Maçonaria iniciou-se em 1981, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, na Loja Maçônica “Estrela do Sul” n° 3, alcançando o grau 33° do filosofismo em 1989. Além disso, é membro da Loja Maçônica “Tríplice Aliança” n. 341 de Mongaguá-SP, vinculada à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo. Ele também faz parte do Rotary Club do Distrito 4420.

Ao longo dos últimos 15 anos, Michael tem se dedicado a palestras beneficentes gratuitas em todo o Brasil, arrecadando mais de 200 toneladas de alimentos, 800 cobertores e uma infinidade de agasalhos e material escolar para doação. Como autor, ele já lançou sete livros, sendo coautor de um manual de comércio exterior editado pela USP.

Além de suas realizações profissionais, Michael é um homem de família, tendo cinco filhos, doze netos e três bisnetos espalhados pelo Brasil. Quando não está viajando com sua esposa Alice para realizar palestras, ele desfruta do convívio de seus cinco cachorros em sua casa de praia, localizada em Mongaguá-SP. Vale destacar também sua participação nos volumes II e III da Série Maçons em Reflexão.

Com todas essas conquistas e experiências, estamos ansiosos para mergulhar na mente brilhante de Michael Winetzki e descobrir mais sobre seu novo livro e suas perspectivas únicas. Sejam bem-vindos à entrevista!

Para começarmos nossa conversa, poderia se apresentar e nos contar um pouco sobre você? Quem é o Michael? Conte-nos resumidamente qual é a sua história?

Nasci em Israel em 1950 e meus pais emigraram para o Brasil em 1956. Fui criado em Sorocaba onde me formei em Química Industrial e depois fui cursar Direito na Universidade Católica de Petrópolis. Ainda na Faculdade fui trabalhar na IBM e desde então, por toda a vida, estive na área comercial de empresas de tecnologia até culminar com a presidência da Card Guard Scientific Survival Ltd. de Israel, com a qual implantei telemedicina no Brasil. Também dei consultoria e treinamento de gestão para empresas públicas e privadas. A partir de 2003, aposentado, passei a estudar e escrever sobre vários assuntos, especialmente maçonaria e história.

Como palestrante com um impressionante currículo de centenas de palestras, gostaria de saber onde você adquiriu as técnicas que utiliza em suas oratórias. Qual foi a sua fonte de aprendizado e como você aprimorou suas habilidades ao longo do tempo?

Ainda na Faculdade de Direito fui convidado para ser monitor de turmas de anos anteriores e os estudantes gostavam de minhas aulas. A minha primeira palestra foi 1972 em uma igreja de Juiz de Fora, para um pastor que era colega de Faculdade. Na época o presidente da Casa de Cultura de Petrópolis, Dr. Mário Fonseca, vaticinou que eu viria a ser um bom palestrante. Mas depois de 25 anos de experiencia, achando que sabia tudo sobre falar em público, fiz um curso na USP, que foi um divisor de águas e proporcionou que eu atingisse um novo e elevado patamar.

E falando agora sobre livros, gostaria de saber se este é o seu primeiro trabalho literário ou se você já tem outros livros publicados anteriormente. Se você já tem outros livros, poderia compartilhar um pouco sobre eles, incluindo suas temáticas e onde os leitores podem encontrá-los?

Meu primeiro e segundo livros foram livros técnicos: O guia do Mercosul editado pelo Sebrae de MS e um Manual de Investimentos e transferência de tecnologia editados pelo Sebrae de SP e pela USP.

Meu terceiro livro se intitula “O caminho da felicidade”, uma exegese da Cabalá para o comportamento do homem no dia a dia e já está em 10ª edição com mais de 25.000 livros vendidos. Recebo constantes relatos de leitores que afirmam terem mudado o rumo de sua vida devido aos ensinamentos do livro.

Meu quarto livro, em 4ª edição, foi “O caminho da felicidade nos negócios” onde apresento de maneira leve e bem humorada técnicas de gestão para pequenas e médias empresas, com base na minha própria experiência de mais de quatro décadas de atividade e de 25 anos como diretor de associações comerciais.

O quinto livro “As lições da Arca de Noé, os preceitos para um relacionamento feliz” que apresenta as técnicas melhorar os relacionamentos entre casais, com base nas lições bíblicas da viagem de Noé, metáfora de um casamento, onde os casais embarcam em uma longa viagem sem saber o destino ou o tempo do trajeto na expectativa de um final feliz. Também está em 4ª edição.

Publiquei depois “Uma breve história da maçonaria” em três edições e então “Falando e Convencendo – um manual de oratória e persuasão”

Ainda tenho participação em diversos outros livros editados pelo Grupo Maçons em Reflexão, pela Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras, pela Fundação Ubaldino do Amaral, e agora pela CMSB.

Seu novo livro leva o título “Falando e Convencendo – Um manual de oratória e persuasão”. Quais foram as principais motivações e inspirações por trás da criação deste livro?

Como eu disse acima o curso de extensão que fiz na USP me apresentou a técnicas e exercícios que foram determinantes para uma grande melhoria na minha capacidade de expressar ideias e persuadir os ouvintes. Como a professora que me orientou já não está entre nós, decidi, em sua homenagem, compartilhar a minha experiência e os seus ensinamentos para que muitos outros oradores possam elevar o nível de suas palestras.

Qual é a importância da oratória e da persuasão nos dias de hoje? Por que as habilidades de comunicação são tão cruciais?

Falar bem é arte e ciência. Arte quando dom natural das pessoas que nascem com o carisma e extrema facilidade de comunicação. Ciência no sentido de que qualquer pessoa, utilizando as técnicas certas pode apresentar um expressivo desempenho.

Aristóteles ensina que a retórica (a arte da oratória) tem por finalidade convencer, persuadir. Levar o interlocutor a aderir às ideias de que fala através de argumentos plausíveis e verossímeis, embalados numa linda mensagem (eloquência).

José de Alencar, em sua Carta sobre a Confederação dos Tamoios define a palavras como “esse dom celestial que Deus deu ao homem e recusou ao animal, é a mais sublime expressão da natureza: ela revela o poder do Criador e reflete toda a grandeza de sua obra divina…mensageira indivisível da ideia, íris celeste de nosso espírito, ela agita suas asas douradas, murmura no nosso espírito docemente, brinca ligeira e travessa na imaginação, embala-nos em sonhos fagueiros ou nas suaves recordações do passado.”

Quais são os principais elementos que um orador eficaz deve dominar para persuadir e influenciar seu público?

São muitos: o domínio do tema, a extensão do vocabulário, a postura corporal, as técnicas de respiração e impostação vocal, a flexibilidade articulatória, a modulação e entonação e muita coisa mais. Parece complicado, mas não é. O livro ensina tudo isso.

Quais são os principais desafios que as pessoas enfrentam ao tentar melhorar suas habilidades de oratória? Como você aborda esses desafios em seu livro?

Talvez o mais difícil de todos seja redigir o discurso dentro das técnicos e padrões necessárias para uma perfeita transmissão da ideia e para o convencimento (persuasão) dos ouvintes. Outra dificuldade muito comum é a respiração inadequada, sôfrega, que torna incomoda para o ouvinte a audição da palestra.

Você poderia compartilhar algumas técnicas ou estratégias práticas que os leitores podem utilizar para aprimorar sua capacidade de persuadir e convencer os outros?

São muitas, mas alguns exercícios de dicção são divertidos:

O prestidigitador prestativo está prestes a prestar a prestidigitação prodigiosa e prestigiosa.

Outro:

As pedras da pedreira de Pedro Pedreiras são os pedregulhos com que Pedro apedrejou três pobres pretas.

O livro traz muito mais exemplos que favorecem o desenvolvimento da dicção do orador.

Existem diferenças culturais que devemos levar em consideração ao aplicar técnicas de oratória e persuasão? Se sim, como podemos adaptar nossas abordagens para diferentes audiências?

Conhecer a audiência, ou seja, para que se fala, é fundamental no discurso. Não adianta fazer a melhor palestra do mundo em alemão perfeito se a plateia só fala português. Não apenas a linguagem deve ser comum, mas é necessário que os códigos de linguagem entre quem fala e quem ouve sejam iguais para ambos, por exemplo: “Galo massacra o Diabo Rubro no Brinco da Princesa,” só é entendida por um fanático por futebol enquanto “precisamos efetuar um nefrectomia radical” não é entendida por quem não é médico.

Você poderia fornecer alguns exemplos de discursos famosos ou momentos históricos em que a oratória e a persuasão tiveram um impacto significativo?

O Discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, que foi proferido na cerimônia dedicação do Cemitério Nacional de Gettysburg, na Pensilvânia, em 19 de novembro de 1863.

Provando que, para quem tem o que dizer, dois minutos é tempo suficiente, em apenas 269 palavras, Lincoln invocou os princípios da Declaração de independência e definiu a Guerra Civil como um renascimento da Liberdade criando uma nação igualitária e unificada, em que os poderes dos estados não se sobrepusessem ao “governo do povo, pelo povo, para o povo”.

Estas poucas e inspiradas palavras tornaram-se o mais importante discurso da história dos Estados Unidos e até hoje inspiram os ideais de liberdade e democracia daquele país.

Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.

E n c o n t r a m o – n o s a t u a l m e n t e empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.

Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes. O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.

Cumpre-nos antes, a nós, os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão nobremente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos, a nós, os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente.

Que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção, que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra

Além da prática regular, quais outras atividades ou recursos você recomendaria para aqueles que desejam aprimorar suas habilidades de oratória e persuasão?

Luciano Pavarotti, cujo lindíssimo registro de tenor marcou as últimas décadas, disse em entrevista que, pelo menos dois meses antes de realizar um recital, cuidava de quatro coisas básicas, alimentação, sono, exercícios físicos e cuidados com a voz. Se pretendemos fazer da voz o nosso instrumento de trabalho, temos de tomar os mesmos cuidados.

Quais são suas principais mensagens ou conselhos para os leitores que desejam se tornar comunicadores mais influentes e persuasivos?

Estudar, aprender as técnicas e praticar, praticar, praticar……

Por fim, gostaria de saber onde os leitores podem adquirir o seu livro. Ele está disponível em alguma livraria específica ou pode ser adquirido online?

O livro pode ser adquirido diretamente do autor, com dedicatória, pela e-mail michaelwinetzki@yahoo.com.br ou pelo WhatsApp (61) 98199.5133 pelo valor de R$ 50,00 + correio. O valor do livro, exceto dos custos de sua produção, são destinados à beneficência.

Agradeço imensamente a oportunidade de poder apresentar mais este trabalho aos seus leitores. Gratidão. Paz e benção.

Celso Ricardo de Almeida
celso.ricarto@gmail.com
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O leitor participa: Marcos Francisco Martins: 'Narrativa X Discurso'

Prof. Dr. Marcos Francisco Martins

Narrativa X Discurso

A palavra narrativa tem presença nas ciências humanas e sociais. Pesquisadores tomam as narrativas como objeto de análise e recurso de coleta de dados em vários campos do saber. Mas este texto não trata desse significado do termo, pois aborda o sentido comum e o alcance que ele ganhou na fala de pessoas de variados níveis culturais no Brasil atualmente.

Na verdade, narrativa virou palavra da moda. É empregada para descrever o ato de um sujeito ao reportar um fato. Mas há outra palavra também utilizada com essa finalidade: discurso. Embora próximas na linguagem coloquial, narrativa e discurso têm diferenças importantes.

A narrativa tem espaço na literatura, sobretudo, na figura do narrador. Por isso, narrar é ato de criação, com liberdade de recorrer à ficção. Seu compromisso é persuadir o interlocutor e, para tanto, apela aos seus sentimentos e idiossincrasias conscientes e inconscientes, nem sempre tão nobres. Fundamenta-se em relatos particulares, que são universalizados e utilizados para validar atitudes ou determinada interpretação das coisas. É fácil fazer narrativas e muitos estão produzindo-as, sobretudo, empregando o meio propício para difundi-las: a Internet, com sua recorrência aos vídeos e áudios, com mensagens curtas.

Nas redes sociais da Internet circulam muitas fake news. Todavia, nem toda narrativa é uma fake news, mas toda fake news é a narrativa de alguém para lhe persuadir. A propósito, este termo, fake news, pode ser concebido como sinônimo de pós-verdade, palavra do ano de 2016 no Dicionário da Universidade de Oxford. Esse neologismo expressa a intenção de sujeitos em formar a opinião pública por meio de narrativas para as quais os fatos objetivos valem menos que os apelos às emoções e às crenças pessoais. E os disseminadores de fake news e/ou de pós verdade são ousados, teimam em difundir a máxima: ousem em não saber, justamente o contrário do lema latino sapere aude (ouse saber), que foi apropriado por Kant no texto “O que é o iluminismo” (1784). Sobre esse cenário, bem disse Umberto Ecco ao jornal La Stampa: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho… Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.”.

Discurso, por sua vez, é palavra em desuso. Como expressão própria – ou deveria ser! – da ciência, da filosofia, da política e da ética, ele é prisioneiro da realidade e tem compromisso com a sustentação empírica e lógica sobre o que afirma, apelando sempre à razão. O discurso ampara-se em evidências oferecidas por estudos, pesquisas, dados coletados e analisados. Exige rigor, daí a dificuldade de se adaptar ao ambiente das redes sociais, pois requer demonstração sobre o que é relatado. Assim concebido, cabe ao discurso demolir fake news e narrativas de pós-verdade, o que não é nada fácil. Quem se propõe a fazer discursos está perdido, sem saber lidar com a nova realidade das narrativas nas redes sociais.

Quando se enfrenta a situação de confusão, olhar ao passado é procedimento interessante. Na Grécia Antiga, os sofistas foram os primeiros sujeitos considerados como professor. Apesar de importantes ao desenvolvimento da filosofia, no contexto da democracia grega antiga, eles vendiam o saber que tinham, ensinavam os cidadãos a persuadirem os demais nas assembleias que definiam os rumos das cidades (pólis); buscavam sucesso, sem compromisso moral com a verdade dos fatos. Foi por isso que Sócrates, considerado o pai da filosofia ocidental, os recriminou. E, assim, o sofisma é entendido até hoje como sinônimo de argumento ou raciocínio concebido com vistas a produzir a ilusão da verdade e o sofista como aquele que utiliza habilidade retórica para defender argumentos e raciocínios inconsistentes.

Considerando o passado sofista e as redes sociais digitais, pode-se dizer que hodiernamente todos estão imersos em um mar de narrativas de sofismas, que reverberam fake news e/ou pós-verdades. Urge, então, resgatar os discursos, ousar saber, e se se for para apelar às narrativas, que seja para o deleite que a literatura nos proporciona.

Prof. Dr. Marcos Francisco Martins (17/04/2020)

Professor da UFSCar e pesquisador do CNPq – marcosfranciscomartins@gmail.com