II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

Eduardo Martínez recebe o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

Card sobre o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025
Card sobre o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

O escritor e colunista carioca Eduardo Martínez foi anunciado como um dos vencedores do II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025. A premiação, realizada pela Editora Holandas em conjunto com a Academia Interamericana de Escritores (AINTE), busca homenagear autores que contribuíram para o cenário intelectual e cultural do país ao longo do ano.

A escolha de Martínez pela comissão organizadora baseou-se em sua atuação recente no setor. Além de colunista do Jornal Cultural Rol, o escritor acumula outras distinções em 2025, como o Prêmio Clarice Lispector. Atualmente, ele também atua como editor e escritor do espaço Café Literário, no portal Notibras.

De acordo com os organizadores, o reconhecimento reflete dois pilares do trabalho de Martínez:

Produção Literária: A regularidade e o impacto de seus textos nos veículos em que colabora.

Fomento a Novos Autores: O papel do escritor na abertura de espaços para novas vozes na mídia digital e na mentoria de talentos iniciantes.

Com este novo prêmio, Martínez consolida sua presença entre os nomes em evidência na literatura brasileira contemporânea, unindo a escrita tradicional ao alcance das plataformas digitais.

Sobre o autor

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez

Eduardo Martínez é um premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado.

Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. 

Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora. 

Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP.

É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.

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No Quadro do Jornal ROL, Eduardo Martínez!

De leitor entusiasmado pelo Jornal ROL ao Quadro de Colunistas, a carioquice literária de Eduardo Martínez!

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveira

“Carioquice é o estado de espírito do Rio de Janeiro. Basta pisar na Cidade Maravilhosa para transbordar em alegria, esperança, orgulho e prazer. Carioquice é o sorriso permanente nos lábios. É o acolhimento às pessoas e o encantamento pela pluralidade cultural.” (https://carioquice.insightnet.com.br/sobre/#:~:text=Carioquice%20%C3%A9%20o%20sorriso%20permanente%20nos%20l%C3%A1bios.)

Eduardo Martínez, sempre “com um sorriso permanente nos lábios¨, é um premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado. Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. 

Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora.

Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.

Eduardo estreia como colunista do ROL com a saborosa crônica ‘O pai do rock foi um péssimo caçador’.

O pai do rock foi um péssimo caçador

Eduardo Martínez e o amigo Márcio Petracco. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez e o amigo Márcio Petracco. Foto por Irene Oliveira

Um dia desses, quando estava jogando conversa fora com o meu amigo Marcio Petracco lá no cachorródromo do Tesourinha, aqui na aprazível Porto Alegre, eis que ele diz algo que me deixou com um monte de pulgas atrás da orelha: “Dudu, o pai do rock and roll foi um péssimo caçador lá das savanas africanas”. 

      A princípio, imaginei que o meu amigo estivesse digerindo mais uma ressaca, até que ele prosseguiu com a sua tese de doutorado ao longo de mais de 40 anos de virtuose sobre os palcos da vida. Eu, um mero apreciador de música, decidi prestar atenção na fala do Marcio, mesmo porque estava com aquela tarde livre. Afinal, artista mais que tarimbado, o meu amigo entende muito mais de música do que eu. 

        — Dudu, o lance é o seguinte. Saca berimbau?

        — Sim, sei o que é. Aquele instrumento usado na capoeira.

        — Exato! Tire a cabaça. O que dá?

        — Um arco?

        — Sim, muito bem, meu garoto!

        A tal tese do Marcio era sobre o berimbau ter surgido de um arco e flecha. Faz sentido, pelo menos para mim, logo que o meu amigo me disse que o primeiro instrumento de cordas nasceu depois que um caçador, aquele mesmo lá das longínquas savanas africanas, estava caçando, digamos, um antílope. Eis que ele erra o alvo, mas se surpreende com o som da corda, a única corda, que ecoa em seus ouvidos privilegiados. 

        Pois bem, para tornar a história mais interessante aos meus ouvidos, eis que o Marcio alcunhou aquele caçador malsucedido de Sol, uma das sete notas musicais. E lá estava o Sol, curioso como ele só, quando começou a tocar a corda do seu arco e flecha. Toca daqui, toca dali, começa a tirar ritmos e sons diversos, até que, usando sua capacidade criativa, resolve colocar a corda entre os lábios. Ele se surpreende com o som que ecoa por sua cavidade bucal. 

        Provavelmente o nosso amigo caçador precisava comer para sobreviver. Não dava para ele viver apenas de música. Isto é, até que um outro caçador, este muito bem-sucedido, gostou daqueles sons tirados pelo Sol. Vamos apelidar esse grande caçador de Talib.

        De tão bom caçador que era, Talib resolveu fazer um banquete para todo o povoado. Obviamente que precisava de música para o rega-bofe. Então, o Talib chamou o Sol, que, a essa altura, já havia incrementado seu arco com uma cabaça. Estava criado o berimbau!

        O sucesso foi tamanho, que a notícia daquela festança correu toda a savana africana. Sol ficou tão famoso, que a linda Zuri se interessou por ele. Casaram-se e tiveram seis filhos; Dó, Ré, Mi, Fá, Lá e a pequena Si. 

        O Marcio disse também que o nosso querido Sol deve ter incrementado seu berimbau com mais uma corda. Depois com três, quatro e assim por diante. E, se não foi o Sol, com certeza foi algum dos seus descendentes. Seja como for, o fato é que todos os instrumentos de corda são herdeiros do arco e flecha daquele péssimo caçador de antílopes lá das longínquas savanas africanas. 

        Confesso que gostei tanto da teoria do meu amigo, que hoje em dia não consigo ouvir Johnny B. Goode sem imaginar o velho Sol animando toda aquela gente há milhares de anos lá na África. Se isso aconteceu dessa maneira, não posso afirmar. Mas tenho certeza de que o Marcio, além de músico fantástico, é um excelente contador de histórias. Ele inclusive me confessou: “Dudu, isso que te contei não está documentado, mas é baseado em causo venéreo”. 

Eduardo Martínez

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A vida não é tão simples assim

Eduardo Martínez

Conto ‘A vida não é tão simples assim’

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Imagem criada por IA da Meta em 10 de outubro de 2025, às 11:15 PM
Imagem criada por IA da Meta em 10 de outubro de 2025, às 11:15 PM

Ludmila, mas pode me chamar de Lud. Nem precisa de senhora, pois sei que sou velha, não preciso de ninguém para me lembrar disso a todo instante. Então, Lud ou, caso não se sinta à vontade, que seja Ludmila, como as nossas idades fossem quase um abismo intransponível para alguém tão cheio de regras que nem… Bem, que nem você!

Tudo aconteceu nos idos de 1963, quase início de 1964. Festa de Natal na casa de Dalva, tia do Jaime, com quem me casei tão novinha. Gente, como é que fui permitir que mamãe fizesse tamanho descalabro comigo? Tempos outros, quando as mocinhas, mal largavam as bonecas, já eram preparadas para o casório. E comigo não foi diferente. 

Jaime Gonçalves do Amaral, um jovem advogado, provavelmente alvo de algumas garotas, haja vista o futuro promissor. Nem o conhecia direito. Quer dizer, sabia quem era, pois frequentava a casa dos meus pais há quase dois anos. Na época, imaginava se tratar de negócios imobiliários ou coisa do tipo, até perceber, já perto do final da minha festa de debutante, que o negócio, na verdade, era eu. 

— Ludmila, minha filha, este é o Jaime, seu futuro marido.

Boquiaberta, olhei para minha mãe, que fora incumbida por papai a me dar a notícia logo após a valsa. Desesperançada, busquei os olhos do meu pai em busca de conforto, mas só senti náuseas quando ele me sorriu.

— Feliz?

Feliz? Como é que o meu pai, justamente quem deveria me proteger, poderia me fazer tamanha pergunta? Gente, eu era apenas uma pobre e indefesa garotinha de 15 anos. Já imaginou a cena?

Sem ter a quem recorrer, abaixei os olhos e respondi que sim. O que eu poderia ter feito? Fugido ao som de rock and roll, tão em voga naquela época? Apesar de muito nova, não era ingênua a ponto de imaginar que o Elvis ou o Marlon Brando fosse me salvar, ainda mais porque sempre tive uma queda pelo Montgomery Clift. 

Mamãe me preparou, mas sem entrar em detalhes. Disse-me o básico do básico, como se aquilo fosse resolver todos os meus problemas. Pelo contrário, pois me trouxe outros após me deparar com a realidade.

Casei-me no ano seguinte sem nem mesmo conhecer direito o homem que, a partir daquele momento, se tornou meu marido pelos próximos 43 anos, até ele sucumbir. Confesso que os últimos anos ao seu lado foram de profunda cumplicidade, pois desenvolvemos fortes laços de amizade, mas nunca de amor. Amor, creio que você bem sabe, é coisa mais complicada.

Tornamo-nos amigos, mesmo que o início não tenha sido um mar de rosas, quando meu marido, talvez querendo mostrar ao mundo algo que não era, tentou, a todo custo, me engravidar. Conseguiu seu intento e, nove meses após, nasceu Augusto, nosso único filho. A partir de então, enquanto cuidava da criança, vi meu marido se entreter com meu primo Carlos, solteirão convicto, em viagens de última hora, como se os dois fossem salvar o planeta da então quase certa Terceira Guerra Mundial, cada vez mais temida por todas as nações logo após a invasão da Baía dos Porcos orquestrada pelos Estados Unidos em 1961.

Não sei exatamente se foi o medo de que a população mundial fosse dizimada ou o alívio pelo nascimento do filho que empurrou Jaime para se aventurar com Carlos. Confesso que senti certo alívio pela situação, mesmo porque andava exausta, apesar da presença constante de Felícia e Maria Aparecida, nossas empregadas.

Quando Augusto já estava em idade que não necessitava mais de tantos cuidados maternos, eis que comecei a olhar ao redor. E foi justamente naquele Natal de 1963, que meus olhos se cruzaram pela primeira vez com os do Renato, sócio do meu esposo no escritório. Ainda tentei disfarçar meu interesse pegando uma castanha na ampla mesa. Entretanto, péssima atriz que sempre fui desde a noite de núpcias, não consegui convencer aquele homem tão… Bem, não estou aqui buscando redenção. Admito, Renato foi meu maior desvio de caráter. 

Nosso primeiro encontro aconteceu em uma biblioteca pública. Estava eu folheando um exemplar de Dom Casmurro quando Renato, sorrateiro, se aproximou por trás e pousou a mão esquerda sobre meu ombro. Quase gritei, mas me contive, ainda mais porque não queria ser descoberta, mesmo em local tão discreto. 

Conversamos trivialidades, até que fui convencida (ou será que fui eu a fazê-lo?) a irmos para um ambiente mais apropriado. Confesso que não gostei do hotel escolhido, mas não estava em condição de protestar. Seja como for, Renato me fez atingir notas que, até então, desconhecia. 

Apesar de amedrontada pela situação, afinal, era uma mulher casada e com filho, o desejo falou mais alto e, não sei de onde, arranquei coragem que até então desconhecia possuir. É óbvio que morria de medo de ser descoberta, e acabei sendo por alguém que eu nem desconfiava que iria aceitar aquilo.

— Lud, discrição é tudo. Não estou aqui para censurá-la, pois cada um possui seus desejos. E vontades, quando pega, não tem quem segura.

Incrédula, olhei para o meu marido, que me abraçou. A partir daquele dia, a nossa relação melhorou tanto, que passamos a ser confidentes. Ele me apoiava e, quando necessário, acobertava as minhas escapadas para os encontros furtivos e cada vez mais frequentes. E foi assim até que o meu Renato, que também era da Maria Cristina, faleceu em um acidente de carro. 

Jaime e eu, como casal, comparecemos ao enterro e cumprimentamos a viúva, que chorava copiosamente. Não sei se ela sabia do nosso caso, talvez até desconfiasse, mas jamais me tratou mal ou com indiferença. Pelo contrário, Maria Cristina sempre me considerou como uma fiel amiga, inclusive insistindo para que eu e meu marido fôssemos padrinhos do seu caçula, Leonardo. 

A amizade era tanta, que a esposa do meu amante, certa vez, me procurou para desabafar. Seus olhos azuis, marejados que estavam, eram de dar dor. Ela fitou-me e, em seguida, desabou em choro. Procurei confortá-la.

— Lud, tenho certeza de que o Renato tem outra.

          O medo tomou conta do meu corpo, mas tentei controlar aquele turbilhão de emoções. 

— O Renato? Tem certeza?

— Olhe o que encontrei caído no banco do carro.

Maria Cristina esticou o braço e abriu a mão. Lá estava um brinco. Não um brinco qualquer, mas com a letra “L”. Gelei! E quando tudo parecia perdido, eis que surgiu o Jaime de armadura montado em um belo cavalo branco. Bem, não foi exatamente assim, apesar que, devido às circunstâncias, parecia estar. 

Delicadamente, ele tomou o brinco das mãos da Maria Cristina e sorriu.

— Olha só, meu amor, o seu brinco! Que cabeça a minha!

                 Estarrecida, voltei os olhos para Jaime, que continuou com seu teatro. Aliás, devo confessar que ele sempre foi o Paulo Autran da família. 

— Maria Cristina, aposto que deixei cair no carro do Renato. Não foi lá que você o encontrou?

— Sim. Como você sabe disso?

— A Lud me pediu para pegar esse brinco no ourives, que ela havia deixado para arrumar esse ganchinho. Como é mesmo o nome, amor?

— Fecho.

— Sim! Fecho! Você me disse esse nome tantas vezes, que não sei como é que fui me esquecer. Aqui está o seu brinco de volta, meu amor. Você me perdoa? Por favor, diz que me perdoa.

Maria Cristina e eu nos olhamos e, então, sorrimos do meu apaixonado marido que, apesar de atrapalhado, era um amor.

— Claro que perdoo, seu bobo! 

Para não restar dúvida, Jaime e eu encenamos um beijo quase cinematográfico diante da agora aliviada Maria Cristina. A minha amiga me abraçou e, logo após aceitar tomar chá com torradas, retornou para os braços do seu marido fiel, ao menos aos seus olhos azuis ingênuos. 

Após a morte do Renato, pensei que nunca mais me envolveria com qualquer homem. Já estava beirando os 60 anos e me sentia deveras isolada desse jogo de sedução. Todavia, há coisas que, mesmo não sejam provenientes do coração, o corpo necessita. E foi assim que conheci o Álvaro, viúvo que havia se mudado para o prédio. Chegamos a trocar algumas figurinhas, mas logo percebi que ele só possuía repetidas, enquanto as que eu carregava na bolsa eram todas premiadas. 

Do Álvaro para o Marcelo, pouco mais jovem, cuja disposição me encantou por um mês, até que desisti antes que ele enjoasse de mim. Mas não pense você que saí do jogo, e fui à luta. Tive outros casos, inclusive alguns com maridos de amigas, até que fui surpreendida por um telefonema do Carlos. Ele estava em pânico e não sabia como proceder.

Jaime e meu primo haviam viajado em um final de semana, como há décadas faziam. Meu esposo, enquanto dormia, teve um enfarte e não mais despertou. Nem sei como arrumei forças, mas precisava honrar a história do meu querido marido e, então, peguei um voo e, poucas horas depois, lá estava eu no quarto da pousada em Salvador. 

Após os trâmites legais, consegui que o corpo do Jaime fosse trasladado para Brasília. E lá estava eu, a viúva, sem chão. Carlos e eu, desolados, dividíamos lágrimas sobre o caixão do homem de nossas vidas.

Eduardo Martínez

Eduardo Martínez - Foto por Irene Araújo
Eduardo Martínez
Foto por Irene Araújo

Eduardo Martínez é um premiado escritor carioca, que há mais de três anos mora em Porto Alegre, cidade pela qual é apaixonado. Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos com ’57 contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora.

Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. 

Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

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Santana, o sem-noção

Eduardo Martinez: Conto ‘Santana, o sem-noção’

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Imagem criada por IA da Meta - 25 de agosto de 2025, às 09:10 PM
Imagem criada por IA da Meta – 25 de agosto de 2025, às 09:10 PM

Era mais uma diligência, entre tantas realizadas nos últimos quase 20 anos trabalhando na polícia. Santana, ao entrar na viatura, tentou empurrar o banco para trás na ânsia de acomodar a barriga proeminente. A colega, sentada ao lado, obrigava-o a encolher a pança, mesmo porque Santana ainda guardava certa vaidade, já que mal havia suplantado a barreira dos 50. Os cabelos, cada vez mais ralos, eram jogados para o lado. Que deprimente, como se ninguém tivesse notado a calvície reluzente. Ah, Santana, por que teimas em ser tão patético?

     Lá ia o nosso quase estimado herói, apesar de possuir um distante perfil daqueles que costumam ser retratados no cinema. Santana não era um Clint Eastwood ou um Bruce Willis. Era evidente que ele estava fora de forma! Aliás, alguns professores de matemática poderiam até contestar tal afirmação, já que o redondo, ou melhor, a esfera também é detentora de uma forma. E tem até fórmula para que o seu volume seja calculado com precisão, apesar de que até o próprio Santana, certamente, não quisesse saber o resultado. “Já fui magro!”, ele sempre dizia a mesma coisa para todos.

    O caminho foi longo, pelo menos para o Santana, que não conseguia respirar direito tentando encolher a barriga. Todavia, a viatura acabou estacionando em frente à casa 28, cuja pintura há tempos se encontrava desgastada. Seria amarela ou branca? Talvez verde. Seja como for, esse era um detalhe que não precisava ser levado em conta. 

     A colega prontamente desceu do veículo, enquanto Santana disse que iria fumar um cigarro antes. Ela nem deu bola e já foi conversar com a senhora de vestido florido, apesar de chorosa, à porta. Que alívio o Santana sentiu! 

     Ele nem queria fumar, mas o hábito o fez colocar a mão no bolso e sacar um cigarro amarrotado. Ao mesmo tempo, por causa do tempo tentando esconder a pança, houve uma aglomeração de gases intestinais, que foram expelidos compassadamente. Infelizmente, para o Santana, soou-se certo estrondo, que fez a colega se virar para ele. Que vergonha, Santana!!! Ele até ficou temeroso em acender o seu cigarro, que já estava no canto da boca. Afinal, aquilo poderia se tornar um caso para o Corpo de Bombeiros.

      Depois de dar umas abanadas com as mãos, o Santana criou coragem e acendeu o tal cigarro, que já apresentava certa umidade por causa do longo contato com os lábios. Deu uma copiosa tragada, olhou ao redor alguns curiosos. Empertigou o corpo, o que lhe causou certo desconforto na lombar. “Já fui atleta!”, ele insistia em falar para os que ainda suportavam sua ladainha. 

    O velho policial tentou puxar pela memória, mas não se lembrava da razão pela qual estava lá. Ainda assim, preferiu entrar na residência a fim de dar apoio à colega. Virou-se e foi em direção à porta.

       Mal entrou na sala, avistou uma enorme televisão ligada, enquanto um velho, sentado no amplo sofá carcomido, parecia cochilar. A colega e a senhora conversavam na cozinha. 

    O Santana, apaixonado desde criança por futebol, começou a prestar atenção na partida que era televisionada. Internacional e Santos pareciam travar uma batalha sem muito glamour. Não havia Pelé, não havia Falcão. Mas a paixão pelo esporte bretão fez com que o Santana perdesse qualquer timidez e, então, acabou por se acomodar ao lado do velho, no exato momento em que adentravam na sala a colega e a senhora.  Sem se fazer de rogado, o Santana deu um leve tapa na batata da perna do velho e perguntou: “E aí, quanto está o jogo?”. A colega e a senhora, que há pouco se descobriu viúva, olharam abismadas para a cena. O Santana acabara de tombar o defunto sobre seu colo.

Eduardo Martínez

Sobre o autor

Eduardo Martínez - Foto por Irene Araújo
Eduardo Martínez – Foto por Irene Araújo

 Eduardo Martínez é um premiado escritor carioca, com quatro livros publicados, além de participações em mais de 40 outras obras.

Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do CCBB. ‘57 Contos e crônicas por um autor muito velho’ é seu mais recente livro.

Seus contos e crônicas são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP.

É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

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Memórias de uma senhora entre dois amores

Eduardo Martínez

‘Memórias de uma senhora entre dois amores’

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Imagem criada por AI Arte - 03 de agosto de 2025, às 07:05 PM
Imagem criada por AI Arte – 03 de agosto de 2025, às 07:05 PM

Não me casei com o grande amor da minha vida, é verdade, mas é com ele que ainda vivo momentos de luxúria, até chegar o dia em que terei que prestar contas com Deus, isto é, se é que Ele exista ou, então, não passe de devaneio da mente humana. Que seja uma coisa ou outra, não estou preocupada hoje, diante do meu marido, que repousa no caixão ornado de flores. Um bom homem, creia-me, que, durante quase 40 anos, me fez companhia nas noites solitárias, enquanto eu, talvez ingrata, só possuísse pensamentos voltados para o outro.

        O outro, por assim dizer, é meu primo Orlando, cujas promessas de um futuro juntos foram repentinamente quebras por uma gravidez inesperada. Não minha, mas de outra parenta, a Judite. Sem poder fugir da responsabilidade, meu grande amor desposou a mulher, com quem ainda vive sob o mesmo teto. Como ele próprio me confidencia durante os momentos de alcova, casamento é que nem fumo de rolo, tem que ir até a última tragada. 

          Não guardo rancor de Judite, que, aos 17 anos, se deixou seduzir ou seduziu nosso primo. E o que teria sido uma aventura, acabou em casamento antes da barriga despontar. E foi justamente nesse dia que conheci Júlio, amigo da família, que me fez par. Éramos padrinhos daquele casal, cujo noivo, pecadora que sempre fui, desejei passar a lua de mel. Não o fiz, obviamente. Pelo contrário, me afastei de todos alguns dias após. Fui estudar na capital.

          Meti a cabeça nos livros e consegui passar no vestibular para o curso de ciências contábeis. Durante as férias na faculdade, evitava voltar para minha Belmonte. Resisti quase sempre, até que, já perto de concluir o curso, visitei meus pais. Tudo corria bem, mas mamãe fez questão de me levar para uma visita à casa do Orlando e da Judite, que já estava na terceira gravidez. 

          Ao chegarmos, fomos recebidos por Orlando, que ostentava um bigode, o que o deixou parecido com o jogador de futebol Rivelino. Um charme, por assim dizer. Conheci os dois pequenos, Lúcia e Joaquim, que timidamente me receberam. Judite, perto de parir novamente, sorriu e me deu um longo abraço. Apesar de querer me livrar daquela situação o mais rápido possível, acabei aceitando de bom grado, pois senti o cheiro impregnado do nosso homem nos cabelos de Judite. 

          Enquanto estávamos sentados no amplo sofá da sala, ouvindo as várias conversas sobre a vida de casados dos meus parentes, a campainha tocou. Para minha surpresa, era Júlio, que estava na cidade por causa do falecimento do pai. Aqueles olhos tristes me fizeram querer confortá-lo. Abracei-o de modo prolongado, o que despertou um olhar de ciúme em Orlando. Sei que não deveria sentir o que senti, mas meu coração se encheu de regozijo.

          Dois dias depois, reencontrei Júlio na rodoviária. Por coincidência, ele havia comprado passagem de volta para a capital no mesmo ônibus que eu. Os nossos assentos não eram próximos, mas isso não foi empecilho, pois consegui convencer a senhora que estava ao lado dele de trocarmos de lugar. Como consegui? Simples. Agarrei Júlio pela cintura e menti que éramos recém-casados. 

          Durante o trajeto de Belmonte a Salvador, Júlio não parou de me chamar de doida por ter inventado que éramos casados. Falei para ele que aquelas horas de viagem seriam como nossa lua de mel. Não chegou a tanto, mesmo porque o ônibus estava lotado. Quase comportados, meu marido de mentirinha pegava na minha mão e a acariciava. À noite, enquanto a maioria dos passageiros adormecia ou fingia fazê-lo, tomei a iniciativa de beijar aqueles lábios tímidos. Apesar de surpreso, Júlio soube retribuir ardentemente. 

          Assim que chegamos a Salvador, combinamos de nos encontrar em breve. Não foi tão breve assim, pois eu precisava me dedicar aos estudos, já que enfrentaria o último semestre na faculdade. Falávamos por telefone uma ou duas vezes por semana, até que marcamos de tomar uma cerveja num domingo. Quando cheguei, percebi que Júlio estava ainda mais bonito. 

          Após alguns copos, comecei a imaginar como terminaríamos aquela tarde. Saímos do bar e fomos para o apartamento que eu dividia com uma amiga de curso. Ela, por sorte, tinha ido passar o final de semana na casa dos pais, em Feira de Santana. Todavia, para meu azar, Júlio se mostrou muito respeitador e fez questão de me acompanhar somente até a porta. 

          Nosso segundo encontro aconteceu apenas no mês seguinte, quando meu quase namorado me convidou para jantar. Era um sábado e o prato foi moqueca. Foi o encontro dos sonhos e, para minha sorte, Júlio me convidou para conhecer seu apartamento. Nem tive o trabalho de fingir constrangimento, pois era justamente o que esperava desde que passamos por marido e mulher naquele ônibus. 

          Não vou romantizar a noite que tivemos. Júlio, apesar de não ter se mostrado decepcionante debaixo dos lençóis, não conseguiu me impressionar. Seja como for, adorava estar ao seu lado e, após alguns encontros, ele me pediu em casamento. Aceitei como se fosse mais uma brincadeira e, duas semanas após minha formatura, oficializamos o noivado na casa de mamãe. 

          Casamos sem pressa quase um ano após na mesma igreja que Orlando e Judite. Por ironia, os dois foram nossos padrinhos. Lembro-me muito bem do beliscão que mamãe me deu ao perceber que eu não tirava os olhos do meu primo. O engraçado é que o romance que tivemos antes da gravidez de Judite foi breve, apesar de intenso, e, até onde sei, ninguém soube. No entanto, parece que mães sentem as coisas no ar. Soube disso após dois anos, quando Maria Clara, minha filha, nasceu.

          Como morávamos em Salvador, mantínhamos pouco contato com os parentes em Belmonte, ainda mais após o falecimento de mamãe, ocorrido pouco antes do Natal de 1993. E, quando íamos, era coisa rápida e cada vez mais espaçada. De vez em quando, recebíamos um ou outro parente em nosso apartamento, momentos em que ficávamos sabendo que fulano havia se casado, sicrano morrido ou coisa assim. 

          Júlio e eu, que pensávamos que iríamos passar o resto da vida em Salvador, decidimos retornar para Belmonte em 2016, dois anos após nos aposentarmos. Maria Clara, casada com Paulo, um rapaz que havia feito faculdade com ela, nos deu duas netas lindas, Júlia e Roberta. 

          Alugamos nosso apartamento na capital e fomos morar na casa que recebi de herança de mamãe. Apesar de pequena, nos serviu muito bem, pois éramos somente dois velhos aposentados e sem muitas preocupações. Gostávamos de passear de mãos dadas pela orla, como se fôssemos namorados ainda.

          Júlio, logo que retornamos para Belmonte, voltou a ficar próximo de Orlando, o que me obrigava a, vez ou outra, encontrar meu primeiro grande amor. Judite, que há tempos andava acamada por conta de um acidente de carro, mal conseguia andar. Júlio, alguns meses depois, me confidenciou que os dois não se relacionavam intimamente há mais de 10 anos, bem antes do acidente. Não sei se ele disse isso como forma de convite, mas passei a desejá-lo como nos meus 18 anos, quando tivemos nossa primeira vez.

          Aconteceu quase por acaso alguns dias após. Meu marido precisou ir ao médico para exames de rotina. Ele me pediu para levar um livro de poesias para Judite, além de lhe fazer companhia, pois ela parecia cada vez mais definhada. Júlio me deixou na casa do meu primo e ficou de me buscar mais tarde, assim que saísse da clínica. 

          Sentada em uma cadeira ao lado da cama de Judite, comecei a ler o livro de poesias “A verdade nos seres”, de Daniel Marchi, autor que até então desconhecia. Lembro-me de vê-la emocionada, ao ponto de marejar aqueles olhos tão tristonhos. A inveja, até então entranhada em meu ser, se transformou em compaixão pela esposa de meu primo. 

          Em determinado momento, levantei e fui até a cozinha pegar um pouco de água, quando percebi a porta se abrindo. Era Orlando, que me sorriu aquele sorriso que há muito eu havia esquecido. Ele se aproximou para me cumprimentar e, não sei o que me deu, eu o abracei e comecei a chorar. Orlando me fitou e, antes que pudesse me perguntar o motivo daquele choro, aproximei meu rosto do seu e nos beijamos ardentemente. 

          Meu ímpeto era largar tudo e cair nos braços do meu primo. Falei que poderíamos voltar a ficar juntos, mas ele disse que não poderia abandonar a esposa, ainda mais com ela praticamente inválida. Apesar de tamanho comprometimento com o matrimônio, Orlando não resistiu ao apelo do coração. Passamos, a partir daquele dia, a ter momentos só nossos, quando tentávamos recuperar tantos desejos reprimidos por décadas. 

          Não sei se meu marido desconfiou de algo, até porque há tempos vivíamos praticamente como colegas de quarto. Discreto como sempre foi, nunca me tratou de modo diferente. Sempre foi muito gentil e atencioso, além de ótima companhia. Nosso casamento, que começou como uma brincadeira naquele ônibus, provavelmente duraria mais uma década ou duas, caso o infarto não o tivesse pegado à traição. 

          Orlando veio me consolar e disse que, se eu precisasse de qualquer coisa, ele estaria sempre perto. Judite não pode vir, pois está cada dia pior. Os médicos já a desacreditaram e, talvez, não chegue ao próximo Natal. Isso me entristece muito. Digo isso de coração, acredite. Você pode até pensar que não estou sendo sincera, pois seria a oportunidade para viver livremente o amor que sinto por meu primo. Porém, gosto das coisas como estão.

          Edmar, filho mais novo do meu primo, também está aqui no velório. É incrível a semelhança com o pai. Minha filha também parece perceber, tanto é que não consegue tirar os olhos sobre o homem. Em vez de beliscão, seguro a mão de Maria Clara. Tenho certeza, mães sentem as coisas no ar.

Eduardo Martínez

Eduardo Martínez - Crédito Irene Araúo
Eduardo Martínez – Crédito Irene Araúo

Eduardo Martínez é um premiado escritor carioca, com quatro livros publicados, além de participações em mais de 40 outras obras.

Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do CCBB. ‘57 Contos e crônicas por um autor muito velho’ é seu mais recente livro.

Seus contos e crônicas são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.

Mídia social: Instagram

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