Nokhwa
Bruno Marquês Areno: ‘Nokhwa’


O que os unia era aquele som proveniente do simples acto de descascar o amendoim. O sopro do ar nem mesmo dava para escutar. Como de costume, as mulheres, vestidas de capulanas e lenços coloridos, estavam sentadas na mesma esteira de palha, enquanto os homens depositavam os seus corpos volumosos sobre os troncos dos coqueiros abatidos há várias luas.
As mãos calosas de cada homem e cada mulher estavam cheias de amendoim por descascar. Quem nada fazia, mesmo, era Preetekete, um idoso de seus 108 anos de idade, cuja visão não suportara ver tanto desgosto, e decidira abandonar os olhos negros e melancólicos do velho, para que este, pouco sofresse e muito sentisse.
Como uma sacola de segredos, sempre colado ao Preetekete, estava Nokhwa, um rapaz que nem mesmo o velho que o adoptara, conhece ao certo, quantos anos tinha. Sempre que este perguntasse a sua idade, o velho chegava até a dizer que o rapaz já feito homem, com o rosto banhado de barba aos 9 anos. Há dias que se atreve até a afirmar que o jovem Nokhwa tinha 50 anos. Decepcionado, este mantinha-se em silêncio, dizendo nadas.
Enquanto os outros descascavam o amendoim, o velho virou-se para o jovem, e disse, num tom provocatório:
― Nokhwa!?
O jovem olhou para o idoso e protestou:
― Quantas vezes tenho que dizer ao vovô que o meu nome agora é Chico. Chico Bernabéu! – Insistiu, enquanto deixava o amendoim na peneira.
― Nokhwa Preetekete – também insistiu o idoso, enquanto içava uma cabaça cheia de farinha de mapira.
― Os espíritos escolheram esse nome para ti. A tua mãe deu aos filhos nomes longínquos e como resultado, os espíritos arrancaram-lhe os filhos. Quando você nasceu, uma mulher disse o seguinte, para sua mãe: “ola nokhwa, ola!”.
― Por que é que a mulher disse à minha mãe que eu era a morte? ― perguntou o rapaz.
― Porque todos os filhos que a sua mãe dera a luz, morriam no terceiro dia. Você foi o único que não morreu— disse o velho, indicando-lhe com a mão onde um dos dedos fora decepados e continuou — porque o nome que lhe foi dado, pelos espíritos, foi aceite. Pousou a cabaça de farinha de mapira na esteira e sentou-se.
― O senhor conheceu a minha mãe? ― Perguntou o rapaz, curioso. O velho olhou com olhos desconfiados, como quem não esperava escutar aquela questão.
― Eu já disse: Apanhei você no lixo. Tudo que sei de si, foi-me contado por gente que conheceu a sua mãe. – A resposta do ancião saiu gaguejada, na pressa da língua.
― Ultimamente já não sei em quem acreditar! – Suspirou, o jovem e continuou, dizendo:
― Os mais antigos do bairro dizem que sou filho de uma feiticeira. Uma mulher diabólica que enganou o filho de um grande feiticeiro com um jovem pescador com quem a minha mãe fugiu para as terras da Ilha de Moçambique. Como castigo, o feiticeiro lançou uma praga sobre ela.
O jovem parou a narração para recobrar o fôlego. Apreciou o silêncio dos presentes, procurando negação ou assentimento nos seus olhares. Depois, continuou.
― Sabe qual foi a maldição, vovô? Que ela se comportasse feito uma gata ou porca, e no terceiro dia depois do parto, a meia-noite, enquanto todos estivessem a dormir, ela devorasse os seus próprios filhos.
– O velho, as mulheres e os outros homens, nada diziam. Somente escutavam, boquiabertos.
― Também foi-me dito que o senhor é tio da minha mãe, e que fugiu comigo, das terras da Ilha de Moçambique até aqui, só para salvar-me da minha própria mãe, e que como consequência da fúria da minha mãe, o senhor ficou cego. Disseram-me que a tua cegueira, vovô, é resultado da maldição que minha mãe lançou sobre ti.
― Isso só são falácias. – Disse o velho, enquanto limpava da sua cara, o suor que aos poucos inundava a sua negritude facial. Acrescentou, dizendo:
― Nokhwa! Eu adoptei você aqui, bem nas proximidades do rio Lúrio. As pessoas que viram a sua mãe o abandonando na margem do rio, disseram que ela vivia em Chiùre. – O idoso, nervoso, voltou a empurrar o suor e deu continuidade a sua justificativa.
― Por que é que eu enganar-lhe-ia? Não seria capaz de proibir o seu direito de conhecer a sua mãe.
― O senhor tem medo de me ver morto. Sabe muito bem que ela irá devorar-me.
― Que medo, que nada! – Perguntou, Preetekete, um tanto eufórico. Disse mais: vi tanta coisa nesse mundo, Nokhwa, que nada mais me assusta. Eu vi coisas que você não imaginou vez alguma.
― Como o quê, vovô? Como uma mulher placenta, que devora os seus filhos no terceiro dia, depois de dar a luz?
― De novo, essa história?
A voz do velho saltou da garganta, ruidosa e irritada. Mas, traído pelas emoções, bem do fundo dos olhos esbranquiçados, gotas de lágrimas surgiram. Com a voz rouca, Preetekete indagou:
― É a verdade, o que tu queres saber? – A pergunta armadilhou ao jovem. Ficou com a boca costurada. Esperou tanto por aquele momento, as mãos decepadas tremiam. Mal conseguia mover os lábios carnudos.
― Responda!
― Sim, vovó. Eu quero saber da verdade— disse o jovem com lábios trémulos. O velho ergueu os olhos, e não se contentou em apenas erguer os olhos, não, apertou-os e disse:
― Está bem. Prepare-se para ouvir.
O vento parou, as folhas nos ramos das mangueiras se calaram, e o tempo fez suspense. A lua guardou alguns raios por trás das nuvens, para preparar o ambiente.
― Eu não sou seu avô— retirou o rapé da boca— E muito menos tio da sua mãe. Sabes quem sou? — O velho lançou os olhos para a escuridão, agora fixava o jovem. Devorava-o com os seus olhos de cego, como se pudesse ver. — Queres saber? Tens coragem para ouvir? Insistiu o velho, num grito rouco de espantar a alma.
Os olhos de Preetekete rasgavam o rosto de Nokhwa. O jovem abanou a cabeça, como forma de dizer que não. Então, o ancião se aproximou do rapaz, e revelou:
― Eu sou o velho Feiticeiro. Aquele que a tua mãe enganou. Fui eu, o primeiro homem da tua mãe. Fui eu quem lançou o feitiço contra ela. Fui eu.
Enquanto o velho falava, gritando, Nokhwa, assustado, procurou amparo nos homens e nas mulheres que descascavam amendoim. Mas eles não faziam outra coisa, senão descascar o amendoim. Pareciam autênticos robôs. Aliás, desde que a conversa começara, o quase homem não ouviu aquela gente soltar uma só palavra. Nem mesmo pestanejar. E foi naquele momento que Nokhwa se lembrou que o avô só permitia que aqueles homens e mulheres descascassem o amendoim, a meia-noite.
Quando o sol nascia, ninguém mais via aquelas pessoas.
― Por que é que olhas para eles? – perguntou, o idoso.
― Como sabes que eu olhei para eles? Você é cego! – Assustado, o rapaz ainda conseguiu ripostar, apesar de sentir o estômago amarrotado.
Preetekete sorriu, e disse:
― A minha cegueira é de morcego. Riu alto, deixando a mercê, os seus dentes escuros como a noite — a tua mãe, deu-me olhos de morcegos; merda!— disse o velho libertando da sua boca saliva de cor da noite, e o jovem sente um arrepio.
― E não adianta olhar para eles, rapaz. Estão mortos. Suas almas estão nestas conchas que eu trago na minha mukhova, aqui na minha cintura. – O velho ergueu a camisa suada e mostrou um cinturão de conchas e missangas multicolores – À eles, faço-lhes meus escravos. Vês aquela mulher de olhos castanhos e de pele clara como tu?
Nokhwa torceu o pescoço para a direita. Olhou para a mulher. Não só descobriu que ela tinha os olhos idênticos aos seus, mas também que os lábios da mulher eram carnudos e escuros como os seus. Gelado, olhou de volta para o velho.
― Ela é a sua mãe. Está morta pelo que fez com os meus olhos, e por me ter abandonado. Sabe: ela queria um jovem que não cheirasse rapé. Abandonou-me porque sou velho ―disse o velho em tom repleto de raiva. Mas como eu a amava, levei você comigo, poderia ter deixado você morrer, mas não, eu tinha que possuir algo que me lembraria essa ingrata, e isso é você Nokhwa— dizia o velho vitorioso, estendendo os braços para o ar.
O jovem levantou-se. Fixou os olhos na antiguidade de pele e ossos, abriu as mãos e agarrou-lhe pelo pescoço com uma força brutal. Preetekete tentou gritar, mas a sua voz quase não dava para escutar. Ele parecia um pato sendo asfixiado. O primeiro galo cantou, os homens e mulheres do amendoim desapareceram da esteira somente permaneceram o velho e o jovem.
O corpo do idoso não mais possuía vida. E quando menos o rapaz esperava, entram no quintal duas mulheres, que habitualmente traziam água quente para o Preetekete se banhar.
Assustadas, deixaram cair as bacias com água, uma queimando a outra, e nem sequer sentiram dor, pois não havia maior dor que aquilo: ver um neto assassinando o seu próprio avó, aquele que o encontrara por aí, abandonado, um bebé condenado à morte.
― Socorro, socorro, socorro! – gritaram as mulheres, eufóricas.
Sem demora, o quintal ficou repleto de gente. O jovem continuava ainda com as mãos no pescoço do velho. Olhou para os lados, mas não viu ninguém descascando amendoim. Nokhwa caiu ao chão, sem história.