1. Na comunicação e no relacionamento interpessoal, as pessoas e as organizações têm de ser competentes, aqui no conceito prático de obtenção dos melhores resultados, isto é, fazer passar as mensagens verbais e não-verbais, que se vão transmitindo no exercício dos múltiplos papéis que diariamente são desempenhados pelas pessoas e organizações. Exija-se, pois, competência.
2. O relacionamento humano seria impossível sem o ato comunicativo, entendido este como uma interação entre pessoas que desejam a convivencialidade societária, seja em contexto familiar, profissional, social, religioso ou outro. As relações humanas pressupõem diálogo, troca de ideias, transmissão de conhecimentos, divulgação de factos, manifestação de sentimentos e tantas outras intervenções, só possíveis, pela comunicação, verbal e/ou não verbal.
3. Todas as comunicações humanas apresentam complicações, que os interlocutores procuram, por vezes, resolver e, outras vezes, dificultam:
a) Um primeiro problema que se coloca é que em todas as comunicações humanas ninguém pensa que há obstáculos: quer se esteja a conversar com uma pessoa, ou com um grupo;
b) Uma outra dúvida é que os indivíduos, de uma maneira geral, não são muito bons ouvintes, realmente a ouvir, quando alguém fala com eles e, depois, a entender corretamente o que ouvem.
4. O relacionamento interpessoal provoca, necessária e inevitavelmente, determinados comportamentos comunicacionais: uns, eventualmente, premeditados, estudados e treinados; outros, espontaneamente. Apesar de tais limitações, é possível caracterizar os diversos comportamentos comunicacionais, a partir de critérios definidos: «a) Afirmatividade do comunicador (transparência da linguagem); b) Respeito pelo interlocutor (respeito pelo outro. A partir destes dois critérios e como posicionamento prévio, aceitam-se quatro grandes tipos de comportamento comunicacional, a indicar: assertivo; passivo; agressivo e manipulador.
5. Caberá ao sistema educativo, apoiado na sua principal estrutura, a Escola, ensinar a usar, corretamente, uma determinada língua, na circunstância, a língua oficial em vigor no respetivo país. A esta estrutura, por enquanto ativa e insubstituível, para além de transmitir todo um conjunto de técnicas, regras e significações, compete-lhe, também, promover, dinamizar e aferir os resultados do ato comunicacional, incentivando os elementos essenciais: emissor-recetor para o desenvolvimento e aprofundamento do diálogo, com recurso aos métodos que em cada situação se considerem os melhores, de imediato, entre professores e alunos,
6. Diz-se que se está numa situação argumentativa, entre outras, sempre que se é chamado a tomar posição face a algo: seja a uma atitude; a um ato; a um projeto; a uma decisão; a um critério. Argumentar é, também, comunicar e daí a conveniência de se conhecer bem o recetor, para que se verifique uma compreensão cabal do discurso argumentativo
7. A tónica para o desenvolvimento de relações humanas sadias, frutuosas e duradoiras passa pela ação comunicacional, pelo ato comunicativo entre pessoas, entre grupos, entre nações. Não haverá outro caminho mais seguro e pacífico do que aperfeiçoar todas as técnicas, estratégias e metodologias para uma prática de relações humanas que possa estar acima de todo e qualquer interesse ilegítimo.
A instituição de um paradigma comunicacional impõe-se, hoje, à sociedade universal, sendo urgente implementar todos os recursos possíveis para que o relacionamento humano intercultural, inter-religioso, intergrupal, interplanetário, seja uma regra e não uma exceção.
Venade/Caminha – Portugal, 2026
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
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Ser educado é uma condição que confere prestígio ou respeitabilidade a quem deste atributo se valha. Para tal, a família, o círculo de amigos, as experiências no trabalho, na comunidade religiosa, na escola e em outros ambientes concorrem para que tal se concretize. Daqui resulta a compreensão de que, a escola não é, e não pode ser, o espaço privilegiado ou exclusivo para a formação integral das pessoas.
Apesar do acima dito, o concurso da escola para tornar os seres humanos educados é de uma importância tal que, ser educado não pode ser confundido com apenas ser intelectualizado. A educação é uma prática e qualidade na qual se encerram, fundamentalmente, dois elementos: a inteligência cognitiva e a inteligência ética, conforme diria o Professor Doutor Will Tuttle (2005). Quem foi verdadeiramente educado, não se pode achar apenas com a mente capacitada, torna-se imperativo que se encontre também com o coração treinado (Osho, 1960).
Infelizmente em Angola, quero crer que esta situação reflete uma triste realidade que se pode encontrar um pouco por toda parte do mundo, o sucesso da nossa educação é medida, esmagadoramente, pela quantidade de estudantes que transitam de uma classe para outra, do que pela qualidade dos saberes, valores e práticas adquiridas por eles ao longo da classe frequentada.
Uma prova do fracasso moral da nossa educação acadêmica, em relação aos estudantes, está no fato de que em momentos de provas ou exames, os professores são transformados em infelizes vigias e os estudantes, em vigiados sôfregos. O que eu vejo neste triste episódio é uma fealdade, diria o pedagogo Allan Kardec (1944), que denuncia uma relação de cão e gato, onde o professor, incapaz de ensinar as necessárias qualidades morais, vê-se obrigado a recusar a liberdade aos estudantes que, sem dúvida, enveredarão a práticas de desonestidades acadêmicas porque pouco ou nada aprenderam ao longo do ano.
É preciso educar, mas educar com amor, paciência, inteligência e domínio dos saberes, valores e práticas que se quer inculcar nos estudantes. A educação é como uma faca de dois gumes, se ministrada com qualidade, torna os seres humanos valorosos. Porém, se ministrada sem consciência, servirá, certamente, como um tiro pela culatra.
Referência
Kardec, A. (1944). Obras Póstumas. Federação Espírita Brasileira.
Osho. (1960). Revolution in Education. Osho International Foundation.
Tuttle, W. (2005). The World Peace Diet. Lantern Books.
Diamantino BártoloImagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69d69d15-f0c8-83e9-9349-ece4b191b68a
A problemática da educação para a cidadania, e para os direitos humanos, ganhou visibilidade e pertinência maiores a partir da Segunda Guerra Mundial e também em Portugal. Mas se entre portugueses existiram (e ainda existem) graves situações de violação dos direitos humanos, como adiante se anotará, também nos territórios que atualmente constituem a CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa, o panorama não será o melhor, todavia, é oportuno, e justo, realçar o esforço que a partir das respetivas “Constituições Políticas”, bem como no domínio da intervenção concreta e diária se vem fazendo, para melhorar comportamentos, atitudes e sensibilidades, relativamente ao cumprimento intransigente dos direitos humanos, os quais quando respeitados, constituem autenticas Pontes entre povos.
Um aspeto que importará referir, prende-se com o apelo que fica à sensibilidade de cada um, para a formação da cidadania. Em função das épocas, dos locais, das culturas, da formação e educação das sociedades, entre outros fatores, também os valores serão diversos, não opostos, mas diferentes e, mesmo assim, haverá uma panóplia comum a todos os homens ou, pelo menos, é necessário que o seja. Os valores absolutos serão difíceis de se aplicar, contudo, cabe o dever de tentar implementá-los.
É importante, neste breve apontamento, vincar a ideia da tolerância, entendendo-a como fundamental para a compreensão dos demais valores, que visam proteger a cidadania, esta como a grande PONTE, quando se habita um mundo cada vez mais universal, mais integral e globalizante, em que não é fácil lutar contra sectarismos e etnocentrismos onde, quando convém, consideram-se como bons os próprios atos, como excelentes as suas ideias; porém confrontados com opiniões, contrariedades e interferências, nos interesses privados, faltam a cidadania e a tolerância para compreender e aceitar os atos e as ideias dos outros concidadãos. Em vez de muros, construam-se PONTES.
Venade/Caminha – Portugal, 2026
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
José Ngola Carlos: ”Mudar é difícil, mas é possível!’
José Ngola CarlosPaulo Freire – Imagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69c82da8-bc0c-83e9-95b4-5bd6d8355450
Agora, sim, Paulo Freire me é familiar!
O empreendimento não foi de estudo rigoroso e sistemático, mas o de simplesmente conseguir alguma familiaridade com o pensamento didático, pedagógico e político de Paulo Feire. Para isto, foi necessário empreender um projeto de leitura extensiva de 24 (vinte e quatro) livros em Português e 11 (onze) livros em Espanhol.
Ao começar com os livros em Português, conveio priorizar o icônico Pedagogia do Oprimido. Não raro, as pessoas que nada ou pouco conhecem sobre a vida e obra de Freire, mediante leitura, o conhecem apenas pela referência da obra Pedagogia do Oprimido, como se se tratasse da sua primeira e última obra. Porém, Paulo Freire escreveu dezenas de livros que merecem igual menção honrosa como o da Pedagogia do Oprimido.
Finda a leitura dos livros que tinha disponível em Português, o percurso continuou com os livros em Espanhol que não estavam disponíveis na Língua Portuguesa. Assim, para conseguir a tão desejada familiaridade com o pensamento de Freire, foram necessários, para o meu caso, a leitura de 35 (trinta e cinco) livros seus.
No dia 28 de Agosto de 2025, termino o percurso de familiaridade simples, porém, não simplista, conforme diria Freire, com a filosofia educativa do autor lendo a obra Pedagogía de los Suenos Posibles.
Neste pequeno texto, que agora disponibilizo ao Jornal Cultural ROL e aos meus leitores e leitoras, aos quais muito estimo, mais do que simplesmente registar a memória de uma trajetória de leitura que visava compreender a ontologia, axiologia e epistemologia de Paulo Freire, o texto também se propõe como um exercício de síntese de um período de leitura-estudo. O texto pretende igualmente despertar o interesse dos leitores e leitoras para o estudo das obras de Freire e, muito objetivamente, é intensão do autor fornecer uma espécie de visão geral do pensamento freiriano, embora não se pretenda completa.
Dentre vários assuntos tratados por Paulo Freire em suas obras, que na sua maioria se consubstanciam em diálogos, cartas e conferências, constam:
A educação como um ato político;A prática educativa como intrinsecamente dialógica e dialética;
A educação como um quefazer cultural e revolucionário e não reacionário;
A denúncia da prática educativa como uma prática ideologicamente não neutra;
Uma séria crítica ao sistema educativo tradicional e bancário como não sendo verdadeira educação, mas um ato de domesticação e manutenção do poder que a minoritária classe dominante exerce sobre a esmagadora classe dominada;
A educação como ato de conscientização e de alcance à liberdade de pensamento, de manifestação e de construção e reconstrução do mundo;
A necessidade da invenção e reinvenção educativa como processo histórico, etc, etc.
Paulo Freire é digno das menções honrosas que lhe são feitas no mundo todo, dada sua justa luta e conquistas na educação, com e em favor das classes oprimidas.
É necessário sonhar, porque é impossível existir como ser humano sem sonhos. É necessário lutar destemidamente pelos sonhos para que eles se tornem realidades. Somado ao destemor, é necessário persistência, sabedoria, fé, amor e ética enquanto se luta justamente para a humanização do mundo que a todos nós acolhe.
Mudar é difícil, mas é possível!
José Ngola Carlos, Msc.
Malanje, 27 de março de 2026
Como citar este artigo: Carlos, J. N. (2026:3). Mudar é Difícil, mas é Possível! Brasil: Jornal Cultural ROL.
José Ngola Carlos: Artigo ‘Deformação universitária’
Kamuenho NgululiaImagem criada por IA do Bing – 25 de fevereiro de 2026, às 08:18 PM
Este artigo de reflexão, apesar da linguagem contundente, se propõe a começar um diálogo que penso ser necessário e que, se considerado seriamente, pode resultar em melhorias institucionais e sociais.
No meu entender, a maior expressão da incompetência das nossas universidades, as universidades angolanas, encontra-se no fato de que, findo o processo formativo, as/os estudantes universitárias/os são incapazes de produzir textos simples, como uma redação (produção textual) sobre qualquer tema que seja, de modo coerente e coeso. Disto resulta a intransponível dificuldade que é para elas e eles elaborar a própria monografia ou trabalho de fim de curso (também conhecido como trabalho de conclusão de curso – TCC).
Esta inabilidade vem se transformando em uma irresponsabilidade ético-moral por parte das/os estudantes, bem como das instituições de ensino superior.
Neste ponto, é conveniente destacar que, serem chamadas instituições de formação superior também é objeto de questionamento que consta do bojo desta pauta textual sob as indagações: o que torna efetivamente as nossas universidades diferentes das nossas escolas primárias, quando nelas também temos universitárias/os que mal leem e escrevem, assim como professoras/es de competências questionáveis?!
Por outro lado, o que torna realmente as nossas universidades diferentes das nossas escolas secundárias, quando nelas também temos uma formação universitária que se reduz à reprodução ao invés de uma produção científica séria, professoras/es que nada escrevem ou publicam, e as/os poucas/os que publicam, fazem-no descompromissados com a qualidade?!
A irresponsabilidade ética dos alunos e alunas se traduz na recorrente prática da encomenda por monografias. Lamentavelmente, esta é a nossa realidade, uma soma absurda de estudantes não são autoras/es de seus próprios trabalhos de fim de curso, o que percebo ser uma grave falta moral que deveria produzir sério peso de consciência nos seus praticantes, mas, como devem imaginar, nem isto acontece. Muito pelo contrário, vibramos com as notas que são atribuídas a estes trabalhos, mesmo não resultando do esforço e inteligência pessoais.
Conforme percebo, a prática da encomenda de monografias além de denunciar a incompetência das nossas universidades e das/os estudantes que delas saem, é um ato de irresponsabilidade e fraude acadêmica, o que para mim, equivale a pedir que alguém faça uma prova no lugar de outro/a.
A irresponsabilidade ética das instituições se traduz no fato de que nenhum esforço é feito para se garantir que os trabalhos sejam efetivamente feitos pelas/os estudantes, porque não raro, os tutores deixam as/os tutorandas/os a sua sorte e, em certos casos, estes fazem os trabalhos pelas/os estudantes. Não obstante a tudo isto, nenhuma medida cautelar ou de verificação é usada para prevenir ou identificar fraudes, senão o plágio, o que denuncia a ignorância das instituições em relação às monografias encomendadas.
Portanto, há aqui toda uma necessidade de se pensar e repensar constantemente a nossa educação a todos os níveis. Como sublinha Sheila Pinho, in Oficinas de Estudos Pedagógicos: Reflexões sobre a Prática do Ensino Superior (2008), a educação tem como fim último a humanização dos homens e das mulheres, pelo que, é sob a base das suas necessidades de maior e melhor humanização que toda planificação, execução e avaliação educativa se deveria assentar.
Como citar este artigo: Carlos, J. N. (2026:2). Deformação Universitária. Brasil: Jornal CulturalROL.
‘A educação como missão real: a visão pedagógica de Dom Pedro II e a nobreza da docência’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoRetrato de Dom Pedro II em pose reflexiva, em estilo clássico do século XIX. O imperador é representado em tons sépia, com gesto sereno e expressão contemplativa, simbolizando sua admiração pela educação e pelo papel do professor.
Resumo. O presente artigo analisa a célebre frase atribuída a Dom Pedro II — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro” — como expressão de um ideal humanista e civilizatório que marcou o Segundo Reinado brasileiro. Busca-se compreender o pensamento educacional do monarca, sua influência sobre o desenvolvimento da instrução pública e sua concepção do magistério como missão moral. A pesquisa, de caráter qualitativo e interpretativo, fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise documental, contextualizando o imperador como patrono das letras, das ciências e das artes. Conclui-se que Dom Pedro II via na educação o instrumento fundamental para o progresso nacional e via o professor como o verdadeiro construtor do futuro.
Palavras-chave: Dom Pedro II; Educação; Docência; Humanismo; História da Educação Brasileira.
1. Introdução
A história da educação brasileira é inseparável da figura de Dom Pedro II (1825–1891), monarca que, mais do que governar, dedicou-se ao estudo, à cultura e à ciência. Sua frase — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — ultrapassa o valor retórico e revela um ideal ético e pedagógico. No contexto do século XIX, a afirmação de um soberano que via no magistério a mais nobre das profissões representa um marco de pensamento ilustrado e progressista. Para o imperador, educar era não apenas transmitir conhecimento, mas formar consciências e preparar cidadãos para o futuro da nação.
O presente artigo tem por objetivo analisar o significado dessa declaração e suas implicações para a história da educação no Brasil, discutindo as políticas culturais e o legado intelectual de Dom Pedro II à luz da pedagogia humanista e do papel transformador do professor.
2. Contexto Histórico e Intelectual do Segundo Reinado
Dom Pedro II ascendeu ao trono em 1840 e reinou até 1889, período conhecido como Segundo Reinado, marcado por estabilidade política, expansão econômica e florescimento cultural. Desde jovem, recebeu uma formação ampla e rigorosa, orientada por mestres como o padre Diogo Antônio Feijó, o marquês de Itanhaém e outros intelectuais de destaque da época. Dotado de notável inteligência e curiosidade intelectual, o monarca tornou-se poliglota, dominando mais de dez idiomas, entre eles o grego, o hebraico, o árabe e o tupi. Demonstrava grande apreço pelas ciências humanas e naturais, mantendo correspondência com personalidades científicas e literárias de renome mundial, como Victor Hugo, Louis Pasteur, Richard Wagner, Alexandre Dumas e Alexander von Humboldt, com quem trocava ideias sobre arte, filosofia e progresso técnico.
Segundo José Murilo de Carvalho (2007, p. 45), “Dom Pedro II foi um dos raros monarcas do século XIX cuja verdadeira paixão residia no conhecimento”. Essa paixão se refletiu em políticas que incentivaram o avanço educacional, artístico e científico no Brasil. O imperador foi patrono da Academia Brasileira de Letras e protetor de instituições culturais, como o Museu Nacional, a Biblioteca Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que desempenharam papel fundamental na construção da identidade nacional. Também estimulou o desenvolvimento de infraestruturas modernas, como o telégrafo, a ferrovia e a fotografia, introduzindo o país no contexto da modernidade oitocentista.
O Colégio Pedro II (1837), criado ainda durante o período regencial, mas consolidado sob seu patrocínio, tornou-se modelo de ensino secundário e referência de qualidade intelectual. Além disso, Dom Pedro II incentivou a criação de escolas normais para formação de professores, reconhecendo o magistério como pilar da civilização. Em carta de 1873, afirmou: “Nada eleva mais um povo do que o saber; e nada o degrada tanto quanto a ignorância”. Essa convicção de caráter iluminista o levou a patrocinar o estudo de jovens brasileiros na Europa, apoiando bolsas de estudo e missões pedagógicas, especialmente na França e na Alemanha, com o objetivo de trazer ao Brasil novas metodologias e paradigmas científicos.
A postura intelectual do monarca refletia uma visão cosmopolita e humanista, que conciliava tradição e progresso. Dom Pedro II via a cultura como instrumento de emancipação moral e política, acreditando que o conhecimento poderia elevar o Brasil ao patamar das nações mais civilizadas. Sob sua influência, o país vivenciou um período de efervescência intelectual, com o surgimento de revistas literárias, debates científicos e a consolidação de uma elite letrada comprometida com a modernização nacional.
3. A Concepção Humanista e Moral da Educação
A frase analisada neste estudo contém um núcleo filosófico que remete ao ideal humanista. Para Dom Pedro II, a educação deveria transcender o ensino de conteúdos e promover o desenvolvimento integral do ser humano. Tal perspectiva aproxima-se das ideias de Rousseau e Condorcet, para quem a instrução pública é condição essencial de liberdade e moralidade.
O imperador acreditava que o educador era o verdadeiro condutor do progresso nacional. Em discurso de 1876, declarou:
“Educar não é apenas instruir, mas formar o caráter. O mestre não ensina apenas o que sabe, mas o que é.”
Essa visão traduz um compromisso ético com a formação do cidadão e antecipa princípios pedagógicos que mais tarde seriam retomados por pensadores brasileiros como Rui Barbosa, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.
Conforme Saviani (2007, p. 23), “a educação é sempre um ato político e moral”. Essa noção é coerente com o pensamento de Dom Pedro II, que via na docência uma missão espiritual, capaz de transformar o destino do país por meio da cultura e do conhecimento.
4. Políticas e Ações Educacionais de Dom Pedro II
O reinado de Dom Pedro II foi marcado por importantes iniciativas voltadas à disseminação do ensino, à valorização cultural e ao fortalecimento das instituições de saber. O monarca via a educação como base indispensável para o progresso moral e material da nação, e, por isso, adotou uma postura ativa na promoção de políticas públicas voltadas ao ensino, à ciência e às artes. Entre as principais ações, destacam-se:
Criação e fortalecimento do Colégio Pedro II, que se tornou referência nacional em educação humanista e científica. A instituição foi concebida como modelo de excelência, com currículo abrangente que integrava disciplinas clássicas, línguas estrangeiras, filosofia, ciências naturais e história, formando gerações de intelectuais e estadistas. O próprio imperador acompanhava seu funcionamento, participando de cerimônias, visitando salas de aula e premiando alunos de destaque.
Estímulo à formação docente, com a fundação de escolas normais em várias províncias, especialmente a partir da década de 1870. Dom Pedro II compreendia que o progresso do ensino dependia da qualificação do professorado, e incentivou reformas pedagógicas inspiradas em modelos europeus, como o francês e o alemão. Essas escolas tornaram-se centros de difusão de novas metodologias de ensino, contribuindo para o fortalecimento do magistério nacional.
Apoio às instituições científicas e artísticas, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Museu Nacional, o Observatório Imperial do Rio de Janeiro e a Academia Imperial de Belas Artes. Sob seu patrocínio, tais instituições desempenharam papel fundamental na produção e preservação do conhecimento, além de promoverem o intercâmbio intelectual entre o Brasil e a Europa. O imperador também incentivou a realização de expedições científicas, especialmente nas áreas de botânica, geografia e arqueologia, consolidando o país como centro emergente de investigação científica no hemisfério sul.
Patrocínio à imprensa, à difusão cultural e à tradução de obras científicas e literárias, ampliando o acesso ao conhecimento. Dom Pedro II acreditava que a circulação de ideias era essencial para o desenvolvimento do espírito público e da cidadania. Assim, apoiou publicações educativas, jornais literários e a tradução de textos fundamentais das ciências e das humanidades, aproximando o Brasil das grandes correntes de pensamento do século XIX.
Concessão de bolsas de estudo no exterior, destinadas à formação de estudantes, engenheiros, artistas e professores brasileiros. Essa política contribuiu para a modernização das práticas pedagógicas e científicas nacionais, permitindo que o país assimilasse avanços tecnológicos e concepções filosóficas do Velho Mundo. Entre os bolsistas estavam nomes que mais tarde se destacariam no cenário intelectual brasileiro, colaborando com o projeto civilizatório de Dom Pedro II.
Como observa Lilia Moritz Schwarcz (1998, p. 112), “a figura do imperador confundia-se com a do intelectual, que fazia da cultura um instrumento de poder simbólico e de prestígio internacional”. Essa postura consolidou o Brasil como uma das monarquias mais cultas e respeitadas de seu tempo, distinguindo-se por seu compromisso com o saber e com a modernidade ilustrada. Além disso, o legado educacional e científico de Dom Pedro II ultrapassou as fronteiras do Império, sendo reconhecido por instituições estrangeiras como a Academia de Ciências de Paris e a Royal Society de Londres, das quais foi membro correspondente.
O conjunto dessas políticas demonstra que Dom Pedro II compreendia o conhecimento como elemento estruturante do Estado e via na educação o caminho para a emancipação do indivíduo e o engrandecimento da nação. Sua visão de governo, profundamente marcada pelo humanismo, pelo racionalismo e pela fé no progresso, deixou marcas duradouras no sistema educacional brasileiro e na construção de uma identidade cultural própria.
5. O Professor como Agente de Transformação
Ao declarar que desejaria ser professor, Dom Pedro II revela não apenas uma admiração pessoal pela docência, mas uma profunda compreensão do poder formador da palavra, do exemplo e da transmissão do conhecimento. Sua afirmação — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — sintetiza uma visão de mundo iluminista e humanista, na qual o saber se coloca acima do poder e a educação é vista como instrumento de emancipação individual e social. Para o monarca, o verdadeiro governante e o verdadeiro mestre compartilham a mesma missão: “dirigir inteligências” e “preparar homens do futuro”, conduzindo o povo pelo caminho da razão e da virtude.
Essa concepção coloca o professor no centro do processo civilizatório, reconhecendo-o como figura essencial na formação moral e intelectual da sociedade. Assim como o monarca dirige a nação, o educador conduz as mentes — mas sua autoridade é moral, ética e intelectual, e não política. O imperador compreendia que a força de um país residia menos nas armas do que nas escolas, e que somente por meio da educação o Brasil poderia alcançar o patamar das nações civilizadas. Em diversos discursos, Dom Pedro II exaltou o magistério como “a mais nobre das profissões”, chegando a afirmar que “a ignorância é a verdadeira inimiga da liberdade”.
A figura do professor, portanto, era para Dom Pedro II símbolo do progresso, do altruísmo e da construção do caráter nacional. Ele via na docência não apenas uma função técnica, mas uma missão espiritual e patriótica, responsável por moldar consciências e cultivar valores éticos, científicos e humanísticos. Em várias ocasiões, o imperador fez questão de visitar escolas públicas e privadas, dialogando com mestres e alunos, e demonstrando sincero interesse pelo cotidiano do ensino. Seu respeito pelos professores era público e constante, o que contribuiu para elevar o prestígio moral da profissão em uma época ainda marcada pela desigualdade educacional e pela escassez de recursos didáticos.
Segundo Fernando de Azevedo (1958, p. 67), “a educação brasileira deve a Dom Pedro II o impulso inicial de seu despertar cultural e o prestígio moral do magistério”. Essa valorização do professor como guardião do saber e agente da transformação social permanece como um ideal a ser plenamente alcançado na contemporaneidade. O imperador antecipava, de certo modo, ideias que mais tarde seriam defendidas por educadores como Anísio Teixeira e Paulo Freire, ao considerar que ensinar é um ato de libertação e que a instrução popular é o caminho mais seguro para a justiça e o desenvolvimento.
O legado de Dom Pedro II, portanto, não se limita às reformas institucionais, mas estende-se à formação de uma mentalidade educacional que valoriza o conhecimento como bem supremo. Sua visão coloca o professor como mediador entre o saber e o cidadão, como aquele que constrói pontes entre o passado e o futuro, entre a tradição e a inovação. Ainda hoje, em tempos de desafios educacionais e crises de valores, o exemplo do “imperador professor” continua a inspirar a crença de que a transformação do mundo começa pela sala de aula.
6. Atualidade do Pensamento de Dom Pedro II
No século XXI, a profissão docente enfrenta desafios complexos e persistentes, como a desvalorização social, a precarização das condições de trabalho, a sobrecarga emocional e a carência de políticas públicas consistentes voltadas à formação continuada e à valorização salarial dos educadores. Em meio a esse cenário, a mensagem de Dom Pedro II adquire nova relevância, ressoando como um apelo ético, filosófico e simbólico em defesa do magistério e do papel essencial da educação na construção de uma sociedade justa e esclarecida. Sua célebre admiração pela docência — expressa na frase “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — transcende o tempo, reafirmando a dignidade e a missão humanizadora do ensino.
Para Dom Pedro II, ensinar era um ato de elevação moral, um compromisso com o progresso intelectual e espiritual do povo. Essa convicção, ancorada nos ideais iluministas e no humanismo cristão, encontra eco nas discussões pedagógicas contemporâneas sobre o papel transformador da educação. No mundo atual, marcado pela aceleração tecnológica, pela crise de valores e pela desigualdade de oportunidades, o pensamento do imperador permanece como referência de esperança e propósito: o conhecimento continua sendo a via mais segura para a liberdade e para o fortalecimento da cidadania.
Como afirmou Anísio Teixeira (1969, p. 14), “sem professores não há nação possível”. Essa máxima reforça o sentido atemporal da frase imperial: formar inteligências é formar o próprio destino de um povo. A educação, vista por Dom Pedro II como instrumento de emancipação e progresso, mantém-se o principal caminho para o desenvolvimento nacional. Sua postura de respeito à ciência, à cultura e ao magistério oferece um contraponto inspirador diante da crise de reconhecimento que hoje atinge os profissionais da educação.
A atualidade do pensamento de Dom Pedro II reside, portanto, em sua capacidade de articular valores éticos, políticos e culturais em torno da figura do professor e da centralidade da escola como espaço de formação cidadã. Ao reconhecer no educador o verdadeiro construtor da pátria, o imperador antecipou um ideal que atravessa gerações: o de que nenhum projeto de nação é sustentável sem investimento intelectual e moral em seus mestres.
Mais do que um legado histórico, sua visão constitui uma lição permanente de valorização, respeito e esperança. Em tempos de transformações globais, é urgente resgatar o espírito que animava o “imperador professor”: a crença de que educar é servir à humanidade, e que o saber, mais do que um privilégio, é um dever compartilhado entre governantes e cidadãos. Assim, o pensamento de Dom Pedro II continua a iluminar o presente, inspirando novas gerações de educadores a manter viva a fé na força transformadora da educação e no poder civilizador da palavra e do exemplo.
7. Considerações Finais
Dom Pedro II compreendia a educação como a verdadeira base de sustentação de um país civilizado. Sua frase sintetiza uma visão de mundo em que o saber é o mais elevado dos poderes e o professor, seu mais digno representante. O imperador não via o trono como símbolo de dominação, mas como espaço de serviço à cultura e à ciência. Seu amor pelo ensino e sua admiração pelo professorado representam um legado moral e intelectual que ultrapassa os limites do tempo. Ao desejar ser mestre, Dom Pedro II eternizou a imagem de um governante que acreditava no poder das ideias — e, sobretudo, no poder do educador de transformar o mundo.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1958.
CARVALHO, José Murilo de. Dom Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAVIANI, Dermeval. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
TEIXEIRA, Anísio. Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.BARROS, Maria do Carmo. O Ideal Educador de Dom Pedro II. Rio de Janeiro: MEC/INEP, 1989.
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O livro vem sendo bem recebido por famílias que buscam soluções reais para os conflitos do dia a dia, com estratégias práticas que realmente fazem a diferença.
Eder Cachoeira prova que, com atenção, diálogo e orientação adequada, é possível transformar a convivência com os filhos em momentos de aprendizado, afeto e descoberta mútua.
O livro Meu Filho Fora do Quarto é o guia essencial para pais que desejam transformar o relacionamento com seus filhos adolescentes, ajudando-os a se tornarem mais responsáveis, autônomos e felizes.
Este material oferece estratégias comprovadas e dicas práticas que equilibram a liberdade necessária para o crescimento do jovem com a responsabilidade e o comprometimento que moldam o futuro.
Ao longo das páginas, você descobrirá como implementar mudanças graduais e consistentes na rotina familiar, estabelecer limites saudáveis e promover um ambiente de diálogo e confiança.
Repleto de exemplos reais, atividades práticas e soluções eficazes, Meu Filho Fora do Quarto é uma leitura indispensável para pais que enfrentam os desafios da adolescência e desejam preparar seus filhos para o mercado de trabalho e para a vida adulta com segurança e maturidade.
Prepare-se para construir um futuro mais harmonioso e inspirador para toda a família!